David Arioch – Jornalismo Cultural

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Quando se fala em amor…

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Arte: Leonid Afremov

Quando se fala em amor, naturalmente as pessoas o associam a ideia do amor longevo, ignorando que amores curtos podem ser tão ou até mais marcantes. Há amores curtos que deixam marcas indeléveis, que naturalmente já não existem enquanto relação, mas que podem sobreviver como tatuagem no coração.





Written by David Arioch

May 16, 2017 at 3:44 am

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Goethe seria “crucificado” no mundo de hoje

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Na minha opinião, o que Goethe romantizou acima de tudo foi a impossibilidade do amor (Arte: Reprodução)

No mundo de hoje, creio que Goethe seria “crucificado” por publicar um romance como “Os Sofrimentos do Jovem Werther”. Diriam, com mais paroxismo do que no século 18, que ele romantizou o suicídio às raias da apologia e, assim como no passado, também seria responsabilizado pela morte de jovens, principalmente – mas creio que numa proporção bem maior. Quem sabe, fosse até perseguido.

Na minha opinião, o que Goethe romantizou acima de tudo foi a impossibilidade do amor (tendo como referência inclusive uma experiência pessoal) e transformou isso em uma obra que penso que talvez até tenha salvado a sua vida, já que ele morreu na obra, mas sobreviveu fora dela. Goethe a escreveu em poucos dias – num prazo tão curto que deixa claro como o escritor estava imerso nesse universo romanesco e conflituoso.

Há autores que escrevem sobre o suicídio até mesmo como uma forma de manifestação da incomunicabilidade, tentativa de compreensão de algo que parece maior do que si mesmo, escapismo, libertação e redenção – mas não pensam em cometê-lo. Pode parecer sombrio para muita gente, porém, isso também é uma forma de autoconhecimento. Tenho uma crônica em que falo sobre o suicídio, e eu não estava nem triste quando a escrevi.

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Written by David Arioch

April 16, 2017 at 3:30 pm

O amor e a amora

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No pré-escolar, a professora um dia me perguntou se eu sabia o que era amor. Respondi que sim. Então ela pediu que eu explicasse. Eu disse que traria a resposta na semana seguinte. No dia esperado, me aproximei de sua mesa e despejei na palma de sua mão algumas frutinhas vermelhas. “O que é isso?”, perguntou a professora. Respondi: “Amor! Só que vem com um A a mais porque se o primeiro desaparecer o último só tem a agradecer.” Passei um mês levando amora para a sala de aula.

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Written by David Arioch

February 11, 2017 at 5:26 pm

Quando as pessoas se afastam de alguém que tem uma grave doença

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Fico surpreso quando as pessoas se afastam de alguém que tem uma grave doença. Se eu tivesse uma namorada e descobrisse que ela tem câncer ou até mesmo HIV, é claro que eu não me afastaria dela.

Sempre tive o exemplo da minha mãe que cuidou do meu pai até o último momento, mesmo ele incapaz de se levantar de uma cama, e já não reconhecendo ela em decorrência de um câncer que se espalhou pelo cérebro.

Minha mãe cuidou dele o tempo todo. Ao mesmo tempo, criou eu e meus dois irmãos. À época, o Juninho tinha só um ano de idade. O amor é isso, a doação e a mais genuína forma venusta de empatia que se sobressai a tudo.

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Written by David Arioch

February 8, 2017 at 10:38 am

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Ransom Riggs e o conto do filho vegetariano de um fazendeiro

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“Quando se deu conta de que a carne das refeições vinha de animais, recusou-se a comer aquilo”

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O livro “Contos Peculiares”, do escritor estadunidense Ransom Riggs, é considerado um livro dentro dos livros, já que ele surgiu a partir da série “O Lar da Srta. Peregrine para Crianças Peculiares”. Como pesquiso sobre direitos animais, vegetarianismo e veganismo na literatura, dos dez contos que fluem com facilidade e fazem o leitor mergulhar em um universo quimérico de possibilidades e impossibilidades, um me chamou mais a atenção. É a história de um jovem bastante sensível que reconhece o direito à vida de todas as criaturas. E por isso, se recusa a comê-las, explorá-las ou puni-las, mesmo sendo filho de um fazendeiro.

