David Arioch – Jornalismo Cultural

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Um banho de sangue sérvio

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A incrível história de sobrevivência de Bogdan Bukumiric

Bogdan Bukumiric sobreviveu a oito tiros no Rio Bistrica (Foto: HOBOCTN)

Bogdan Bukumiric sobreviveu a oito tiros no Rio Bistrica (Foto: HOBOCTN)

Em 13 de agosto de 2003, Bogdan Bukumiric tinha 15 anos quando foi baleado oito vezes. O motivo? Ser sérvio. Apesar da crueldade com a qual foi surpreendido, o jovem sobreviveu e dias depois já estava fora do coma. Até hoje, Bukumiric não sabe quem foi o responsável pelo banho de sangue contra todas as crianças e adolescentes que descansavam no Rio Bistrica, perto de Goraždevac, uma aldeia do Kosovo, na península balcânica.

É impossível visitar Goraždevac sem se emocionar com o monumento em homenagem aos jovens vitimados pelos terroristas albaneses. Os rostos de Panto Dakic e Ivan Jovovic estampam a obra que denuncia a maldade vivida por sérvios em um gueto que até então era considerado um oásis. Panto e Ivan foram assassinados enquanto brincavam no Rio Bistrica com um grupo de amigos.

É chocante saber que essa carnificina jamais esquecida pelos sérvios teve a conivência da Organização do Tratado Atlântico Norte (Otan), segundo testemunhas que viviam em Goraždevac. Perto das fotos de Dakic e Jovovic há uma frase profunda em sérvio com os dizeres: “Mais assustador que a morte é ser enterrado vivo.”

Panto e Ivan foram surpreendidos por um grupo de desconhecidos que abriram fogo contra todos que estavam nas imediações do Rio Bistrica. “Quatro de nós ficaram gravemente feridos. O meu quadro era o pior. Os médicos disseram que eu tinha 96% de chance de morrer e 4% de chance de sobreviver”, conta Bogdan Bukumiric, alvejado com oito tiros na emboscada de 13 de agosto de 2003.

Atentado custou a vida de Panto Dakic e Ivan Jovovic (Foto: CPNCKA NOAHTHKA)

Atentado teve como alvo crianças e adolescentes (Foto: CPNCKA NOAHTHKA)

Superando todas as expectativas, Bukumiric sobreviveu e hoje vive em Belgrado, na Sérvia, onde lamenta o desrespeito dos albaneses ao monumento de seus amigos mortos. Há várias marcas de tiros na escultura erigida em memória de Panto Dakic e Ivan Jovovic. Nascido em Goraždevac, no Kosovo, Bogdan aprendeu a conviver com os abusos e agressões dos albaneses e da Otan, organização militar intergovernamental que em tese deveria garantir a segurança dos civis em regiões de guerra.

A situação na localidade só começou a melhorar depois de 1999, com o fim da Guerra do Kosovo. “Naquele tempo, a aldeia tinha uma população de apenas mil pessoas e era cercada por assentamentos albaneses. A cidade mais próxima era Peć. Tínhamos sempre que sair para comprar comida escoltados pela Kfor [Força do Kosovo]”, relata Bogdan Bukumiric.

Mas a emboscada no Rio Bistrica não foi o primeiro atentado sofrido pela família Bukumiric. Anos antes, Milica Bukumiric, tia de Bogdan, foi assassinada em frente a própria casa, quando terroristas albaneses arremessaram granadas no seu quintal. O garoto cresceu sendo obrigado a se isolar para sobreviver. Teve uma infância difícil, sem entretenimento ou possibilidade de viajar para outros lugares. “Só tínhamos a nossa comunidade e a escola. Viver era muito arriscado”, admite.

Quando Bukumiric questionou Holkeri sobre a punição dos criminosos (Foto: Косово

Quando Bukumiric questionou Holkeri sobre a punição dos criminosos (Foto: KOCOBO)

Em 13 de agosto de 2003, cansados da monotonia na aldeia, os amigos de Bukumiric passaram em sua casa e o convidaram para dar um mergulho no Rio Bistrica. Como se prevesse o pior, o pai de Bogdan disse que ele deveria ficar em casa, até porque a água estava muito fria, especialmente naquele dia. “Então eu perguntei de novo, ele acabou cedendo, mesmo sem querer. Havia bastante crianças no rio, além de jovens adultos e pais. Como fazia muito frio, fiquei perto do fogo. Em menos de dez minutos, ouvi tiros de metralhadora. Eu e meus amigos estávamos mais próximos dos terroristas”, lembra.

