David Arioch – Jornalismo Cultural

Jornalismo Cultural

Divulgação do meu livro “Vegaromba” no Portal de Medicina Veterinária

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Written by David Arioch

January 11th, 2018 at 11:43 pm

Pitágoras, o primeiro filósofo grego a reprovar o consumo de carne e a matança de animais

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“Enquanto come as articulações de um cordeiro, você festeja com seus bons amigos e vizinhos”

Pitágoras: “Enquanto o ser humano for implacável com as criaturas vivas, ele nunca conhecerá a saúde e a paz” (Pintura: Peter Paul Rubens)

Dos filósofos da Grécia Antiga, Pitágoras é sempre apontado como o primeiro a questionar e a criticar o consumo de carne e a matança de animais. A ele é atribuída a célebre frase: “Enquanto o ser humano for implacável com as criaturas vivas, ele nunca conhecerá a saúde e a paz. Enquanto os homens continuarem massacrando animais, eles também permanecerão matando uns aos outros. Na verdade, quem semeia assassinato e dor não pode colher alegria e amor.” Tal frase foi registrada pelo poeta romano Ovídio, reproduzindo o discurso do filósofo grego.

Embora Pitágoras tenha se aproximado do que seria definido mais tarde como um tipo de vegetarianismo místico, há registros e histórias que revelam que ele realmente se preocupava com os animais não humanos, não apenas com a mácula e com a violência que o consumo de animais poderia causar e estimular. Pitágoras não considerava somente que a abstenção do consumo de animais era algo que poderia permitir que o ser humano alcançasse um grau mais elevado de consciência.

Ademais, independente de sua motivação em relação à defesa do não consumo de carne, o filósofo grego que nasceu em Samos séculos antes do surgimento do cristianismo é uma prova do quão é equivocada a crença de que a rejeição ou a crítica ao consumo de animais é uma premissa contemporânea. Esse seu posicionamento, em menor ou maior proporção, influenciou diretamente filósofos e pensadores como Plutarco, Sócrates, Platão, Teofrasto, Empedócles, Ovídio, Séneca e Apolônio de Tiana, entre outros.

Pitágoras chegou a associar o ato de comer carne com uma forma de canibalismo, e naturalmente o ato de matar animais para consumo como assassinato. Para entender essa sua posição basta partirmos da perspectiva de que nós seres humanos também somos animais, portanto, temos um vínculo de parentesco com os animais. Mas ainda assim nos alimentamos de animais.

Ele acreditava que tanto os animais humanos quanto os não humanos têm alma. A sua crença na transmigração de almas, ou seja, na ideia de que seres humanos podem renascer como animais não humanos e vice-versa endossava a sua posição, embora com um viés místico que mais tarde seria rejeitado pelo vegetarianismo ético. Porém, nem por isso, Pitágoras deixou de influenciar o vegetarianismo ético e até mesmo o veganismo como conhecemos hoje, já que à sua maneira, e considerando o contexto da época, ele também questionava a objetificação animal.

“As proibições de Pitágoras contra a matança e o consumo de animais não eram baseadas em superstições, totemismos ou tabu”, afirma a pesquisadora Mary Ann Violin no artigo “Pythagoras – The First Animal Rights Philosopher”, que integra o volume 6 do jornal de filosofia “Between the species”, publicado em 1990. Pitágoras defendia que não é menos bárbaro derramar o sangue de um animal do que o de um ser humano.

O filósofo grego expressou horror pela ideia de colocarmos cadáveres de outros animais dentro de nós. Ele considerava errado nos alimentarmos da “triste carne de animais assassinados”. Como registrado na obra “Metamorfoses” de Ovídio, Pitágoras disse algo como: “Enquanto come as articulações de um cordeiro, você festeja com seus bons amigos e vizinhos.” Pitágoras dizia que os açougueiros eram insensíveis às súplicas de um cordeiro ou bezerro, apesar do fato de seus gritos serem semelhantes aos gritos de um bebê.

Também foi Ovídio quem retratou Pitágoras como um filósofo que suplicava aos seres humanos para demonstrarem compaixão pelo sofrimento de todos os seres sencientes. Além das menções a ele na obra “Metamorfoses”, outro exemplo é uma história narrada pelo filósofo neoplatônico Jâmblico e mais tarde publicada no livro “Life of Pythagoras”, traduzido por Thomas Taylor e lançado em 1818 pela J.M. Watkins, da Inglaterra.

