David Arioch – Jornalismo Cultural

Jornalismo Cultural

Archive for the ‘Vegetarianismo/Veganismo’ Category

As armadilhas e a perspectiva capciosa do “bem-estar animal”

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Foto: Jo-Anne McArthur/We Animals

Você já percebeu como quando se fala em exploração animal sempre aparece alguém dizendo que há situações em que os animais não sofrem, que eles não são privados de nada, que não há nada de errado nisso? Esse fato tem relação direta com algo que eu chamo de “malícia da produção”. E o que é a malícia da produção?

É quando, por gozarmos de uma inteligência superior a dos animais, manipulamos a inocência não humana visando a lucratividade. Não quero discorrer sobre casos óbvios de crueldade explícita contra animais na produção industrial. Quero versar sobre algo relacionado à “cegueira do justo”, que surge quando somos incapazes de visualizar algo que por uma questão cultural, conveniente e unilateral não nos pareça evidente nem concreto.

Não é incomum alguém que considera o veganismo radical citar o exemplo de uma bela fazenda modelo, onde os animais são supostamente bem tratados. Sei que esses chamados locais existem. Mas essa concepção de bem tratado é definida por quem? Por quem explora ou por quem é explorado?

Se exploro um animal e sou eu que digo se ele é bem tratado ou não, quem define o que é aceitável ou bom para ele sou eu, obviamente, e levando em conta em primeiro lugar o que esse animal tem a me oferecer. Humanos que exploram animais têm sempre uma perspectiva um tanto quanto capciosa do que é o chamado “bem-estar animal”, porque eles entendem que qualquer oposição ao que fazem representa em algum nível um risco aos seus lucros.

Sendo assim, não acho que a única baliza para considerar o que é certo ou errado em relação à nossa intervenção na vida dos animais seja o sofrimento óbvio, a tortura, a crueldade baseada na violência física. Na realidade, existe um ponto que não costuma ser muito considerado, embora seja de suma importância nessa conscientização. Que ponto é esse? É a malícia da produção fundamentada no condicionamento animal.

Caso você seja contra a exploração de animais, em algum momento da sua vida alguém vai querer te apresentar uma “vaca feliz”, um animal supostamente bem-tratado e que dizem nunca ter passado por nenhum tipo de privação. Sim, pode ser que ela não tenha sofrido nenhum tipo de violação que nos pareça óbvia. No entanto, isso não significa que esse animal não tenha sido privado de ser mais do que uma fonte de alimento ou produto. Mas como assim?

Imagine uma situação. Você é criado para ser objetificado, para ser explorado desde o momento em que nasce. Essa é a sua realidade e isso é tudo que você conhece. Então é claro que a menos que você passe por uma situação mais explícita de privação e violência pode ser que você não manifeste contrariedade em relação à forma como vive, mas isso porque te condicionaram a aceitar uma vida para a qual você não deveria ter nascido, porque não diz respeito, de fato, a quem você é, e às suas reais necessidades. Porém, se você está imerso nessa realidade, e isso é tudo que você conhece, como esperar que você veja isso com estranhamento?

Em vários momentos da minha vida, conheci diversos animais criados para consumo que aos meus olhos pareciam ter uma bela qualidade de vida em uma fazenda. Mas por que tive essa impressão? Porque normalmente partimos da constatação mais evidente. Quero dizer, se um animal não está fisicamente ferido, se ele não está visivelmente estressado, se não aparenta precisar de nada, isso significa que está tudo bem. Esse é um exemplo clássico que serve para endossar o discurso comum dos produtores de leite quando alegam que se “suas vacas” não estivessem satisfeitas elas “esconderiam o leite”.

Para ser honesto, isso na minha opinião não diz nada. Mas por que? Porque se uma vaca foi criada para ser ordenhada, ela foi condicionada a isso, e você vai usar tudo que sabe sobre ela a seu favor para manter o controle da situação. Você leva vantagem sobre esses animais, e vai usar isso como parâmetro para potencializar a produção de tudo que, aos seus olhos, eles têm a oferecer enquanto fontes de produtos; mesmo que jamais tenham dado tal autorização, já que animais claramente não existem para nos servir, nós que os condicionamos a isso, seja por meio da violência inequívoca ou não.