Em questão de segundos, três balas atingiram o lado esquerdo de Bogdan que conseguiu ver uma grande movimentação na floresta. Outros tiros o acertaram no peito, estômago e cabeça. Ele se recorda que a oitava bala se alojou em sua perna esquerda. O garoto só teve tempo de gritar bem rápido por ajuda, cair, tentar se levantar e em seguida sentir a vida se esvaindo.

Os sérvios não atingidos pegaram Bukumiric nos braços e o levaram para um hospital na base militar da Kfor. Infelizmente, não havia médicos e os primeiros socorros foram feitos em uma pequena clínica local. A primeira medida era estancar o sangramento. Ainda consciente, Bogdan pediu para afastarem seu irmão da sala de emergência, evitando ser visto em estado tão preocupante. Um senhor sérvio exigiu que a Kfor levasse Bukumiric para o hospital em Peć. O pedido foi negado e muitas desculpas foram dadas.

Por conta e risco, o irmão de Bogdan e um vizinho o transportaram de carro até Peć, uma cidade de predomínio albanês. Tentando mantê-lo acordado, os dois disseram: “Bogdan, espere, você é um herói e vai sobreviver!” O garoto retribuiu afirmando: “Não me renderei!” Perto de um mercadinho em Peć o motor do carro parou. Como a placa do veículo era sérvia, os albaneses os atacaram. O automóvel foi destruído e nenhuma das janelas ficou intacta. Para piorar, tentaram arrastar os três garotos para fora do carro. O vizinho e o irmão de Bogdan foram atingidos com pedras enquanto tentavam ligar o veículo e se defender, mantendo os punhos sobre a cabeça.

Panto Dakic faleceu em um hospital de Peć (Foto: Arquivo Pessoal)

Panto Dakic faleceu em um hospital de Peć (Foto: Arquivo Pessoal)

Mesmo com uma pessoa quase morta dentro do carro, os albaneses não demonstraram misericórdia. A sorte dos três foi que minutos depois apareceram dois carros de patrulha da Kfor. “Só os vi atirando para o ar, espantando os agressores. Não demorou e entrei em coma. O que soube depois me foi relatado por amigos”, enfatiza Bukumiric, levado para um hospital de Peć, onde também estava em estado grave o amigo Panto Dakic que não sobreviveu.

Naquele dia, uma médica albanesa tentou examinar Panto, mas o pai do garoto não permitiu, preocupado que garantissem sua morte. Um médico sérvio alertou sobre a importância de levar Bogdan de helicóptero até o Norte de Kosovska Mitrovica. Para isso, era preciso a permissão da Kfor. Três horas depois, Marco Bogicevic, outra criança ferida no atentado, chegou a Peć em um helicóptero. No mesmo veículo, enviaram Bukumiric para o hospital da Kfor em Mitrovica.

Depois de operarem o baço do garoto e extraírem uma bala a dois milímetros do rim esquerdo, os médicos franceses da Kfor perceberam que dificilmente o garoto sobreviveria, pois não havia nenhum neurocirugião para dar continuidade aos procedimentos. Ciente da gravidade da situação, o médico Milenka Cvetkovic desempenhou um papel crucial que evitou a morte de Bogdan. Cvetkovic insistiu para o levarem até Belgrado, na Sérvia. Aí surgiu um dilema porque a Kfor não permitia o desembarque de helicópteros sérvios sem autorização.

Crianças que sobreviveram prestando as últimas homenagens a Dakic (Foto: Косово)

Crianças que sobreviveram prestando as últimas homenagens a Dakic (Foto: KOCOBO)

A solução apresentada pelo médico foi transportar Bukumiric de carro até a Academia Médica Militar de Belgrado. Mesmo com a pressão extremamente baixa, e perdendo os sinais vitais, tiveram de aguardar 11 horas para chegar a Belgrado com toda a documentação necessária. Bogdan já estava com pouco sangue, então foi preciso realizar uma transfusão emergencial na Academia Militar. A cirurgia só pôde ser feita no dia seguinte.

Em 19 de agosto, o prognóstico ainda era o mesmo. As chances de sobrevivência se resumiam a 4%. Logo que saiu do coma, o garoto teve muita febre em função das lascas de ossos que danificaram o córtex cerebral. Quatro cirurgias mais tarde e uma meningite, Bukumiric conseguiu recuperar os movimentos do lado direito do corpo. Passados alguns meses de muita luta, peserverança e exercícios intensos, Bogdan voltou a andar.