Jâmblico conta que quando Pitágoras estava viajando ao longo da praia de Síbaris para Crotona, ele conheceu alguns pescadores cuja rede ainda estava no mar. Naquele dia, Pitágoras previu o número de peixes que eles pegariam. Intrigados, os pescadores concordaram em fazer qualquer coisa se ele estivesse certo. Quando a rede foi trazida à terra, e os peixes contados, Pitágoras acertou o número exato de peixes e pediu que fossem devolvidos à água. Assim foi feito. Curiosamente, nenhum dos peixes morreu durante a contagem. Pitágoras deu aos homens o dinheiro que eles ganhariam com os peixes e seguiu a sua jornada para Crotona.

Pitágoras era um pensador à frente do seu tempo, tanto que entre seus alunos e seguidores haviam mulheres, ex-escravizados e bárbaros. De acordo com o biógrafo Diógenes Laércio, Pitágoras libertou um jovem chamado Zalmoxis e fez dele seu amigo. Sua escola de filosofia fundada em Crotona se destacava pela organização e pelas regras relativas à conduta prática e moral.

Segundo Mary Ann Violin, Pitágoras se negou a fazer distinção da carne e do sangue de animais humanos e não humanos. O filósofo costumava contar aos seus alunos e seguidores sobre uma era de ouro em que os lábios das pessoas não estavam “contaminados com sangue”. Enfatizava que era um tempo sem violência, em que todos viviam em paz. E foi exatamente pela repulsa à violência contra seres humanos e não humanos que quando Pitágoras e seus seguidores se reuniam em sacrifício aos deuses, eles apenas queimavam incensos e ofereciam mudas de carvalho a Zeus, louro a Apolo, rosa a Afrodite e videira a Dionísio. “Muitos contos milagrosos foram contados sobre Pitágoras e seu relacionamento com os animais”, escreveu Mary Ann no artigo “Pythagoras – The First Animal Rights Philosopher”.

Para o pesquisador Nathan Morgan, autor de “The Hidden History of Greco-Roman Vegetarianism”, publicado em 2010 pela Encyclopaedia Britannica, Pitágoras foi o primeiro filósofo do ocidente a deixar um legado vegetariano. “Ele sentiu que o consumo de carne era insalubre e fazia com que os humanos guerreassem uns com os outros. Por estas razões, ele se absteve da carne e encorajou os outros a fazerem o mesmo”, declarou Morgan.

Na biografia “Life of Pythagoras”, Jâmblico pontua que Pitágoras exortou os políticos de seu tempo a absterem-se do consumo de carne. Pois, se eles estavam dispostos a agirem com justiça em seu mais alto grau, era indiscutivelmente importante incumbi-los a não ferirem nenhum dos “animais inferiores”. Conforme palavras de Pitágoras registradas pelo filósofo neoplatônico, como eles poderiam persuadir os outros a agirem com justiça, se eles próprios provavam que se entregavam a uma avidez insaciável que consiste em devorar esses animais que nos são aliados? Pois, por meio da comunhão da vida estão, por assim dizer, unidos a nós por uma aliança fraterna.

Já a Stanford Encyclopedia of Philosophy, destaca que Pitágoras defendeu o vegetarianismo com base na sua crença na metempsicose, ou seja, na crença de que um mesmo espírito, após a morte do antigo corpo habitado, retorna à existência material, podendo reencarnar como ser humano ou não humano. Logo todos os animais devem ser respeitados. Também cita que Eudoxus de Cnido registrou que além de Pitágoras se abster de alimentos de origem animal, ele evitava proximidade com açougueiros e caçadores. A Stanford Encyclopedia of Philosophy informa ainda que, consoante Porfírio, Pitágoras sugeriu que devemos evitar consumir qualquer animal como se fôssemos consumir seres humanos.

A ética pitagórica que reprovava o consumo de animais teve um importante papel enquanto moral filosófica entre os anos de 490 a 430 a.C. O objetivo de Pitágoras, conforme registros de seus biógrafos e seguidores, era estimular a consciência do respeito à vida independente de espécie. O filósofo grego reconhecia as diferenças entre animais humanos e não humanos em relação ao raciocínio e à consciência. Por outro lado, via similitude principalmente em relação à senciência. O fato dos animais não verbalizarem suas necessidades, não deveria ser motivo para fazer deles um alvo fácil para a humanidade, na perspectiva pitagórica.

Incisivo em seu posicionamento, Pitágoras reprovava o sacrifício de animais e proibia que seus alunos ou seguidores tomassem parte nessa prática que considerava espúria. Acredita-se que o filósofo grego tenha decidido se abster do consumo de animais aos 19, 20 anos, passando a priorizar especialmente o consumo de ervas. Contudo, há divergências sobre como eram de fato os seus hábitos alimentares.

