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“Nunca vou cortar com ela não!”

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Kengo Toyokawa fala sobre a estranheza dos homens de Paranavaí ao ver uma mulher barbeira em 1949

Barbearia funcionava junto ao Bar São Paulo (Acervo: Família Toyokawa)

Barbearia funcionava junto ao Bar São Paulo (Acervo: Família Toyokawa)

Em 1949, na barrenta Rua Manoel Ribas, no Centro de Paranavaí, no Noroeste do Paraná, por onde trafegavam muitas carroças, não tinha quem não olhasse uma senhora no interior de um salão de duas portas, contíguo ao Bar São Paulo, aparando barba ou cortando os cabelos de algum cliente. “Mas, rapaz, mulher cortando cabelo de homem? Nunca vou cortar com ela não!”, diziam copiosamente os mais conservadores.

A cena rendia muita conversa. Um curioso chamava o outro e quando menos se esperava havia muita gente em frente ao salão discutindo sobre o assunto. “Essa mulher era minha avó, a dona da barbearia que se tornou a mais famosa da região. Naqueles primeiros anos, muita gente não aceitava e agia com preconceito”, diz o comerciante Kengo Toyokawa, proprietário do famoso bar homônimo.

Outros não se importavam, apenas ignoravam a conversa na entrada enquanto esperavam a vez de receber uma toalhinha confortável, quente e cheirosa que amaciava a pele do rosto. O corte de barba ou cabelo era sempre metódico e como diferencial privilegiava os detalhes. As técnicas seguiam os preceitos da tradição japonesa.

Mas a maioria da população masculina de Paranavaí, no Noroeste Paranaense, acostumada a ser freguês de homens, estranhava os cuidados daquela mulher habilidosa de mãos leves e finas que além disso era uma boa administradora. “No começo foi esquisito, mas depois me acostumei. Quando saía de lá alguém sempre perguntava como foi e se valia a pena. Eu explicava que ela comandava o salão. Aí que o povo estranhava ainda mais: ‘Ué, será, mas a muié memo?’”, lembra o pioneiro João Mariano sem velar o sorriso.

A barbearia da avó de Kengo surpreendia também pela rapidez no atendimento. A equipe era formada por cinco profissionais. “Você pode me apontar uma barbearia hoje que tenha cinco barbeiros? É raridade!”, destaca o comerciante, acrescentando que o interesse por trabalhar no comércio surgiu com os avós.

Aos poucos, a fama da barbearia aumentou e em finais de semana muitos trabalhadores do campo, desde colonos até peões que atuavam na mata, vinham a Paranavaí de charrete. Percorriam quilômetros para cortar cabelo e barba no salão ao lado do popular Bar São Paulo que tinha três portas e também pertencia aos Toyokawa. “A boa fama foi longe”, resume Kengo Toyokawa.

Antes de se mudar para Paranavaí, a família trabalhou um bom tempo nas lavouras de café, pelo menos até conseguir guardar um pouco de dinheiro. “Antes meus avós e meus pais moraram em Guaritá [atual Nova Aliança do Ivaí]. O mais curioso é que depois decidiram investir no comércio sem saber falar português”, relata Toyokawa.

A princípio, foi bem complicado, mas a persistência e a vontade de garantir um bom futuro fez os avós de Kengo superarem até mesmo a barreira do idioma. “No começo, eles negociavam tudo por gestos, uma comunicação universal. Depois aprenderam a falar bom dia e outras frases básicas. As coisas foram se ajeitando”, enfatiza.

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Onde estão os artistas da navalha?

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Barbeiros resistem, alentados por quem encara o ato de se barbear como um ritual

Barbeiro cochila em meio a um universo que evoca outros tempos

Barbeiro cochila em meio a um universo que evoca outros tempos

Em Paranavaí, no Noroeste do Paraná, o auge das barbearias foi entre os anos de 1969 e 1975, quando era quase impossível atender a demanda. Já nos últimos vinte anos, a modernidade tirou do barbeiro a importância junto à população. Mas há quem resista, estimulado por clientes que veem no ato doméstico de “fazer a barba” um fragmento de solidão.

