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O mundo implacável de Berserk
Anime conta a história de Guts, um jovem guerreiro embrutecido pelos abusos vividos na infância

Guts (ao centro), um jovem órfão que foi encontrado próximo ao cadáver da mãe enforcada (Imagem: Reprodução)
Berserk é uma série de anime, de Naohito Takahashi, inspirada no mangá de Kentaro Miura, baseada no realismo extremo, que conta a história de Guts, um jovem órfão que foi encontrado próximo ao cadáver da mãe enforcada. Adotado por uma mulher que morre pouco tempo depois, a tutela do garoto é passada para Gambino, o líder de um grupo de mercenários. Ainda na infância, Guts é criado com estoico rigor, tanto que durante os treinamentos para se tornar um guerreiro implacável não lhe dão armas compatíveis com a sua estatura, e sim as mesmas usadas pelos adultos.
Curiosamente, mais tarde, as espadas de Guts tornam-se uma extensão do seu desenvolvimento como mercenário. Na fase adulta, ele começa a empunhar uma Dragon Slayer com uma lâmina de dois metros de altura. É como se a espada simbolizasse não apenas sua força, mas a própria existência que refletida na lâmina conduz a larga dimensão das suas agruras.

O anime se desenvolve e desmitifica a perspectiva de um mundo visceralmente maniqueísta (Imagem: Reprodução)
Ao se preparar para um mundo mergulhado em guerras, Guts, sem saber, é traído pelo pai adotivo que em troca de um punhado de moedas e favores o empresta a um mercenário que o violenta sexualmente. Mais tarde, por um infortúnio, o garoto mata Gambino sem querer, sendo perseguido pelo grupo de mercenários. Apesar disso, consegue escapar. Tempos depois, ainda muito jovem, mas com mais experiência, é forçado a entrar para o famigerado Bando dos Falcões, após ser derrotado pelo líder Griffith, o Falcão Branco.
A partir daí, o mavórcio Guts evolui muito mais, de soldado a comandante da Linha de Frente do Bando do Falcão – o exército mais forte da época, formado por defensores do milenar Reino de Midland, o mais antigo do velho continente. O anime se desenvolve e desmitifica a perspectiva de um mundo visceralmente maniqueísta. Na realidade, com o avanço dos episódios, Berserk se torna ainda mais hermético e figadal porque mostra com mais afluência que as trevas são diuturnamente rondadas pela luz e vice-versa.
O cenário sepulcral, que remete à França e Inglaterra da Baixa Idade Média, destaca com genialidade a barbárie e a intemperança dos tempos clássicos, quando o desejo de suplantar e destruir só poderia ser ofuscado por sentimentos nobres como companheirismo, amizade e amor. É, de fato, um anime de gente grande, que apresenta as falhas humanas a partir de um mundo cabalístico e sombrio, onde a cor predominante é o vermelho, símbolo do derramamento de sangue. Em Berserk, o espectador é convidado a conhecer um universo que conduz vida e morte numa proporção desigual, mas crítica e reflexiva, porque basicamente imita a vida, seja na literalidade do período clássico ou nas suas alegorias sobre o homem da hipermodernidade.
Curiosidade
O anime foi criado em 1997 e o mangá em 1989.
Um exército de perdedores
L’armata Brancaleone, uma crítica bem humorada de valores como honra e bravura na Idade Média
Lançado no Brasil como O Incrível Exército de Brancaleone, L’armata Brancaleone é uma obra-prima de Mario Monicelli, expoente da commedia all’italiana. O filme se passa na Baixa Idade Média, durante a crise do feudalismo, e faz uma crítica bem-humorada de valores como honra e bravura.
Em 1966, L’armata Brancaleone entrou para a história do cinema mundial como a primeira película a satirizar o que está registrado em livros e filmes sobre a Idade Média. A obra, uma paródia de Dom Quixote de La Mancha, de Miguel de Cervantes, apresenta um grupo de maltrapilhos que mata um cavaleiro para roubar o documento que lhe garante a posse de um feudo em Aurocastro.
Como nenhum dos bandidos tem o perfil adequado para substituir o herdeiro da propriedade, convidam o devoluto cavaleiro Brancaleone da Norcia (Vittorio Gassman) para se juntar a eles. De uma estupidez surreal, mas ambicioso, o homem em nada personifica um guerreiro polivalente, muito pelo contrário. Brancaleone é um anti-herói falacioso que golpeia árvores e gosta de se impor mantendo-se ereto sobre um pangaré ocioso e arredio chamado Aquilante.
O personagem não defende nenhum ideal, mas sonha em adquirir fortuna, nem que seja de forma ilícita, para custear excessos com bebidas e mulheres. É dotado de um niilismo de ocasião e um pragmatismo que oscila conforme o seu humor e boa vontade. Brancaleone não se importa em desafiar os fracos e fugir dos fortes. É o real “cavaleiro” que ganhou qualidades ficcionais na história oficial e teve as verdadeiras características ocultadas.
Além disso, os companheiros do protagonista são muito atrapalhados. Juntos, formam um exército de rejeitados, composto por um obeso, um lunático, uma criança, um velho judeu e um falso líder. Em situações críticas, Brancaleone deixa as decisões a critério do personagem menos lúcido. A desordem é acumulativa e passa por uma gradação enquanto o grupo percorre a Europa em um dos momentos mais obscuros da História.
A antiepopeia, pautada no período em que o trinômio guerra, peste e fome se torna o estopim da decadência do feudalismo e emergência do capitalismo, enaltece o feio a partir da estrutura cenográfica, fisionomia e traje dos personagens. O valor caricato da tragédia se estende à crença no messianismo. Exemplo é a clássica cena em que um padre, comandando peregrinos em viagem à Terra Santa, cai de uma ponte e morre.
Os fiéis se dispersam, dando a impressão de que com a morte da autoridade religiosa se esvai a fé. Monicelli ainda apresenta interpretações particulares da queda do Império Bizantino e invasão muçulmana na Europa. Também é inesquecível a música de abertura do filme, do compositor Carlo Rustichelli que ao longo da vida compôs para mais de 250 filmes, tornando-se um dos nomes mais célebres da Itália quando o assunto é trilha sonora.




