David Arioch – Jornalismo Cultural

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Massacre de Srebrenica completa 22 anos em julho

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Corpos das vítimas do Massacre de Srebrenica (Foto: Reprodução)

De 11 a 22 de julho de 1995, o Exército da República Sérvia e os Chetniks, um grupo paramilitar sérvio, mataram mais de oito mil muçulmanos ao leste da Bósnia e Herzegovina. Muitas das vítimas eram crianças, adolescentes e idosos.

Esse crime em massa foi o primeiro genocídio reconhecido legalmente após o Holocausto, segundo informações do NIOD Institute for War – Holocaust and Genocide Studies. A ação foi liderada pelo general ultranacionalista Ratko Mladić que, visando uma “limpeza étnica”, ordenou que os muçulmanos do sexo masculino (de crianças a idosos) fossem localizados e executados. Tentando escapar da morte, muitos homens buscaram refúgio em um complexo da ONU.

Quem supostamente fazia a segurança no local era uma pequena tropa neerlandesa da Missão de Paz, mas eles testemunharam todos os crimes sem reagir. Além disso, o pedido de ajuda dos perseguidos foi ignorado pela ONU.

De acordo com relato de Zumra Šehomerovic, os invasores sérvios selecionaram meninas e jovens mulheres do grupo de refugiados. Todas elas foram estupradas. Os abusos sexuais muitas vezes ocorreram diante de testemunhas – inclusive dos filhos das vítimas. “Um soldado neerlandês simplesmente ligou seu walkman e circulou pelo local, ignorando o que estava acontecendo. Vi isso pessoalmente. Estava diante dos nossos olhos. Seria impossível eles não verem isso”, afirma Zumra.

Também havia uma mulher com um bebê de poucos meses. Um chetnik ordenou que a criança parasse de chorar. Como a criança continuou chorando, ele a degolou e riu. Outro soldado neerlandês assistiu tudo e não fez nada. “Vi coisas ainda mais terríveis. Havia uma garota, ela devia ter nove anos. Em um momento, recomendaram ao irmão que a estuprasse”, declara.

O garoto não fez isso e, segundo a sobrevivente, nem poderia,  já que ele era só uma criança. Então puniram o garoto o matando. Zumra testemunhou todas essas ações. “Quero enfatizar que tudo isso aconteceu ao lado da base [da ONU]. Também vi outras pessoas serem assassinadas. Algumas delas tiveram suas gargantas cortadas e outras foram decapitadas”, narra Zumra Šehomerovic.

Referências

Van Diepen Van der Kroef Advocaten. Writ of Summons: District Court, The Hague. legal-tools.org. Páginas 107–108.

http://www.cnj.it/documentazione/Srebrenica/NIOD/NIOD%20part%20IV.pdf

 

 

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Written by David Arioch

May 9, 2017 at 12:43 pm

Por que os muçulmanos usam barba

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Segundo a lei islâmica, a barba só pode ser aparada quando atingir o tamanho de uma mão fechada

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Segundo Abu Darba, o profeta Maomé diz não ter nenhuma ligação com aquele que não tem barba (Foto: Reprodução)

No mundo todo, é grande o número de pessoas que não sabem o motivo pelo qual os muçulmanos usam barba. Foi pensando nisso que o Mufti Afzal Hoosen Elias, jurisconsulto e intérprete do Alcorão, escreveu o folhetim “Sobre o Comprimento da Barba”.

Nele, Elias explica que o uso da barba é uma forma dos homens sentirem-se mais próximos dos ensinamentos do profeta Rasulullah (Maomé). “Para aqueles que veem a barba como algo trivial, que Alá possa guiá-los. Mas para aqueles que desejam aprender e praticar o que é certo, tenho provas suficientes da importância da barba. E elas foram extraídas do Hadith, do Alcorão”, escreveu o Mufti Elias.

Nas palavras registradas por Abu Darda no Hadith 501, do Alcorão, o profeta Maomé diz não ter nenhuma ligação com aquele que não tem barba. Segundo os ensinamentos de Hadhrat Ammar Bin Yaasir, Abdullah Ibn Umar, Sayyidina Umar, Abu Hurairah e Jaabir, a barba deve ser cultivada longa. Somente durante o Haji ou Umrah, quando os muçulmanos peregrinam até a Meca, que eles aparam suas barbas, mas sem deixá-las menores do que o tamanho de um punho.

“Aqueles que imitam os descrentes e morrem nesse estado, se juntarão a eles no Dia do Qiyamat (juízo final]”, escreveu Hadhrat Abdullah Ibn Umar em referência aos que abandonam, por exemplo, a barba. Em relato de Ibn Umar, no Hadith 498, Rasulullah recomenda que os homens mantenham o bigode curto, mas deixem a barba crescer. Recomendação parecida aparece no Hadith 500.

Maomé diz também que nenhum homem sem barba tem direito ao perdão de Alá, de acordo com transcrição de Ibn Abbas. Além disso, a recomendação de Al-Tirmidhi, registrada por Ibn Umar, é de que a barba seja aparada somente quando ela atingir o tamanho de uma mão fechada.

No contexto do islamismo fazer a barba se enquadra como haraam, ou seja, um ato proibido pela fé islâmica. O Muwatta, uma das primeiras coleções do Hadith, escrito por Imam Malik, o primeiro sheik do Islã, diz que os únicos que não usam barba são os hermafroditas, ou seja, pessoas que possuem tanto o órgão sexual masculino quanto o feminino.

Para a Hanbali, uma das quatro escolas sunitas ortodoxas, referência em jurisprudência islâmica, o crescimento da barba é fundamental e cortá-la é pecado. Tal defesa pode ser encontrada em livros como “Sharahul Muntahaa” e “Sharr Manzoomatul Aadaab”.

“Um homem sem barba é um sujeito injusto e legalmente falando jamais seria concedido a ele o direito de ser um imã [um estudioso do Islã]”, consta na página 523 do primeiro volume do livro islâmico “Shami”. Para os fundamentalistas, muçulmanos sem barba não devem ter o direito de votar ou de se candidatar a algum cargo no contexto da Charia. “A chave para a felicidade total encontra-se em seguir a Sunnah e imitar a vida de Rasulullah no que diz respeito a tudo, incluindo sua maneira de comer, dormir e falar”, escreveu o Imã Ghazzali.

“Santo é o ser rodeado de homens com barba e mulheres com tranças”, consta na página 331 do terceiro volume de “Takmela e Bahr al Raiw.”

 Saiba Mais

Abu Darda era um dos companheiros do profeta Maomé.

O Hadith é o registro dos preceitos de Maomé.

Após o Alcorão, a Sunnah é a segunda fonte mais importante das leis islâmicas.

Referências

Elias, Agzal Mufti. From The Shari Length of the Beard.

http://www.islam.tc/beard/beard.html

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Written by David Arioch

September 30, 2016 at 10:45 pm

John Harvey Kellogg, o médico que enfrentou a indústria da carne

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Kellogg é o criador do mais famoso cereal matinal, além da manteiga de amendoim e da granola

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John Harvey viajava ministrando palestras sobre os benefícios da dieta vegetariana (Foto: Reprodução)

Administrador do lendário Sanatório Battle Creek, em Michigan, nos Estados Unidos, e famoso pela criação do cereal matinal de milho Kellogg’s, desenvolvido em parceria com a esposa Ella e o irmão Will Keith, o médico John Harvey Kellogg se tornou um defensor da alimentação sem carne a partir do século XIX.

Há diversas pesquisas realizadas pelo médico em que ele associa o consumo de carne com a redução do estímulo sexual a longo prazo. Dr. Kellogg, como era mais conhecido, foi o responsável pela criação da manteiga de amendoim e da granola. Ou seja, dois alimentos que a princípio surgiram como opções para os vegetarianos. O médico acreditava que as oleaginosas iriam salvar a humanidade quando houvesse grande diminuição da oferta de alimentos. Porém, enquanto existisse boa diversidade, ele defendia o consumo de grãos integrais, verduras, legumes e frutas, combinação que representa a dieta natural humana, segundo John Harvey.

