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Alencar Furtado: “Tive a desventura de viver sob a inclemência de duas ditaduras”

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“Uma ditadura é, no mínimo, uma calamidade. Duas, já são uma tragédia” (Foto: Um Pouco de Muitos)

Tive a desventura de viver sob a inclemência de duas ditaduras: a do “Estado Novo” e a de “1964”. Uma, recebeu um nome; a outra, recebeu um número. Ambas fascistas. Soberbas. Plenipotenciárias. Como é da natureza das ditaduras que, sem essas desqualificações, não seriam ditaduras. Deus concedeu-me a ventura de combatê-las. Nas ruas. Na universidade. No Centro de Estudos e Defesa do Petróleo. Na tribuna forense. No Parlamento Brasileiro. Ou no MDB do GRUPO AUTÊNTICO, que travou uma das mais belas lutas políticas deste país.

Uma ditadura é, no mínimo, uma calamidade. Duas, já são uma tragédia. É que as instituições democráticas se vergam sob o vendaval das arbitrariedades. A mídia, vira instrumento de alienação de consciências. A força, sobrepõe-se ao direito. A liberdade é sufocada e proibida. A cultura, fica dirigida. O Parlamento se dobra, ajoelhado, e o Judiciário deixa de ser Poder e passa a obedecer a vontade e os caprichos do ditador.

Enfim, é o terror tocando no futuro, castrando gerações. As ditaduras torturam ou matam opositores, dispondo dos bens e da vida dos que não lhe são gratos. Entre nós, após mais de 20 anos de autoritarismo pleno, o soba tupiniquim é anistiado de todos os crimes, tem assegurados seus direitos políticos, gozando ainda de proteção policial, de veículos, funcionários, e uma pensão vitalícia do presidente da República.

É que tivemos uma abertura democrática negociada, sob a mira dos arsenais da ditadura. E muitos querendo ainda servi-la com benesses injustificadas. A minha geração foi de muita vibração cívica, nas refregas políticas e sociais. Derrubou ditadores; conquistou direitos; lutou, lá fora, contra o nazismo; defendeu as liberdades, reconquistou a democracia, abatendo-se, por isso mesmo, sobre ela todos os flagelos do arbítrio. Foi a luta de toda uma geração que se doou exemplarmente.

Quando do chamado “Estado Novo”, era eu estudante no Ceará. No reinado da ditadura de 1964, eu já residia no Paraná, Estado que me acolheu como seu filho, honrando-me com um mandato de deputado estadual e três outros de deputado federal. Por ter, como líder da Bancada Federal do MDB, denunciado pela televisão as torturas praticadas pelo governo, tive o meu mandato cassado pelo ditador Ernesto Geisel.

A cassação de mandatos era um ato imperial, inapelável e brutal praticado por um sujeito que se achava um semideus. Tanto podia ser uma vindita contra quem, como eu, denunciava tortura e investigava as multinacionais, ou um ato de amor a correligionário, como foi o caso da cassação do mandato de cinco deputados do Rio Grande do Sul, para fazer uma conta de chegar, na Assembleia Legislativa daquele Estado, que desse para eleger, por via indireta, o coronel Perachi Barcelos, governador gaúcho.

O ditador era amigo do candidato indicado. Não precisava de credencial maior. Era a ditadura bastando-se. Cobrindo-se de ridículo com atuação escandalosamente aética. As vicissitudes permearam a minha vida pública. Obtive vitórias e sofri derrotas nos episódios vividos. Levei a minha vida pública na oposição aos governos. Nada de mais. O homem nasce gritando, esperneando, já fazendo oposição. Não é como o feijão, que nasce curvo ou de joelhos, se joelhos tivesse.

O importante é que concorri, de algum modo, para a redemocratização do país. Demérito não é perder eleição. Demérito é não disputar ou omitir-se, podendo agir. Demérito é não ser, podendo ser.

Páginas 189, 190 e 191 do livro “Um Pouco de Muitos – Memorizando”, de autoria do ex-deputado federal Alencar Furtado, publicado este ano. Atualmente ele tem 92 anos e me presenteou com um exemplar do seu novo livro de memórias recém-lançado.

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Written by David Arioch

August 16th, 2017 at 4:52 pm

Como o romantismo influenciou o veganismo

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Tenha cuidado, porque quando um verme você esmagar, a alma de um irmão você pode encontrar

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Para Shelley, o consumo de carne não apenas profanou o corpo humano, mas também encorajou o consumo excessivo de álcool (Arte: Reprodução)

O romantismo foi a corrente artística que ajudou a sedimentar o vegetarianismo moderno e o veganismo no mundo ocidental. E não por acaso, já que os escritores da Era Romântica argumentavam a favor de uma dieta isenta de ingredientes de origem animal, levando em conta o estado da humanidade, a saúde e os direitos animais, a economia e a divisão de classes sociais.

Embora pouca gente saiba, o aforismo “você é o que você come”, tão divulgado de forma equivocada nos séculos 20 e 21, foi criado pelos românticos na defesa do vegetarianismo, ao ponderarem que tudo que serve de alimento ao ser humano tem implicações físicas e morais. De acordo com o escritor britânico Percy Bysshe Shelley, um dos precursores do veganismo, o consumo de carne não apenas profanou o corpo humano, mas também encorajou o consumo excessivo de álcool e a adoção de outros hábitos destrutivos.

“Acredito que a depravação da natureza física e moral do ser humano se originou com seus hábitos não naturais de vida”, escreveu Shelley em A Vindication of Natural Diet, publicado em 1813. Na obra, ele afirma que o homem naturalmente saudável foi comprometido pela sociedade moderna. “Um corpo tornado doente por uma sociedade doente”, alegou.

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Ritson registrou que os dentes e os intestinos do homem são muito parecidos com os dos animais frugívoros (Arte: Reprodução)

Estudando a relação do ser humano com a carne, o escritor percebeu que o suposto alimento não representava apenas mais uma opção nutricional, mas também a legitimação e naturalização da crueldade, tirania e escravidão dos animais. Se não temos qualquer direito sobre seus corpos, como podemos nos colocar em posição de destruí-los? Não há nenhum tipo de permissão, nem mesmo sobre pardais que povoam os céus ou sobre peixes mais modestos que habitam os rios, defendiam.

No século 19, médicos e cientistas que apoiavam os românticos descobriram que a anatomia humana era muito semelhante a animal, principalmente no que diz respeito à senciência e às respostas emocionais. E isso ajudou a reforçar o discurso de que o consumo de animais já era moralmente errado. Sendo assim, o ser humano deveria retornar à dieta de base vegetal.

O escritor inglês e ensaísta Joseph Ritson também contribuiu com novas constatações. Ele registrou que os dentes e os intestinos do homem são muito parecidos com os dos animais frugívoros, portanto ele não deve consumir carne. A existência de caninos curtos e a falta de garras também ajudaram a contestar a ideia de que o homem é um predador ou caçador natural, pois ele não possui capacidades físicas para matar um animal sem usar as ferramentas apropriadas. “Além disso, o comprimento de seu intestino faz com que a digestão da carne seja muito difícil”, justificou Ritson em An Essay on Abstinence from Animal Food, as a Moral Duty, publicado em 1802.

George Cheyne

Cheyne ajudou a fundamentar a defesa do vegetarianismo na Era Romântica (Arte: Reprodução)

O médico escocês George Cheyne, proeminente figura da medicina nos séculos 17 e 18, ajudou a fundamentar a defesa do vegetarianismo na Era Romântica ao concluir que o surgimento de doenças e a queda da longevidade estavam relacionados à incorporação da carne na alimentação. Para os românticos, a decadência humana começou a partir do momento que o homem fez do consumo de carne um hábito, se negando a aceitar o fato de que os primeiros humanos tinham uma alimentação muito próxima da dieta vegetariana.

E como consequência, as doenças atingiram tanto a humanidade quanto os outros seres vivos. Muitos animais foram diagnosticados pela primeira vez com enfermidades que surgiram com a crescente oferta e demanda de carne. O agravante foi o confinamento de animais em fazendas, tornando-os condutores de doenças que se espalhavam para outros animais. Até mesmo a comida servida a eles, desde o princípio, era um facilitador da proliferação de doenças.

Então os românticos fizeram da arte, da filosofia e da política um instrumento de conscientização contra a natureza opressiva humana – algo que deu origem a uma dieta considerada cruel e brutal que até hoje o afasta de seu verdadeiro papel em relação à natureza. Os vegetarianos do romantismo também foram os primeiros a se preocuparem com o meio ambiente no Ocidente, despertando uma consciência muito próxima da atual. Entendiam que o consumo de carne afetaria cada vez mais a natureza conforme a demanda crescia.

Shelley argumentava que a quantidade de matéria vegetal nutritiva utilizada na engorda do gado poderia alimentar dez vezes mais pessoas se os vegetais usados em sua nutrição fossem destinados às pessoas. Logo a criação de animais para o abate era um desperdício e um assalto à relação entre a capacidade da natureza de fornecer alimentos e o desmedido desejo do homem em explorá-la sem pesar critérios ambientais.