Segundo a obra “Life of Pythagoras”, de Jâmblico, Pitágoras passou a defender invariavelmente a abstinência do consumo de animais, justificando ser uma rejeição determinante para alcançar até mesmo a paz. Argumentava que aqueles que consideravam errada e desnecessária a morte de animais não humanos eram os mesmos que reprovavam a morte de pessoas e o surgimento das guerras. Pitágoras qualificava a guerra como um grande matadouro, e se tal matadouro banalizava a vida humana, mais ainda desvalorizava a vida não humana.

De acordo com Jâmblico, o filósofo grego de Samos relatou que só aquele que reconhece a comunidade de elementos que envolve os seres humanos e os animais é capaz de estabelecer em maior grau uma comunhão com aqueles que compartilham uma alma afim e racional. Advertiu também que a justiça é introduzida pela associação com outras pessoas, enquanto a injustiça é resultado da insociabilidade e negligência humana no que diz respeito a muitas coisas, inclusive o desinteresse ao que não nos parece conveniente.

Embora a história de Pitágoras esteja às voltas com inúmeras controvérsias, até pelo fato de sua vida e obra terem sido narradas e registradas por seus alunos e seguidores, é inegável que chama a atenção reconhecer que há 2,5 mil anos um filósofo fez oposição ao consumo de animais. No entanto, não é difícil encontrar pessoas questionando sobre o motivo pelo qual essa parte da vida de Pitágoras foi tão negligenciada pela história. Afinal, ele é mais conhecido como matemática, e basicamente pela associação de seu nome ao Teorema de Pitágoras.

Sobre isso, uma observação que talvez seja necessária é a de que Aristóteles fez franca oposição ao seu discurso contra a matança de animais. E como Aristóteles enquanto filósofo obteve muito mais êxito no Ocidente, inclusive endossando uma consciência antropocêntrica que reconhecia os animais apenas como seres disponíveis ao uso humano, a filosofia de Pitágoras acabou obscurecida e relegada a um universo menor. Já Aristóteles, que rejeitou a racionalidade animal não humana, ajudou a formar parte da base da atitude cristã ocidental, defendendo assim que criaturas sencientes não humanas poderiam sim ser privadas de justiça e da própria existência, já que isso beneficiaria uma espécie superior, ou seja, a espécie humana.

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Entre os vegetarianos, Pitágoras foi um nome de grande relevância até o século 19, tanto que até então os protovegetarianos e vegetarianos eram chamados de pitagóricos.

Pitágoras nasceu em Samos em 570 a.C e faleceu em Crotona ou Metaponto em 495 a.C.

Referências

Violin, Mary Ann. Pythagoras – The First Animal Rights Philosopher. Between the Species. Páginas 122-125 (1990).

Iamblichus. Thomas Taylor. The Life of Pythagoras. J.M. Watkins. London (1818).

Morgan, Nathan. The Hidden History of Greco-Roman Vegetarianism. Encyclopaedia Britannica (2010).

Ovid. Metamorphoses. Oxford World’s Classics. Oxford University Press (2009).

Wynne-Tyson, Jon. The Extended Circle: A Dictionary of Humane Thought. Penguin Group (1990).

Pythagoras. Stanford Encyclopedia of Philosophy (2005-2014).





 

Partido ANIMAIS precisa de 500 mil assinaturas para concorrer às eleições

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“Temos uma pauta clara, a ampla defesa de todos os animais nas suas representações biológicas”

Qualquer pessoa que entenda que a criação do partido é um direito democrático pode contribuir, seja preenchendo uma ficha de apoio ou ajudando a coletar assinaturas (Foto: Partido ANIMAIS)

No final de 2015, integrantes de mais de 20 organizações não-governamentais (ONGs) e representantes de 18 estados do Brasil se reuniram e concluíram que o Brasil precisa de um partido voltado à defesa dos direitos animais, já que praticamente todos os partidos ignoram essa causa. Como resultado de uma série de discussões, o grupo elaborou um estatuto e fundou o Partido ANIMAIS em agosto de 2016 mediante publicação no Diário Oficial da União.

Atualmente o partido já conta com o apoio de partidos e iniciativas que atuam na defesa dos direitos animais nos Países Baixos, Espanha, Portugal, Itália, Reino Unido, Estados Unidos e Austrália. Porém, para que o partido possa atuar como ferramenta política, ou seja, disputar as eleições nas esferas municipal, estadual e federal, é necessário que pelo menos 500 mil assinaturas válidas sejam entregues pelo partido ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE).