Um distinto cirurgião, Dr. Kellogg viajava pelos Estados Unidos ministrando palestras sobre os benefícios da dieta vegetariana. Também publicava suas pesquisas sobre o assunto na sua popular revista Good Health. Seus esforços contra a indústria da carne, principalmente contra a campanha baseada no slogan “Coma Mais Carne”, ajudaram a ampliar o interesse pelo movimento vegetariano. Em 1876, o médico se tornou superintendente do Sanatório Battle Creek, que tinha seu irmão Will Keith como tesoureiro. Administrado pela Igreja Adventista do Sétimo Dia, o sanatório seguia os preceitos da própria instituição religiosa, ou seja, o incentivo à dieta livre de carne e à abstinência de álcool e tabaco. Para além disso, Kellogg estimulava a prática de atividades físicas e exercícios respiratórios.

Sob o comando de John Harvey, o Sanatório Battle Creek, que tinha características de resort e spa holístico, se tornou referência nacional e internacional. Sua popularidade cresceu muito antes da Grande Depressão que assolou os Estados Unidos em 1929. Fundado em 1866 pela Igreja Adventista de Sétimo Dia, sob o nome de Western Health Reform Institute, o sanatório foi batizado com o nome de Battle Creek pelo Dr. Kellogg porque ele achou mais adequado homenagear a cidade que o abrigava.

Foi no mesmo local que John Harvey, sua esposa Ella e seu irmão Will Keith criaram no início do século XX aquele se tornaria o mais famoso cereal matinal à base de milho. Em 1906, Will Keith fundou a Battle Creek Toasted Corn Flake Company, que recebeu o nome de Kellogg’s Toasted Corn Flakes em 1922, quando mudaram o nome da empresa para Kellogg Company. O cereal foi criado como uma reação ao café tipicamente estadunidense, que sempre incluía algum tipo de carne.

Kellogg teve a ideia de substitui-lo por uma opção saudável quando conheceu o cereal preparado por James Caleb Jackson, do Sanatório Dansville, de Nova York. A diferença é que o alimento que serviu de inspiração precisava ser embebido por uma noite antes de consumido, ao contrário do cereal Kellogg que podia ser servido imediatamente. O superintendente do Sanatório Battle Creek e sua esposa Ella criaram vários alimentos para ajudar os pacientes a continuarem se alimentando de acordo com o programa alimentar do sanatório quando retornassem para casa.

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“A carne, o cigarro e o álcool são venenos para o intestino. E todos os males começam no intestino” (Foto: Reprodução)

À época, eles contrataram cozinheiros e nutricionistas para desenvolver produtos saudáveis que pudessem ser entregues em domicílio por meio do serviço postal. Uma das especialistas em nutrição que trabalhou para o Dr. Kellogg era Lenna Cooper, fundadora da Associação Dietética Americana (ADA), principal referência em nutrição nos Estados Unidos. No Battle Creek, John Harvey e sua esposa ensinaram donas de casa a prepararem corretamente os alimentos. Até mesmo os visitantes podiam participar de sessões de exercícios de respiração e treinamentos nutricionais sobre combinação de alimentos que garantissem melhor digestão ao longo do dia. Banhos de sol também eram recomendados.

Kellogg defendia que muitas das doenças que acometem a humanidade poderiam ser amenizadas através de mudanças na flora intestinal. Ele argumentava que as bactérias do intestino poderiam produzir toxinas patogênicas durante a digestão das proteínas, assim envenenando o sangue. Por isso, o médico recomendava uma dieta livre de carnes, com moderada quantidade de proteínas, laxativa, e com alimentos ricos em fibras. Um dos cirurgiões mais habilidosos de seu tempo, Kellogg atendia gratuitamente muitos pacientes em sua clínica. Ele era contra a realização de cirurgias desnecessárias no tratamento de doenças, um problema que via como recorrente na medicina.

Defensor da circuncisão, prática que qualificava como higiênica e benéfica para a saúde do homem, John Harvey teve muitos pacientes notáveis que viam a dieta livre de carne como a alimentação do futuro. Entre eles estavam o ex-presidente William Howard Taft, o escritor irlandês e vencedor do Prêmio Nobel de Literatura George Bernard Shaw, Henry Ford (fundador da Ford), a famosa aviadora Amelia Earhart e o economista Irving Fisher. Dr. Kellogg criou o conceito “Biologic Living”, uma forma moderna de medicina preventiva.

Ele sempre dizia que a medicina deveria se voltar mais para a prevenção de doenças. Além de alimentos de origem animal, o médico recomendava abstinência de álcool, tabaco, café, chá e chocolate. Repouso adequado, atividades ao ar livre e vestuário confortável também faziam parte de sua cartilha para uma vida saudável. Mesmo acreditando na importância do descanso, quando estava com pouco mais de 60 anos, o médico dormia apenas quatro horas por noite. Com 80 anos, decidiu reduzir a própria jornada de trabalho de 15 horas para 12 horas. “A carne, o cigarro e o álcool são venenos para o intestino. E todos os males começam no intestino”, declarava copiosamente.

John Harvey Kellogg tinha argumentos para os mais diferentes públicos quando questionado sobre o motivo de reprovar o consumo de carne. Aos religiosos, ele citava referências da Bíblia. Para os darwinistas, o médico contava histórias sobre os grandes macacos, animais biologicamente próximos do ser humano e que não consumiam carne. E aos moralistas, ele dissertava sobre o fato de que ao homem jamais foi concedido o direito de matar animais – qualificando tal ato como imoral. O Sanatório Battle Creek chamava atenção de personalidades que estavam no topo da hierarquia social e financeira. Entre seus hóspedes estavam também Clarence W. Barron, presidente da financeira Dow Jones, S.S. Kresge, proprietário de uma das maiores empresas de varejo do século XX, e Harvey Firestone, fundador da fabricante de pneus que leva seu sobrenome.

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Com mais de 80 anos, Dr. Kellogg ainda andava de bicicleta (Foto: Reprodução)

Na celebração do Ano Novo de 1930, o Dr. Kellogg ofereceu aos hóspedes do Battle Creek um jantar baseado em torta de batata, berinjelas, cogumelos e geleia de groselha. Embora hoje não seja tão lembrado, John Harvey foi o responsável pela popularização e conscientização da população dos Estados Unidos no que diz respeito à importância de se comer frutas e vegetais. Somente no Sanatório Battle Creek, e valendo-se da dieta sem carne, o médico obteve êxito no tratamento de milhares de pessoas. “Tenho a cura para o câncer, úlceras, diabetes, esquizofrenia, transtorno bipolar, acne, anemia, astenia, enxaqueca e velhice prematura”, afirmava.

Entre os tipos de sementes que Kellogg considerava as mais promissoras para a saúde humana estavam gergelim e psyllium, extraído de uma planta do gênero plantago, rica em óleos, fibras solúveis, insolúveis e mucilagem. Ao médico é atribuída à introdução do psyllium na alimentação dos norte-americanos, além da descoberta do potencial do uso de grãos de soja como alimento. De acordo com a pesquisadora Amy South, do The Vegetarian Resource Group, dos Estados Unidos, John Harvey Kellogg possuía tanta energia aos 77 anos que abriu uma filial do Sanatório Battle Creek em Miami, na Flórida. Aos 78 anos, participou de uma bateria de exames de saúde, obtendo pontuação superior a de muitos jovens examinados.

Com 80 anos, ele andava de bicicleta, dava palestras e atendia pacientes regularmente. Aos 88 anos, completou 22 mil cirurgias realizadas. Quando chegou aos 90 anos, viajou para Washington em busca de subsídios para a construção de um novo prédio para o Sanatório Battle Creek. Em decorrência da Segunda Guerra Mundial, tentaram convencê-lo a desistir da ideia. Ele foi persistente e conseguiu alcançar seu objetivo. Sentindo-se em paz, John Harvey Kellogg faleceu aos 91 anos, mas não sem antes atribuir sua longevidade à dieta sem carne e ao conceito “Biologic Living”.