A história de sobrevivência do jovem sérvio chamou a atenção do alto escalão da Missão das Nações Unidas para a Administração Interina do Kosovo (Unmik), inclusive do líder Harri Holkeri, ex-primeiro-ministro da Finlândia que o visitou em Belgrado, onde desejou-lhe melhoras e um rápido retorno a Goraždevac. Bogdan supreendeu Holkeri ao perguntar se ele já havia prendido os criminosos.

“Ele não esperava esse tipo de pergunta de um jovem de 15 anos”, confidenciou um funcionário da Unmik. O finlandês explicou que estavam trabalhando nisso, mas não tinham conseguido recolher provas o suficiente. A verdade é que muito tempo se passou e até hoje nada de concreto foi feito. Ao longo dos anos, Bukumiric tentou buscar justiça, se correspondendo com várias organizações internacionais. Algumas assumiram o compromisso de ajudá-lo.

Sobrevivente ainda luta por justiça (Foto: HOBOCTN)

Bogdan ainda luta por justiça (Foto: HOBOCTN)

As boas intenções para resolver o caso se estenderam até 2007, quando as investigações cessaram. Apesar de tudo, Bogdan ainda busca justiça. “Fomos atacados por monstros enquanto nos divertíamos no rio. Eles não se importaram nem com as crianças de cinco anos. Foi um plano extremo, de atacar os mais jovens para atingir os mais velhos”, avalia Bukumiric. Embora tenha uma vida praticamente normal, o sobrevivente sérvio ainda não tem controle total sobre o braço esquerdo, mas se anima com a ideia de viajar para a Rússia, onde soube que há excelentes médicos dispostos a tratá-lo.

Desde 2003, Bukumiric, que perdeu a mãe quando tinha apenas cinco anos, mora com o pai e o irmão em um apartamento arrendado em Belgrado. Sensibilizado com a difícil situação financeira de Bogdan, o tabloide sérvio Večernje Novosti lançou uma campanha para arrecadar 59 mil euros para que a família compre um imóvel. “O governo nunca esteve interessado em meu caso, então sou obrigado a contar com a ajuda das pessoas. Tenho formação técnica de eletricista, mas como ainda sofro por causa de algumas limitações preciso me cuidar a maior parte do tempo”, frisa.

Bogdan até hoje não teve a chance de retornar a Goraždevac porque precisa estar em constante observação médica em Belgrado. Os demais sobreviventes do atentado ainda vivem na aldeia, assim como os pais de Panto e Ivan. “Sou orgulhoso de minha aldeia. Temos a igreja mais antiga dos Bálcãs. Ela foi construída há oito séculos sem um único prego. Acredito que ela protege minha terra natal porque superamos a Primeira e Segunda Guerra Mundial, o Conflito do Kosovo e muitas outras tragédias”, comenta Bukumiric emocionado.

Andreas Møl registra o amor dos afegãos pelo bodybuilding

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Cineasta mostra que o fisiculturismo é o esporte mais popular no Afeganistão

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Bodybuilding no Afeganistão: um caminho para uma vida melhor (Foto: Reprodução)

Em 2003, o dinamarquês Andreas Møl Dalsgaard viajou para Cabul, no Afeganistão, onde se surpreendeu com a grande quantidade de cartazes de fisiculturistas masculinos espalhados pela cidade. A experiência motivou o cineasta a produzir o documentário Afghan Muscles, lançado em 2006, que mostra como os atletas afegãos se dedicam a busca do controle do corpo na caótica Cabul pós-guerra.

Depois de se graduar em antropologia social pela Universidade de Aarhus e estudar cinema na Escola Nacional de Cinema da Dinamarca, por onde também passou a cineasta Susanne Bier, vencedora do Oscar de melhor filme estrangeiro por In A Better World, Dalsgaard decidiu produzir o seu primeiro longa-metragem, sobre homens jovens que através da arte do bodybuilding vivem a modernidade a sua maneira, na batalha para tornarem-se bem sucedidos. “Me dei conta que o fisiculturismo no Afeganistão consiste em homens assistindo homens. Não há envolvimento das mulheres, nem como atletas nem plateia”, conta o cineasta dinamarquês.

