David Arioch – Jornalismo Cultural

Jornalismo Cultural

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Direitos animais não são sobre privilégios para não humanos

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O movimento vegano não é um movimento homogêneo

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Se uma pessoa busca no veganismo uma indefectível unissonância, só me resta dizer que talvez esteja procurando isso no lugar errado (Arte: One Green Planet)

O movimento vegano não é um movimento homogêneo, até porque pessoas têm suas idiossincrasias e inclinações que podem ser inclusive antagônicas – em um contexto à parte de convergências. Afinal, ser humano perpassa pela subjetividade e contrariedade, em poucos ou muitos aspectos. Se uma pessoa busca no veganismo uma indefectível unissonância, só me resta dizer que talvez esteja procurando isso no lugar errado.

Acho importante aprender a lidar com a diversidade dentro do veganismo, até porque o mais importante para mim sempre é chegar à consciência e talvez até o coração das pessoas, se possível. Por isso não escrevo para que as pessoas se sintam mais nem menos veganas. Assim como não escrevo com a finalidade de ditar regras nem ofender ninguém que não seja vegano nem vegetariano.

O que tenho como premissa em relação ao veganismo, porém não como construto identitário, na realidade é muito simples – animais não existem para me servir e cabe a mim fazer o possível para não contribuir com essa exploração, e claro que isso significa me abster de consumir qualquer coisa de origem animal independente de circunstância.

Uma galinha poderia botar um ovo na entrada do meu quarto, eu não o pegaria e o comeria, porque simbolicamente representaria o reconhecimento de que um animal pode me alimentar, e nisso há uma associação com a servidão. Eu não concordo com isso. Mas este sou eu na minha concepção tradicional de veganismo, que vai ao encontro da proposta vanguardista ocidental de 1944, ou seja, não consumir nada de origem animal dentro das minhas possibilidades tangíveis.

Não duvido que devo ter inúmeros textos que incomodam as pessoas, mas posso dizer com alguma propriedade que nenhum deles traz qualquer tipo de opugnação verbal, já que não vejo sentido em vituperar para conscientizar. Na minha opinião, acreditar em um veganismo uniforme é definitivamente crer em uma utopia, uma quimera, uma veleidade. Não somos feitos em série, somos pessoas, e cada a qual com bagagens sortidas construídas ao longo da vida.

O que devemos ter em comum é só uma coisa – respeito pelos animais. A literatura animalista prova como a diversidade nesse contexto é imensa, e cada um, independente de antagonismo, tem o direito de manifestar o seu posicionamento, por mais bizarro e púnico que nos pareça. Sim, não cabe a mim o direito de coarctar ninguém, até porque isso não seria direito, somente injunção; e arbitrariedade não me parece algo que combine com o veganismo.

Vejo o veganismo como a luta pela liberdade, um tipo mais abrangente de liberdade, talvez a maior da história da humanidade se considerarmos o tanto de criaturas que visamos libertar da exploração – milhões, trilhões – dependendo da espécie. No entanto, se consoante isso alguém preconiza ou vaticina cerceamento de algum tipo, até mesmo da manifestação de uma opinião, se valendo do veganismo, podemos transmitir talvez uma das piores imagens que não gostaríamos de difundir; ou pelo menos não deveríamos se ponderarmos o impacto disso em um mundo em que pessoas que se preocupam com os animais a ponto de não consumi-los ainda é pequeno, embora crescente e auspicioso, no meu entendimento.

Em síntese, se entendemos o veganismo como liberdade, creio que devemos sim evitar qualquer tipo de cesarismo em relação a quem diverge de nós em alguns pontos. Se uma pessoa não se alimenta de animais por uma questão ética, ela já está do nosso lado, mesmo que haja divergências, e divergências podem ser debatidas. Tento ser cuidadoso em relação ao viés romântico e passional das coisas que me interessam, porque sei que se eu permitir uma visceralização, esse viés pode me engolir e suprimir a intelecção e a capacidade de analisar a realidade sob uma perspectiva menos unilateral.

Sendo assim, ressalto que sempre que produzo conteúdo sobre direitos animais e veganismo, jamais tenho a intenção de impor o que cada um deve ou não fazer, sejam eles veganos ou não. Falo por mim e escrevo por mim. Creio no poder de sugestão e de conscientização, e reverbero também o que foi dito por aqueles sobre quem pesquiso. No entanto, cabe a cada um ver algum valor ou não nisso. Nos meus textos, não é difícil perceber que há sempre pontos de consideração ou reflexão, porque é exatamente esse o meu objetivo. Não nego que tenho mais predileção por despertar dúvidas. Em síntese, meu papel é compartilhar informações sobre a exploração animal, informações que podem ser elucubradas ou não. Logo fique à vontade para simpatizar – ou não. Afinal, creio que isso também é parte do veganismo.





 

A nossa existência não depende do consumo de animais

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Creio que hoje a missão mais importante seja fazer o caminho reverso da indústria de exploração animal (Foto: We Animals/Jo-Anne McArthur)

Dias atrás, me perguntaram qual seria a melhor forma de reverter a exaltação ao consumo de alimentos de origem animal na atualidade. Qual é a melhor estratégia para ajudar os animais?

Sem dúvida, é imprescindível se aprofundar cada vez mais nessas questões, até porque é importante ampliarmos as nossas possibilidades de argumentação. Mas, a princípio, acredito que o primeiro passo é a conscientização.  Mostrar para as pessoas que a existência delas não depende do consumo de produtos de origem animal, que isso é um fator cultural, não essencial.

Talvez pareça “essencial” hoje para muita gente porque elas não levam em conta que os animais sempre foram vistos como matérias-primas de alta disponibilidade, logo eles são explorados porque a indústria deu a entender que sem esse tipo de exploração a vida como conhecemos hoje não seria possível. Mas isso é um grande engano. Exploramos os animais por comodismo e facilidades; porque quando começamos a reduzi-los à comida, o ser humano percebeu que seria ainda mais rentável aproveitar mais do que sua carne.

“Se já fazemos comida com os animais, se eles vão morrer de qualquer jeito, por que não usar inclusive os cascos e os chifres?”, alguém pensou, e assim a vida animal acabou sendo ainda mais desvalorizada do que já era antes da Revolução Industrial. Todos esses produtos criados a partir de animais como fonte de matéria-prima existem basicamente porque a indústria viu nisso um negócio altamente lucrativo, de baixo custo.

