David Arioch – Jornalismo Cultural

Jornalismo Cultural

Capa para olhos

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Arte: Dan Comaniciu/Fine Art America

Um homem entrou em uma loja de guarda-chuvas e pediu capa para os olhos. A atendente disse que seu tamanho estava em falta, mas que ele poderia encontrar algo em uma loja de películas para celulares na esquina.

Um rapaz explicou que vendeu a última unidade e recomendou que ele subisse dois quarteirões até uma loja de armarinhos. Não gostou da espessura da agulha nem da linha. “Parece que funciona bem, mas não estou pronto.”

Desistiu da costura; quem sabe, algo menos invasivo e provisório. Alguém falou em cola; franziu a testa e coçou as maçãs. “E se eu quiser descolar? Só pra não enxergar o que agora não posso mudar. Amanhã? Que deixe chegar…”

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February 3rd, 2020 at 12:11 am

Somos uma mixórdia de coisas

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Acervo: Saatchi Art

Somos uma mixórdia de coisas que se acumulam, desde as que aceitamos até as que no entranhar rejeitamos. Uma base de coisas boas e ruins, que reconhecemos ou desconhecemos na triagem solene do cotidiano. Mas algumas triam-se por si mesmas, alheias à vontade do hospedeiro.

Emoção, sentimento ou ausências que enxergamos ou para as quais nos cegamos, mas estão lá, ainda estão e estarão, pois sim, reduzindo ou aumentando suas próprias forças, motivadas ou não pela vontade, que não é imperativa porque não precisa. Reconhecê-las talvez seja salutar, sim, acredito que sim, quando se mira um passo que já se aloja na consciência.

 

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February 3rd, 2020 at 12:03 am

Posted in Reflexões

Diante do luar

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Deito fora os desconfortos da minha alma diante do luar. Não em definitivo. Existe um aroma imperceptível trazido pela noite que invade essências filtrando suas inconsistências e pacificando seus conflitos. Mas é preciso serenar por tempo que pode variar.

Cada um sabe qual é o seu momento. Os olhos voltados tanto para lá quanto para cá – o diante e o eu mesmo – que miro sem precisar intervalar. Parece impossível, mas não. Apenas exercício.

Uns aprendem, outros desistem. Outros nem tentam. Sente-se alguma coisa ou coisa nenhuma. Verdade, placebo (como se pudesse ser ingerido na sua imensidão) ou superstição.

Não há relevância nessa consideração. É apenas acreditar ou não acreditar. Na pior das conclusões, não há tempo perdido, quando há um céu lá fora a se observar. E alguém diz imerso num sonho: “Como se sempre a nos esperar.”

Written by David Arioch

January 28th, 2020 at 10:25 pm

Por que não ser apenas empático?

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Há pouco, eu estava correndo e pensando: Se não matar outro ser humano fosse um imperativo moral desconectado de suas implicações legais (que nesse caso seriam inexistentes), será que quantas pessoas matariam outras? Qual seria a proporção da mortandade?

Claro que existe a questão da impunidade, mas qual seria o percentual de aumento de assassinatos? Eu não sei dizer até que ponto e em que proporção a humanidade em geral reconheceria o assassinato como errado porque se trata da obliteração de vidas, da imposição de sofrimento (para quem morre e/ou para quem fica), e não porque, dependendo de quem comete o ato, e que tipo de ato, a pena pode significar anos na cadeia (claro, a não ser que você seja um dos premiados pelo fator impunidade).

Mas realmente me intriga que em muitos casos de homicídios não há tanta discussão moral sobre o ato em si, não o seu processo legal. “Fulano de tal fez besteira e pode pegar não sei quantos anos de cadeia…” Essa é uma consideração comum, não o contempto moral que desencadeou tal possibilidade.

Então quer dizer que só não devemos cometer homicídio porque a Justiça pode punir? Não devemos roubar porque podemos ser presos em flagrante? Não devemos agredir pessoas para não parar na cadeia ou ter de pagar fiança? Por que não simplesmente não fazer nada disso porque é errado? Por que não ser apenas empático? Talvez também seja um sintoma da ausência de filosofia moral em nossas vidas, quando necessária.

