David Arioch – Jornalismo Cultural

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Para ser vegano, não é preciso amar os animais, basta respeitá-los

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Arte: Alok Appadurai

Um amigo — Cara, eu até acho legal quem é vegano, mas a verdade é que não amo animais. Para ser honesto, nem gosto muito de animais. O negócio é eles lá e eu aqui. Como isso poderia funcionar? Não vejo como.

Eu — Não há problema nenhum nisso. Você não precisa gostar de animais, tutelar animais, resgatar animais ou algo do tipo. Basicamente, você não precisa querer conviver com animais. Claro, muitos veganos fazem isso, mas não é uma regra ou algo do tipo. Para ser vegano, você precisa apenas ter a consciência de que os animais não humanos merecem viver, não morrer.

Para ser mais preciso, não merecem ser explorados. Então o seu papel como vegano seria esse, se empenhar em não contribuir com a exploração animal.  A questão é você entender, reconhecer isso e colocar em prática. O amor pelos animais realmente é uma coisa nobre e bonita, mas a consciência sobre justiça nesse contexto é imprescindível, logo mais importante. Isto porque ela tem forte apelo junto ao discernimento moral e ético em uma sociedade construída sobre valores equivocados que levaram ao antropocentrismo e consequentemente ao especismo.

Independente de alguém se reconhecer ou não como superior a outras formas de vida, o que é preciso entender em relação a isso é que não interessa qual animal é mais inteligente, qual é mais amável ou qual é mais sensível. O entendimento que se deve ter é de que o direito à vida deve ser assegurado e que não cabe a nós decidirmos quais animais devem viver ou morrer levando em conta nossas pretensas necessidades ou preferências. Eles são conscientes, sencientes e merecem viver à sua maneira.

Nossa interferência deve ocorrer apenas quando eles precisam de nós, sem subjugação. Se esforçar para não impactar negativamente na vida dos animais é uma forma de aperfeiçoamento civilizatório, porque se você é capaz de respeitar honestamente a vida de um animal que não é capaz de falar, isso te conduz a respeitar mais a vida em geral. Gostar ou amar animais é uma questão de pessoalidade. Você pode desenvolver isso ou não, e sem que isso prejudique ninguém. Por outro lado, é a falta de entendimento de que os animais não existem para nos servir que tem perpetuado práticas desnecessárias que anualmente custam a vida de bilhões de animais.

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Written by David Arioch

August 10th, 2017 at 8:11 pm

Quando temos filhos…

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Pintura: Peaceable Kingdom, de Edward Hicks

Quando temos filhos, gostamos de contar-lhes histórias de amor e respeito aos animais; de amizade entre todas as espécies; de narrar historietas sobre a harmonia entre os seres vivos, o respeito a todas as formas de vida.

Porém, nossa própria realidade e nossos hábitos, mais cedo ou mais tarde deixam claro que tudo que foi dito ou lido era apenas ficção, um frágil e ilusório pseudo-alimento para a mente. Provamos com atitudes que não acreditamos naquilo.

E logo as crianças crescem e esquecem o que os pais disseram, e os pais esquecem o que disseram aos filhos. As histórias desaparecem, ou não. Talvez sejam lembradas como artifício jocoso, risível, alegórico ou mesmo insignificante e utópico.

E a vida segue diante de uma mesa em que celebramos os nossos, porque nós somos importantes, e os outros existem para nos servir; para figurar como coadjuvantes de suas próprias vidas.

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June 28th, 2017 at 9:26 pm

Uma lição de vida

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Sempre me emociono quando vejo o vídeo abaixo. Baita lição de vida. E pensar que esses animais são tratados como se fossem isentos de qualquer razão e sensibilidade. Basta pensarmos no uso hediondo deles em laboratórios, em vivissecção. Triste realidade.

 

Written by David Arioch

June 18th, 2017 at 9:12 pm

A lição de Dona Maria

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Dona Maria cuidando de seus companheiros animais (Fotos: David Arioch)

Em março de 2014, comecei a produzir um documentário sobre a realidade da periferia. Durante as filmagens, conheci a Dona Maria, uma senhora que trabalhava recolhendo materiais recicláveis.

Em uma manhã, testemunhei o estado lastimável de sua casinha, atingida por uma forte enxurrada. Ela me contou que perdeu quase tudo. Apesar da situação extremamente difícil, a sua maior preocupação era com os animais com quem ela convivia. 

No interior do casebre, sobre uma pequena cama, estava uma cadelinha, a quem ela tratava como se fosse uma filha. Dias antes, a cachorrinha tinha passado mal e ela percorreu quilômetros a pé, até encontrar um médico veterinário.

No casebre, moravam também outros dois cães que gostavam de ficar perto da única porta, como se fossem responsáveis pela segurança do lar. Em cima de um colchão, me deparei com o que mais me chamou a atenção – três pratinhos com ração.

Dona Maria não ganhava nem o suficiente para a subsistência, chegando até a passar fome, e dois dias antes quase perdeu a casinha construída com as próprias mãos. Apesar de tudo, ela afirmou que o mais importante era cuidar de seus três companheiros animais.

