David Arioch – Jornalismo Cultural

Jornalismo Cultural

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Vidas não valem nada

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Foto: Reprodução

Vidas não valem nada, concluí quando saí do matadouro após uma visita no mês passado. O magarefe posicionou a pistola contra a cabeça de um boi dócil e disparou. Um tiro absterso e silente. O dardo penetrou o crânio do animal e o fez deitar no chão. Barulho intenso. Tive a impressão de que algo estava explodindo. E não estava? O mundo de um animal que naquela tarde não imaginava que não veria a noite ou um novo dia. Não chorava feito criança, embora corpulento e desgracioso tremia como um recém-nascido – (in)voluntariamente, batendo de um lado para o outro dentro de uma caixa de tijolos. Morto? Sim ou não, depende de quem vê. O magarefe não viu os olhos embaciados do boi. Não, aquilo era perigoso. Limpou a pistola, sem prestar atenção no bicho e ajeitou os fones de ouvido por baixo do abafador:

 
Você trabalha faz tempo aqui? — perguntei.
— Pouco mais de um ano.
— Por que você usa fones?
— Não quero ouvir o que não me agrada.
— E o que seria isso?
— A queixa desse animal.
— É possível ouvir mesmo com o abafador?
— É…o que a gente vê a gente ouve. Não precisa de falar.
— Isso acontece sempre?
— Não…
— A última vez faz muito tempo?
— Tem mês.
— O que aconteceu?
— Comecei a usar fone de ouvido.
A música sertaneja amortecia a realidade, e o rapaz, a serviço de quem pode, dissimulava a brutalidade.





Quando Tom Regan pediu ao Papa Francisco para falar sobre a crueldade contra os animais

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Tom Regan pediu ao Papa Francisco para intervir em favor dos animais em 2014 (Fotos: Reprodução)

Falecido no dia 17 de fevereiro de 2017, Tom Regan, um dos mais proeminentes filósofos na luta pelos direitos animais, publicou uma carta aberta em novembro de 2014 pedindo ao Papa Francisco para falar sobre a crueldade contra os animais:

Santo Padre, todos os cristãos imploram a você: fale sobre a crueldade contra as criaturas de Deus, anualmente é negado a bilhões os desígnios de Deus, e eles não são tratados nem com a misericórdia de Cristo nem com a compaixão de Deus.

Ao entrar em mais um ano de seu papado, todos os cristãos oram com fervor e esperançosamente por sua boa saúde e coragem em nome da justiça, misericórdia e paz – tanto na igreja quanto no mundo. Como alguém que compartilha seu compromisso de justiça com todas as criaturas de Deus, fiquei encantado com a sua escolha de nome: Francisco.

De todas as virtudes que o seu homônimo possuía, nenhuma é mais sinônimo de seu nome do que o seu amor pelos animais. Ele os chamava de “irmãos” e “irmãs”, e era famoso por pregar aos pássaros – e até mesmo aos peixes! Em uma ocasião, ele assumiu a responsabilidade de persuadir um lobo a parar de atacar os agricultores locais se eles concordassem em alimentá-lo. Transformar um carnívoro em um vegano? Nada representa melhor o poder de São Francisco.

Como São Francisco acha que seus irmãos e irmãs de pelos, penas e barbatanas devem ser tratados? Ele deve ter acreditado que o que acontece com eles é importante para eles, independente de qualquer interesse humano. Por que ele pensaria nesses termos? Porque o que acontece com eles faz a diferença na qualidade e duração de suas vidas. Ou eles vivem uma vida longa e frutífera, o que São Francisco preferiria, ou eles sofreriam e morreriam prematuramente.

Naturalmente, Papa Francisco, você, como todos nós, certamente acredita que maus-tratos a qualquer uma das criaturas de Deus são contra a vontade de Deus. Se os animais têm direitos ou não, claramente merecem ser tratados com misericórdia, bondade, gratidão e simpatia, respeito e admiração. Quem em sã consciência pode ser contra o cuidado humano no tratamento das criaturas?

Bem, evidentemente isso depende. Considere alguns exemplos do que acontece com animais em laboratórios de pesquisa. Gatos, cães, primatas não humanos, e outros animais são afogados, sufocados e morrem de fome. Eles são queimados, submetidos à radiação e usados como “cobaias” em pesquisas militares. Seus olhos são removidos cirurgicamente e sua audição é destruída. Eles têm seus membros decepados e órgãos esmagados. Meios invasivos são usados para causar-lhes ataques cardíacos, úlceras e convulsões.

