David Arioch – Jornalismo Cultural

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Archive for the ‘Realidade da Periferia’ Category

Um exemplo de simplicidade e sensibilidade

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Arte: John Lautermilch

Fui na Vila Alta conversar com uma senhora que teve o marido assassinado com um tiro na cabeça em um bar. Ele foi usado como escudo em um acerto de contas entre jovens envolvidos com o narcotráfico. Me surpreendeu a simplicidade dela, uma pessoa de fala mansa que não sente raiva nem ódio de ninguém, mesmo depois de uma tragédia. Me disse que gostaria apenas que as pessoas parassem de se matar em vez de destruir a própria vida e a dos outros.





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July 26th, 2017 at 9:38 pm

Quando levo pessoas de outras realidades para a Vila Alta

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Quando levo pessoas de outras realidades para a Vila Alta, na periferia de Paranavaí, consigo ver o receio em seus olhos. É um medo que também vem do estranhamento em não perceber que aquela realidade só existe porque não apenas os governantes e legisladores são passivos, mas também nós mesmos.

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July 19th, 2017 at 12:17 am

O desabafo de uma criança

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Registro do fotojornalista Steve McCurry, em uma favela em Alto Churumazu, no Peru

Na Vila Alta, ouvi uma coisa que voltou a me surpreender, e esse é um dos motivos pelo qual quero voltar a frequentar a periferia com mais frequência. Enquanto conversávamos com a Dona Maria, uma das lideranças do bairro, ela disse que uma criança de sete anos fez um desabafo doloroso no final de semana.

O garotinho disse que seu pai já lhe causou tanto mal que ele quer crescer logo para descontar tudo isso nas outras pessoas. Que elas vão ter que sentir toda a dor que ele sente. Achei aquilo bem pesado, mas, frequentando a periferia desde 2009, já ouvi crianças do bairro dizendo coisas parecidas.

E muitas vezes elas não têm nenhuma referência, alguém para lhes dar alguma direção, conhecer a realidade deles. E eles precisam de pessoas de confiança, em quem possam confiar, que não estejam lá apenas para desempenhar um trabalho, cumprir um papel profissional; mas que realmente façam questão de conhecer suas mentes e seus corações.

 





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June 28th, 2017 at 8:48 pm

Nem todos os jovens que cometem delitos são irrecuperáveis

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Arte: Banksy

Me recordo que na minha adolescência eu e alguns amigos assistíamos aqueles filmes em que professores realizavam trabalhos de recuperação social dos piores estudantes em escolas dos Estados Unidos. Alguns alunos eram usuários de drogas, ladrões, entre outros. Isso emocionava toda a gente.

Achavam lindo ver aquela transformação na telinha. inclusive quando os filmes eram exibidos nas escolas, todo mundo ficava emocionado. Alguns até choravam. As pessoas amavam esse tipo de filme. Será que é porque era apenas ficção e se passava nos Estados Unidos? Quero dizer, se for algo real e próximos de nós, não devemos cogitar a possibilidade de um trabalho de recuperação?

Acredito que podemos sim. E posso citar como exemplo a minha experiência. Frequento a Vila Alta, um dos bairros mais pobres de Paranavaí, no Noroeste do Paraná, desde 2009, onde tento contribuir como posso, e de forma voluntária. Quero dizer, não ganho nada pra isso. Nunca ganhei. Claro, a não ser satisfação em contribuir. Inclusive fiz reportagens, artigos e documentários sobre essa realidade.

Lá, conheci dezenas de garotos que já cometeram delitos, e muitos são recuperáveis. Posso citar inúmeros que não praticaram mais nenhum crime. Um deles mudou de vida depois que conseguimos uma mochila e uma porção de materiais escolares. Então, sim, em oito anos mantendo contato com jovens que já se envolveram em “coisas erradas”, posso dizer com alguma propriedade que vale a pena acreditar nessa molecada, nem todos estão perdidos. Se você não acredita, que tal se perguntar o que você pode fazer para ajudar a mudar isso?

