David Arioch – Jornalismo Cultural

Jornalismo Cultural

Archive for the ‘Vegetarianismo/Veganismo’ Category

Carne de boi ou cavalo

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O que torna um deles mais digno de viver do que o outro?

Consumidores ficaram chocados ao saberem que a carne que estavam consumindo era de cavalo, não de boi. Então está tudo certo em comer gado, mas não cavalo? Agora disserte para mim sobre a diferença dos níveis de senciência e consciência de um cavalo para um boi. O que torna um deles mais digno de viver do que o outro? Qual é a fundamentação dessa baliza moral?

Written by David Arioch

November 24th, 2017 at 12:51 am

Silurus glanis ou a “baleia gentil”

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A expectativa de vida desse peixe é de 60 anos, podendo chegar a 80 anos

No século IV, o poeta romano Decimus Magnus Ausónio descreveu o peixe Silurus glanis como uma “baleia gentil” de águas doces, devido às suas grandes proporções e docilidade. A expectativa de vida desse peixe é de 60 anos, podendo chegar a 80 anos. Mas como o Silurus glanis é explorado comercialmente, normalmente é visado a partir dos dois anos.

Written by David Arioch

November 23rd, 2017 at 11:27 pm

Será que o bacalhau sofre antes de morrer? Com certeza!

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Por ser um peixe, é subestimado enquanto ser senciente

Outro animal que costuma compor a ceia de Natal é o bacalhau, que por ser um peixe é subestimado enquanto ser senciente. Afinal, será que ele sofre antes de morrer? Com certeza. Assim como outros peixes, o bacalhau agoniza fora da água e morre asfixiado. E claro, ele não se entrega de bom gosto. O peixe luta pela vida o máximo que pode, assim como qualquer um de nós faríamos na iminência da morte.

A espécie mais tradicional de bacalhau, o bacalhau-do-atlântico ou gadus morhua, tem uma expectativa de vida de 25 anos. Porém, devido à intervenção humana, dificilmente ele passa dos primeiros anos de vida. Depois de capturado, se estiver dentro do peso almejado, o bacalhau é degolado e tem sua barriga aberta. Após a retirada das vísceras e guelras, o animal é decapitado.

Então o abrem ao meio, retiram parte da espinha dorsal, o lavam e o cobrem com sal antes de expô-lo ao sol. Depois de passar por uma desidratação de mais de 50%, o peixe é comercializado e consumido. Embora cientistas não possam dar uma resposta definitiva sobre os níveis de consciência dos peixes, tudo indica que, além da senciência semelhante a dos mamíferos, o bacalhau tem uma singular sofisticação comportamental e cognitiva.

Mas, claro, são fatores pouco divulgados e costumeiramente ignorados. O bacalhau costuma ser visto apenas como uma “iguaria” a ser servida frita, assada, cozida ou grelhada, e sempre em pedaços, sem qualquer enfática associação com um animal. A maior prova disso é que a maioria das pessoas que consome o bacalhau não sabe citar quais espécies marinhas que lhe deram origem.

A maioria também desconhece o fato de que o gadus morhua, o melanogrammus, o micromesistius e o pollachius, espécies identificadas como “bacalhau” estão na lista vermelha da União Internacional para a Conservação da Natureza e dos Recursos Naturais (IUCN). Ou seja, consumir bacalhau é também uma forma de aproximar essas espécies da extinção.

Isso não é fato recente. Segundo a revista científica The Canadian Journal of Fisheries and Aquatic Sciences, as populações de bacalhau começaram a entrar em colapso na década de 1990. Outro ponto crítico é que há muito tempo o bacalhau é capturado e condicionado a viver em cativeiro por até dois anos, ou seja, distante do seu habitat, simplesmente engordando até o momento do abate.

No artigo “Fish Intelligence, Sentience and Ethics”, publicado na revista Animal Cognition, o professor Cullum Brown, do Departamento de Ciências Biológicas da Macquarie University, em Sidney, na Austrália, escreveu que peixes como o bacalhau têm suas próprias tradições, inteligência sofisticada e capacidade de cooperação e reconciliação, além de facilidade em reconhecer uns aos outros.

“O nível de complexidade mental deles está no mesmo nível de outros vertebrados, e há evidências de que eles podem sentir dor de maneira semelhante aos seres humanos”, registrou. Será que não deveríamos incluí-lo no nosso círculo moral? Ou seja, não faltam motivos para reconhecer que o bacalhau é um peixe que também tem direito à vida e não merece ser reduzido a alimento.