A maior prova disso é o processo de fabricação de artigos de couro. Uma peça de couro cru de pouco mais de um metro pode custar menos de R$ 50 no varejo hoje em dia. Esse é o valor da pele de um animal que um dia respirou, assim como eu e você. Com essa peça, não é difícil obter um lucro de 1000% dependendo do produto a ser feito.

Acredito que a reflexão sobre a questão animalista deve ser estimulada não apenas de forma passional, mas com argumentos, mostrando as falhas desse sistema e suas consequências. A conscientização, mais do que nunca, precisa estar acompanhada de pesquisas que apresentam alternativas para suprir as lacunas que devem ser deixadas pela indústria, até para realocação de recursos, empregabilidade, entre outras consequências que poderiam gerar crises econômicas.

Além disso, o aprofundamento é uma boa forma de rebater falsos argumentos disseminados por uma indústria que não poupa esforços, que patrocina a produção de muitos artigos acadêmicos com finalidades escusas, assim ampliando o escopo de desinformação. Sem dúvida, na atualidade muita gente depende do sistema de exploração animal, e claro que porque isso não se firmou agora.

Estamos falando de um sistema que começou a se desenvolver exponencialmente e nos moldes industriais no período da Revolução Industrial, ou seja, desde o século 18. É muito tempo incutindo na mente das pessoas uma quantidade absurda de falsas necessidades. Infelizmente, é um fator negativamente cultural, reforçado por meio de propaganda. E os meios de comunicação, como vetores, têm grande parcela de culpa nisso.

Creio que hoje a missão mais importante seja fazer o caminho reverso da indústria de exploração animal. As transformações, as mudanças, devem acontecer dia a dia. Por enquanto, é imprescindível a contínua disseminação de informações que induzem à discussão, à reflexão, à produção de soluções e de provas de que o abolicionismo animal busca e prevê o melhor futuro para a humanidade e os animais.

Também acho importante mostrar que os vegetarianos e veganos nunca estiveram sozinhos. A história do vegetarianismo e do veganismo precisa ser contada sempre, para mostrar que não se trata de uma tendência. Sempre tivemos bons representantes dos direitos animais e do vegetarianismo, e, desde 1944, do veganismo. Essa preocupação sempre existiu, ao contrário do que muitas vezes é veiculado de forma equivocada pelos meios de comunicação. Em síntese, quanto mais informação e mais pesquisa, melhor.





Gary Francione: “Dizer que um ser senciente [um animal] não é prejudicado pela morte é definitivamente estranho”

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Francione explica por que é errado matar um animal independente do tratamento dado a ele

“Se pesarmos os interesses dos animais com seriedade, realmente não poderemos evitar de pensar sobre a moralidade do uso para além das considerações de tratamento” (Acervo: Abolitionist Approach)

Recentemente, o professor de direito da Rutgers School of Law, de Newark, New Jersey, Gary Francione, uma das referências na luta pelo abolicionismo animal, publicou um artigo intitulado “A ‘humanely’ killed animal is still killed – and that’s wrong”, em que explica por que é errado matar um animal independente do tratamento dado a ele. Francione parte do princípio de que a sabedoria convencional ocidental sobre ética animal diz que matar um animal não é o problema, mas sim fazê-lo sofrer.

Ou seja, no mundo em que vivemos defende-se a crença de que se tratarmos “bem” um animal e depois o matarmos de forma “humana” está tudo bem, já que o nosso único suposto erro seria fazê-lo sofrer. Essa consideração é um equívoco em essência, já que além de ignorarmos em algum nível o sofrimento visível, também ignoramos a subjetividade do sofrer, já que aos olhos da sociedade ocidental o sofrimento animal só é reconhecido caso sua manifestação de dor seja excruciante, ou seja, bastante desconfortável aos olhos humanos.

“Se alguém causar sofrimento a um cão ou gato, será criticado. Mas cães e gatos indesejados são rotineiramente ‘colocados para dormir’, mortos em abrigos onde aplicam injeção intravenosa de pentobarbital de sódio, e a maioria das pessoas não se opõe enquanto o processo é administrado adequadamente por uma pessoa treinada”, critica Gary Francione. Ele relata que antes do século 19 os animais eram considerados coisas. Portanto, se prejudicássemos “uma vaca do vizinho”, por exemplo, a nossa obrigação não era com o animal, mas sim com o “dono”.

Ou seja, o prejuízo causado à vaca, o que aquilo representava a ela como ser senciente era completamente ignorado. “Não significa que negássemos que fossem sensíveis, ou subjetivamente conscientes, e tivessem interesse em não experimentar dor, sofrimento ou angústia. Mas acreditávamos que poderíamos ignorar esses interesses porque os animais eram nossos inferiores. Poderíamos raciocinar; eles não poderiam. Poderíamos usar a comunicação simbólica; eles não poderiam”, enfatiza no artigo “A ‘humanely’ killed animal is still killed – and that’s wrong”.

A mudança formal em relação a essa crença, como bem observada por Francione, surgiu no século 19 com a elaboração da teoria do bem-estar, que propôs uma mudança de paradigma. O advogado e filósofo Jeremy Bentham sugeriu uma formal rejeição à ideia de que os animais são coisas, defendendo a ideia de que os animais não humanos têm valores morais.

Em 1789, Bentham argumentou que embora um cavalo ou cachorro adulto seja mais racional e tenha mais aptidão para se comunicar do que uma criança humana, não é isso que devemos ponderar: “A questão não é: eles podem raciocinar? Ou então, eles podem falar? Mas, eles podem sofrer?”

Segundo o professor Francione, Bentham sabia que os animais eram cognitivamente diferentes dos humanos, porém, isso não significava que o sofrimento deles não era moralmente importante. Para o advogado e filósofo do século 19, ignorar o sofrimento dos animais com base em suas espécies era tão injustificável quanto a escravidão baseada na cor da pele. Contudo, Bentham que, assim como John Stuart Mill, foi uma das primeiras e principais referências do utilitarismo, não defendia a libertação animal. Não se posicionava contra o uso de animais.

“Ele sustentou que era moralmente aceitável usar e matar animais para propósitos humanos desde que os tratássemos bem. De acordo com Bentham, os animais vivem no presente e não estão cientes do que perdem quando tiramos suas vidas”, relata Gary Francione, acrescentando que o filósofo utilitarista via o abate como um bem que os seres humanos faziam aos animais, desde que o processo fosse relativamente indolor.