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June 18th, 2017 at 8:52 pm

A lição de Dona Maria

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Dona Maria cuidando de seus companheiros animais (Fotos: David Arioch)

Em março de 2014, comecei a produzir um documentário sobre a realidade da periferia. Durante as filmagens, conheci a Dona Maria, uma senhora que trabalhava recolhendo materiais recicláveis.

Em uma manhã, testemunhei o estado lastimável de sua casinha, atingida por uma forte enxurrada. Ela me contou que perdeu quase tudo. Apesar da situação extremamente difícil, a sua maior preocupação era com os animais com quem ela convivia. 

No interior do casebre, sobre uma pequena cama, estava uma cadelinha, a quem ela tratava como se fosse uma filha. Dias antes, a cachorrinha tinha passado mal e ela percorreu quilômetros a pé, até encontrar um médico veterinário.

No casebre, moravam também outros dois cães que gostavam de ficar perto da única porta, como se fossem responsáveis pela segurança do lar. Em cima de um colchão, me deparei com o que mais me chamou a atenção – três pratinhos com ração.

Dona Maria não ganhava nem o suficiente para a subsistência, chegando até a passar fome, e dois dias antes quase perdeu a casinha construída com as próprias mãos. Apesar de tudo, ela afirmou que o mais importante era cuidar de seus três companheiros animais.

 

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June 15th, 2017 at 3:03 pm

Idoso precisa de ajuda para tratamento de doença infecciosa aguda

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Seu Juvenal sofre em decorrência de erisipela, uma doença que causa inchaço extremo nos pés e nas pernas (Foto: David Arioch)

O aposentado Juvenal Ferreira, que sobrevive com apenas um salário mínimo, e há muito tempo deixou de andar em decorrência de graves problemas de saúde, passa o dia em uma cadeira de rodas. Morador da Vila Alta, na periferia de Paranavaí, ele sofre em decorrência de uma doença infecciosa aguda chamada erisipela, que provoca extremo inchaço nos pés e nas pernas.

“Tenho outros problemas de saúde, mas esse é o pior. Tem dia que não consigo dormir, porque a dor é muito grande. O medicamento não é oferecido pelo SUS, então a gente tem que comprar na farmácia. Já estou endividado e não tenho mais condições de continuar comprando os remédios; e são caros pra gente. Não é fácil, meu filho”, explica.

Seu Juvenal conta com o apoio da esposa, Dona Neide, que é quem se responsabiliza por todas as suas necessidades diárias, já que ele não consegue andar. Os únicos medicamentos usados pelo aposentado até hoje e que deram bons resultados foram as pomadas SAF-Gel, um gel hidratante com alginato de cálcio e sódio, e Quadrilon – indicado para dermatoses causadas por infecção bacteriana ou fúngica.

“Gasto dois tubos de cada por mês. E quando falta, a minha situação piora”, garante Seu Juvenal. A pomada SAF-Gel custa de R$ 50 a R$ 60, e a pomada Quadrilon pode variar de R$ 22 a R$ 35. O sonho de Juvenal Ferreira, que quase teve as pernas amputadas por causa da doença, é voltar a andar ou pelo menos ficar em pé sem a ajuda de ninguém. Para mais informações, ligue para (44) 98837-5322.

Saiba Mais

O endereço do Seu Juvenal é Rua das Ameixas, Nº 19, Quadra 15, Lote 18, na Vila Alta.

 

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June 1st, 2017 at 1:38 pm

Jero: “Lá na cadeia você sempre encontra um inimigo. É ruim demais ficar preso”

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“Já peguei um lá pelos lados da Praça dos Pioneiros. Era só dar bobeira que eu passava na mão leve”

Conversamos em frente ao terreno baldio à esquerda (Foto: David Arioch)

Na Vila Alta, de bermuda, chinelos e sem camiseta, Jero diz pra esperar um pouco que ele vai buscar “um café”. Logo retorna com uma garrafa térmica e uma caneca plástica. “É pra você! Coloca aí!”, diz naturalmente, sem cerimônia. Não costumo beber café, mas tomo um gole em deferência. Embora muito jovem, Jero tem algumas cicatrizes no corpo que revelam conflitos e violência. É como se sua pele contasse sua própria história. Criado nas ruas, em meio à pobreza, foi preso pela primeira vez há dois anos, depois de roubar um “radinho”, como chama os smartphones.

