David Arioch – Jornalismo Cultural

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Um convite no semáforo

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Sem tempo de entender nada, senti uma luz esverdeada em minha direção

Sem tempo de entender nada, senti uma luz esverdeada em minha direção

Saindo do mercado, parei em um semáforo na Avenida Rio Grande do Norte. De repente, um sujeito encostou o seu carro bem próximo do meu. Havia bastante espaço, mas ele preferiu ficar bem perto de mim. Ok! Não me preocupei. Continuei ouvindo música.

Para minha surpresa, o rapaz começou a acelerar sucessivas vezes enquanto o sinal continuava vermelho. Ele estava me desafiando, me convidando para um racha. Como o vidro do meu carro tem uma película bem escura, à noite é quase impossível ver quem está dentro.

Então pensei que talvez fosse uma boa ideia abaixar o vidro e fazer um aceno de mão cordial, mas desinteressado. Assim que o vidro desceu, o sujeito pareceu amedrontado e se desculpou. Sem tempo de entender nada, senti uma luz esverdeada em minha direção – o sinal abriu. Segui meu caminho ouvindo “Sistem te laže”, do Beogradiski Sindikat. Pelo retrovisor, notei que o rapaz continuava no mesmo lugar.

Written by David Arioch

October 2nd, 2016 at 1:51 pm

Uma noite alucinante ou fuga de cães raivosos

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Escaparam pelo portão de uma casa e vieram correndo no meu encalço como duas crianças famintas

Percorri mais cem metros e notei um automóvel se aproximando vagarosamente na Rua Getúlio Vargas (Foto: David Arioch)

Percorri mais cem metros e notei um automóvel se aproximando vagarosamente na Rua Getúlio Vargas (Foto: David Arioch)

Houve uma época da minha vida em que eu caminhava todos os dias no mesmo horário, e não para me exercitar, mas somente para espairecer ou refletir. Andar diariamente 10 quilômetros ou até mais no final da tarde ou início da noite me ajudava a ter boas ideias e também a me desligar de tudo que não me interessava naquele momento. Em síntese, era uma excelente forma de manter o equilíbrio.

Na realidade, era imprescindível, já que eu passava muito tempo em frente ao computador produzindo textos e lendo. Então havia dois horários do dia que eram sagrados para me manter longe de qualquer máquina. De manhã, por volta das 5h50, quando eu ia à academia, e após às 17h ou 18h. Eu nunca carregava o telefone celular comigo, hábito que mantenho até hoje.

Conforme eu andava, tentava captar a boa essência ao meu redor, principalmente o aroma sinestésico e verdejante das árvores quando o calor arrebatador do dia partia com o poente. Um dia, saí de casa no início da noite. Desci a Rua John Kennedy até chegar à Avenida Parigot de Souza. Tudo parecia tão tranquilo, difícil crer que era uma segunda-feira. Continuei andando, observando os animais da vizinhança revirando sacolas enquanto os lixeiros não passavam para recolhê-las ao lado do meio-fio.

Mandriões, quatro gatos, não sei se por fome ou capricho, miavam ruidosamente com desejo de se aproximar dos sacos ocultados por três cães. Entendi. Era o dia preferido dos negligenciados, já que as sobras de comida do sábado e do domingo se acumulavam em tantas sacolas, criando um cheiro variegado e sui generis que as narinas dos famintos sorviam com o paroxismo de quem se vê pela primeira vez diante de um banquete etrusco.

Sensibilizado com a cena, chamei a atenção de dois cães e os afastei de uma das sacolas, entre as tantas que monopolizavam, permitindo que os gatos também vasculhassem seu tesouro em meio aos orgânicos detritos da glutonaria. Acredito que ficaram satisfeitos. Silenciaram, e segui meu caminho depois de vê-los com os bigodes sujos de contentamento.

Passei por um trecho da Avenida Paraná e segui em direção ao centro. Na Rua Getúlio Vargas, pessoas saíam do trabalho, embora quase todas as portas das lojas estivessem fechadas. O aspecto de cansaço no rosto de tanta gente a pé, sobre os bancos das motos e no interior dos carros dava mostras do quão intenso pode ser o limiar da semana.

Um ou outro ainda sorria, raros num mar de expressões macambúzias de desânimo. “Será que não gostam do que fazem da vida? Alguns parecem infelizes. Posso estar enganado também. Talvez seja apenas uma má impressão minha”, refleti. Então mirei o céu por entre os galhos e vi um céu ainda avermelhado envolvendo a lua tímida que pouco despontava, mal sendo notada.