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Tryon acreditava que a humanidade mergulhou em uma forma de ira amplificada pelo retorno financeiro que os animais poderiam proporcionar enquanto produtos (Arte: Reprodução)

Em An Essay on Abstinence from Animal Food, as a Moral Duty, Ritson afirma que é tão antinatural ao homem o consumo de carne que chega a ser impossível não incitar nele nenhum tipo de ferocidade. Os românticos se preocupavam com o embrutecimento humano, o distanciamento em relação às suas origens; até porque uma das principais características do romantismo era a evocação do passado, incluindo a defesa da natureza, da vida e da imaginação.

“Ele é um homem de paixões violentas, de olhos vermelhos e veias inchadas, que sozinho consegue empunhar a faca do assassinato”, escreveu Shelley em A Vindication of Natural Diet, em referência à prática selvagem e fisiologicamente conflituosa do derramamento de sangue. E ao contrário do que muitos acreditam, os românticos se preocupavam com as classes mais desfavorecidas. Tanto que o vegetarianismo era uma forma de resistência à cultura do luxo.

Reformistas literários como Percy Shelley, de origem burguesa, apostavam no boicote à carne como uma forma de combater também o consumismo. A carne figurava como um dos principais símbolos de distinção social e segregação de classes nos séculos 18 e 19. Para os românticos, que viam a divisão de classes como um dos grandes males da sociedade, a carne foi incluída na dieta humana não para beneficiar o ser humano, mas simplesmente para gerar lucro, aceitação e atrair visibilidade.

Os vegetarianos do romantismo chamavam a atenção para a opressão hierárquica dentro das classes econômicas e para a forma como a humanidade estava deslocada do mundo natural. Portanto consumir carne não era mais do que um vício burguês, e os abastados eram os únicos em condições de consumi-la com regularidade. Paradoxalmente, a dieta mais saudável era a das classes mais baixas. Eles comiam pães, mingau, batatas e vegetais.

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Locke percebeu que os animais tinham grande potencial de comunicação (Arte: Reprodução)

Outra curiosidade é que os vegetarianos da Era Romântica eram, em sua maioria, intelectuais de classe média que desprezavam a ganância e o desperdício tão inerente à alta burguesia. O escritor inglês Thomas Tryon, importante defensor do vegetarianismo no século 17, declarou que os seres humanos jamais teriam transformado os animais em comida se fosse apenas por desejo, necessidade ou manutenção da vida. Ele acreditava que a humanidade mergulhou em uma forma de ira amplificada pelo retorno financeiro que os animais poderiam proporcionar enquanto produtos. Assim os humanos deixaram de amá-los e vê-los como indefesas criaturas da natureza.

Os românticos apostavam na expansão do vegetarianismo. Mostravam o quanto a dieta vegetariana era acessível. Eles tencionavam elaborar um plano para aumentar a oferta de alimentos vegetais, forçando a diminuição da demanda por terra na criação de animais, o que significava também reduzir os conflitos de classes. Shelley e outros pensadores entendiam que a comida era um tipo de personificação material de todas as práticas sociais. Por isso o boicote ao consumo de carne era a melhor solução para frear o consumismo.

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Lecrerc defendia a ideia da ancestralidade comum em relação a humanos e animais (Arte: Reprodução)

Entre os séculos 18 e 19, Inglaterra, Alemanha e França eram os países com mais adeptos do vegetarianismo, não apenas como dieta, mas também como filosofia de vida, já que muitos acabaram se tornando vegetarianos por uma questão moral e ética envolvendo os direitos animais. Com a expansão do vegetarianismo, cresceu a disponibilidade e variedade de vegetais. À época, muitas das grandes cidades da Europa tinham seus próprios jardins que ofereciam gratuitamente frutas e vegetais à população.

E tudo isso graças à influência literária dos românticos na ficção, antropologia, teorias de consumo e evolucionismo. Contudo é importante frisar que no final do século 19 o romantismo foi influenciado pelo humanismo durante o iluminismo, quando os europeus começaram a repensar suas atitudes em relação à justiça, liberdade e fraternidade.

Um exemplo foi o filósofo inglês e idealizador do liberalismo John Locke. Ele percebeu que os animais tinham grande potencial de comunicação, além de condições de expressar emoções e capacidade de sentir dor. Então o humanitarismo foi estendido ao reino animal, considerando que não havia tantas diferenças entre os seres humanos e os animais.

Mary Shelley lutava pelos direitos dos animais e das mulheres (Arte: Reprodução)

Mary Shelley lutava pelos direitos animais e das mulheres (Arte: Reprodução)

Graças a Locke, ampliou-se a crença de que todos os seres vivos tinham uma forte ligação, sugerindo a ideia de que ser cruel com algum animal significava ser capaz de ser violento com qualquer criatura viva, inclusive humana. Com tais princípios, o vegetarianismo se tornou uma filosofia apropriada que ajudou a fortalecer o humanismo e a compaixão em relação aos animais.

Através do trabalho de estudiosos como o naturalista francês Louis Lecrerc, o Conde de Buffon, a sociedade passou a reconhecer a complexidade física, biológica e emocional dos organismos que compõem a natureza. Lecrerc defendia a ideia da ancestralidade comum em relação a humanos e animais, o que curiosamente ia ao encontro do que advogavam os românticos. No século 19, o naturalista britânico Charles Darwin, mais famoso pela autoria de On the Origin of Species, de 1859, foi influenciado por Lecrerc e pelos românticos, constatando que realmente animais e seres humanos estão naturalmente interligados.

Darwin foi influenciado por Lecrerc e pelos românticos (Arte: Reprodução)

Darwin foi influenciado por Lecrerc e pelos românticos (Arte: Reprodução)

Com ideologia enraizada na estética romântica da compaixão e da comunhão com a natureza, os adeptos do romantismo também foram pioneiros em outras linhas de frente. Prova disso foi o papel desempenhado pela escritora vegetariana Mary Shelley, autora do clássico Frankenstein que, incentivada pelo marido Percy Shelley, se tornou ativista dos direitos animais e das mulheres. Outros nomes importantes desse período são os britânicos Alexander Pope e Lord Byron – os maiores poetas do romantismo junto com Percy Shelley.

O trabalho deles culminou na fundação da Vegetarian Society em Londres em 1847, e no uso formal do termo vegetariano em substituição a pitagorianos, muito usado para se referir a quem não se alimentava de animais. Os românticos também tiveram grande influência na criação da Vegan Society, a pioneira do veganismo no Ocidente. “O vegetarianismo é o caminho para que as pessoas voltem a ter uma relação mais respeitosa com a natureza”, dizia Percy Shelley.

As contribuições do vegetarianismo à sociedade moderna                              

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A poetisa Anna Barbauld, importante nome do romantismo (Arte: Reprodução)

O movimento vegetariano durante o Período Romântico foi marcado pela defesa dos direitos animais e das mulheres. Também teve grande importância sobre os direitos civis no século 19. E seus ideais eram sustentados pelo legado de pensadores gregos. “Não faça aos outros o que não gostaria que fizessem com você”, diziam os românticos, em referência à Regra de Ouro de Pitágoras.

Nenhum ser humano tem mais direito à natureza do que qualquer outro ser vivo. Todos devem ser vistos como iguais, declaravam. Eles rejeitavam a ideia da superioridade humana defendida por quem alegava que o homem era o elo entre a natureza e Deus. “Usurpar autoridade sobre qualquer animal é excesso de orgulho e altivez da alma”, condenou o escritor inglês Robert Morris.

A defesa do vegetarianismo através do romantismo reavivou valores morais perdidos pelo homem ao longo dos séculos. Inclusive inspirou religiões baseadas em velhas doutrinas que optaram por rever a relação entre Deus, seres humanos e animais. Nesse período, os cristãos reconheceram que só após o dilúvio foi dada ao homem a permissão para comer carne, não antes, o que endossa a ideia de que a carne não fazia parte da dieta natural humana.

Com isso, religiões que abordam a reencarnação começaram a discutir sobre a alma animal e a reconhecer a importância de outros seres sencientes. “Tenha cuidado, porque quando um verme você esmagar, a alma de um irmão você pode encontrar”, escreveu a poetisa inglesa Anna Laetitia Barbauld, importante nome do romantismo, na obra The Mouse’s Petition, publicada em 1773.

Referências

Shelley, Percy Bysshe. A Vindication of Natural Diet. London. Smith & Davy (1813).

Ritson, Joseph. An Essay on Abstinence from Animal Food, as a Moral Duty, London, 1802. Kessinger Publishing (2009).

Pope, Alexander. Against Barbarity to Animals, The Guardian, No. 61 (1713).

Morton, Timothy. Cultures of Taste/Theories of Appetite: Eating Romanticism; New York: Palgrave Macmillan (2004).

Morton, Timothy. Joseph Ritson, Percy Shelley and the Making of Romantic Vegetarianism, Romanticism. Vol. 12. The University of California (2006).

Preece, Rod. Sins of the Flesh: A History of Ethical Vegetarian Thought; Vancouver; Toronto: UBC Press (2008).

Spencer, Colin. The Heretic’s Feast: A History of Vegetarianism; Great Britain: Hartnolls Ltd, Bodmin (1993).

Oerlemans, Onno. Romanticism and the Materiality of Nature. Toronto; Buffalo: University of Toronto Press (2002).

Ruston, Sharon. Vegetarianism and Vitality in the Work of Thomas Forster, William Lawrence and P.B. Shelley. Keats-Shelley Journal. Vol. 54 (2005).

