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Cheiro de relva

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“Fazia ruídos insólitos, contorcendo a boca, enrugando a testa e esticando o pescoço”

"Bonachão, percorreu dois quilômetros a pé sem saber que jamais o deixariam partir (Foto: Acervo da Fundação Cultural de Paranavaí)

“Bonachão, percorreu dois quilômetros a pé sem saber que jamais o deixariam partir (Foto: Acervo da Fundação Cultural de Paranavaí)

Foi numa manhã fria e especialmente escura de 1949 que Nicanor acordou assustado e com dificuldades para se movimentar. Sentiu o cheiro de ferrugem do próprio sangue seco que cobria parte das maçãs do rosto e do queixo. O odor nauseante o entorpecia e o fazia lacrimejar a ponto do sangue espesso e sequioso se transformar em bolinhas que se chocavam contra o chão de terra batida. No solo arenoso, iam se juntando e formando uma orbe maior e opaca como uma esfera de terra que as crianças moldam para atirar por brincadeira em amigos e vizinhos.

Rouco, febril e com apenas um olho debilmente aberto, o rapaz não tinha forças para articular palavra sem balbuciar e sentir um tremor que começava nos calcanhares e terminava na nuca. Quando balançava as pernas em vão, sentia os dedos enegrecidos, de pele grossa, saltados para fora do par de sandálias brancas de farrapos. Tocava sem querer uma pasta fétida que se formava a partir de suas fezes, urina e sangue. Sofreu tanto nos últimos dias que desaprendeu a chorar. Fazia ruídos insólitos, contorcendo a boca, enrugando a testa e esticando o pescoço. Com a força que restara, se espicaçava tentando enxergar alguma coisa por uma fresta alongada e espaçosa. Nicanor cobiçava um pequeno raio de sol, mas a única visitante ocasional era uma rajada fortuita de vento glacial e lancinante que lhe tocava a pele com a delicadeza da lâmina de um canivete.

Às vezes, meneava a cabeça e mirava o teto com o nariz, observando os buracos por onde a água da chuva invadia o velho rancho que um dia serviu para estocagem de café. Apesar de tudo, via alguma beleza no acaso e se sentia grato. Se não fosse a invasão da natureza, completaria 23 dias sem sentir a água ungindo os lábios. Cada gota era sorvida com a satisfação de uma caneca robusta e referta. No entanto, o ânimo oscilava com as horas. Num início de noite sem chuva, somente o canto das cigarras e os guinchos agudos de uma coruja o acalmavam. O silêncio o amedrontava porque trazia o vácuo indescritível da inexistência e do luto daquilo que ainda não faleceu. Sim, espavorizava menos, bem menos que o som sincronizado das botas se aproximando da tapera escura. Com os ouvidos anômalos pelo desespero, Nicanor reconhecia de longe o tinido do facão de penacho em atrito com a parabélum balançando num coldre frouxo.

Nessas horas os seus olhos umedeciam bruscamente, concentrando nas bordas uma dor oxítona que fazia as lágrimas fervilharem. Consoante, o palato inflamava de maneira tão vertiginosa que o rapaz não conseguia manter a boca fechada, assim como a porta por onde quatro sujeitos de olhos abissais entravam sorrindo uma vez por dia. Sardônicos, sempre chegavam de surpresa. Batiam palmas e diziam as mesmas palavras: “Ô de casa, buona gente, tamu cheganu e tamu entranu!” Fechavam a porta com o cabo de um machado e testemunhavam a agonia de Nicanor como se estivessem diante de um festim.

No frequente esforço sobressaltado para evitar a incontinência urinária, o rapaz invariavelmente reconhecia a derrota. Ficava constrangido e, sentindo-se pior que um sevandija, defecava, sujando mais as pernas e os pés que raleavam o chão com o dorso e as unhas amarelecidas. A zombaria seguia intercalados golpes de vara de marmelo na porção interna das coxas arroxeadas. Quando Nicanor fechava os olhos e o seu queixo encostava no peito, um dos verdugos balançava a corrente que prendia seus pulsos cruzados e ensanguentados. Acordava assustado, titubeava e contraía alguns músculos, principalmente o esfíncter.

Esquecia até da roupa esfrangalhada que usava há mais de um mês, tempo suficiente para que colasse em seu corpo como segunda pele. Desejava a morte ao ouvir ao pé da orelha o som estalante de um pedaço de madeira em brasas. Só se tranquilizava ao ver o funesto sujeito careca, parrudo e de dentes escuros se afastando com o naco alaranjado. Enquanto Nicanor fenecia um pouco mais, os quatro algozes comiam broa de milho com manteiga e bebiam um mate tão quente que o vapor molhava as mãos flageladas do rapaz. Após o intervalo, os quatro se levantavam, retiravam seus relhos presos ao cinto da calça e iniciavam o açoite que se prolongava por mais de hora.

