David Arioch – Jornalismo Cultural

Jornalismo Cultural

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“Não consigo olhar pra carne sem pensar em bicho morto”

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Arte: Dana Ellyn

Enquanto eu aguardava atendimento na prefeitura, um camarada se aproximou:

— E aí, Arioch. Tudo bem, cara?
— Estou bem e você?
— Não muito…
— Por que não?
— Rapaz, comecei a ler seus textos e não consigo mais fazer churrasco no final de semana. Ando com um remorso muito grande de comer carne. Última vez que comi um bife foi há seis dias. Não desceu muito bem e não consigo olhar pra carne sem pensar em bicho morto.
— Sério? Isso é muito bom.
— É, né? Mas eu não esperava algo assim. Ainda mais vindo de uma família que criava gado, e que tem o churrasco como tradição. Mas agora não sei. Não consigo mais pensar em churrasco como antes. Não sei se vou virar vegetariano, vegano. Mas sei que hoje em dia a carne me atrai pouco, muito pouco.
— Existe uma mudança aí, pode acreditar. É um novo caminho na sua vida. Po, fico feliz em saber disso.
— Fica feliz, né? Cara, você entra na mente das pessoas. Até meu pai começou a ler seus textos.

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Na banca de caqui

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Enquanto eu selecionava caqui em uma banca de canto

Saí da academia e passei no mercado. Enquanto eu selecionava caqui em uma banca de canto, uma mulher se aproximou e fez o mesmo. De repente, o marido ou namorado dela se achegou.

— Vá lá ver se tem salsinha, cebolinha, essas coisas. Deixe que escolho as frutas.

— Mas você nunca escolhe as frutas.

— Vá lá, deixe que me viro aqui.

— Tá bom!

— Camarada, essa fruta que você pegou está passada – comentei.

— Ah, cara! Não preciso da sua ajuda.

— Ah sim. Tudo bem.

Me afastei e caminhei em direção ao caixa.





Written by David Arioch

June 29, 2017 at 12:30 am

Oi…posso te fazer uma pergunta?

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Pedi só uma garrafa de água, caminhei até uma cadeira e sentei diante de uma mesa (Arte: Tom Brown)

Em outra cidade, o único local onde tive tempo de parar e checar se tinha algo que eu pudesse comer foi em uma lanchonete de um posto de combustíveis. Quando a atendente me mostrou todas as opções, expliquei que não como nada com nenhum tipo de carne, laticínios e ovos.

Então pedi só uma garrafa de água, caminhei até uma cadeira e sentei diante de uma mesa, testemunhando através de uma parede de vidro um pedaço de natureza ainda intocado. Três caras acompanhados de uma moça me observavam em uma mesa de canto.

Enquanto eu bebia tranquilamente, notei que a atendente continuava olhando para mim. Quando percebeu que percebi, ela ficou um pouco acanhada e disfarçou passando uma flanela sobre o balcão. Cerca de dois minutos depois, ela se aproximou:

— Oi…posso te fazer uma pergunta?
— Sim…
— Como você consegue ser desse tamanho sem comer carne, leite e ovos?
— Deve ser a natureza me agradecendo por não me alimentar de seus filhos.

Ela riu, eu sorri; nos despedimos.

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Um presente para a mamãe

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” Será que digo que sou jornalista? Provavelmente ela vai me expulsar da loja… ” (Foto: Luxury Safes)

Saí para comprar um presente para a minha mãe. Fui até uma joalheria, e enquanto eu olhava alguns brincos e colares, uma moça se aproximou e perguntou se eu precisava de ajuda.

— Por enquanto, não…

— Se precisar, estarei aqui ao lado, tudo bem?

— Ah sim. Muito obrigado!

Enquanto eu analisava um belo anel que parecia forjado por um nibelungo, uma mulher pediu que a vendedora me levasse até ela.

— Por gentileza, o senhor pode me acompanhar?

Mesmo sem entender nada, acenei positivamente com a cabeça. “O que será isso, hein?”, pensei.

Diante de um longo balcão acastanhado, uma mulher muito bonita, com pouca maquiagem, e em um longo vestido preto, sorriu e me cumprimentou.

— O senhor não precisa se contentar com as nossas peças mais baratas. Temos algo realmente especial.

— É? — falei, mas ponderei: “E por que eu não me contentaria com as peças mais baratas? E que para mim pareciam bem caras…”

— Sim. Temos uma sala especial para atender pessoas como você. “Não entendi. Pessoas como você? Que tipo de pessoa eu sou?”