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Mesmo quando não tinha apoio, Hamid não desistiu do sonho (Foto: Reprodução)

O interesse pela musculação começou a ganhar força no país em 2001. No ano seguinte, alcançou status de esporte mais popular. Embora o ambiente seja muito diferente do que se vê em países de Primeiro Mundo e até no Brasil, o Afeganistão se destaca por ser uma nação onde a maioria dos jovens atraídos pela musculação sonha em ingressar no bodybuilding. “Para eles, é um caminho para começar uma carreira, ter uma vida melhor através dos músculos. Infelizmente é um lado do Afeganistão e do Oriente Médio que poucos viram até hoje”, lamenta Andreas Møl.

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No país, os melhores fisiculturistas são tratados como celebridades (Foto: Reprodução)

Apesar de não oferecer apoio ao desenvolvimento do fisiculturismo, o movimento fundamentalista islâmico Talibã tolera a prática, mas impõe algumas exigências, como não permitir que os praticantes de musculação treinem sem camiseta. Já durante as competições, os atletas podem subir ao palco usando apenas sunga e com o corpo coberto por autobronzeador, sem risco de represália. “É interessante ver uma plateia de homens barbudos, usando trajes típicos, torcendo com muito entusiasmo para os seus competidores preferidos e, claro, bastante atentos ao melhores físicos. Eles realmente amam o bodybuilding”, declara o cineasta.

Os fisiculturistas afegãos Hamid Shirzai e Noorulhoda Shirzad explicam que a vitória em grandes campeonatos pode proporcionar fama, reconhecimento e honra para a família. “Você ganha o apoio de um senhor da guerra que pode até abrir uma academia em seu nome”, revelam. Shirzai e Shirzad são os protagonistas do filme Afghan Muscles que registra a luta e a preparação dos atletas da equipe afegã para competirem no Mr. Ásia 2004, no Bahrain, um estado insular do Golfo Pérsico.

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Atletas se tornam inspiração para os mais jovens (Foto: Reprodução)

No Afeganistão, os melhores fisiculturistas têm o privilégio de serem tratados como celebridades. No entanto, segundo o filme, o desenvolvimento dos atletas é quase sempre comprometido pela falta de apoio financeiro. Isso dificulta a contratação de assessoria profissional e investimento em dietas e produtos que otimizariam os resultados. Proteína em pó, por exemplo, que custa mais caro no Afeganistão do que em qualquer outro país, precisa ser contrabandeada como se fosse droga para chegar as mãos de Shirzai e Shirzad, grandes fãs de “Arnold”, como se referem ao famoso Arnold Schwarzenegger.

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Desde o início do milênio, o bodybuilding conquista o prestígio dos afegãos (Foto: Reprodução)

Fora as dificuldades econômicas que o guarda Hamid enfrenta para continuar lutando pelo sonho em um país definhado pela guerra, ainda é obrigado a lidar com o pai que não o apoia e cobra que ele desista do bodybuilding e se case. Afghan Muscles mostra o momento em que o atleta perde o seu maior patrocinador, o proprietário de um ginásio de musculação. Há muitos momentos de altos e baixos. Shirzai não desiste, pois acredita na conquista dos títulos de Mr. Afeganistão e Mr. Ásia. O primeiro sonho se tornou realidade em 2009, três anos após o lançamento do filme, quando venceu o campeonato mais importante do país. Hamid se orgulha de fazer parte de uma linhagem de fisiculturistas que inclui o tio e o irmão, dois campeões nacionais.

O documentário deixa claro que a construção do corpo no bodybuilding vai além da hipertrofia e simetria. É a materialização dos principais predicados que motivam um atleta a alcançar a singularidade. O corpo é como um templo. Por isso, há uma plena relação harmoniosa. Andreas Møl também apresenta duas realidades conflitantes. Enquanto Cabul, a cidade natal de Shirzai, representa as ruínas de um velho mundo em crise e miséria, Bahrain, para onde o atleta viaja em competição, simboliza o novo, as belezas da modernidade, o futuro e a ostentação.

Mas Hamid não se deslumbra, muito pelo contrário. Quer sempre voltar para casa e continuar se empenhando em ser um bom representante afegão. Shirzai deixa a lição de que independente de probabilidades, é preciso definir metas e se esforçar para alcançá-las. Afghan Muscles, que teve excelente repercussão no Oriente Médio, Europa e até nos Estados Unidos, venceu em 2007 o Grande Prêmio do Júri de Melhor Documentário no Festival de Cinema AFI, nos EUA. Em síntese, é uma obra sobre uma Cabul desconhecida e um Afeganistão que se constrói sobre novas esperanças e sonhos.