Em um esforço de reflexão tão dedicado que sentia algo se comprimindo dentro da caixa craniana, Nicanor se recordava apenas que um mês antes tinha explicado ao patrão, para quem trabalhava desde 1944 em uma propriedade rural de Paranavaí, que mudaria de serviço, abriria o próprio negócio na cidade. O homem então concordou e sugeriu que o rapaz fosse até um rancho no meio da mata no final da tarde para fazer o acerto de contas. Bonachão, percorreu dois quilômetros a pé sem saber que jamais o deixariam partir. Vencido por aflição incontrolável, gaguejava e suplicava a Deus que o tirasse dali; o permitisse sentir pelo menos mais uma vez o cheiro da relva molhada.

No fim da noite, Nicanor teve uma convulsão e desmaiou. Prostrado, com a pulsação fraca e principiando o fim, foi arrastado por dois quebra milho para fora da tapera como se fosse um pedaço de carniça. Arremessaram seu corpo nas cercanias de um ribeirão e correram, temendo pela própria vida, rememorando a antiga lenda do folclórico Tabaréu do Castiçal, sujeito místico conhecido por cobrar em dobro as mortes em dia de cerração. Na manhã seguinte, o jovem acordou assustado esfregando as mãos pelo corpo. Era difícil acreditar que continuava vivo e que parte dos ferimentos desapareceu, assim como as severas dores nas costas. Perplexo, olhou à sua volta e levou as mãos ao rosto livre do sangue ressequido. Rolou e chorou como uma criança redescobrindo o mundo ao aspirar intensamente o perfume da tenra relva orvalhada que envolveu seu corpo numa madrugada romanesca.

Curiosidades

Quebra milho era o termo usado para se referir aos jagunços e capangas dos anos 1940 e 1950 em Paranavaí

Dedico “Cheiro de relva” aos peões e colonos explorados e assassinados em Paranavaí nos tempos da colonização.

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O cotidiano do boia-fria

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Tio Zé: “Sou de outro tempo. A gente prefere sentir a cana nas mãos” (Foto: Daniella Rosário)

Falta pouco para as 6h, e no horizonte já é possível avistar os boias-frias descendo do ônibus em uma propriedade rural próxima a Paranacity, no Noroeste do Paraná. Há homens e mulheres das mais diversas faixas etárias.

Primeiro eles participam de uma aula de ginástica laboral, um momento do dia que inspira confraternização. Depois se dividem em turmas e caminham em direção ao eito do canavial. Os melhores no manejo do facão seguem na frente. Os outros vão atrás. Essa metodologia de trabalho foi criada para que os mais experientes abram caminho para os demais.

O tempo não dá trégua e os boias-frias trabalham em ritmo acelerado, tanto que por volta das 9h o chão já está forrado. “Ninguém pode perder tempo porque o tanto que a gente recebe no fim do mês depende da quantidade de cana cortada por dia”, explica o experiente cortador de cana Geraldo Soares dos Santos enquanto enxuga o suor da testa com a manga da camiseta. Geraldo ganha cerca de R$ 980 por mês. É apontado pelos outros boias-frias como um sujeito bom de facão.

Santos, assim como os demais colegas, não abre mão dos óculos de proteção durante o trabalho. O equipamento evita irritação nos olhos e também protege contra a fuligem. “É a única parte do rosto que não fica escura”, brinca o cortador de cana José Luiz do Prado que herdou o ofício dos avós e dos pais. No canavial, os homens estão sempre vestidos com calça e camiseta de manga longa.

Muitas mulheres cortam tanta cana quanto os homens (Foto: Daniella Rosário)

As mulheres também, mas usam saia por cima da calça. Muitas cortam tanta cana quanto os homens. Contudo, o que mais chama atenção no campo é a vaidade. A ala feminina faz questão de trabalhar com unhas e até rostos pintados. Batons e brincos são considerados essenciais. Questionadas se o sol não destoa a beleza, uma delas é enfática. “O chapéu ajuda a segurar a maquiagem. É nosso porto seguro”, declara a jovem Maria Fernanda Silvestre com um largo sorriso que destaca um suave batom rosáceo.