Perkins, David. Romanticism and Animal Rights. Cambridge, UK; New York: Cambridge University Press (2003).

Stuart, Tristram, The Bloodless Revolution: A Cultural History of Vegetarianism from 1600 to Modern Times; Great Britain. HarperPress (2006).

Kenyon-Jones, Christine. Kindred Brutes: Animals in Romantic-Period Writing; UK: Ashgate Publishing (2001).

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Uma corrida que quase terminou em tragédia em 1941

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“O infeliz puxou a rédea do meu animal. Aí não perdoei. Desci o chicote no lombo e ele soltou”

João Mariano: "Lá havia as raias nas estradas, não em clube" (Arquivo: Rita Turfe)

João Mariano: “Lá havia as raias nas estradas, não em clube” (Arquivo: Rita Turfe)

O cearense João Mariano tinha oito anos quando perdeu o pai. Aos dez, seu irmão mais velho pediu à sua mãe que o deixasse morar com ele. Alegou que precisava de alguém para cuidar de suas terras enquanto viajava para comprar e vender gado. “Depois de dois anos morando com meu irmão, comecei a treinar com um cavalo de corrida dele e logo me tornei jóquei. Lá havia as raias nas estradas, não em clube. E muita gente ganhava algum dinheiro nas corridas, vendendo bolo, café, lanches, essas coisas. Mas ninguém lucrava mais que os donos dos cavalos, assim como os apostadores”, narra.

Por cada disputa realizada aos domingos, Mariano recebia uma “groja”, além de um adicional em caso de vitória. As competições lotavam e de longe se ouvia a torcida e a algazarra do público. “Eu corria muito em São José, uma vila a 60 quilômetros de Guassussê, o maior distrito de Orós [no Centro-Sul do Ceará]. Só tinha cavalo pra páreo de 600 ou mil metros. Então era tudo bicho de qualidade”, informa, acrescentando que os animais eram muito bem tratados.

Três dias antes de cada corrida, Mariano e mais dois companheiros montavam guarda nas cocheiras, inclusive revezavam na hora de dormir, para evitar que alguém invadisse o local e dopasse os cavalos a mando dos rivais. “Lembro de um menino da minha idade, um tal de João, filho de um homem chamado João Cabral. Ele tinha o costume de puxar as rédeas do cavalo adversário durante a ultrapassagem. Então quando fomos correr na Vila de Bom Jesus, eu avisei ele: ‘Olhe, João, não segure meu cavalo nem me feche porque se você fizer isso eu desço o chicote em você’”, prometeu.

Depois de ouvir a ameaça, João prometeu que não iria fazer nada, apenas guiar o próprio cavalo. No entanto, mudou de ideia ao ver João Mariano perto de assumir a liderança. “Me fechou, tirando a frente do meu cavalo. Ainda pedi pra ele me deixar em paz e o infeliz puxou a rédea do meu animal. Aí não perdoei. Desci o chicote no lombo e ele soltou. Naquele dia do ano de 1941 meu cavalo ganhou o páreo”, declara.

Quando Mariano estava deixando a pista, João Cabral, o pai do garoto, se aproximou com um revólver em punho para vingar a surra que o filho levou diante da plateia. “Ele veio pra me matar. Deixou a pistola no jeito, engatilhada. Aí tinha um senhor de mais de 60 anos que eu não conhecia. Ele se levantou de uma cadeira, sacou o revólver e falou para o João Cabral: ‘Atire primeiro pra ‘modi’ eu ver se tu é homem. Saiba que esse menino é meu parente’”, revelou, guardando o revólver na guaiaca assim que Cabral virou as costas e partiu.

O desconhecido era primo da mãe de João Mariano. Ele não o conhecia porque o homem vivia em uma vila a mais de 80 quilômetros de Bom Jesus, numa região para onde seus pais nunca viajavam.

Saiba Mais

O pioneiro João Mariano vive em Paranavaí, no Noroeste do Paraná, desde 1955.

O papel dos Estados Unidos no golpe de 1964

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Documentário mostra o papel dos Estados Unidos no Golpe de Estado de 1964 (Imagem: Divulgação)

Documentário mostra o papel dos Estados Unidos no Golpe de Estado de 1964 (Imagem: Divulgação)

Dias atrás, revi o documentário “O dia que durou 21 anos”, do Camilo Galli Tavares, lançado em 2013. Recomendo para quem quer entender até onde foi o papel dos Estados Unidos no Golpe de Estado de 1964, culminando na Ditadura Militar. São três capítulos divididos em “A Conspiração”, “O Golpe de Estado” e “O Escolhido”. O que ajuda a enriquecer o documentário são os arquivos secretos com conversas e depoimentos de John Kennedy, Lyndon Johnson (que assumiu o poder após a morte de Kennedy) e do embaixador Lincoln Gordon, principal financiador do golpe através da Operação Brother Sam.

Muito interessante a forma como as entrevistas são apresentadas. Há depoimentos de apoiadores de João Goulart, de generais que participaram da deposição do presidente e também de pesquisadores de universidades do Brasil e dos Estados Unidos, além de profissionais que trabalham no Departamento de Arquivo Secretos do Governo dos EUA. Achei intrigante a sinceridade de um general após ser questionado sobre como seria se a Ditadura Militar começasse hoje. Ele sorri e responde simplesmente que não precisariam torturar nem matar ninguém, já que vivemos na era da guerra da informação.

Curiosa também a ingenuidade do responsável pelo Arquivo Secreto dos Estados Unidos ao dizer que até hoje não conseguiu entender como os brasileiros levaram 21 anos para se livrarem do Regime Militar. O que o entrevistado não sabe é que até os anos 1960 o analfabetismo no Brasil chegava a 60 e até 70% em muitos estados.

Saiba Mais

O documentário está disponível integralmente no YouTube.

O menino que virou escravo em Paranavaí

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Velhos endinheirados ofereciam pequenas fortunas para ter uma noite de “prazeres” com o jovem caiuá

Fazenda onde Urissanê vivia ficava nas imediações da velha sede da Vila Montoya (Acervo: Fundação Cultural de Paranavaí)

Fazenda onde Urissanê vivia ficava nas imediações da velha sede da Vila Montoya (Acervo: Fundação Cultural de Paranavaí)

Em 1938, Urissanê tinha oito anos quando foi vendido em Paranavaí, no Noroeste do Paraná, para um cafeicultor que possuía uma grande propriedade nas imediações da velha sede da Vila Montoya, fundada pela Companhia Brasileira de Viação e Comércio (Braviaco). De etnia caiuá, o garoto foi privado do convívio familiar com dois anos, após ser sequestrado por uma tribo rival que vivia na região do Porto São José, na divisa do Paraná com o Mato Grosso do Sul.

“Parece bicho do mato, mas é bem dócil. Pode passar a mão, não tenha medo. Esse aí não sabe nem de onde saiu ou pra onde vai”, dizia e gargalhava o fazendeiro em algumas festas realizadas em sua propriedade, segundo o pioneiro Salvador Marcondes que aos 18 anos começou a trabalhar como capataz para o cafeicultor.

Nas festas, a criança de origem indígena era exposta como um brinquedo para um grupo de magnatas que a encaravam como um pequeno e exótico animalzinho indefeso. As celebrações restritas atraíam muita gente de longe, não apenas do Paraná. “Mais tarde, me dei conta que fiquei frente a frente com pessoas que entraram para a história como figuras revolucionárias e heroicas”, destaca Marcondes que hoje tem 96 anos e uma lucidez invejável.

Alguns velhos endinheirados se ofereciam para pagar pequenas fortunas para ter uma noite de “prazeres” com o menino de olhos pequenos, lábios carnudos, traços femininos e pele tão coruscante que despertava inveja em mulheres de todas as idades. Apesar disso, o fazendeiro, que se dizia um representante dos anseios de Deus na Terra, jamais consentiu tal libertinagem. Também afirmava ser contra a pederastia.

“Cheguei a ver a patroa na cozinha praguejando o menino, dizendo a um padre que não entendia como Deus poderia permitir que um diabinho pagão tivesse uma pele tão bonita, enquanto ela, de origem cristã, uma fiel dizimista da igreja que investia muito dinheiro em produtos de beleza importados, pouco via resultados em sua pele e na de suas filhas”, narra o ex-capataz. O que encolerizava a patroa era o fator genético que afetava sua “linhagem” há mais de um século. Na infância, as mulheres de sua família já desenvolviam acne severa e tipos raros de erupções cutâneas.

Incentivada pela mãe, um dia a filha mais velha do fazendeiro, que tinha cerca de 14 anos, pediu a Urissanê para preparar um pouco de chá de erva-doce. Depois de pronto, o garoto caminhou até o quarto da jovem e, se esforçando para equilibrar uma pesada bandeja de prata, bateu na porta e perguntou se poderia entrar. Ela consentiu e, sentada na cama, ordenou que ele a servisse. Assim que bebericou o chá, o semblante da garota mudou. Enraivecida, retirou o bule da bandeja e lançou todo o chá no rosto de Urissanê.

Enquanto os lábios do garoto tremiam e as lágrimas deslizavam, misturadas ao líquido quente que escorria por toda a fronte queimada, a moça gritou: “Você queria queimar minha boca, não é mesmo, seu vermezinho? O que achou do chá? Gostoso, não é?”, escarneceu, sem se importar com o sofrimento da criança que se contorcia de dor, esfregando os pés pequenos e descalços – um contra o outro, sem emitir som.