Como os matadouros influenciaram Hitler na idealização dos campos de concentração

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Matadouros de Chicago serviram como referência para os campos de concentração

Em 2002, o escritor Charles H. Patterson publicou o livro “Eternal Treblinka: Our Treatment of Animals and the Holocaust”, em que aborda como os matadouros serviram como referência para a construção dos campos de concentração durante o regime nazista. Tudo começou quando o empreendedor Henry Ford decidiu visitar um matadouro em Chicago. “Os animais abatidos, suspensos de cabeça para baixo em uma corrente móvel ou transportador, passam de trabalhador para trabalhador, e cada um deles executa algum passo particular no processo”, registrou Ford em sua autobiografia “My Life and Work”, de 1922.

Patterson afirmou que essa experiência de Ford, que serviria de exemplo para ele implementar nas suas linhas de montagem um sistema bastante avançado à época, influenciaria Adolf Hitler a seguir o mesmo caminho. A diferença é que em vez do ditador nazista aplicá-lo em fábricas e indústrias, ele faria isso em campos de concentração. “Hitler baseou todo o tratamento dado aos judeus nas linhas de produção dos matadouros dos Estados Unidos. Ele idolatrava Henry Ford, cuja inspiração para o sistema revolucionário da linha de montagem surgiu depois que ele visitou matadouros em Chicago na sua juventude. Essencialmente, Hitler construiu os seus próprios matadouros substituindo animais por seres humanos”, escreveu Charles Patterson na página 72 de “Eternal Treblinka”.

Para o autor isso significa que a objetificação animal durante e após a Revolução Industrial acabou facilitando também a objetificação humana, já que uma acabou por servir de exemplo a outra. Embora ainda hoje muita gente atribua a Ford o pioneirismo na criação das linhas de montagem que simbolizam a organização racionalizada do trabalho, a verdade é que todo o trabalho desenvolvido por ele teve como pioneiros os empresários Gustavus Swift e Philip Armour, da indústria da carne. “Henry Ford ficou tão impressionado com a maneira eficiente com que os operários abatiam e desmembravam animais em Chicago, que ele decidiu contribuir com o abate de pessoas na Europa, desenvolvendo um método que seria usado pelos alemães para matar judeus”, declarou Patterson.

No livro “Harvest for Hope: A Guide to Mindful Eating”, publicado em 2006, a escritora, primatóloga, etóloga e antropóloga britânica Jane Goodall explicou que os animais suspensos, com as pernas agrilhoadas, suas cabeças para baixo, e se movimentando de um lado para o outro, era o modelo perfeito de uma linha de produção aos olhos de Henry Ford, que buscava uma solução para a criação da ideal linha de montagem automobilística. Mais do que eficiente, a linha de produção na indústria da carne ofereceu aos trabalhadores a oportunidade de serem vistos de outra forma:

“Os animais foram reduzidos a produtos industrializados e os operários tornados insensibilizados poderiam se ver como trabalhadores de linha de produção em vez de assassinos de animais. Mais tarde, os nazistas usaram o mesmo modelo de matadouro para o assassinato em massa em campos de concentração. A linha de montagem tornou-se um meio para que os soldados nazistas se desconectassem da matança – vendo as vítimas como ‘animais’, e eles próprios como trabalhadores”, enfatizou Goodall.

Segundo a antropóloga britânica, Henry Ford era um antissemita fervoroso que desenvolveu uma linha de montagem que serviria de base para os campos de extermínio. O empresário admirava abertamente a eficiência nazista. Hitler retribuiu a admiração. O líder alemão considerava ‘Heinrich Ford’, um irmão de armas e manteve um retrato em tamanho real do magnata da indústria automobilística em seu escritório na sede do Partido Nazista.

De acordo com Charles H. Patterson, Henry Ford lançou uma campanha antissemita que ajudou a tornar o Holocausto uma realidade. Para fundamentar essa afirmação, ele cita o jornal Dearborn Independent, lançado por Ford no início da década de 1920. No periódico, ele publicou uma série de artigos baseados nos textos dos “Protocolos dos Sábios de Sião”, um tratado antissemita que começou a circular pela Europa após a Revolução Russa de 1917.