O trabalho é pesado, doloroso, mas pra quem já se acostumou com a atividade o tempo passa mais rápido com as cantorias e as piadas. As brincadeiras são constantes e quase sempre inofensivas. Às 10h, o motorista do ônibus aciona a buzina indicando que é a hora da boia. Todos, independente da localização, abrem suas bolsas e mochilas. Alguns parecem até ter ensaiado o movimento, tamanha é a sincronia.

Para alguns bóias-frias, o almoço é um momento solitário (Foto: Daniella Rosário)

Na marmita, o básico de sempre. O almoço é bem tranquilo, tanto que em alguns pontos se ouve o atrativo som de uma brisa repentina. Dependendo da localidade, alguns almoçam sozinhos, sentados sobre o cantil. Já outros, em duplas ou grupos. A solidariedade também chama atenção no canavial. Parte dos boias-frias sempre leva mais comida, no caso de algum colega continuar com fome. É uma atitude que corrobora o companheirismo no campo.

Terminado o almoço, o cantil vira travesseiro na hora da sesta. Mas nem todos cochilam. Alguns optam por fazer uma roda para conversar com os amigos e colegas de trabalho. “Prefiro ficar acordado porque senão depois fico indisposto”, justifica Geraldo Soares. Passado um curto período de descanso, a buzina toca de novo. Alguns cortadores logo desaparecem em meio ao canavial enquanto outros começam a amolar os facões.

José Pedro de Oliveira, conhecido como Tio Zé, é um dos que afiam a lâmina da ferramenta. O homem atua como boia-fria há mais de 45 anos. Hoje, com 64, admite que o vigor não é mais o mesmo. “A mente sempre resiste, mas o corpo não obedece, né?”, comenta em tom de resignação.

Enquanto observa e manipula o facão com as mãos cobertas de fuligem, Tio Zé rapidamente relembra fatos da juventude, momentos da época em que trabalhava nas lavouras de café. “Eu era muito forte, não tinha pra ninguém. Agora consigo apenas cortar o suficiente pra não perder o serviço”, revela o boia-fria de mãos completamente calejadas. Os cortadores mais jovens costumam usar luvas, algo que Tio Zé descarta. “Sou de outro tempo. A gente prefere sentir a cana nas mãos”, justifica com um sorriso tímido e um olhar disperso.

O serviço é pesado, doloroso, até pra quem apenas vê (Foto: Daniella Rosário)

Mesmo acostumados a elevadas temperaturas, no início da tarde o Sol afeta os boias-frias com muita intensidade. Para aguentarem a jornada de trabalho, recorrem a um isotônico conhecido como “sorinho”. O produto que tem consistência de suco artificial ajuda a evitar câimbras e desidratação.

O intervalo pra tomar o repositor energético é rápido. Mesmo sob o calor escaldante, seguem na lida. Para quem não está acostumado a se expor tanto aos raios solares, o calor chega às raias do insuportável. No meio da tarde, é comum sentir a pele queimando, mesmo usando camiseta de manga longa.

O corte de cana prossegue até as 16h30, quando os boias-frias ouvem novamente a buzina do caminhão e deixam o eito. Ao fundo, atrás da grande massa de trabalhadores, o canavial parece menor após mais um dia de trabalho. Todos recolhem seus pertences e rumam em direção ao ônibus. É hora de ir pra casa e passar o pouco que restou do dia com a família.

O trabalho no canavial vai até as 16h30 (Foto: Daniella Rosário)

Muitos dos boias-frias não demonstram tristeza pelo trabalho no campo, inclusive afirmam que, apesar da atividade braçal ser muito desgastante, é possível ganhar mais do que muitos que trabalham na área urbana.

“Quem trabalha em uma loja no centro da cidade não é capaz de deixar o emprego que tem pra trabalhar no campo, mesmo que o salário seja melhor. Isso acontece porque hoje em dia as pessoas têm tanta preguiça quanto vergonha do serviço rural. Se preocupam demais com a aparência”, desabafa o cortador de cana Jonas Cabral.

Ter como horizonte os limites que vão do cabo do facão até o toco da cana-de-açúcar não impede os boias-frias de almejarem um futuro melhor, se não para si, pelo menos às próximas gerações. “Todo mundo aqui tem filhos na escola. Nosso trabalho é digno, mas ninguém deseja ver sua criança tendo que pegar no pesado. Queremos que eles estudem e tenham uma vida melhor”, finaliza a cortadora de cana Paula Roberta dos Campos.

Curiosidade

Os boias-frias que cortam menos cana-de-açúcar são chamados de “borracheiros”. Já os bons de facão são conhecidos como “facãozeiros”.

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