David Arioch – Jornalismo Cultural

Jornalismo Cultural

Archive for the ‘Vegetarianismo/Veganismo’ Category

Breve reflexão sobre testes em animais

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Acervo: Getty Images

Há empresas que não realizam testes em animais no Brasil, mas realizam em países que exigem a realização de testes para que um fabricante atue no mercado externo. Aceitar isso para lucrar é correto? Há empresas que também não realizam testes em animais, mas terceirizam. Isso é correto? Os dois casos me parecem antiéticos.

Written by David Arioch

September 21st, 2017 at 5:11 pm

Entenda por que você pode estar consumindo insetos

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Cochonillha, um inseto reduzido à corante pela indústria alimentícia, de cosméticos e tintas

Você costuma ler os rótulos dos produtos que compra? Alguma vez encontrou um ingrediente discriminado como “corante natural carmim de cochonilha” ou “corante carmim”? Sabe o que isso significa? Que esse corante vermelho foi extraído do corpo e dos ovos de um inseto homônimo, ou seja, chamado de cochonilha, que produz o que conhecemos também como ácido carmínico.

Esse corante está espalhado pela indústria alimentícia, de cosméticos e tintas. O setor de laticínios costuma usar muita cochonilha na fabricação de iogurtes e bebidas lácteas, entre outros produtos. Resíduos desse inseto estão em muitos produtos coloridos, como sucos industrializados, geleias, biscoitos, refrigerantes, sobremesas, queijos, catchup, molhos, embutidos, etc. Também são usados em frigoríficos para alterar o aspecto natural da carne.

E por que não substituir a cochonilha por um ingrediente de origem vegetal? Os fabricantes normalmente alegam que a cochonilha é uma matéria-prima melhor por causa da estabilidade ao calor, além de fatores de oxidação e níveis de acidez mais estáveis. O que resumindo significa que é vantajoso e mais cômodo para a indústria, sem levar em conta, claro, a opinião do consumidor em relação a isso. 

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Written by David Arioch

September 21st, 2017 at 5:01 pm

Como é possível e necessário ser vegano

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Não há como fugir da exploração no mundo em que vivemos. Então como é possível ser vegano nesse contexto?

Só o veganismo pode minimizar a privação e o sofrimento imposto aos animais

Às vezes, algumas pessoas falam em ser ou não ser 100% vegano, e essa confusão e descrença é algo que agrada a indústria da exploração animal, porque ninguém mais do que ela deseja que as pessoas vejam o veganismo como inviável em suas vidas, ou que questionem o seu papel como veganos. Não raramente, alguém diz: “Não me sinto como se fosse realmente vegano. ” Minha pergunta é: “Você faz o que está ao seu alcance?” Se sim, está tudo bem.

O veganismo foi gestado em âmbito urbano, dentro de uma realidade pós-revolução industrial. Não há motivo para o complicarmos. Claro que dúvidas são importantes, e se elas nos levam adiante, isso é positivo. Porém, nada do que é dito a respeito do que é ser ou não ser vegano, apresentando prováveis impossibilidades e contradições, deveria nos incomodar tanto. Há dúvidas e questionamentos que sem dúvida são pertinentes, mas há outros, como por exemplo, que compõem o que podemos chamar de literatura anti-vegana, que podem ser capciosos ou condutores de ideias equivocadas. Normalmente, muitas críticas ao veganismo esbarram em um ponto que considero importante –  entender o veganismo sob a ótica vegana. Mas obviamente que sou bem consciente de minhas limitações, e nenhuma delas me leva a desacreditar no veganismo, e simplesmente porque realmente acredito que não há motivo.

Mesmo quando o veganismo surgiu na Inglaterra em 1944, ninguém disse que veganos seriam pessoas perfeitas, que nunca tomarão parte na exploração animal em suas vidas. Não se trata disso. Se alguém aponta o dedo pra mim e diz: “Ah, cara, você não tem como evitar exploração o tempo todo. Como pode ser vegano?” Sim, eu não tenho como evitar tomar parte na exploração o tempo todo, porque naturalmente existe um sistema que é maior do que todos nós, mas é justamente por isso que sou vegano, porque é uma luta constante.