A passos rápidos, subi um trecho da Getúlio Vargas e assisti dois homens maltrapilhos, talvez andarilhos ou mendigos, sentados no banco da praça da Igreja São Sebastião dividindo um pão francês e tomando uma bebida escura, provavelmente café, em copos descartáveis. A cada gole e mordida, os dois riam como se nada na vida valesse mais do que o momento, a paradoxal plenitude do efêmero.

Contavam piadas sem sentido um para o outro e gargalhavam como crianças, pressionando as mãos contra suas barrigas cobertas por camisetas em frangalhos. Dois carros pararam em frente à praça e os motoristas testemunharam com espavento a alegria dos dois marginalizados. “Do que esses doidos estão rindo? Que nada a ver, rir nessa situação. Deviam chorar”, talvez pensem alguns.

Percorri mais cem metros e notei um automóvel se aproximando vagarosamente. Um homem colocou a cabeça para fora e me chamou. Sem problema. Deveria ser alguém perdido por aquelas bandas. Não, não era. “Ô camarada, você gosta de se divertir?”, questionou o motorista. “Quê?” E ele repetiu a pergunta. “Olhe, eu e minha mulher, dê uma olhada nela aqui do meu lado, estamos a fim de umas aventuras. O que você acha de vir com a gente? Tudo no sigilo, temos local próprio e bem discreto.”

Agradeci o convite e falei que não tinha interesse. “Como não tem interesse na minha mulher? Olha aqui, cara! Isso não existe. Temos altas ferramentas aqui. Vambora que você não vai se arrepender”, falou o homem com a voz alterada, revelando um misto de nervosismo e raiva. De repente, o sujeito se virou em direção ao banco traseiro e retirou uma maça medieval de borracha, mas com um adorno de spikes que parecia muito real. No banco ao lado, a mulher apenas sorria, retocando o batom vermelho com uma das mãos e piscando para mim, sensualizando.

“Você tem cara de bad boy. E minha mulher só curte homem assim. Vem, cara! A gente paga!” Insisti, falei que não aceitava, que tinha namorada e andei a passos céleres, sem ter a mínima ideia do que aquele casal era capaz. Virei à esquerda e para piorar ainda ouvi o som do motor me acompanhando e a sombra de uma pessoa apontando em minha direção. “E se esse maluco sacar um revólver e atirar em minhas costas?”, aventei, rendido a uma criatividade que me assustava e entorpecia. Afinal, me tornei refém de um universo de possíveis impossibilidades.

“Seu viado filho da puta!”, foi a última frase que ouvi antes de sentir uma cálida rajada que repentinamente aqueceu meu corpo álgido. Consegui respirar melhor quando o carro desapareceu no horizonte do Jardim Paulista. Feliz por estar vivo, retomei a caminhada sentindo-me mais leve que o próprio vento que ocasionalmente massageava minhas orelhas.

Perto da antiga Escola Jean Piaget, na Rua Manoel Ribas, fui surpreendido novamente pelo acaso quando dois cães enormes e negros como a noite escaparam pelo portão de uma casa e vieram correndo no meu encalço como duas crianças famintas. Seus olhos amarelos rutilavam como vagalumes graúdos. Só tive tempo de saltar, pendurar e me equilibrar sobre a fragilizada grade da escola que por pouco não cedeu, o que me deixaria à mercê dos meus algozes.

Sem subestimar a astúcia animal, pulei sobre uma árvore no jardim da escola e fiquei observando eles por instantes, limpando minhas mãos repletas de vestígios de cal. Encolerizados, seus músculos se contraíam enquanto seus dentes afiados mal cabiam dentro da boca. A saliva dos dois caía grossa sobre a grama.

Me senti vitorioso, mas não zombei deles porque nunca sei o que o dia seguinte me reserva. Persistentes, mantinham as patas pressionadas contra a grade e os olhos fixos em mim. Eram fortes, ágeis e pouco inteligentes. Só precisei fingir que iria fugir pelo outro lado para despistá-los. Logo ficaram confusos e perderam seu ponto de referência – eu.