Menino trabalhava nos cafezais desde os quatro anos (Foto: Reprodução)

O menino trabalhava nos cafezais de Paranavaí desde os quatro anos (Foto: Reprodução)

Depois de ouvir os gritos da menina, a patroa de Urissanê correu até o quarto, acompanhada das outras duas filhas. Ignorando o rosto severamente ferido do menino, deu atenção somente ao estado emocional da própria filha. “O que você fez com ela, seu macaquinho? O seu lugar é na floresta, não aqui com pessoas de bem”, berrava, sacolejando o garoto que desmaiou e caiu no chão, batendo a cabeça contra o piso de tacos.

A grazinada chamou a atenção de Marcondes que foi até o quarto, onde encontrou o menino caído, quase irreconhecível, com a pele do rosto encorrilhada e disforme. “Era como ver outra pessoa. Pedi ao patrão que me deixasse cuidar do menino. Ele fez uma cara feia fumando um daqueles charutos importados de Cuba, tomou um trago de whisky Evan Williams, o seu preferido, esfregou os dedos na barba e falou: ‘Tá! Agora sai daqui e dê um jeito na situação. Não quero ficar no prejuízo’’’, revela o ex-capataz.

Pela manhã, ouvia-se de longe o fazendeiro discutindo em seu escritório com a mulher e as filhas. “Sua endemoniada, muita gente de nome vinha de longe só pra ver o menino. Ele atraía bom negócio pra mim. O que eu vou fazer agora? Bando de tapadas!”, vociferou esmurrando a mesa.

Quando o marido não estava por perto, as mulheres da casa comemoravam os ferimentos no rosto de Urissanê. Não velavam o prazer de ver o menino padecendo. “Acabou pra sempre aquela pele e aquele rostinho bonito e delicado. Como Deus é generoso!”, celebrava a esposa ajoelhada e levantando as mãos para o céu, ladeada pelas filhas que a imitavam.

Apesar dos ferimentos, o cotidiano de Urissanê em nada mudou – continuava trabalhando dia e noite. Aprendeu a dominar a dor e todos os dias antes de dormir recebia visitas de Marcondes e sua noiva Ruth Moreno. Sem dizer nada a ninguém, os dois se tornaram responsáveis pelo seu bem-estar. A rápida recuperação do menino também chocou a patroa. Não levou mais de três meses para o rosto de Urissanê voltar ao estado normal, sem qualquer indício de que algum dia tivesse sido queimado.

Ainda assim, antes de dormir, para não fugir da propriedade, o fazendeiro obrigava um pistoleiro de sua confiança a acorrentar Urissanê no canto de uma tulha abandonada com chão forrado de palha. Seus punhos severamente machucados ganharam cicatrizes com as formas irregulares de braceletes rudimentares. “Tinha dó daquela criança. Só que se eu o libertasse, o patrão mandava Tonho [um pistoleiro] matar nós dois antes que a gente percorresse um quilômetro. Eu era muito novo e também tinha medo”, diz Marcondes.

O garotinho acordava sempre às 5h e em jejum percorria quilômetros a pé até chegar ao cafezal. Acostumado a trabalhar na área rural de Paranavaí desde os quatro anos, já entendia tanto do plantio quanto da colheita do café. Mas o que mais intrigava os colonos que dividiam o serviço com aquela criança era a sua astúcia para reconhecer as mudanças de tempo e clima. “Ô indiozinho, fala pra nós se o dia vai ser bom ou ruim”, gritou um homem em meio à multidão de colonos numa manhã ensolarada de 1939. Enquanto muitos sorriam, outros ficavam em silêncio prestando atenção na criança mística, considerada pelos mais humildes como alguém que jamais seria corrompido pela maldade.

Perfume da mata da região agradava Urissanê (Acervo: Diederichsen & Tibiriçá)

Perfume da mata da região agradava Urissanê (Acervo: Diederichsen & Tibiriçá)

Urissanê, que usava apenas uma bermuda velha feita a partir de um saco de estopa, cheirou o ar por um instante. Descalço, se ajoelhou, inclinou o rosto no chão e aspirou. “Avatim! Avatim! É o cheiro da terra que conta. Vem vento! Vem água! E derruba até ambição e teimosia”, advertiu o menino com uma voz cantada mais suave que o balanço das folhas verdes do cafeeiro.

Alguns levaram a sério o vaticínio e lamentaram que seria mais um dia de serviço perdido, já que o patrão não pagava a quem não trabalhasse quando chovia. Outros zombaram da predição do menino, reclamando que não iriam abandonar o trabalho por causa de conversa fiada de criança. Uma hora depois, o sol desapareceu, principiando a chegada de uma escuridão intempestiva. O vento intenso, que soprava envergando com fúria os galhos dos cafeeiros, esparramou flores brancas pelo chão de terra, formando um tapete natural convidativo e perfumado.

Subitamente o vento cessou e a chuva começou a cair leve sobre os colonos ainda indecisos sobre ficar ou partir. Aqueles que confiavam nas palavras do menino se protegeram do vento e da chuva dentro de uma grande tulha do outro lado do carreador. Quando cessou, os mais céticos dançaram em torno dos cafeeiros, gritando: “Êêê indiozinho que num sabe de nada. Acha que vamo credita nessa conversa? A gente precisa é de dinheiro no bolso!” Menos de um minuto depois, um raio caiu sobre Josué, o homem que achincalhou Urissanê, matando-o instantaneamente diante de todos os colonos. Seus companheiros correram horrorizados até a tulha onde os mais precavidos se protegiam da intempérie.

Apesar da condição cativa, o garoto trabalhava com o vigor de um adulto. Nunca demonstrava tristeza, raiva ou qualquer sentimento negativo. Era como se fosse motivado a viver por um motivo que jamais seria entendido pelos homens, mulheres e crianças com quem convivia. “Parecia que nada o abalava. Ele tinha uma paz enorme dentro dele e isso incomodava muita gente”, explica Salvador Marcondes.

No final da tarde, logo que o trabalho no campo terminava, Urissanê retornava para a casa da fazenda, onde era obrigado a atender aos caprichos da família do patrão até as 22h. Às vezes, quando estava sozinho lavando os pés da patroa na sala de descanso, o menino levava golpes de relho e mesmo assim não se queixava ou reagia. A observava atentamente com um olhar plácido e reflexivo, dando a impressão de que sua mente era independente do corpo. “Uma vez vi a reação dele. Era de arrepiar. Pedi pra patroa não judiar do menino e ela alegou que estava educando ele”, lembra.

Dodge 1937, modelo usado na fuga de Urissanê (Foto: Reprodução)

Dodge 1937, modelo usado na fuga de Urissanê (Foto: Reprodução)

Nos raros momentos em que tinha tempo livre e podia brincar, ainda que sob supervisão de alguém, Urissanê deitava na relva e observava o céu. A noite o agradava muito por causa do brilho das estrelas e da acentuada olência fresca da selva. A mata nativa, não muito distante, parecia trazer lembranças de um tempo que nunca viveu. Estirado no chão e com as mãos apoiadas na cabeça, cantava uma curta canção chamada “O Sereno da Lua”. Falava de uma criança que todos os dias tentava enxergar na lua a sua própria história. Se a lua não fosse capaz de realizar esse desejo, que pelo menos o preenchesse com uma nova história.

O capataz se apegou tanto ao menino que um dia decidiu libertá-lo. Ele e sua noiva, Ruth, planejaram a fuga uma semana antes do Natal de 1939. Quando relatou o plano, Urissanê recusou a partida. Embora vivesse como um animalzinho que desconhecia outra realidade que não a da gaiola, argumentou que nunca se sentiria livre se fugisse. “Agradeço a bondade do senhor, mas não sei o que fazer sozinho lá fora. Não sei se existe algo pra mim, até descobrir vou vivendo dentro de mim”, justificou.

Salvador ficou decepcionado e perguntou como o menino poderia aceitar viver daquele jeito. “Sei quase nada sobre a vida, mas sinto que minha dor é passageira, mais passageira do que a dor do patrão ou da patroa. Esse povo tá marcado por um sofrimento que nunca vou carregar comigo. Quando apanho sinto mais pena deles do que de mim”, confidenciou, deixando o capataz em silêncio.

Na véspera de Natal, o jovem caiuá teve uma surpresa quando Salvador e Ruth o surpreenderam, abrindo a porta do barracão onde ele dormia. Assustado, saltou da cama de palha e só se tranquilizou quando reconheceu o casal. Transportando uma grande variedade de alimentos, ofereceram um banquete jamais visto por Urissanê, acostumado a se alimentar mal. Ocasionalmente comia escondido as parcas sobras da boa comida que a mulher do patrão mandava jogar no lixo.

Durante a ceia, Salvador e Ruth insistiram mais uma vez na fuga, deixando claro que partiriam com Urissanê. O menino acabou concordando. Marcondes então rompeu a machadadas as longas correntes que prendiam os punhos de Urissanê, o impedindo de dar mais de quatro passos. Depois de juntarem os poucos pertences, invadiram um barracão e furtaram um caminhão Dodge 1937 do patrão. O barulho atraiu a atenção do pistoleiro Tonho que não conseguiu dormir e saiu para caminhar por aquelas bandas. “Que tá acontecendo aí dentro? Vamos, Salvador! Saia já daí!”, gritou, em seguida mirando a espingarda na altura do peito de Marcondes.