Se eu não precisasse questionar nada, isso significaria que o mundo já é vegano (também não usaríamos tal termo mais), e ninguém que é contra a exploração animal teria do que se queixar. Mas se reclamamos e até encontramos dificuldades nessa jornada, é porque ainda temos muito o que fazer. Acima de tudo, é a insatisfação e a exigência de novas alternativas que levem às mudanças, não à aceitação, rótulos ou apego ideológico. Veganismo é sobre redução de impactos.

É preciso fazer tudo que está ao nosso alcance para não tomarmos parte na exploração animal, simplesmente. Ou seja, é sobre dedicação, força de vontade, empatia. Evita-se comer tudo de origem animal, assim como usar qualquer produto de origem animal. Porém, há situações que fogem do nosso conhecimento e do nosso controle por vivermos em uma realidade baseada em um sistema que usa os animais até para as finalidades mais desnecessárias.

A maioria da população não tem a mínima ideia de como os animais não estão apenas em seus pratos, mas praticamente em tudo que elas usam, tudo mesmo. Quando um animal explorado pela indústria morre, muitas vezes não há o que enterrar, porque tudo que um dia fez parte de uma vida é transformado em algum produto. Isso não é estranho? Tem gente que qualifica isso como consequência e aproveitamento. Mas ignora-se que quanto mais um animal é qualificado como produto, mais ele se distancia de ser visto como vida para ser definido como objeto. E isso é extremamente absurdo.

A Primeira Revolução Industrial ocorreu entre 1760 e 1840 e a Segunda Revolução Industrial entre 1850 e 1945, e com elas surgiu toda uma cultura que intensificou o uso de animais como produtos, e a níveis inimagináveis. E isso não teve impacto somente para os animais não humanos, como podemos perceber em obras como “The Jungle”, de Upton Sinclair, que relaciona as duas formas de exploração, humana e não humana, por entender que são vilmente análogas em muitos aspectos.

Claro, o uso de animais como produtos também é um infeliz fator cultural, já que se trata de prática socialmente legitimada, mas é exatamente esse fator da depreciação da vida que nos leva à banalização de tantas coisas. Se um vegano é, por uma eventualidade, obrigado a usar algo que seja proveniente da exploração animal, por não haver alternativas, isso não significa que ele não é vegano, mas sim que há muito a ser feito e cobrado. Sendo assim, ser vegano neste mundo não é apenas possível como necessário.

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Written by David Arioch

September 21st, 2017 at 11:25 am

Não adianta ser vegano no mundo em que vivemos? Adianta sim!

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Os animais merecem a nossa consideração e respeito

— Cara, não adianta ser vegano neste mundo em que vivemos. Há muita exploração, não tem como fugir disso. Você acha que está fazendo uma grande diferença, mas na realidade isso é uma ilusão.

— Bom, eu não acho que estou fazendo uma grande diferença, eu acredito que estou fazendo a minha diferença. Quero dizer, faço o que faço porque acredito que é certo. Se serve para motivar outras pessoas, que bom. Mas mesmo que não servisse, eu não teria motivo para não seguir esse caminho. Mesmo que todas as pessoas à minha volta me contrariassem, eu continuaria. Afinal, minhas escolhas não são baseadas no que a maioria pensa. Até porque, se fosse, provavelmente não teríamos essa conversa.

Sim, a exploração está por todos os lados, mas é interessante notar que a cada dia cresce o número de pessoas que já não querem se limitar a viver ignorando essas mazelas, mazelas que muitos dizem que são secundárias, justificando que nesse caso evidencia-se o sofrimento animal em detrimento do humano, o que, sobretudo, não é verdade. Porém, essa leitura é esperada e normalmente surge em um contexto que pode ter duas explicações ou associações – desconhecimento ou interesse (que pode ser fundamentado ou não na falácia).