Sendo assim, o Partido ANIMAIS precisa de ajuda do maior número possível de pessoas que veem essa iniciativa como um bom ponto de partida para a defesa contínua dos direitos animais em âmbito político. Na realidade, qualquer pessoa que entenda que a criação do partido é um direito democrático pode contribuir, seja preenchendo uma ficha de apoio ou ajudando a coletar assinaturas. “A assinatura de qualquer pessoa é importante. Esse apoio não é filiação, quem colabora não tem qualquer compromisso com o partido. Apenas reconhece que o partido tem o direito de atuar como ferramenta política. As pessoas não precisam se preocupar, todos os dados são confidenciais e enviados apenas para o TSE”, explica o porta-voz Frank Alarcón.

O Partido ANIMAIS é o primeiro projeto político animalista latino-americano que conseguiu vencer todas as etapas burocráticas que o Tribunal Superior Eleitoral exige, desde o cadastro na Receita Federal, publicação no Diário Oficial e obtenção de CNPJ. Ou seja, todas as exigências do poder público. “Estamos agora na fase final e mais trabalhosa que é a obtenção das 500 mil assinaturas válidas. Queremos chegar a três milhões de fichas de apoio, porque isso seria um excelente sinal de que existe uma massa crítica, uma parcela significativa da sociedade civil que tem interesse genuíno na discussão e defesa dessas pautas que nos são caras, e que se voltam principalmente para a defesa dos animais não humanos”, relata Alarcón.

Na prática, o apoio ao Partido ANIMAIS ocorre de forma bem simples, bastando o apoiador informar dados como o nome completo, número do título de eleitor, zona de votação e assinatura semelhante a do título. Os dados devem ser precisos senão a ficha pode ser considerada inválida pelo Tribunal Superior Eleitoral. “Temos uma pauta clara e de fácil compreensão, a ampla defesa de todos os animais nas suas mais diversas representações biológicas. Além disso, estamos realmente focados na proteção do meio ambiente e na implantação de soluções que amenizam o imenso impacto humano causado sobre o planeta. Lembre-se: nós seres humanos também somos animais”, enfatiza Frank Alarcón.

O partido fundado em 2016 tem conquistado boa aceitação, inclusive de muitas pessoas sem qualquer relação com a causa animal. A explicação para isso é bem simples. “Elas entendem que é justo que um partido animalista também tenha a sua expressividade, espaço de manifestação dentro do cenário político”, justifica o porta-voz do Partido ANIMAIS.

Para quem quer contribuir coletando assinaturas, o site do partido disponibiliza as fichas de apoio e a Cartilha de Coleta de Assinaturas (CCA) com todas as diretrizes de coleta e preenchimento das fichas de apoio. Oferece também sugestões de abordagem para se obter resultados mais eficazes. É uma cartilha indicada para qualquer pessoa, sem restrições. “Temos até a metade de 2018 para fornecer as assinaturas. Poderíamos tentar fazer isso até março para termos candidatos concorrendo ao pleito de outubro, porém no momento a nossa atenção está completamente voltada para a conquista das 500 mil assinaturas válidas”, revela Frank Alarcón.

Segundo a diretoria do partido, assim que o ANIMAIS for reconhecido pelo TSE como um partido em condições de atuar como ferramenta política, o movimento nacional em defesa dos direitos animais terá uma nova opção nas eleições, assim como todos os eleitores que buscam renovação. “Poderemos colocar em curso práticas que normalmente ONGs não conseguem, como um mandado de segurança junto ao STF [Supremo Tribunal Federal] contra qualquer um dos absurdos relativos à exploração animal que você possa imaginar. É algo que nos dará a possibilidade de expandir a nossa linha de atuação em relação à questão animal e ambiental. Afinal, somos um partido animalista que prega a completa abolição da exploração e do uso animal. Todos nós somos veganos e entendemos os animais como indivíduos”, argumenta Alarcón.

De acordo com o porta-voz do Partido ANIMAIS, é preciso de uma vez por todas ocupar um espaço político de forma séria e definitiva no que diz respeito à questão animal. “Devemos nos lembrar que aqueles que não gostam ou não se interessam por política estão condenados a serem governados por aqueles que se interessam. Se nós não tomarmos a frente nessa luta, outros o farão, e são grupos ou interesses contrários aos que temos, que é a defesa de animais não humanos, meio ambiente, enfim, vulneráveis de um modo geral. Se não tomarmos a dianteira e coletarmos as assinaturas que precisamos dentro do prazo estabelecido, estaremos perdendo uma grande oportunidade”, alerta Frank Alarcón.