Corri até a Rua Chozo Kamitami e não vi mais eles. Um tremendo alívio que fez minhas pernas pararem de bambear. “Nada mais pode acontecer hoje. Acredito que atingi a minha cota”, achincalhei o meu próprio azar. Após restabelecer a serenidade, tudo parecia em harmonia quando ouvi cigarras cantando e corujas piando em meio aos pisca-piscas dos pirilampos.

“Agora é só prosseguir minha caminhada e curtir a noite”, ponderei absorvendo a amorável calmaria notívaga. Voltando para casa pela Avenida Rio Grande do Norte, mais uma vez fui parado por um carro. Um rapaz gritou um nome, vi que não era comigo e continuei andando. “É você, mano! É você! É você mesmo! Calmae, calmae!”, falou com malemolência.

Não o reconheci e pensei que fosse um bêbado querendo confusão ou jogar conversa fora. “Ué, Mafud! Vai tirar na cara dura? Vai dar de louco pra cima de mim, manon?”, replicou. Fiquei sem reação e depois declarei que ele me confundiu com outra pessoa. Em seguida, olhei atentamente e vi que em sua mão direita, parcialmente velada na altura da barriga, tinha um revólver de calibre 38.

“Conheço essa sua barba em qualquer lugar, manon. Tem erro não. Quero saber se tu tá metido nos esquemas da gravataria lá ainda ou se já deu linha. Conta pro seu manon aí!”, indagou. Não consegui pensar com clareza e de repente as luzes dos faróis de um segundo carro foram sinalizadas em nossa direção. Outro rapaz acenou com a mão através da janela, chamou a atenção do jovem que me abordou e gritou:

“Esse não é o Mafud, cara! Tá fazendo merda de novo. Simbora!” Antes de partir, ele sorriu, abriu a carteira e lançou cinco notas de R$ 100 em minha direção. “Mal aí, meu chapa! Esquece a parada que tudo segue de buena”, sugeriu. Fui embora e deixei um repentino vento sortido arrastar as notas para longe de mim. Com receio de novas abordagens, equívocos e confusões, respirei fundo e voltei para casa correndo, mergulhado em um turbilhão de pensamentos. Sem dar margem ao azar e ao acaso, sequer olhava para o lado, agulheado pela ferocidade do imponderado.

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Fafipa, a faculdade mais antiga do Noroeste do Paraná

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Nelson Akiyoshi: “Falavam que nossa cidade não tinha importância social nem estrutura para comportar uma faculdade”

Primeira sede da Fafipa, onde é o atual Senac (Foto: Selma Kozel Paupitz)

Primeira sede da Fafipa, onde é o atual Senac (Acervo: Selma Kozel Paupitz)

Em 1965, Nelson Akiyoshi era professor do Colégio Estadual de Paranavaí. Naquele tempo, Paranavaí tinha uma grande demanda de profissionais com formação superior. Então dentro do colégio surgiu uma discussão sobre a viabilidade de se fundar uma faculdade, a primeira do Noroeste do Paraná. “Nossa principal necessidade era formar professores, pois tínhamos poucos. O problema é que outros envolvidos aproveitaram a oportunidade para fazer propaganda política em cima dessa ideia, angariando votos”, contou Akiyoshi.

À época, o prefeito criou uma comissão com representantes do Núcleo Regional de Educação, além de autoridades de classe e magistrados. Segundo o professor, a preocupação maior do administrador municipal era mostrar que estavam se mobilizando. Em outro sentido, o presidente do Grêmio Estudantil do Colégio Estadual de Paranavaí, Ivo Cardoso, pediu para Nelson Akiyoshi assumir o trabalho da agremiação. “Fiquei como representante da criançada, dos alunos. Cada um tinha sua finalidade e aos poucos fomos afastando a comissão que criaram com intenção política”, explicou.

Os primeiros passos da Faculdade de Filosofia de Paranavaí

Preocupado, Akiyoshi começou a se aprofundar em estudos sobre implantação de instituições públicas de ensino superior. Algum tempo depois, acompanhado por alunos e professores, realizou uma viagem até Curitiba para conversar com a superintendente de ensino superior Maria de Lourdes Zanardini de Camargo. Entusiasmada com a ideia de uma faculdade em Paranavaí, a superintendente pediu que elaborassem um projeto detalhado e depois o encaminhassem a Curitiba.