O desconhecimento é aceitável, porque não é malicioso, é mais facilmente mutável a partir de uma abertura conscienciosa. Já o interesse, nem tanto, porque subsiste na defesa do indefensável, que é o argumento capcioso usado por quem defende um status quo, ou seja, que tem algum interesse individual, pessoal, profissional ou coletivo na perpetuação de uma prática evidentemente perniciosa que é a exploração animal.

Sobre o veganismo ser uma ilusão, enquanto uma filosofia que preconiza justiça para seres vivos não humanos, devo discordar, evidentemente. Creio que ilusão é não rejeitar a exploração animal quando temos recursos para mudar pelo menos nossos hábitos. Quero dizer, no mínimo partir de algum lugar e aperfeiçoar a rejeição de acordo com nossas possibilidades e força de vontade.

Sem dúvida, é um equívoco encarar a exploração de animais como parte de um processo natural, quando, natural, de fato, é permitir que outros seres vivos vivam o seu pleno potencial sem a má intervenção humana. Há poucas coisas naturais no mundo quando falamos de nossas relações com os animais, começando pelo processo de domesticação forçada de outras espécies. A maioria dos animais que as pessoas comem e exploram hoje em dia, não surgiram assim na natureza. Podemos dizer que são criações humanas.

Outro ponto a se considerar é que nos iludimos diariamente com a ideia de que os animais criados para consumo, ou qualquer outra finalidade exploratória, são felizes em nos servir, quando eles não manifestam prazer nisso. Afinal, qual animal nasce com o anseio de tornar-se vítima de outra espécie? Nenhum. Todos querem viver sem sofrer, sem passar por privação. Inclusive vítimas de ações inevitavelmente predatórias.

Usamos a nosso favor o fato de que animais não humanos explorados exaustivamente são incapazes de verbalizar qualquer insatisfação. Podemos inclusive mentir sobre como eles se sentem, levando em conta seus movimentos e expressões incertas ou dúbias na nossa perspectiva. É mais fácil ainda quando estamos diante de alguém que não se importa muito com vidas não humanas, que já está imerso na legitimação e aceitação da objetificação.

Sabemos que há muitos casos, cotidianos ou não, envolvendo condicionamento animal que podem nos levar à reflexão sobre a dissimulação que impomos a outras criaturas. Coloque uma criança diante de um animal adestrado para proporcionar-lhe algum tipo de divertimento, seja uma criatura há muito domesticada ou não.

Provavelmente, o animal fará algo que, aos olhos ingênuos de uma criança que desconhece a natureza daquela vida não humana, pareça divertido, alegre ou bonito. Mas não é, pelo menos não para o animal, isto porque forjamos e falseamos até mesmo impressões de satisfação, júbilo e prazer. Naturalmente porque o animal não pode nos contrariar.

Esse fato costuma ser explorado de forma artificiosa ou sofística por quem lucra a partir da exploração de outras espécies. Já que as queixas não humanas, mesmo que existam, e sejam expressas de algum modo, permitem o surgimento de controvérsias e o levantamento de dúvidas por parte daqueles mais céticos e insensíveis ao sofrimento animal. Sendo assim também um terreno fértil para a desinformação.

Não é incomum nos depararmos com exemplos de criaturas “brincando” sem querer brincar, ou tendo uma atitude que inspire artificialmente algo de positivo, porque assim foram condicionadas. “Que lindo o que ele faz! Deve ter gostado muito de mim”, comentaria alguma criança, diante de uma ação bela, mas não natural de um animal. E nisso ignora-se o fato de que o que foi testemunhado não foi uma ação espontânea, mas condicionada, assim como muitas que endossam a crença de que somos superiores, logo temos o direito de fazermos o que quisermos com outras espécies, não importando se elas estão sendo obrigadas a tomarem parte em algo não natural.

Em síntese, a naturalização da exploração permite às pessoas olharem o condicionamento, a privação, o sofrimento e a morte de seres não humanos como consequência aceitável de um pretenso bem maior. A dissimulação quando é alicerçada em uma construção histórica e cultural faz da ilusão não apenas verossimilhante, mas uma própria expressão da realidade aos olhos de tanta gente, que partindo do pressuposto de que animais não são “explorados em vão”, mas sim para beneficiar a humanidade, tudo parece válido, principalmente porque é permitido não tomar conhecimento de como isso acontece.