Guarda-chuva para dois

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Estava chovendo quando saí da academia pouco antes das 18h30. Uma senhora, com seus mais de 70 anos, me chamou.

Imaginei que pediria informação, mas queria apenas que eu não me molhasse e disse que poderíamos dividir o guarda-chuva.

Expliquei que não era necessário, que prevendo chuva, saí de casa de carro, e que não me importaria em me molhar um pouquinho. Mas ela insistiu: “Pelo menos até a outra esquina.”

Como ela era pequenina, segurei o guarda-chuva e atravessamos a rua. Seus passos eram bem curtos e, enquanto andávamos pela calçada, ela escorregou e quase foi ao chão, mas conseguiu segurar no meu braço.

“Viu só como não foi perda de tempo? Te ajudei com o guarda-chuva e você me ajudou com o braço. Isso é mutualidade. Ninguém saiu perdendo.”

“A senhora tem razão. Agradeço a generosidade.” Sorrimos e mais adiante nos despedimos.

 

 

Written by David Arioch

January 26th, 2020 at 8:39 pm

A vida tem um cheiro estranho

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Arte: J. Coates

Com nove ou dez anos, encontrei um senhor em frente de casa, subindo a rua e carregando apenas uma pequena mala. Ele disse: “A vida tem um cheiro estranho….é….a vida tem um cheiro estranho….tem sim….a vida tem um cheiro estranho…”

Parou e me observou enquanto eu acariciava o pelo do Happy. “Você não concorda comigo?”, perguntou. “Não sei.” “Tem sim, meu jovem, um cheiro muito estranho.” “Que cheiro é esse?” “Depende, o que você comeu hoje, o que você fez hoje, com quem você falou hoje?”

“Estou vendo você e esse cachorro aí. O cheiro dele em você, e o seu cheiro nele. Vejo que você estava brincando e se sujou um pouco também.” “Mas a gente toma banho e acaba não ficando cheiro nenhum disso, né?”

“Não é bem assim, o cheiro que desaparece é o cheiro que deixa vestígio no corpo, mas há um cheiro que é aquele que acumulamos ao longo da vida. Somos sortidos de cheiros. E você sabia que o cheiro pesa?” “Como assim?” “Sim, o cheiro pesa.” “Como o cheiro pesa?”

“Ora, imagine carregar tanto cheiro desde o momento em que nasce até o dia em que se morre. Por quantos lugares você passou, quantas pessoas conheceu, quantas situações viveu…tudo isso tem cheiro…que se transformam num pequeno universo de cheiros que nos habita, irreconhecíveis para a maioria. Imagine se colocássemos todos esses cheiros em uma garrafa, nem eu nem você conseguiríamos carregá-la, por certo.”

“Mas isso não faz mal pra saúde?”, questionei. O homem coçou a barba e riu. “Pode fazer mal tanto quanto pode fazer bem. Tudo depende da origem do cheiro, da emoção, sentimento ou experiência que trouxe esse cheiro. O cheiro surge tanto pela intenção quanto pela reação e associação. Os bons são levinhos e os ruins podem ser bem pesados. Mas também podem se transmutar e o bom pode ficar ruim e vice-versa. Então recomendo evitar a condenação sem razão. Seja paciente.”

“Ué, mas não tem jeito de se livrar do cheiro?” “Para o bem ou para o mal, não tem, porque de alguma forma o cheiro somos nós e nós somos o cheiro.” “Humm….” “O que você pode fazer é se esforçar mais para encontrar os cheiros bons ou que pareçam bons, assim quando você acumular cheiros ruins, sejam eles transmutáveis ou não, você terá uma vantagem gerada pelas buscas anteriores ou recorrentes.”

