David Arioch – Jornalismo Cultural

Jornalismo Cultural

Nós, enquanto matéria, somos pouco ou nada

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Assisto filmes antigos desde criança, e o que sempre me intrigou em muitos dos filmes que assisti é reconhecer que todas aquelas pessoas já faleceram. Se pensarmos a respeito, é intrigante, não? Em um filme com dezenas, até centenas de pessoas, que estão ali “exalando vida”, a certeza de que todos partiram.

Revendo “Fausto”, de 1926, esses dias, esse pensamento voltou a exercer algum tipo de curioso fascínio sobre mim, como quando eu era moleque. Elas continuam ali, eternizadas em um filme – suas vozes, movimentos, expressões, vontades – ainda que materializadas na efemeridade por personagens.

Isso sempre me leva a refletir sobre o fato de que nós enquanto matéria somos pouco ou nada; e talvez o que sobreviva ao tempo indeterminado seja o que fizemos ou fazemos, o que isso despertou nos outros. Por isso nossas ações podem repercutir ao passo que nossa matéria deixa de existir.

E isso pode até mesmo independer da nossa vontade, já que muito do que fazemos é motivado por emoções, sentimentos e desejos evocados por uma época, normalmente o período em que vivemos. Afinal, até mesmo quem pensa na eternização de alguma coisa se pauta primariamente no tempo presente.

O Ministério da Agricultura quer o fim da lista de animais aquáticos sob ameaça de extinção?

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Segundo a Folha de S. Paulo, o Ministério da Agricultura quer o fim da lista de animais aquáticos sob ameaça de extinção. É importante lembrar que se trata de um acordo de longa data que o Brasil tem com a União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN). A justificativa é que esse tipo de conteúdo “pode causar prejuízos econômicos ao Brasil”.

Se isso é verdade, apenas mais uma prova de que o governo prioriza somente interesses econômicos. E sendo assim, não se iluda, porque não são interesses econômicos que beneficiam toda a população, mas sim aqueles que mais lucram com a pesca comercial no país. De acordo com a Folha, o documento é assinado pelo secretário de Aquicultura e Pesca (SAP/MAPA), Jorge Seif Júnior.

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April 21st, 2019 at 8:39 pm

Breve reflexão sobre barba, literatura e história

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Machado de Assis, José de Alencar, Gregório de Matos, Chaucer, Melville, Victor Hugo, Ibsen, Tolstói, Dostoiévski, Leskov, Goncharov, Soljenítsin, Glišić, Turguêniev, Whitman, Bram Stoker, Hemingway, D.H. Lawrence, Bernard Shaw e Ginsberg foram alguns célebres barbudos da literatura de que me recordo agora.

Não sei se o fato de cultivarem barba era uma preferência com motivação estética ou se tinha relação com alguma espécie de zeitgeist. E analisando períodos, é justo dizer que desde os primórdios da filosofia e da literatura, a barba se fez presente, e aqui não falo como forma de distinção social, e sim como um recurso de construção pessoal.

Antigamente era costume o cultivo de barba para velar imperfeições e cicatrizes provocadas por doenças como a varíola. Porém, hoje, diferente de outros tempos, barbas volumosas e longas são quase sempre associadas a hipsters, terroristas e fanáticos religiosos. E claro, partidos políticos.

 

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April 13th, 2019 at 1:20 am

Projeto de lei contra maus-tratos aos animais é aprovado por unanimidade na 1ª votação em Paranavaí

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O projeto prevê multa de R$ 1 mil a R$ 4 mil com possibilidade de dobrá-la em caso de reincidência (Foto: Getty)

Ontem à noite, na Câmara Municipal de Paranavaí (PR), o projeto de lei contra maus-tratos aos animais, encaminhado pelo Executivo, que já havia recebido parecer favorável da Comissão de Constituição e Justiça (CCJ), foi aprovado por unanimidade na primeira votação da matéria. Na sessão presidida pelo vereador José Galvão, todos os parlamentares se manifestaram a favor do projeto de lei e elogiaram a iniciativa.

Após a votação, o vereador Claudio Sabino destacou a importância do PL 019/2018 ao dizer que não se deve permitir que um animal seja tratado como se não fosse uma criatura com emoções e sentimentos. “A cadelinha dá cria e de repente o cidadão acha que está tudo bem em abandonar os animais ou jogá-los na rua. O animal sente como a gente. Você colocaria um filho seu na rua?”, declarou Sabino.

Os defensores da causa animal que assistiram a votação, incluindo o vice-presidente da Sociedade Protetora dos Animais de Paranavaí, Leandro Barbieri Sversut, ficaram satisfeitos com o resultado e aguardam agora o segundo turno da votação do projeto na próxima segunda. Tudo indica que o PL não terá problemas para ser aprovado e a lei sancionada em Paranavaí, no Noroeste do Paraná.