Ou seja, a intervenção humana iniciada no princípio da vida de uma vaca, por exemplo, leva à normalização de algo que não deveríamos entender como aceitável, e claro que porque estamos falando de um alimento que não existe naturalmente para seres humanos, mas sim para bezerros. Ademais, vamos considerar que vacas sejam, de fato, bem tratadas nesse sistema.

Ela vai ter a chance de envelhecer ao lado do bezerro? Não, porque prioritariamente o leite é destinado aos seres humanos. Ela vai ter a oportunidade de pelo menos envelhecer? Não, e por um fator mercadológico ululante – a drástica queda na produção de leite culmina no envio da vaca para o matadouro, e não raramente o seu destino são as pequenas porções de hambúrgueres dispostas na seção de frios dos mercados.

Não esqueça também que muitas das doenças modernas que acometem esses animais têm relação com o sistema de produção. A verdade é que qualquer doença severa e onerosa já resulta no sacrifício do animal, porque nenhum produtor vai deixar de ponderar a relação entre preservação da vida x lucro. Existe alguma legislação que assegure que um animal não morra nessa circunstância? Não. Então como podemos falar em bem-estar animal quando isso mascara fatos irrefutáveis de que a vida do outro não é uma prioridade?

Creio que o condicionamento animal é uma das maiores barreiras dos direitos animais e do veganismo, porque o condicionamento, tanto humano quanto não humano, endossa a aceitação à exploração animal. Animais criados para consumo estão entre os mais inocentes, ingênuos e previsíveis. Claro, não foi por acaso que seus ancestrais foram domesticados. Com base nesse potencial, a humanidade criou ao longo dos séculos “versões” ainda mais dóceis e facilmente condicionáveis. Afinal, isso explica por que no passado escolhemos criar bois e porcos para consumo e não leões e tigres, não é mesmo?

Se você analisar mesmo que superficialmente a história dos muitos povos escravizados pela humanidade, você verá que entre eles sempre existiram muitos que, em decorrência de terem sido escravizados desde a tenra idade, e tendo pouco ou nenhum contato com outra realidade, não viam isso como uma arbitrariedade, mas apenas um triste destino, uma infelicidade, um desamor proveniente de Deus ou até mesmo uma danação baseada na sua própria condição física ou étnica.

Então, te pergunto: “Se tivemos muitos seres humanos que mesmo sendo ostensivamente e visceralmente privados de qualquer direito ainda se conformavam com isso, por que animais não humanos, que sequer partilham do mesmo código comunicativo que nós, não se conformariam? Ou pelo menos não teriam sua conformação condicionada?” Animais humanos e não humanos têm níveis de resistência equiparáveis em alguns níveis e aspectos, porém toda resistência tem limites.

Animais que já não reagem diante da morte, como o boi que aceita o dardo da pistola pneumática em seu cérebro sem tentar escapar da caixa, o porco que passa horas com o olhar disperso sem mudar de posição em uma fazenda, o frango que deixa de bater as asas durante a viagem ao matadouro dentro de uma gaiola de plástico – nenhum desses são exemplos de que está tudo bem em matar e consumir animais, mas sim de que aproveitamos de suas vulnerabilidades para fazermos o que quisermos com eles. E como somos mais inteligentes, usamos isso a nosso favor, mesmo que em ações notoriamente imorais se partimos da perspectiva de que, mais cedo ou mais tarde, obliteramos a vida de quem não quer morrer, assim que o seu “propósito” de proporcionar lucro for cumprido.

Sim, somos ardilosos quando matamos pintinhos machos porque eles não têm valor comercial; quando fazemos debicagem de aves; quando extraímos ou desbastamos dentes de suínos, tradicionalmente sem anestesia; quando eletrocutamos o gado a caminho do matadouro ou de um navio para exportação de “carga viva”; quando marcamos animais com ferro quente; quando usamos iluminação artificial para enganar o relógio biológico das galinhas poedeiras visando ganho em produtividade; quando alimentamos “muito bem” animais que serão mortos em poucos meses.