“Já peguei um lá pelos lados da Praça dos Pioneiros. Era só dar bobeira que eu passava na mão leve”, conta. Por causa de pequenos delitos, Jero ficou preso quatro vezes. Três vezes foi encaminhado para o Centro de Socioeducação (Cense) de Paranavaí. Na quarta, o enviaram para o Cense de Cascavel, no Oeste do Paraná. “Gostei mais de lá porque a galera é mais humilde. Quem tá preso lá é mais de boa. Não tem tanta rivalidade como no Cense daqui. Aqui um fica querendo ferrar o outro. É briga de gangue, mano”, comenta esfregando uma das mãos pelos cabelos descoloridos.

Durante a conversa, em cada frase de Jero há sempre alguma palavra que nunca ouvi. O seu vocabulário é tão incomum que até mesmo quem é da Vila Alta tem dificuldade de entender – a não ser os mais jovens que passam o dia nas ruas. A linguagem de Jero é uma mixórdia de referências popularizadas na periferia, onde neologismos e regionalismos se misturam o tempo todo. Nas vezes em que foi preso por furto e roubo, o garoto não chegou a confrontar a vítima ou agredi-la no ato do crime. Não tem o costume de usar armas. “Só que é sujo isso aí. Não vale a pena. E lá na cadeia você sempre encontra um inimigo. É ruim demais ficar preso”, afirma enquanto acende um cigarro paraguaio e dá uma tragada, assoprando fumaça com o esmero de uma criança desenhando paisagem com o dedo no chão de terra.

Além do “careta”, Jero também gosta de fumar maconha. Não todos os dias, mas ainda assim com certa regularidade. Relata que conhece todo tipo de droga, só que nunca se interessou em usar nada mais “pesado”. “Crack é pra quem quer virar escravo ou zumbi. Você cai numa noia tão zuada que esquece até quem você é. Deixa o cara louco. Quem vende crack também se lasca porque tem que aguentar gente colando no seu barraco até de madrugada mendigando pedra. Mano, tu acaba com a vida de muita gente e não ganha quase nada. O dinheiro é dos graúdos”, comenta.

Na terceira vez em que foi preso, Jero ficou sabendo que outro adolescente com quem tinha uma querela de longa data também estava no Cense. “O maluco me colocou na mira de um traficante, falando que eu estava de olho na boca de fumo do mano. Armou pra mim. Queria me ferrar. Inventou mais umas histórias”, garante. Crente de que mais cedo ou mais tarde algo aconteceria, Jero se antecipou.

Um dia pegou a própria escova de dente, quebrou a cabeça e começou a afiná-la, deixando-a pontiaguda. A escondeu dentro da bermuda, até que numa ocasião, após a aula, caminhou a passos leves até o seu desafeto. Enraivecido, gritou o nome do inimigo e ocultou sob os dedos o estoque feito com a escova de dentes. Quando o garoto se aproximou, ele o golpeou quatro vezes na barriga. “Ou eu dava nele ou ele dava em mim. Preferi sair na frente. A intenção não era matar. Fiz isso pra mostrar que não tenho medo dele. O papo é um só – se vier, vai levar!”, justifica, baseando-se em um senso de justiça particularista.

O sangue descia e Jero só assistia, até que a vítima foi socorrida e encaminhada à Santa Casa de Paranavaí com vários ferimentos, embora nenhum grave. Depois do ataque, Jero foi transferido para o Cense de Cascavel, onde cumpriu pena. Quando o soltaram, retornou a Paranavaí e decidiu se afastar do crime, opção que pouco pesou na consciência de seus inimigos. “Tem gente querendo me matar ainda. Sei disso”, admite com sorriso dúbio e plangente. De temperamento volátil, Jero foi convencido por alguns “amigos” a participar do furto de um “radinho” e de uma bicicleta.