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Quando for preencher a ficha de apoio, caso o apoiador não esteja com o título à mão, aconselha-se entrar no site do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) e resgatar essas informações. Para isso, basta informar o nome completo, nome completo da mãe e data de nascimento. Com essas informações, o TSE fornece instantaneamente o número do título de eleitor e o número da zona de votação. Caso o apoiador não possa fazer esse resgate, ele pode fornecer os seus dados a lápis no verso da ficha para uma equipe de colaboradores do Partido ANIMAIS. Assim eles poderão resgatar no site do TSE os dados que faltam.

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Comer animais, uma opção baseada na imposição

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Não vejo como negar que quando comemos animais ou consumimos produtos baseados em animais, nos voltamos somente para nós mesmos (Fotos: Jo-Anne McArthur)

Quando uma pessoa é questionada sobre o motivo pelo qual se alimenta de animais, é bem comum ela dizer que se trata de uma opção, uma escolha. Quero dizer, parte-se da ideia de que o alimento de origem animal está disponível, logo basta optar por comprá-lo ou não, comê-lo ou não, de acordo com as suas preferências. Seguindo essa premissa, é perceptível que há uma escolha condicionada à oferta.

Porém, se compramos e consumimos um alimento que foi gerado por um animal ou que custou a vida de um animal, indubitavelmente a nossa opção está atrelada a não escolha do outro, uma desconsideração de seus interesses, logo uma arbitrariedade. Afinal, esse consentimento é inexistente. Sendo assim, não há como negar que as nossas opções ou escolhas existem como consequência do que impomos aos outros.

Tal injunção comumente envolve condicionamento, supressão, privação, sofrimento ou morte, já que é impossível, por exemplo, consumir partes de um animal sem que isso envolva violência ou morte. E morrer precocemente, sem dúvida alguma, não está entre os anseios de um animal privado de uma vida natural e criado simplesmente para atender interesses econômicos. Claro, interesses incentivados por um ávido mercado consumidor.

E não podemos negar que isso não se resume aos animais reduzidos a pedaços de carne. O mesmo pode ser dito sobre qualquer forma de exploração animal. Só para citar outro exemplo, pensemos na galinha e na vaca condicionadas a produzirem um número x de ovos e litros de leite por dia. Em que circunstância elas autorizaram a exploração de leite e ovos? Em que momento disseram que estão disponíveis para o nosso consumo?

Se nos apropriamos do que elas produzem, o fazemos simplesmente porque queremos, certo? Assim, evidentemente, o que importa são as nossas vontades; e essas vontades resultam de interesses fundamentados principalmente em condicionamento, herança cultural, hábitos alimentares e paladar. E tudo isso ajuda a fortalecer a capciosa e equivocada ideia de que animais existem simplesmente para nos servir.

Afinal, não somos nós que os condicionamos e os forçamos a atenderem as nossas expectativas? Não somos nós que os modificamos geneticamente para que eles correspondam aos nossos interesses econômicos e alimentares? O fato de não haver um código de comunicação em comum também reforça a crença na ideia de que comer animais é meramente “questão de opção”.

Isto porque a não verbalização favorece o falseamento da realidade sobre o comportamento animal e suas correlações com o meio e com outras espécies quando o que está em jogo são os nossos interesses econômicos e alimentícios. Um exemplo disso, quem nunca viu um animal sofrendo e, de repente, alguém tentou justificar que isso não era verdade? Valendo-se da asserção que envolve a subjetividade da comunicação não humana.

Não vejo como negar que quando comemos animais ou consumimos produtos baseados em animais, nos voltamos somente para nós mesmos. Ou seja, para os nossos interesses. O que existe sou eu, a minha vontade imperativa, e o que deve prevalecer é o meu desejo que abrenuncia tudo que não diz respeito à minha individualidade, ao meu prazer, à minha satisfação por mais efêmera que seja.

Um sujeito, por exemplo, que analisa um menu de uma lanchonete e escolhe um x-bacon, está optando por um alimento em vez de outro; e o seu rol de opções se limita à disponibilidade naquele cardápio. Ele não vai refletir sobre o fato de que a sua opção não existiria sem que alguém fosse privado de uma escolha.

No entanto, para que ele possa consumir aqueles pedaços de bacon no lanche, um animal teve de morrer, considerando o óbvio – que bacon são tiras extraídas das laterais, da traseira ou até mesmo da barriga de um suíno. O seu favorecimento está no fato de que ele não precisa testemunhar todo o processo que envolve a morte do porco, e a redução de partes do seu corpo a tiras de bacon.