Intitulado “O Gafanhoto”, o conto começa narrando a história de Edvard, um homem que deixou a Noruega em busca de prosperidade nos Estados Unidos. Ele passou por tantas dificuldades no passado que decidiu dedicar-se completamente a uma fazenda que comprou no Território de Dakota, na região setentrional da Luisiana.

Recordando-se da experiência vivida por um amigo que se apaixonou, casou, teve filhos e vivia na pobreza, Edvard evitava relacionamentos. Porém, como sentimentos independem de razão ou mesmo querer, o norueguês se apaixonou, casou e mais tarde teve um filho. A criança nasceu com um coração tão grande que um lado do peito era perceptivelmente maior que o outro.

Mas a felicidade gerada pelo nascimento do filho, que trouxe muitas expectativas a Edvard, chegou ao fim quando a esposa fragilizada acabou falecendo após o parto. Tendo de criar o menino sozinho, o fazendeiro sentiu raiva da criança por ela ser especial – estranha e delicada.

Mesmo ciente de que o menino não tinha culpa da morte da esposa, todo o amor de Edvard se transfigurou em amargura. Nem as semelhanças físicas dos dois sensibilizaram o homem, que se sentia incomodado por ter um filho com coração tão imenso que se apaixonava facilmente:

“Aos sete anos, tinha pedido em casamento uma colega de turma, uma vizinha e a organista da igreja, quinze anos mais velha. Se um pássaro por acaso caísse do céu, Ollie passava dias e dias chorando. Quando se deu conta de que a carne das refeições vinha de animais, recusou-se a comer aquilo novamente. O garoto por dentro era pura sensibilidade.”

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Quando o menino tinha 14 anos, uma nuvem de gafanhotos que se estendia por quilômetros devorou o capim, o milho e o trigo da localidade. Os insetos arrancaram até a lã dos carneiros. Encarados como a maior ameaça dos últimos tempos, os colonos iniciaram uma guerra contra os gafanhotos, e assim cada cidadão foi obrigado a entregar quinze quilos de gafanhotos mortos por semana. Quem não fizesse isso, seria multado.

Enquanto Edvard cumpria o seu papel, Ollie recusou-se a matar qualquer inseto. O menino via valor na vida de todas as criaturas, inclusive dos gafanhotos, e saía de casa arrastando os pés para não matar nenhum deles. Irritado com o comportamento do filho que lhe custou uma multa, Edvard virou as costas para ele.

Ninguém na cidade conversava mais com o menino, e sentindo-se muito solitário, Ollie fez amizade com um gafanhoto, tornado seu confidente. O inseto, alimentado às escondidas, era mantido embaixo da cama para que Edvard não o visse. “Não é sua culpa que todos o odeiem. Você só está fazendo o que foi criado para fazer”, disse ao gafanhoto que recebeu o nome de Thor. Em resposta, ouviu somente um “Crii-criiic”.

Quando Edvard descobriu que havia um gafanhoto morando sob o seu teto, ele o arremessou na lareira e Ollie chorou depois de ouvir o lamento agudo do seu grande amigo não humano. Expulso de casa, o menino passou a noite no campo até ser encontrado pelo pai. O homem ficou chocado ao reconhecer que o filho se tornou um gafanhoto gigante. Sem saber o que fazer, buscou a ajuda de um velho sábio que possuía um livro justificando a metamorfose:

“Aqui diz que, quando uma pessoa com certo temperamento peculiar e um coração grande e generoso não se sente mais amada pelos de sua própria espécie, ela assume a forma de qualquer criatura com a qual sinta uma conexão maior.”