Afinal, não os alimentamos “muito bem” para satisfazê-los, mas simplesmente para obter melhor produtividade. Mas não somente isso. E o que dizer das abelhas? Pequenos animais que têm sua rotina manipulada pela intervenção humana para que possamos garantir uma quantidade de mel considerada aceitável para os nossos padrões. Toda a apicultura é baseada na artificialização da rotina das abelhas. Ou seja, o ser humano aproveitando-se da ingenuidade animal. E nesse processo, quando elas são acometidas por parasitas, matamos até as saudáveis, porque seria muito trabalhoso identificar as enfermas.

Pergunte-se: “Por que abelhas dariam naturalmente mel aos seres humanos se esse alimento é produzido por elas para atender suas necessidades nutricionais quando são incapazes de saírem para buscar mais néctar e pólen?” Seja em situação de adversidade climática, queda de temperatura ou carência de floradas. E mais importante, não se engane, mesmo que um animal criado para consumo pareça extremamente saudável e satisfeito, isso não significa que ele seja ou esteja, e muito menos que isso seja certo. Afinal, o que você está testemunhando é apenas resultado de mais um condicionamento visando aquilo que é sempre prioritário – o lucro.





 

Ser vegano é mais fácil do que você imagina

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“Free Me”, clássico vegano de John Feldmann, completa 16 anos

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Feldmann protestando contra a KFC em Melbourne, na Austrália (Foto: Animal Liberation Victoria)

O clássico vegano “Free Me”, “Me Liberte”, música escrita e gravada por John Feldmann, conhecido internacionalmente como o fundador da banda de punk rock/ska Goldfinger, está completando 16 anos. A composição faz parte do álbum “Open Your Eyes”, lançado pela banda em 2002. Na composição, Feldmann assume a voz dos animais explorados pela humanidade das mais diferentes formas. O clipe da música apresenta imagens registradas em fazendas, matadouros, laboratórios, indústrias e espaços de entretenimento.

Desde que se tornou vegetariano em 1996, Feldmann fez dos direitos animais a sua principal bandeira. Ele é da opinião que, se alguém estiver disposto a ouvi-lo, ele é capaz de passar o dia todo falando sobre a importância dos direitos animais, justificando que a causa se tornou a coisa mais importante da sua vida.

Algumas pessoas podem dizer que a realidade retratada no clipe “Free Me”, que ganhou várias versões, não retrata a realidade de todos os matadouros, e que são casos isolados. Porém, para quem pensa assim, Feldmann tem uma mensagem: “A verdade é que isso acontece em todos os lugares e a todo momento. No final dos meus shows, pelo menos 20 jovens me dizem que vão se tornar vegetarianos ou veganos por causa desse vídeo [Free Me], ou da música, ou da nossa banda. Isso é a coisa mais poderosa de todas que conquistei em minha carreira”, declarou.

Questionado sobre o que o motivou a tornar-se vegetariano e mais tarde vegano, ele contou que a sua transformação começou quando, por meio de informações do Instituto Earth Island, de São Francisco, ele soube dos abusos sofridos pelos golfinhos. “Eu disse: ‘Isso é errado, o que posso fazer?’ Então parei de comer atum de empresas que usavam redes [responsáveis pela morte de golfinhos]. A partir daí, comecei a prestar atenção nos circos, de onde vem o couro, coisas assim”, informou em entrevista à revista Satya em maio de 2003.

A mudança maior veio com “Babe”, de Chris Noonan, lançado em 1995. O filme levou John Feldmann a fazer a conexão entre os animais e a origem da comida. “Parei de comer porcos assim que vi o filme. Então todas as outras coisas, como pedaços crocantes de frango que eu mordia, fiquei como: ‘Por que estou comendo isso? O que estou fazendo?’ É tão errado! Naquele tempo, eu não tinha ideia das atrocidades nos matadouros”, justificou.

O impacto foi ainda maior quando descobriu que porcos são espertos como os cães. Depois, ele continuou pesquisando e encontrou muitas filmagens de matadouros. “Aquilo foi horrível. Quanto mais eu buscava, mais eu encontrava. Para mim, os laticínios são os piores. Cheguei a preferir que as pessoas comessem um bife do que bebessem um copo de leite, porque pelo menos a vaca logo estaria livre de sua vida miserável. Com o leite, a situação é outra [o sofrimento é prolongado, já que elas são abatidas somente quando param de produzir leite]”, lamentou à Satya.