Mas uma das maiores contribuições de Henry Ford ao regime nazista foi a publicação dos artigos que dariam origem ao livro “The International Jew”, lançado em 1920, uma obra assumidamente antissemita que teve papel fundamental na formação da ideologia nazista. Patterson revelou que Theodor Fritsch, um dos primeiros apoiadores de Hitler, foi um dos principais divulgadores do livro de Ford:

“Graças a uma campanha publicitária bem financiada e ao prestígio do nome Ford, ‘The International Jew’, foi extremamente bem-sucedido. […] Encontrou sua audiência mais receptiva na Alemanha, onde ficou conhecido como ‘The Eternal Jew’. Ford era extremamente popular na Alemanha. Quando sua autobiografia foi comercializada lá, virou imediatamente o best-seller número um do país. No início da década de 1920, o livro se tornou a bíblia do antissemitismo alemão, com a editora de Fitsch editando seis edições entre os anos de 1920 e 1922.”

No livro “Biopolitical Media: Catastrophe, Immunity and Bare Life”, lançado em 2015, Allen Meek frisou que o processo industrializado de abate de animais criados para consumo se tornou um modelo para os nazistas como “solução final”. Ou seja, a forma mais eficaz de se livrar de judeus: “O encobrimento gradual do abate de animais a partir da visão pública; o processo industrializado de matar um número cada vez maior de criaturas (hoje chegando a bilhões) foi o que provocou inevitável comparação com o genocídio nazista. A brutalidade dos assassinatos exige que aqueles que trabalham na indústria da carne se dessensibilizem em relação ao sofrimento animal, enquanto o consumidor de carne é estimulado a jamais pensar sobre o processo de matança, que é mantido fora de vista.”

Meek aponta que a dissociação entre morte e vida incentivada pela indústria fez e faz com que muitas pessoas desconsiderem o sofrimento animal no contexto da cultura de consumo, até pelo fato de haver um proposital distanciamento. Esse mesmo distanciamento fez com que grande parte dos apoiadores do Holocausto não racionalizassem o seu apoio. Ou seja, o sofrimento e as mortes eram desconsideradas porque os apoiadores do genocídio não precisavam testemunhar as medidas de extermínio.

Referências

Patterson, Charles H. Eternal Treblinka: Our Treatment of Animals and the Holocaust. Lantern Books. First Edition (2002).

Ford, Henry. My Life and Work (1922). CruGuru (2008).

Goodall, Jane. Harvest for Hope: A Guide to Mindful Eating. Grand Central Publishing. Reprint Edition (2006).

Meek, Allen. Biopolitical Media: Catastrophe, Immunity and Bare Life. Routledge. First Edition (2015).





A trajetória do cordeiro até ser reduzido a alimento no Natal

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O cordeiro poderia chegar facilmente aos 20 anos caso não fosse reduzido a produto.

O cordeiro é outro animal que costuma ir para a mesa no Natal. Há desde receitas como o “Pernil de Cordeiro com Batatas Assadas” até a “Paleta de Cordeiro Gourmet” e o “Carré de Cordeiro em Crosta de Erva”, estes dois últimos considerados “pratos nobres”. Claro, além de outros. Mas será que a maioria das pessoas conhece todo o processo até esse animal ser servido como se jamais tivesse vivido?

No Brasil, o desmame mais usual é o semiprecoce, findado quando o cordeiro está com 45 a 90 dias de idade, e peso mínimo de 23 quilos. Afastado de sua mãe, o animal é confinado por dois meses. O objetivo é fazer com que ganhe até 300 gramas de peso por dia. A dieta é mantida até o filhote de carneiro completar pelo menos 100 dias, chegando a até 42 quilos. Porém a engorda pode chegar a cinco meses, dependendo da raça.

Após um período de jejum de 16 a 24 horas, o abate é feito com um porrete ou uma pistola pneumática. O cordeiro é imobilizado e recebe uma pancada extremamente violenta na cabeça, ou então é acionado um dispositivo que atinge o seu cérebro como uma agulha grossa, o deixando atordoado. Assim que cai, é pendurado sobre grilhões pelas patas traseiras e degolado. O sangue desse filhote de poucos meses, que se debate durante o abate, é usado na culinária.

Depois de sangrado, esfolado, eviscerado, decapitado, além de ter suas patas e glândulas mamárias removidas, extrai-se os rins. Do rabo, são mantidas algumas poucas vértebras. Suas partes não comestíveis são descartadas no lixo, como se não houvessem razão para existir. Então o cordeiro é refrigerado até esfriar, quando se inicia o processo de corte.