Eles são privados do sono, submetidos a choques elétricos e expostos a extremos de calor e frio. Cada um desses procedimentos e resultados está em conformidade com todas as leis federais em todos os lugares. Cada um está em conformidade com o que os inspetores federais consideram como “cuidado e tratamento humano.” Essa mesma ideologia se aplica a como os animais criados em fazenda são tratados. É um procedimento padrão fazer com que os bezerros “vitelos” passem a vida confinados individualmente em baias estreitas, tão estreitas que são incapazes de se virar.

As galinhas poedeiras vivem um ano ou mais em gaiolas do tamanho de um gaveteiro, são sete ou mais por gaiola, e depois disso são rotineiramente mantidas famintas por duas semanas para incentivar outro ciclo de produção de ovos. Porcas são alojadas por quatro ou cinco anos em barras cercadas individuais (“gaiolas de gestação”), pouco mais largas que seus corpos, onde são forçadas a dar à luz ninhada após ninhada. Até recentemente, devido ao susto da [doença da] “vaca louca”, o gado bovino e leiteiro, muito fraco para resistir, foi arrastado e enviado para o abate. Gansos e patos são alimentados à força com o equivalente a 30 libras [mais de 13 quilos] de comida por dia para aumentar o seu fígado para melhor atender a demanda por foie gras.

Todas essas condições e procedimentos demonstram a falta de compromisso da indústria com a misericórdia e gentileza, compaixão e simpatia. E o que a criação “humanitária” de peles ou armadilhas permite? Aqui estão alguns exemplos.  Em fábricas de peles, martas, chinchilas, guaxinins, linces, raposas e outros animais são confinados em gaiolas de tela metálica enquanto suas vidas durarem. As horas de vigília são gastas andando de um lado para o outro, ou balançando a cabeça, ou pulando para os lados de suas gaiolas, ou se mutilando, ou canibalizando seus companheiros de gaiola.

A morte é causada pela quebra de seus pescoços, ou por asfixia (usando dióxido de carbono ou monóxido de carbono), ou empurrando hastes elétricas em seus ânus para “fritá-los” de dentro para fora. Os animais presos em armadilhas instaladas na natureza levam uma média de 15 horas para morrer. As vítimas frequentemente mastigam os seus próprios membros na tentativa inócua de recuperar a sua liberdade. Apesar da óbvia crueldade, tudo isso é perfeitamente legal.

Santo Padre, todos os cristãos imploram a você: fale sobre a crueldade contra as criaturas de Deus, anualmente é negado a bilhões os desígnios de Deus, e eles não são tratados nem com a misericórdia de Cristo nem com a compaixão de Deus. Entre seus outros problemas e preocupações, por favor, honre São Francisco de Assis e o chamado do Catecismo levantando sua voz em nome dos outros animais de Deus.

Tom Regan foi professor de filosofia da Universidade Estadual da Carolina do Norte, onde lecionou por 34 anos. Conquistou prestígio internacional por sua produção prolífica voltada ao abolicionismo animal. Em 1983, publicou “The Case for Animal Rights”, que teve grande repercussão no contexto mundial dos direitos animais. Em 2006, Regan teve o seu livro “Empty Cages”, ou “Jaulas Vazias”, publicado no Brasil.

Tradução: David Arioch





 

Alguém diz: “Não quero mais ser chamado de vegano”

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Foto: Jo-Anne McArthur/We Animals

Alguém diz: “Não quero mais ser chamado de vegano por causa das pessoas, por causa da indiferença de alguns, ações com as quais não concordo, ódio de outros e por causa dos rumos do movimento.”
 
Serei bem honesto. Não sou vegano pelo que as pessoas acham ou deixam de achar. Sei o significado do veganismo e isso me basta. Sim, me identifico como vegano, mas não vejo o veganismo como um grupo, e sim um movimento com pessoas com opiniões e linhas de ações diferentes em inúmeros aspectos. Sim, há falhas nesse meio, porém não são nequices do veganismo, mas sim das pessoas, e isso pode ser corrigido.
 
E se não for, também não significa que essas paráclases irão implodir ou manducar visceralmente ações em prol de um bem maior, ou pelo menos impedir que as pessoas entendam que a mensagem é a de que os animais não devem ser vistos como objetos, comida, mão de obra, entretenimento; enfim, meios para um fim; e que podemos contribuir e fortalecer um conceito de unidade. Não tenho motivo para desacreditar figadalmente no veganismo.
 
