David Arioch – Jornalismo Cultural

Jornalismo Cultural

Desde criança, observo mais do que falo

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Arte: NCK/Nohat

Desde criança, observo mais do que falo. Acho que se eu falasse mais do que observasse talvez as palavras corressem de mim em velocidade que não me permitisse alcançá-las. Mas, sendo tímido, talvez isso não fosse possível. Mas, se fosse, quem sabe eu fosse obrigado a emitir sons sem significados, ou a recriar significações para palavras inexistentes, na ausência das que fugiram – e a divagar verbalizando uma mixórdia de frases que não dizem nada, respeitando ou não qualquer ordem gramatical.

Mas reconheço que também gosto do “não diz nada” ou do “vazio das palavras”, consoante circunstância e sentimento que me assoma, soma ou subtrai. Até porque viver não pressupõe uma rotina numa redoma de significados. Por que significados para tudo? Buscá-los o tempo todo seria sujeitar-se a um eterno marasmo de uma contra-aliterada e evitável incompletude assumida por um estranho viver, que não pressupõe exatamente um saber ou querer, mas talvez até mesmo um involuntário, quiçá condicionado, desprazer.

Um homem em chamas

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Arte: Niklas Vestberg

Havia um homem em chamas. Ele queimava, queimava tanto. Chamaram tanta gente, mas ninguém conseguia apagar o fogo. Cobertores, água, não adiantava. As labaredas subiam e subiam. Ele não se debatia, sequer reagia. Parecia imerso em si mesmo. De repente, levantou-se molhado, recolheu o próprio fogo e partiu. Os outros continuaram em chamas, sem vê-las e recolhê-las.

Written by David Arioch

August 10th, 2019 at 1:43 am

Amor como uma bola em movimento

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Intriga-me quando as pessoas se referem ao amor como um elemento sólido imutável e estático na sua própria essência – romanesca ou não. Intriga porque se o amor assim fosse, não haveria razão de ser. Se ele não muda talvez seja porque suas raízes já tenham se mortificado ao longo do tempo, e o que tenha restado seja o conforto da platitude.

Há inclusive a tradicional crença de que relacionamentos longos, que aparentemente não chegam ao fim, sejam a maior representação do amor. Mas ninguém pode afirmar isso de forma generalizada, porque seres humanos são criaturas de hábitos e muitas vezes mesmo na ausência do amor, as pessoas podem continuar juntas ou pelo menos aparentemente juntas por fatores desconhecidos e alheios ao amor em si, mas quem sabe atrelados a outros sentimentos e emoções – que podem ser positivos ou negativos – ou ausentes.

Vejo o amor como uma bola em movimento que vai aglutinando e subtraindo, que aquece, que arrefece, que pode crescer tanto quanto pode se extinguir – um desaparecer no meandro do reaparecer, quem sabe. Se apenas um amor muda talvez a incerteza desnuda. O meu amor e o outro amor, acredito que dependem de uma estabilidade energética, de uma constância que pode e deve ser inconstante na proporção de nós mesmos, um emaranhado de sinergia que depende de mudanças. Creio que não seja errado dizer que o alimentamos a partir de uma evolução partilhada, alheia às estagnações típicas do conforto desinteressado, porque se nos enterramos nesse caso já não frutificamos.

 

Quando falam mal de mim sem razão…

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Quando falam mal de mim sem razão ou tentam distorcer o propósito de qualquer coisa que eu faça, não sinto raiva. Por bem ou por mal, há dedicação atenção. Afinal, a pessoa está devotando tempo a manifestar incômodo a meu respeito, e essa manifestação não existiria sem que a pessoa deixasse latente algum tipo de desconforto que desnuda fragilidade, talvez associada à intransigência perante à realidade.

Se a algo em mim que uma pessoa não aceita e que, não sendo exatamente um justo motivo para me desrespeitar, a estimula a distorcer um fato ou vários para usar isso como instrumento de convencimento para que outros acreditem que sou não o que sou, mas o que o outro gostaria que eu fosse, claro que negativamente, reconheço nisso um esforço, e esse esforço é o que desnuda a vulnerabilidade de quem ataca, não de quem é atacado.