— É?

— Sim…me acompanhe, por favor.

Percorremos um corredor à direita do caixa, ela acionou uma senha e uma porta blindada, que mais parecia um cofre, abriu. Entramos.

— Acredito que tudo esteja à sua altura.

— Como assim à minha altura? Será que essa mulher não está me confundindo com outra pessoa? — refleti.

A peça mais barata naquela sala era um par de brincos de R$ 22 mil. Mas ela fazia questão de me mostrar colares que custavam até R$ 120 mil. Talvez fossem feitos de alguma coisa mais valiosa do que vidas? Ela sorria copiosamente, como se acreditasse que eu não sairia de lá sem comprar nada.

— Será que digo que sou jornalista? Provavelmente ela vai me expulsar da loja… — inferi silenciosamente.

— A senhora tem peças realmente bonitas, o problema é que estou bem distante de comprar o par de brincos “mais barato”.

Pensei em quantas crianças famintas poderiam ser alimentadas com o dinheiro a ser pago por aqueles brincos, anéis e colares. Bom, não cabe a mim dizer o que cada um deve ou não fazer com o seu dinheiro. Além disso, a verdade é que estamos todos no mesmo lugar, mas nem por isso fazemos parte do mesmo mundo.

— Não seja modesto….sei que o senhor é rico.

— Como? Até parece. Não entendi.

— Conheci seu pai, parte da sua família…

— Acho que não, hein…

— Conheci sim…não seja assim…

— Certo. Agradeço a confiança em me trazer aqui, mas preciso ir embora…

— Rápido assim? Não vai levar nada? Nem uns fios de ouro para adornar a sua barba?

— Não tenho como levar nada desta sala, senhora. E me desculpe, mas sofro de claustrofobia. Devo dizer que este ambiente não ajuda.

Ela estava bloqueando a saída, e quando percebeu o meu estado de descontentamento, abriu passagem. Atravessei a loja rapidamente, e na saída um homem tocou em meu ombro e indagou:

— Você não é filho do Salim Murat Mesut?

 

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Written by David Arioch

May 14, 2017 at 11:15 pm

Beijos ao acaso

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Praça do Teatro Municipal, onde nos beijamos (Foto: Elessandro Almeida)

Durante um espetáculo no Teatro Municipal, sentei sozinho nas últimas poltronas, como de costume. Gosto do silêncio da plateia e da ampla perspectiva do palco. Assim que me levantei, esbarrei em uma moça. Era muito bonita. Me desculpei e ela perguntou se poderia sentar ao meu lado.

— Sim, fique à vontade.

Trocamos alguns olhares que se encontravam e outros que se desencontravam.

— Quer sair daqui? — ela perguntou.

— Como?

— Dar uns beijos…

— Onde?

— Lá fora.

— Pode ser. Vamos aí.

Ela sorriu, deu um puxão na minha barba e saiu na minha frente. Fui atrás dela e nos encontramos lá fora. Não havia ninguém além de nós. A praça não estava tão clara, mas uma luz amarelecida e vacilante iluminava nossas cabeças. Nos beijamos por alguns minutos, espreitando a movimentação.

— Vamos lá pra casa – ela disse.

— Será que é uma boa? Não nos conhecemos direito…

— É sim. Você vai gostar. Relaxa…

— Ok…

Chegando lá, encontramos a família toda na sala. Provavelmente 10 a 12 pessoas. Ela perguntou meu nome na frente do pai e da mãe. Respondi naturalmente enquanto coçava a barba.

— Você não é brasileiro, é? — perguntou o homem.

— Não…

— Sabia! Com essa cara…

— Hum…

— Vamos lá pra varanda — ela sugeriu.

Nos beijamos um pouco mais, até que começamos a nos estranhar. Depois de meia hora, os olhos dela não eram mais os mesmos. Àquela altura, percebi que não tínhamos nada em comum, a não ser tempo ocioso. Ela me observou e disse:

— Você é muito barbudo. A gente podia cortar um pouco. Vou pegar a tesoura.

— Que isso? De jeito nenhum!

— Olhe, meu amor, se quiser namorar tem que ser do meu jeito…

— Como assim namorar? Quem aqui está falando em namoro?

— Como não, seu filho da puta? Você acha que é bom demais pra mim? É isso?