Embora tenha sido lançado em 2002, o vídeo da música “Free Me”, ou “Me Liberte”, em que Feldmann reage contra a indústria da exploração animal ao dar voz aos animais, é considerado um dos hinos dos direitos animais, inclusive sendo usado até hoje por organizações e ativistas de todo o mundo.

Saiba Mais

Em 15 de outubro de 2003, enquanto estava em turnê com o Goldfinger pela Austrália, John Feldmann endossou um dos protestos organizados pela Animal Liberation Victoria contra a rede de fast food KFC por envolvimento em crueldade contra animais.

Me Liberte

Eu não pedi pra você me tirar daqui
Eu não pedi para ser quebrado
Eu não pedi para acariciar o meu pelo
Você me trata como uma lembrança sem valor

Mas minha pele é densa
E minha mente é forte
Fui criado como meu pai
Não fiz nada de errado

Então me liberte
Eu só quero sentir o que a vida deveria ser
Eu só quero espaço suficiente para me virar
E enfrentar a realidade
Então me liberte

Quando você vai se dar conta de que
Você está errado
Você não consegue nem pensar por si mesmo
Você não consegue se decidir
Por isso, minha mente é uma jaula
Eu odeio toda a maldita raça humana
Que diabos você quer de mim?
Mate-me se você não sabe
Ou me liberte

Eu só quero sentir o que a vida deveria ser
Eu só quero espaço suficiente para me virar
Porque vocês estão todos ferrados
Algum dia talvez você me trate como a si mesmo.

 

 

 

 

 





 

“Vixi, mano! Vegano?”

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Pintura: Tom Nuggent

Voltando para casa, encostei o carro rente ao meio-fio e atendi uma ligação. De repente, um cara em outro carro, e do outro lado da rua, esticou o pescoço para fora. Ele parecia levemente (ou não) embriagado.

— Ô, mano, que barba da hora. Empresta aí.
— O quê?
— A barba. Empresta aí.
— E como seria emprestar a barba?
— Corta um pedaço aí e joga pra cá.
O rapaz abriu o porta-luvas e mostrou um tubo de cola.
— Olhe aqui, problema resolvido.
Esfregou um pouco de cola nas maçãs e sorriu.
— Não posso fazer isso. Não faz o menor sentido — respondi.
— Eu pago, irmão. Não é de graça não. Olhe aqui, po. Já estou com o rosto branco.
— Por que você fez isso, cara? Isso é perigoso. É tóxico, e pra piorar essa cola nem deve ser vegana.
— Quê?
Silêncio. Começou a gemer e a tremer como se estivesse tendo uma convulsão.
Desci do carro para socorrê-lo.
— Rá! Te peguei! — gritou e começou a gargalhar.
Minha barba se encolheu como um pequeno arbusto massageando o meu pescoço.
— Não vai topar mesmo?
— Já disse. Não tenho interesse, mas obrigado.
— Caramba, mano! Você é mau!
— É que sou vegano. Toda vida importa pra mim, inclusive a da minha barba.
— Vixi, mano. Vegano? Mexo com essas coisas não. Valeu!
Deu partida no carro e foi embora com o rosto cheio de cola.




 

Written by David Arioch

February 16th, 2018 at 11:48 pm

Por que o veganismo é possível

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“Ah, você não come nada de origem animal, mas não tem como fugir desse sistema…”

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Foto: Jo-Anne McArthur/We Animals

— Ah, você não come nada de origem animal e evita consumir qualquer produto de origem animal, mas você não tem como fugir desse sistema. De alguma forma, você ainda contribui.

— Entendo seu ponto. Mas agora tente entender o meu. O que será que é mais benéfico para os animais, a minha consciência de que eles não devem ser vistos como comida ou produtos ou a sua de que nada deve ser feito e devemos explorá-los à vontade? Parto inclusive de uma consciência minimalista milenar de que não fazer nada é sempre pior do que fazer alguma coisa. O que você acha? Muitas vezes somos ignorantes em decorrência não apenas do que não enxergamos, mas também do que aos nossos olhos rejeitamos. Porém, só a ideia de uma consciência em transfiguração já é um indicativo não apenas de uma real vontade, mas de um pequeno despertar para uma diferença que ao longo do tempo pode ganhar formas tão surpreendentes que os alheios jamais entenderão.





