David Arioch – Jornalismo Cultural

Jornalismo Cultural

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“A Vaca Deitada” de Van Gogh

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1883 – “A Vaca Deitada” não é uma pintura muito conhecida de Van Gogh, mas é uma das minhas preferidas, porque foi pintada depois que ele decidiu não consumir mais animais ao testemunhar o sofrimento dos bovinos nos matadouros franceses. Por isso, creio que ele transferiu para a obra a prospectiva inerente, de quem já via algo nos animais que o impedia de se alimentar deles.

Talvez “A Vaca Deitada”, com seu olhar espartano, e sob uma perspectiva consideravelmente diluída, tenha sido uma manifestação de Van Gogh em eternizar o instante de paz de um animal que provavelmente não viveria muito.

A crítica ao consumo de animais na escultura “O Comedor de Cadáveres”, de Paolo Troubetzkoy

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“Il Mangiatori di Cadaveri” é uma crítica ao consumo de animais

A escultura “Il Mangiatori di Cadaveri” ou “O Comedor de Cadáveres”, chamou bastante atenção na Exposição Internacional de Roma em 1913. Criada pelo artista italiano de origem russa Paolo Troubetzkoy, que era vegetariano, a obra é uma crítica ao consumo de animais. Quando começou a concebê-la, a proposta do escultor era mostrar a realidade e as consequências desse hábito, assim criando um cenário que revela a predominância do paladar, a indiferença, o destempero, a crueldade e a morte. Atualmente a escultura está resguardada no Museu Del Paessagio, na comuna italiana da Verbania, na região do Piemonte.

Troubetzkoy foi amigo do escritor russo Liev Tolstói, que o considerava um ser humano doce e inocente com grandes dons. A citação pode ser encontrada no livro “Tolstoy: A Life of My Father”, publicado em 1953 e em 1972, de Alexandra Tolstaya, filha de Tolstói. Quando o questionavam sobre o motivo dele não se alimentar de animais, Troubetzkoy respondia com parcimônia e voz tranquila: “Não posso me alimentar de cadáveres.” Em seu estúdio em São Petersburgo, ele produziu muitas obras captando a essência da importância da liberdade animal. O escritor George Bernard Shaw dizia que ele era um humanitarista extraordinário, incapaz de se alimentar de um animal.

O estilo de Troubetzkoy, marcado por intimismo e melancolia, deu origem a uma forma nervosa de impressionismo. Outras importantes personalidades de sua época e que viam uma qualidade rara em suas obras estavam o Barão de Rothschild, o conde Robert de Montesquiou, Gabriele D’Annunzio, Arturo Toscanini, Enrico Caruso e Giovanni Segantini.

O escultor lecionou na Academia Imperial de Belas Artes de Moscou e recebeu importantes prêmios – como o grande prêmio da Exposição de Paris em 1900. Além da Europa, suas obras também foram levadas para os Estados Unidos. “Como não posso matar, não posso autorizar os outros a matarem. Você entende? Se você compra [carne] de um açougueiro, você está autorizando a morte de animais – a morte de criaturas indefesas e inocentes, que nem eu nem você poderíamos matar”, declarou em entrevista registrada na página 22 da The Vegetarian Magazine em 1907.

Referências

Davis, Gail. Vegetarian Food for Thought. Página 69. New Sage Press (1999).

Tolstoy, Alexandra. “Tolstoy: A Life of My Father”. Octagon Books (1972).

The Vegetarian Magazine, Volume 11, página 22 (1907).

 





Roland Straller e a inversão de papéis entre animais humanos e não humanos

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Mulheres no lugar de vacas leiteiras, na perspectiva de Straller

Roland Straller é um artista vegano alemão que gosta de abordar a inversão de papéis na relação entre animais humanos e não humanos. Na série “Got Milk?”, ele convida os consumidores de leite a passarem um dia na pele das vacas leiteiras exploradas em regime industrial. Straller é satírico e suas obras de caráter quase sempre sepulcral destacam a perversidade semeada pela indiferença e pela legitimação de um caos que parece invisível aos olhos da maioria.





Written by David Arioch

August 26th, 2017 at 6:12 pm

Sue Coe e o retrato do sofrimento das porcas nas gaiolas de gestação

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Arte: Sue Coe

Gosto do trabalho da artista vegana inglesa Sue Coe. Ela produz uma arte lúcida, fidedigna, testemunhal e desconcertante. Em uma de suas obras, que faz parte do seu acervo na Graphic Witness, ela mostra porcas em gaiolas de gestação. O espaço é tão estreito que elas são incapazes de se moverem, realidade que ela testemunhou em fazendas industriais.