Em sua defesa, Jeremy Bentham dizia que a morte dos animais por mão humanas era e sempre poderia ser mais rápida, logo menos dolorosa, do que aquela que os aguardava no curso inevitável da natureza. “Em outras palavras, [na ótica de Bentham], a vaca não se importa que nós a matemos e a comemos. Ela se preocupa apenas com a forma como a tratamos e matamos, e seu único interesse é não sofrer”, informa o professor Francione, citando o posicionamento de Jeremy Bentham.

Essa crença de Bentham é partilhada até hoje por muitas pessoas que não veem nada de errado na morte de um animal reduzido a alimento, desde que o seu fim seja supostamente indolor. Na década de 1970, a teoria utilitarista de Jeremy Bentham foi endossada pelo filósofo australiano Peter Singer, que inclusive reproduz no seu clássico “Animal Liberation”, de 1975, algumas crenças pré-formuladas por Bentham.

“Acreditamos que essa visão está errada. Dizer que um ser senciente não é prejudicado pela morte é definitivamente estranho. Senciência não é uma característica que evolui para servir como um fim em si. Em vez disso, é uma característica que permite aos seres que a possuem identificarem situações prejudiciais e que ameaçam a sobrevivência”, frisa Gary Francione.

Não é novidade para ninguém que animais preferem permanecer vivos, o que prova que o anseio pela continuidade da existência também é uma prerrogativa não humana. Sendo assim, não é coerente ou justo afirmarmos que um animal não é prejudicado quando sua morte é um meio para satisfazer o paladar ou para obtenção de lucro, por exemplo. O professor Francione acredita que dizer que os animais não têm interesse em viver seria o mesmo que dizer que uma pessoa com olhos não tem interesse em enxergar.

“Os animais em armadilhas mastigam suas patas ou membros, assim infligindo um grande sofrimento sobre si mesmos, e fazem isso para continuarem vivendo”, exemplifica. Sob a perspectiva utilitarista, e analisando situação análoga, Peter Singer diz que embora um animal possa lutar contra uma ameaça à sua vida, isso não significa que ele tenha a continuidade mental necessária para desenvolver um senso de si mesmo. Francione discorda:

“Mesmo que os animais vivam no ‘presente eterno’ que Bentham e Singer pensam que eles habitam, isso não significa que eles não são conscientes de si mesmos ou que não têm interesse em continuarem existindo. Os animais ainda estarão conscientes de si mesmos em cada instante de tempo e terão interesse em perpetuar essa consciência. Seres humanos que têm uma forma particular de amnésia podem ser incapazes de se recordarem de lembranças ou de articularem ideias sobre o futuro, mas isso não significa que eles não sejam autoconscientes, que não tenham senso de si mesmos em cada momento, ou que a cessação dessa consciência não seja prejudicial.”

De acordo com o professor Gary Francione é horar de repensarmos a nossa relação com os animais para além do tratamento “humanitário”. Se testemunharmos e analisarmos a morte de um ser não humano como uma questão moral, isso pode nos levar naturalmente à conclusão de que independente do propósito a morte de animais reduzidos a alimentos ou fontes de produtos não é moralmente justificável. “Levando em conta que os animais são considerados propriedades e geralmente protegemos os seus interesses na medida em que isso nos interessa economicamente, é uma ilusão pensar que o tratamento ‘humanitário’ é um padrão alcançável em todos os casos. Então, se pesarmos os interesses dos animais com seriedade, realmente não poderemos evitar de pensar sobre a moralidade do uso para além das considerações de tratamento.”

Referência

Francione, Gary. A ‘humanely’ killed animal is still killed – and that’s wrong. Aeon (2017).





Gary Francione: “Nossa exploração de animais não humanos representa a violência em uma escala sem precedentes”

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“Precisamos parar de comer, vestir e usar animais e produtos de origem animal”

“Matamos o maior número de animais para a produção de alimentos – cerca de 60 bilhões de animais terrestres e pelo menos um trilhão de animais marinhos são mortos anualmente” (Acervo: Abolitionist Approach)

Em artigo publicado no site Abolitionist Approach no dia 14 de dezembro, como parte da divulgação do seu novo livro “Advocate for Animals! – An Abolitionist Vegan Handbook”, escrito em parceria com Anna Charlton, o professor Gary Francione, referência na luta pelo abolicionismo animal, assim como Anna, escreveu que desde o início dos tempos houve, no total, cerca de 110 bilhões de seres humanos que viveram e morreram:

“Nós matamos mais animais não humanos do que isso todos os anos. Pense nisso por um segundo. Nossa exploração de animais não humanos representa a violência em uma escala sem precedentes. Matamos o maior número de animais para a produção de alimentos – cerca de 60 bilhões de animais terrestres e pelo menos um trilhão de animais marinhos são mortos anualmente. E há muitos bilhões mortos todos os anos por outros motivos, como pesquisa biomédica, entretenimento e esporte.”

Francione declarou que uma coisa clara e incontestável é que a horrível e difusiva exploração animal não vai acabar logo. Segundo o professor de direito da Rutgers School of Law, de Newark, New Jersey, o problema subsiste no fato de que nos últimos 200 anos a defesa animal se concentrou no tratamento “desumano” dispensado aos animais.

Ou seja, os defensores dos animais fizeram principalmente campanhas para obter padrões de tratamento supostamente mais “humanos”; ou então se concentraram em combater práticas pontuais como o uso de animais para a extração de peles. Tal abordagem, de viés evidentemente parcial e mesmo especista, é vista por Francione como um equívoco que arranhou a superfície do problema, não chegou à base. A consequência disso é que as pessoas continuaram sentindo-se mais à vontade para continuarem explorando os animais.

“O movimento abolicionista animal, que surgiu na década de 1990, considera que o problema não é o tratamento, mas o uso. Não se trata de tornar a exploração mais ‘humana’. Não se trata de dar enfoque às peles de animais, que não são diferentes da lã ou do couro. O que envolve esse movimento abolicionista?”, questionou.

Para Gary Francione o abolicionismo é sobre a adoção de uma posição que defende estritamente os reais direitos animais sem fazer concessões. Ou seja, sem ser permissivo ou condescendente em relação às políticas bem-estaristas. “Mantemos essa posição, assim como rejeitamos a escravidão dos seres humanos como nossa propriedade. Só então eles [os animais] podem ser reconhecidos como pessoas não humanas. Abolição [animal] envolve uma clara e explícita rejeição da posição de bem-estar animal – a ideia de que é moralmente aceitável usar animais desde que os tratemos de forma ‘humana’”, argumentou.