Na década de 1960, o vegetarianismo ganhou força nos Estados Unidos. No entanto, com mínimas referências, os vegetarianos acabaram recorrendo à literatura da Inglaterra, onde havia um movimento vegetariano bastante organizado. Nesse mesmo período, o que eles encontraram de mais valioso nos Estados Unidos foi a literatura deixada pelo Dr. Kellogg. Ou seja, seus livros, assim como de outros escritores que, inspirados no médico que criticava o consumo de carne, abordavam nutrição e saúde. O trabalho do superintendente do Sanatório Battle Creek serviu e continua servindo para derrubar o mito de que uma pessoa sem carne pode sentir-se fraca ou adoecer. Curiosamente, muito do que é dito hoje como se fosse novidade em relação à dieta vegetariana, já era difundido por John Harvey Kellogg. A verdade é que o mundo demorou para dar atenção às suas descobertas.

Quando os frigoríficos tentaram intimidar o Dr. Kellogg

Há mais de cem anos, os donos de frigoríficos dos Estados Unidos se uniram e, através de uma campanha lobista, convenceram o Departamento de Agricultura a permitir que eles espalhassem cartazes por todo o país, mostrando a carne como algo extremamente desejável e saudável. À época, o médico John Harvey Kellogg, que mais tarde criaria os Sucrilhos Kellogg’s em parceria com o irmão, ficou sabendo da ação e decidiu protestar.

Com dinheiro do próprio bolso, ele criou cartazes para serem fixados ao lado daqueles divulgados pela indústria frigorífica. Seus cartazes listavam todos os motivos pelos quais as pessoas não deveriam consumir carne, assim fazendo um contraponto. Sentindo-se ameaçados, os proprietários de frigoríficos entraram com uma queixa junto à Comissão Federal de Comércio, em Washington, tentando proibir que os cartazes que condenavam o consumo de carne fossem distribuídos.

O protesto gerou tanta comoção que um advogado foi enviado ao Sanatório Battle Creek, administrado por John Harvey Kellogg, para investigar suas ações. Depois de passar um tempo com o médico, e tomando conhecimento de seus argumentos, o conselheiro da Comissão Federal de Comércio decidiu que ele não merecia nenhum tipo de penalização. Algum tempo depois, o advogado reencontrou Kellog e disse: “Sabe, doutor, não como carne desde o dia em que estive em Battle Creek.”

Saiba Mais

John Harvey Kellogg nasceu em 26 de fevereiro de 1852 em Tyrone, Michigan, e faleceu em 14 de dezembro de 1943 em Battle Creek, Michigan.

Muitas de suas teorias sobre os benefícios da dieta sem carne foram baseadas em estudos que ele realizou com povos orientais que não consumiam alimentos de origem animal.

Em 1913, o 4º Congresso da União Vegetariana Internacional, realizado na Holanda, discutiu pesquisas feitas pelo Dr. Kellogg.

O médico reclamava que os seres humanos consumiam sal demais. Também foi um dos primeiros profissionais a perceber que o fumo se tornaria no futuro a principal causa do câncer de pulmão. À época, poucos deram ouvidos à sua declaração.

Em 1956, inspirado no trabalho de John Harvey Kellogg, o Comitê de Médicos para a Medicina Responsável dos Estados Unidos definiu que a alimentação humana essencial deveria ser prioritariamente baseada no conceito “Basic Four”, ou seja, grãos integrais, vegetais, legumes e frutas.

Referências

Schwarz, Richard. John Harvey Kellogg, M.D.: Pioneering Health Reformer (Adventist Pioneer). Review & Herald Publishing (2006).

Carson, Gerald. Cornflake Crusade. Rinehart (1957).

Berry, Rynn. Famous Vegetarians. Pythagorean Publishers (2003).

Money, John. The Destroying Angel: Sex, Fitness & Food in the Legacy of Degeneracy Theory, Graham Crackers, Kellogg’s Corn Flakes & American Health History. Prometheus Books (1985).

Kellogg, John Harvey. Plain Facts of Old & Young. I.F. Segner (1882).

South, Amy. Dr. John Harvey Kellogg. Vegan Handbook. The Vegetarian Resource Group. Disponível em http://www.vrg.org/

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Montaigne: “Há um dever geral da humanidade em relação aos animais, que têm vida e sentimento”

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“E com que devoção e respeito vejo a própria imagem da amizade, tão pura, nos animais!”

O filósofo defendia que a humanidade deve justiça aos seus e benevolência às outras criaturas (Pintura: Reprodução)

O filósofo defendia que a humanidade deve justiça aos seus e benevolência às outras criaturas (Pintura: Reprodução)

O francês Michel de Montaigne foi um dos mais importantes filósofos e humanistas do Renascimento, e entrou para a história como o criador do gênero literário ensaio, situado entre o poético e o didático. No século XVI, inspirado pelo grego Plutarco, a quem via como um mestre, ele criticava a irracionalidade e o preconceito humano em relação às outras espécies. Seu trabalho, muito avançado para a época, influenciou pensadores como Friedrich Nietzsche, René Descartes, Jean-Jacques Rousseau e Isaac Asimov.

Vegetariano, Montaigne sempre defendeu os animais através de suas obras. Em “Ensaios”, publicado em março de 1580, considerado um dos livros não ficcionais mais influentes de todos os tempos, o pensador declarou acreditar que foi pelo massacre dos animais selvagens que o ferro tingido de sangue esquentou pela primeira vez. “E com que devoção e respeito vejo a própria imagem da amizade, tão pura, nos animais!”, escreveu.

Se aprofundando na história e na relação da humanidade com as outras espécies, o francês conta que antes do surgimento do cristianismo, os turcos realizavam muitas obras de caridade em benefício dos animais, inclusive construíram hospitais para espécies não humanas.

Os romanos tinham um serviço público para a alimentação dos gansos. Já os atenienses, por volta de 490 a.C., ordenaram a libertação das mulas e dos burros após a construção do Templo Hecatompedon, permitindo que eles circulassem por qualquer lugar, sem restrição. No mesmo período, os agrigentinos seguiam a tradição de enterrar com dignidade os seus animais. Muitos monumentos suntuosos foram erguidos para homenageá-los.

“E duravam, visíveis, por vários séculos adiante. Os egípcios enterravam lobos, ursos, crocodilos, cães e gatos em lugares sagrados. Embalsamavam seus corpos e ficavam de luto. Címon [estadista e general ateniense] fez uma sepultura honrosa para os jumentos (…). O político Xantipo mandou fazer uma tumba para seu cão num promontório, na costa do mar, o qual desde então conservou esse nome”, narra Michel de Montaigne.

O filósofo defendia que a humanidade deve justiça aos seus e benevolência às outras criaturas. E no relacionamento entre humanos e animais há uma obrigação do primeiro em zelar pelos demais. “Não temo confessar a ternura de minha natureza tão pueril que me leva a não conseguir recusar ao meu cão a festa que me oferece fora de hora”, confidencia em “Ensaios”.

" Entre os vícios, odeio cruelmente a crueldade, tanto por natureza como por julgamento, como sendo o extremo de todos os vícios" (Pintura: Reprodução)

” Entre os vícios, odeio cruelmente a crueldade, tanto por natureza como por julgamento, como sendo o extremo de todos os vícios” (Pintura: Reprodução)

E foi estudando o trabalho de Plutarco que Montaigne descobriu que não era exatamente a figura caricata do gato ou do boi, por exemplo, que os egípcios, enquanto politeístas, adoravam. O que eles amavam nesses animais era a imagem das faculdades divinas materializadas em suas diversas qualidades, como paciência, singeleza e vivacidade. Além disso, viram que os animais eram incapazes de suportarem a clausura, e isto representava a liberdade que amavam mais do que qualquer faculdade divina.

Por outro lado, o filósofo observou que a religião dos antigos gauleses, povo celta que deu origem aos franceses, incutiu a ideia de valores diferentes para os animais. Eles acreditavam que como a alma é eterna e passível de mudar de um corpo para o outro, o destino de cada um dependeria de sua conduta. “As almas dos cruéis entrariam nos corpos dos ursos, as dos ladrões nos corpos dos lobos, e as dos mentirosos nos corpos das raposas. E depois de vários anos e, através de mil figuras, seriam chamados às suas formas humanas originais, uma vez que teriam sido purificados pelo Rio Lete [que tinha Hades com guardião, o deus do mundo inferior e dos mortos]”, cita Montaigne.

