David Arioch – Jornalismo Cultural

Jornalismo Cultural

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O desenho e as sementes do andarilho

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Na minha infância, havia um andarilho que passava em frente de casa todos os dias – nunca pedia nada. Carregava um caderno com folhas em branco debaixo do braço. Do outro, levava um envelope grande com sementes. Um dia, quando eu estava sentado no meio-fio, ele se aproximou.

Ficou sorrindo e me olhando. Eu não sabia que tinha um pouco de pó de grafite no meu rosto. “Faz assim”, disse em tom baixo e balançando a cabeça. Balancei e ele abriu o caderno. O pó deitou sobre uma das folhas. Parou de sorrir e passou a mão suavemente por ela, usando dois dedos – os indicadores de cada mão.

Quando olhei outra vez para o caderno, vi um desenho idêntico ao meu rosto criado em não mais que 20 segundos. Ele tirou a folha e me entregou sem dizer palavra. Noutro dia, a folha já estava em branco. Fiquei lá fora o esperando passar outra vez pra perguntar o que tinha acontecido.

Ele apenas sorriu e sinalizou pra eu formar uma concha com as mãos. Me deu algumas sementes e disse que se eu as plantasse naquele dia, elas não desapareceriam. Mas se deixasse para o dia seguinte, elas correriam. Foi o que fiz. Quando a chuva-de-ouro nasceu, soube que ele morreu – cardiopatia congênita.

 

Written by David Arioch

May 14th, 2020 at 12:18 am

Psiu! Psiu!

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“Winter Rags”, de Richard Lithgow

Assim que cheguei em casa, notei que alguém jogou ou deixou cair um pouco de lixo na calçada. Então recolhi e comecei a organizar tudo com os braços apoiados sobre a lixeira. Um sujeito encostou o carro e chamou a minha atenção:

— Psiu! Psiu!
— É comigo?
— Sim…
— Pode perguntar.
— Não quero perguntar nada não, meu amigo. Quero te ajudar.
— Me ajudar? Como assim?
— Olhe, lá em casa está cheio de materiais recicláveis. Pode te garantir uma graninha boa.
— É?
— Sim. Você vai gostar.
— Muito obrigado mesmo. Mas eu moro aqui. Só estou recolhendo o lixo que caiu na calçada.
— Não precisa ter vergonha, rapaz. Seu trabalho é muito digno.
— Ok…
— Quer que te leve lá agora?
— Não precisa não. Estou bem aqui mesmo.
— Ah, mas você pode ganhar uma graninha pelo menos pra tirar ou diminuir essa barba numa boa barbearia.
— Como assim?
— Te reconheci pela barba.
— Reconheceu o quê?
— Que você é andarilho.
— Não sou andarilho…
— É sim.
Abri o portão de casa e ameacei entrar.
— Cuidado, vão chamar a polícia pra você.
— Claro que não.
— Claro que sim.
— Ué…
— Então vamos fazer o seguinte. Fica com meu endereço, e quando você quiser é só passar lá pra buscar.
— Ah sim. Muito obrigado pela gentileza.

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Written by David Arioch

June 15th, 2017 at 1:08 am

A maldade também envelhece

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Um dos passatempos de Adamantino era pesar as porções de comida servidas aos empregados

(c) The Ashmolean Museum of Art and Archaeology; Supplied by The Public Catalogue Foundation

Sempre fiquei intrigado ao notar como as pessoas se sensibilizam quando veem algum velhinho caminhando sozinho (Arte: The Ashmolean Museum of Art and Archaeology)

Andando pelas ruas, sempre fiquei intrigado ao notar como as pessoas se sensibilizam quando veem algum velhinho arciforme ou maltrapilho caminhando sozinho. Mesmo sem interagir com o personagem, dizem à distância segura: “Coitadinho do velhinho… Cadê a família desse senhor? Meu Deus! Como podem deixá-lo nessa situação?” Claro, uma reação natural e previsível, até porque temos tendência a sentir comiseração pelos desamparados.

Curioso, um dia decidi me aprofundar na história de um idoso que vaga pelo centro da cidade e pelos bairros centrais recolhendo materiais recicláveis. Para preservar sua identidade, vou chamá-lo de Adamantino, não por acaso, mas sim por uma questão criteriosa de significação. Adamantino tem o perfil ideal para despertar inclusive a maviosidade dos mais empedernidos.

O protagonista da minha história tem baixa estatura, mais de 80 anos, cabelos brancos como algodão descaroçado, olhos graves e pele pintalgada pela frequente exposição ao sol. Também é corcovado – suas costas se elevam quase à altura do topo da cabeça. Ao longe, criam a ilusão de que ele transporta algo sobre a própria cordilheira.

Meu primeiro contato com Adamantino foi por acaso, quase em frente de casa. Ele estava revirando o lixo do vizinho e me aproximei com dois sacos cheios de latinhas. “O senhor quer essas latinhas?”, perguntei, observando suas costas disformes viradas para mim. Eram tão alterosas que só não encafurnavam sua nuca e suas orelhas por causa da sua baixa estatura. Me compadeci de vê-lo naquela difícil situação. Imaginei que talvez minha atitude lhe poupasse um pouco de tempo e quilômetros de infecundas pernadas.

Mesmo após ouvir minha voz, o idoso não mudou de posição. Manteve as mãos trigueiras, finas, calejadas, enrugadas e afoitas mergulhadas num lixo onde ele disputava espaço com tresloucadas moscas-varejeiras. O aroma pestilento em nada o incomodava. Talvez estivesse tão acostumado com a podridão que seu olfato fosse capaz de extrair perfume de chorume.

Enquanto eu segurava os sacos, ele olhou para mim rapidamente e disse: “Tá! Passa pra cá! O que mais você tem lá na sua casa?”, interpelou, agarrando os sacos com tanta firmeza que chegou a espremer com violência as latinhas. Respondi que iria ver. Sem dizer mais nada, mirou o outro lado da rua, ajeitou as latinhas dentro de um velho carrinho amadeirado e arrastou os chinelos até a próxima casa. Retornei em menos de três minutos para lhe entregar uma caixa com garrafas pet e questionei se ele também aceitava papelão.

“Quero papelão não! Isso aí não vale nada!”, respondeu com o cenho franzido – um olhar naturalmente agreste combinando com a boca árida que me lembrou chão sequioso em tempo de estiagem. O crispado das mãos e dos braços mirrados formavam caminhos que não se encontravam, traços que se perdiam na inexatidão, na sinuosidade descalabrada da sua própria vida, imaginei, incerto de coisa alguma.

Me despedi e, sem que ele dissesse nada, continuei o espiando de casa. Apesar de tudo, ainda me parecia uma figura miúda e triste. Fiquei pensando em como seus olhos castanhos e opacos eram enigmáticos. Em profundidade, eram como reféns da vacuidade. E logo percebi que ele não gostava que lhe olhassem diretamente nos olhos – desviava e se apoiava no carrinho com tanta força que as unhas riscavam o madeirite.

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“Coitadinho do velhinho… Cadê a família desse senhor? Meu Deus! Como podem deixá-lo nessa situação?” (Arte: David Simons)

A barba por fazer, a roupa esfarrapada, saburrenta e encardida, os cabelos desgrenhados, o andar remansoso e a ausência de dois botões da camisa, que revelavam um peito ossudo e abissalmente avermelhado – coberto por micoses, são predicados que fizeram de Adamantino um querido desconhecido. “Oi! O senhor precisa de ajuda?”, perguntou uma moça encostando o carro ao lado do idoso. Ele levantou os olhos bruscamente e respondeu algo que não consegui entender. Ela fez um comentário e partiu. A cena se repetiu mais duas vezes com outros personagens.

Depois daquele dia, não resisti em investigar a vida de Adamantino antes de se tornar aquele velhinho por quem tantos se compadeciam. Descobri que ele viveu em Paranavaí nos tempos da colonização. Então se mudou e retornou somente quando virou um andrajoso. Chegou ao Noroeste do Paraná em 1950. Era jovem e cheio de sonhos, e o mais importante deles envolvia maquinação.