— De jeito nenhum. Você é incrível. Acho apenas que não estamos namorando…

— Como? Gostou de beijar, não gostou? Agora tem que seguir o riscado.

—Que isso, moça! Que riscado? – questionei com o coração palpitando.

— Você acha que é assim?

— Nos conhecemos, sei lá, acho que não tem mais de 40, 45 minutos…

— Não interessa. Você aceitou conhecer meus pais. Eles estão de prova.

Subitamente, ela gritou e o velho apareceu segurando um facão. O imaginei vindo para cima de mim arrastando a lâmina no piso e saltando com o facão apontado para a minha garganta.

— Quer um pedaço de cana? Estou rachando agora — perguntou o homem.

— Não, senhor, mas muito obrigado pela gentileza — respondi tentando esconder o suor das mãos que tremulavam.

O velho piscou e voltou para dentro da casa sem dizer nada. Ela continuou furiosa.

Falei que era melhor eu ir embora.

— Amanhã você vem que horas me ver?

— Não moro aqui.

— Mas você volta, né?

— Volto sim.

— Sendo assim, vou confiar na sua palavra.

Por garantia, passei três meses escondido dentro de casa.

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Written by David Arioch

May 10, 2017 at 1:48 pm

Um encontro incidental no feriado

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The Walking Man, de Shanna Bruschi

No feriado, aproveitando o silêncio das ruas, saí para caminhar em jejum. Uma mulher veio em minha direção e me parou na rua. Pensei que queria alguma informação.

Então ela perguntou: “Você é o David Arioch?” Receoso, acenei positivamente com a cabeça, mas não falei nada. Então ela disse:

— Nossa, cara! Seus textos são loucos! No bom sentido, claro! Você tem uns pensamentos bem intensos. Pensei que você não fosse uma pessoa, que fosse um coletivo tipo Banksy, só que com palavras, saca? Porque nunca te vi em lugar nenhum. A gente mora na mesma cidade e realmente nunca tinha te visto. Só ouço falar.

Mesmo acanhado, comecei a rir e comentei com a minha parcimônia característica diante de abordagens inesperadas:

— É que eu vivo nas sombras.

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Written by David Arioch

May 3, 2017 at 3:17 pm

Levando um calango para passear

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Foto: David Arioch

Fotos: David Arioch

Sem querer, levei agora um animalzinho, que provavelmente desceu de alguma árvore, para dar uma volta de carro. Tive que sair rapidamente e na primeira esquina notei um calango se movendo sobre o centro do capô. Parecia bem tranquilo. Só mostrava a linguinha.

Quando cheguei ao meu destino, ele encostou a cabeça no capô e assim ficou, até eu ligar o carro novamente. Então retomou a posição anterior. Em momento algum ameaçou descer do carro ou se esconder. Só quando cheguei em casa e coloquei o veículo na garagem que percebi que ele se escondeu. Ainda consegui tirar uma foto para mostrar o calango que gosta de sentir o vento sobre o capô.

Written by David Arioch

November 10, 2016 at 12:05 am

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Um convite no semáforo

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Sem tempo de entender nada, senti uma luz esverdeada em minha direção

Sem tempo de entender nada, senti uma luz esverdeada em minha direção

Saindo do mercado, parei em um semáforo na Avenida Rio Grande do Norte. De repente, um sujeito encostou o seu carro bem próximo do meu. Havia bastante espaço, mas ele preferiu ficar bem perto de mim. Ok! Não me preocupei. Continuei ouvindo música.

Para minha surpresa, o rapaz começou a acelerar sucessivas vezes enquanto o sinal continuava vermelho. Ele estava me desafiando, me convidando para um racha. Como o vidro do meu carro tem uma película bem escura, à noite é quase impossível ver quem está dentro.

Então pensei que talvez fosse uma boa ideia abaixar o vidro e fazer um aceno de mão cordial, mas desinteressado. Assim que o vidro desceu, o sujeito pareceu amedrontado e se desculpou. Sem tempo de entender nada, senti uma luz esverdeada em minha direção – o sinal abriu. Segui meu caminho ouvindo “Banega Naya Pakistan”, de Attaullah Esakhelvi. Pelo retrovisor, notei que o rapaz continuava no mesmo lugar.