Edvard então foi informado de que o filho só voltaria a forma normal se fosse realmente amado por alguém. Incapaz de demonstrar o seu amor, e sentindo repulsa por Ollie ter se tornado um dos seres que ele mais desprezava, o homem alardeou por toda a cidade que ele daria a sua fazenda a quem amasse seu filho e o fizesse retornar à forma humana.

O menino em forma de gafanhoto acabou capturado por filhos de colonos. Eles o aprisionaram, mas não conseguiram alcançar o objetivo, pois nenhum deles o amava, nem mesmo o respeitava. Vendido para um velho caçador, o gafanhoto começou a conviver com cães de caça, até que assumiu a forma de um cão. Durante uma caçada, ele soube que sua função era recolher os gansos abatidos pelo caçador.

No dia seguinte, reprovando a atitude do homem, ele fugiu pelo campo com os gansos. Sem saber do paradeiro do filho, Edvard sentiu-se muito mal pela perda de Ollie. Mais tarde, o fazendeiro casou-se novamente e teve uma filha a quem deu o nome de Asgard. A menina, que de tão bondosa era muito semelhante a Ollie, não enfrentou a mesma intransigência por parte do pai, provavelmente porque o homem temia cometer os mesmos erros.

Um dia, tendo somente nabos para comer, o fazendeiro comemorou quando encontrou um ganso no campo, disperso de seu bando. Edvard capturou o animal e o levou para casa, feliz com a possibilidade de um jantar à base de carne de ganso. “Mas nós não precisamos matá-lo. Podemos tomar sopa de nabo outra vez esta noite, eu não me importo!”, insistiu a menina que desabou diante da gaiola do ganso e começou a chorar.

Lembrando-se do filho, Edvard concordou em poupá-lo. Em pouco tempo, o animal tornou-se o melhor amigo de Asgard. E todos respeitavam o seu desejo de não querer vê-lo morto nem ferido. A convivência dos dois e o amor que ela dedicava ao ganso fez com que ele, numa manhã, retornasse à sua forma humana.

Acompanhado de Asgard, o pai ficou extremamente emocionado e perguntou a Ollie se ele poderia perdoá-lo. “Eu o perdoei há anos. Só demorei um pouco para encontrar o caminho de volta para casa”, declarou o rapaz de bom coração.

Ransom Riggs

De acordo com a Editora Intrínseca, Ransom Riggs cresceu na Flórida, mas reside na terra das crianças peculiares, Los Angeles. Formou-se no Kenyon College e na Escola de Cinema e TV da Universidade do Sul da Califórnia, além de fazer alguns curtas-metragens premiados. Nas horas vagas é blogueiro e repórter especializado em viagens, e sua série de ensaios de viagem, Strange Geographies, seu primeiro romance, pode ser lida em ransomriggs.com.

Saiba Mais

“Contos Peculiares”, de Ransom Riggs, foi lançado no Brasil em 2016 pela editora Intrínseca.

“O Gafanhoto” é o oitavo conto da obra.

São Francisco de Assis: “Todas as criaturas são nossos irmãos e irmãs”

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O frade italiano não via os animais como seres com menos direito à vida do que os humanos

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O amor dele por Deus se manifestava por meio do seu amor por todas as criaturas (Pintura: Hans Stubenrauch)

Independente de religião ou irreligião, é inegável o fato de que a história do jovem italiano que abandonou a riqueza, e mais tarde ficaria conhecido como São Francisco de Assis, é um exemplo de compaixão pelos animais. Nascido em Assis, na Itália, em 1181 ou 1182, ele teve uma juventude conturbada e atuou brevemente como soldado, até que tornou-se frade e renunciou à riqueza de sua família para dedicar sua vida a cuidar dos pobres, dos doentes e dos animais.