Morto ainda muito jovem, ele poderia chegar facilmente aos 20 anos caso não fosse reduzido a produto. Depois de esquartejado, seus pedaços são vendidos no atacado e no varejo – os mais procuradas são o lombo, pernil, costela, picanha, peito, ombro e braço. Essas são as partes que as pessoas mais gostam de consumir e que são provenientes de uma criança de outra espécie.

“Mate-o e tire os cascos e miudezas do cordeiro. Misture a farinha, sal, água, ovo, gengibre e pimenta em pó”, sugere uma receita de cordeiro inteiro assado, indicada para o Natal, um tempo de paz.





Written by David Arioch

November 22nd, 2017 at 9:46 pm

Milhões de perus são mortos a cada Natal no Brasil

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O abate é feito introduzindo uma faca de dois gumes pela garganta do animal, assim cortando as artérias e as veias do pescoço

No Brasil, são mortos cerca de oito milhões de perus a cada Natal. Desse total, aproximadamente 90% é comercializado pela BRF. São milhões de vidas ceifadas para saciar o “paladar natalino”. Geralmente a ave, que viveria naturalmente até os 15 anos, é morta com pouco mais de dois meses, e peso que varia de três a seis quilos, considerado o ideal para o Natal.

As fêmeas são as preferidas porque não crescem tanto quanto os machos, assim tendo maior aceitação comercial nessa época do ano. Quando atingem o peso almejado pela indústria, os perus são deixados em jejum, para favorecer o esvaziamento gástrico. Depois são transportados até o matadouro em gaiolas apertadas sobre caminhões.

Ou seja, tudo em prol da carne, e nada em benefício do animal, mesmo que ele esteja próximo de seu fim. Chamam isso de “bem-estar animal”, desde que a ave tenha vivido por curto período em algum espaço que a permitisse mover, mesmo que desconfortavelmente, as asas e os pés. O estresse do confinamento intensivo normalmente é desconsiderado.

No matadouro, o abate é feito introduzindo uma faca de dois gumes pela garganta do animal, assim cortando as artérias e as veias do pescoço enquanto ele se debate de cabeça para baixo, com os pés presos por grilhões. Mais tarde, o peru é depenado em água bem quente, limpo, embalado e comercializado como qualquer produto jamais dotado de vida. Em pouco tempo, ele é comprado e servido no dia em que é celebrado no Ocidente o nascimento do menino Jesus.

Ao redor da mesa, as pessoas não verão nada de errado em se alimentar dessas criaturas. Dificilmente alguém vai dedicar tempo refletindo sobre a vida de quem repousa como alimento sobre a mesa. Afinal, o que tem errado em colocar o paladar acima da empatia?

Celebrar a vida com a morte, financiar a crueldade contra outros animais, há muito tempo se tornou parte da humanidade. Talvez possa parecer estranho, mas é exatamente isso que endossamos o ano todo. Claro, mais ainda em época de “espírito natalino”, um período sempre marcado pelo aumento exponencial de mortes de animais não humanos.





Written by David Arioch

November 21st, 2017 at 11:34 pm

Marsilio Ficino, um filósofo renascentista contra o consumo de animais

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“Ele certamente recomendou o não consumo de carne. Sua defesa do vegetarianismo mais frequente envolvia os pitagóricos” (Acervo: Walker Art Gallery)

Nascido em Florença em 19 de outubro de 1433, o filósofo e humanista Marsilio Ficino, importante nome do renascimento italiano e mestre de Giovanni Pico della Mirandola, foi um dos principais divulgadores das ideias de Platão, Plotino e Pitágoras no século 15. Por influência desse trabalho baseado nas obras dos filósofos da Grécia Antiga, ele começou a refletir sobre o consumo de animais e se tornou vegetariano.

Filho de Diotifeci d’Agnolo, médico da Casa dos Médici, Ficino teve o privilégio de se dedicar integralmente aos estudos. De acordo com informações do livro “The European Renaissance – 1400-1600”, de Robin Kirkpatrick, publicado em 2002, Marsilio Ficino recebeu todo o apoio de Cosimo de Médici, o fundador da dinastia Médici, para traduzir e discutir os textos platônicos. Com o apadrinhamento da família mais importante de Florença à época, Ficino teve grande incentivo para discutir inclusive questões controversas, como as implicações do consumo de carne.