Written by David Arioch

October 2, 2016 at 1:51 pm

Um final de tarde agonizante no Castelo de Grayskull

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Uma camada de ferrugem que a cobria esfarelou sobre o meu rosto como chuva suja de óxido nítrico

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Smith Machine, modelo usado no Castelo de Grayskull (Foto: Reprodução)

Em uma época da minha vida, me empolguei tanto com a musculação que comecei a treinar em duas academias. Ingênuo, eu acreditava que teria melhores resultados dessa forma. Então, sempre no final de semana, eu atravessava a cidade para me exercitar em um desses ginásios precários, onde falta tudo, menos a vontade de levantar pesos.

O cenário era desagradável para pessoas acostumadas com academias mais bem equipadas ou visualmente atrativas, o que não importava muito para mim, já que eu estava ali para complementar a rotina. A manutenção era inexistente, a julgar pelo aspecto enferrujado de anilhas, aparelhos descascados e travas de segurança tão moles que pareciam capazes de saltar sobre meus olhos ao toque de um dedo.

Era difícil não pensar nos riscos de ver pernas esmagadas ou decepadas tão logo a “guilhotina”, apelido que dei ao leg press, descesse na sua contumaz ferocidade, quando o mais descuidado dos usuários ousasse extrapolar nas repetições da última série. Talvez o aparelho até sonhasse com esse momento para compensar anos de negligência enquanto rangia mais do que o piso que a porta pungia.

Ao meu redor, nunca havia muita gente, e eu agradecia, calado e contente. Gostava de treinar sozinho, no silêncio da minha mente ou ouvindo uma playlist pungente. E minha fisionomia austera, que pouco aspirava à socialização, ajudava bastante nesse sentido. Nada contra ninguém. Na realidade, sou um sujeito bem educado. Eu apenas tinha um motivo específico e bem definido para estar ali.

Um dia, quando a outra academia fechou no meio da semana, recorri mais uma vez ao “Castelo de Grayskull”, apelido do ginásio sucateado. Era um final de tarde, e assim que me aproximei da entrada, alguns caras que acabaram de treinar saíram às ruas sem camiseta. Um deles fazia pose e estufava o peito enquanto o outro guardava dentro do bolso uma fitinha usada para medir o próprio braço.

“Olha como tô ficando fibrado! É nóis, mano!”, berrou o terceiro, ajeitando o par de óculos escuros, inclinando o corpo à direita e observando o próprio reflexo no retrovisor de um carro. O quarto amigo sacolejava uma coqueteleira e exibia um par de luvas que reluzia mais do que colete refletivo.

Por descuido, tive que retornar ao carro para buscar minha toalha. Nisso, passaram pelo menos quatro minutos, e o rapaz continuava sacudindo a garrafinha. Pensei até que pudesse ser um novo exercício para tratamento de artrite ou um tipo de powerball em forma de squeeze. Tudo bem! Entrei na academia, cumprimentei alguém na recepção e caminhei até um aparelho.

Era dia de agachamento invertido. Coloquei os fones no ouvido e as anilhas na barra. Num primeiro olhar percebi que aquele aparelho era menor do que o da academia onde eu treinava com mais frequência. “Ok! É só pegar leve e compensar a intensidade com mais séries e repetições”, concluí.

Deitei no chão, posicionei os pés contra a barra e fiz a primeira série. Antes do final, ela envergou e começou a estalar. Julguei que fosse normal e preferi me arriscar. Na segunda série, a barra travou na subida da última repetição. E, parar piorar, no mesmo instante um senhor com um crônico problema de flatulência, que reavivou lembranças da minha visita ao aterro sanitário, encostou na máquina, com as costas à minha esquerda, e seguiu papeando com uma moça.

“Mas você nem precisa fazer musculação. Tá maravilhosa!”, comentou o homem escorando o braço sobre as anilhas do aparelho, simulando um tipo de apoio. Ele forçava a barra para baixo enquanto eu tentava empurrá-la para cima. A música na academia estava tão alta que nem o sujeito nem a garota ouviam minhas reclamações. Me tornei invisível.

Quando comecei a roxear, com o aparelho repleto de anilhas dos dois lados, e a barra subindo apenas do lado esquerdo, tentei forçar a elevação mudando a posição dos calcanhares. Em vez subir, a barra apenas estremeceu e uma camada de ferrugem que a cobria esfarelou sobre o meu rosto como chuva suja de óxido nítrico.