Na perspectiva do professor Francione, para abolir a exploração animal como uma questão social é preciso abolir a exploração animal de nossas vidas individuais. Isso significa que, se acreditamos que os animais são moralmente importantes, é essencial tornar-se vegano. “Precisamos parar de comer, vestir e usar animais e produtos de origem animal na medida do possível. E devemos advogar o veganismo de forma criativa e não violenta, a fim de incentivar os outros a tornarem-se veganos”, enfatizou.

É justamente isso que Gary Francione e Anna Charlton abordam no livro “Advocate for Animals! – An Abolitionist Vegan Handbook”, definido pelos autores como um guia prático de como abordar o veganismo da melhor forma possível – com clareza e bons argumentos. A obra está à venda no site Amazon.com.

Referência

Francione, Gary. New Book: Advocate for Animals! An Abolitionist Vegan Handbook. 14 de dezembro de 2017. 

 





Richard D. Ryder: “Todos nós conhecemos pessoas que podem desistir da carne com facilidade”

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Há também a luxúria [do consumo] de carne que é muito forte, digamos que atinge 30% da população humana”

“Agora temos de tentar argumentar contra o preconceito do especismo no resto do mundo, e particularmente nos novos centros de poder econômico como Índia, Brasil e China” (Acervo: Animal Interfaith Alliance)

Richard D. Ryder é um psicólogo, defensor dos direitos animais e escritor britânico que em 1970 cunhou o termo “especismo”, uma forma de discriminação que se baseia na ideia de que pelo fato do ser humano considerar outros seres inferiores, ele ignora seus interesses em não sofrer, inclusive negando-lhes o direito à vida. Ao longo de mais de 40 anos, Ryder escreveu importantes livros como “Victims of Science”, de 1975; “Animal Revolution: Changing Attitudes Towards Speciesism”, de 2000; “A Modern Morality”, de 2001; “Putting Back Into Politics”, de 2006; e “Speciesism, Painism and Hapiness”, de 2011.

Em 2010, Richard D. Ryder publicou na Critical Society, Issue 2, uma versão comentada e atualizada do seu folheto “Speciesism”, distribuído em Oxford em 1970 como uma reação contrária às experiências com animais. Logo o termo especismo passou a ser estendido a todas as formas de exploração contra animais não humanos, incluindo, claro, criaturas reduzidas a produtos e alimentos.

Na publicação da Critical Society, Ryder afirma que as revoluções de 1960 contra o racismo, sexismo e classismo ignoraram completamente os animais. Todos pareciam estar preocupados em reduzir somente o preconceito contra seres humanos. “Eles não tinham ouvido falar de Darwin? Eu odiava o racismo, sexismo e classismo também, mas por que parar nisso?”, declarou e acrescentou que como cientista ele já sabia que outras espécies de animais também sentem medo, dor e aflição, assim como nós.

A princípio, o panfleto “Speciesism”, que Ryder distribuiu em Oxford, não teve nenhum efeito. Então ele mudou a sua tática. Reimprimiu o texto com uma ilustração de um chimpanzé usado em experiências e infectado com sífilis. “Pedi a um amigo, David Wood, que incluísse seu nome para que o folheto tivesse um endereço universitário e o enviei às universidades. Desta vez tive algumas respostas. Um dos destinatários era um jovem filósofo australiano chamado Peter Singer. Em poucos meses, ele entrou em contato comigo. Muita coisa aconteceu desde então”, revelou.

No panfleto, o psicólogo afirma que desde Darwin os cientistas têm concordado que não há uma diferença essencialmente “mágica” entre seres humanos e outros animais, falando biologicamente. “Por que então moralmente fazemos uma distinção quase total? Se todos os organismos estão em um contínuo físico, então eles também devem estar no mesmo contínuo moral”, defendeu.

No panfleto, Richard D. Ryder faz uma observação bem crítica em relação ao especismo ao frisar que sob condições especiais de laboratório talvez seja possível acasalar um gorila com um professor de biologia. “Será que a prole peluda será mantida em uma gaiola ou em um berço? […] É costume descrever o homem de Neandertal como uma espécie diferente de nós, uma especialmente equipada para sobreviver à Era do Gelo. No entanto, a maioria dos arqueólogos agora acredita que essa criatura não humana praticava o enterro ritual e possuía um cérebro maior que o nosso. Suponha que o elusivo e abominável Homem das Neves, quando apanhado, acabe por ser o último sobrevivente desta espécie de Neandertal, daríamos a ele um assento na ONU ou implantaremos elétrodos em seu cérebro super humano?” As questões levantadas lembram os conflitos e a “evolução” do símio Peter apresentada por Franz Kafka no conto “Ein Bericht für eine Akademie” ou “Um Relatório para a Academia”, publicado em 1917.

Exemplos hipotéticos como os citados anteriormente por Ryder podem chamar a atenção para a falta de lógica da nossa posição moral em relação à exploração animal. Independente do direito à vida, ele pondera que um critério moral claro é o sofrimento, o sofrimento ocasionado pelo confinamento, medo, tédio e dor física, entre outros exemplos.

Se assumirmos que o sofrimento é uma função do sistema nervoso, então é ilógico argumentar que outros animais não sofrem de maneira semelhante a nós. Na realidade, é precisamente porque alguns outros animais têm sistemas nervosos tão parecidos aos nossos que eles são extensivamente estudados. Em relação aos argumentos a favor de experiências com animais, Ryder aponta inúmeras inconsistências. Há cientistas que dizem que o avanço do conhecimento justifica todos os males. Será que realmente justifica?

Suponhamos que em um determinado experimento as chances de sofrimento de um animal são mínimas, e as probabilidades dessa experiência auxiliar a medicina aplicada é excelente, ainda assim isso não seria especismo? “E como tal é um argumento emocional egoísta, não fundamentado. Se acreditamos que é errado infligir dor a animais humanos inocentes, então a única lógica, falando filogeneticamente, é estender a nossa preocupação sobre direitos elementares aos animais não humanos”, escreveu Richard D. Ryder no panfleto publicado originalmente em 1970.

Além de lutar pela proibição de testes em animais, Ryder, que tem mestrado em psicologia experimental e doutorado em ciências políticas e sociais pela Universidade de Cambridge, se envolveu diretamente em campanhas contra a criação de animais para consumo, e campanhas de proteção aos elefantes, baleias e focas. Desde 1985, o psicólogo qualifica a sua posição moral como painism (painismo), que diz respeito ao reconhecimento de direitos para todas as criaturas que sentem dor, um assunto que é exaustivamente abordado no seu livro “Speciesism, Painism and Happiness”, de 2011.