Mais tarde, assumiu também a posição de tutor do estadista Lorenzo de Médici, conhecido como Lorenzo Il Magnifico. Segundo o livro “Murder in Renaissance Italy”, de Trevor K.P. Lowe, lançado em junho de 2017, Marsilio Ficino traduziu a obra “Da Abstinência do Alimento Animal”, de Porfírio, servindo de referência para estudos sobre vegetarianismo. Ficino também conhecia muito bem as questões discutidas anteriormente por Pitágoras, autor de uma frase que sobreviveria ao tempo e se tornaria emblemática:

“Enquanto o ser humano for implacável com as criaturas vivas, ele nunca conhecerá a saúde e a paz. Enquanto os homens continuarem massacrando animais, eles também permanecerão matando uns aos outros. Na verdade, quem semeia assassinato e dor não pode colher alegria e amor.”

Ficino liderou a Academia Platônica de Florença, que também influenciou muitos artistas e pensadores da época, como Leonardo da Vinci, Michelangelo e Sandro Botticelli. Inclusive há estudiosos que defendem que da Vinci também era vegetariano, e por influência de Ficino. “Leonard passou pelos mesmos círculos intelectuais de Ficino, e também explorou a nova filosofia do vegetarianismo baseada na crença dos pitagóricos”, escreveu D.A. Brown no livro “Leonardo da Vinci: Origins of a Genius”, publicado em 1998. De acordo com Brown, Ficino e da Vinci se conheceram por intermédio do humanista, historiador e cardeal Bernardo Bembo.

“A maioria dos estudiosos do trabalho de Marsilio Ficino concordam que ele era vegetariano. Ele certamente recomendou o não consumo de carne. Sua defesa do vegetarianismo mais frequente envolvia os pitagóricos. As discussões com Ficino poderiam ser a forma como Leonardo da Vinci chegou ao vegetarianismo”, registrou Lowe na página 292 de “Murder in Renaissance Italy”. Platão, que o italiano tinha como principal referência filosófica, idealizava em “A República” uma cidade onde as pessoas não se alimentassem da matança de animais.

“Theologia Platonica”, uma das obras mais importantes de Marsilio Ficino foi publicada em 1482. O seu período de maior produção filosófica começou em 1474 e terminou em 1494. Ele também escreveu “De Amore”, lançado em 1484; e “De Vita Libri Tres”, publicado em 1489. O filósofo e humanista florentino faleceu em 1º de outubro de 1499.

Saiba Mais  

Marsilio Ficino foi ordenado sacerdote em 1473. Livre de amarras intelectuais, ele se interessava pela vida de Zoroastro e Orfeu.

Referências

Kirkpatrick, Robin. The European Renaissance – 1400-1600. Página 88. Routledge; First Edition (2001).

Lowe, Trevor K.P. Murder in Renaissance Italy. Página 292. Cambridge University Press (2017).

Brown, David Alan. Leonardo da Vinci: Origins of a Genius. Páginas 118-120. Yale University Press (1998).





Um outro olhar sobre o “Leitão à Pururuca”

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Trata-se de um pequeno animal que não raramente é morto aos 21 dias

Encontrei uma foto que me chamou a atenção, acompanhada de uma receita. Estava com a seguinte legenda: “Leitão à Pururuca – o delicioso sabor mineiro na sua ceia.” É um dos pratos indicados para o Natal. Trata-se de um pequeno animal que não raramente é morto aos 21 dias. Claro, pode ir além. Afinal, ele vive até o momento em que chega ao auge do que podemos chamar de palatável.

Temperado com óleo, cebola, alho, salsa, limão, pimenta dedo-de-moça, sal e azeite, o leitão, morto precocemente, é assado e servido com a pele torrada, parcialmente derretida em alguns pontos. Com uma boa e bela combinação de ingredientes, muitas pessoas não verão um animal, mas apenas um grande pedaço de carne.

Não importa se o que está diante delas ainda têm olhos, focinho, pernas, boca ou até mesmo unhas. Podemos chamar isso de dissimulação estética. Claro, cheiro e apresentação têm um grande poder de sugestão sobre o paladar. Para romantizar um pouco, podemos colocá-lo sobre uma caminha cuidadosamente enfeitada, que pode ser uma porção de farofa, alguns belos tomatinhos e um raminho de alecrim. Pronto! Agora é só dizer às crianças que aquela criatura morta e caprichosamente adornada não era um animal de verdade.