Os gauleses levavam a sério a crença de que os homens valentes poderiam renascer como leões, os voluptuosos como porcos, os covardes como cervos ou lebres e os maliciosos como raposas. “Eu, inversamente, o que tenho de bom o tenho pelo acaso do meu nascimento (…). A inocência que há em mim é uma inocência inata, de pouco vigor e sem arte. Entre os vícios, odeio cruelmente a crueldade, tanto por natureza como por julgamento, como sendo o extremo de todos os vícios”, enfatiza.

Uma das cenas que mais marcou a vida do pensador foi o testemunho da degola de um frango. Além disso, Michel de Montaigne não suportava ouvir os gemidos das lebres frequentemente atacadas por cães de caça. “A caça é uma forma violenta de prazer. Os que devem combater a volúpia a usam de bom grado, mostrando que ela é totalmente viciosa e irracional”, critica.

O filósofo aponta o século XVI como um período de exemplos inacreditáveis de legitimação da crueldade, intensificados principalmente pelas guerras. O passado, segundo ele, não era pior que o presente. Ainda assim, o pensador não conseguia se acostumar com tanta violência. E quanto mais animais eram mortos, mais bárbaro o homem se tornava, ampliando a morte dos seus.

“Eu mal era capaz de me convencer, antes de tê-lo visto, que pudessem existir almas tão ferozes que cometessem assassinatos por prazer – retalhar e cortar os membros de alguém, aguçar o espírito para inventar torturas inusitadas e mortes novas, sem inimizade, sem proveito, e só para o fim de gozar do agradável espetáculo, dos gestos e movimentos lastimáveis, dos gemidos e dos gritos (…)”, lamenta.

E levando em conta esse tipo de experiência, Montaigne escreveu que julgava incoerente as opiniões mais moderadas de raciocínio que tentavam apontar as semelhanças entre os seres humanos e os animais. “Quando tentam compará-los a nós, sem dúvida rebaixo muito nossa presunção e renuncio de bom grado a essa imaginaria realeza sobre as outras criaturas. Mesmo se esse não fosse o caso, há todavia um certo respeito que nos liga e um dever geral da humanidade em relação aos animais, que têm vida e sentimento”, pondera.

"Eu mal era capaz de me convencer, antes de tê-lo visto, que pudessem existir almas tão ferozes que cometessem assassinatos por prazer" (Pintura: Reprodução)

“Eu mal era capaz de me convencer, antes de tê-lo visto, que pudessem existir almas tão ferozes que cometessem assassinatos por prazer” (Pintura: Reprodução)

O pensador jamais conseguiu entender onde o ser humano busca motivação para perseguir e matar um bicho inocente, que além de não ter defesas, não causa mal a ninguém. “E o cervo que comumente, sentindo-se sem fôlego e sem força, e não tendo outro remédio, se vira e se rende a nós mesmos que o perseguimos, pedindo-nos piedade por suas lágrimas, sangrando e, lembrando, por seus queixumes, um suplicante. Isso sempre me pareceu um espetáculo muito desagradável. Não pego animal vivo a que não restitua liberdade. Pitágoras fazia o mesmo, comprando-os dos pescadores e dos passarinheiros para libertá-los”, assinala.

Platão, em sua perspectiva da Era de Ouro, destaca que uma das maiores conquistas da humanidade foi o estabelecimento da comunicação com os animais, a capacidade de reconhecer as verdadeiras qualidades não humanas. Nesse período, foi validado o valor da inteligência animal, garantindo à humanidade o privilégio de traçar um futuro próspero e harmonioso. “É preciso mais provas do que isso para condenar a imprudência humana em relação aos animais?”, questiona Michel de Montaigne.

Para o pensador, as índoles sanguinárias em relação aos animais atestam uma propensão natural à crueldade. Ele cita como exemplo da decadência humana a emergência dos espetáculos de mortes de animais na Roma Antiga. A ânsia por sangue e violência cresceu, e mais tarde surgiram os gladiadores. Ou seja, a violência do homem contra o homem é um desdobramento da barbárie iniciada com a suplantação dos animais.

“A própria natureza (temo) fixou no homem um instinto de desumanidade. Perdera-se o prazer de ver os animais brincando entre si e acariciando-se; e ninguém deixa de senti-lo ao vê-los se dilacerarem e se desmembrarem. Os animais foram sacrificados pelos bárbaros para os benefícios que deles esperavam”, avalia Montaigne.

Um homem à frente do seu tempo

O ensaísta inglês William Hazlitt expressou admiração por Michel de Montaigne, declarando que, distante do fanatismo e do pedantismo, ele foi o primeiro autor que teve a coragem de dizer como se sentia enquanto ser humano. Não era pedante e nem fanático.

À época, seu ensaio, recheado de anedotas e reflexões pessoais não foi bem recebido pelos leitores. Consideraram sua obra deficiente, talvez porque Montaigne tenha revolucionado a literatura não ficcional ao incluir-se como matéria do seu próprio livro, gerando desconforto nos leitores mais conservadores. Mais tarde, Montaigne acabou por ser considerado um dos melhores escritores do seu tempo.

Seu comentário mais famoso e cético é: “Que Sçay-je?”, que significa O que eu sei? em francês da Idade Média. Até hoje Montaigne é considerado um autor moderno, isto porque examinava o mundo através dos próprios olhos, conciliando bagagem cultural, observação e experiência. E a partir daí, formulava juízo sobre tudo. Séculos após sua morte, foi considerado o autor mais acessível do Renascimento. Depois de unir narrativa pessoal e sabedoria intelectual, montaigne se tornou uma referência da literatura moderna não ficcional.

Saiba Mais

Michel de Montaigne foi um político, jurista, filósofo e humanista francês. Para ele, a educação de qualidade só é possível quando a formação de indivíduos privilegia o discernimento moral aliado à prática.

Montaigne, que só teve o seu trabalho devidamente reconhecimento após sua morte, também foi influenciado pelo jônico Pitágoras, pelo ateniense Sócrates e pelo neoplatônico Porfírio.

O pensador nasceu no Castelo de Montaigne em 28 de fevereiro de 1533 e faleceu no mesmo local em 13 de setembro de 1592.

Referências

Montaigne, Michel de. Rosa Freire D’Aguiar. Os Ensaios. Penguin – Companhia das Letras (2010).

The Autobiography of Michel de Montaigne. Marvin Lowenthal. David R. Godine, Publisher (1999).

Williams, Howard. The Ethics of Diet (1883). University of Illinois Press (2003).

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Ralf Hütter, Kraftwerk e o vegetarianismo

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Hütter: “Não gosto de matadouros. Isso é elementar”

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Ralf Hütter se tornou vegetariano há mais de 35 anos (Foto: Divulgação)

Na reportagem “Kraftwerk: the elusive kings of digital pop”, publicada pelo The Times, de Londres, em setembro de 2009, Ralf Hütter, vocalista, compositor e fundador da banda alemã Kraftwerk, se apresentou como um vegetariano e amante dos animais. E sobre sua escolha, ele foi lacônico: “Não gosto de matadouros. Isso é elementar.” Hütter, que advoga o vegetarianismo há mais de 35 anos, também convenceu os outros membros a tornarem-se vegetarianos.

Kraftwerk é considerada a banda mais influente de todos os tempos no cenário da música eletrônica com ramificações na industrial music, synthpop e dance music. O grupo estimulou o surgimento de milhares de bandas que inspiradas na independência autoral dos precursores do Krautrock, movimento de música experimental alemã, começaram a interpretar a música e o mercado fonográfico sob uma perspectiva mais moderna, que não se abatia pelas restrições e sanções econômicas surgidas com a Guerra Fria.

De um pequeno estúdio em Colônia, na Renânia, Florian Schneider, Ralf Hütter, Wolfgang Flür e Karl Bartos extraíam composições que como cascatas de timbres alusivos à vida moderna versavam sobre a desconstrução humana no pós-guerra, a sujeição ao consumismo e a distorção de valores estéticos, como o kitsch, embora nem sempre atrelados à Indústria Cultural. Iam além e recriavam amores eletrônicos em belos universos desconexos com seus sintetizadores e outros equipamentos analógicos que a própria banda inventava ou personalizava.