Quando heróis são confundidos com vilões

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O Preço da Paz aborda a controversa Revolução Federalista

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Herson Capri e Giulia Gam interpretam Barão e Baronesa de Serro Azul (Foto: Reprodução)

Lançado em 2003, O Preço da Paz é um filme brasileiro do cineasta Paulo Morelli que tem o Paraná como cenário e aborda a controversa Revolução  Federalista, em que heróis são confundidos com vilões e vice-versa.

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Ildefonso Correia, um ponto de ruptura entre o idealismo e o realismo (Foto: Reprodução)

Falar da Revolução Federalista é como falar do Sul do Brasil, do Paraná, um importante episódio da história mantido por muito tempo no obscurantismo. É justo dizer que O Preço da Paz tem um caráter revisionista e explora principalmente as características pessoais dos idealistas que se alinhavam a Maragatos e Pica-Paus. Na obra, Morelli expõe as contradições de vários personagens da revolução. Mostra que um herói pode se tornar vilão e vice-versa, dependendo do contexto.

O cineasta não transforma a obra em um instrumento de convencimento, mas sim de questionamento. O filme também não tem a intenção de ser melodramático ou transmitir uma visão romântica sobre os Maragatos. Na obra, o que mais chama atenção é a figura de Ildefonso Pereira Correia (Herson Capri), o famoso Barão de Serro Azul, homem-símbolo que representa um ponto de ruptura entre o idealismo e o realismo.

Com uma consciência pré-paranista, Ildefonso Correia é um dos poucos na história que se recusa a tomar partido de Maragatos e Pica-Paus. Em contraponto ao idealismo do barão está a pragmática e cética Maria José Correia (Giulia Gam), a Baronesa de Serro Azul, um ponto de equilíbrio e extensão da consciência de Ildefonso.

O filme traz no elenco outros famosos como Lima Duarte, José de Abreu, Camila Pitanga, Danton Mello e Alexandre Nero. Em 2003, o filme que foi produzido no Paraná ganhou os prêmios de melhor montagem, melhor direção de arte e prêmio do júri popular no Festival de Gramado. Paulo Morelli é autor dos longas-metragens Viva Voz e Cidade dos Homens, de 2004 e 2007.

O trauma espanhol

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Soldados de Salamina explora o obscurantismo da Guerra Civil Espanhola

Lola busca informações sobre o paradeiro do poeta Rafael Sánchez Mazas (Foto: Reprodução)

 O filme Soldados de Salamina, idealizado pelo cineasta espanhol David Trueba e lançado em 2003, explora o obscurantismo da Guerra Civil Espanhola partindo da suposta execução do escritor e falangista Rafael Sánchez Mazas.

A protagonista da obra é a escritora em crise Lola Cercas (Ariadna Gil) que decide se aprofundar em uma pesquisa in loco sobre a Guerra Civil Espanhola. O ponto de partida é a ordem de execução do poeta Rafael Sánchez Mazas, um dos fundadores da Falange Espanhola, grupo paramilitar que se aliou ao ditador Francisco Franco em 1936. Decidida a descobrir como Mazas sobreviveu, Lola viaja em busca de personagens que participaram do evento.

Cena antológica do soldado dançando com um rifle ao som de Suspiros de España (Foto: Reprodução)

Enquanto Lola é uma personagem alheia a própria história, inclusive se entrega a pesquisa como razão existencial, o seu estado de vulnerabilidade é uma simbologia da Espanha da época; confusa e controversa, principalmente com relação aos elementos históricos da Guerra Civil Espanhola ocultados por conveniência política. No decorrer do filme, Lola constrói uma outra identidade de si mesma conforme encontra novas informações sobre o episódio da execução de Rafael Sánchez.

O cineasta David Trueba deixa evidente na trama a importância da memória histórica para a preservação da identidade de um país, tanto que a personagem principal só consegue reconstituir importantes fatos da Guerra Civil Espanhola a partir da oralidade, pois não havia muitas provas materiais do que aconteceu com Mazas. O filme oferece poucas respostas, mas faz muitas perguntas e termina de uma maneira que impele o espectador a refletir sobre o assunto enquanto a folclórica canção “Suspiros de España”, de Antonio Álvarez Alonso, ainda ecoa.

Sobre a estética cinematográfica, os destaques são a quebra de linearidade, estruturada a partir de flashbacks, e a fotografia sobre a qual incide pouca luminosidade dando a ideia do quão a Guerra Civil Espanhola é um trauma histórico obscuro; um acontecimento com riqueza de detalhes desconhecidos pela população.