David Arioch – Jornalismo Cultural

Jornalismo Cultural

Archive for the ‘Açougue’ tag

A primeira vez de Rubinho no açougue

without comments

“Hog Heaven”, de Susan Jenkins

Rubinho foi ao açougue pela primeira vez. Nunca tinha visto nada parecido. No seu ideário meninil, o açougueiro era como um mágico que concebia a carne a partir de dotes sobrenaturais. Bastaria reunir alguns ingredientes, e voilà, assim surgia a carne, corada e sem violência.

“Falaram que a carne de boi aqui é a mais fresca da cidade”, “Sim, meu tio fornece carne pra eles, tão matando bem.” Um quadro na parede branca mostrava três bois descansando sobre o pasto verdejante.

“Nem imagina o que os espera, a faca é o destino final”, comentou um rapaz com voz lamuriosa ajeitando o boné sobre a cabeça. Sim, o choque foi tremendo. Rubinho preferiu não falar nada. Observou tudo. Facas e serras fatiando carnes e ossos, pessoas de um lado para o outro carregando sacolas de carne.

Ao fundo, o líquido glutinoso dava um aspecto desagradável que incomodava Rubinho. “Parece catchup, só que ralinho”, monologou. Mas o que mais chamou a atenção do menino foi um leitãozinho prostrado sob a vitrine. Rubinho insistiu tanto que sua mãe concordou em comprá-lo.

— Tem certeza que você quer isso, Rubinho?
— Tenho, mãe! Tenho sim.
— Não sabia que você gostava tanto assim de carne de porco.

O menino não disse nada.

Mais tarde, já em casa, a mãe de Rubinho correu até o quarto para chamar o marido.

— Você não vai acreditar no que eu vi — disse espaventada e com as mãos trêmulas.

Depois de enrolar o leitãozinho em uma mantinha, Rubinho lançou a última colher de terra sobre o corpo do animalzinho no quintal. Afofou a terra com as mãos, na tentativa de deixá-la bem homogênea, e ainda ajoelhado olhou para as nuvens:

— Não pude te salvar, mas pelo menos agora você vai chegar inteiro no céu.





Promoção no açougue

without comments

“Será que vou conseguir levar alguma coisa?”

Promoção no açougue. Fila imensa. Pessoas sorrindo. Pessoas apreensivas. Medo de não sobrar nada. “Será que vou conseguir levar alguma coisa?”, se perguntavam.

Alguém se acotovelou? Sim, sutilmente e bruscamente. O cheiro da câmara fria amenizava o calor de mais de 30 graus. Trazia um cheiro glacial de osso, de carne. Cheiro de morte? Sim, mas isso não sei se alguém considerou. Menos ainda se a fome dominou.

Faca que corre pelo corpo despedaçado. Serra, serra que não para. E não para mesmo. Vamos ensacar. Sorriso, churrasco, gargalhada. Gargalhada, churrasco e sorriso. Era o assunto do momento. Sem traços de vida. “Não saio daqui com menos de 30 quilos”, comentou um homem de meia-idade. Respirava com dificuldade. Fôlego fraco. Hipertensão? Doença coronariana? Pode ser.

— Com licença, posso lhe mostrar algo rapidamente? Preciso apenas de uma breve opinião.
— Sim, sem problema.
— Que merda é essa? Você é louco? Mostrar isso pra mim na fila do açougue.

Agradeci e caminhei até o próximo da fila. Mais um pedido.

— Que isso, menino! Me respeite que eu poderia ser sua mãe.
— Ok.

Mais um.

— Ah, piá sem noção! Tá maluco? — disse uma moça.

Outro.

— Respeite minha família. Estou com minha esposa e filhos aqui.

Mais.

— Acabou com o meu apetite. Tá satisfeito agora, seu infeliz?
— De modo algum, senhor.

Continuei.

— Ô açougueiro, faça alguma coisa aqui. Chame a gerência, sei lá. Esse cara aqui tá perturbando todo mundo na fila.
— Não, senhor. Pedi licença todas as vezes, e vocês concederam. Bom, acho que já cumpri o meu papel.
— Papel? Isso aí deve ser tudo mentira, coisa encenada. Ou se for verdade, coisa rara que acontece só nos piores lugares.
— Ok.
— Só isso que você tem a dizer?
— Sim. Agradeço a atenção de todos. Não tenho do me que queixar.
— É? Mas nós temos, de você sendo inconveniente.
— Obrigado. Tenham uma boa tarde.

Guardei o celular no bolso, mas antes li uma última mensagem que encerra o vídeo: “A consciência clama pelo que já não descansa.” Cinco pessoas abandonaram a fila.

— Já é alguma coisa — monologuei em direção à saída.