Tudo está ao seu alcance de forma palatável, atrativa, simplificada e até mesmo romântica, bastando apenas consumi-lo; sem nem mesmo a necessidade de direcionar os seus olhos para o que come, já que o paladar é facilmente satisfeito por um estímulo sensorial baseado no aroma e no sabor. E são exemplos como esse que perenizam a cavilosa ideia de que se alimentar de animais é meramente uma questão de opção.

É muito fácil defender essa ideia quando não temos qualquer contato com a impossibilidade de escolha que compõe o cenário inclemente e prosaico da realidade animal não humana. Sendo assim, quando falamos em consumo de alimentos ou produtos de origem animal enquanto opção, escolha, estamos também deixando claro que não interessa a ausência de escolhas que não dizem respeito a nós. Em síntese, subsiste uma defesa consciente ou inconsciente da arbitrariedade e da iniquidade em relação à vida animal não humana.





 

Não existe heroísmo quando um animal é criado para ser explorado ou morto

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Se uma pessoa cria um animal com finalidade de consumo, ou atribui a ele uma função de objeto, ela nunca o está, de fato, salvando, independente de motivação (Arte: Jackson Thilenius)

Durante uma reportagem, o narrador diz: “A luta desses homens em salvar os animais.” Uma semana depois, eles matam os animais e comem. É uma inequívoca contradição, não? Se uma pessoa cria um animal com finalidade de consumo, ou atribui a ele uma função de objeto, ela nunca o está, de fato, salvando, independente de motivação.

Mesmo ao impedir que um animal não humano morra antes “da hora”, se a relação de uma pessoa com ele é de dominância, a ação desse indivíduo é isenta de um caráter moral não especista, até porque essa “hora” foi estabelecida por agente humano, logo animal de outra espécie, em ato baseado em interesses próprios que não pesam o mal causado ao outro, seja por exercício de privação ou violência fatal, logo uma facciosidade.

E, evidentemente, isso independe de como essa pessoa interprete a própria intenção nesse ínterim, já que suas ações são exortadas pela conveniência. Ou seja, pela preocupação em salvaguardar nada mais que os próprios interesses. Citarei um exemplo. Se sou mantido cativo em um lugar até o momento de minha injusta execução, e de repente corro um risco iminente de morte que não a planejada, não faz a menor diferença a intenção daquele que me mantém cativo.

O fato de um sujeito impedir que eu morra antes do prazo estabelecido por ele não faz dele um herói ou um indivíduo menos autocrático, mas simplesmente alguém que está romaneando apenas o seu próprio prejuízo, exercendo um poder indébito sobre uma vida que não lhe pertence. Sendo assim, não existe heroísmo quando uma pessoa cria um animal reduzido a fonte de alimentos ou produtos, não importando o que ela faça antes que esse animal pereça de forma indigna.





 

Comer animais, sobre o impacto de nossas escolhas: a opção baseada na arbitrariedade

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O problema da exploração animal está no silêncio dos que poderiam rejeitá-la

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Foto: We Animals/Jo-Anne McArthur

Não é difícil encontrar pessoas usando qualquer justificativa que lhes é conveniente para continuarem explorando animais ou tomando parte nessa exploração por meio do consumo; ou para causarem danos ao meio ambiente – ou defenderem ou ignorarem esses danos.

Isso é evidentemente previsível levando em conta a realidade diante dos nossos olhos. Porém, animais devem ou merecem ser mortos para serem reduzidos a alimentos e outros produtos? A natureza deve ou merece continuar sendo espoliada? Admito que sou contra a exploração de animais e também contra o mal causado ao meio ambiente, seja em decorrência dessa exploração ou não. Creio que se há interesse em continuar perpetuando essas formas de exploração, isso se dá simplesmente por conveniência, até porque alternativas que não envolvam essas práticas não faltam.

Não raramente, pessoas dizem, pelos mais diferentes motivos, que toda a preocupação com os animais não humanos e com o meio ambiente não passa de bobagem, sensacionalismo barato. Será que realmente os ativistas dos direitos animais e os ativistas ambientais tem tanta grana assim para fazerem esse massivo sensacionalismo global? E se isso é verdade por que ativistas recebem ameaças? Por que todos os anos são publicadas inúmeras notícias de assassinatos de ativistas? Se o que eles fazem ou dizem está em desacordo com a verdade ou com a realidade por que matá-los?