Porém, como se trata de um movimento baseado em pessoas, logo variegado, as divergências sempre existirão, e cabe a nós estarmos preparados para lidarmos com elas. Buscar uma normatização ou uniformidade nesse sentido não é apenas utópico como talvez até mesmo sem sentido quando falamos de algo de proporção mundial, e que perpassa naturalmente por diferenças culturais.
 
No meu entendimento, o mais importante é as pessoas terem consciência do que estão fazendo, entenderem o veganismo e serem veganas pelos motivos certos. Se alguém quiser falar que não sou vegano, não vejo problema também. Mas o que acho interessante em divulgar o veganismo, e no fato das pessoas se colocarem como veganas, quando o fazem pelos motivos certos, que é a luta pelos direitos animais e pelo abolicionismo animal, é que permite que os outros logo façam uma rápida associação com o significado dessa filosofia de vida, e assim entendam cada vez mais o seu significado primordial e real.
 
Acho que poderíamos parar de querer ou exigir que todos os veganos sejam iguais. Porque nada na vida funciona dessa forma, e com o veganismo não seria diferente. Tenho sempre o cuidado de não achar que o que faço também deve ser feito pelos outros. Este sou eu explorando o que encaro como minhas potencialidades. A do outro podem não ser as mesmas, e devo respeitar isso. Apontar o dedo para o outro sem conhecer a sua real contribuição ou se negar a reconhecê-la me parece sempre um erro e que poderia ser evitado com a clássica razoabilidade.
 
Há quem critique quem não faz ativismo de rua, quem não tutela ou resgata animais, entre outras coisas. Parece que há sempre motivos para desmerecer o outro em vez de incentivá-lo, motivá-lo. Mas será que conhecemos ou entendemos a luta do outro o suficiente para criticá-lo ou menosprezá-lo? Esses conflitos não podem ser também um indicativo do ser humano se colocando novamente acima dos outros? E colocar-se acima dos outros será que combina com o veganismo?
 
Será que o outro não faz algo que eu ou você não fazemos? No mais, o veganismo tem um conceito que tem se fortalecido cada vez mais, e cada dia que passa mais pessoas ficam sabendo, mesmo que seja vagamente, o que é um vegano, e isso é bom porque é uma evidência de uma nova consciência em relação à forma como tratamos e devemos tratar os animais. Na minha opinião, o equilíbrio e a ponderação são capitais – absorver o que vale a pena e descartar o que não vale.

 

 

 





 

O movimento vegano não é um movimento homogêneo

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Se uma pessoa busca no veganismo uma indefectível unissonância, só me resta dizer que talvez esteja procurando isso no lugar errado (Arte: One Green Planet)

O movimento vegano não é um movimento homogêneo, até porque pessoas têm suas idiossincrasias e inclinações que podem ser inclusive antagônicas – em um contexto à parte de convergências. Afinal, ser humano perpassa pela subjetividade e contrariedade, em poucos ou muitos aspectos. Se uma pessoa busca no veganismo uma indefectível unissonância, só me resta dizer que talvez esteja procurando isso no lugar errado.

Acho importante aprender a lidar com a diversidade dentro do veganismo, até porque o mais importante para mim sempre é chegar à consciência e talvez até o coração das pessoas, se possível. Por isso não escrevo para que as pessoas se sintam mais nem menos veganas. Assim como não escrevo com a finalidade de ditar regras nem ofender ninguém que não seja vegano nem vegetariano.

O que tenho como premissa em relação ao veganismo, porém não como construto identitário, na realidade é muito simples – animais não existem para me servir e cabe a mim fazer o possível para não contribuir com essa exploração, e claro que isso significa me abster de consumir qualquer coisa de origem animal independente de circunstância.

Uma galinha poderia botar um ovo na entrada do meu quarto, eu não o pegaria e o comeria, porque simbolicamente representaria o reconhecimento de que um animal pode me alimentar, e nisso há uma associação com a servidão ou pelo menos com a conveniência. Não concordo com isso. Mas este sou eu na minha concepção tradicional de veganismo, que vai ao encontro da proposta vanguardista ocidental de 1944, ou seja, não consumir nada de origem animal dentro das minhas possibilidades tangíveis.