Bem articulada, a equipe sob o comando de Nelson Akiyoshi preparou um projeto completo que incluiu levantamento socioeconômico de toda a região e declaração de autoridades públicas, inclusive do prefeito. “Foi um bom trabalho de base. Mandamos tudo para Curitiba e logo foi apreciado pelo Conselho Estadual de Educação. Era o primeiro passo para implantação da faculdade que começou municipal e se tornou estadual”, frisou.

Paranavaí tem uma das primeiras faculdades do interior do Paraná (Foto: Selma Kozel Paupitz)

Nelson Akiyoshi: “Políticos de Maringá foram até Curitiba reclamar de Paranavaí” (Foto: Reprodução)

Por problemas políticos e burocráticos, o Grêmio Estudantil e os professores engajados na conquista tiveram de recorrer a deputados estaduais e federais para agilizar o processo de instalação da instituição. “Vários abraçaram a causa porque entenderam como uma excelente oportunidade de conquistar mais eleitores”, declarou o professor.

Em 1966, apesar dos obstáculos, conseguiram a permissão para o funcionamento da Fundação Faculdade de Filosofia de Paranavaí que começou a operar com poucos professores de graduação superior. “Ficamos entusiasmados e contratamos mais docentes. O próximo passo foi a adequação dos professores. Incentivamos cada um a fazer especializações, cumprindo os quesitos legais para conseguirmos a certificação estadual. Foi muito trabalhoso, mas valeu a pena”, admitiu Akiyoshi.

“Maringá não gostou nem um pouco”

Paranavaí teve motivos para comemorar. Foi pioneira em ensino superior no Noroeste do Paraná, superando Maringá que apenas três anos depois conseguiu fundar a Universidade Estadual de Maringá (UEM). “Maringá não gostou nem um pouco. Autoridades políticas foram até Curitiba reclamar de Paranavaí. Falaram que a nossa cidade não tinha importância social nem estrutura para comportar uma faculdade”, confidenciou.

Akiyoshi: "Políticos de Maringá falaram que a nossa cidade não tinha importância social" (Fotos: Arquivo Pessoal)

Akiyoshi foi o maior responsável pela criação da Fafipa (Fotos: Arquivo Pessoal)

A qualidade do ensino norteou a instituição logo no início. O entusiasmo dos professores em lecionar estimulou os acadêmicos a se tornarem docentes. “Tivemos essa felicidade. Se você der uma olhada no quadro de professores vai ver que há muitos anos formamos profissionais para darem aula na Fafipa. Claro, eles fizeram pós-graduação, mestrado e doutorado fora, mas a base é aqui”, defendeu o professor Nelson. No começo, não foram poucos os profissionais contratados pela faculdade que deixaram outros estados e cidades.

Akiyoshi se recordou da professora Lucinda Michelon que saiu do Rio Grande do Sul para dar aula de história em Paranavaí, além de muitos professores vindos de Curitiba. Nos primeiros anos, a instituição oferecia os cursos de pedagogia, iniciação em ciência (curso válido para lecionar a alunos de primeira e quarta série do ensino fundamental), geografia, história e letras. Como havia grande procura de professores em toda a região, o aperfeiçoamento era obrigatório para se manter no mercado de trabalho. A instalação da faculdade também permitiu que muitos regularizassem a própria situação.

Os vestibulares mais exigentes

Os primeiros vestibulares da Fafipa estavam entre os mais exigentes do Paraná, tanto que poucos inscritos conseguiam a aprovação. A solução era realizar segunda chamada para preencher o número de vagas. Mas isso não acontecia por desinteresse dos estudantes. A verdade é que nos anos 1960 e início de 1970, muitos alunos eram chefes de família com graves problemas financeiros. “Eles recorriam a nós pedindo ajuda. E o mais incrível é que sempre davam um jeito de participar dos movimentos estudantis. Havia uma seriedade surpreendente, rara hoje em dia”, avaliou o ex-diretor da Fafipa.

Logo no início, faculdade já atraiu estudantes de mais de 50 cidades (Foto: Reprodução)

Logo no início, a faculdade já atraía estudantes de mais de 50 cidades (Foto: Reprodução)

A instituição passou por sérias dificuldades econômicas nos primeiros anos. Houve várias promessas de repasse de recursos do Governo do Paraná, mas nada foi concretizado. O único apoio recebido foi do poder público municipal. Para evitar que a faculdade fosse fechada, Nelson Akiyoshi sugeriu a criação de uma mensalidade a ser paga de acordo com as condições financeiras dos estudantes. A ideia foi colocada em prática e mesmo recebendo pouco, os professores entendiam a situação e se empenhavam em ajudar.