Com falsa escritura, envelhecida com excremento de grilo, se apropriou de um sítio a 20 quilômetros da área urbana. Em menos de cinco anos, comprou três fazendas. Conseguiu ampliar rapidamente o patrimônio. Fez amizade com cafeicultores e contratou um “quebra-milho” para assaltá-los, deixando os produtores à própria sorte, correndo risco de falência. Se postulando como amigo e salvador, aparecia nos momentos mais críticos emprestando dinheiro a juros baixos para que os beneficiados não precisassem abandonar a produção de café.

Assim que a soma era investida maciçamente no plantio, ele aguardava a maturação dos cafeeiros. Antes do início da colheita, pagava para que os “quebra-milho” invadissem os cafezais de madrugada esparramando estrategicamente centenas de brocas-do-café pelas plantações. Em pouco tempo, a praga dizimava os cafezais. Com o prejuízo, as vítimas não conseguiam honrar os empréstimos e eram obrigadas a liquidar a dívida repassando as propriedades a Adamantino.

Tirânico, um dia ele expulsou a filha de casa porque descobriu que ela namorava às escondidas o filho de um colono nordestino. “Que diabos um desgraçado desse pode trazer de benefício pra nossa família? Que suma daqui ela e esse crápula sem eira nem beira!”, justificou depois de arrastar a jovem pelos cabelos, a lançando contra um espigão de coroa-de-cristo que ornamentava as rebarbas do descampado em frente ao casarão. A moça nunca mais voltou para casa, nem o pai autorizou a esposa ou um dos outros três filhos a procurá-la. Mais tarde, soube que a jovem passava por dificuldades financeiras, mas deixou claro que quem tentasse ajudá-la teria o mesmo destino.

Um dos passatempos de Adamantino era pesar as porções de comida servidas aos empregados. “Não quero perdição. Antes comer pouco e render no serviço do que inchar o bucho e ficar de ‘gracice’ por aí, ‘amendoando as orelhas’ [dormindo escondido]. A fome motiva o infeliz a trabalhar mais pra poder comer outra vez”, justificava. Embora gozasse de grande fortuna, às vezes, quando precisava que alguém resolvesse algum problema na cidade, obrigava um dos filhos a percorrer o trajeto a pé para não gastar dinheiro com combustível, alegando que não seria difícil arrumar carona para voltar para casa, dividindo o espaço da carroceria com porcos e galinhas.

Cobiçoso e insatisfeito, Adamantino preparou um plano para se apropriar da fazenda do amigo que o trouxe a Paranavaí. Chovia muito no dia em que mandou um empregado bater na porta da casa de Rui. O som do aguaceiro era tão intenso que era impossível ouvir quem chegava e quem saía da fazenda. Reconhecendo o visitante, o homem permitiu que ele entrasse. Quando Rui se posicionou para guardar a pardacenta capa de chuva, Matraca tirou uma pistola da algibeira e atirou contra o anfitrião.

Os dois balaços nas costas, à queima-roupa, deixaram o homem agonizando no chão, com olhos perdidos, sem entender a motivação do crime. Ladeado por uma poça de sangue, e ciente de que a morte logo lhe surrupiaria a vida, Rui se esforçou para agarrar a perna do criminoso com a mão direita e balbuciar com muita dificuldade: “Sei que foi Adamantino que te mandou. Diga a ele que, ao contrário da minha, a vida dele vai ser longa, tão longa que ele vai desejar ter morrido primeiro.”

Em menos de minuto, dois rapazes desceram pelas escadas e não tiveram tempo de reagir. Dois tiros depois, rolaram, caindo mortos aos pés do quebra-milho. A sangue frio, chutou as vítimas para ver se reagiam e partiu satisfeito com o desfecho da empreitada. Pelo trabalho, Matraca ganhou a escritura de uma fazenda no Mato Grosso, para onde fugiu na mesma noite. Antes passou na delegacia assumindo a autoria do crime. Após a confissão, o liberaram. Matraca nunca mais foi visto.

Na madrugada do crime, Adamantino foi até a fazenda de Rui com a polícia. Havia um nevoeiro tão denso que pouco se via no horizonte, onde os cafeeiros pareciam imersos num vazio sempiterno. No interior da casa, o homem conteve o sorriso quando viu Rui caído e sem vida. A alegria se transformou em tristeza ao se deparar com um dos jovens aos pés da escada. Lá estava Nestorzinho, ferido mortalmente com um tiro no peito. Matraca, que não conhecia o filho mais novo de Adamantino, matou o rapaz por engano, crente de que era filho de Rui.

Quando a família do grileiro descobriu a verdade sobre o crime, não fizeram alarde nem ameaçaram denunciá-lo. Simplesmente o abandonaram, deixando para trás toda a riqueza e os privilégios conquistados em um período de dez anos. Em 15 dias, a casa enorme da fazenda já não abrigava mais ninguém, a não ser Adamantino e seu próprio dinheiro, estocado até dentro de buracos no quintal. Alguns empregados também se afastaram do homem, com receio de que ele atraísse algum tipo de danação eterna.

Sem saber o que fazer com o capital, Adamantino redescobriu o seu propósito quando uma sequência de geadas o levou à falência. O que restou de sua fortuna, gastou procurando a família em vão. Há quem acredite que sua família partiu para Portugal, onde viviam os pais da ex-esposa. A última vez que vi Adamantino em Paranavaí foi no ano passado. Ele saía de uma casa abandonada, acompanhado de um adolescente que arrastava longos e lustrosos fios de cobre.

Entre o portão e a calçada, o velho tirou um bolo de dinheiro do bolso sujo da calça surrada, separou duas notas e entregou ao garoto que partiu abespinhado, como se não tivesse recebido o combinado. Adamantino sorriu; foi a primeira e única vez que o vi mostrar os dentes. Enfiou muitos metros de fio de cobre dentro de um saco escuro, armazenou tudo no carrinho e o empurrou por uma curva tranquila, ladeado por uma calçada de mosaico português. Mais adiante, os paus-d’arco lançavam flores em seu caminho. E logo uma senhora parou o carro ao seu lado e perguntou: “Parece que o dia está muito difícil pro senhor. Precisa de alguma coisa?”

Seguindo em direção oposta, lembrei da minha passagem preferida de Eugenia Grandet, de Balzac: “Quando o cura da paróquia veio ministrar-lhe a extrema-unção, seus olhos, mortos na aparência desde algumas horas, reanimaram-se à vista da cruz, dos candelabros, do repositório de água benta, de prata, os quais ele mirou fixamente, mexendo pela última vez a narina. Quando o padre aproximou-lhe dos lábios o crucifixo de prata dourada para fazê-lo beijar a imagem de Cristo, Grandet fez um gesto medonho para agarrá-lo, e esse último esforço custou-lhe a vida.”

Curiosidades

Quebra-milho significa pistoleiro, jagunço, capanga.

O personagem que me inspirou foi embora de Paranavaí anos antes de eu pensar em escrever a história “A maldade também envelhece”.

A mudança de Jessé Piedade

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Jessé Piedade é um morador de rua que decidiu abandonar o alcoolismo (Foto: David Arioch)

Jessé Piedade é um morador de rua que decidiu abandonar o alcoolismo (Foto: David Arioch)

Saí hoje à tarde pelas ruas de Paranavaí, no Noroeste do Paraná, com o famoso Jessé Piedade para procurar um lugar para o seu cachorro Billy morar temporariamente. No caminho, como se estivesse pressentindo a separação, Billy enfiou o focinho entre os braços de Jessé e ficou lá, com olhos velados, por mais de dois minutos. Logo que o cachorro virou o focinho em minha direção, seus olho estavam úmidos, brilhando. E Jessé então disse emocionado: “Olha, o Billy tava chorando. Molhou a minha camiseta. Como pode isso, rapaz? Vai ser difícil me separar dele agora. Poxa vida!”

Quando chegamos ao local onde Billy ficaria por algumas semanas, surgiu um contratempo e decidimos procurar outro lugar. Passando pela Avenida Heitor de Alencar Furtado, me lembrei da Vila Alta e da Oficina do Tio Lú. Assim que chegamos lá e expliquei a situação, Seu Luiz ficou feliz de conhecer o tão falado Jessé Piedade e também de receber o Billy. Entrou dentro de casa, voltou com uma coleira e a entregou para que Jessé a colocasse no pescoço do Billy. Depois de poucos minutos na casa do Tio Lú, o cachorro já se sentiu à vontade, inclusive o rodeando enquanto ele ajeitava um lugar para o cão repousar ao lado da oficina – ladeado por uma bacia de água e um pratinho com ração.