Na última segunda-feira, fiquei sabendo que ele foi preso novamente. Minha intenção era fazer mais uma entrevista e tirar algumas fotos, mesmo que velando seu rosto. Não deu tempo. Há quem acredite que há males que vêm para o bem. No dia em que Jero retornou à prisão, um detento ganhou a liberdade – um traficante que jurou que o mataria no dia em que fosse solto. Na Vila Alta dizem que Jero se envolveu com a ex-namorada do sujeito. Por enquanto sua salvação está assegurada no ambiente que até então mais desprezava – a cadeia.

Saiba Mais

Jero é um apelido fictício para preservar a identidade do entrevistado.

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Written by David Arioch

May 10th, 2017 at 4:05 pm

Uma lição de Natal

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Dias atrás, comprando brinquedos em uma loja, vi algumas crianças mimadas submetendo os próprios pais aos seus caprichos. Bateu uma vontade de pedir autorização aos pais para levá-las para conhecer a realidade das crianças da Vila Alta.

Ontem, quando fiz papel de Papai Noel, alguns pequenos vieram descalços e sem camiseta, sorrindo em minha direção, para pegar um brinquedo. Quando perguntei o que eles queriam, um deles respondeu: “O que o Papai Noel quiser dar ou achar que mereço.”

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December 24th, 2016 at 7:12 pm

Sobre a Campanha de Natal na Vila Alta

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Momento inesquecível da entrega de presentes para as crianças da Vila Alta (Foto: Douglas Alves)

Tem algumas pessoas fazendo comentários estranhos sobre a campanha de Natal que realizamos na Vila Alta, na periferia de Paranavaí. Bom, só para esclarecer, eu e meus amigos que decidimos fazer esse trabalho, não vamos à periferia somente no Natal.

Na realidade, tentamos ajudar de alguma foma o ano todo, e já tem anos. A diferença é que pela primeira vez decidimos fazer uma campanha de Natal, isto porque percebemos que mesmo com tantas campanhas realizadas nessa época do ano ainda existe carência em relação a isso.

Já produzi inclusive alguns documentários sobre a realidade da periferia, então sugiro que procurem conhecer o trabalho das pessoas envolvidas em campanhas antes de julgá-las de algum modo. Tem muita gente que não faz isso somente no Natal. Ademais, não divulgo fotos e textos sobre o assunto para me promover, mas sim para mostrar que qualquer um é capaz de ajudar, o que pode motivar mais pessoas.

Outro ponto positivo é que serve como um gratificante registro de nossas ações e também uma boa lembrança para os moradores do bairro que também usam Facebook, acessam blogs e outras mídias.

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December 24th, 2016 at 7:00 pm

Campanha de Natal na Vila Alta

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Sem dúvida, o Natal já valeu a pena

Sem dúvida, o Natal já valeu a pena

Hoje, distribuímos mais de 700 presentes para crianças e pré-adolescentes na casa do Tio Lu, na Vila Alta, na periferia de Paranavaí. Fiquei muito feliz em fazer parte disso. Foi uma iniciativa que contou com a ajuda de muitos doadores, muita gente boa. Eu seria até injusto de citar nomes de doadores porque não tenho dúvida alguma de que alguém acabaria por ficar de fora.

Mas preciso destacar que nada disso seria possível sem a parceria de grandes amigos como Luzimar Ciríaco Andrade e João Henrique de Andrade, além da minha mãe e do Tio Lu, pessoas que fizeram parte de todo o processo iniciado em novembro. Também agradeço meus irmãos Guimarães Jvnior e Douglas Alves que ajudaram muito, assim como minha cunhada Adri e sua mãe Lina.

Como o período que antecede o Natal é marcado por muitas campanhas, fiquei preocupado com a possibilidade de não conseguirmos alcançar a meta. Mas com a ajuda de tanta gente legal, foi tolice de minha parte tal insegurança. É difícil acreditar que mais de 600 pessoas foram beneficiadas com um trabalho realizado ao longo de um mês.

Também tive o grande e inédito privilégio de ser o Papai Noel da vez. Fiquei emocionado em ver crianças felizes só pelo fato de serem lembradas. É isso. Acredito que o Natal não poderia ser melhor, pessoas se unindo para fazer algo pelos outros. Posso dizer que meu Natal foi hoje, e claro que valeu a pena.

Written by David Arioch

December 23rd, 2016 at 11:36 pm