“Todas as criaturas são nossos irmãos e irmãs”, dizia Francisco de Assis, que afirmava não ver os animais como seres com menos direito à vida do que os humanos, tanto que ele compartilhava a mesma pregação com pessoas e animais. O amor dele por Deus se manifestava por meio do seu amor por todas as criaturas.

As suas raras qualidades atraíram muitos seguidores, e em 1209 ele criou uma nova ordem religiosa, conhecida como Ordem dos Frades Menores ou Ordem de São Francisco. “São Francisco via a sacralidade até mesmo em um inseto”, disse o escritor e filósofo alemão Max Scheler. O frade cuidou de muitos leprosos e também tentou estabelecer a paz entre cristãos e muçulmanos no decorrer da Quinta Cruzada (1217-1221), embora sem êxito.

Considerado o protetor dos animais e da ecologia, um dia atravessou um vale em Spoleto e, perto de Bevagna, na região da Umbria, ele viu uma multidão de pássaros dos mais diferentes tipos reunidos. Sensibilizado com a cena, Francisco de Assis correu até eles e os cumprimentou como se compartilhassem da razão humana. Como os pássaros não fugiram, ele se aproximou de cada um e tocou suas cabeças e corpos com sua túnica, os abençoando.

Enquanto o frade falava, dizem que os pássaros se moviam à sua maneira, esticando o pescoço, abrindo as asas, o bico e o observando como se reagissem às suas palavras. A partir daquele dia, ele não parou mais de abençoar os animais ou tentar se comunicar com eles, além de socorrê-los quando necessário.

Em 4 de outubro de 1226, Francisco de Assis faleceu em sua cidade natal. Em 16 de julho de 1228, ele foi canonizado pelo Papa Gregório IX. Até hoje, milhões de pessoas peregrinam até seu túmulo, na Basílica de São Francisco de Assis, reconhecendo a importância de suas lições sobre o amor e respeito por todas as criaturas, independente de espécie.

Em 1979, o Papa João Paulo II elevou o frade italiano a Padroeiro dos Ecologistas. Em um discurso posterior, encorajou os católicos a seguirem o exemplo de São Francisco, incentivando-os a verem todos os animais, humanos e não humanos, como membros de uma única família.

“O respeito pela vida e pela dignidade da pessoa humana estende-se também às demais criaturas que são chamadas para juntarem-se ao homem […]. São Francisco convidou todos os animais, plantas, forças naturais, inclusive o irmão Sol e a irmã Lua, para honrar e louvar ao Senhor. O pobre de Assis nos dá um impressionante testemunho de que ao estarmos em paz com Deus somos muito mais capazes de edificar essa paz com toda a criação, que é inseparável da paz entre todos os povos”, declarou o papa em celebração do Dia Mundial da Paz em 1º de janeiro de 1990.

Saiba Mais

O Dia de São Francisco de Assis é comemorado em 4 de outubro.

Em “Os Irmãos Karamazóv”, de Dostoiévski, e em “Fausto”, de Goethe, há referências a São Francisco de Assis.

Referências

The Humane Society of the United States. St. Francis of Assisi. A profile of the patron saint of animals and encology. (http://www.humanesociety.org/about/departments/faith/francis_files/st_francis_of_assisi.html)

La Santa Sede (Vatican). Message of his holiness Pope John Paul II For The Celebration of the World Day of Peace. (1º de janeiro de 1990). (https://w2.vatican.va/content/john-paul-ii/en/messages/peace/documents/hf_jp-ii_mes_19891208_xxiii-world-day-for-peace.html)

Brady, Ignatius Charles. Saint Francis of AssisiEncyclopædia Britannica Online. (https://global.britannica.com/biography/Saint-Francis-of-Assisi)

Robinson, P. St. Francis of Assisi. In The Catholic Encyclopedia. New York. Robert Appleton (2009).