Antes de ir embora, Jessé chorou ao se separar do Billy. Também recebeu alguns conselhos do Seu Luiz quando expliquei o motivo da guarda temporária do Billy. “Olhe, rapaz, tenho certeza que você é uma boa pessoa. Não perca essa oportunidade, hein? Acredite que isso vai mudar sua vida”, declarou Seu Luiz segurando a mão de Jessé. Deixamos o Billy com o Tio Lú porque amanhã às 6h Jessé Piedade vai se despedir da cidade onde viveu nos últimos anos.

Aproveitando que amanhã é feriado em Paranavaí, eu, minha mãe e meu irmão Guimarães Jvnior vamos levá-lo até uma clínica de reabilitação para alcoólatras em Apucarana, conhecida pelo alto índice de tratamentos bem sucedidos. Jessé concordou com o internamento e, assim como nós, tem fé que vai se livrar definitivamente do vício até o final do ano, nunca mais se entregando à vida de andarilho ou morador de rua.

Written by David Arioch

January 20th, 2016 at 12:31 am

A sina de Nenê, um ex-peão de boiadeiro

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Enquanto gesticula, coça a cabeça e sorri de forma acanhada, ele informa que é dia de música

Nenê:

Nenê: “Vô rum-a píi-a po radímm” (Foto: David Arioch)

Na Rua B da Vila Alta, enquanto eu converso com o artista plástico Tio Lú em frente a um terreno baldio, um homem se aproxima. Não entendo quase nada do que ele diz e suspeito que o sujeito esteja embriagado. Ele carrega um relógio muito bonito, que já não funciona mais. Tio Lú pede que eu aguarde um minuto, entra dentro de sua casa e traz um rádio pequeno. Nenê sorri efusivamente e pega o radinho com uma das mãos. Exibindo os poucos dentes que lhe restam na boca, parece uma criança quando ganha um doce.

Ele segura minha mão e diz algumas frases – entendo não mais do que meia dúzia de palavras e o observo se afastando. Então pergunto ao Tio Lú se ele pode chamar o Nenê novamente para responder uma ou duas perguntas. Em menos de 30 segundos, Nenê retorna e me diz com muita dificuldade que já foi peão de boiadeiro.

Conta que não sente falta dos tempos de boiadeiro, apenas da saúde. Anos atrás, antes de prometer a si mesmo que jamais montaria em um animal novamente, caiu de cima de um touro e bateu a cabeça com força no chão de terra, ficando em coma por vários dias. Quem o conhecia como boiadeiro, decidiu se afastar, julgando que o rapaz nada mais tinha a oferecer. A queda o deixou com graves sequelas, dificultando sua fala, dando a impressão de que está sempre embriagado.

Enquanto gesticula algumas vezes, coça a cabeça e sorri de forma acanhada, ele informa que hoje é dia de música. “Vô rum-a píi-a po radímm”, explica com dificuldade. Dias atrás, Nenê estava caminhando perto da estrada de terra da Farinheira Cassava quando alguns jovens começaram a importuná-lo. Como ele não gosta de briga, tentou se afastar, mas o jogaram no meio de uma roda, o empurraram e o estapearam até que as agressões se intensificaram.

Sem ter como fugir, Nenê derrubou quatro rapazes, distribuindo apenas quatro socos. “Ele é quieto, mas extremamente forte”, declara Tio Lú que toda semana separa algum objeto para entregar a Nenê que gosta de caminhar ladeado pelo Bosque Municipal, tratando cada presente como um motivo a mais para viver no seu universo de inocência e redescoberta tardia.

Jessé Piedade recupera seu cão Billy

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Jessé Piedade não esconde a felicidade em rever seu melhor amigo (Foto: David Arioch)

Jessé Piedade não esconde a felicidade em rever seu melhor amigo (Foto: David Arioch)

Muito legal saber que meu trabalho ajudou alguém. Hoje fui encontrar o andarilho Jessé Piedade na Casa da Cultura Carlos Drummond de Andrade, de Paranavaí, no Noroeste do Paraná. Chegando lá, vejo um cachorro deitado na maior folga no tapete de entrada. Aí fico sabendo que é o Billy, cão que foi roubado de Jessé há algum tempo. “Cara, leram sua reportagem sobre a minha vida e devolveram o Billy, o meu melhor amigo. Tô muito feliz!”, disse Jessé sorrindo.

Leiam a história de Jessé no link abaixo: https://davidarioch.com/2015/11/23/jesse-um-homem-motivado-pela-simplicidade

 

 

Written by David Arioch

November 25th, 2015 at 9:39 pm

Jessé, um homem motivado pela simplicidade

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Perambulando pelas ruas de Paranavaí, o andarilho já evitou furtos e roubos

Jessé Piedade com a Sogra, sua cobra de mais de dois metros (Foto: David Arioch)

Jessé Piedade com a Sogra, sua cobra de mais de dois metros (Foto: David Arioch)

Dias atrás, passando pela Rua Pernambuco no início da noite, vi um rapaz com uma réplica de uma cobra de mais de dois metros enrolada no pescoço. Sorridente, se apresentou como Jessé Piedade, de 39 anos, e explicou que a confeccionou usando apenas um pedaço de pano, espuma, agulha e linha. Intrigado, sugeri marcarmos um dia para que me contasse sua história.

Numa quinta-feira, por volta das 16h, a secretária da Casa da Cultura Carlos Drummond de Andrade, Elza Pavão, me liga avisando que Jessé está me esperando. Assim que chego lá, o encontro apreensivo e sentado diante de um pé de jaca. Quando tiro o gravador do bolso, ele pergunta: “Ué, mas você vai gravar mesmo? Vai sair uma reportagem comigo?”, questiona com olhos intumescidos.

Após a confirmação, o rapaz dá uma risada expansiva ao mesmo tempo em que as folhas longas e verdes da jaqueira se movem com a chegada de uma brisa pós-chuva. “Sou de São Paulo, capital. Comecei a trabalhar como motorista com 18 anos. Fiquei nesse serviço por 17 anos atendendo a um advogado. Fazia tudo que precisava, até que chegou um momento em que ele não teve mais condições de continuar me pagando. Apesar disso, sempre foi um excelente amigo. Era como um pai pra mim”, conta.

Perdido e desinteressado em continuar em São Paulo, Jessé se mudou para Paranavaí, no Noroeste do Paraná, há três anos, onde esteve várias vezes desde a década de 1990 com o ex-patrão. “Vim pra cá porque gostei daqui. Não tenho do que reclamar da cidade. O povo é muito humano. O que mais tenho aqui são amigos, inimigos não”, garante o paulistano com sotaque curitibano.

Com a carteira nacional de habilitação (CNH) vencida há mais de cinco anos, o rapaz não esconde o saudosismo da época em que dirigia até caminhão. O último emprego antes de vir ao Paraná foi no Hospital Regional de Itapetininga, no interior paulista, onde atuou como motorista, fiscal e vigia por dois anos e oito meses. Mas a vida de Jessé mudou anos antes. “Minha mulher tinha um boteco e virei um ‘chapéu velho’. Comecei a beber dentro do relacionamento e me entreguei ao alcoolismo após a separação em 2005. Ela não bebia. Só eu mesmo que fiquei assim”, confidencia.

Mais tarde, Jessé Piedade recebeu um convite para trabalhar com montagens de palco e de cenário de shows, chegando a coordenar equipes para atender a banda Capital Inicial e sertanejos como Daniel e Rio Negro e Solimões. “Todo mundo muito legal. Eu aparecia no local cinco dias antes do show e contratava pelo menos 15 peões pra realizar o serviço. A gente também fazia compras, decorava o camarim. Trabalhei com muitos artistas. Era freelance, né?”, declara.