 

Written by David Arioch

February 15th, 2018 at 4:38 pm

A realidade do Carnaval que muitos ignoram

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Written by David Arioch

February 13th, 2018 at 2:08 am

Os equívocos no discurso de Anderson França contra os veganos

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Sobre veganismo, França revela incompreensão, talvez por pré-conceito baseado em recortes unilaterais

Anderson França já publicou inúmeras críticas equivocadas sobre veganos e o veganismo (Foto: Reprodução)

Anderson França é um escritor com muitos seguidores no Facebook. Admito que até pouco tempo atrás eu não sabia quem ele era, até que alguém me mostrou algumas de suas publicações fazendo críticas e oposição aos veganos e ao veganismo. Antes de escrever este texto, decidi dar uma rápida olhada no trabalho dele. Me parece um autor com uma perspectiva interessante da vida e do mundo, que tem uma preocupação com a questão da justiça racial e social; que não recorre a subterfúgios para abordar a realidade como é, de forma direta e clara. Porém, quando publica alguma crítica a veganos ou ao veganismo revela falta de entendimento do assunto, talvez por pré-conceito baseado em recortes unilaterais.

No dia 6 de fevereiro, ele publicou um texto declarando que “quando veganos dizem ‘humanos’, eles não querem assumir a responsabilidade dos humanos BRANCOS pelo consumo em massa de carnes. Eles mandam um ‘humanos’ pra tu pegar no ar.” Desculpe-me, mas essa interpretação não condiz com a realidade. O uso do termo “humanos” se sustenta em uma questão óbvia de semântica e literalidade. O veganismo é sobre nossas responsabilidades enquanto espécie, independente de cor, etnia ou qualquer outra coisa. Não se trata de amortização de responsabilidades, e isso parece incomodá-lo.

A questão é que se dizemos que os “brancos são os grandes culpados pela exploração de animais”, isso significa então que está tudo bem se os outros continuarem explorando e consumindo animais porque pretensamente a responsabilidade deles seria menor. Não, isso não é coerente e justo. Do ponto de vista do veganismo, qualquer ser humano envolvido na desnecessária exploração e objetificação animal contribui com esse sistema, de forma consciente ou inconsciente, já que atua como um reforçador dessa trivialização em menor ou maior proporção. Se me alimento de animais, não interessa a qual grupo étnico eu pertenço, porque evidentemente ajudo a endossar esse sistema exploratório.

Sim, “os brancos” foram os maiores responsáveis pela introdução do sistema industrial de criação de animais após a Segunda Revolução Industrial, até por uma questão óbvia de maior controle dos meios de produção. Não creio que isso seja novidade para vegetarianos e veganos. Não conheço ninguém que negue isso. Contudo, em menor ou maior nível, praticamente todos os povos humanos contemporâneos estão envolvidos na exploração e na objetificação animal.

O que muda basicamente são as motivações dessa exploração e desse consumo. Há minorias, como os inuítes e alguns outros povos nativos que vivem em áreas remotas, que fazem isso, de fato, por uma questão de sobrevivência. E há populações maiores, de bilhões de pessoas, às quais pertencemos, que estão nessa por fatores históricos e culturais. Afinal, desde muito cedo, nós, assim como nossos ancestrais, somos motivados a consumir animais porque estamos imersos na ilusão de que se alimentar de seres não humanos é essencial, por força de uma propaganda que visa apenas o lucro e que se fortaleceu a partir do início do século 20.

Segundo Anderson França em 18 de março de 2017: “São 9 da manhã, e Maria, vó de 4 filhos, pede pra um deles ir no mercadinho comprar uma caixinha de Nuggets. Ou como minha mãe, que no aperto, era linguiça da mais barata, UMA, pras bocas dividirem com arroz. Seco. Ou na família de milhões de pessoas, onde ‘a opção da proteína’ não é uma opção, as pessoas não comem carne porque querem, veganos.” O exemplo acima se enquadra na frágil crença na necessidade da proteína de origem animal. A população humana tem necessidades proteicas bem modestas, com exceção de atletas e praticantes de atividades físicas de alta intensidade. Se Maria ou a mãe de Anderson França tivessem descartado os nuggets ou a linguiça, a refeição teria sido mais saudável. Mas não o fizeram por costume e desconhecimento, o que é muito comum.