Written by David Arioch

August 15th, 2017 at 2:14 am

Sue Coe e o bezerro no matadouro

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Arte: Sue Coe

“Inside the Abattoir” é um incrível e realista desenho da artista britânica Sue Coe. O contraste do bezerro hesitante e assustado, e as figuras humanas indiferentes ao temor animal, acostumados com essa realidade em que a criatura bovina não simboliza nada mais do que um objeto.

E nas laterais, de um lado alguns bezerros sobressaltados observam com olhos intumescidos e suplicantes a insensibilidade humana. Do outro, bezerros assistem a inação do bezerro na pista. Os bezerros à esquerda estão mais imersos nas sombras, talvez pelo choque com a última grande desilusão representada pelo homem que se distrai com um cigarro na boca, ignorando tudo que está logo atrás dele.

As paredes brutas, o isolamento, o ambiente soturno que não revela o que existe mais adiante também parece representar o fato de que o animal é morto de forma traiçoeira, já que ele é impossibilitado de ver o que aconteceu com aqueles que seguiram antes dele pelo mesmo caminho.

 

 

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Erica Floyd e a exploração de animais na indústria de laticínios

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Arte: Erica Floyd

A artista vegana Erica Floyd desenhou a imagem de um ser humano bebendo leite do úbere da vaca e afastando o bezerro, que tem lágrimas em seus olhos porque foi privado do direito de mamar. A proposta da pintora é mostrar o que acontece quando consumimos laticínios, ou seja, quando damos suporte à exploração das vacas. Ao fundo, bezerros mortos e envoltos por manchas de sangue.





Written by David Arioch

July 22nd, 2017 at 12:53 am

“O Porco Abatido”, de Lovis Corinth

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“Geschlachtetes Schwein”, de Lovis Corinth

Um dos mais importantes nomes do impressionismo alemão, Lovis Corinth foi um dos primeiros artistas a registrar com um olhar humanizado a realidade dos animais mortos para consumo humano. Diversas de suas pinturas retratam o cotidiano dos matadouros, dos animais antes e após o abate.

Em “Geschlachtetes Schwein”, obra de 1906-1907, ele retratou a escuridão que permeia a morte de um porco recém-abatido. A única claridade é emanada do corpo do próprio animal. Ao seu redor parece restar apenas o vácuo da inexistência.





Hoje é aniversário do Tio Lu

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Tio Lu usa a arte como meio de afastar crianças e adolescentes das ruas, das drogas e do crime (Foto: David Arioch)

Hoje é aniversário do Tio Lu, da Oficina do Tio Lu. Fui até a Vila Alta dar um abraço nele e conversar um pouco. Ele está muito feliz de chegar aos 87 anos com pique para trabalhar e para ajudar a garotada do bairro. Tio Lu, que foi tema do meu documentário “Oficina do Tio Lú“, usa a arte como meio de afastar crianças e adolescentes das ruas, das drogas e do crime.

Written by David Arioch

June 2nd, 2017 at 12:33 am

Paolo Troubetzkoy: “Se você compra [carne], você está autorizando a morte de animais”

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“Como não posso matar, não posso autorizar os outros a matarem”

Alexandra Tolstói: “O meu pai gostava muito dele. Era um doce e inocente ser humano com grandes dons” (Foto: Getty Images)

Considerado pelo escritor irlandês George Bernard Shaw como o escultor mais surpreendente dos tempos modernos, o escultor italiano de origem russa Paolo Troubetzkoy conquistou muita fama na Rússia nas primeiras décadas do século 20. Influenciado pelas obras de Auguste Rodin e Medardo Rosso, Troubetzkoy criou esculturas que se tornaram mundialmente famosas, como do imperador Alexandre III da Rússia, do pintor Isaac Levitan, do escritor Liev Tolstói, da princesa M.N. Gagarina com sua filha Marina e da grande duquesa Elizabeth Feodorovna.

Assim como Tolstói e Elizabeth, o escultor e pintor italiano de origem russa também era vegetariano. “O meu pai gostava muito dele. Era um doce e inocente ser humano com grandes dons. Ele praticamente não lia nada, falava pouco e passou toda a sua vida envolvido com esculturas”, declarou Alexandra Tolstói, a filha caçula de Liev Tolstói, reproduzindo memórias que seu pai preservou da amizade com Troubetzkoy, para quem posou de bom grado na criação de várias esculturas em sua homenagem. A citação pode ser encontrada no livro “Tolstoy: A Life of My Father”, publicado em 1953 e em 1972.