Jessé atuou em Avaré, Itapetininga e Lençóis Paulistas, a serviço de grandes produtores de espetáculos como Marcos Mioto e Marcos Savian. “Sempre me pagaram certinho”, assegura o rapaz que não se esquece de quando achou no camarim uma bolsa preta com R$ 72 mil após um show em Avaré. “Estava chovendo muito naquela madrugada. Entrei lá pra fazer a limpeza e recolher as sobras de comida. Vi aquele monte de dinheiro e me deu até tremedeira. Em seguida, avisei a dupla Rio Negro e Solimões e eles passaram lá pra buscar. Meus companheiros queriam me matar. Me deram um valor lá e alguns agasalhos. Até se me dessem R$ 1 eu ficaria feliz. Não sou ganancioso”, revela com tranquilidade.

Lucrando R$ 4 mil por mês, Jessé gastava mais de um terço do que ganhava com bebidas. Sozinho, consumia uma garrafa de whisky por noite. Já sofrendo em decorrência de cólicas renais, quase morreu após uma convulsão. “No show do Fernando e Sorocaba tomei uns goles e dormi no ônibus. Como o palco era uma concha, deu um vento forte que quase derrubou tudo. O povo saiu me procurando. No outro dia cedo, achei whisky e continuei bebendo”, relata.

Rapaz mostra o terreno baldio onde viveu temporariamente perto do Clube dos Bancários (Foto: David Arioch)

Rapaz mostra o terreno baldio onde viveu temporariamente perto do Clube dos Bancários (Foto: David Arioch)

Como os problemas foram se agravando, os produtores avisaram que o rapaz não poderia continuar sendo negligente no trabalho. Então Jessé abandonou a função, já que era impossível se manter sóbrio com tantas bebidas ao alcance das mãos. “Dava pra ganhar bem, o problema era que eu não tinha controle sobre mim e estava perdendo minha filha por causa disso”, justifica.

Depois de dois anos em Paranavaí, onde também trabalhou para um advogado que o ajudou bastante, Jessé começou a ir para o campo colher laranjas e ensacá-las para revender atrás do Posto Panorama, na Rua Maria Anchieta de Morais. “Até hoje faço isso quando surge alguma oportunidade. Tenho um parceiro que me chama, daí dividimos as despesas. Mas, cara, vou te falar uma coisa. No meio dos laranjais é comum encontrar cobra, só que eu não tenho medo. Na verdade, elas que têm que ter medo de mim”, brinca rindo.

Atualmente, Jessé se alimenta apenas uma vez por dia – no horário de almoço. Quando chove acaba passando fome por não ter coragem de pedir esmola. Além de catador e vendedor de laranjas, entrega panfletos e faz capina de terrenos. “Tenho enxada e rastelo. Sou pau pra toda obra. Queria ter um carrinho pra vender frutas como laranja, abacaxi, mexerica e limão. São mais fáceis de se comercializar”, comenta.

Em Paranavaí, Jessé conheceu o casal Dirce e Ailton que o ajudou conseguindo uma vaga em uma clínica para alcoólatras em Nova Aliança do Ivaí, administrada pelo frei Ivani Ribeiro Pinheiro. Após quase um mês de internamento, um dia o rapaz foi enviado a Paranavaí para passar por uma reavaliação médica ao lado da delegacia. “A perua me levou lá, daí o médico disse que eu estava com sérios problemas no fígado e na próstata. Fiquei nervoso e fugi. Saíram atrás de mim e me acharam na rua. Eu disse que não iria voltar porque não consigo ficar confinado. Apesar disso, sou muito grato a dona Dirce, uma pessoa muito boa que me ajudou demais”, admite.

Depois de algum tempo, Jessé tira do bolso várias cartelas de diazepam. Segundo o rapaz, é impossível dormir sem consumir o sedativo. Junto, tomava clonazepam (rivotril), mas interrompeu o uso porque o calmante tarja preta agravou os problemas no seu fígado. “Já perdi 18 quilos. Falam que tenho um tumor que dificulta a digestão, por isso vomito todo dia. Cara, hoje estou numa situação muito difícil”, reconhece levando as mãos à barriga saliente que contrasta com a magreza e o aspecto anêmico.

Durante a entrevista, sinto cheiro intenso de álcool e não resisto em perguntar se Jessé continua bebendo. O rapaz diz que consome apenas um copo cheio de vinho barato após o almoço. Levando em conta que começamos a conversar depois das 16h é difícil acreditar na resposta. “Tá certo! Vou falar a verdade. Quando fico nervoso tomo até um litro brincando. Só que juro que comecei a beber menos tem dois anos”, alega.

Jessé Piedade define a própria vida como complicada. Andando sempre sozinho, muitas vezes sai às ruas sem objetivo ou destino. Quando não consegue nenhum “bico” ou se cansa de perambular, fica na rodoviária sentado em um banco assistindo TV ou conversando com os amigos taxistas. “Sempre vivi sozinho. Eu, Deus e mais ninguém. Só que rodo essa cidade toda numa boa, conheço tudo. Tem dia que vou daqui até o Sumaré pra ver se tem carga pra carregar em algum posto. Agora estou morando na rua, cada dia durmo num lugar diferente”, enfatiza. Com a experiência de quem viveu na chácara de uma tia em São Paulo, o rapaz faz planos: “Ainda quero ter um sítio pra plantar hortaliças e vendê-las na cidade. Também sonho em estudar direito.”

“Sempre vivi sozinho. Eu, Deus e mais ninguém" (Foto: David Arioch)

“Sempre vivi sozinho. Eu, Deus e mais ninguém” (Foto: David Arioch)

Enquanto os desejos não se realizam, Jessé se orgulha de ações em benefício dos vizinhos, quando vivia em um barraco improvisado em um terreno baldio na Rua Miljutin Cogej, perto do Clube dos Bancários. “Teve um rapaz que invadiu a casa de uma vizinha e levou a bicicleta. Corri atrás dele e o derrubei. Ele fugiu sem a ‘magrela’. Também impedi o furto de materiais de construção na casa de outro vizinho que estava fazendo uma reforma”, narra e sorri quando as histórias são confirmadas pelo guarda do clube.

Quem vê Jessé na rua, sempre comunicativo e brincalhão, dificilmente percebe que ele sofre de depressão. Lidando com a doença há mais de cinco anos, o rapaz confessa que às vezes sente muita raiva. “Lembro de bastante gente que se aproximou de mim quando eu estava bem. Aí desapareceram quando fiquei mal. Tem dia que só penso em dar um tiro na minha própria cabeça”, desabafa.

Casal ajudou Jessé a enfrentar o alcoolismo

Dirce e o marido Ailton conheceram Jessé Piedade na Rodoviária de Paranavaí, na Avenida Heitor de Alencar Furtado, enquanto aguardavam o ônibus. À época, o rapaz explicou seu desejo de se livrar do alcoolismo.

“Ele estava em um estado de desamparo total. Então nos responsabilizamos em ajudar, inclusive conseguimos um lar temporário para o Billy, seu cachorro. Internamos o Jessé em Nova Aliança do Ivaí. Quando saiu, vimos que ele precisava de um lugar decente pra ficar e o colocamos em uma pensão. Só não ajudamos mais porque não tínhamos condições”, relata Dirce que qualifica Jessé como uma pessoa inteligente, educada e tranquila.

O rapaz só não ficou mais tempo internado porque a necessidade de liberdade “falou mais alto” do que a vontade de se tratar. “Até hoje acompanhamos a realidade do Jessé. Torcemos muito por ele”, garante Dirce que não vela as esperanças de vê-lo saudável.

Um artesão por acaso

Um dia, Jessé Piedade teve um sonho com uma cobra e quando acordou decidiu comprar linha de crochê, agulha e tecido pra criar uma, mesmo sem jamais ter costurado coisa alguma. “Encanei, mas a Sogra [nome da cobra] não ficou muito boa. Agora vou dar uma caprichada e fazer uma Anaconda”, relata rindo, acrescentando que a cabeça do animal foi pintada para proporcionar mais realismo. A princípio, a intenção era fazer uma cobra de 12 metros.