Negamos que, por falta de informação ou não, muitos comem animais porque gostam ou por hábito, e até mesmo quando escolhem as chamadas “piores opções” ou as “opções mais baratas”. Afinal, que tipo de nutriente essencial à vida alguém pode obter consumindo empanados, linguiças e salsichão? Não seria um gesto de amor ou altruísmo alertar as pessoas sobre os malefícios desses alimentos em vez de defender esse consumo apenas para fazer oposição ao veganismo?

E por que as pessoas insistem no discurso que devemos comer arroz, feijão e carne? Mero costume, e a carne quase sempre é destacada até com mais importância do que outros alimentos vegetais nutritivos e mais baratos. Duvida? Procure por promoções em feiras e mercados. Eu, por exemplo, compro mais de 10 quilos de vegetais com R$ 15 a R$ 20 em promoções semanais; e são alimentos que suprem diversas das minhas necessidades nutricionais. Acha isso impossível? No Facebook, há grupos e páginas como Veganismo Popular, Veganos Pobres Brasil, Vegana Pobre e outros que auxiliam quem acredita que não tem condições financeiras para ser vegetariano ou vegano. Os participantes podem inclusive interagir com moradores da mesma cidade, tirarem dúvidas, etc.

Quando me falam da impossibilidade em ser vegano, costumo contar a história do poeta sírio cego Al Ma’arri que viveu no século XI e enfrentou grandes períodos de miséria em sua vida. Ele se alimentava principalmente de feijões e teve uma velhice tranquila. Al Ma’arri não consumia nada de origem animal. Então como alguém pode dizer que hoje é impossível não se alimentar de animais? Que hoje é difícil ser vegano se há centenas de anos outros trilharam esse caminho?

Em crítica aos veganos, Anderson França declarou em 18 de março de 2017 que “O agricultor SOCA veneno na fruta, e você compra, no seu supermercado da Zona Sul, após uma sessão de meditação no Jardim Botânico, tudo em harmonia, coloca na egobag, vai de bicicleta, passa sem falar com o porteiro, continua sendo um/uma egoísta que, agora, acha que é o momento de dizer pra milhões de pessoas, o quanto você estava certo. Que vida mesquinha, caras. Sai desse quadrado. Milhões de trabalhadores comem mal, comem comida processada, porque o tempo que gastam no trânsito, no trem, ônibus, BRT, Kombi, ida e volta, e o tempo no trabalho, lavando, descascando, embalando a fruta que você come depois do Ioga, isso tudo tira deles o momento com a família, tipo Fátima Bernardes no comercial com sorriso de orelha a orelha, servindo um prato com comida de plástico feita na agência de publicidade, com carininha, cenorinha, poesiazinha.”

Bom, eu não sei em quem o autor se baseou para fazer tal afirmação, mas é estranho usar um exemplo tão caricato e pejorativo para se referir a veganos de forma generalizada. Quem se preocupa com vidas não humanas é egoísta? Todos os veganos vivem na “Zona Sul”? Todos os veganos ignoram o porteiro? Todos os veganos têm tempo de sobra? É importante entender que veganos também lutam contra o uso de agrotóxicos, que por sinal é consumido em maior quantidade por quem consome animais do que por quem não consome, já que os animais criados para consumo se alimentam de enormes quantidades de vegetais contaminados com defensivos agrícolas, para não dizer pesticidas, praguicidas ou biocidas. Afinal, o ser humano tem predileção por matar e consumir animais herbívoros, já que a ideia de consumir um animal que comeu outro animal o enoja, a não ser quando ele é o próprio comedor de animais, o que é um ruidoso paradoxo.

Sobre as pessoas se alimentarem mal, como citado pelo escritor, creio que tenha mais relação com desinformação do que com tempo. Não considero a falta de tempo uma justificativa válida para não se alimentar um pouquinho melhor. A maioria dos veganos que conheço têm uma rotina bem atribulada. Há aqueles que saem de casa às 4h e retornam à noite. Quando o tempo é escasso, dedicam algumas horas do final de semana a prepararem alimentos e congelá-los para consumirem no decorrer da semana. Ou então improvisam com alimentos de rápido consumo, até mesmo frutas. Sou da seguinte opinião, se você não se importa com a sua própria vida, e prefere sabotá-la, siga em frente, mas saiba que talvez amanhã você não esteja aqui para amparar seus filhos e outros familiares. Não há nada que justifique o consumo de animais no mundo em que vivemos, muito menos o pretexto da saúde.