Na perspectiva do psicólogo, o painismo é uma terceira via entre a posição utilitarista do filósofo australiano Peter Singer e a visão deontológica de direitos do filósofo estadunidense Tom Regan, já que combina a visão utilitarista de que o status moral vem da capacidade de sentir dor com a proibição sob a ótica de direitos de que é errado usar outros seres sencientes como meios para um fim, desconsiderando as implicações disso para vítima.

O painismo considera o utilitarismo falho porque nesse sistema ético a tortura ou estupro é “justificável quando os benefícios totais compensam as dores da vítima”, o que é um absurdo, segundo Ryder, se considerarmos que os limites da experiência são os limites do indivíduo. Ou seja, não é porque várias pessoas tiveram prazer em um ato que o sofrimento de uma vítima pode ser considerado secundário. Uma ação não deixa de ser errada ou imoral porque dezenas, centenas ou milhares foram beneficiados.

Embora o trabalho de Richard D. Ryder contra a objetificação animal tenha ganhado mais visibilidade nas últimas décadas, a sua luta começou há muito tempo. Em 1969, ele participou de um protesto contra a caça às lontras em Dorset, no sudoeste da Inglaterra. Foi nessa época que ele realmente se interessou pela questão dos direitos animais e enviou três cartas sobre o assunto para o jornal The Daily Telegraph. Em um dos textos, intitulado “Rights of Non Human Animals” ele usou como referência o seu próprio trabalho como pesquisador para condenar as pesquisas com animais.

A romancista Brigid Brophy, também defensora dos direitos animais, leu as cartas de Ryder e o apresentou a Rosalind Godlovitch, Stanley Godlovitch e John Harris, três estudantes de pós-graduação da Universidade de Oxford que estavam editando a obra “Animals, Men and morals: An Inquiry into the Maltreatment of Non-Humans”, uma coleção de ensaios sobre direitos animais lançada em 1971.

O grupo que mais tarde recebeu o nome de Oxford Group, e atraiu novos membros, sedimentou o caminho de Ryder como ativista pelos direitos animais. Eles não apenas produziam material, mas também realizavam encontros, reuniões, imprimiam e distribuíam folhetos em crítica à exploração animal. Logo a luta contra exploração de animais para consumo se tornou uma das prioridades, assim como à rejeição à experimentação animal.

Em 1973, Peter Singer escreveu uma resenha do livro “Animals, Men and morals” para o The New York Review of Books, enfatizando que o artigo “Experiment on Animals”, que integra a obra, e escrito por Richard D. Ryder, era um apelo à criação de um movimento de libertação animal. O trabalho influenciou Singer a escrever o livro “Animal Liberation”, de 1975. Na obra, Singer aborda o especismo no quinto capítulo; o que ajudou a popularizá-lo mundialmente, passando mais tarde a ser incluído inclusive nos mais importantes dicionários.

Em 1977, Richard D. Ryder assumiu a posição de chairman do conselho da Royal Society for the Prevention of Cruelty to Animals (RSPCA) e ajudou a coordenar a primeira conferência acadêmica de direitos animais realizada em agosto de 1977 em Cambridge. O resultado foi a criação de uma “Declaração contra o Especismo”, assinada por 150 pessoas. Com a ajuda de Ryder, o conselho, que se dedicava principalmente à proteção de animais de companhia, passou a dar grande importância às questões envolvendo fazendas industriais, experiências laboratoriais caça e esportes com animais.

Em 9 de março de 2011, a “AR Zone – A Record of Rational Discourse” publicou uma entrevista histórica e bastante esclarecedora com Ryder. O psicólogo relatou que uma tática usada por ele para divulgar o termo “especismo” foi mencioná-lo sempre que era convidado a dar alguma entrevista. “Naquele tempo, a mídia gostou porque era algo novo, mas o meio acadêmico demorou para reagir em relação a isso”, comentou.

Segundo Richard D. Ryder, o especismo ainda não chegou ao fim, embora as pessoas estejam se tornando mais conscientes, porque existe um consolidado discurso que atrela a existência dos animais à utilidade em benefício humano. “Há também a luxúria [do consumo] de carne que é muito forte, digamos que atinge 30% da população humana. Essas pessoas vão lutar com unhas e dentes para proteger o seu ‘direito’ de comer carne. Eles ficam muito irritados se forem desafiados. A carne é uma forma genuína de dependência? Ou é basicamente um impulso básico carnívoro que está geneticamente incorporado em alguns seres humanos, mas não em todos nós? Realmente não sei se essa pesquisa foi feita. Todos nós conhecemos pessoas que podem desistir da carne com facilidade, e sem sentir falta. Mas também há outros que determinam as políticas que parecem ‘precisar’ de carne tanto quanto sexo. Eles desejam isso! Esse problema requer pesquisa”, informou em entrevista à AR Zone.

Para Ryder, se quisermos realmente fazer a diferença na vida dos animais, não devemos ter medo de expressar nossas opiniões sobre isso. “Entre em contato com deputados, professores e editores, assim aumentando a importância moral dessa questão. Agora temos de tentar argumentar contra o preconceito do especismo no resto do mundo, e particularmente nos novos centros de poder econômico como Índia, Brasil e China”, escreveu na versão atualizada do panfleto “Speciesism”, publicado em 2010.

Saiba Mais

Richard D. Ryder se candidatou duas vezes ao parlamento inglês. Também é conhecido por suas incansáveis campanhas para convencer os partidos políticos a tratarem a proteção animal como uma questão política.

Referências

Ryder, Richard D. Speciesism (1970). Privately printed leaflet. Oxford (2010).  

Ryder, Richard D. Speciesism, Painism and Happiness: A Morality for the 21st Century. Societas. Imprint Academics (2011).

The Encyclopedia of Animal Rights and Animal Welfare. The Oxford Group. Páginas 261-262 (2009).

Ryder, Richard D. The Struggle Against Speciesism (1979).

Singer, Peter. Animal Liberation (1975). New York Review Books. Página 269.

http://www.62stockton.com/richard/index.html

Professor Richard Ryder Interview





O que aconteceria com os animais se o mundo se tornasse vegano?

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Arte: Irmãos de Mães Diferentes, da série Utopia, do artista alemão Hartmut Kiewert

Não é incomum as pessoas perguntarem o que aconteceria com os animais se o mundo se tornasse vegano. Quando alguém faz tal questionamento, é importante que essa pessoa pondere sobre uma realidade alcançável, não utópica, digressiva. Essa pergunta é feita de duas formas – buscando uma resposta realmente válida ou simplesmente como uma forma de tentar minar qualquer argumento vegano.