No entanto, Jessé achou que seria impossível circular com uma réplica tão grande. “Muita gente ficou com medo quando viu de longe essa que fiz. Teve criança correndo, chorando e pedindo pra tirar foto. Quando saio sem a cobra, até os mais velhos perguntam o que fiz com ela”, conta. Depois da primeira criação, o rapaz já recebeu um pedido para confeccionar uma cascavel. “Ela vai ter um guizo de verdade, de sete anos. A senhora que encomendou quer que eu o coloque. Ela perguntou quanto cobro pelo serviço e eu disse que faço de graça”, confidencia.

“Hoje eu tô com saudade do Billy”

“Hoje eu tô com saudade do Billy. Não acho mais ele”, diz o andarilho Jessé com um olhar baixo e uma expressão de tristeza, se referindo ao seu melhor amigo, um cãozinho mestiço de dois anos que ele tirou da sarjeta da Rodoviária de Paranavaí quando o animalzinho tinha dois meses. “Um guarda lá deu dois choques na boca do bichinho com um arma. Ele quase morreu. Então cuidei dele e a gente se apegou um ao outro”, narra.

Apesar de tudo, Jessé ainda sonha em ter um sítio e cursar direito (Foto: David Arioch)

Apesar de tudo, Jessé ainda sonha em ter um sítio e cursar direito (Foto: David Arioch)

A convivência entre os dois era tão harmoniosa que Billy acordava Jessé todos os dias às 5h30 para trabalhar. “Ele tomava o café dele numa padaria do Jardim Simone e voltava pra ver se eu tinha me levantado. Se eu não estivesse em pé, ele latia até eu pular do colchão”, lembra. Bem querido pela população do bairro, Billy ganhava café da manhã todos os dias e atendimento quinzenal em um pet shop. “Um dia eu fui lá e falei: ‘Engraçado, né? Vocês dão tudo pro cachorro, mas ninguém faz nada pro pai dele aqui’”, revela Jessé às gargalhadas.

O andarilho e o cãozinho não se afastavam nem quando o andarilho precisava ir ao mercado. Billy sempre esperava Jessé do lado de fora, deitado em um tapete. “Um dia ele sumiu e fiquei tão nervoso que me deu um febrão. Algum tempo depois, fui ao Ginásio Lacerdinha ver um jogo e de longe vi o Billy. Daí gritei: ‘Billy, Billy! Filho da puta!’ E ele se esticou todo e veio correndo pra cima de mim, berrando e rolando no chão”, destaca.

O reencontro durou pouco tempo. Billy sumiu no mesmo dia e reapareceu num domingo na feira livre da Rua Pará. Enquanto caminhava próximo a uma banca de alface, Jessé foi surpreendido por um salto de Billy. “No dia seguinte, saí pra vender laranja e ele sumiu outra vez. Me contaram que um motorista de um Corsa sedan prata pegou ele. Mas tenho certeza que quando eu sair pra entregar panfleto ele vai voltar na hora quando sentir meu cheiro”, acredita.

“Fiquei 20 dias sozinho no mato quando meu pai morreu”

Ao falar do passado, as melhores lembranças de Jessé Piedade remetem à infância, principalmente o relacionamento com o pai e o avô. “Meu avô era uma pessoa fantástica. Fiz datilografia com 11 anos e ele me deu uma máquina. Era daquela Olivetti pequena. Depois me deu bicicleta, mobilete. O dia mais feliz da minha vida foi quando pedi pra ir ao Play Center. Eles disseram não e fiquei chateado, mas depois me levaram. Isso foi em 1987. Só que infelizmente meu avô morreu por causa de um [acidente vascular cerebral] AVC”, informa.

Hoje, de todos os familiares, Jessé tem contato esporádico apenas com a filha e a irmã. Seu pai, que era pastor, faleceu minutos após um culto, quando estava dirigindo um automóvel, aguardando o sinal verde do semáforo. “Teve um infarto fulminante. Foi tão impactante que não me deixaram ver. Cara, tenho uma saudade do meu pai que você nem imagina”, confessa com olhos marejados. Quando recebeu a notícia, o rapaz sumiu de casa e ficou 20 dias sozinho, dormindo em barraca numa área de mata fechada.

“Mais tarde, minha mãe casou com uma pessoa que não gostava de mim e não tenho notícias dela há mais de dez anos”, assinala e acrescenta que apesar da distância tem um bom relacionamento com a filha Raíne Vitória, que mora em São Paulo, e com a ex-mulher. “Nos damos muito bem, só que minha filha briga muito comigo. Quer que eu mude de vida o mais rápido possível. Ela fez 15 anos no último dia 15 de novembro”, pontua sorridente.

Written by David Arioch

November 23rd, 2015 at 12:43 am

O mundo de Marinho

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A história do jovem que há nove anos passa o dia vagando pelo centro de Paranavaí

Marinho resistiu, mas acabou cedendo à entrevista (Foto: Amauri Martineli)

Marinho resistiu, mas acabou cedendo à entrevista (Foto: Amauri Martineli)

Era uma quinta-feira, por volta das 8h30, quando eu e o fotógrafo Amauri Martineli saímos para procurar o famoso Marinho, um jovem sorridente que vive vagando pelo centro de Paranavaí, no Noroeste do Paraná. Em poucos minutos, o vimos próximo da Banca Tanaka, na movimentada Rua Getúlio Vargas. Acenei, o rapaz se aproximou e perguntamos se ele aceitaria nos contar a sua história e o motivo de ter se tornado andarilho.

Empolgado com a ideia de uma reportagem sobre a sua vida, sorriu e disse que nos aguardaria. Assim que Martineli deu a volta para estacionar o carro, Marinho desapareceu. Depois de 15 minutos de procura, o vi a 50 metros do local onde conversamos antes. Já estava com um semblante diferente. O sorriso tinha sumido. Me aproximei, expliquei a ideia da entrevista, mas se mostrou desinteressado. “Ah, vamos deixar pra semana que vem. Hoje eu não tô bem”, justificou. Então perguntei o que ele tinha e expliquei que poderíamos ajudá-lo. O rapaz insistiu: “É a minha cabeça, não tá boa. Depois passa. Isso é normal comigo”, garantiu, de forma evasiva.

Me afastei um pouco, chamei o Amauri e juntos conseguimos convencer o Marinho a bater um papo com a gente. Curiosamente a cefaleia se desvaneceu em pouco tempo. Logo o rapaz ficou à vontade e demonstrou muita satisfação pelo nosso interesse em conhecer a sua história narrada em cerca de uma hora. Com um estilo próprio de ser, Marinho passa a maior parte do dia no centro de Paranavaí, onde gosta de ficar perto das entradas das lojas vendo a movimentação de pessoas e ouvindo música. Admite que tem preferência pelo pagode, gênero da época das festinhas da adolescência.

Muito conhecido pelos comerciantes e comerciários das ruas Getúlio Vargas e Manoel Ribas, o rapaz é elogiado pela quietude. Discreto, não gosta de incomodar ninguém. “Hoje só fumo cigarro e bebo cerveja. Bebo todo dia. Compro cigarro solto numa banca. A mulher gosta de mandar Derby. Pago 50 centavos em cada um. Ah, antes eu nem gostava daquele Free, achava fraco, mas agora é o meu preferido. Só que custa caro”, reclama.

“Quando alguém estranha, faço questão de cumprimentar pra mostrar que sou do bem”

“Quando alguém estranha, faço questão de cumprimentar pra mostrar que sou do bem” (Foto: Amauri Martineli)

A latinha de cerveja é sagrada para Marinho que tem 30 anos e me chama de tio o tempo todo, embora tenhamos a mesma idade. Comprada na loja de conveniência de um posto de combustíveis, ele informa que costumava pagar R$ 1 na Schin, mas recentemente subiram o preço para R$ 1,50. “Tinha outra que era R$ 1,75 e caiu pra R$ 1,25, então só bebo dessa. De vez em quando tomo umas pingas no [antigo] Terminal Rodoviário e fico doido, mas é mais moderado”, pontua enquanto sorri e coça a cabeça. Às 18h, quando as portas das lojas se fecham, o rapaz caminha até o antigo Jardim Ouro Branco, onde passa a noite sozinho e deitado sobre uma calçada nas imediações do Centro Esportivo do Sesc.