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Written by David Arioch

September 20th, 2017 at 8:54 pm

300 mil animais são usados por ano nos testes do Botox

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De acordo com a European Coalition To End Animal Experiments, todos os anos cerca de 300 mil animais são usados em testes para avaliar reações adversas ao Botox. A maioria morre durante os testes. Aqueles que sobrevivem são mortos através de intoxicação por dióxido de carbono ou têm seus pescoços quebrados.





Written by David Arioch

September 20th, 2017 at 1:25 pm

Saiba quais são as marcas e grifes que continuam usando peles de animais

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Animais estão sendo modificados geneticamente para atender a demanda da indústria da moda

Algumas marcas e grifes que continuam usando peles de animais (proveniente das breeding farms, ou seja, fazendas onde animais silvestres são obrigados a procriarem para fornecerem matéria-prima para a indústria da moda):

Burberry, Christian Dior, Saint Laurent, Marc Jacobs, Diane von Fustenberg, Giorgio Armani, Dolce & Gabbana, Michael Kors, Gucci, Prada, Alexander McQueen, Louis Vuitton, Fendi, Tom Ford, Chanel e Karl Lagerfeld.

Alguma dessas grifes, como Michael Kors e Gucci, estão envolvidas no escândalo de criação de animais geneticamente modificados para produzirem muito mais pele em um curto período de tempo, segundo informações da ONG One Green Planet.

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Como alguém consegue dedicar anos de sua vida a infligir dor a outros seres vivos?

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Acervo: Peta

É difícil entender como uma pessoa, que provavelmente tem família e convive harmoniosamente com animais de estimação, consegue dedicar anos e anos de sua vida a infligir dor a outros seres vivos. Há quem defenda que mais de 50% das experiências realizadas com animais não chegam a lugar algum. Ou seja, quando algo dá muito errado (e aqui volto a reafirmar um mínimo de 50%), não são publicados nem artigos sobre o assunto. Quando digo dar errado significa que não há nem mesmo registros consistentes do que aconteceu com os animais usados nessas experiências. Ou seja, nessas situações, tudo é abafado.

E aqueles estudos que são conclusivos, muitas vezes são desconsiderados quando se trata de comparativos com seres humanos. Hoje de manhã, por exemplo, eu estava lendo sobre uma experiência envolvendo indução à amnésia. Animais recebiam até 300 choques diários. Imagine você falando sobre o seu trabalho e dizendo: “Ah, sou pesquisador. Meu trabalho é dar choque em animais, privá-los de comida e água, entre outras coisas.”

Em testes realizados em animais, sejam de vivissecção ou não, o animal dificilmente é sedado ou recebe anestesia. Afinal, por que iriam fazer isso se o objetivo é exatamente avaliar a reação a dor e a capacidade ou incapacidade de superá-la? Não é à toa que as taxas de mortalidade nesses experimentos são extremamente altas.

 

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Walter Brain: “Pessoalmente, não vejo razão para conceder uma mente aos meus congêneres humanos e negá-la aos animais”

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Foto: Walter Bird (1962)

Pessoalmente, não vejo razão para conceder uma mente aos meus congêneres humanos e negá-la aos animais (…) Pelo menos, não posso negar que os interesses e atividades dos animais estão relacionados com uma consciência e uma capacidade de sentir da mesma forma que os meus, e que estes podem ser, tanto quanto sei, tão vívidos quanto os meus.

Cada partícula de evidência factual apoia o argumento de que os mamíferos vertebrados superiores experimentam as sensações dolorosas de forma pelo menos tão intensa como nós. Dizer que eles sentem menos porque são animais inferiores é absurdo: pode facilmente demonstrar-se que muitos dos seus sentidos são muito mais desenvolvidos do que os nossos – a acuidade visual em certas aves, a audição na maior parte dos animais selvagens, e o tato noutros; hoje em dia, estes animais dependem mais do que nós de uma consciência o mais alerta possível em relação a um ambiente hostil.