Essa pergunta, se feita de forma capciosa, é tola. O mundo não vai se tornar vegano hoje ou amanhã. Esse trabalho em prol do abolicionismo animal é feito como qualquer projeto de longo prazo colocado em prática pela humanidade. Analise com brevidade o nosso passado e reflita sobre a abolição da escravidão, grandes conquistas sociais, entre outras coisas. Algumas delas vieram à tona subitamente? Foram alcançadas rapidamente? Não. São sempre trabalhos iniciados há muito, muito tempo, e que exigem maturação. Toda luta que coloque em xeque o status quo jamais teve visibilidade até o momento em que passou a ser vista como realmente é, ou seja, algo credível e justo.

O vegetarianismo e o veganismo, embora não nos moldes atuais, existem desde o princípio da humanidade. Mas só a partir dos séculos 19 e 20 que passou a haver maior articulação em torno desses ideais. Tivemos um amadurecimento estrutural e nos aproximamos do que entendemos hoje como direitos animais e abolicionismo animal. A literatura da libertação animal, criada formalmente na década de 1970, por exemplo, foi inspirada nas ideias do escritor inglês Henry Salt, que já versava sobre o assunto em 1885.

Vivemos um período de aperfeiçoamento das ideias do abolicionismo animal, de luta pela implementação de políticas públicas. Há mais produção, mais acesso à informação, e isso é muito bom para a mentalização, porque impacta nas nossas relações de consumo, no fortalecimento da ideia de que animais não são objetos, mas sim seres sencientes que merecem viver à sua maneira. Claro, o abolicionismo animal não vai acontecer facilmente ou tão logo. Ninguém vai pegar um megafone e anunciar em um canal no YouTube ou na TV que repentinamente todos os animais foram libertados dos matadouros, das áreas de confinamento.

Não creio que veremos bilhões de animais atravessando ruas e pastos. Nem mesmo sendo remanejados para outras áreas. Sabe por que? Porque o veganismo pelo menos por enquanto tem acontecido majoritariamente sob o aspecto da desaceleração de consumo. O que isso significa? Significa que o veganismo vai ganhando espaço conforme a demanda de produtos de origem animal for diminuindo. Com isso, quem lucra com a exploração animal não terá motivos para investir tanto, até por entender que trata-se de mau investimento.

Com a desaceleração do consumo, será mais fácil desenvolver um trabalho de educação vegana. Na minha opinião, a educação vegana depende dessa desaceleração. Atualmente, estamos caminhando para banir a realização de testes de produtos em animais nos próximos anos. Pode parecer pouco, mas só de instigar nas pessoas a reflexão contra a objetificação animal em laboratórios já existe uma possibilidade de ponderação mais ampla sobre a exploração animal.

Atualmente, as pessoas não veem com bons olhos os circos que exploram animais, tanto que é uma prática banida em muitos estados e países. Os zoológicos que lucram com a exploração animal também já não são romantizados. Há cada vez mais pessoas reprovando a realização de vaquejadas, touradas e rodeios, entre outras práticas violentas. Há mais comoção em relação ao abandono de animais, e as pessoas estão mais preocupadas com a origem do que consomem. Prova disso é que se você apresentar uma boa alternativa de produto industrializado sem ingrediente de origem animal, sempre haverá aqueles que optarão por não continuarem endossando esse tipo de exploração. O mundo vegano tem sido construído a cada dia, e não da forma utópica apontada de forma jocosa por quem o considera irrealizável.

Se pensarmos que há 20 anos, ou até menos, tudo que citei acima era parte de uma realidade considerada normal, não é difícil reconhecer que essas mudanças são pontos positivos e determinantes para a construção de um mundo vegano, e todos esses fatores dependem da conscientização sobre a exploração animal em todas as esferas. Penso que se o veganismo se tornar uma realidade para a maioria da população, e espero que seja, mesmo que eu não esteja aqui, o número de animais criados e reduzidos a produtos e entretenimento será surpreendentemente menor. Tão menor se comparado à atualidade que não será difícil remanejar para santuários os últimos animais explorados, onde poderão viver até os seus últimos dias.





Luiz Felipe Pondé: “O que eu acho do veganismo?”

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“Esse tipo de pureza pra mim não é diferente daqueles calvinistas doidos que queimavam gente e achavam que tudo era o demônio”

Pondé comete um equívoco ao dizer que veganismo é sobre pureza

Assisti um vídeo do filósofo Luiz Felipe Pondé criticando o veganismo. Obviamente, o meu objetivo não é desconsiderar o seu trabalho enquanto filósofo nem a sua figura humana, mas sim apontar falhas substanciais no seu discurso “O que eu acho do veganismo?”

Enquanto fuma um charuto, Pondé começa dizendo que uma pessoa sem vícios não deve ser merecedora de confiança. Bom, discordo, até porque tento sempre evitar generalizações. Na minha opinião, vícios, quase sempre surgem com escolhas pessoais e em muitos casos como consequência de uma fragilidade que pode inclusive reafirmar uma volatilidade moral, já que o vício reflete uma ausência de autocontrole, e isso pode implicar em prejuízo não apenas para si mesmo como também para os outros. Sendo assim, essa fragilidade pode criar uma ilusão de que temos o domínio de algo que na realidade tem o domínio de nós. Mas, claro, ainda vivemos em uma realidade em que cada um é livre para optar ou não por ter vícios.

Pondé afirma que é contra qualquer tipo de pureza, a busca pela pureza. Bom, veganismo não é sobre pureza. Claro, buscamos o abolicionismo animal, mas não vivemos imersos em uma realidade ultrarromântica. Veganos têm consciência de suas limitações, e ainda assim aceitam o desafio de fazer o possível para reduzir impactos na vida dos animais. Segundo o filósofo, “as pessoas têm o direito de comer o que quiser, contanto que não seja outros seres humanos.” Esse é um ponto crítico sob a perspectiva vegana. O chamado “direito” do ser humano de se alimentar de outras criaturas não foi” concedido” por ninguém a não ser por ele mesmo, logo uma arbitrariedade, já que consiste em subjugar outros animais sencientes e conscientes, ignorando seus interesses, ou seja, o direito à vida.

“Os animais são sujeitos de uma vida? Esta é a pergunta que precisa ser feita sobre os animais porque é a pergunta que precisamos fazer sobre nós”, escreveu o filósofo Tom Regan no livro “Empty Cages”. Segundo Regan, não podemos declarar que o motivo pelo qual nós enquanto seres humanos temos direitos é porque somos igualmente sujeitos de uma vida, mas outros animais, que são exatamente como nós enquanto sujeitos de uma vida, bem, eles não têm nenhum direito. “Isso seria como se colocar diante do mundo e gritar: ‘Um Volvo não é um carro porque um Volvo não é um Ford!’