“Isso parece difícil…” “Sim, não é fácil, mas vale a pena, porque com o tempo os cheiros ruins que se acumulam drenam nossa energia. Imagine como seria ficar sem fazer as coisas que você gosta porque não restou muitas forças…”
“Parece terrível…” “Pois saiba que sim, muito…” “E o senhor sabe quanto cheiro já acumulou?” “Ninguém sabe, e é importante não saber, para não se acomodar. Mas estou aqui e é isso que importa, não é mesmo?”

“É…acho que sim.” “A vida tem um cheiro estranho….é….a vida tem um cheiro estranho…tem sim…a vida tem um cheiro estranho…”, disse o homem antes de partir e deixar a pequena mala vazia ao lado do Happy. Nela, uma frase: “Guarde bem os seus cheiros.”

 

Written by David Arioch

January 22nd, 2020 at 11:39 pm

70 anos depois, episódio vira documentário em Paranavaí

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No dia 23 de novembro de 1949, um avião Douglas DC-4, de Transocean Air Lines (EUA), perdeu a rota com destino a Asunción, no Paraguai, e teve de fazer um pouso forçado em Paranavaí (Acervo: Ivan Botelho)

No dia 23 de novembro de 1949, um avião Douglas DC-4, da Transocean Air Lines (EUA), perdeu a rota com destino a Asunción, no Paraguai, e teve de fazer um pouso forçado em Paranavaí, no Noroeste do Paraná. A aeronave norte-americana em missão humanitária da ONU transportava 74 passageiros mongóis e oito tripulantes estadunidenses.

Sob o comando do piloto Harvey Rogers e do navegador John Roenninger, o objetivo era cruzar o Oceano Pacífico, levando refugiados para recomeçarem suas vidas na América do Sul, livres da perseguição política e das graves dificuldades econômicas em sua terra natal.

Naquele dia estava começando a anoitecer quando alguns moradores viram um avião de grandes proporções cruzando o céu de Paranavaí, perdido em decorrência da pouca visibilidade e ansiando por uma pista de pouso.

Esse episódio é tema do documentário “Paranavaí 1949: Douglas DC-4”, lançado nesta sexta-feira (22) pelo jornalista David Arioch no canal Colônia Paranavaí no YouTube. A data antecede os 70 anos da passagem do avião por Paranavaí, celebrada no sábado (23).

Com duração de 11 minutos, o filme traz relatos de quem testemunhou a chegada do Douglas DC-4 e acompanhou de perto toda a movimentação envolvendo o acontecimento que foi considerado o mais importante de 1949 em Paranavaí, quando ainda era distrito de Mandaguari.

Entre os entrevistados estão Pedro Carvalho, Ephraim Machado, Ivan Botelho, Persiliana Domingos, Joseplinia Domingos e Clara Francisco. David Arioch, que em 2011 teve o seu trabalho sobre a colonização de Paranavaí premiado pelo Instituto Histórico e Geográfico do Paraná (IHGPR), assina o roteiro, direção e edição. Já o cinegrafismo é de Amauri Martineli, fotógrafo, ator e produtor cultural.

O projeto é realizado pela Prefeitura Municipal de Paranavaí, Fundação Cultural e Conselho Municipal de Política Cultural e foi aprovado pela Lei Municipal de Incentivo à Cultura e está sendo financiado com recurso público oriundo do Edital de Apoio à Cultura 001/2019 – Fundo Municipal de Cultura de Paranavaí.

 

“Não teremos paz enquanto derramarmos sangue de animais”

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(Fotos: Getty)

No livro “Food for the Spirit: Vegetarianism and the World Religions”, de Steven Rosen, lançado em 1987, o escritor judeu e vegetariano Isaac Bashevis Singer afirmou que não teremos paz enquanto derramarmos sangue de animais.

“Foi necessário um pequeno passo baseado na matança de animais para que fossem construídas as câmaras de gás de Hitler e os campos de concentração [gulags] de Stalin. Todas essas ações foram praticadas em nome da [suposta] justiça social. Não haverá justiça enquanto o homem empunhar uma faca ou outra arma para destruir seres mais fracos que ele”, queixou-se.