 

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June 15th, 2017 at 3:03 pm

O amor só sobrevive se houver plasticidade

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Arte: Leonid Afremov

Acredito que o amor só sobrevive se houver plasticidade. Ele deve ser genuíno, mas também deve ser mutável; mutável porque como seres humanos sofremos metamorfoses diárias, até mesmo quando vivemos uma rotina. Então se não houver plasticidade, o amor não sobrevive.

Creio que a singularidade do amor subsiste no vislumbre de querer estar junto de alguém mesmo imaginando a figura humana que materializa esse amor em muitos dos piores cenários possíveis.

Quando achar que ama alguém, imagine aquela pessoa nas mais terríveis das condições e pergunte a si mesmo se ainda assim você gostaria de estar junto dela. Se a resposta for sim, acredito que está aí um amor com chances não apenas de sobreviver, mas de frutificar.

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June 4th, 2017 at 12:10 am

Quando um cão morre…

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Kika, minha companheira por 12 anos (Foto: David Arioch)

Quando um cão morre, e me recordo de sua doçura e inocência, me pergunto se existe um céu para os cães, porque eles merecem o céu depois de uma vida de doação que começa após o nascimento. Não me importo que haja um céu para mim, mas me importo o suficiente para desejar que exista um para os cães, seres que vivem a plenitude da bondade.

Dizem que os cães já nascem amando, enquanto nós precisamos aprender a amar, e por isso vivem pouco. Para eles, que têm mais a ensinar do que a aprender, tudo é pleno e intenso porque as chamas de suas vidas são efêmeras, mas muito mais longas do que as nossas. Talvez, em sua invisibilidade, elas toquem o céu sem que percebamos, porque ainda somos humanos demais para enxergar o que somente uma natureza não humana pode semear.

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May 28th, 2017 at 10:27 pm

Quando se fala em amor…

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Arte: Leonid Afremov

Quando se fala em amor, naturalmente as pessoas o associam à ideia do amor longevo, ignorando que amores curtos podem ser tão ou até mais marcantes. Há amores curtos que deixam marcas indeléveis, que naturalmente já não existem enquanto relação, mas que podem sobreviver como tatuagem no coração.





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May 16th, 2017 at 3:44 am

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Goethe seria “crucificado” no mundo de hoje

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Na minha opinião, o que Goethe romantizou acima de tudo foi a impossibilidade do amor (Arte: Reprodução)

No mundo de hoje, creio que Goethe seria “crucificado” por publicar um romance como “Os Sofrimentos do Jovem Werther”. Diriam, com mais paroxismo do que no século 18, que ele romantizou o suicídio às raias da apologia e, assim como no passado, também seria responsabilizado pela morte de jovens, principalmente – mas creio que numa proporção bem maior. Quem sabe, fosse até perseguido.

Na minha opinião, o que Goethe romantizou acima de tudo foi a impossibilidade do amor (tendo como referência inclusive uma experiência pessoal) e transformou isso em uma obra que penso que talvez até tenha salvado a sua vida, já que ele morreu na obra, mas sobreviveu fora dela. Goethe a escreveu em poucos dias – num prazo tão curto que deixa claro como o escritor estava imerso nesse universo romanesco e conflituoso.

Há autores que escrevem sobre o suicídio até mesmo como uma forma de manifestação da incomunicabilidade, tentativa de compreensão de algo que parece maior do que si mesmo, escapismo, libertação e redenção – mas não desejam cometê-lo. Pode parecer sombrio para muita gente, porém, isso também é uma forma de autoconhecimento. Tenho uma crônica em que falo sobre o suicídio, e eu não estava nem triste quando a escrevi.

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Written by David Arioch

April 16th, 2017 at 3:30 pm

O amor e a amora

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No pré-escolar, a professora um dia me perguntou se eu sabia o que era amor. Respondi que sim. Então ela pediu que eu explicasse. Eu disse que traria a resposta na semana seguinte. No dia esperado, me aproximei de sua mesa e despejei na palma de sua mão algumas frutinhas vermelhas. “O que é isso?”, perguntou a professora. Respondi: “Amor! Só que vem com um A a mais porque se o primeiro desaparecer o último só tem a agradecer.” Passei um mês levando amora para a sala de aula.

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Written by David Arioch

February 11th, 2017 at 5:26 pm

Quando as pessoas se afastam de alguém que tem uma grave doença

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Fico surpreso quando as pessoas se afastam de alguém que tem uma grave doença. Se eu tivesse uma namorada e descobrisse que ela tem câncer ou até mesmo HIV, é claro que eu não me afastaria dela.

Sempre tive o exemplo da minha mãe que cuidou do meu pai até o último momento, mesmo ele incapaz de se levantar de uma cama, e já não reconhecendo ela em decorrência de um câncer que se espalhou pelo cérebro.

Minha mãe cuidou dele o tempo todo. Ao mesmo tempo, criou eu e meus dois irmãos. À época, o Juninho tinha só um ano de idade. O amor é isso, a doação e a mais genuína forma venusta de empatia que se sobressai a tudo.

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Written by David Arioch

February 8th, 2017 at 10:38 am

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