Troubetzkoy: “Não posso me alimentar de cadáveres” (Foto: Getty Images)

Quando o questionavam sobre o motivo dele não se alimentar de animais, Troubetzkoy quase sempre respondia com uma voz tranquila e parcimônia peculiar: “Não posso me alimentar de cadáveres.” Em seu estúdio em São Petersburgo, ele produziu muitas obras inspiradas na vida selvagem. Inúmeras de suas esculturas foram criadas visando captar a essência da importância da liberdade animal.

O escritor George Bernard Shaw dizia que ele era um humanitarista extraordinário, incapaz de se alimentar de um animal. Sua contrariedade em relação à matança de animais era tão grande que, mesmo tímido, ele jamais deixou de se manifestar em relação a isso.

Talvez essa insatisfação também tenha influenciado o estilo de Troubetzkoy, marcado por um intimismo e melancolia que deram origem a uma forma nervosa de impressionismo. Além de Bernard Shaw e Tolstói, outros nomes importantes de sua época e que viam uma qualidade rara em suas obras estavam o Barão de Rothschild, o conde Robert de Montesquiou, Gabriele D’Annunzio, Arturo Toscanini, Enrico Caruso e Giovanni Segantini.

O escultor russo lecionou na Academia Imperial de Belas Artes de Moscou e recebeu importantes prêmios – como o grande prêmio da Exposição de Paris em 1900. Além da Europa, suas obras também foram levadas para os Estados Unidos. “Como não posso matar, não posso autorizar os outros a matarem. Você entende? Se você compra [carne] de um açougueiro, você está autorizando a morte de animais – a morte de criaturas indefesas e inocentes, que nem eu nem você poderíamos matar”, declarou em entrevista registrada na página 22 da The Vegetarian Magazine em 1907.

Saiba Mais

Paolo Troubetzkoy nasceu na comuna italiana da Verbania em 15 de fevereiro de 1866 e faleceu na comuna de Novara, também na Itália, em 12 de fevereiro de 1938.

Referências

The Vegetarian Magazine, Volume 11, página 22 (1907).

Davis, Gail. Vegetarian Food for Thought. Página 69. New Sage Press (1999).

IVU World Vegetarian Congress Souvenir Book. Warriors for Vegetarianism  (1957).

Tolstoy, Alexandra. “Tolstoy: A Life of My Father”. Octagon Books (1972).

 

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O triste fim da liberdade de Matias Ziatriko

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Foto: Samira Lemes

Fiquei sabendo agora que o malabarista uruguaio Matias Ziatriko, de 29 anos, foi assassinado com dez tiros em Ji-Paraná, Rondônia, no último dia 8, no pátio de um posto de combustíveis. Matias se envolveu em uma discussão com um rapaz que começou a ofendê-lo, chamá-lo de vagabundo, por causa do seu trabalho como artista de rua. Matias ficou um bom tempo em Paranavaí em 2016, e até onde sei, jamais foi agredido ou agrediu alguém. Lamentável saber que há lugares onde a vida vale menos ainda.

Triste como a liberdade de algumas pessoas, que não têm os objetivos comuns e tradicionalistas de tanta gente, é vista como uma afronta existencial. Desde criança, me identifico com os marginalizados, e acho tão ridículo quando as pessoas veem como sucesso apenas aquilo que lhes parece socialmente aceitável. E muitos adoecem cedo porque compram tal ideia; mesmo que isso signifique suprimir os próprios sonhos. O que vale nesta vida é ser fiel àquilo que faz a existência valer a pena. O resto o tempo arrasta sem clemência.

No dia 31 de agosto de 2016, escrevi algo sobre o Matias Ziatriko em meu blog, quando eu ainda não sabia o seu nome:

“Passei ontem à noite por um semáforo da Avenida Paraná e tinha uma fila imensa de carros. Sob chuva, um rapaz com a roupa toda molhada fazia malabarismo sobre um monociclo. Entendo que ele ame o que faz, mas provavelmente ele não estaria ali naquele momento se não precisasse.

O que me surpreendeu foi que só eu e outro cara demos alguns trocados pra ele. Será que todas aquelas pessoas não tinham pelo menos algumas moedas para darem ao artista de rua?

Sinceramente, minha situação nem sempre é das melhores, mas também não é tão ruim a ponto de eu perder completamente o ímpeto de ajudar alguém ou reconhecer o esforço dos outros.”

Ajuda

A família agora precisa de ajuda para enviar o corpo de Matias para o Uruguai. Quem puder contribuir, os dados para depósito ou transferência estão logo abaixo:

Banco Itaú
Titular: Samira Santos Lemes
CPF: 060.234.039-05
Agência: 1538
Conta Corrente: 56996-1

 

Written by David Arioch

April 11th, 2017 at 12:38 am