Contribuição

Este é um blog independente, caso queira contribuir com o meu trabalho, você pode fazer uma doação clicando no botão doar:





“Me vê um pedaço daquele cadáver ali”

without comments

Vintage Poster – A Trip To The Butcher Shop

Um senhor, o primeiro da fila que se estendia por mais de 50 metros, se aproximou do açougueiro.

— Me vê um pedaço daquele cadáver ali.
— Como?
— Aquele pedaço de bicho morto pendurado no gancho. Gostei daquele – falou apontando para uma costela bovina bem visível sob a vitrine.
— Que absurdo! O senhor não tem a mínima educação com a comida – disse uma senhora.
— Que homem grosseiro! Nojento! – comentou uma moça.
— Quer aparecer, irmão? Amarre uma melancia no pescoço – criticou um rapaz.
— E o que vocês pensam que estamos comprando aqui? Nada mais do que bicho morto. Ou vocês acham que esses pedaços de carne brotaram da terra? São cadáveres, ora! Deliciosos, mas ainda assim cadáveres.

Durante a discussão, algumas pessoas se entreolharam chocadas e saíram da fila sem dizer palavra.

— Mas o senhor não precisa falar assim — reclamou outra mulher.
— Falo a realidade, minha senhora, só a realidade.
— Quanto o senhor quer? — perguntou o açougueiro.
— Não tenho certeza. Quanto custa o quilo dessa morte?

O açougueiro respondeu e o homem acenou com a cabeça.

— O senhor deseja mais alguma coisa?
— Verei.
— Assassinaram esse leitãozinho aqui fora de época, meu amigo. Esse aqui deve ter uns dez dias pelo que vejo. Deu tempo de desmamar? Acredite, não deu. Coitado! Vocês compraram de quem?
— Não posso fornecer essa informação, senhor. Teria que ver isso com a gerência.
— Ok…obrigado.

Enquanto o homem deslizava os dedos pela vitrine levemente embaçada, observando outros tipos de carne, uma criança começou a chorar.

— Mãe, aquela carne na bandeja é bicho morto, cadáver? O que aquele homem disse é verdade?
— Não, filhinha, não é não. Ele estava brincando.
— Como, senhora? Brincando? Pra que mentir para as crianças? Se comemos, temos que comer com consciência, sem mentiras. Se compro e como é porque alguém mata a bicharada por minha causa, por sua causa, por causa de todo mundo nesta fila. Não temos porque iludir os pequenos. Os matadouros vivem lotados graças a nós.
— Seu velho grosso e sem noção!

Depois de tapar brevemente os ouvidos da filha, a mulher a pegou pela mão e a levou para longe do açougue, em direção ao setor de hortifruti.

— O senhor vai afastar toda a freguesia — comentou um rapaz.
— Amigo, desde que cheguei neste açougue só falei verdades. Não fui rude nenhuma vez. Fui honesto apenas. Não é culpa minha se tem gente que rejeita a realidade.
— Mas não tem porque se referir à carne dessa forma tão sombria…
— Não tem nada sombrio aqui, meu jovem. Sombrio é o que acontece nos matadouros. Mas o que os olhos não veem o coração não sente, não é mesmo? Ou até sente, mas não se importa. Afinal, depende de quem falamos, concorda?
— Sei lá!

Quando o homem deixou o açougue, havia poucas pessoas na fila, e um silêncio desconfortável tomou conta do lugar. Sem olhar para trás, passou na padaria, pediu alguns pães e caminhou até o caixa. No estacionamento, um segurança chamou-lhe a atenção.

— O senhor pode me acompanhar, por favor?
— Tudo bem!

Após uma curta caminhada, entraram em um escritório, onde foram recebido pelo gerente.

— Boa tarde. Tudo bem?
— Sim e o senhor?
— Estou bem também. Obrigado por perguntar – respondeu o cliente.
— Quero pedir um favor ao senhor.
— Diga.
— O senhor causou um alvoroço no açougue. Seria possível não fazer mais isso?
— Como?
— O senhor falando em cadáveres, bicho morto, matadouro, assustando a freguesia. Não trabalhamos assim e não aceitamos isso.
— Como assim? É apenas a realidade, sem eufemismos.
— Sim, mas isso é inaceitável, não está dentro dos nossos padrões, e as pessoas não gostam disso.
— Mas não falo dessa forma para que as pessoas gostem de mim ou do que falo. Não busco aplausos. Respeito sua política de trabalho, mas não sigo padrões. Afinal, sou cliente, não funcionário. Entenda, não desrespeitei ninguém.
— O que o senhor ganha agindo assim?
— Ao ser consciente das minhas ações, e dividir isso com os outros? Não sei…talvez um pouco de honestidade e menos permissividade. Afinal, refugiar-se na ilusão também pode ser uma forma de abraçar a exclusão.