Será que há mais grandes empresas e políticos com interesses em defender a exploração animal ou em antagonizá-la? Há mais grandes empresas e políticos com interesses favoráveis ou contra a exploração do meio ambiente? Não tenho dúvida alguma de que empresas que lucram com a exploração animal ou com a agressão ao meio ambiente têm muito mais recursos para criarem factoides contra a defesa dos direitos animais e do meio ambiente do que os defensores dos animais e do meio ambiente em produzirem conteúdo contra essas explorações.

Enquanto de um lado há uma inesgotável quantidade de recursos que pode facilmente manipular a opinião pública, do outro há pessoas se dedicando de forma voluntária a causas em benefício dos animais ou do meio ambiente, ou dos dois. Em muitos casos, são pessoas que têm apenas a própria voz, a própria consciência e a vontade de usar também suas habilidades e profissões a favor de quem não tem voz.

Felizmente, não é tarefa difícil descortinar as dissimulações que envolvem a exploração de animais e do meio ambiente. Por outro lado, infelizmente é doloroso reconhecer que mesmo diante dessas informações muitos preferem se calar ou se omitir. Acredito que o que dificulta muito o entendimento da defesa dos direitos animais é o olhar de estranheza, um olhar fundamentado no desconhecimento, em algum pré-conceito que dependendo do grau de entranhamento não é tão fácil de ser extirpado.

Há uma ideia equivocada de que a luta pelos direitos animais é a luta por garantir mais direitos a seres não humanos, o que tanto na teoria quanto na prática não faz o menor sentido. A verdade é que direitos animais é em primeiro lugar sobre o direito de assegurar, de fato, que um ser não humano possa viver sem sofrer em decorrência da intervenção humana. Em síntese, um direito simples e básico.

Outro ponto a se considerar é que há muitas pessoas imersas em uma condição egoica incentivada pela própria formação educacional, cultural e social, e também por um nível entorpecente de desinformação que lhes parece sempre admissível, porque segundo suas interpretações condicionadas da realidade – o mundo é como deveria ser, logo o que outros animais sofrem, por exemplo, não lhe diz respeito. O que, sobretudo, está longe de ser verdade. Afinal, o mundo é o que fazemos dele, e se não vemos necessidade em fazer o bem, menos ainda temos de fazer o mal.

Essa banalização da exploração, da violência, do que é vil e sua aceitação foi categorizada há muito tempo por Lazarsfeld e Merton como disfunção narcotizante. E, além da contumaz indiferença sedimentada pela disfunção, há também muitos casos em que o reconhecimento do óbvio passa a ser um exercício tortuoso, incognoscível e inalcançável. Exemplo disso é a indiferença em relação ao destino de animais reduzidos a alimentos e produtos.

Tudo isso endossa o que qualificamos como “parte de uma realidade que não nos interessa”, porque somos incapazes de pesar ou entender o que isso representa para o outro, e também o que isso diz sobre as nossas relações com a vida, com o mundo e com outras espécies que exploramos e matamos sem qualquer necessidade.





Por que animais criados para consumo chegam a praticar canibalismo

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Você já pensou em quais circunstâncias um animal domesticado e criado pelo ser humano com finalidade de consumo pratica canibalismo?

Arte: Jackson Thilenius

Quando ele passa por um processo visceral de despersonalização, de completa perda de identidade e individualidade. Ele se torna algo desconhecido para os outros e para ele mesmo. E como isso acontece? Como consequência de níveis constantes e excruciantes de privação, ansiedade e estresse extremo, entre outros fatores que podem envolver ou não agressão física.

Animais não humanos, diferentemente de nós, não verbalizam o que sentem e por isso podem sofrer mais perante a incomunicabilidade no contato com seres humanos. Afinal, o seu desespero e ânsia pela vida podem ser facilmente desconsiderados levando em conta as diferenças no código de comunicação. E, evidentemente, podem ser interpretados ou distorcidos à revelia.

Essa incomunicabilidade com o ser humano, logo animal de outra espécie, amplifica o desespero e o sofrimento no esteio de uma vida não natural que tem como consequência ordinária a figuração da violência em suas mais diferentes formas. Afinal, a violência contra um animal está muito além de espancá-lo ou de matá-lo.

A violência pode ser manifestada a partir do simples e iterado ato de privá-lo de sua natureza, do trivial e pernicioso ato de não permitir que ele seja ele mesmo; de não permitir que ele crie vínculos sociais à sua maneira, nem mesmo desenvolva uma rotina condizente com seus hábitos inerentes ou atávicos.

A natureza de um animal criado para consumo, logo objetificado, é comumente suplantada para dar lugar a uma natureza de viés mecanicista, em que ao animal não é permitido nenhum direito de escolha no decorrer de sua vida, nem mesmo o direito de escolher com quem se relacionar, como se alimentar. Enfim, nenhum direito em relação a nada.