Muitas vezes a interpretação do que são os outros demanda bem menos energia do que a maquinação da invencionice balizada pelas nossas antipatias. Ainda assim, sou da opinião de que não gostar de alguém não me coloca em posição de afugentar a verdade por um mero desejo de macular a realidade. E isso pra mim é tanto uma questão de princípios quanto de distribuição de energia.

 

Nós, enquanto matéria, somos pouco ou nada

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Assisto filmes antigos desde criança, e o que sempre me intrigou em muitos dos filmes que assisti é reconhecer que todas aquelas pessoas já faleceram. Se pensarmos a respeito, é intrigante, não? Em um filme com dezenas, até centenas de pessoas, que estão ali “exalando vida”, a certeza de que todos partiram.

Revendo “Fausto”, de 1926, esses dias, esse pensamento voltou a exercer algum tipo de curioso fascínio sobre mim, como quando eu era moleque. Elas continuam ali, eternizadas em um filme – suas vozes, movimentos, expressões, vontades – ainda que materializadas na efemeridade por personagens.

Isso sempre me leva a refletir sobre o fato de que nós enquanto matéria somos pouco ou nada; e talvez o que sobreviva ao tempo indeterminado seja o que fizemos ou fazemos, o que isso despertou nos outros. Por isso nossas ações podem repercutir ao passo que nossa matéria deixa de existir.

E isso pode até mesmo independer da nossa vontade, já que muito do que fazemos é motivado por emoções, sentimentos e desejos evocados por uma época, normalmente o período em que vivemos. Afinal, até mesmo quem pensa na eternização de alguma coisa se pauta primariamente no tempo presente.

O Ministério da Agricultura quer o fim da lista de animais aquáticos sob ameaça de extinção?

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Segundo a Folha de S. Paulo, o Ministério da Agricultura quer o fim da lista de animais aquáticos sob ameaça de extinção. É importante lembrar que se trata de um acordo de longa data que o Brasil tem com a União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN). A justificativa é que esse tipo de conteúdo “pode causar prejuízos econômicos ao Brasil”.

Se isso é verdade, apenas mais uma prova de que o governo prioriza somente interesses econômicos. E sendo assim, não se iluda, porque não são interesses econômicos que beneficiam toda a população, mas sim aqueles que mais lucram com a pesca comercial no país. De acordo com a Folha, o documento é assinado pelo secretário de Aquicultura e Pesca (SAP/MAPA), Jorge Seif Júnior.

Written by David Arioch

April 21st, 2019 at 8:39 pm

Breve reflexão sobre barba, literatura e história

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Machado de Assis, José de Alencar, Gregório de Matos, Chaucer, Melville, Victor Hugo, Ibsen, Tolstói, Dostoiévski, Leskov, Goncharov, Soljenítsin, Glišić, Turguêniev, Whitman, Bram Stoker, Hemingway, D.H. Lawrence, Bernard Shaw e Ginsberg foram alguns célebres barbudos da literatura de que me recordo agora.

Não sei se o fato de cultivarem barba era uma preferência com motivação estética ou se tinha relação com alguma espécie de zeitgeist. E analisando períodos, é justo dizer que desde os primórdios da filosofia e da literatura, a barba se fez presente, e aqui não falo como forma de distinção social, e sim como um recurso de construção pessoal.

Antigamente era costume o cultivo de barba para velar imperfeições e cicatrizes provocadas por doenças como a varíola. Porém, hoje, diferente de outros tempos, barbas volumosas e longas são quase sempre associadas a hipsters, terroristas e fanáticos religiosos. E claro, partidos políticos.

 

Written by David Arioch

April 13th, 2019 at 1:20 am

Projeto de lei contra maus-tratos aos animais é aprovado por unanimidade na 1ª votação em Paranavaí

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O projeto prevê multa de R$ 1 mil a R$ 4 mil com possibilidade de dobrá-la em caso de reincidência (Foto: Getty)

Ontem à noite, na Câmara Municipal de Paranavaí (PR), o projeto de lei contra maus-tratos aos animais, encaminhado pelo Executivo, que já havia recebido parecer favorável da Comissão de Constituição e Justiça (CCJ), foi aprovado por unanimidade na primeira votação da matéria. Na sessão presidida pelo vereador José Galvão, todos os parlamentares se manifestaram a favor do projeto de lei e elogiaram a iniciativa.