Crente de que não escapariam com vida, o capataz fez uma proposta. Mostrou todo o seu dinheiro guardado dentro de um pequeno saco e o ofereceu a Tonho. Ele hesitou, franziu a testa, fez careta e recusou. Prestando atenção em Marcondes e mantendo os olhos em direção ao veículo, o pistoleiro viu Ruth e Urissanê lá dentro. O menino sorriu para ele como um filho que reencontra o pai depois de muito tempo. “Quero nada não. Pode ir embora. Vá, Salvador! Vá logo!”, ordenou.

Tonho virou as costas, cuspiu um naco de fumo no chão e desapareceu na escuridão sem olhar para trás, com a espingarda apoiada no ombro. Quando o caminhão se afastou da fazenda, Urissanê observou a casa do patrão até desaparecer do seu campo de visão. Marcondes e Ruth assistiram a reação do menino sem dizer palavra. “A lua também me acompanha. Acho que agora também consigo viver fora de mim”, disse o menino.

Saiba Mais

Graças a Salvador Marcondes e Ruth Moreno, Urissanê reencontrou a família em 1946. O jovem caiuá continuou se correspondendo com o casal até 1965, quando perderam completamente o contato.

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Calado, o homem que rejeitou a sociedade

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Diante do sol nascente fez uma oração à natureza, se preparando para cobrar pelo sangue derramado

Paranaguá quando Maurício teve de fugir de casa (Acervo: Instituto Histórico e Geográfico do Paraná)

Paranaguá quando Maurício teve de fugir de casa (Acervo: Instituto Histórico e Geográfico do Paraná)

Calado não é um personagem comum ou conhecido da população de Paranavaí e do Noroeste do Paraná. Na realidade, ouso dizer até que é anônimo. A primeira vez que ouvi falar sobre ele foi no Cemitério Municipal de Alto Paraná, em uma conversa entre meus familiares e outras pessoas já falecidas que chegaram a esta região nas décadas de 1930 e 1940. À época, eu tinha entre 11 e 12 anos e fiquei fascinado, embasbacado com o relato sobre aquela figura quimérica que logo invadiria meus sonhos. Acordado, eu divagava e escrevia, baseando-me no que foi ou poderia ser tal sujeito de características singulares.

A história diz que Calado ou Saru, chamado Maurício, chegou ao Noroeste do Paraná no final do século 19, após ser acusado de se aliar aos maragatos em Paranaguá, durante a Revolução Federalista em 1894. Há quem diga que ele era parente de Gumercindo Saraiva, um dos comandantes das tropas rebeldes que lutavam pela deposição do presidente do Rio Grande do Sul, Júlio de Castilhos. Mesmo com a morte de Ildefonso Pereira Correia, o barão do Serro Azul, em 6 de agosto de 1894, injustamente executado como traidor da pátria, os chimangos (republicanos) intensificaram a perseguição aos que teriam contribuído com os maragatos, independente da consistência das provas.

Com 19 anos, na tarde de 13 de setembro, Maurício estava em casa ajudando o seu pai a recolher as tábuas de um velho rancho que tinham desmontado pela manhã. Antes que pudesse terminar o trabalho, quatro homens invadiram a chácara da família procurando pelo rapaz. Assim que Maurício se apresentou, dois soldados o seguraram pelos braços, o acusando de conspiração contra a república. Vasculharam o quarto do jovem e encontraram uma pequena caixa de madeira dentro de um armário. No interior, havia um lenço vermelho, que caracterizava a vestimenta dos maragatos, e o rascunho de uma carta que supostamente foi entregue em julho de 1894 a Gumercindo Saraiva, líder do movimento.

Nela, o autor dava detalhes sobre a localização de uma fazenda que poderia servir de abrigo para os insurgentes sob comando do almirante Custódio de Mello. As informações selaram o destino de Maurício que tentou explicar que a caixa não pertencia a ele. Desesperados, seus pais choraram e imploraram para que o filho não fosse levado. De nada adiantou. O rapaz foi transportado até uma casa velha e abandonada a quilômetros de distância, onde o obrigaram a entrar em um porão extremamente sujo.

O rapaz foi acusado de se aliar aos maragatos (Foto: Reprodução)

O rapaz foi acusado de se aliar aos maragatos (Acervo: Instituto Histórico e Geográfico do Paraná)

O lugar era úmido, escuro e havia um odor nauseante de ferrugem. Sem enxergar nada, Maurício quase escorregou em uma poça. Quando um dos soldados acendeu a lamparina, o rapaz viu que havia bastante sangue sob seus pés; uma parte ressequida e outra ainda fresca, indicando que não fazia muito tempo que alguém entrou ou saiu gravemente ferido daquele lugar. O oficial que comandava a operação, identificado apenas como Justo, disse com voz plácida e pausada para Maurício assumir a autoria da carta, justificando que assim eles não precisariam machucá-lo.

O rapaz rejeitou a oferta. Por cerca de um minuto, o oficial observou seus olhos sem transmitir qualquer tipo de emoção. Caminhou até uma cadeira recostada num canto bem iluminado e sentou-se diante de uma mesinha onde havia um cachimbo com um tubo de bambu e um fornilho de barro. Lá mesmo, o sujeito começou a fumar ópio, alheio ao que aconteceria nos próximos minutos.

Enquanto isso, Maurício, mantido nas pontas dos pés com os braços suspensos por uma corda, levava socos e chutes de dois chimangos, mas não o suficiente para feri-lo gravemente. Ainda assim, sentindo severas dores em várias partes arroxeadas do corpo, ele lacrimejava em silêncio e ocasionalmente gritava que era inocente. Quando Justo parou de fumar, e acenou com uma das mãos cobertas pela fuligem de uma lamparina pendurada a centímetros de distância, os soldados se afastaram e saíram do porão.

“Você já ouviu falar no ‘braço de folie?’ É uma técnica muito interessante que um mercenário, um apátrida francês, descobriu na Ásia para conseguir respostas honestas de pessoas que não gostam muito de falar a verdade. É bem eficaz, tanto que até hoje nunca deixei de alcançar meu objetivo. Ah! E é exatamente pela boa aplicação dela que me chamam de Justo”, declarou com voz grave e sorriso tétrico.

Desinteressado em fazer mistério, o oficial caminhou até outro canto do porão, retirou algumas flores amarelas de um saco e começou a macerá-las vagarosamente com um pilão, combinando com outros dois ou três ingredientes desconhecidos. “Meu rapaz, veja que dádiva de flor! Se chama ranunculus e pode ser tão bela aos olhos quanto deletéria ao corpo. Há de concordar comigo em breve”, comentou.

Jonathas Kistner - Grupo de Estudos Manoa

Ainda jovem viajou com tropeiros até chegar ao interior de São Paulo (Acervo: Jonathas Kistner – Grupo de Estudos Manoa)

Justo avaliou a viscosidade da pasta, caminhou até Maurício, deu alguns tapinhas em suas costas e esfregou nas axilas do rapaz a mistura que tinha a consistência de um unguento. Em segundos, sentiu a pele esquentando. Um minuto depois, todos os pelos da área afetada caíram e suas axilas queimaram como se alguém as tocasse com um ferrete. “Enquanto sentia a pele em carne viva e se balançava, na tentativa de resfriar as queimaduras, ele continuava afirmando que era inocente. Disse à minha avó que a princípio o cheiro da mistura ajudava a amenizar a dor insuportável”, conta Arminda Gervasi, sobrinha-neta de Maurício.

Justo também esfregou um pouco do “braço de folie” nas costas do rapaz que não suportou as dores e acabou desmaiando. A sensação era terrível, dando a impressão de que seus músculos dorsais foram dilacerados. Horas mais tarde, Maurício estava deitado em uma cama dentro de um barracão de estocagem de erva-mate. Acordou e não entendeu o que aconteceu. No seu corpo não havia sinais de queimadura, apenas da violência física cometida pelos dois soldados. Quando ouviu o som da buzina de um navio, percebeu que estavam nas imediações do porto.

O seu algoz continuava ao seu lado, observando sua reação. Supostamente o rapaz seria levado em um navio da Marinha para ser julgado no Rio de Janeiro. Porém, o oficial da escolta mudou de ideia ao ter certeza que Maurício não mentiu. “A verdade é que não vamos levá-lo a lugar nenhum. A ordem que recebi é para matá-lo e abandonar o seu cadáver num buraco qualquer. Só que minha experiência me convenceu de que você é inocente. Como não posso admitir falhas, deixarei você viver sob duas condições: suma deste lugar e nunca mais procure seus pais. Se eu souber que não acatou minha ordem, voltarei e matarei toda a sua família. Agora vá! Desapareça da minha frente!”, ordenou o homem.

Confuso, assustado e tremendo, o rapaz saiu porta afora e correu mancando por mais de dois quilômetros até encontrar uma floresta onde se escondeu entre os arbustos. Sujo, faminto e ofegante, Maurício observou ao longe seus pais cabisbaixos na entrada de casa. Contrariando o oficial da escolta, caminhou furtivamente até eles e relatou tudo que aconteceu desde que foi levado de casa.