Já diziam na inesquecível Das Modell: “Ela é tão bela que por sua beleza teremos de pagar.” Kraftwerk fez muito sucesso pela genialidade em unir criatividade, até mesmo se tratando dos figurinos, perspectivas e prognósticos sobre o homem do futuro, deixando um legado musical que inclui obras-primas como Autobahn, de 1974, e a trilogia Radio-Activity, Trans-Europe Express e The Man Machine, de 1975, 1977 e 1978. Kraftwerk é um exemplo de que há mais profundidade na música industrial/eletrônica do que se imagina.

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Written by David Arioch

August 23, 2016 at 11:10 am

Saramago: “Pudesse eu, fecharia todos os zoológicos do mundo”

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“Pudesse eu, proibiria a utilização de animais nos espetáculos de circo”

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Saramago: “Não devo ser o único a pensar assim, mas arrisco o protesto, a indignação” (Foto: Fundação José Saramago)

“Pudesse eu, fecharia todos os zoológicos do mundo. Pudesse eu, proibiria a utilização de animais nos espetáculos de circo. Não devo ser o único a pensar assim, mas arrisco o protesto, a indignação, a ira da maioria a quem encanta ver animais atrás das grades ou em espaços onde mal podem mover-se como lhes pede a natureza”, escreveu o controverso escritor português José Saramago em seu blog no dia 20 de fevereiro de 2009.

Um dos maiores autores de língua portuguesa contemporânea, Saramago é mais conhecido por obras como “O Evangelho Segundo Jesus Cristo”, de 1991, e “Ensaio Sobre a Cegueira”, de 1995, embora para conhecê-lo melhor seja importante ler “As Intermitências da Morte”, “História do Cerco de Lisboa”, “Memorial do Convento” e “Levantado do Chão”, livros lançados entre os anos de 1980 e 2005.

A dúvida, o sobrenatural, a viagem interiorizada e exteriorizada e o experimentalismo linguístico são características que reforçam a identidade de Saramago como autor preocupado tanto com o conteúdo quanto com a forma. No entanto, o que mais me chamou a atenção nos seus últimos anos de vida foi a sua frequente preocupação em abordar de forma implícita e explícita os direitos dos animais.

José Saramago, o escritor que brincava com a pontuação e pouco se abstinha em suas críticas, registrou em “Suzi”, publicado em 2009 no livro “O Caderno”, que os circos conseguem a proeza de tornar ridículos os patéticos cães vestidos de saias, as focas a bater palmas com as barbatanas, os cavalos empenachados, os macacos de bicicleta, os leões saltando arcos, as mulas treinadas para perseguir figurantes vestidos de preto, os elefantes mal equilibrados em esferas de metal móveis:

“Que é divertido, as crianças adoram, dizem os pais, os quais, para completa educação dos seus rebentos, deveriam levá-los também às sessões de treino (ou de tortura?) suportadas até a agonia pelos pobres animais, vítimas inermes da crueldade humana.”

Segundo o escritor português, por muito tempo, e pela desinformação, as pessoas tiveram motivos para crer que as visitas ao zoológico poderiam ser instrutivas, mas não mais, já que há tanta informação disponível através de documentários que revelam a realidade sobre o sofrimento animal. “Se é educação que se pretende, ela está aí à espera”, sugeriu.

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“Para completa educação dos seus rebentos, deveriam levá-los também às sessões de treino (ou de tortura?)” (Foto: Reprodução)

Saramago jamais esqueceu de uma elefanta solitária que vivia em um zoológico de Barcelona. Acometida por infecções intestinais, ela sofria pela perda de uma companheira com quem dividia um espaço reduzido, insuficiente para movimentarem-se adequadamente. “O chão que ela pisa é de cimento, o pior para as sensíveis partes destes animais que talvez ainda tenham na memória a macieza do solo das savanas africanas. Cuidar de Suzi, dar lhe um fim de vida mais digno. A quem devo apelar? À direção do zoológico? À Câmara? À Generalitat?”, desabafou o escritor.

Em “Penas Chinesas”, que integra o livro “O Caderno”, Saramago confidencia sua surpresa e choque ao saber como os animais são tratados pela indústria alimentícia. “Um dia vi num documentário como alimentam os frangos, como os matam e destroçam, e pouco me faltou para vomitar”, registrou.

Também se sentiu muito mal ao ler um artigo a respeito da utilidade dos coelhos nas fábricas de cosméticos. Soube que as provas sobre a irritação causadas pelos ingredientes dos xampus são feitas por aplicação direta nos olhos dos animais. ”Agora, uma curta notícia aparecida nos jornais, informa-me de que, na China, as penas de aves destinadas a recheio de almofadas de dormir são arrancadas assim mesmo, ao vivo, depois limpas, desinfetadas e exportadas para delícia das sociedades civilizadas que sabem o que é bom e está na moda”, lamentou.

Vencedor do Prêmio Camões em 1995 e do Prêmio Nobel de Literatura em 1998, o primeiro concedido a um autor de língua portuguesa, José Saramago publicou em 2008 o livro “A Viagem do Elefante”, qualificado como romance, mas considerado conto pelo autor. A obra é inspirada no episódio em que o rei de Portugal e Algarves, Dom João III, resolveu presentear com um elefante o arquiduque austríaco Maximiliano II, genro do imperador Carlos Quinto.

Com uma estilística inovadora e linear, Saramago apresenta a história de solimão (com s minúsculo mesmo), um elefante que se torna alvo da corrupção, individualismo, egocentrismo e outras falhas que permeiam a natureza humana. E essas deficiências mostram como o animal é vitimado pela superioridade que os personagens da história julgam possuir sobre o elefante de quatro toneladas.

“Que leves o elefante à porta da basílica e o faças ajoelhar-se ali, Não sei se serei capaz, Tenta-o, Imagine vossa paternidade que eu levo lá o elefante e ele se recusa a ajoelhar-se, embora eu não entenda muito destes assuntos, suponho que pior que não haver milagre é encontrar-se com o milagre falhado, Nunca terá sido falhado se dele ficarem testemunhas”, sugere o padre em diálogo com o tratador na página 79 de “A Viagem do Elefante”.

O sacerdote propõe usarem o animal para forjar um milagre e angariar recursos para o caixa da igreja. E a suposta graça é apenas a primeira etapa de um plano para fazer do elefante o mais valioso dos bens em mãos humanas. “Não é todos os dias que um elefante se ajoelha à porta de uma basílica, dando assim testemunho de que a mensagem evangélica se dirige a todo o reino animal e que o lamentável afogamento daquelas centenas de porcos no mar da galileia foi apenas resultado da falta de experiência, quando ainda não estavam bem lubrificadas as rodas dentadas dos mecanismos de milagres”, ironiza Saramago.

Logo são formados acampamentos em torno do elefante e a exploração do animal ganha outros rumos a partir do momento que seu pelo é extraído para ser vendido aos crédulos. “Amanhã se dirá que uma infusão de pelo de elefante, três vezes ao dia, é o mais soberano dos remédios. Fritz não tem mãos a medir, no bolsinho que traz atado ao cinto as moedinhas já pesam, se o acampamento permanecesse aqui uma semana acabaria rico”, satiriza.

Solimão, tornado salomão, e que chegou a salvar uma criança quando chegou ao seu destino, faleceu no inverno de 1553, depois de amargar uma vida de servidão humana. “Além de o terem esfolado, a salomão cortaram-lhe as patas dianteiras para que, após as necessárias operações de limpeza e curtimento, servissem de recipientes, à entrada do palácio, para depositar as bengalas, os bastões, os guarda-chuvas e as sombrinhas de verão. Como se vê, a salomão não lhe serviu de nada ter-se ajoelhado”, concluí José Saramago. Assim é justo dizer que além de ser uma metáfora da vida humana, “A Viagem do Elefante” é um retrato da abusiva relação dos seres humanos com os animais e também da obtusa forma como o homem enxerga o seu papel no mundo.