Humanize a criança que você colocou no mundo

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Não a deixe enclausurada no universo dos bichos domésticos (Arte: Donald Zolan)

Se você colocou uma criança no mundo, a humanize por meio da arte. Apresente o mundo da literatura, do cinema, da música, do teatro e das artes plásticas. Não há maior exemplo de diversidade do que a arte.

Sensibilize vossa criança antes que ela seja embrutecida por vias desconhecidas. Desde cedo, a estimule a se tornar uma pensadora, não uma repetidora de discursos fragilizados. Mostre que ela não está sozinha no mundo, que ela pode se reconhecer no outro, assim como o outro é capaz de se ver nela.

A leve também para conhecer os menos favorecidos. Desperte nela o entendimento de que todo ser humano, independente de posição social, tem sua história e seu valor para além dos descaminhos.

Sobre os animais, não a deixe enclausurada no universo dos bichos domésticos. Mostre que todo animal tem aptidão para viver à sua maneira, e não cabe a nós julgá-los sob os enganosos augúrios da nossa superioridade e racionalidade.

Deixe claro que é na inaptidão da fala que eles se mostram mais cordiais e mais sensíveis do que nós, até porque, diferentemente do ser humano, desconhecem a pesporrência.

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Written by David Arioch

January 17, 2017 at 2:15 pm

Cortázar: “Acontece o contrário com os animais. Eles me fascinam. O mundo dos insetos…dos mamíferos”

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Cortázar: “Descobrir pouco a pouco afinidades e similaridades…Acho que o gato é o meu animal totêmico e eles sabem disso” (Foto: Reprodução)

Um dos maiores nomes da literatura latino-americana, o escritor argentino Julio Cortázar, homem que chegou a um momento da vida em que deixou de surpreender-se com a humanidade e o mundo, teve muitas conversas com o seu amigo Ernesto González Bermejo.

Mais tarde, esses registros deram origem ao livro “Conversaciones con Cortázar”, publicado originalmente em 1978, seis anos antes da morte de Cortázar. No Brasil, a obra foi lançada em 2002, por iniciativa da Editora Jorge Zahar, sediada no Rio de Janeiro. Dentre os assuntos jamais abordados com franqueza em outra entrevista está o seu amor pelos animais, registrado nas páginas 46 e 47:

“Sempre fui, desde criança, profundamente indiferente ao reino vegetal: nunca distingui muito bem um eucalipto de uma bananeira; gosto das flores, mas não me ocuparia em ter um jardim. Acontece o contrário com os animais. Eles me fascinam.

O mundo dos insetos…dos mamíferos. Descobrir pouco a pouco afinidades e similaridades…Acho que o gato é o meu animal totêmico e eles sabem disso, como pude comprovar muitas vezes ao chegar à casa de amigos que têm cães e gatos. Os cães me tratam com indiferença, mas os gatos me abordam logo na chegada.

Se alguém fizer uma pesquisa de meus livros, vai descobrir uma grande percentagem de animais. Um animal se move fora do tempo – repete ao infinito os mesmos movimentos, e para quê? Por quê? Essas são noções humanas que não valem para um inseto. Dizemos que o animal trabalha, mas a noção de trabalho quem insere somos nós.”

Considerado o mestre do conto curto e da prosa poética, o escritor argentino Julio Cortázar ocupa a mesma posição de destaque na literatura mundial que o seu conterrâneo Jorge Luis Borges. Cortázar entrou para a história como um autor original que inovou na literatura ao se afastar da forma clássica de escrever.

Fugindo da linearidade, se destacou pela perene preocupação em se aprofundar no perfil psicológico de seus personagens, garantindo a eles autonomia e proporcionando ao leitor uma imersão numa criação espontânea que, identificada como realismo mágico, precede qualquer avaliação crítica.

Maior exemplo disso é o seu livro mais famoso. “Rayuela” ou “O Jogo da Amarelinha”, de 1963, que convida o espectador a fazer as mais diferentes interpretações da história surrealista de Horacio Oliveira, baseada em um monólogo interior.