“Não posso ficar. Fiz um acordo com aquele homem e ele prometeu que viria atrás de mim e de toda nossa família se eu não cumprisse sua ordem. Vim só pra me despedir e avisar que entrarei em contato em no máximo um ano”, prometeu. Abraçados com o filho, os pais choraram novamente e pediram que ele passasse pelo menos mais uma noite em casa antes de partir. Temendo o pior, Maurício recusou. Aceitou só os curativos, a mala preparada pela mãe e um saco com alimentos, principalmente pães e frutas. Também se despediu da irmã Sophia que à época tinha dez anos.

No dia 27 de março de 1896, entrou na floresta para não mais retornar (Acervo: Fundação Cultural de Paranavaí)

No dia 27 de março de 1896, entrou na floresta para não mais retornar (Acervo: Fundação Cultural de Paranavaí)

Enquanto caminhava a passos rápidos, o jovem manteve o olhar em direção aos pais. A mãe, Maria, uma costureira baixinha e de mãos aveludadas, estava com o rosto rubro e os olhos túrgidos de tanto lacrimejar. O pai, Nestor, um magro sapateiro de estatura mediana que se dedicava tanto ao trabalho que trazia no rosto duas pequenas manchas indeléveis de graxa, acenava com uma das mãos enquanto usava a outra para acariciar o ombro da esposa, na tentativa de confortá-la. Prestes a desaparecer através do nevoeiro, Maurício ouviu o eco da voz de sua mãe gritando que o amava, lembrança que o acompanharia por toda a vida.

Assim que deixou Paranaguá, o rapaz encontrou um grupo de tropeiros e os acompanhou até chegar a Sorocaba, em São Paulo. De lá, partiu a pé e sozinho para Tatuí e Avaré, também no interior paulista. “Trabalhava só pra sobreviver. Seu objetivo era ficar longe e ao mesmo tempo sentir-se perto dos pais. Não parava em lugar algum porque seu sonho era voltar ao Paraná, de uma forma que não comprometesse sua família”, enfatiza Arminda, neta de Sophia.

Maurício chegou no início de 1896 à Fazenda da Prata, da Família Alcântara, onde mais tarde surgiria a cidade de Jacarezinho, no Norte Pioneiro do Paraná. Lá, se ofereceu para trabalhar na derrubada de mata. Na incursão pela floresta, ficou impressionado com as belezas da flora e da fauna. Era a primeira vez que sentia-se bem desde que saiu de casa.

Sempre que perguntavam seu nome e origem, ele mentia, preocupado com a possibilidade de ser perseguido pelos republicanos. Evitava falar do passado e não gostava de conversar mais do que o necessário. Às vezes, dormindo na colônia da fazenda ou em algum acampamento perto da mata, onde passava meses trabalhando, acordava sobressaltado, suando frio e soluçando. “Nunca mais foi o mesmo. Tinha fortes dores de cabeça e de estômago, delírios ocasionais e um medo constante de morrer, agravado por uma ansiedade sem fim. Sonhava com a família todos os dias, só que decidiu nunca mais procurar ninguém por receio de represália”, revela a sobrinha-neta.

Avesso à violência, quando presenciava brigas entre peões, Maurício virava as costas e se afastava com o corpo trêmulo. O som de cada soco ou chute trazia nefastas recordações das sessões de tortura em Paranaguá. A agonia e o estado de desespero só eram amenizados com a leitura de um livro que o acompanhava desde os 15 anos – “Papéis Avulsos”, de Machado de Assis, que ganhou dos pais no Natal de 1890.

“Antes de falecer em decorrência de um câncer de tireoide, minha avó ainda falava com os olhos cheios de lágrimas das muitas vezes que seu irmão sentou perto da cabeceira para ler uma das histórias desse livro antes dela dormir”, confidencia Arminda emocionada. Maurício tinha predileção pelos contos “A Teoria do Medalhão”, A Sereníssima República”, “O Alienista” e “O Espelho”, decorando-os integralmente antes de completar 16 anos.

Cerca de dez anos depois, ouviu barulhos cada vez mais frequentes de pessoas abrindo picadões (Acervo: Fundação Cultural de Paranavaí)

Cerca de dez anos depois, ouviu barulhos cada vez mais frequentes de pessoas abrindo picadões (Acervo: Fundação Cultural de Paranavaí)

Respeitado pelo patrão, e tratado com desprezo e indiferença por gatos (fiscais) e colegas de trabalho – homens brutos do sertão, o rapaz teve a paz abalada numa noite amena de outono. Cochilando com as costas escoradas numa árvore, deu um grito alarmado quando um sujeito embriagado o segurou pelo colarinho da camisa, o questionando sobre o paradeiro de uma quantia em dinheiro guardada embaixo de um toco. “Por favor, me deixe em paz. Eu não sei de nada. Me solta! Me solta!”, pediu Maurício, de acordo com Arminda Gervasi.

Ignorando a negativa, o homem desferiu um soco no rosto e outro no estômago do rapaz que de tão espaventado teve uma repentina crise de diarreia. Entre goles de cachaça e muita gritaria, os peões já bêbados apontavam os dedos para Maurício e gargalhavam, numa zombaria sem limites. Sem dizer palavra, ele se levantou, caminhou até a barraca onde guardava seus pertences, juntou as próprias roupas em um saco e desapareceu mata adentro, sob o olhar displicente do fiscal que entornava uma garrafa de aguardente. Aquelas pessoas nunca mais o veriam.

Sem se importar com o que poderia lhe acontecer, o jovem se distanciou cada vez mais da sociedade e da civilização, entregando a própria vida aos acasos do desconhecido. “Ele já não queria mais viver junto de outras pessoas. O que aconteceu naquela noite foi o estopim”, garante a sobrinha-neta.

No dia 27 de março de 1896, Maurício entrou na floresta para não mais retornar. Sem medo do próprio fim, começou uma jornada despretensiosa de descobertas e autoconhecimento. Durante o dia, atravessava quilômetros de mata fechada e quando anoitecia se abrigava sobre as árvores. Com o tempo, aprendeu a escalar as mais altas e robustas, que lhe permitiam uma visão privilegiada das cercanias.

Apesar das dificuldades, seu organismo então fragilizado aprendeu a se adaptar a uma alimentação baseada em frutos e vegetais. Algumas vezes, após ingerir algo completamente desconhecido, passou tão mal que pensou que fosse morrer. “Ele era muito mais forte do que imaginava. Em poucos dias, já se sentia saudável. Talvez fosse um sinal, um chamado da natureza, de que nasceu para aquela vida. Acho que outras pessoas não sobreviveriam”, avalia Arminda.

Com o tempo, o rapaz abandonou roupas e pertences, menos um relógio de bolso que prendeu no braço – presente dos pais. Sem rumo, atravessou centenas de quilômetros de mata nativa. Só interrompeu o percurso por volta de 1898, quando encontrou uma onça-pintada caída, quase morta, com o sangue escorrendo sobre pedras musgadas às margens de um riacho.

Ainda acordada, observou Maurício a arrastando alguns metros mata adentro. Ele a deitou sobre a relva e estancou com folhas e raízes um grande ferimento na barriga do animal. Cuidou da onça por dez dias e, apesar de parecer assustada e confusa, ela não o encarou como ameaça, sequer mostrou os dentes ou apontou as garras.

Ele justificaria mais tarde que os caçadores traziam uma energia pesada e sufocante que ameaçava o equilíbrio da vida e a vitalidade soberana da floresta (Acervo: Ordem do Carmo)

Saru começou a minar os planos dos caçadores que invadiam a mata nativa noroestina (Acervo: Ordem do Carmo)

Para Maurício, já não era algo surpreendente. A floresta tornou-se um lar e, de algum modo, seus velhos habitantes o aceitavam. Nem mesmo os índios de etnias caingangue e caiuá que encontrou pelo caminho o tratavam como invasor. Muito pelo contrário. Até o convidavam a participar de algumas celebrações, e foi numa dessas ocasiões que o batizaram como Saru, palavra tupi-guarani que significa Calado em português.

Meses depois, o rapaz reencontrou a onça de quem salvou a vida. Empoleirada numa árvore, ela saltou quando o viu. Se aproximou, observando os olhos de Saru, e deixou que ele deslizasse rapidamente as mãos pelo seu dorso. Cabeludo, barbudo, de estatura mediana e magro, o jovem ostracista de pele oliva aprendeu a ser mais silencioso do que os mais leves e menores animais que atravessavam a mata nativa. Vivendo sozinho, só interagia com quem se aproximava dele, o que talvez justifique porque sobreviveu tanto tempo na floresta. “Ele chegou a ser picado por cobras. A sua salvação foi o tratamento dos índios caiuá”, informa Arminda.

Em 1898, Calado já vivia em uma área onde surgiria a cidade de Paranavaí, no Noroeste do Paraná. Numa manhã, cansado de viajar sem rumo e de dormir ao relento, começou a construir uma casa no topo de uma gameleira. Dias depois, levou um susto numa madrugada quando notou que havia um animal pressionando as patas contra a lateral da casinha. Cuidadoso, se aproximou e viu que era a onça que o visitou em outra ocasião.