Saiba Mais

Nascido em 16 de novembro de 1922 em Azinhaga, Portugal, José Saramago faleceu em 18 de junho de 2010, em Tías, Espanha.

O livro “O Caderno” reúne textos escritos por Saramago entre setembro de 2008 e março de 2009.

Referências

Saramago, José. O Caderno. Companhia das Letras (2009).

Saramago, José. A Viagem do Elefante. Companhia das Letras (2008).

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O budismo e a dieta vegetariana de Allen Ginsberg

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O expoente do movimento beat passava semanas comendo gobi aloo, um de seus pratos preferidos

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Ginsberg gostava muito de cozinhar pratos vegetarianos (Foto: Reprodução)

Allen Ginsberg entrou para a história da literatura contemporânea como um dos pilares da geração beat. Dentre seus livros de poesia, até hoje o mais importante continua sendo Howl and Other Poems (Uivo e Outros Poemas), obra lançada em 1956 que não levou muito tempo para chegar a um milhão de cópias vendidas. No entanto, o que pouca gente sabe é que para além de uma literatura confessional e combativa, também considerada obscena, Allen Ginsberg era um adepto da dieta vegetariana.

E o que aproximou o poeta beat do vegetarianismo foi o seu relacionamento com um mestre de meditação tibetano. Em 1974, Chögyam Trungpa fundou em Boulder, no Colorado, o Naropa Institute, mais tarde transformado na primeira universidade de budismo da América do Norte. Interessado em conciliar a cultura oriental com a ocidental, ele contratou William Burroughs para dar aulas de literatura e Allen Ginsberg para lecionar poesia. O contato com Trungpa fez com que o poeta beat se tornasse seu discípulo, o que não aconteceu com Burroughs.

Porém, aquele não foi o primeiro contato de Ginsberg com o budismo. Na década de 1960, ele já tinha viajado para a Índia. Embora não fosse uma viagem com finalidade espiritual, o poeta fez questão de conhecer importantes mestres da meditação como Gyalwa Karmapa e Dudjom Rinpoche, o que teve grande influência sobre seu comportamento.

Maior prova disso é que em 1968, durante um protesto que antecedeu a Convenção Nacional Democrática em Chicago, o beat subiu ao palco para tentar unir e acalmar a multidão, preocupado que a polícia pudesse intervir com violência. De repente, Ginsberg começou a pronunciar “Om! Om! Om!” de forma errada, o que não passou despercebido por um espectador indiano que jamais esqueceu daquela cena. À época, o poeta reconheceu que o budismo, apresentado a ele pelos beats Jack Kerouac e Gary Snyder, não era apenas uma tendência, mas algo que ele gostaria de abraçar como filosofia de vida.

Ainda assim, Ginsberg precisou de 30 anos para entender que no budismo o som não era mais importante que a concentração. “Seu erro foi se manter mais focado no som do mantra do que em seu significado. Ele usava os mantras para transmitir mensagens escritas durante suas viagens de carro pelos Estados Unidos. Allen Ginsberg viu nisso uma forma de impressionar seus ouvintes e leitores ocidentais sobre os valores orientais que ele aceitou ou considerou aceitar”, escreveu Jenny Skerl no livro Reconstructing the Beats, lançado em 2004.

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Cold summer borscht, uma das sopas preferidas de Ginsberg (Foto: Reprodução)

Nos anos 1970, Allen Ginsberg passava até semanas isolado e meditando, colocando em prática o que aprendeu com Trungpa. Essa filosofia teve tanta influência sobre sua vida que em 1990, em entrevista à Harper’s Magazine, ele afirmou que estava completamente livre das drogas e de qualquer tipo de agitação. “Tenho vivido muito tranquilamente, seguindo dieta vegetariana, vendo poucas pessoas e lendo muitas obras religiosas, como São João da Cruz, a Bíblia, Fedro [Platão], Santa Teresa de Ávila e [William] Blake. Estou em um tipo de solitude, em modo contemplativo”, revelou.

Como adepto da dieta vegetariana, Ginsberg tinha preferência por pratos como gobi aloo, muito popular em países como Índia, Nepal, Paquistão e Bangladesh. Feito à base de batata, couve-flor e especiarias, ele definia o alimento que ele conheceu através do beat Gary Snyder como uma grande refeição vegetariana de 15 centavos. “Passo semanas comendo só isso”, confidenciou o poeta.

Segundo Snyder, era preciso apenas algumas batatas e uma cabeça de couve-flor para garantir sustância por vários dias de produção poética. “A comida faz toda a diferença no estado físico e mental. E não preciso ser um hare krishna para dizer isso”, enfatizou quando apresentou o gobi aloo ao amigo.

Allen Ginsberg gostava muito de preparar o seu cold summer borscht, baseado em doze beterrabas bem lavadas e fatiadas em tiras. A receita também incluía duas batatas, cebolas fatiadas, tomates fatiados, pepinos e rabanetes. Os caules e as folhas eram picados como em uma salada primavera. Ele cozinhava todos os ingredientes juntos e com moderada quantidade de sal. Deixava a sopa ferver por uma hora ou mais, até o ponto em que ela ficava bem vermelha, com as beterrabas visivelmente macias.

“Adicione açúcar e suco de limão para deixar o líquido doce e ao mesmo tempo azedinho. Ela rende quatro litros. Sirva com sour cream”, escreveu em um papel. Allen Ginsberg ficava muito feliz em cozinhar para seus visitantes. Ele adorava preparar sopas, tanto que instalou um suporte do lado de fora da janela da cozinha para arrefecer sua panela de 12 litros.

Excerto de Howl (Uivo)

Eu vi os expoentes da minha geração destruídos pela loucura, morrendo de fome, histéricos, nus,

arrastando-se pelas ruas do bairro negro de madrugada em busca de uma dose violenta de qualquer coisa,

hipsters com cabeça de anjo ansiando pelo antigo contato celestial com o dínamo estrelado na maquinaria da noite,

que pobres, esfarrapados e olheiras fundas, viajaram fumando sentados na sobrenatural escuridão dos miseráveis apartamentos sem água quente, flutuando sobre os tetos das cidades contemplando jazz,

que desnudaram seus cérebros ao céu sob o Elevado e viram anjos maometanos cambaleando iluminados nos telhados das casas de cômodos

que passaram por universidades com olhos frios e radiantes alucinando Arkansas e tragédias à luz de Blake entre os estudiosos da guerra…

Saiba Mais

Allen Ginsberg nasceu em 3 de junho de 1926 em Newark, Nova Jersey, e faleceu em 5 de abril de 1997 em East Village, Nova York.

Referências

Skerl, Jenny. Reconstructing the Beats. Palgrave Macmillan (2004).

Silberman, Steve. Ginsberg’s Last Soup. New Yorker (March 19, 2001).

Ginsberg, Allen. The Letters of Allen Ginsberg. Philadelphia, Da Capo Press (2008).

Ginsberg, Allen. Howl and Other Poems. City Lights Publishers; Reissue Edition (2001).

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Upton Sinclair e as mazelas da indústria frigorífica

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“Queria tocar o coração do público, mas acabei tocando o estômago”

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Upton Sinclair tinha 28 anos quando lançou The Jungle (Foto: Reprodução)

Em 1906, o escritor estadunidense e reformador social Upton Sinclair lançou o seu livro mais famoso. Intitulado The Jungle (A Selva), a obra que denuncia as mazelas da indústria frigorífica teve tanta repercussão nos Estados Unidos que o governo não viu outra saída, a não ser a criação da Food and Drug Administration (FDA), órgão responsável, dentre outras competências, pela fiscalização da produção alimentícia.

A riqueza de detalhes com que Sinclair descreve as más condições enfrentadas pelos trabalhadores e pelos animais explorados pela indústria fez com que milhares de pessoas se tornassem vegetarianas nas primeiras décadas do século 20. E com o tempo, e a popularidade mundial do livro traduzido em mais de 50 idiomas, o número de adeptos da alimentação livre de ingredientes de origem animal cresceu exponencialmente.