Observem as fotos do chamado “Leitão à Pururuca” e perceberão que sempre, ou quase sempre, o leitão está com os pés retorcidos. Não é difícil reconhecer que não se trata de uma criatura que morreu tranquilamente. Imagino que muitos se alimentarão de um animal assim no Natal. Infelizmente, não há como contestar. Entre uma garfada e outra, gestos e ações de empatia, celebrarão à vida com morte. Do leitão, não tenho dúvida que não sobrará nada. Na realidade, pode até sobrar. Talvez os ossos sejam lançados ao lixo, ou entregue aos cães que, diferentes de nós, comerão sem saber do que se trata.





Written by David Arioch

November 20th, 2017 at 5:18 pm

Você não acha que o veganismo é um arbitrário exercício de poder?

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O que existe de exercício de poder na consideração de que seres sencientes têm direito à vida, não merecem ser reduzidos a produtos?

— Você não acha que o veganismo é um arbitrário exercício de poder?

— O veganismo não é impositivo, é consciencioso. Como o veganismo pode ser um arbitrário exercício de poder se nos empurra à margem da sociedade? O que existe de arbitrário exercício de poder na consideração de que seres sencientes têm direito à vida, não merecem ser reduzidos a produtos? Uma prática comprovadamente desnecessária, provada pela existência de vegetarianos e veganos saudáveis. Ainda no século 19 e até a metade do século 20, o consumo de animais era uma forma de distinção social, de status. Ou seja, somos tão cruéis que matamos outras espécies para provar à nossa que não somos semelhantes. E que se posso matar uma criatura que você não poderia matar, por não ter recurso para tal, sou melhor do que você. Isso não soa extremamente absurdo? Irracional?

Na Inglaterra, Lord Byron e Percy Bysshe Shelley condenavam os excessos, a glutonaria e a crueldade da burguesia, que matava uma quantidade absurda de animais para servir em banquetes particulares, e ainda faziam chacota dessas criaturas. Somos seres muito estranhos, de fato, se ponderarmos que muitos lutam para ter o direito de também financiar a morte de criaturas que até então faziam parte apenas dos hábitos alimentares de uma pequena parcela da população. Vivemos em um mundo onde há pessoas que quando pensam em uma vida melhor, logo a associam com a ideia de se alimentar de animais considerados exóticos. Isso sim é um vislumbre de exercício de poder.

Hoje, sim, muitos têm acesso à carne, pelo menos se compararmos com outros períodos. Isso deveria realmente ser comemorado? Já que isso é consequência de um grande aumento da violência contra outras espécies. E a que custo a carne foi barateada, se tornou mais acessível ao longo do tempo? Isso aconteceu porque em vez de matarmos centenas ou milhares de animais, passamos a matar milhões e bilhões. Esse é o real preço por um tipo tétrico de acessibilidade.

Se eu fosse um animal não humano, mas gozando de consciência humana, obviamente que eu diria que o pior exercício de poder perpetrado contra os meus é aquele exercido pela humanidade. E claro, mesmo sendo um animal humano já reconheço isso como uma manifestação de perpetuação da barbárie travestida de civilidade.





Você sabia que quando foram abertos os primeiros zoológicos, os tratadores tinham de proteger os animais dos ataques dos espectadores?

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Elizabeth Costello: “Os espectadores sentiam que os animais estavam ali para serem insultados e humilhados”

Você sabia que quando foram abertos os primeiros zoológicos, os tratadores tinham de proteger os animais dos ataques dos espectadores? Os espectadores sentiam que os animais estavam ali para serem insultados e humilhados, como prisioneiros em uma marcha triunfal. Já promovemos uma guerra contra os animais, que chamamos de caça, embora, na verdade, guerra e caça sejam a mesma coisa (Aristóteles percebeu isso claramente).

Essa guerra foi travada ao longo de milhões de anos. Só a vencemos definitivamente faz algumas centenas de anos, quando inventamos as armas de fogo. Só quando a vitória foi absoluta é que pudemos nos permitir cultivar a compaixão. Mas a nossa compaixão é muito rarefeita.

Por baixo dela existe uma atitude mais primitiva. O prisioneiro de guerra não pertence à nossa tribo. Podemos fazer o que quisermos com ele. Podemos sacrificá-lo aos nossos deuses. Podemos cortar seu pescoço, arrancar seu coração, atirá-lo ao fogo. Não existe lei quando se fala de prisioneiros de guerra.

Páginas 118-119 de “Elizabeth Costello”, de J.M. Coetzee, publicado em 2003.