Para as gerações mais jovens, o ato de se barbear geralmente é assimilado a imagem de alguém sozinho, em frente ao espelho, segurando um barbeador descartável. “Acho que fazer a barba é bem chato, mas necessário. A pele parece mais clara, limpa e jovial. Ainda bem que não preciso de mais do que cinco minutos pra fazer isso”, diz o estudante Gabriel Maia, 21.

O universitário, que nunca se barbeou com uma navalha, mantém dentro de uma gaveta no centro do quarto, uma pequena coleção de barbeadores de design arrojado, multicoloridos e cada um com três lâminas. Maia é um retrato da juventude que visa praticidade.

No início da década de 1980, antes do nascimento de Gabriel, mais da metade das barbearias de Paranavaí já tinham desaparecido, o que justifica o fato do estudante resumir a função do barbeiro a de personagem de uma cultura obsoleta. “Quando passo em frente a uma barbearia, me surpreendo porque logo penso que é uma coisa de um tempo muito antigo”, comenta o universitário.

Maia teve a oportunidade de ver uma barbearia, onde um senhor ainda mantém a mesma fachada e decoração de quarenta anos atrás, o que o surpreendeu. “Achei que isso não existisse mais”, comenta. Já o comerciante Luiz Chemin, adepto de barbearias desde a adolescência, diz ser irrelevante a praticidade trazida com a modernidade. Chemin é de uma geração que prefere o calor humano irradiado pelas barbearias em vez do solitário banheiro de casa. Além disso, não troca a tradicional navalha por lâminas descartáveis.

O comerciante considera o barbeiro um artista da navalha. “O trabalho dele não é apenas deslizar uma lâmina. Ele está sempre atento aos detalhes, as falhas que cada um tem no rosto ou na barba. Leva em conta até mesmo o clima e o tipo de pele da pessoa. É um profissional que merece ser mais valorizado”, afirma.

Chemin utiliza os serviços do barbeiro Irineu Pantarotto pelo menos uma vez por semana, às vezes duas. O contato é tão frequente que surgiu um vínculo quase familiar. “Quando não apareço aqui na barbearia é porque viajei. Logo que retorno, ele diz que estava preocupado, pensando que aconteceu alguma coisa comigo”, confidencia o comerciante sorrindo.

Irineu Pantarotto, que se tornou barbeiro há 45 anos, é tomado por um sentimento de nostalgia ao se recordar da Paranavaí de 1969, ano em que não era difícil encontrar um barbeiro em cada esquina. “O fluxo de pessoas era tão grande que mesmo com tantas barbearias havia filas de espera. Tínhamos de pedir ao freguês pra voltar no dia seguinte. Foi assim até 1975”, frisa, referindo-se a um tempo em que o barbeiro também desempenhava papel de confidente e conselheiro.

Divulgação era feita boca a boca

A formação de barbeiro, Irineu Pantarotto adquiriu praticando em um sítio nas imediações de Santa Cruz do Monte Castelo, no Noroeste do Paraná. “A gente vivia lá e comecei a cortar cabelo e fazer a barba do meu irmão, primos, tios e avô”, narra. Pouco tempo depois, se mudou para Paranavaí, onde abriu o primeiro salão. À época, não tinha dinheiro para fazer qualquer tipo de publicidade, então saiu pelas ruas avisando todos os conhecidos. “Quem aparecia uma vez sempre voltava e também trazia amigos. Conquistei clientes aos poucos, mas logo aprendi a trabalhar bem”, salienta.

De acordo com Pantarotto, houve uma época em que receio do vírus da AIDS contribuiu para reduzir o número de fregueses. “É tolice pensar que aqui se contrai alguma doença. O procedimento é o mesmo em uma clínica; esterilizo tudo”, assegura. Mesmo não sendo procurado por tantos clientes quanto nas décadas anteriores, o barbeiro destaca que vale a pena manter a barbearia aberta. “Tive muitos amigos que desistiram, só que eu prefiro continuar. Fiz inúmeras amizades valiosas”, reitera.

O trabalho de Pantarotto também é reconhecido pelos cabeleireiros locais, que em alguns casos recomendam o barbeiro para os clientes. “Tenho amigos do ramo que não fazem barba, então mandam o camarada pra cá”, justifica.

Written by David Arioch

March 21st, 2009 at 12:38 am