No caixa rápido

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Na fila do caixa rápido, um idoso estava na minha frente com sua esposa. Quando perguntei sua idade, ele me contou que tem 93 anos e sua senhora tem 92. De estatura baixa e silenciosos, os dois pareciam inexistir para toda aquela gente. Como a fila do caixa preferencial estava longe e também não era pequena, caminhei até o rapaz que encabeçava a fila do caixa rápido e pedi para ele deixar o casal passar. Todo mundo ficou me olhando, mas não notei nenhuma expressão de reprovação ou comentário negativo.

Logo o casal atravessou a fila carregando uma cestinha e uma bolsa ecológica. Depois que saíram do caixa, o senhor colocou a bolsa no chão, limpou as lentes dos óculos, ergueu o braço e sorriu, me cumprimentando mais uma vez. Lá fora, assisti ele abrindo a porta do carro para sua esposa. Ela entrou, ele perguntou se ela estava confortável, deu-lhe um beijo na fronte e fechou a porta. Então os dois partiram em um carro que atrás trazia um adesivo escrito “Abrace a vida mesmo quando ela não puder abraçá-lo”.

Written by David Arioch

November 9, 2016 at 11:07 pm

De mãe para filho

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Foto: Arquivo Familiar

Foto: Guimarães Junior

Todo ano, minha mãe escreve uma carta que recebo somente no dia do meu aniversário. É uma tradição. Assim como tenho feito nos últimos anos, faço questão de compartilhar o conteúdo, afinal trata-se de um dos melhores presentes que um filho pode receber:

Sou mãe de três filhos maravilhosos. Já passamos por muitos momentos tristes. Perdemos muitas pessoas queridas, então me apeguei com Deus e meus filhos. Devo dizer que minha força vem da nossa união familiar. Aprendemos a ter gratidão por tudo, mas principalmente por aqueles que estendem a mão, semeando de alguma forma a felicidade.

Só que hoje quero falar de você, David. Hoje é seu aniversário e eu não poderia deixar de escrever uma nova carta. Hoje fiquei lembrando do dia em que o médico o mostrou para mim, tão pequenino e com dois olhos grandes que mais pareciam duas jabuticabas. Um cabelo tão preto que cintilava como se fosse veludo. E o mais incrível é que nasceu com cabelo comprido! Sim, cabeludo de verdade!

Antes de completar um ano já observava tudo ao seu redor e tentava contar histórias. Quando aprendeu a falar, todo dia narrava uma história diferente. Inventava a partir das coisas que via na rua quando saía para brincar ou passear. Já dava sinais de que seria jornalista e um dia escreveria livros.

Obrigado por ser esse filho maravilhoso, meu amigo e meu confidente. Por ser esse ser humano realmente HUMANO e generoso, sempre preocupado com os outros. Sei que se alguém te pedir um tênis na rua, e você tiver somente um par naquele momento, é capaz de você tirá-lo do pé e entregá-lo a quem pediu.

Também se preocupa com os animais como ninguém, e é assim desde criança. Tem um desapego muito grande de coisas materiais. É apaixonado pela profissão de jornalista, por história, literatura, cinema…Sempre falo que você tem o dom da palavra, da escrita. É um devorador de livros.

Está sempre disposto a escrever matérias para ajudar quem precisa. Transformou isso numa ferramenta capaz de transformar vidas. Tenho muito orgulho de você. Sou sua fã. Sou testemunha do quanto você batalha para realizar seus sonhos. Você já é um vencedor e vai conseguir tudo que você merece. Você é uma pessoa do bem. Eu sei que quando se é honesto tudo é muito difícil, mas não impossível para quem crê.

Te amo muito, meu filho.

De sua mãe, Má.

28 de setembro de 2016.

Written by David Arioch

September 29, 2016 at 12:04 pm

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