Não duvido que devo ter inúmeros textos que incomodam as pessoas, mas posso dizer com alguma propriedade que nenhum deles traz qualquer tipo de opugnação verbal, já que não vejo sentido em vituperar para conscientizar. Na minha opinião, acreditar em um veganismo uniforme é definitivamente crer em uma utopia, uma quimera, uma veleidade. Não somos feitos em série, somos pessoas, e cada a qual com bagagens sortidas construídas ao longo da vida.

O que devemos ter em comum é só uma coisa – respeito pelos animais. A literatura animalista prova como a diversidade nesse contexto é imensa, e cada um, independente de antagonismo, tem o direito de manifestar o seu posicionamento, por mais bizarro e púnico que nos pareça. Sim, não cabe a mim o direito de coarctar ninguém, até porque isso não seria direito, somente injunção; e arbitrariedade não me parece algo que combine com o veganismo.

Vejo o veganismo como a luta pela liberdade, um tipo mais abrangente de liberdade, talvez a maior da história da humanidade se considerarmos o tanto de criaturas que visamos libertar da exploração – milhões, trilhões – dependendo da espécie. No entanto, se consoante isso alguém preconiza ou vaticina cerceamento de algum tipo, até mesmo da manifestação de uma opinião, se valendo do veganismo, podemos transmitir talvez uma das piores imagens que não gostaríamos de difundir; ou pelo menos não deveríamos se ponderarmos o impacto disso em um mundo em que pessoas que se preocupam com os animais a ponto de não consumi-los ainda é pequeno, embora crescente e auspicioso no meu entendimento.

Em síntese, se entendemos o veganismo como liberdade, creio que devemos sim evitar qualquer tipo de cesarismo em relação a quem diverge de nós em alguns pontos. Se uma pessoa não se alimenta de animais por uma questão ética, ela já está do nosso lado, mesmo que haja divergências, e divergências podem ser debatidas. Tento ser cuidadoso em relação ao viés romântico e passional das coisas que me interessam, porque sei que se eu permitir uma visceralização, esse viés pode me engolir e suprimir a intelecção e a capacidade de analisar a realidade sob uma perspectiva menos unilateral.

Sendo assim, ressalto que sempre que produzo conteúdo sobre direitos animais, veganismo e vegetarianismo, jamais tenho a intenção de impor o que cada um deve ou não fazer, sejam eles veganos, vegetarianos ou não. Falo por mim e escrevo por mim. Creio no poder de sugestão e de conscientização, e reverbero também o que penso e o que foi dito por aqueles sobre quem pesquiso. No entanto, cabe a cada um ver algum valor ou não nisso. Nos meus textos, não é difícil perceber que há sempre pontos de consideração ou reflexão, porque é exatamente esse o meu objetivo. Não nego que tenho mais predileção por despertar dúvidas. Em síntese, meu papel é compartilhar informações sobre a exploração animal, informações que podem ser elucubradas ou não. Logo fique à vontade para simpatizar – ou não. Afinal, creio que isso também é parte do veganismo.





 

“Você acha que as pessoas são ruins por se alimentarem de animais?”

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Arte: Dana Ellyn

Não. O consumo de alimentos de origem animal é cultural, então creio que as pessoas se apeguem a três fatores – costume, paladar e saúde. Sabemos que o terceiro é mais facilmente refutado, já que há tantos vegetarianos e veganos saudáveis pelo mundo afora. Porém a questão de costume e paladar é mais delicada, porque muitas pessoas os veem inclusive como indissociáveis.

Eu, assim como muita gente, cresci me alimentando de animais por um fator cultural baseado no costume. E quando esse fator está tão enraizado na cultura de alguém não é tão fácil enxergar o que realmente existe por trás do que consumimos. Também não é tão simples convencer todo mundo a abandonar esse hábito que muitas vezes representa inclusive todas as refeições que uma pessoa consome ao longo do dia. Há pessoas que tomam leite ou comem queijo no café da manhã, comem carne no almoço, e assim por diante.

É basicamente um dia todo consumindo animais. Fora que as pessoas passam uma vida toda sendo bombardeadas com informações que as convençam de que os alimentos de origem animal devem ser consumidos diariamente. Há uma indústria que te impele a isso; além de escolas, universidades, profissionais de saúde, e toda uma cultura comercial que absorve essa produção surreal que custa a vida de bilhões de animais a cada ano, isso para citar somente os terrestres. Olhe à sua volta e veja quantos estabelecimentos em um raio de quilômetros você pode citar que vendem animais reduzidos a produtos. Neste momento penso em mercados, empórios, bares, lanchonetes, restaurantes, etc.