Entre latidos de cães da vizinhança, dorme ao relento até amanhecer, perto da ex-residência dos avós. “Lá é tranquilo. Me deixam ‘de boa’. Quando alguém estranha, faço questão de cumprimentar pra mostrar que sou do bem”, comenta Marinho que dorme na rua há nove anos. Antes de virar sem-teto, vivia com os avós. Ficou sem casa quando os dois faleceram em decorrência de ataques cardíacos. As mortes tiveram diferença de poucas horas. O rapaz recebeu a notícia quando estava preso. Foi flagrado fumando e portando maconha. “Fiquei seis dias na cadeia. Não pude ir nem ao velório. Só vieram me avisar que os dois morreram”, lamenta. De Marinho, as drogas não levaram apenas a oportunidade de se despedir dos avós, mas também a própria identidade e capacidade de sonhar.

A falsa ilusão de ser admirado pelos amigos fez com que experimentasse maconha com 15 anos. “Queria me alugar um pouco. Acabou que saí tremendo com medo de morrer. Só ficou ‘massa’ quando parei de ter as ‘piras’. Eu ‘desligava’ mesmo, nem pensava em nada”, revela. A primeira tragada aconteceu no Parque Ouro Branco, no Ribeirão Xaxim, onde se reuniu com 13 garotos, principalmente vizinhos. No local, encontraram alguns jovens fumando maconha em um bong caseiro, feito a partir de garrafa pet. “Ofereceram pra gente e o bagulho fez efeito rápido. Tinha um trilho no córrego e até hoje eu não sei como cheguei do outro lado. Devo ter caído até na água. Sei lá”, declara às gargalhadas.

Quando a larica, a fome em decorrência do uso de maconha, surgia, a garotada descia até o Laticínio Iva, onde um guarda fornecia a eles algumas caixinhas de leite. Marinho tomava até três de uma vez. Com o tempo, quis se afastar da maconha, mas não resistiu. O ápice do vício foi aos 16 anos, incentivado por “amigos” que moravam perto da casa dos seus avós. “Eles vendiam pra mim. Então quando minha mãe me dava um, dois reais, eu ia lá comprar. Tinha uns ‘caras quentes’ que vendiam 50 gramas, peso de balança, por 30 reais, o suficiente para quatro dias. Era da boa, pura mesmo. Bem diferente do baseado de um real que eu fumava pelo menos quatro por dia”, confidencia.

Por ingenuidade, Marinho entrou no mundo das drogas aos 15 anos (Foto: Amauri Martineli)

Por ingenuidade, Marinho entrou no mundo das drogas aos 15 anos (Foto: Amauri Martineli)

À época, Marinho não conseguia dormir sem antes tragar o “cigarro branco”. Ficava muito agitado e ansioso. Entre os vizinhos, pelo menos nove fumavam juntos. Quando tinha dinheiro para comprar só um baseado, o rapaz se irritava fácil. “Ficava bravo porque sempre aparecia gente pedindo pra dividir. Não dava nem tempo de ficar doido”, justifica. O fornecedor era sempre o mesmo, só que quando surgia algum imprevisto o jeito era procurar outra “boca de fumo”.

Por causa do vício, Marinho ficou 26 dias internado no Hospital Psiquiátrico Nosso Lar, em Loanda. O rapaz se queixa que teve de conviver com loucos. “Eu era o único normal lá. Aplicaram um bagulho em mim que minha língua até enrolou e não consegui falar”, lembra. O tratamento não deu certo e o rapaz retornou a Paranavaí. Em casa, o avô tentou curá-lo do vício com o preparo caseiro de “garrafadas de erva-de-são-joão”. Marinho tomava pelo menos dois litros por dia para tentar controlar a abstinência de canabinoide.

Quando estava se afastando definitivamente da maconha, foi morar na rua e conheceu o crack. A primeira pedra foi experimentada por curiosidade, nas imediações do antigo Terminal Rodoviário Urbano. Pedia dinheiro no centro de Paranavaí e corria até lá para comprar. “Entrei na pedra com 23 anos. Achei o crack muito mais gostoso do que a maconha. Teve uma vez que conheci um cara ‘massa’ que vendia pedra de cinco e de dez reais”, confessa Marinho que fumava até 12 pedras de R$ 5, ou seja, o equivalente a R$ 60 por dia.

Normalmente começava a consumir crack pela manhã e parava por volta das 22h. Só prolongava o uso nos finais de semana, quando estendia o consumo até as 4h. Sexta e sábado o vício era financiado com as doações generosas dos frequentadores de bares e lanchonetes da Avenida Paraná que raramente falavam não para Marinho. “‘Chapava’ pedindo dinheiro. Daí gastava mais de R$ 60. Fumava e ficava ‘ruinzão’. Tinha uma mulher que me deixava dormir na casa dela. Eu aparecia lá de madrugada e ficava olhando pro teto me perguntando porque não amanhecia logo pra eu sair pedindo dinheiro pra comprar mais pedra”, enfatiza.

“Foi triste porque acordei e vi meu pai caído e morto” (Foto: Amauri Martineli)

“Foi triste porque acordei e vi meu pai caído e morto” (Foto: Amauri Martineli)

Marinho não se esquece do dia em que estava perto de uma “biqueira”, como ele chama as “bocas de fumo”, no Jardim Ipê, e foi surpreendido pela aproximação de uma viatura da Polícia Militar. Assustado, tentou arremessar o cachimbo em um terreno baldio, mas o objeto bateu no portão e voltou. A segunda tentativa deu certo. Só que era tarde demais e foi obrigado a se explicar para a polícia.

Apesar da vida de riscos, Marinho jura que jamais foi perseguido ou ameaçado por traficantes. “Nunca enganei ninguém. Só ficava em débito com os ‘mais chegados’. Mas era coisa de dois a quatro reais. Às vezes se irritavam comigo e me davam o produto até de graça. Cheguei a ganhar pedra de R$ 5”, diz rindo. O seu ponto preferido era o entorno do velho Terminal Rodoviário Urbano, de onde se afastou há quatro anos, quando parou de usar crack. “Até hoje tem gente vendendo lá. Não me interesso porque não vejo mais graça”, explica.

Antes de se livrar do vício, por iniciativa do irmão, ficou internado em uma clínica de reabilitação por quatro meses em Curitiba. “Eu não queria nada com nada e saí de lá”, reconhece. Outra tentativa sem sucesso foi em uma chácara para dependentes químicos no Sumaré. Com a abstinência, o rapaz perdia o controle de si mesmo e agia como outra pessoa. “Fugia de lá alucinado e bravo. Andava uns 19 quilômetros até chegar no centro de Paranavaí. Hoje tô livre disso. Não quero saber dessas drogas. Prefiro continuar vivo”, pondera Marinho que ao final da entrevista conta que se chama Mariosvaldo de Freitas Mazanares Souza Moura.

“Minha infância, vou falar pra você, tio”

“Minha infância, vou falar pra você, tio. No meu aniversário de seis anos a minha mãe fez um bolo delicioso e colocou uns bonequinhos ‘desenhadinhos’ do Corinthians, porque eu era corinthiano, e do Palmeiras, né? Foi muito legal! Melhor dia! Chamei um amigo que morava no [Jardim] São Jorge e outro que vivia um pouco pra cima da minha casa. O resto era família”, conta o jovem andarilho Marinho. A primeira experiência do rapaz em um escola foi na mesma época, quando ingressou no Colégio Estadual Newton Guimarães. “Até a quarta série ainda era ‘da hora’. Depois que chegou a quinta, passei a odiar por causa das matérias. Tudo muito difícil e eu não entendia nada”, reclama.

“Fui convidado a participar de um ‘peneirão’ para ir pro Santos, tio” (Foto: Amauri Martineli)

“Fui convidado a participar de um ‘peneirão’ para ir pro Santos, tio” (Foto: Amauri Martineli)

A maior lembrança da quinta série remete ao dia em que o pai chamou ele e um dos irmãos para passear de Ford Belina. “Eu tinha uns 12, 13 anos. Corremos Paranavaí. Visitamos minha irmã e voltamos pra casa só lá pelas dez da noite. Parecia até que ele sabia o que iria acontecer depois. Quando deu duas horas da manhã, meu pai morreu de ataque cardíaco”, lamenta Marinho com olhos marejados.