Não consegui evitar que ciscos entrassem em meus olhos. Também franzi a testa e fiz um esgar de desgosto quando senti o pó de ferrugem nos lábios. Sem enxergar nada e tentando terminar a última repetição, ouvi o homem dizendo para a moça: “Nossa! Cruzes! Que mau cheiro! Hoooorrrrríííííveeeel! Vamos sair daqui! Tem gente que não respeita ninguém!”

Sem ver nada e agonizando no chão, com as pernas trêmulas e os olhos fechados, fiquei tão irado que aproximei um pouco mais os dois pés e empurrei a barra numa intempestiva e derradeira lufada de força. Assim que ela se prendeu ao suporte, me libertei. A música acabou e o silêncio começou.

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O amigo generoso e o exame de HIV

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Um ano depois, durante um bate-papo, meu amigo me confidenciou o motivo da generosidade

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Pediu que eu passasse no seu escritório no final da tarde para buscar uma doação de R$ 200 (Foto: Reprodução)

No ano passado, um amigo me ligou e pediu que eu passasse no seu escritório no final da tarde para buscar uma doação de R$ 200. “Olha, sei que você está sempre ajudando alguém na periferia de Paranavaí, então pegue esse dinheiro e faça alguma boa ação”, disse. Fiquei feliz com a contribuição porque na mesma semana conheci um casal passando um grande sufoco.

Recém-desempregado, o homem me confidenciou que não tinha a mínima ideia de como fariam para comprar comida naquele mês. Admito que me surpreendi com o gesto desse amigo, de quem não conhecia ainda tal qualidade altruísta. Ademais, não é sempre que as pessoas se dispõem a fazer doações sem que ninguém peça nada.

Um ano depois, durante um bate-papo, meu amigo me confidenciou o motivo da generosidade. Um dia antes da doação, ele foi até um laboratório para buscar o resultado de um exame de HIV. Quando chegou a sua vez de ser atendido, uma moça pediu que ele aguardasse um instante.

Rapidamente ela entrou em uma sala e logo retornou com semblante enleado e suspeitoso. Nisso a tensão do meu amigo foi crescendo e crescendo. “Preciso voltar lá dentro de novo. Por favor, senhor, aguarde mais um minuto. A situação não é brincadeira”, declarou enquanto preocupada o observava.

Se passaram dois, três, quatro e cinco minutos, e nada da moça retornar. Nesse ínterim, meu amigo já estava arrancando os fios da barba com uma das mãos e sentindo o mais desagradável dos comichões. Em pouco tempo sua tez ficou lívida e ele não conseguiu evitar de transpirar. Com a mão úmida e escorregadia, tirou o celular do bolso. E por um reflexo inimaginável o aparelho não espatifou no chão. Tremendo e se atrapalhando entre as teclas que pareciam alfabeto rúnico, digitou uma mensagem para a irmã, pedindo que ela orasse fervorosamente por ele.

“Pelamor de Deus! Tô no momento mais difícil da minha vida, minha irmã! Reúna todo mundo aí e se ajoelhem! Chame até os vizinhos! Se ajoelhem com muita vontade! Orem por mim com todas as forças! Não quero morrer!”, teclou, tentando não desfalecer na frente dos estranhos.

Pela sua cabeça passou um turbilhão de pensamentos. Imaginou até o próprio velório num dia frio e chuvoso em que ninguém compareceria porque iriam preferir cobertor e chocolate quente no conforto de casa. “Infiéis! Infiéis!”, gritava de dentro do túmulo ao receber as últimas pás de terra arremessadas por um coveiro corcunda recém-saído de um filme do Ed Wood.

“E assim morrerei, no mais repentino e ligeiro dos esquecimentos”, deduziu no seu drama copioso. “Não! Pera aí, Deus! Por favor! Assim não! Juro que se eu escapar dessa vou dar todo o dinheiro que tenho na minha carteira pra ajudar algum necessitado. Juro em nome de tudo! Juro agora!”, esbravejou no cerne da própria consciência.

De repente, foi interrompido pela atendente e voltou a si. Quando a moça estendeu a mão para entregar-lhe o resultado, meu amigo viu no rosto dela a confusa fisionomia dantes se dissipando, se transformando em expressão de bonomia. Nem parecia a mesma pessoa. “Desculpe pela demora. Não é nada não. É que hoje ficamos com duas funcionárias a menos e o serviço acumulou. Tá tudo certo! O senhor já pode ir. Tenha um excelente dia”, comentou com voz doce e um sorriso esfuziante.

Written by David Arioch

May 11, 2016 at 8:33 pm