A primeira sede da Fafipa foi na Avenida Rio Grande do Norte, onde é hoje o Serviço Nacional de Aprendizagem Comercial (Senac). O prédio foi doado para a faculdade pela Câmara Municipal de Paranavaí. “Nosso compromisso era proporcionar educação. Bem diferente de uma instituição que visa lucro, fazíamos tudo com a intenção de evitar onerar os responsáveis pelo funcionamento da Fafipa e os estudantes”, ressaltou. Mais tarde, levando em conta as necessidades da região, a instituição foi atrás de novos cursos que contribuíram para transformar Paranavaí em um dos destinos preferidos dos estudantes do Norte do Paraná.

“Me afastei porque a Fafipa virou um trampolim político”

Nelson Akiyoshi lamentou que após algumas décadas a faculdade se tornou uma “sucursal” de outras universidades, recebendo poucos investimentos e tendo de se submeter a conflitos de interesses e jogos políticos. “Não começamos o nosso trabalho para tudo ser sucateado. Sofremos muito para que a Fafipa existisse. Depois a vimos perder o seu valor se comparada a tantas universidades bem mais jovens que se tornaram prioridade para o Governo do Paraná”, desabafou.

Sobre as dificuldades na implantação da faculdade, o professor citou as eleições de 1965, quando o prefeito José Vaz de Carvalho, comprometido em trabalhar para o candidato a governador Affonso Camargo Neto, mudou de lado e apoiou o adversário Paulo Pimentel. Já os professores e o Grêmio Estudantil seguiram a recomendação do governador Ney Braga e apoiaram Camargo Neto que prometeu agilizar a instalação da faculdade.

“O prefeito enganou o Ney Braga e nos deixou sozinhos, sem qualquer explicação. Pagamos o preço porque o Camargo Neto foi derrotado. Quando íamos até Curitiba pedir algo, o Paulo Pimentel se recusava a nos atender. Fazia aquele jogo de empurra”, reclamou. Independente dos problemas, os professores de Paranavaí perseveraram e em menos de um ano alcançaram o objetivo. Embora falasse a quem quisesse ouvir que a Fafipa o deixou muito orgulhoso e lhe trouxe algumas das melhores lembranças ao longo da vida, Nelson Akiyoshi nunca escondeu a mágoa de ver a faculdade transformada em uma instituição diferente da sonhada.

Professor Nelson: "Sofremos muito para que a Fafipa existisse" (Foto: Prefeitura de Paranavaí)

Professor Nelson: “Sofremos muito para que a Fafipa existisse” (Foto: Prefeitura de Paranavaí)

“Começamos a trabalhar com quatro turmas, uma de cada curso. Havia muito idealismo. Isso foi se acabando e me afastei porque a Fafipa virou um trampolim político. Sempre fui o que sou, dentista, então voltei pra minha profissão. Tinha largado tudo para me dedicar à faculdade”, enfatizou o professor que em 1966 teve que enfrentar uma pessoal crise financeira para se empenhar na conquista da permissão de funcionamento da instituição.

“Nelson Akiyoshi foi o maior batalhador da história da Fafipa”

Akiyoshi começou a lecionar porque gostava de trabalhar com adolescentes e jovens adultos. Se sentia realizado em uma sala de aula e envaidecido por mostrar o conhecimento que tinha para dividir com os alunos. “Eu desconhecia minha vocação como professor. Foi por uma casualidade que a descobri. Muitas vezes, passamos a vida sem saber que temos certos talentos”, salientou e disse que quando era professor de biologia se sentia mais jovem em contato com os estudantes.

O entusiasmo o animava tanto que sempre foi lembrado como um dos mais ativos líderes de grupos de estudantes e professores de Paranavaí. “Eu digo que o Nelson Akiyoshi foi o maior batalhador da história da Fafipa. Ninguém lutou tanto. Ele fez tudo acontecer com o trabalho de uma boa equipe formada por professores e alunos”, pontuou o comerciante Romeu Valmor Voida que ingressou na Fafipa em 1970 e se graduou em geografia.