Com a morte do pai, Marinho perdeu mais ainda o interesse em estudar. Quando chegou à sétima série do ensino fundamental teve de fazer supletivo à noite para tentar recuperar o tempo perdido. “Nem passava de ano mais. Fui pro [Colégio Estadual] Leonel Franca e só chegava atrasado, lá pelas 8h20, 8h40, até na hora do recreio. Daí falaram que seria melhor eu estudar perto de casa. Então me deram a transferência e mudei pro [Colégio Estadual] Marins [Alves de Camargo]”, relata.

Marinho reprovou novamente e só conseguiu a aprovação no ano seguinte. “Cada negócio mais difícil, bicho!”, reclama. Quando não estava na escola, corria para uma pracinha perto de casa, onde se reunia com os amigos para jogar bola num ‘areião’. Sonhavam em fazer traves de madeira. Sem experiência com marcenaria, apelavam para chinelos e lajotas.

Marinho faz questão de destacar que no mesmo período arrumou muitas confusões por causa de pipa. O agravante era o uso indiscriminado de cerol. “Na adolescência, quando chegava dezembro eu acordava cedo pra ir ver se tinha passado ou reprovado na escola. Olhava, ficava triste e falava: “É doido! Nunca que fico sem tirar nota vermelha!”

“De lembrança, eu tô devagar, tio”

“De lembrança, eu tô devagar, tio. Lembro mais das mortes. Foi triste porque acordei e vi meu pai caído e morto”, narra. Mais tarde, perdeu o contato com a mãe, com quem morou pouco tempo após a perda do pai. Também residiu no Hotel Floresta, perto da rodoviária velha, com uma das irmãs. Apesar de hoje não ter muito contato com a família, Marinho tem boas lembranças. Se recorda de quando tinha seis anos e o irmão o levou para participar da Escola de Futsal São Lucas. “Foi doido, hein? Fiz gol no primeiro dia. Eu era ala esquerda, canhoto. Fiquei até os 13 anos, quando quis jogar campo”, explica e acrescenta que gostava de perturbar o técnico Gildo Tomé para deixá-lo jogar como titular quando viajavam para disputar campeonatos.

“Ah, Tio! Já trabalhei, mas não entendo de nada" (Foto: Amauri Martineli)

“Ah, tio! Já trabalhei, mas não entendo de nada” (Foto: Amauri Martineli)

Segundo Marinho, seus dribles eram dos mais “bobos”. Gostava de “dar chapéu”. “Só que ainda preferia o campo pra bater de ‘bicicleta’”, comenta enquanto gesticula. Na adolescência, ingressou no Paranavaí Atlético Clube (PAC) e jogou várias vezes no Estádio Municipal Waldemiro Wagner. Começou a se destacar na posição de meia-esquerda. Logo o bom desempenho garantiu escalação para os Jogos da Juventude. Em uma das edições, ajudou o time a chegar à semifinal. Com 19 anos, surgiu uma grande oportunidade. “Fui convidado a participar de um ‘peneirão’ para ir pro Santos, tio. Por azar, acabei eliminado”, lamenta.

Marinho lembra com satisfação da época em que se apresentou no palco do Teatro Municipal Dr. Altino Afonso Costa. “Eu era ‘arteiro’ no colégio, então eles me chamaram pra fazer teatro. Topei e fui lá assistir alguns ensaios. Foram loucas as peças. Gostei mesmo!”, garante Marinho que participava dos ensaios no Colégio Marins. Os encontros geralmente ocorriam à noite ou quando os alunos tinham aulas vagas. “Fizemos uma peça dirigida pela Lígia Oliveira que chamava ‘Que país é esse?’ Foi ‘massa!’”, enfatiza. De repente, Marinho não quis mais saber de teatro e abandonou as aulas.

“Agora não penso em trabalhar. Quem sabe, depois”

“Agora não penso em trabalhar. Quem sabe, depois. Já trabalhei como servente de pedreiro quando morava com meus avós. Só que parei. Tentei ser ajudante de pintor, mas o homem falou que eu não ia pra frente não. Cheguei a ir pra roça também. Daí odiei minha vida!”, diz o andarilho Mariosvaldo de Freitas Mazanares Souza Moura, o Marinho.

Quando atuava como servente, o rapaz gostava de transportar areia e lajota. Segundo ele, bater massa também era “da hora”. O que mais o animava era o fato de que podia pegar dinheiro todo dia. Convencido pelo irmão, Marinho tentou morar em Curitiba algumas vezes. A primeira tentativa foi aos 16 anos. “Quando eu chegava lá, ele sempre falava que eu precisava arrumar emprego. Eu respondia: ‘Mas pra que emprego, rapaz? Não quero trabalhar!’”, revela.

Um dia o irmão o convidou para ir a um restaurante. Chegando ao local, convenceu a proprietária a contratar Marinho como ajudante. Após 15 dias de trabalho, o rapaz pegou um vale e abandonou o serviço. Voltou para a casa do irmão, preparou a mala e foi direto para a rodoviária sem avisar ninguém. “Antes do ônibus partir, meu irmão entrou pra falar comigo. Expliquei que não iria ficar lá perdendo tempo. Queria voltar pra Paranavaí. Então ele só se despediu”, relata.

Quando encontram Marinho casualmente, os amigos dos tempos de infância e adolescência ainda tentam convencê-lo a sair da rua e procurar um emprego para mudar de vida. “Ah, tio! Já trabalhei, mas não entendo de nada. O negócio era estudar, mas perdi minha chance. Então sobrou só isso aqui pra mim”, declara. Nas ruas, Marinho está sempre correndo riscos, obrigado a lidar com os percalços de um estilo de vida subumano.

Já foi perseguido várias vezes, inclusive espancado. Quem mora nas ruas de Paranavaí precisa ter muito cuidado. Não há garantias de um novo amanhecer. “Há pouco tempo um cara que nem conheço gritou que bati na mãe dele. Eu disse que ele tava doido e corri pra dentro de um mercado. Chegando lá, falei: ‘Liga pra polícia pra nós aí, rapaz! Não sei qual é a daquele cara ali não, doido!”

O Velho do Saco que não assustava crianças

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A história de um andarilho que se sentia um fazendeiro mesmo morando dentro de um buraco

Seu Nelson ficou conhecido como o "Velho do Saco" a partir da década de 1980 (Foto: Amauri Martineli)

Seu Nelson ficou conhecido como o “Velho do Saco” a partir da década de 1980 (Foto: Amauri Martineli)

Ao longo de décadas, muitas crianças de Paranavaí, no Noroeste do Paraná, principalmente as que cresceram no Jardim Ouro Branco e em bairros próximos, ficavam intrigadas com a folclórica e enigmática figura de um andarilho. “Quando as crianças aprontavam alguma coisa, os pais diziam: ‘Olha, ali vem o Velho do Saco. Fica quieto senão vou mandar ele te levar”, conta o agricultor Arthur Justino da Silva que mora no Ouro Branco desde o início dos anos 1960.

Mas a verdade é que a fama do homem jamais refletiu a realidade. O “Velho do Saco”, como ficou mais conhecido a partir da década de 1980, se chamava Nelson. Era um senhor de 1,67m de altura e barba branca volumosa que se confundia com os cabelos igualmente alvos. Tinha uma postura inconfundível e um andar pausado e remansoso. Quando pegava algo do chão, surpreendia. Em vez de agachar, flexionava o corpo para a frente. Sem dobrar os joelhos, arqueava as costas e encostava as palmas das mãos no chão. “Chegava a dar inveja”, comenta o comerciante José Ferreira de Lima. De sobrenome desconhecido, assim como o número da casa onde viveu tantos anos na Rua Campo Largo, no Jardim Ouro Branco, o Velho do Saco era um sonhador vitimado por uma misteriosa desilusão.

“A casinha dele era normal, com água e energia elétrica. Tinha tudo. Lembro que antigamente ele vendia perfumes e usava uma roupa bem branquinha. Seguia naquela vidinha, lutando”, lembra José Ferreira que conheceu o “Seu Nelson” há mais de 30 anos, quando o vendedor tinha entre 45 e 50 anos. Também atuava como boticário, fabricando os perfumes que comercializava. De repente, desistiu de tudo e se tornou um andarilho. Começou a recolher papelão e outros materiais que jogava dentro de casa. “Só vendia latinhas e cobre. O restante, inclusive papelão e entulho, ele ia amontoando”, conta o pedreiro e vizinho Nélio Ramos Sabatini.