Após a votação, o vereador Claudio Sabino destacou a importância do PL 019/2018 ao dizer que não se deve permitir que um animal seja tratado como se não fosse uma criatura com emoções e sentimentos. “A cadelinha dá cria e de repente o cidadão acha que está tudo bem em abandonar os animais ou jogá-los na rua. O animal sente como a gente. Você colocaria um filho seu na rua?”, declarou Sabino.

Os defensores da causa animal que assistiram a votação, incluindo o vice-presidente da Sociedade Protetora dos Animais de Paranavaí, Leandro Barbieri Sversut, ficaram satisfeitos com o resultado e aguardam agora o segundo turno da votação do projeto na próxima segunda. Tudo indica que o PL não terá problemas para ser aprovado e a lei sancionada em Paranavaí, no Noroeste do Paraná.

O projeto prevê multa de R$ 1 mil a R$ 4 mil com possibilidade de dobrá-la em caso de reincidência. A intenção é coibir atos como abandono, privação de necessidades básicas, falta de higiene, espancamento, envenenamento, lapidação por instrumentos cortantes, incentivo a confronto entre animais, não prestar socorro em caso de atropelamento e forçar animais a realizar trabalhos pesados. A fiscalização vai ser feita pela Secretaria de Meio Ambiente em parceria com a Secretaria de Saúde.

Os valores arrecadados serão destinados ao Fundo Municipal de Defesa dos Animais. Os vereadores lembraram ontem também que em breve deve chegar a Paranavaí uma unidade do Castramóvel, para a realização de esterilização gratuita de cães e gatos.

Em Paranavaí, as denúncias de maus-tratos podem ser feitas ligando para 156, (44) 3421-2323 ou pelo Whatsapp: 99114-1389.

Written by David Arioch

April 2nd, 2019 at 2:42 pm

Será que os militares de alto escalão realmente gostam do Bolsonaro?

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(Foto: IstoÉ)

É apenas minha opinião, mas não acho que os militares de alto escalão realmente gostam do Bolsonaro. Eles parecem tolerá-lo, porque provavelmente veem ele como um meio para um fim, que ainda não se sabe qual é exatamente.

Mas o Mourão está aí para provar que os militares não se submetem ao Bolsonaro e já deixaram claro que têm suas próprias pautas, independente da vontade do presidente. Até porque têm seus próprios representantes no Congresso.

Acho que não é difícil perceber também que o Bolsonaro é um sujeito indisciplinado (o seu histórico militar está disponível na internet), e isso não inspira muita confiança por parte dos militares. Até me surpreendo com o fato dele ter sido militar, se bem que esteve na ativa por pouco mais de dez anos, o que é realmente pouco se tratando de alguém com 64 anos.

Tem um material raro que o Roberto Simon, diretor para a América Latina da FTI Consulting, de Nova York, divulgou recentemente que traz uma entrevista com o Geisel, que qualificou o Bolsonaro como um mau militar.

Além disso, qualquer pessoa pode ter acesso aos depoimentos do Jarbas Passarinho (ex-ministro em vários governos militares) via Google dizendo que ele nunca suportou o Bolsonaro.

E só esses dois nomes que citei são considerados dois dos mais emblemáticos do período da ditadura militar. Então honestamente não creio que Bolsonaro seja tão estimado pelos militares.

Written by David Arioch

March 28th, 2019 at 11:27 am

Uma grata surpresa

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Fui homenageado ontem na Câmara Municipal pelo meu trabalho como jornalista, historiador e infoativista – “pelo engajamento na preservação da história e cultura paranaense e por sua luta pela causa animal”. Agradeço ao vereador Carlos Alberto João e ao Gustavo Poldo pela consideração e iniciativa. Na foto, também com os amigos Amauri Martineli e Sobhi Abdallah, e o presidente da Câmara, o vereador José Galvão.

Written by David Arioch

March 26th, 2019 at 2:35 pm