Escritor considera a alimentação vegana elitista, mas faz publicidade de “salmão com arroz basmati e legumes”. (Imagem: Reprodução)

Também me chamou a atenção uma publicação de Anderson França do dia 27 de junho de 2017 em que ele faz publicidade de um prato de “salmão com arroz basmati e legumes” por R$ 38 + taxa de entrega. Partindo de alguém que publica textos sobre acessibilidade e critica o veganismo por ser um “movimento elitista” e inacessível, reconheço que foi uma estranha surpresa. Fiquei imaginando quantas frutas, legumes, tubérculos e leguminosas eu poderia comprar com R$ 38 + taxa de entrega. Daria para alimentar ocasionalmente vários veganos. Provavelmente, eu compraria mais de 30 quilos de vegetais em um bom dia de promoção, e sem incentivar a exploração animal ou desconsiderar o risco de intoxicação por consumo de salmão criado em cativeiro e colorido artificialmente.

Outro ponto de reflexão é que a idealização de “qualidade de vida” associada ao consumo de “carnes nobres”, que parte de um equivocado senso comum, e é reproduzida por tanta gente, é a mesma dos glutões burgueses britânicos da era vitoriana, dos abastados da Grécia Antiga e dos imperadores romanos, que faziam da carne um símbolo de ostentação, de segregação social. Sendo assim, será que é coerente o oprimido buscar tomar parte em hábitos perpetuados a partir de uma consciência opressora? Não seria isso uma contradição? Ou será que o discurso de oprimido deve girar apenas em torno do que não diz respeito às nossas próprias inconsistências?

Anderson França enfatizou também que veganos brancos fazem parte de “uma civilização baseada na conquista e submissão de outros povos, e criam narrativas que sempre os coloca no centro.” Como veganos podem se colocar no centro se eles lutam contra o antropocentrismo e o especismo? Tomar para si o protagonismo de algo pode ser uma falha humana, mas sem relação com ser vegano. Uma rápida consulta sobre o conceito de veganismo rebate essa concepção não apenas incorreta como capciosa.

Eu já acredito que ao defender o consumo de animais o autor está endossando exatamente o que critica: “a civilização baseada na conquista e submissão de outros povos”. Se uma pessoa financia esse sistema, usufruindo do que ele oferece, ela tem responsabilidade sobre isso, não importando sua cor ou etnia, já que quando falamos em objetificação ou coisificação visando lucro o que importa é apenas uma coisa – números, tanto faz a cor ou etnia de quem está consumindo ou pagando.

Segundo Anderson França sobre o “pensamento eurocentrado” e o veganismo em 6 de fevereiro: “Visa manter os privilégios do sujeito branco, e de seus descendentes. Portanto, não seria demais revisitarmos o que estamos chamando de SISTEMA nos últimos 2 mil anos, uma vez que esse sistema passa por cima de outros para manter a sua narrativa. É aí que mora o perigo. Não é nem sobre o que você põe na sua boca ou no seu corpo, ou porque ‘ama’ animais, ou porque entende que isso seria justo com o ecossistema. É porque, por trás disso, ainda persiste a mão dessa cultura sobre outras.”

Veganos podem ter atitudes equivocadas como qualquer pessoa que luta por outra causa. No entanto, é importante ter o cuidado de não reproduzir inverdades, dando a entender que o veganismo é um movimento de “perpetuação do poder dos brancos”. Em 1944, o movimento vegano surgiu sim e formalmente por iniciativa de um inglês, logo caucasiano, chamado Donald Watson. Sim, em uma realidade europeia, mas por interesse de um carpinteiro que vivia na pequena Keswick, e que não tinha qualquer pretensão financeira em criar um movimento, mas apenas um anseio de fazer com que outras pessoas, assim como ele, passassem a reconhecer os animais como sujeitos de uma vida. Watson não pertencia a qualquer elite e se dedicava a isso voluntariamente.