Convertido ao vegetarianismo por influência de John Harvey Kellogg, criador do famoso cereal matinal, o escritor produziu uma obra de denúncia que até hoje é apontada como a mais influente sobre a matança de animais nos Estados Unidos. Embora alguns pesquisadores defendam que após alguns anos Upton Sinclair abandonou o vegetarianismo, citando como exemplo um texto de 26 páginas intitulado Fasting and the Use of Meat, seu livro continuou influenciando muita gente a não consumir mais carne e a lutar por reformas sociais envolvendo as agroindústrias.

O protagonista da obra é o lituano Jurgis Rudkus, um imigrante que mal sabe falar inglês e vive com a família em um distrito de Chicago dominado por currais e fábricas de carne processada. Desempregado, Rudkus aceita um emprego em um matadouro. Mas a desilusão cresce quando ele se vê endividado. Às raias da miséria, é obrigado a se sujeitar aos trabalhos mais sórdidos, além de amargar experiências traumatizantes como a morte do pai, vítima da falta de segurança nas linhas de produção da indústria frigorífica. Em uma das passagens da página 38 de The Jungle, uma imigrante lituana se mostra chocada ao saber do destino de milhares de bois e vacas.

“E o que será de todas essas criaturas?”, chorou Teta Elzbieta.

 “Esta noite, todos serão mortos e fatiados. E logo ali, do outro lado dos depósitos de acondicionamento, há mais ferrovias, e de lá vêm os vagões que vão levá-los embora”, respondeu Jokubas Szedvilas. No total, dez milhões de criaturas vivas eram transformadas em alimento a cada ano.

Assim como os animais, os trabalhadores também eram tratados como seres inferiores, já que suas vidas se resumiam às longas jornadas de trabalho. Exemplo disso é um adolescente que vencido pela exaustão e pela embriaguez dorme no trabalho, onde se torna comida para ratos na madrugada. Nesse trecho, Upton Sinclair denuncia ainda a falta de higiene nas linhas de produção. Também revela no livro que muitas vezes a carne bovina se misturava à carne dos ratos que morriam nas linhas de produção.

À frente, havia uma grande roda de ferro, de 20 pés de circunferência e com anéis por toda a sua borda. (…) Quando a roda virou, o porco teve seu pé arrancado e arremessado para o alto. Ao mesmo tempo, ouviu-se um grito aterrorizante; os visitantes ficaram alarmados; as mulheres empalideceram e recuaram, escreveu Sinclair na página 40 de The Jungle.

No livro-denúncia de viés socialista, o sofrimento dos animais e dos homens estão interligados; um não existe sem o outro num contexto em que na prática o sonho americano não passa de uma distopia velada pela inocente fantasia. E nesse cenário, o maior financiador é o consumidor que alheio à excruciante realidade aceita tudo na sua passividade.

A omissão do Estado também endossa e justifica a existência dessas práticas. Publicado há mais de cem anos, The Jungle é uma obra que, em síntese, não apenas flerta com a atualidade, mas diz muito sobre ela. “Queria tocar o coração do público, mas acabei tocando o estômago”, declarou Sinclair ao avaliar a recepção do livro.

Saiba Mais

Upton Sinclair nasceu em 20 de setembro de 1878 em Baltimore, Maryland, e faleceu em 28 de novembro de 1968 em Bound Brook, Nova Jersey.

O livro Dragon’s Teeth (Dentes de Dragão), que garantiu o Prêmio Pulitzer a Upton Sinclair em 1943, narra o zeitgeist e o drama dos eventos registrados na Europa que resultaram no início da Segunda Guerra Mundial.

Referências

Harris, Leon. Upton Sinclair: American Rebel. Thomas Y. Crowell Company, New York (1975).

Mason, M. Diane. Mullins, T. Janet. Vegetarian 101: History, Health and Tips. University of Kentucky (2016).

Sinclair, Upton. The Jungle. Dover Publications; Unabridged Edition (2001).

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William Blake: “Toda comida sadia é apanhada sem rede ou armadilha”

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Ao grito da lebre caçada/Da mente, uma fibra é arrancada/Ferida na asa a cotovia/Um querubim, seu canto silencia

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Blake: “Um tordo rubro engaiolado/Deixa o Céu inteiro encolerizado/Um cão com dono e esfaimado/Prediz a ruína do estado” Arte: Reprodução)

“Toda comida sadia é apanhada sem rede ou armadilha”, escreveu William Blake, em crítica a quem resume os animais a alimentos, em The Marriage of Heaven and Hell (O Casamento do Céu e do Inferno), uma de suas obras mais famosas, lançada em 1790. No livro, um dos maiores poetas da primeira geração do romantismo inglês transmite suas crenças vanguardistas e sua espiritualidade peculiar através de uma combinação de prosa, poesia e ilustrações aos moldes das profecias bíblicas.

Embora não fosse exatamente religioso, o místico William Blake era espiritualista à sua maneira e acreditava que o mal que os seres humanos infligem aos animais, relegando-os à comida, têm consequências negativas para o mundo e a vida em sociedade. Inspirado no panteísmo, o poeta defendia que seres humanos e animais nascem com uma conexão natural que depois de rompida desencadeia fenômenos que ameaçam o equilíbrio da vida terrena.

Essa sua perspectiva o influenciou a escrever em 1803 um poema de 132 linhas, intitulado Auguries of Innocence (Augúrios da Inocência), que só foi publicado em 1863. Ou seja, mais de 35 anos após a morte de Blake, um pensador que qualificava como mais nociva a violação das leis espirituais do que a violação moral. Na obra com caráter sibilino de presságio, o poeta explora o paradoxo da inocência, do mal e da corrupção. E nesse contexto, apresenta a contumaz intercorrência na relação dos seres humanos com os animais:

Um tordo rubro engaiolado
Deixa o Céu inteiro encolerizado
Um cão com dono e esfaimado
Prediz a ruína do estado
Ao grito da lebre caçada
Da mente, uma fibra é arrancada
Ferida na asa a cotovia,
Um querubim, seu canto silencia
A cada uivo de lobo e de leão
Uma alma humana encontra a redenção
O gamo selvagem acalma
A errar por aí, a nossa alma
Se gera discórdia o judiado cordeiro
Perdoa a faca do açougueiro

Crítico férreo da imoralidade, e principalmente de todas as formas de crueldade, quando fala do cordeiro em Auguries of Innocence, Blake se refere tanto à candura animal, que se sobressai à humana, quanto ao destino de Jesus Cristo que perdoou seus executores.

O inglês que amargou décadas de pobreza se via mais como escultor e pintor do que poeta. Ele esperava que em uma exposição realizada em 1808 o seu trabalho pudesse trazer-lhe tanto retorno financeiro quanto reconhecimento por seu estilo original, baseado em temas a frente do seu tempo.

Na exposição que recebeu o nome de “Afrescos de Invenções Poéticas e Históricas”, Blake reuniu 16 de suas pinturas. “Aos que foram informados de que o meu trabalho se resume a obras não científicas, excêntricas ou nada mais que rabiscos de um louco, façam-me justiça e examinem tudo antes de tomar uma decisão”, pediu. Naquele dia, poucas pessoas prestigiaram o evento.

Ainda assim, ele não hesitou em dizer que não desistiria do seu sonho de ser reconhecido. “Ignorantes insultos não me farão desistir do meu dever para com a minha arte”, informou. Infelizmente ninguém comprou nenhuma de suas obras e a única resenha publicada sobre a exposição definiu William Blake como um lunático que só não corria risco de ser preso porque era inofensivo demais.

A recepção da poesia do inglês também seguiu na mesma esteira de suas pinturas e esculturas. Poucos viram ou leram pelo menos um de seus livros escritos e ilustrados à mão. Em 1811, dois anos antes de se consagrar como o poeta laureado, o britânico Robert Southey, leu Jerusalem, uma das obras mais famosas de William Blake. “É um poema perfeitamente louco”, sintetizou Southey.

No dia 12 de agosto de 1827, o poeta faleceu aos 69 anos na pobreza e no anonimato. Quase ninguém reconhecia qualidade em sua sensibilidade e autoralidade. Seu velório em Bunhill Fields, na região norte de Londres, passou despercebido e só pôde ser realizado através de um empréstimo de 19 xelins. Sepultado em um túmulo sem qualquer inscrição, o corpo de Blake foi colocado sobre outros três e seguido por mais quatro falecidos.