Voida se conduziu pelo passado ao detalhar como era quando a instituição funcionava onde é o atual Senac. Segundo o comerciante, havia um prédio de “material” e outro de madeira com salas, biblioteca e diretório acadêmico. Na década de 1970, geografia, letras (inglês e francês) e pedagogia eram os cursos mais disputados. Pessoas de pelo menos 50 cidades do Paraná participavam do vestibular da Fafipa que oferecia também os cursos de estudos sociais e matemática.

Muitos chegavam sujos na sala de aula

Quando o professor Roberto Ferreira assumiu a diretoria, a instituição obteve o reconhecimento do governo federal. A carga horária mínima a ser cumprida era de 75%. A maior parte dos alunos evitava ao máximo faltar às faltas, mesmo que isso significasse chegar sujo à sala de aula. “Muita gente ia de kombi fretada pra faculdade. Não tinha asfalto e quando atolava tinha que descer e ajudar. Era lama pra todo lado e isso acontecia com frequência”, testemunhou Romeu Voida que se recorda dos contratempos enfrentados pelos muitos colegas de Porto Rico, Querência do Norte, Diamante do Norte, Itaguajé, Paranacity e outras cidades.

A Fafipa tinha fama de ser uma das melhores faculdades do interior do Paraná pelo alto nível dos professores, tanto que não havia reclamações quanto ao corpo docente. Voida decidiu cursar geografia quando retornou do exército e ingressou na empresa Transparaná. Foi convencido por quatro amigos que também se interessaram pelo curso. “Meu sonho era agronomia, mas era praticamente particular, não dava pra mim. Fui o último a entrar no grupo e o único a concluir geografia”, assinalou rindo.

Turma de geografia de 1973 se reúne a cada cinco anos

A turma de Voida já se reuniu várias vezes. Um dos eventos mais marcantes foi a festa de 25 anos após a conclusão do curso que contou com 33 dos 39 acadêmicos formados – 60% atuam na área. Depois realizaram o encontro de 30 anos com 22 ex-alunos. Houve uma queda no total de participantes porque vários faleceram. Alguns colegas de Romeu Valmor se tornaram prefeitos. Os exemplos são Cláudio Pauka em São João do Caiuá e Mário Miyamoto em Paranacity. Apesar de tudo, o grupo mantém o compromisso de se reunir a cada cinco anos.

Voida foi vice-presidente do diretório acadêmico em 1970. Nos anos subsequentes, assumiu como secretário, diretor e presidente. A responsabilidade da diretoria era lidar com os aspectos sociais da vida acadêmica. “Estávamos lá sempre que precisavam da gente. Organizamos muitas festas comemorativas. Quase tudo tinha nossa participação”, garantiu. Comparando passado e presente, o comerciante se queixou que na atualidade há muito individualismo entre os estudantes.

Para Romeu Valmor, a Fafipa só sobreviveu as adversidades graças ao empenho dos primeiros diretores e de muitos professores. “Foram profissionais excelentes, bem respeitados. Por isso a faculdade ainda está aí. As dificuldades existem sim e sempre vão existir, mas sempre cabe a diretoria correr atrás do que é melhor para a instituição, professores e alunos”, sugeriu.

Frase de Nelson Akiyoshi, primeiro diretor da Fafipa

“Hoje existe menos dedicação e menos compromisso. O aluno não sabe o que quer e larga um curso para fazer outro.”

Curiosidades

Antes da faculdade ser instalada na Avenida Rio Grande do Norte, atual Senac, o local já abrigava o Colégio Estadual de Paranavaí (CEP).

Em maio de 2013, a Fafipa completa 47 anos.

Observação do autor

Em 2006 tive a oportunidade de conversar por algumas horas com um dos principais fundadores da Faculdade Estadual de Educação, Ciências e Letras de Paranavaí (Fafipa), o ex-diretor, ex-vereador, professor e dentista Nelson Akiyoshi, falecido em 6 de julho de 2009, que desabafou e se emocionou ao relembrar os primeiros anos de funcionamento da faculdade. Infelizmente, perdi o arquivo da entrevista há alguns anos, mas o recuperei recentemente e o transformei nesta longa matéria. Outra importante e valiosa fonte sobre o assunto foi o comerciante Romeu Valmor Voida que ingressou na Fafipa em 1970.

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O primeiro cemitério de Paranavaí

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Cemitério abrigou vítimas de doenças, desastres e assassinatos

Primeiro cemitério surgiu no início dos anos 1940 (Acervo: Fundação Cultural)

O primeiro cemitério de Paranavaí, no Noroeste do Paraná, foi criado na Avenida Rio Grande do Norte, cruzamento com a Rua Minas Gerais, no início dos anos 1940. Lá, foram enterradas centenas de pessoas, principalmente vítimas de doenças, desastres e assassinatos.