Contribuição

Este é um blog independente, caso queira contribuir com o meu trabalho, você pode fazer uma doação clicando no botão doar:





“Mããããe, olha que lindo aquele boi!”

without comments

“Por que será que ele parece tão feliz?”

No açougue do mercado, uma criança ficou eufórica ao ver um quadro de um boi sorrindo.

— Mããããe, olha que lindo aquele boi!

— É sim, querida.

A criança coçou a cabeça, olhou para os lados e estranhou o fato de que ninguém mais estava admirando o mesmo quadro que ela. Praticamente invisível. 

— Por que será que ele parece tão feliz?

— Não sei, filhinha.

— Já sei, mãe!

— O quê, filha?

— É porque ainda não mataram ele, né?

Contribuição

Este é um blog independente, caso queira contribuir com o meu trabalho, você pode fazer uma doação clicando no botão doar:





Written by David Arioch

June 29th, 2017 at 9:06 pm

“Mas o boi tem que morrer? Ele não chora? E a família dele?”

without comments

Arte de Thomas Sidney Copper – Art Gallery Collection

No mercado, perto da fila do açougue, ouvi uma garotinha conversando com a mãe. Com a naturalidade típica das crianças, perguntou por que ela tinha que comer carne.

— Porque você precisa de proteína pra crescer forte e saudável.

— Mas o boi tem que morrer? Ele não chora? E a família dele?

Constrangida, a mulher saiu da fila do açougue com a filha enquanto algumas pessoas riam e outras refletiam.





Nascem, crescem numa velocidade assustadora e morrem para tornarem-se comida

without comments

confinamento-foto-eco-planet

Logo cedo, são privados do convívio familiar

Quando eu era criança, vez ou outra eu fazia algum comentário perto da fila do açougue. “É o lugar mais frio do mercado”, eu dizia para a minha mãe. Às vezes, me sentia desconfortável, mesmo sem entender. Com o tempo, compreendi o que cada uma daquelas partes expostas na vitrine, dispostas em bandejas ou em grilhões representa de verdade, para além do romantismo da exploração animal.

Vejo pessoas nas filas, seguindo suas vidas, conversando e brincando. Acredito que poucos refletem sobre isso enquanto aguardam o açougueiro, até porque fomos condicionados a isso nos últimos séculos, e mais ainda nas últimas décadas. É um contraste muito grande com o destino daqueles animais que têm vidas muito curtas, e logo cedo são privados do convívio familiar. Nascem, crescem numa velocidade assustadora e morrem para tornarem-se comida.

Ocasionalmente, alguém me diz que fulano de tal matou um animal para ser consumido inteiramente em uma confraternização. Difícil não pensar que toda a vida de um animal foi resumida a algumas horas de comilança, e em um evento que celebra a amizade e o companheirismo. Onde está esse senso de companheirismo quando esse animal é privado de conviver com seus familiares? Somos animais conscientes que celebram a vida com a morte.

Contribuição

Este é um blog independente, caso queira contribuir com o meu trabalho, você pode fazer uma doação clicando no botão doar:





O homem e o carrinho

without comments

No mercado, vi um senhor fazendo um esforço hercúleo para empurrar um carrinho abarrotado de carne

No mercado, vi um senhor fazendo um esforço hercúleo para empurrar um carrinho abarrotado de carne. Havia tanta carne que por um momento ele parou de empurrá-lo. Em seguida, enxugou o líquido viscoso que escorria de um dos sacos de carne, lambuzando sua mão direita. Seu carrinho não era o único na mesma situação.

Antes que eu me afastasse, um de seus filhos se aproximou e o questionou se não havia carne demais no carrinho. Incomodado, o homem respondeu, num paradoxo ruidoso: “Carne é vida. Melhor sobrar do que faltar.” Por outro lado, ele sentia-se desconfortável porque uma de suas mãos estava grudenta. Sem velar a expressão de repulsa, na tentativa de limpá-la, ele acabou esfregando a mão em uma porção de belas laranjas.

Em menos de minuto, algumas testemunhas se aproximaram e viram as laranjas manchadas pelos glutinosos vestígios de carne. Então reclamaram: “Que sujeito nojento! Eu que não pego essas laranjas!” E partiram empurrando seus carrinhos cheios de peru, tender, pedaços de carne bovina e bandejas de presunto.