Aos poucos, a residência do Seu Nelson se tornou a morada do Velho do Saco. Sem água e energia elétrica, restando apenas uma casinha ofuscada por uma mata que cobria a fachada, o homem se transformou em outra pessoa. Anos mais tarde, quando o chão da casa abriu, formando uma cratera, Seu Nelson começou a viver dentro do buraco, cercado por toneladas de materiais, entre papelão, ferro e entulhos. No local, dividia o espaço com ratos, abelhas, escorpiões e outros animais. “Era tanta tranqueira que ele nem tinha mais onde guardar”, testemunha o aposentado Alcides Ramos Sabatini.

De vez em quando o Velho do Saco discutia com outro vizinho, sogro de José Ferreira. O motivo era quase sempre o mesmo. O andarilho queria que todos fossem embora do bairro, a sua “fazenda”. “Falava que tudo ali era dele, que a gente estava se apossando de seus bens”, relata o comerciante, acrescentando que apesar de tudo Seu Nelson sempre “fazia as pazes” com todos.

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O andarilho chamava a si mesmo de garimpeiro (Foto: Amauri Martineli)

Porém, em época de quaresma, os mais supersticiosos diziam que o Velho do Saco virava lobisomem, um mito que surgiu porque o andarilho chegava em casa muito tarde e passava horas no quintal antes de dormir. “Com o barulho, a cachorrada latia muito, então o povo espalhou essa besteira”, explica Alcides Sabatini.

Com um grande saco nas costas e outro sobre a cabeça, Seu Nelson, que tinha o hábito de comer carne crua, principalmente linguiça, circulava pelo Jardim Ouro Branco e evitava ir muito longe. Tinha uma mochilinha em que carregava pedras que recolhia das ruas. Chamava a si mesmo de garimpeiro, um desbravador que não se interessava mais em ir além da rotatória próxima ao Hospital Unimed, na Rua Luiz Spigolon. Quem sabe, porque Seu Nelson talvez acreditasse que sua “fazenda” terminasse naquele local.

Embora aceitasse comida apenas de José Ferreira, da mulher e cunhada do comerciante, o homem era visto com frequência nas imediações do Hipermercado Cidade Canção e da Praça dos Pioneiros, onde coletava e comia restos de lanches e salgados das lixeiras. Ocasionalmente, parava para descansar em bares e lanchonetes de conhecidos. “Ele passava um bom tempo aqui, mesmo sujo e com um odor bem forte. Sei que isso poderia afastar os clientes da minha lanchonete, mas nunca achei certo mandar ele ir embora”, pondera Ferreira que sempre guardava para o andarilho as latinhas descartadas pelos clientes.

O Velho do Saco também era um antigo freguês do comerciante Arthur Justino. “Ele começou a frequentar o meu bar em 1979. Estava sempre com dinheiro no bolso e pagava tudo certinho. Gostava de conversar. Era um homem com boa cultura”, avalia Justino. O problema era que às vezes exagerava na cachaça.

Um dia, Seu Nelson resistiu quando tentaram levá-lo para casa, achando que iriam matá-lo. O único que conseguiu se aproximar para carregá-lo foi José Ferreira. “Deu tudo certo. Chegando em casa, deitou e dormiu. Apesar disso, ele nunca atrapalhou ninguém. Muita gente gostava dele. Mesmo sem aposentadoria, jamais foi visto mendigando”, assegura Ferreira.

Após a morte do Velho do Saco, a casa foi demolida e todos os materiais foram recolhidos (Fotos: Nélio Sabatini)

Após a morte do Velho do Saco, a casa foi demolida e todos os materiais foram recolhidos (Fotos: Nélio Sabatini)

Na casa onde o andarilho vivia, um enorme pé de manga a cobria parcialmente. A cena que mais chamava a atenção dos vizinhos era a de alguns ratos subindo, comendo as frutas e descendo. Tudo indica que Seu Nelson tinha um mundo particular, distinto e alheio à realidade da maioria. “Uma vez, o homem ficou muito bravo e começou a me chamar de corno porque eu estava no meu quintal e sem querer o vi tomando banho pelado atrás de um pé de limão. Ele se lavava com duas garrafas pet cheias de água que pegava em um córrego. No lugar da bucha, esfregava o corpo com um pano velho e preto”, revela Alcides Sabatini às gargalhadas. O aposentado foi ignorado quando sugeriu ao Seu Nelson que seria mais cômodo se banhar no próprio córrego.

Nélio Sabatini perdeu as contas de quantas vezes o andarilho o chamou para lhe oferecer pedaços de restos de churrasco que encontrava na rua. “Ele falava assim: ‘Aqui ó, vim trazer pra você um pedaço dessa carne de lobisomem’. Eu aceitava. Nunca fiz desfeita. Só descartava quando ele ia embora’”, confidencia o vizinho. Quando preparava a comida em casa, Seu Nelson ajeitava uma pequena fogueira no quintal e cozinhava dentro de uma grande lata velha de ervilhas. Só entrava na casa para dormir. A maior parte do tempo era visto nas ruas ou no quintal. “Acho que quase não sobrou espaço pra ele lá dentro. Tinha muita coisa guardada”, assinala Nélio Sabatini.

A rotina do Velho do Saco só foi interrompida em 28 de dezembro de 2011. Na manhã daquele dia, Seu Nelson chegou à lanchonete de José Ferreira para conversar um pouco e beber pinga. Às 11h, partiu cambaleando. Mais tarde, preocupado, o comerciante pediu que um rapaz checasse o estado do andarilho. Era 14h e o Velho do Saco foi encontrado deitado, como se estivesse dormindo.

Às 15h, Nélio e Alcides foram verificar porque o homem continuava no quintal. Havia marcas de dedos na terra, de alguém que se esforçou para se levantar, mas não conseguiu e acabou desmaiando. “Fez um calor insuportável naquele dia e o sol bateu diretamente nele. Fizemos de tudo para acordá-lo e não conseguimos. Acho que não aguentou e teve um ataque cardíaco”, enfatiza Nélio Sabatini.

Intervenção dos vizinhos impediu que Seu Nelson fosse enterrado como indigente (Foto: David Arioch)

Intervenção dos vizinhos impediu que Seu Nelson fosse enterrado como indigente (Foto: David Arioch)

Às 18h, José Ferreira fechou a lanchonete quando a esposa o avisou que o Seu Nelson não acordava de jeito nenhum. Quando chegou lá, era tarde demais. Ninguém imaginava que aquele seria o último dia em que veriam o Velho do Saco com vida. Quem o conhecia ainda sente saudade da sua “mania de fazendeiro”, de seu olhar absorto e seus passos vagarosos e arrastados.

Como não apareceu nenhum familiar para sepultá-lo, o enterro do andarilho foi feito por vizinhos e conhecidos, pessoas que o estimavam. Também organizaram a limpeza da sede da sua fazenda imaginária, a casinha onde viveu por décadas. Do local, retiraram toneladas de materiais e entulhos armazenados desde os anos 1980. “Enchemos sete caminhões só de sujeira e coisas que não se aproveitava”, garante Nélio Sabatini. De luto, o comerciante José Ferreira decidiu nunca mais vender pinga, uma promessa mantida até hoje.

Saiba Mais

Na certidão de óbito consta que o nome do Velho do Saco era supostamente Nelson Francelino de Oliveira. Sem documento, descobriram no dia de sua morte que ele transportava um papel com dados pessoais registrados à caneta. O homem foi sepultado na Gaveta 35 do Conjunto F da Quadra 10 do Cemitério Municipal de Paranavaí.

Vizinhos relatam que o homem virou andarilho porque foi abandonado pela esposa. O Velho do Saco vivia sozinho, mas conhecidos acreditam que ele ainda tem familiares em Paranavaí.

Após o falecimento, a casa do Velho do Saco foi demolida e se tornou moradia de uma pessoa sem vínculo familiar com Seu Nelson.

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