Assim, seus hábitos são precocemente suprimidos e sua natureza inerente gradualmente obliterada. Dependendo do nível de obliteração, ele pode praticar ou não o canibalismo, que neste caso talvez seja um dos símbolos maiores do aviltamento e da degradação não humana em uma sociedade imersa na desconsideração e na negação de direitos não humanos.

 





A vida de Seu Zé

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Seu Zé tem 71 anos, vários problemas de saúde e tenta sobreviver com R$ 630 por mês

Publiquei hoje no YouTube um curta-metragem bem simples intitulado “Seu Zé”. Gravado com o celular, conta a história do idoso José Rodrigues que divide uma casa em situação extremamente precária com a esposa na Vila Alta, na periferia de Paranavaí. Morador da Rua E, a última rua do bairro, Seu Zé tem alguns problemas de saúde, como a visão comprometida e a dificuldade para andar, consequência de um acidente que sofreu há alguns anos. Ainda assim, se esforça para tentar levar uma vida mais digna.

“Seu Zé” mostra a difícil realidade do casal, que é obrigado a se alimentar muito mal em decorrência da falta de recursos, já que a única renda deles são os R$ 630 recebidos por Seu Zé. Na residência de três cômodos, há furos por todo o telhado, tornando a casa um alvo fácil em dia de chuva. Quem assiste ao vídeo de um minuto e meio logo percebe que todo o cenário destaca a difícil e degradante situação do ex-boia-fria.

Como não há rede de esgoto, na entrada da casa há uma fossa aberta há quatro anos que já está cedendo. No geral, o idoso não tem uma boa perspectiva do futuro, mas gostaria que a sua realidade presente não fosse tão amarga. É um pequeno vídeo bem cru, inclusive não interferi no ambiente. Mostra a vida de Seu Zé em seu estado natural, sem qualquer artificialismo. Ele é o narrador da sua própria história.

 





A polêmica do chimarrão

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Fotos: David Arioch/Bombas Fama

Ontem, compartilhei em algumas mídias sociais uma receita de um hambúrguer vegetal que, por sugestão de uma amiga, dei o nome de “Chimarrão”. Por causa disso, três pessoas entraram em contato comigo reclamando do nome que dei à receita. Uma dessas pessoas chegou a me dizer que o chimarrão pertence à cultura do Rio Grande do Sul, logo é um equívoco eu dar esse nome a uma das minhas receitas. Outra se referiu ao chimarrão como se eu não soubesse que ele é tradicional no Rio Grande do Sul. Sempre tive muito respeito pelos camaradas gaúchos, inclusive aqueles que são migrantes e hoje vivem no Paraná, que é o estado onde vivi a minha vida toda.

Além de eu não ver razão para polemizar sobre o nome da receita, acho válido fazer uma observação; que tenhamos cuidado quando atribuímos uma ideia de posse a algo que embora esteja inserido em um contexto cultural não significa que pertença a ele. Um grupo, uma região ou até mesmo um país adotar uma tradição não significa que pertença a eles, ou que seja um símbolo restrito de sua cultura e de seu povo.

Historicamente, o chimarrão não tem donos, tanto que se abordarmos a questão histórica dessa bebida é importante não desconsiderar que os índios de etnia guarani, quíchua, caingangue e aimará já a consumiam em regiões que hoje pertencem a diversos países da América do Sul, não apenas uma região, nem mesmo um estado; e isso muito antes da chegada (ou invasão, como você preferir) dos ocidentais.

Estudei a história do Norte do Paraná entre os anos de 2006 e 2016, e nesse período visitei algumas ruínas indígenas como as de Loreto, e lá encontrei cuias que os caiuás usavam para consumir chimarrão no século 16 (posso provar), às margens do Rio Paranapanema. Essa localidade fica a menos de 150 quilômetros da minha casa, e à época pertencia à Província de Guaíra, território paraguaio.

Mas o que eu quero dizer com isso? Que não vejo o menor sentido quando as pessoas falam em “posse cultural”, porque muito do que conhecemos como cultura envolve transferência, modificação, adaptação e aperfeiçoamento, o que não quer dizer que, reafirmando mais uma vez, se conhecemos um elemento cultural em um contexto, isso significa que tenha sido gestado ali, ou que esteja restrito àquela cultura. Além disso, o próprio Veríssimo, que foi um dos maiores escritores da literatura gaúcha e brasileira do século 20 já discorreu sobre isso.





Written by David Arioch

January 3rd, 2018 at 10:55 am