Contribuição

Este é um blog independente, caso queira contribuir com o meu trabalho, você pode fazer uma doação clicando no botão doar:





O Natal e os açougues

without comments

Com a proximidade do Natal, os açougues estão cheios, suas filas são quilométricas, mas muitos ainda não percebem que a desproporcionalidade entre vida e morte é gritante. Quem sorri do lado de cá, não pondera que sua satisfação custou o choro daquele do lado de lá.

Written by David Arioch

December 24th, 2016 at 7:20 pm

O leitãozinho da vitrine

with 4 comments

A verdade é que ninguém se importou com a sua presença até que o vidro começou a vibrar

18712555_2P4WE

O leitãozinho passava despercebido pelos fregueses (Foto: Reprodução)

A fila do açougue parecia não ter fim, quase encostando em uma distante parede branca, onde centenas de pacotes de cereais preenchiam os expositores. Pessoas e mais pessoas compravam imensas quantidades de carne. “Me vê vinte quilos de costela!”, “Quero dez quilos de costelinha de porco!” Ah! E também sete quilos de linguiça toscana!”, “Não! Pedi quinze quilos de cupim!”, “Isso! Isso! Dezoito quilos de miolo de paleta!”

Carne moída, asinhas de frango, coxas e sobrecoxas, coxão mole, alcatra, fraldinha, maminha, bacon. A demanda era tão grande que um dos açougueiros teve de checar na sala de corte se ainda havia carne o suficiente para atender toda aquela gente. Alguns fregueses se desesperaram com a possibilidade de faltar um ou outro corte. “Pelo Amor de Deus! Se eu não conseguir um bom pedaço de picanha, sei nem o que fazer. É pra acabar com o feriado da família!”, reclamou um homem que empurrava um carrinho repleto de bandejas de carne congelada e resfriada.

Em meio ao ranger de dentes e roer de unhas, os mais discretos chutavam sutilmente as rodinhas do carrinho enquanto aguardavam a resposta do açougueiro, a quem foi dada a missão mais importante do dia. “Quero bife, mãe! Quero bacon, mãe!”, gritava uma criança chorosa de menos de oito anos. O carnólatra mirim abria tanto a boca para reclamar que não era difícil ver fiapos de carne entre seus dentes.

E quanto mais o açougueiro demorava, mais a tensão aumentava. Notei mãos trêmulas, gente coçando o próprio corpo, como se tomada por comichão. Enfim, olhares inquietos, expressões de desalento, raiva e reprovação engrossavam o baluarte da inquietação. Quando o açougueiro retornou, acenou com a cabeça e sorriu, uma multidão de clientes o aplaudiu.

Rapidamente as vozes e as palmas foram abafadas pelo som das serras elétricas fatiando colossais pedaços de costela. E ninguém se importava com a névoa de farelos de ossos que caíam sobre suas cabeças. Diante do álgido e sortido cheiro de carne, um leitãozinho era mantido sob a vitrine. Ele passava despercebido com uma maçã na boca. A verdade é que ninguém se importou com a sua presença até que o vidro começou a vibrar.

Os fregueses se entreolharam e não viram nenhuma mão ou perna humana tocando a vitrine. E do lado de dentro, o leitãozinho tentava quebrar o vidro com a maçã na boca. Fazia um esforço descomunal para se livrar da fruta. Quando conseguiu, grunhiu como nunca. Assustados, adultos gritaram e crianças choraram. Mas ninguém se emocionou mais do que o porquinho que escorregou sobre as próprias lágrimas.

“Meu Deus! Que isso! Que nojo! Que sacanagem! Um porco vivo! Que brincadeira de mau gosto! Misericórdia! Que maldade! Onde o mundo vai parar!”, diziam. A imagem do leitãozinho vivo fez os clientes abandonarem a fila do açougue, e se não por horror, por constrangimento. A exceção foi o homem que estava na fila para comprar picanha:

— O que o senhor quer?

— Quero o leitão.

— Mas, meu senhor, ele ainda está vivo!

— É assim mesmo que eu quero.

— Vou ver o que posso fazer.

— Então?

— Tá tudo certo! Pode levar o porco. O senhor paga isso aqui lá no caixa.

— Muito bem! Obrigado, amigo.

Naquele dia, o último cliente do açougue abandonou o carrinho onde transportava muitas bandejas de carne resfriada e congelada. Com o leitãozinho nos braços, atravessou o mercado e ignorou dezenas de olhares. No caixa, pagou por algo que não considerava mais um produto e caminhou até a saída como se embalasse um bebê. Lá fora, a noite não parecia escura e fria. Então o leitãozinho da vitrine encostou o focinho no ombro do homem e não chorou, somente cochilou.

Contribuição

Este é um blog independente, caso queira contribuir com o meu trabalho, você pode fazer uma doação clicando no botão doar:





Written by David Arioch

July 17th, 2016 at 2:47 pm