Quando alguém que você conhece comete suicídio

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(Imagem: The Daily Beast)

Poucas coisas, ou nenhuma, reafirmam mais nossa impotência do que quando você é informado que alguém que conhece cometeu suicídio. De repente, alguém que ontem sorriu com você, contou uma piada, disse que é preciso lutar, e hoje partiu. Não está mais lá. Lateja na mente a última conversa. “Será que algo poderia ter sido dito para evitar isso?”

Não se pode prever. Há sentimentos e estados, que dependendo da circunstância e intensidade, já não se transmutam com palavras, porque são acumulativos e podem pesar sobre a cabeça como um edifício de bigornas. Talvez haja também o peso da vergonha em partilhar um desinteresse pela vida que se intensifica. Medo de julgamentos, da condenação sem consideração. Medo da comparação, que não ameniza. Como se dores pudessem ser medidas.

Acredito que é por isso que muitas pessoas que sofrem de depressão morrem e até mesmo os mais próximos dizem que não tinham a mínima ideia de que tal ente “sofria de algo assim”. A educação, a cultura em que estamos inseridos, também moldam a forma como “nos transmitimos” emocionalmente, para os outros e para nós. A nossa percepção de mundo e dos outros – os limites da personalidade, e o que recebemos em troca.

Para muitos, há tantos bloqueios que a morte pode parecer menos dolorosa em um momento de desespero inenarrável – ainda que digam que é preciso ser forte. Exigir força dos outros também pode ser exaustivo para quem serve como objeto dessa intenção.

E dependendo da condição, vive-se em um estado intenso de transitoriedade – que vai rapidamente de um extremo ao outro. A depressão pode fazer isso. Acordar bem, mas horas depois não conseguir dormir porque sente-se numa autofagia crônica do existir. A mente e o arrebatamento das sensações incontroláveis não para e é como se afogasse a alma.

Apenas ser forte no mundo em que vivemos pode não ser suficiente, e dizer isso aos outros, dependendo do seu estado, talvez não ajude. A força só tem razão de existir quando há para onde direcioná-la. Quando os propósitos se diluem, a força é apenas uma palavra, já fragilizada, descaracterizada. Vontades, sonhos, intenções, creio que só existimos à medida que não os diluímos, ao menos por completo.

Alguns encontram forças para demonstrar o que sentem, ainda que em uma sessão de terapia, já outros não se veem como capazes ou simplesmente não creem. E se fecham, num constante drenar de energia, até o apagar da luz. Essas considerações podem ser tão reais quanto irreais, dependendo de quem seja. Para menos ou para mais.

Tudo vinha de bicho

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Arte: Dana Ellyn

Deitado, via os bichos pulando e voando janela afora. Saltavam da geladeira, fogão, armários. Iam se arrastando, se juntando e ganhando a noite. Não fazia calor nem frio. Não sentia fome. Nem sentia nada.

Assistia a partida no remanso, esfregando mão vez ou outra sobre o topo da cabeça. “Tá tudo bem.” “Faz mais falta lá fora que aqui dentro. Deixe que vão.” O último mirou a íris por segundos, e correu sem jeito, reaprendendo a controlar movimentos.

Levantou, abriu geladeira, forno e armários. Só curiosidade. Não tinha sobrado nada pra comer. Tudo vinha de bicho. Pegou copo d’água, caminhou até o fundo e percebeu que os galhos da mangueira vizinha caíam sobre o quintal. Não se recordava do quintal. “Existia um quintal?”

Alguns passos e sentiu coceirinha na orelha; pé de mexerica deitava galhos. Já estava ali? Talvez, nunca tinha notado. No canto do muro, jabuticabas forravam o chão. Deitou sobre elas e assistiu a lua. Parecia massagem.

“Nunca tinha sentido este cheiro. Diferente.” Engoliu algumas e, vacilando olhos, tentou contar mangas e mexericas que cochilavam do lado de cá. “Todo mundo tem sono, de coisa que vem ou de coisa que vai. Às vezes, é consciência pregando peça pra gente não despertar. Ou desgarrar?” Dormiu sentindo cheiro do cheiro.