O projeto prevê multa de R$ 1 mil a R$ 4 mil com possibilidade de dobrá-la em caso de reincidência. A intenção é coibir atos como abandono, privação de necessidades básicas, falta de higiene, espancamento, envenenamento, lapidação por instrumentos cortantes, incentivo a confronto entre animais, não prestar socorro em caso de atropelamento e forçar animais a realizar trabalhos pesados. A fiscalização vai ser feita pela Secretaria de Meio Ambiente em parceria com a Secretaria de Saúde.

Os valores arrecadados serão destinados ao Fundo Municipal de Defesa dos Animais. Os vereadores lembraram ontem também que em breve deve chegar a Paranavaí uma unidade do Castramóvel, para a realização de esterilização gratuita de cães e gatos.

Em Paranavaí, as denúncias de maus-tratos podem ser feitas ligando para 156, (44) 3421-2323 ou pelo Whatsapp: 99114-1389.

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April 2nd, 2019 at 2:42 pm

Será que os militares de alto escalão realmente gostam do Bolsonaro?

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(Foto: IstoÉ)

É apenas minha opinião, mas não acho que os militares de alto escalão realmente gostam do Bolsonaro. Eles parecem tolerá-lo, porque provavelmente veem ele como um meio para um fim, que ainda não se sabe qual é exatamente.

Mas o Mourão está aí para provar que os militares não se submetem ao Bolsonaro e já deixaram claro que têm suas próprias pautas, independente da vontade do presidente. Até porque têm seus próprios representantes no Congresso.

Acho que não é difícil perceber também que o Bolsonaro é um sujeito indisciplinado (o seu histórico militar está disponível na internet), e isso não inspira muita confiança por parte dos militares. Até me surpreendo com o fato dele ter sido militar, se bem que esteve na ativa por pouco mais de dez anos, o que é realmente pouco se tratando de alguém com 64 anos.

Tem um material raro que o Roberto Simon, diretor para a América Latina da FTI Consulting, de Nova York, divulgou recentemente que traz uma entrevista com o Geisel, que qualificou o Bolsonaro como um mau militar.

Além disso, qualquer pessoa pode ter acesso aos depoimentos do Jarbas Passarinho (ex-ministro em vários governos militares) via Google dizendo que ele nunca suportou o Bolsonaro.

E só esses dois nomes que citei são considerados dois dos mais emblemáticos do período da ditadura militar. Então honestamente não creio que Bolsonaro seja tão estimado pelos militares.

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March 28th, 2019 at 11:27 am

Uma grata surpresa

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Fui homenageado ontem na Câmara Municipal pelo meu trabalho como jornalista, historiador e infoativista – “pelo engajamento na preservação da história e cultura paranaense e por sua luta pela causa animal”. Agradeço ao vereador Carlos Alberto João e ao Gustavo Poldo pela consideração e iniciativa. Na foto, também com os amigos Amauri Martineli e Sobhi Abdallah, e o presidente da Câmara, o vereador José Galvão.

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March 26th, 2019 at 2:35 pm

Orgulho em ser ignorante?

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Arte: Pawel Kuczynski

Desde que nasci, acho que nunca vi um Brasil com tanta manifestação exacerbada de ignorância quanto o atual (até porque não vivi a ditadura, mas estudei o suficiente para saber que naquela época imperava mais a ingenuidade e indiferença por parte bastante significativa da população, e prova disso são as releituras equivocadas do período).

Na minha infância, me recordo que eu encontrava pessoas analfabetas que viviam em áreas rurais ou pessoas que viviam em áreas marginalizadas, mas ainda assim não eram conscienciosamente suscetíveis. Isso acontecia em decorrência de uma ignorância ingênua, pueril.

Já hoje, o que me preocupa não é o analfabetismo, mas especialmente os alfabetizados que são voluntariamente semiletrados, e muitos são incapazes de fazer uma análise crítica e fundamentada de suas defesas. E para piorar, hoje já temos uma massa de pessoas que debocham de pensadores sérios, de estudiosos, filósofos, sociólogos, cientistas e etc, porque não se alinham às suas ignorâncias.

E basicamente são pessoas que não leem, que não estudam, que repetem frases à exaustão, que não têm base teórica ou mesmo pragmática para efeitos analíticos ou comparativos. Que não são nem mesmo capazes de analisar a própria realidade. Ingerem e digerem qualquer porcaria, e acham que isso é o suprassumo da sabedoria, porque são preguiçosos, ou porque se alinharam a ideias que, em linhas gerais, nutrem suas insciências, incultura.

Me preocupo mais com essa ignorância que inspira orgulho em muitos, porque é uma ignorância jactante, presunçosa, de quem infelizmente escolheu esse caminho e ainda se orgulha de tê-lo percorrido.