Segundo relato de Arminda, Saru saltou da árvore e seguiu o animal até uma área dominada por cedros, ipês e aroeiras, onde árvores menores ofereciam muitos frutos desconhecidos. A onça a quem Calado deu o nome de Sophia, em homenagem à irmã, conviveu com ele por mais de 15 anos. Por volta de 1914, um pequeno grupo de invasores que chegou à região, provavelmente vindo do estado de São Paulo, para avaliar a qualidade do solo, matou Sophia e Toriba, um de seus filhos, a tiros. Os dois brincavam às margens de um riacho.

Assim que ouviu um estampido, Calado atravessou até o local do ataque e observou os quatro homens armados se aproximando de seus amigos mortos. Um deles sorriu, cutucou a onça com a bota e comemorou: “Nunca imaginei que seria tão fácil matar um bicho selvagem no seu próprio habitat.” Saru guardou para si a fúria que o dominou naquele momento e esperou anoitecer.

Ele justificaria mais tarde que os caçadores traziam uma energia pesada e sufocante que ameaçava o equilíbrio da vida (Acervo: Ordem do Carmo)

Ele justificaria mais tarde que os caçadores traziam uma energia pesada e sufocante que ameaçava o equilíbrio da vida (Acervo: Ordem do Carmo)

Quando os quatro montaram acampamento e se reuniram em torno de uma fogueira, ele assistiu um dos homens ir até uma mina buscar água. Assim que o sujeito retornou, Calado atirou castanhas em várias direções. Também imitou rugidos de onça e escalou a árvore mais próxima. Preocupados, recolheram suas armas e tentaram localizar a origem do barulho, se afastando do acampamento. Silencioso, Calado saltou perto da fogueira, abriu cada cantil e dentro despejou “sono de abaité”, um veneno de origem indígena baseado em batracotoxina, uma secreção extraída das costas de rãs e besouros.

Pela manhã, ao retornar ao acampamento, os quatro invasores tinham tomado a água do cantil e estavam mortos. Semanas depois, outros homens chegaram ao local procurando os desaparecidos. No entanto, concluíram que as mortes foram uma consequência natural da falta de atenção dos desbravadores que talvez tivessem comido frutos venenosos.

Ainda abalado com a morte de Sophia e Toriba, Saru enterrou os dois no ponto mais elevado da floresta, onde frequentemente os animais menores passavam o dia brincando. A cerimônia atraiu a atenção dos outros descendentes da onça-pintada. Ele também notou a presença de antas, pacas, quatis, veados, tatus, jaguatiricas, lobos-guará, gatos-do-mato, bugios e aves. Coincidentemente ou não, parecia uma reunião.

Embora tenha vivido mais alguns anos sem contato com seres humanos, Calado sabia que isso não duraria para sempre. Cerca de dez anos depois, ouviu barulhos cada vez mais frequentes de pessoas abrindo picadões. “Pra ele, o mais importante era que ninguém interferisse na vida selvagem, não matasse os animais. A floresta ainda era grande e ele reconhecia que era possível viver longe da civilização, mesmo com a chegada dos desbravadores”, assinala Arminda.

Desde a morte de Sophia e Toriba, Saru se colocou na posição de guardião da mata nativa de uma grande área onde surgiriam as cidades de Paranavaí e Alto Paraná. Os remanescentes dos índios caiuá nada poderiam fazer a respeito, já que a maioria vivia a mais de 100 quilômetros de distância, próximos do Rio Paraná e do Rio Paranapanema. Beirando os 50 anos, Calado pouco sofreu com a ação do tempo. Facilmente poderia ser confundido com um homem de pouco mais de 30 anos.

Corria pela floresta com extrema agilidade e se exercitava todos os dias sobre as árvores – tanto que ao longe era facilmente confundido com um animal. Vivia como alguém que nasceu e cresceu em território selvagem. Em contraponto, acreditava que quando uma vida era ceifada por motivo banal cabia a ele fazer justiça. E foi assim que Calado puniu entre as décadas de 1920 e 1950 muitos caçadores que invadiram a mata noroestina com a intenção de matar onças por diversão ou para extrair o couro que seria vendido a algum curtume. “Ele tinha o hábito de se abrigar dentro de tocos de árvores, de onde ele observava a movimentação dos invasores”, assegura a sobrinha-neta.

Evitava circular próximo da área urbana de Paranavaí (Acervo: Fundação Cultural de Paranavaí)

Calado evitava se aproximar da área urbana de Paranavaí (Acervo: Fundação Cultural de Paranavaí)

Quando uma jovem onça-pintada foi morta às margens de um córrego no início da década de 1930, onde surgiria o Jardim Ouro Branco, em Paranavaí, Calado extraiu-lhe as garras e as fixou em um tipo grosso de luva confeccionada à mão. Antes de usá-la, as deixou por uma noite embebidas no “sono de abaité”. De manhã, Saru se ajoelhou no chão, e diante do sol nascente fez uma oração à natureza, se preparando para cobrar pelo sangue derramado. De longe, reconhecia a intenção dos homens, se eram inimigos ou não.

Ele justificaria mais tarde que os caçadores traziam uma energia pesada e sufocante que ameaçava o equilíbrio da vida e a vitalidade soberana da floresta. “Meu tio-avô matou mais de 20 caçadores. Os corpos eram abandonados nos carreadores para que a família tivesse direito de enterrar o falecido. Ninguém nunca desconfiou que aquelas mortes pudessem ser causadas por um homem. Achavam que era coisa de onça mesmo”, narra Arminda Gervasi.

Guardião da floresta, Calado encarava como um ritual de justiça os matadores de onças sentirem a própria carne sendo penetrada pelas garras dos felinos que mataram. Entretanto, ao contrário do que imaginavam na época, as mortes eram causadas pelo “sono de abaité” e não pelos golpes, mais simbólicos do que fatais. Caçadores temidos em diversas regiões do Brasil sucumbiram diante das artimanhas de Saru.

Em 1937, Sophia, irmã de Maurício, viajou à Fazenda Brasileira com o marido para comprar uma propriedade rural. Enquanto se distraía caminhando por um carreador, ela observou ao longe um homem nadando em uma lagoa de águas cristalinas. Curiosa, se afastou do marido que conversava com um corretor de imóveis e andou em direção ao desconhecido. “Quer que pegue suas roupas? Onde elas estão?”, questionou Sophia. Quando o homem que serpenteava entre os peixes virou o rosto em sua direção, ela caiu de joelhos no chão, com as mãos tapando o nariz e a boca. Sophia chorou como uma criança ao notar nos olhos expressivos daquele homem de 62 anos o olhar vívido do irmão que partiu com 19 anos.

Sem dúvida, Maurício tinha envelhecido, mas ainda parecia mais jovem que Sophia. Calado ou Saru, que abandonou a identidade de Maurício, não conseguiu articular palavra. Ficou imóvel, com as mãos trêmulas enquanto as lágrimas escorriam pelo seu rosto já molhado. Ao ver que não havia roupas por perto, Sophia correu até o carro do marido, abriu uma mala e pegou uma calça, uma camisa e um par de sapatos. Então sugeriu que Maurício os vestisse.

Apesar da falta de hábito, ele concordou com o pedido da irmã. Saru, que então mais do que nunca justificava o nome dado pelos índios, passou uma semana com Sophia. Somente no terceiro dia começou a conversar normalmente e contou-lhe tudo que viveu desde que deixou Paranaguá em 1894. Sophia, mais chorosa do que falante, ouviu tudo atentamente. Não cobrou notícias do irmão, pois sabia que ele tinha seus próprios motivos. Maurício foi tomado por uma confusão de sentimentos ao saber que seus pais adoeceram e faleceram em 1931 em decorrência de pneumonia.

Também foi Sophia quem informou que as falsas provas de que ele contribuiu com os maragatos foram plantadas por um antigo amigo chamado Arthur. Apaixonado pela jovem Teodora que sonhava em se casar com Maurício, o rapaz decidiu afastá-lo para sempre de sua amada, mesmo sabendo que Maurício não tinha intenção alguma de ser mais do que amigo da moça, muito menos desposá-la. “Essa informação não teve grande efeito sobre ele, que já não se importava tanto com o mundo civilizado. Somente as memórias familiares o arrebataram de forma surpreendente”, esclarece Arminda.

Sophia e o marido tentaram convencer Maurício a se mudar para Curitiba, onde ela vivia há mais de 20 anos. Ele declinou a oferta, a abraçou e argumentou que nada mais o interessava no mundo dos humanos. Antes de partir, Sophia levou as duas mãos ao rosto do irmão e recitou um trecho de “O Espelho”, de Machado de Assis, um dos contos preferidos de Maurício:

“Nada menos de duas almas. Cada criatura humana traz duas almas consigo: uma que olha de dentro para fora, outra que olha de fora para dentro… Espantem-se à vontade, podem ficar de boca aberta, dar de ombros, tudo; não admito réplica. Se me replicarem, acabo o charuto e vou dormir. A alma exterior pode ser um espírito, um fluido, um homem, muitos homens, um objeto, uma operação. Há casos, por exemplo, em que um simples botão de camisa é a alma exterior de uma pessoa; – e assim também a polca, o voltarete, um livro, uma máquina, um par de botas, uma cavatina, um tambor, etc. Está claro que o ofício dessa segunda alma é transmitir a vida, como a primeira; as duas completam o homem, que é, metafisicamente falando, uma laranja.”