Não se sabe ao certo em que ano surgiu o primeiro cemitério da Fazenda Brasileira, atual Paranavaí, mas pioneiros afirmam que foi no início da década de 1940. A ideia de construí-lo surgiu quando a Brasileira ainda não contava com assistência médica especializada. Á época, um homem contraiu varíola e faleceu pouco tempo depois. Como não havia cemitério em Paranavaí, o administrador geral da Colônia, Hugo Doubek, reuniu alguns homens e juntos transportaram o falecido até Londrina.

No dia, chovia sem parar e a estrada de chão só complicou a situação. A proximidade com a mata também dificultou o tráfego. “Se empurrou mais o caminhão do que se aproveitou dele”, disse Hugo Doubek. Quando chegaram a Londrina, foram até a delegacia explicar a situação para o delegado Achilles Pimpão, amigo do capitão Telmo Ribeiro.

Pimpão os repreendeu por levarem o morto até lá e ordenou que arrumassem um lugar para a construção do cemitério na Brasileira. Doubek então decidiu que a necrópole seria construída entre a Avenida Rio Grande do Norte e a Rua Minas Gerais, onde surgiu mais tarde a Seicho-No-Ie.. “O cemitério foi lá por muito tempo. Dali em diante era tudo mato, uma quiçaça só”, relatou o pioneiro paulista José Ferreira de Araújo, conhecido como Palhacinho, acrescentando que muita gente importante foi enterrada na necrópole.

As mortes mais comuns aconteciam quando os migrantes estavam na mata cortando árvores. Às vezes, não dava tempo dos trabalhadores desviarem dos troncos e morriam esmagados e soterrados. Doubek investigava cada fatalidade para se certificar de que realmente era acidente e não homicídio. “Caía muito pau em cima das pessoas. Muita gente também foi vítima de doença”, complementou Palhacinho. Havia muitas crianças enterradas no cemitério da Avenida Rio Grande do Norte, principalmente vítimas de tifo, pneumonia e doença de macaco.

Mortes aconteciam durante o corte de árvores imensas

“Morreram muitos macacos aqui, então a doença se alastrou. Tinha dia que morria até quatro crianças. Quem consolava as mães era o frei alemão Ulrico Goevert”, revelou o pioneiro paulista João da Silva Franco. Uma morte que chamou atenção nos anos 1940 foi a de um rapaz que quis se exibir. “Pegou um avião pequeno e ficou voando por cima da colônia, fazendo gracinha para a namorada. Ele se descuidou e caiu”, contou o pioneiro mineiro Enéias Tirapeli. Muita gente assistiu a tragédia.

Frei Ulrico Goevert consolava as mães que perdiam os filhos (Foto: Wilmar Santin)

Mortos de toda a região eram enterrados em Paranavaí

A grande fase do crime em Paranavaí começou em 1944 e foi até 1946, segundo o pioneiro catarinense Carlos Faber. “Muita gente morreu nesse período”, declarou. Por isso, não demorou muito para o cemitério ser ocupado por centenas de cadáveres. O pioneiro espanhol Thomaz Estrada chegou a ver até seis homicídios em apenas um dia em frente ao Hospital do Estado, atual Praça Dr. Sinval Reis, mais conhecida como Praça da Xícara. “Tinha que correr para não morrer”, comentou a pioneira fluminense Palmira Gonçalves Egger.

No cemitério da Rua Rio Grande do Norte não foram enterrados apenas moradores de Paranavaí, mas também de muitas glebas, povoados e vilas que não tinham necrópole. Perto do antigo Grupo Escolar, próximo ao local onde está a Praça da Xícara, havia um necrotério para onde enviavam os mortos da região.

“Quantas vezes nós vimos os caminhões chegarem lá carregados de cadáveres. Vinham da região de Nova Londrina e Areia Branca [atual São Pedro do Paraná e Porto São José]. Isso era normal”, afirmou o pioneiro mineiro José Antonio Gonçalves. Sobre o motivo das mortes, Gonçalves é enfático: “Alguns queriam glebas do tamanho da região. Não dava nem tempo de brigar. O que morria de gente aqui era incrível, uma barbaridade.”