Não vejo sentido em rivalidades desnecessárias que tencionam desmerecer uma causa simplesmente porque do alto de nossas predileções individuais não nos interessa porque não são sobre nós, mas sim sobre outras espécies. Todo tipo de exploração é tema de grande urgência se envolve vidas imersas em um universo de desconsideração. E nesse momento, o mais importante talvez seja um outro olhar para além do que chamamos de “nossas prioridades”.

Há muitas pessoas de causas humanitárias, e me incluo entre elas, que se tornaram veganas e ativistas dos direitos animais. O veganismo, como uma questão de justiça social não concorre com outras causas. Muito pelo contrário. Sobre o veganismo ser elitista, sim, isso é inegável se partirmos de uma perspectiva de acesso à informação e oferta de produtos industrializados. Há produtos que realmente são caros, até porque a oferta corresponde à demanda. Porém, é possível viver muito bem sendo vegano sem consumir esses produtos.

Para reforçar a minha contrariedade em relação a esse discurso do Anderson França, de que o veganismo é inacessível, cito o exemplo de Thallita Xavier, autora do artigo “Como é ser vegana e favelada”. Thallita inclusive ministra palestras simplificando o veganismo, mostrando como ele é facilmente praticável – bastando querer. Anderson França aparenta desconhecer a existência do Movimento Afro Vegano e da Feira Afro Vegan, realizada no Rio de Janeiro, e que tem motivado a criação de outras feiras nos mesmos moldes em outras capitais brasileiras.

O escritor ignora também que a defesa dos direitos animais não é sobre privilégios para não humanos, mas sim sobre o direito à vida, o direito de não sofrer por intervenção humana. Veganos têm o claro entendimento de que os animais são sencientes, conscientes e inteligentes; e não existem para nos servir, já que isso demanda privação, sofrimento e morte. Infelizmente, matamos por ano cerca de 60 bilhões de animais terrestres e pelo menos um trilhão de animais marinhos. Isso deveria ser aceitável? É um motivo bastante justo para abdicar desse consumo.

Sempre que me deparo com alguém publicando algo contra o veganismo, imagino se essa pessoa tem ideia do impacto de seu discurso; se ela sabe a quem está beneficiando. Por quê? Porque veganos lutam contra a desvalorização da vida animal, e quem se empenha em desqualificar o veganismo, dependendo do discurso, pode contribuir involuntariamente com quem realmente se beneficia disso. Um exemplo? Muitas pessoas que dizem lutar por justiça social ignoram o fato de que a criação de animais para consumo e a produção de alimentos para nutrir esses animais movimenta muito dinheiro no mundo todo.

Além disso, fora as consequências para os animais, há também a comprovada agressão ao meio ambiente, como registrada na Amazônia, onde a pecuária responde por 65% do desmatamento, invadindo inclusive áreas protegidas, de acordo com o Instituto do Homem e Meio Ambiente da Amazônia. Creio que não seja nenhuma novidade que grandes produtores e empresas desse ramo buscam favorecimento e flexibilização legal para crescerem e lucrarem cada vez mais. Então, o que eles fazem? Eles patrocinam políticos ou até mesmo se lançam na política para legislarem em causa própria – claramente perenizando as desigualdades sociais. E nesse cenário, quem são os maiores prejudicados? A população humana, os animais e a natureza.





 

Sou um justiceiro social…

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Foto: Jo-Anne McArthur/We Animals

Sou um justiceiro social, odeio as desigualdades sociais, as mazelas econômicas e políticas, sou contra a formação de latifúndios, mas não abro mão de ir ao mercado comprar minha carne, minhas caixinhas de leite e meus ovos.

Não me importo que isso signifique a manutenção do status quo, que esse dinheiro seja usado com finalidades que não me interessam, que sirva para eleger políticos que vão legislar em causa própria ou em benefício daqueles que os financiaram.

Tanto faz se isso tem impacto no meio ambiente, se nesse meio há casos de mão de obra análoga ao trabalho escravo; e menos ainda me importa se animais vão sofrer por causa disso. O mais importante é eu não saber de nada disso, porque assim posso continuar lutando por “justiça para todos”, uma justiça pela qual sou capaz de tudo, menos readaptar o meu paladar.





 

De que adianta você criticar os políticos se você os financia?

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