A opinião de Luiz Felipe Pondé, ao defender o ato de matar animais e consumi-los como um direito é evidentemente especista e antropocêntrica. Em síntese, é uma defesa de status quo, da perpetuação do que já existe e é praticado. O seu posicionamento não reconhece a defesa dos direitos animais e menos ainda a legitimidade da teoria abolicionista animal, que defende que os animais não existem para os nossos próprios fins, em qualquer circunstância.

Pondé diz que não cabe condenação a quem consome proteína animal. Acredito que depende. Não vejo necessidade em atacar pessoas, realmente, até porque isso é contraproducente. Porém, de forma conscienciosa, considero imprescindível criticar com probidade o nosso papel enquanto espécie e a nossa iníqua relação com os outros animais, até porque as pessoas não costumam refletir sobre o seu papel em relação as outras espécies, por considerá-las inferiores. Então a conscientização é importante. Afinal, matamos por ano, e não por uma questão de necessidade, bilhões de criaturas que, assim como nós, gostariam de viver, não de morrer. Não há romantismo nisso, mas apenas a constatação da realidade. Ninguém nasce ansiando pela própria finitude.

Para Pondé, muitas pessoas aderem ao veganismo “por uma certa tensão puritana”. Discordo. Veganos não são isentos de vícios, não são seres perfeitos, nem se julgam como tal. Pelo menos desconheço quem faça isso, e se há casos desse tipo é uma questão de equivocada construção individual, sem respaldo na filosofia de vida vegana. Basta analisarmos a história do veganismo e o trabalho dos seus principais pensadores e teóricos. A observação de Pondé me parece mais próxima do vegetarianismo místico do que do veganismo quando cita “puritanismo”, “puritano”, “purismo”, “pureza”, embora sejam palavras que compõem um grande escopo de significados, até mesmo antagônicos em alguns aspectos. Na realidade, o veganismo é bem prático. Basta partirmos da seguinte premissa: “ Se posso viver bem sem matar ou tomar parte na morte de outros seres vivos, por que fazer isso?”

Pondé enfatiza que outro grande equívoco é “a ideia de que você pode se retirar da cadeia de violência da natureza”. Bom, não conheço veganos que afirmam categoricamente que estão completamente livres da cadeia de violência, até porque a maioria vive a realidade urbana, e nesse contexto é mais difícil ainda se livrar das armadilhas que envolvem a exploração animal, já que o ser humano subjuga outras espécies de forma tão visceral que até mesmo pneus contêm insumos de origem animal. Como é o caso do ácido esteárico baseado em gordura bovina. Porém, nada disso impede a luta para diminuir cada vez mais essa exploração, demandando alternativas que não envolvam agrilhoamento e morte de outras espécies. Veganismo é sobre o aperfeiçoamento na nossa relação com outros animais, até alcançarmos um objetivo maior que é o abolicionismo animal. Se temos condições de mudar hábitos desnecessários, que impactam negativamente em outras vidas, por que não fazer isso? Por que não mostrar para as outras pessoas que é possível viver bem gerando menos violência? Como consequência, isso reduz a objetificação animal.

Outra observação feita pelo filósofo Pondé é a de que o veganismo “deixa a experiência humana do gosto um pouco cerceada”. Bom, veganos não vivem em privação alimentar. Temos uma grande riqueza de alimentos vegetais acessíveis à nossa disposição, e são eles que dão inclusive sabor aos alimentos de origem animal. Afinal, que gosto teria, por exemplo, a carne, sem os temperos de origem vegetal? O que deixa claro que, do ponto de vista alimentar, vegetais são essenciais, ao contrário dos alimentos de origem animal. Até porque a existência de veganos é a prova maior de que ninguém morre sem consumir animais.

Luiz Felipe Pondé também diz que veganos consideram quem come carne como assassino. Bom, não vejo dessa forma, e acredito que quem entende o veganismo em essência sabe que o consumo de carne é um infeliz fator histórico e cultural baseado no costume. A própria literatura vegana e dos direitos animais discorre sobre isso exaustivamente. Para Pondé, veganos buscam uma espécie de pureza que não existe. “Esse tipo de pureza pra mim não é diferente daqueles calvinistas doidos que queimavam gente e achavam que tudo era o demônio”.

Sim, há pessoas que ficam exacerbadas diante do sofrimento animal, da exploração contumaz, e acabam cometendo alguns excessos em seus discursos, porém não cabe generalizações. Esse comportamento é reflexo de uma ânsia por justiça para animais não humanos. Quero dizer, há boa vontade nisso, o problema é que ela pode ter ancorado em uma falha de comunicação imersa nos arroubos da passionalidade.

Se você dialogar com um vegano, por mais ofensivo que considere o seu discurso, você vai perceber que se trata de uma pessoa bem-intencionada que busca e sonha com o melhor para os animais. Comparar veganos com terroristas é bastante surreal, levando em conta que não há registros de arbitrariedades desse tipo praticadas por veganos. Você não encontra veganos violentando quem não é, matando pessoas. Nem mesmo os grupos de ação direta costumam praticar ou defender qualquer tipo de violência quando decidem articular alguma ação em benefício de animais não humanos.

“Tem aí um filósofo chamado Peter Singer, é uma espécie de guru, apesar de que muitos veganos nem sabem disso”, afirmou Pondé. Não duvido que haja veganos que realmente nunca ouviram falar em Peter Singer e em seu livro “Animal Liberation”, porém isso não faz de alguém mais ou menos vegano, até porque obras de direitos animais quando chegam ao Brasil costumam custar caro, logo não são realmente acessíveis. Além disso, depois de Singer, e principalmente a partir dos anos 1980, outros filósofos e pensadores também escreveram sobre o assunto, inclusive seguindo por um caminho diferente e independente de Singer. Também é importante considerar que hoje em dia há muito material sendo produzido sobre o tema e disponibilizado na internet em forma de artigos, o que também tem contribuído bastante para uma melhor conscientização em torno do veganismo e dos direitos animais. Ou seja, não há mais uma dependência de meios tradicionais.