Catherine continuou a imprimir e divulgar as obras do marido depois que ele morreu, o que deixou claro que a parceria dos dois envolvia tanto amor quanto trabalho. Com a ajuda de poucos amigos e fãs de William Blake, ela conseguiu sobreviver por mais quatro anos. Nesse período, afirmou ter visto o marido muitas vezes, chegando a sentar-se junto dele por duas a três horas diárias. No dia 31 de outubro de 1831, Catherine chamou por Blake, como se ele estivesse no quarto ao lado. “Meu William…meu William…”, repetiu ela até o momento de sua morte.

Saiba Mais

Entre as obras mais importantes do poeta inglês se destacam The Marriage of Heaven and Hell, Jerusalem, And did those feet in ancient time, Songs of Innocence and of Experience, Milton e The Four Zoas.

William Blake nasceu no Soho, em Londres, em 28 de novembro de 1757.

Catherine Blake nasceu em 25 de abril de 1762 e faleceu em 31 de outubro de 1831.

Referências

Blake, William. The Marriage of Heaven and Hell.  CreateSpace Independent Publishing Platform (2014).

Blake, William. Auguries of Innocence. Amazon Digital Services LLC (2012).

G.E. Bentley. The Stranger From Paradise: A Biography of William Blake. Yale University Press (2001).

Blake, William; Tatham, Frederick. The Letters of William Blake: Together with a Life (1906).

Gilchrist, A. The Life of William Blake, London (1863).

Morton, Timothy. The Pulses of the Body: Romantic Vegetarian Rhetoric and Itscultural Contexts. The University of Colorado at Boulder In Kevin Cope, ed.,1650–1850: Ideas, Aesthetics, and Inquiries in the Early  Modern Era Vol. 4. AMS Press. Pg. 53-88 (1998).

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Bernard Shaw: “Animais são meus amigos…e eu não como meus amigos”

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Enquanto formos os túmulos vivos dos animais assassinados, como poderemos esperar uma condição ideal de vida nesta terra?

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Shaw: “A vida me foi oferecida na condição de comer bifes. Mas a morte é melhor que o canibalismo” (Foto: Reprodução)

Embora pouco conhecido no Brasil, o irlandês George Bernard Shaw foi um dos maiores nomes da literatura inglesa dos séculos 19 e 20. Com uma bibliografia idealista e humanitarista pautada na sátira heterodoxa e na singular beleza poética, o autor recebeu o Prêmio Nobel de Literatura em 1925 e um Oscar em 1938, pela adaptação de Pygmalion para o cinema. Um literato que vivia o que escrevia, Shaw também compartilhava suas inclinações e reflexões sobre o vegetarianismo.

 Pygmalion, Major Barbara, Arms and the Man, The Devil’s Disciple e Man and Superman são algumas das obras mais importantes do irlandês que em uma carta de 30 de dezembro de 1929 se mostrou enraivecido com a possibilidade de ser homenageado com um banquete. “Um jantar! Que horrível! Estão me usando como pretexto para matar todos aqueles pobres animais. Obrigado por nada. Agora se fosse um jejum solene de três dias, em que todos ficassem sem comer animais em minha honra, eu poderia pelo menos fingir que estou desinteressado. Mas não, sacrifícios de sangue não estão na minha lista”, reclamou.

O escritor se tornou vegetariano em 1881, e aparentemente por influência de uma palestra do ativista H.F. Lester e das obras do poeta britânico Percy Shelley que ele conheceu no Museu Britânico, em Londres. O que também teve peso sobre sua decisão foram os artigos do compositor alemão e ativista vegetariano Richard Wagner, de quem o irlandês era fã. “Minha situação é solene. A vida me foi oferecida na condição de comer bifes. Mas a morte é melhor que o canibalismo. Meu testamento contém instruções para o meu funeral, que não vai ser conduzido por um agente funerário, mas por bois, ovelhas e aves de capoeira, todos vestindo um lenço branco em homenagem ao homem que preferiu perecer do que comer seus semelhantes”, escreveu em seu diário.

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“Vivissecção é um mal social porque ela garante o avanço do conhecimento humano às custas do caráter humano” (Foto: Reprodução)

Quando viajava pela Inglaterra, Bernard Shaw sempre ficava satisfeito ao encontrar dúzias de restaurantes vegetarianos, como bem descritos em seus registros pessoais. No entanto, o mesmo não ocorria quando ele viajava para países como Alemanha e Itália. Com uma alimentação diversificada, o irlandês que adorava doces também consumia cerveja de gengibre, limonada, sopas, nozes, pães, mingaus, bolos, cogumelos, lentilhas, arroz, vegetais, frutas e feijões. Apesar da sua predileção pelo que não era muito saudável, Shaw viveu 94 anos. Do total, 66 foram dedicados ao vegetarianismo.

Ao longo da vida, o escritor lutou contra a vivissecção e a prática de “esportes” envolvendo animais. “Vivissecção é um mal social porque ela garante o avanço do conhecimento humano às custas do caráter humano. Atrocidades não deixam de ser atrocidades porque são realizadas em laboratórios e chamadas de pesquisas médicas. Animais são meus amigos…e eu não como meus amigos. Enquanto formos os túmulos vivos dos animais assassinados, como poderemos esperar uma condição ideal de vida nesta terra? Quando um homem mata um tigre, ele chama isso de esporte, mas quando um tigre mata uma pessoa dizem que isso é ferocidade”, registrou em seu diário.

E a consciência vegetariana do escritor irlandês sempre o acompanhou em tudo que ele fez. Um exemplo é um excerto de um diálogo da peça The Simpleton of the Unexpected Isles: A Vision of Judgement, lançada em 1934.

Uma jovem mulher: Você sabe, para mim esse é um tipo engraçado de almoço. Você começa com a sobremesa, nós começamos com as entradas. Eu suponho que esteja tudo certo, mas eu tenho comido tantas frutas, pães e outras coisas que não sinto falta de qualquer tipo de carne.

Padre – Nós não a serviremos com nenhuma carne. Nós não comemos carne.
 
Uma jovem mulher – Então como você mantém a sua força?
 
Padre – O que servimos já garante boa disposição.
Publicados entre 1878 e 1881, os primeiros quatro livros de Shaw – My Dear Dorothea, Immaturity, The Irrational Knot e Love Among the Artists, foram praticamente ignorados por editoras, críticos e leitores. Sua renda era tão insignificante que ele teve de contar com subsídios de sua mãe para continuar escrevendo. Ainda assim, manteve-se fiel ao que acreditava. No auge da carreira como dramaturgo, Shaw conheceu Mahatma Gandhi. Os dois, de origem completamente distintas, porém com o humanitarismo e o amor aos animais em comum, trocaram elogios e tornaram-se amigos, como num complemento entre o Ocidente e o Oriente.

Em 1924, durante entrevista ao biógrafo, professor e amigo Archibald Henderson, Shaw foi questionado sobre o motivo dele parecer tão jovem aos 68 anos. “Eu não! Acredito que pareço com alguém da minha idade. São as outras pessoas que parecem mais velhas do que realmente são. O que você pode esperar de quem come cadáveres e bebe espíritos?”, replicou o homem que se manteve vegetariano até o dia 2 de novembro de 1950, quando faleceu em decorrência de falhas renais após sofrer uma grave lesão ao cair da árvore que podava em seu jardim.

Saiba Mais

George Bernard Shaw nasceu em Dublin, na Irlanda, em 26 de julho de 1856 e faleceu no vilarejo de Ayot St Lawrence, na Inglaterra, em 2 de novembro de 1950.

Ele deixou a barba crescer na época em que se tornou vegetariano.

Referências

Henderson, Archibald. George Bernard Shaw: Man of the Century. N.Y. Appleton-Century-Crofts (1956).

Adams, Elsie Bonita. Bernard Shaw and the Aesthetes. Columbus: Ohio State University Press (1971).

Carr, Pat. Bernard Shaw. New York: Ungar (1976).

Martin, Stanley. George Bernard Shaw. The Order of Merit. London: Taurus (2007).

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