Com exceção da complexidade do córtex cerebral (que não se relaciona diretamente com a dor), os seus sistemas nervosos são quase idênticos aos nossos e a sua reação à dor é extraordinariamente semelhante à nossa, embora encontrando-se ausentes (tanto quanto sabemos) os matizes filosóficos e morais. O elemento emocional é por demais evidente, expressando-se sobretudo sob a forma de medo e ira.

Walter Russell Brain, 1st Baron Brain, um dos mais importantes neurologistas do século 20. Página 27 do livro “Animal Liberation”, de Peter Singer.





Animais não humanos podem sofrer mais do que nós

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Acervo: Peta

Por vezes, os animais podem sofrer mais devido à sua compreensão limitada. Se, por exemplo, fizermos prisioneiros de guerra, podemos explicar-lhes que, embora eles tenham de se sujeitar à captura, a serem revistados e a perderem a liberdade, não serão molestados de outras formas e que terão a liberdade concedida no final das hostilidades. No entanto, se capturarmos animais, não podemos explicar-lhes que não pensamos em colocar suas vidas em risco. Um animal não consegue distinguir uma tentativa de dominação e limitação de movimentos de uma tentativa de matar: tanto terror lhe causa uma como a outra.

Página 30 do livro “Animal Liberation”, de Peter Singer.





“A única coisa que distingue a criança do animal, aos olhos dos que defendem que ela tem ‘direito à vida’, é o fato de ser, biologicamente, um membro da espécie Homo sapiens”

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Australian philosopher Peter Singer poses for an portrait at Yale University Press office to promote his new book “The Most You Can Do”, in London, Britain, June 11, 2015 (Photo: Tristan Martin)

Suponhamos que, como tantas vezes acontece, uma criança nasça com lesões cerebrais profundas e irreversíveis. A deficiência é tão grave que a criança nunca passará de um “vegetal humano”, incapaz de falar, reconhecer outras pessoas, agir de forma autônoma ou desenvolver um qualquer sentido de autoconsciência. Os pais, apercebendo-se de que não podem esperar qualquer melhoria no estado da criança, e não podendo despender ou pedir ao Estado que despenda os milhares de dólares necessários anualmente para os cuidados adequados à criança, pedem ao médico que mate a criança de uma forma indolor.

Deverá o médico fazer o que os pais lhe pedem? Do ponto de vista legal, não deve, pois, a este respeito, a lei reflete a perspectiva da santidade da vida. A vida de cada ser humano é sagrada. No entanto, as pessoas que diriam isto a respeito da criança não colocariam objeções ao abate de animais não humanos. Como podem elas justificar os seus diferentes juízos? Os chimpanzés, os cães, os porcos e os membros adultos de muitas outras espécies ultrapassam de longe a criança com lesões cerebrais nas suas capacidades de relacionamento social, de agir independentemente, de ter autoconsciência e de todas as outras capacidades que poderiam razoavelmente considerar-se como conferindo valor à vida.

Mesmo com os cuidados mais intensivos, algumas crianças gravemente afetadas nunca conseguem atingir o nível de inteligência de um cão. Nem podemos fazer apelo ao empenhamento dos pais da criança, uma vez que eles, neste exemplo imaginário (e em alguns casos reais), não querem manter a criança viva. A única coisa que distingue a criança do animal, aos olhos dos que defendem que ela tem “direito à vida”, é o fato de ser, biologicamente, um membro da espécie Homo sapiens, ao passo que os chimpanzés, os cães e os porcos não o são. Mas utilizar esta distinção como base para conceder o direito à vida à criança e não aos outros animais é, claramente, puro especismo. É exatamente este o tipo de distinção arbitrária que o racista mais cruel e assumido utiliza para tentar justificar a discriminação racial.

Peter Singer em “Animal Liberation”, de 1975.

 





Written by David Arioch

September 18th, 2017 at 6:23 pm