“O que eu critico no veganismo é uma percepção sensorial estética infantil da realidade associada a uma expectativa purista e moralista. E eu não gosto de purismo e moralismo.” Sobre essa citação de Luiz Felipe Pondé eu devo dizer que a considero bem baralhada. Nem purismo nem moralismo têm a ver com veganismo. Veganismo é uma perspectiva não excludente da moralidade, enquanto que o moralismo é baseado em preceitos proverbiais que ignoram a particularidade e a complexidade de uma situação. Na realidade, o veganismo faz exatamente o oposto do moralismo, que é fundamentado na tradição, uma tradição cediça. Acredito que “percepção sensorial estética infantil” é aquela despertada pela propaganda da indústria da exploração animal.

Ou seja, em que a subjugação ou morte de um ser vivo é romantizada e celebrada. Exemplos disso são as embalagens de produtos, os comerciais da Sadia, etc. Ou até mesmo a histórica e recorrente dissociação entre produto e morte. Essa negação, no meu entendimento, também é uma “percepção sensorial estética infantil da realidade”, assim como situações em que pessoas que comem carne ficam surpresas e sensibilizadas com algum fato que envolve a exploração animal. Posso citar como exemplo o caso recente em que uma moça ficou horrorizada porque encontrou um mamilo em um pedaço de bacon. Isso não seria “percepção sensorial estética infantil da realidade”? Eu digo que sim.

Em síntese, achei o vídeo do filósofo Luiz Felipe Pondé criticando o veganismo vacilante e equivocadamente pontual. Quero dizer, me parece que ele se baseou em alguns exemplos de comentários que viu por parte de alguns veganos na internet e usou isso para fundamentar a sua crítica, ignorando o que realmente é a filosofia de vida vegana, e provavelmente não tendo a preocupação de buscar sólidas referências. Ademais, não posso deixar de reconhecer que há um ponto positivo nessa crítica. E qual seria? Ele não teria feito um vídeo falando de veganismo se o tema não estivesse em evidência. Então é claro que as críticas vão crescendo de acordo com a visibilidade e adesão ao veganismo. Para finalizar, parafraseio Adam Smith, uma das referências filosóficas de Pondé, no capítulo 2 do quinto livro de “Wealth of Nations”: “Pode-se duvidar de que a carne do açougue seja necessária à vida em qualquer lugar.”

 

 





Aos animais a liberdade

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Bilhões de animais criados para consumo no mundo todo escutavam isocronicamente um som jamais ouvido antes

Sonhei que bilhões de animais criados para consumo no mundo todo escutavam isocronicamente um som jamais ouvido antes; um tipo de chamamento que fazia com que nada temessem, apenas reconhecessem a sua força em evidência por uma subitânea expansão da consciência.

Arrebentavam gaiolas, grades, correntes, atravessavam pastos e cidades. Se articulavam como nunca, como seres sociais que são. Fugiam de matadouros e laboratórios. Não podiam mais ser tocados, mas simplesmente observados. Aos seres humanos, incapazes de se moverem por um artifício romanesco, restava o direito e a obrigação de assistir tudo como meros espectadores.

A cada passo dos sobreviventes em direção à vida, os seres humanos eram presenteados com flashes da libitina, do decesso, da ortotanásia, da morte; não da própria morte, nem de mortes humanas, mas da finitude dos familiares daqueles animais que remanesceram. Os olhos de uma vaca que corria em celeridade, mesmo com os úberes morrudos e quase tocando o chão, projetavam titânicos hologramas de crianças mortas. Todos os seus filhos executados ao longo de anos de ordenha.

Uma galinha sem bico e com olhos cor de terra projetava o exato momento de sua debicagem, calvário que perdurou por semanas. Na cumeeira, no ponto mais alto de muitas cidades, havia projeções colossais de pintinhos sendo triturados em máquinas. Não paravam de cair, não paravam de morrer. Lembranças de um passado hodierno.

Pessoas tentavam cobrir suas cabeças, temendo que o sangue das pequenas criaturas pudesse lavar suas ignorâncias, insipiências. O obnóxio apedeutismo sufocaria. Mas o ser humano é recalcitrante. Pessoas de todas as idades persistiam; tentavam vendar os olhos, seus e dos outros. Não era mais possível abrenunciar a realidade.

Aqueles que privaram os filhos da verdade também amargaram consequências; as crianças não foram poupadas. Por que seriam? Os animais corriam, e os hologramas se expandiam. A morte evidenciada visceralmente por todos os lados, sem romantismo, sem subversão conscienciosa. A verdade avançava. O céu virou um painel.

Cenas de peixes sufocados em tralhas e devolvidos (ou não) ao mar agonizavam, incapazes de sobreviver por mais do que minutos sempiternos. O fim chegaria, mas custaria. Oceanos, mares e rios cuspiam a humanidade, seus barcos, suas bargas e tralhas. Porquinhos soluçavam pendurados sobre grilhões. Era o último registro do último matadouro. Caprinos e ovinos saltavam sobre os carros; amassavam latarias e corriam.

Aos animais a liberdade, à humanidade o reconhecimento da fealdade. Mais adiante, animais telúricos desapareciam através de tocos de árvores transformados em troncos que se alargavam e funcionavam como portais. Nas águas, os não humanos atravessavam crateras, furnas e lapas quiméricas que repeliam os indesejados. Do outro lado, na terra, na água ou no céu, não havia humanidade, somente reciprocidade semeada pela vontade.





Se sou vegano, é claro que a minha defesa é pelo abolicionismo animal

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Veganismo é isso, independente se alguém o considera visceral ou não. E ele não se tornou assim hoje.

Se sou vegano por crer que os animais não devem ser explorados de modo algum, é claro que a minha defesa é pelo abolicionismo animal. Diariamente, me deparo com pessoas surpresas quando meus textos vão por esse caminho, os considerando exagerados ou radicais. Veganismo é isso, independente se alguém o considera visceral ou não. E ele não se tornou assim hoje.

Essa é a essência do veganismo desde 1944. Inclusive ele foi formatado como uma reação aos muitos autodenominados vegetarianos ingleses da época. Isto porque estes herdaram dos vitorianos o hábito de consumir laticínios e ovos, reprovado pelos vegetarianos estritos e éticos que encaravam esses hábitos como comodismo e legitimação da exploração romantizada; o que justifica a origem do veganismo.

O veganismo desde o seu princípio já não reconhecia nada de origem animal como alimento. Sendo assim, não há nada que deveria chocar ou surpreender nos meus discursos. É tudo uma questão de informação e desinformação. Tudo que escrevo vai ao encontro de algo que foi proposto pelos veganos antes da metade do século XX.

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Written by David Arioch

August 28th, 2017 at 12:23 am