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March 17th, 2019 at 6:27 pm

Falando sobre veganismo no programa rural Som Campeiro

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Hoje de manhã, participei do programa rural Som Campeiro, da Rádio Cultura FM 93,7 apresentado por João Marques, e que sempre conta com a participação do comentarista Celso Avelar. João (à direita) é criador de gado e Celso (ao meu lado) trabalhou durante dez anos em frigorífico. Experiência muito legal, de respeito e troca de impressões e ideias.

 

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March 17th, 2019 at 6:16 pm

Os 76 anos de “Casablanca”

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Humphrey Bogart (1899-1957) e Ingrid Bergman (1915-1982), estrelas de “Casablanca”, de 1942 (Foto: Popperfoto/Getty Images)

Lançado em dezembro de 1942, “Casablanca” vai ser sempre lembrado como um clássico que aborda a impossibilidade do amor. O filme do cineasta tcheco Michael Curtiz conta a história do exilado estadunidense Rick Blaine (Humphrey Bogart) que mora em Casablanca, no Marrocos, onde administra uma casa noturna e ajuda refugiados estrangeiros no início dos anos 1940.

O protagonista vive um dilema quando reencontra acidentalmente a antiga paixão Ilsa (Ingrid Bergman) que tenta fugir para os Estados Unidos com o marido Victor Laszlo (Paul Henreid), um antinazista tcheco. A obra aproveitou com certo caráter propagandístico, e bastante favorável aos EUA, o sentimento de contrariedade ao Nacional Socialismo de Hitler durante a Segunda Guerra Mundial.

Embora hoje seja cultuado em todo o mundo, a verdade é que quando Casablanca começou a ser produzido não havia tantas expectativas em torno do sucesso da película. Nem mesmo o elenco, principalmente a atriz Ingrid Bergman – que não acreditava tanto no filme – imaginava que a obra figuraria até hoje entre as dez das mais importantes listas de melhores trabalhos cinematográficos da história. “Casablanca” surgiu a partir de um roteiro de teatro intitulado “Everybody Comes To Rick’s” dos teatrólogos Murray Burnett e Joan Alison, que o escreveram após uma viagem internacional.

Sem dinheiro e investidores para produzirem o espetáculo, optaram por vendê-lo por vinte mil dólares, à época, um valor bem elevado para uma história nunca encenada. Mas a fórmula do filme deu certo e o investimento de pouco mais de um milhão de dólares garantiu quase quatro milhões em faturamento. Casablanca ainda arrecadou muito mais nas décadas subsequentes, a partir de lançamentos especiais e merchandising.

A essência antinazista da obra também teve repercussão muito positiva da crítica que naquele tempo já era favorável em explorar até a exaustão a figura do “herói americano”, sujeito aparentemente falho, mas capaz de abdicar do amor em prol da liberdade e felicidade coletiva. Reflexo dessa grande aceitação são os três prêmios que o filme conquistou no Oscar nas categorias melhor roteiro, filme e diretor. Na minha opinião, uma interpretação esfíngica, sempre digna de destaque, é a do inconfundível eslovaco Peter Lorre que vive Ugarte, um estrangeiro e amigo de Rick que vende cartas de trânsito para refugiados.

Written by David Arioch

March 5th, 2019 at 1:15 am

A falácia de Ricardo Salles sobre Chico Mendes

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Marina Silva publicou no Twitter que o ministro Ricardo Salles desconhece a relevância de Chico Mendes. Salles respondeu que está indo se informar e compartilhou uma matéria de 2014 em que a família de Chico Mendes é acusada de desvio de recursos.

No Google, você encontra apenas uma notícia, e repetida por diversos meios, de 2014. Sendo assim, se eles cometeram alguma ilegalidade e tiveram definitivamente que devolver recursos públicos, por que não há mais nenhuma matéria sobre o assunto nos últimos anos? Que eu saiba não tem ninguém da família de Chico Mendes preso por improbidade administrativa.

Outra coisa, o falecido ambientalista Chico Mendes é responsável por algo que sua família possa fazer décadas depois? Então quer dizer que se um primo do Ricardo Salles, por exemplo, mata alguém, sem que haja o envolvimento dele, nós podemos culpá-lo pelo assassinato? Não, mas claro que podemos lembrá-lo que ele foi condenado em dezembro, um fato recente, por fraude no Plano de Manejo da Área de Proteção Ambiental da Várzea do Rio Tietê.

Que argumento mais fragilizado, embora típico da capciosidade desse pessoal que tem promovido o anti-intelectualismo no Brasil. Apenas jogam com o populismo barato para ludibriar a população mais incauta.

Written by David Arioch

February 14th, 2019 at 2:01 am