Arte: Dana Ellyn

Claro, muitas pessoas, principalmente adultos, sabem que estão se alimentando de um animal que foi morto, ou de algo que foi retirado dele em regime de privação ou sofrimento. No entanto, saber, enxergar e entender não são a mesma coisa. Uma pessoa pode testemunhar a morte de um animal, mas isso não significa que ela tenha uma real dimensão do que aquilo representa de fato; porque isso depende do seu nível de cognição em relação ao que foi visto e o que aquilo é capaz de despertar nela.

Também é preciso considerar o fato de que hábitos alimentares podem se tornar vícios mesmo que as pessoas não percebam. Alimentos de origem animal têm um poder muito grande de despertar algum tipo de dependência. Porém, qualquer hábito alimentar é passível de mudança, já que somos seres de hábitos mutáveis, embora isso pareça aparentemente difícil, o que na realidade não é.

Nós que temos essa crença e essa resistência. Acredito que não existe nada que o ser humano não seja capaz de fazer nesse sentido. Tudo é possível quando falamos de hábitos alimentares. Mas antes é preciso estimular um novo nível de consciência. Porque uma transição para o vegetarianismo ou veganismo sem uma sólida razão pode ser transitória, efêmera. Uma perspectiva vegana da crueldade pode ou não ser partilhada por quem não é vegetariano ou vegano.

Quero dizer, o vegano está em um nível diferenciado de consciência sobre a exploração animal, e aquilo pode ter um efeito positivo ou não sobre quem não é dependendo da acepção de quem o lê ou o ouve. Darei um exemplo. Duas pessoas observam carnes em um açougue. Uma delas é vegana e a outra não. A vegana fica chocada com o que vê, por entender que está diante dos pedaços do cadáver de um animal não humano, o que é a mais honesta compreensão da realidade.

Arte: Dana Ellyn

Por outro lado, quem não é vegano ou vegetariano observa apenas a carne, dissociada do animal. Não reflete sobre o que aconteceu antes daquela carne chegar àquele local. Vamos supor que aí existe a possibilidade de um diálogo. Se esse diálogo estiver muito aquém do nível de consciência ou da predisposição interpretativa daquele que se alimenta de animais, o resultado pode não ser tão positivo dependendo da abordagem.

Claro, a pessoa citada nesse exemplo pode ter algum nível superficial de consciência de que aquilo foi um ser vivo, mas isso não significa que ela tenha feito ou pelo menos esteja disposta a fazer uma concatenação entre carne, privação e morte. É como um cenário em que duas pessoas estão diante de um assassinato – uma delas assiste tudo e a outra escuta apenas os tiros e os gritos. Ou seja, a primeira pessoa naturalmente estará em um nível de reflexão mais profundo do que foi visto. E como a outra não viu nada, seja por recusa ou temor do que aquilo poderia despertar nela, talvez a interpretação do fato seja dissonante.

No geral, creio que é problemático qualificar quem consome animais como alguém ruim. Naturalmente, pesamos o sofrimento dos animais, e isso é evidentemente terrível. Porém, se nos entregamos à emoção, facilmente perdemos a razão – como diz o clichê. Sim, não tenho dúvidas de que há pessoas que não teriam problema nenhum em matar animais e comê-los. Talvez até por uma questão de disfunção narcotizante, que neste caso em específico seria a banalização da morte, mas esses não representam a maioria da população. Na realidade, a maioria sequer já teve contato real com animais reduzidos a alimento e produtos. Tenho certeza de que muitas pessoas precisam apenas de uma oportunidade de conscientização, de contato mais profundo com essa questão da exploração animal; de tudo que envolve a redução dos animais a alimentos e outros produtos.

Normalmente me deparo com situações em que pessoas que comem carne ficam surpresas e sensibilizadas com algum fato que envolve a exploração animal. Posso citar como exemplo um caso em que havia um mamilo em um pedaço de bacon e houve bastante comoção. Muita gente apontou hipocrisia nisso, o que não deixa de ser verdade, já que ao comer bacon, você está comendo um pedaço de um porco, um animal com mamilos. Mas, por outro lado, entendo que essa reação também pode ser um indicativo de um choque de realidade que pode instigar conscientização e sensibilidade, enfim, quem sabe, predisposição a uma verdadeira reflexão do que é o sofrimento animal. Sendo assim, vejo nessas pessoas que ficam chocadas uma franca possibilidade de mudança.

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