Os dois sorriram, se despediram e Maurício correu em direção à floresta, onde, antes de desaparecer completamente, cumpriu um dos seus rituais mais sagrados – se livrou das roupas, o que significava se despir da civilização. Sophia e o marido não compraram nenhuma fazenda em Paranavaí, mas retornaram mais vezes procurando em vão o paradeiro de Maurício tornado Calado.

Entre as décadas de 1960 e 1980, alguns pioneiros e moradores de Paranavaí e Alto Paraná juraram tê-lo visto caminhando pelas estradas da Fazenda Ipiranga e Água do Cedro, além de áreas de mata do Jardim Ouro Branco e Jardim São Jorge. “Uma vez, voltando de viagem, parei no Cemitério de Alto Paraná pra dormir. Tenho certeza de que o vi atravessando tranquilamente por trás das árvores. Isso foi em 1976”, confidencia o pioneiro Júlio Galhardo.

O aposentado Amâncio Bonavero também afirma que viu Calado na área rural de Paranavaí em 1993, com base na descrição que lhe passaram nas décadas anteriores. Se o sujeito correndo pelo campo realmente era Saru, isso significa que ele estava vivo e saudável aos 118 anos. “Tem gente que acredita que o Calado ainda não morreu. Eu sou um desses. Acho que não o vemos mais porque hoje, mesmo de longe, ele ainda evita contato com pessoas. Quem sabe esse seja o motivo da sua longevidade”, deduz Bonavero sorrindo.

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Morro Três Irmãos era usado por criminosos

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Muitos moradores de Terra Rica se recusam a frequentar o local quando escurece (Foto: Cláudia Lanziani)

Muitos moradores de Terra Rica se recusam a frequentar o local quando escurece (Foto: Cláudia Lanziani)

Na década de 1950, o Morro Três Irmãos, em Terra Rica, mais conhecido como Três Morrinhos, era usado por criminosos como refúgio. No local, dizem que foram assassinadas muitas pessoas. Uma senhora que ainda mora na cidade me contou que nos tempos da colonização de Terra Rica, o tio dela torturou, matou e escondeu o cadáver de um homem em uma caverna de difícil acesso no terceiro morro. Outros pioneiros relataram que dependendo do dia, quando se passa perto do morro à noite, é possível ver uma “luzinha” seguindo os passantes. Por tal motivo, muitos moradores de Terra Rica se recusam a frequentar o local quando escurece.

 

 

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Written by David Arioch

January 4th, 2016 at 12:25 pm

A fé do sertanejo

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A autoria da foto é desconhecida até hoje

Embora embutida de poesia, a autoria da foto é desconhecida até hoje

A foto que parece tirada do filme “O Pagador de Promessas”, do grande Anselmo Duarte, na realidade é a imagem de um sertanejo que se mudou para Paranavaí no início da década de 1950 em busca de um futuro melhor. Em meio ao vazio, percebe-se um todo que o migrante sonhava em preencher com a própria esperança.





Written by David Arioch

January 4th, 2016 at 12:20 pm

Coca-cola foi criada por um médico e farmacêutico

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Pemberton Pemberton era um especialista em técnicas modernas de eliminação de toxinas (Foto: Reprodução)

Pemberton era um especialista em técnicas modernas de eliminação de toxinas (Foto: Reprodução)

Existe algo mais paradoxal do que a Coca-Cola ter sido inventada por um médico e farmacêutico que queria criar um refresco para amenizar cefaleia? E mais, John Pemberton era um estudioso e especialista em técnicas modernas de eliminação de toxinas. Pois é, a contradição nos acompanha desde sempre.

Written by David Arioch

January 4th, 2016 at 12:18 pm

Ephraim Machado presenciou a inauguração da TV em 1950

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“Ouvi muita gente dizendo: ‘Como é que pode, né? O cara lá e a imagem aqui; não dá pra acreditar!'”

Em 18 de setembro de 1950, uma multidão se reuniu em torno de um pequeno televisor (Foto: Divulgação)

Em 18 de setembro de 1950, uma multidão se reuniu em torno de um pequeno televisor (Foto: Reprodução)

O empresário Ephraim Marques Machado, de Paranavaí, no Noroeste do Paraná, assistiu a inauguração da primeira estação de TV do Brasil. No evento, viu de perto celebridades da Rádio Tupi que migrariam para a televisão. A experiência foi tão marcante que o então jovem se apaixonou pela tecnologia.

No dia 18 de setembro de 1950, em meio a milhares de curiosos de diversas partes do Brasil e do mundo, lá estava Ephraim Machado, participando de um dos momentos mais célebres da história da televisão brasileira: o nascimento da Tupi, de Assis Chateaubriand, que consagrou o Brasil como o quarto país do mundo a ter TV.

“Eu não passava de um jacu que tinha um serviço de alto-falante e saiu do mato para ir a São Paulo ver a inauguração da TV”, conta, às gargalhadas, Machado. O empresário diz considerar esse dia como um dos mais incríveis de sua vida, e ratifica tais palavras com brilho nos olhos.

Ephraim relata que jamais imaginou como seria o primeiro contato com um televisor, objeto nunca visto, nem mesmo em fotografias. De televisão, o pioneiro só tinha ouvido falar. “O impacto foi muito grande, tanto para mim, quanto para outras pessoas. Ao meu lado, ouvi muita gente espantada dizendo: ‘Como é que pode, né? O cara lá e a imagem aqui; não dá pra acreditar!’”, relembra Machado.

Chatô, responsável por trazer a teledifusão ao Brasil (Foto: Reprodução)

Chatô, responsável por trazer a teledifusão ao Brasil (Foto: Reprodução)

À época, o empresário supôs que o televisor fosse simplesmente uma tela parecida com a do cinema. “Pensei também que um cara abria ela. Não tinha nada disso. Por isso me surpreendi tanto”, revela. Contudo, o susto de não foi apenas com o aparelho, mas também com o número de pessoas presentes na inauguração. “Tive uma dificuldade tão grande pra entrar no auditório que você nem queira saber. Tinha gente demais, muita gente mesmo, afinal São Paulo é São Paulo”, comenta.

A experiência foi tão significativa que ele admite ter se apaixonado instantaneamente pela televisão. Inclusive pensou em seguir o caminho do comunicador que tanto admirava: Assis Chateaubriand, proprietário dos Diários Associados. “É um sonho que gostaria de ter realizado. Fiquei muito interessado no produto quando vi. Se naquela época eu morasse numa cidade com potencial de uma metrópole, eu teria dado um jeito de montar uma estação”, assegura.

Quando o governo brasileiro lançou o primeiro edital para pleito de concessões, o pioneiro cogitou a possibilidade de enveredar pela teledifusão. Segundo Machado, havia um bom patrocínio e também inúmeros benefícios. Entretanto, depois de se inscrever para disputar o direito de montar uma emissora, o empresário soube que firmas estrangeiras estavam capitalizando o negócio no Brasil. “Não pude transformar meu desejo em realidade porque vi que não tinha recursos o suficiente para competir com o capital externo. Nunca gostei de sociedade, então desisti”, justifica.

Atraso para entrar no ar

A primeira emissora da TV Tupi, prefixo PRF-3, seria inaugurada às 21h com o programa TV na Taba, mas problemas técnicos causaram atraso de uma hora. “Entrou no ar e saiu do ar. Tudo isso porque a câmera às vezes parava de funcionar. Mesmo assim foi um evento espetacular. Dava gosto ver aquela minúscula telinha”, defende o empresário Ephraim Machado.

Uma das primeiras câmeras da TV Tupi; filme precisava ser revelado (Foto: Reprodução)

Uma das primeiras câmeras da TV Tupi; filme precisava ser revelado (Foto: Reprodução)

Além de assistir ao vivo o primeiro programa televisivo, comandado pelo emblemático Homero Silva, Machado viu de perto dezenas de artistas que fizeram história no rádio, teatro e cinema, como Lolita Rodrigues, Amácio Mazzaropi, Aurélio Campos, Walter Forster e Lima Duarte. “Fiquei deslumbrado quando vi a Hebe Camargo e o J.B. Junior. Deram um rosto para aqueles famosos que tanto ouvíamos na Rádio Tupi”, reitera.

A influência do rádio para a TV também foi explícita, tanto que o pioneiro se recorda de ter visto o apresentador com uma folha de papel em mãos, lendo tudo ao vivo. “Ele parecia não se importar com o que víamos”, brinca o pioneiro, se referindo a um fato de uma época em que ainda não existia videotape.

Tudo era filmado em 35 milímetros e depois o filme era revelado, para então ser transmitido por uma emissora de televisão. A precisão era algo tão distante da realidade na década de 1950 que a filmagem normalmente era veiculada cinco dias depois.

Saiba Mais

A TV Tupi foi a primeira emissora de televisão da América Latina

Todos os equipamentos usados na inauguração da TV eram de origem americana – da Radio Corporation of America (RCA).

No dia do evento, o transmissor foi colocado no topo do prédio do Banco do Estado de São Paulo.

O frei mexicano José Mojica, também cantor, foi a primeira pessoa a se apresentar na TV.

Assis Chateaubriand foi proprietário do Diários Associados, o maior conglomerado de imprensa do Brasil. As posses do comunicador incluíam 36 emissoras de rádio, 34 jornais, 18 estações de televisão, várias revistas infantis, uma agência de notícias, uma editora, a revista O Cruzeiro e a revista A Cigarra.