David Arioch – Jornalismo Cultural

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A poesia existencial de uma senhora de 84 anos

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Hoje, assisti um pequeno vídeo sobre uma senhora de 84 anos que nunca saiu do vilarejo onde nasceu. Ela transmite alegria, o que pode ser transitória ou não, satisfação e simplicidade, mas mais do que isso – equilíbrio, lucidez e harmonia.

Acredito que ela ama a vida porque encontrou a si mesma há muito tempo, e desde então não se deixou se perder. Achei bonito e poético, porque há tantas pessoas perdidas, que incessantemente buscam a si mesmas em lugares longínquos, num esforço sobressaltado para encontrar o que reside dentro delas.

Written by David Arioch

December 29th, 2016 at 11:51 pm

O belo nunca vai ser simplesmente belo

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"Joven Beduina", de Luis Ricardo Falero (Pintura de 1891)

“Joven Beduina”, de Luis Ricardo Falero, de 1891

O belo nunca vai ser simplesmente belo porque a beleza é uma forma completa de cognição, não apenas uma palavra vazia atribuída de um valor físico que reflete, partindo do senso comum, a jovialidade humana suscetível ao definhamento.

A beleza ou preservação dela envolve fatores de atração e abstração. É no belo também que desde sempre o homem se inspira para criar mitos e lendas que se perpetuam no imaginário das pessoas.

Acreditar na beleza como superficial é uma perspectiva canhestra ou equivocada. Quantas obras de arte, das mais diversas ramificações, foram produzidas inspiradas no que a beleza humana é capaz de despertar? Sem contar com a elevação à posteridade…

Antes de morrer, em 7 de outubro de 1849, o escritor Edgar Allan Poe escreveu que beleza de qualquer tipo, em seu desenvolvimento supremo, invariavelmente excita a alma sensível às lágrimas, o que justifica por que o belo surpreende sem ser tipificado.

Written by David Arioch

December 4th, 2016 at 4:24 pm

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Beleza na finitude singela

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Por mais que tenhamos receio do fim, admito ver beleza na finitude singela de quem chegou a um ponto da vida em que vaidade, ganância e antagonismo tornaram-se palavras vazias porque já não representavam mais nada.

Written by David Arioch

December 4th, 2016 at 4:12 pm

Posted in Autoral,Reflexões

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Earthlings, o que os olhos veem e o coração precisa sentir

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Documentário mostra a realidade nua e crua por trás da produção de carnes, laticínios, roupas e calçados

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Documentário é narrado pelo ator e vegano Joaquin Phoenix (Foto: Divulgação)

Lançado em 2005, Earthlings – Make the Connection (Terráqueos – Faça a Conexão) é um documentário escrito, dirigido e produzido pelo ambientalista estadunidense Shaun Monson que mostra até que ponto a humanidade chegou em relação aos maus-tratos de animais.

Pesado e chocante, o filme apresenta a realidade nua e crua por trás da produção de carnes, laticínios, roupas e calçados. Também traz informações e imagens impactantes sobre espécies usadas como entretenimento ou cobaias em laboratórios farmacêuticos e da indústria da beleza.

Do início ao fim, o documentário, baseado em uma grande compilação de imagens de dezenas de autores, é narrado pelo ator hollywoodiano e vegano Joaquin Phoenix, o que ajudou muito na popularização do filme, assim como a trilha sonora assinada pelo compositor Moby, também vegano.

Logo nos primeiros minutos é difícil não se sentir mal com as cenas exibidas, e o que parece prestes a acabar, na verdade está apenas começando. E não é difícil entender qual é o propósito de Monson ao gerar esse mal-estar nos espectadores. É uma reação naturalmente saudável e esperada. Afinal, estranho seria se assistíssemos ao filme e não nos permitíssemos sentir empatia por tantos animais explorados e violentados.

E o sentimento vai ao encontro de uma frase muito bem colocada por Joaquin Phoenix em Earthlings: “Se todos tivessem que matar os animais com as próprias mãos para consumir carne, provavelmente muito mais pessoas se tornariam vegetarianas.” Então como isso é impossível de acontecer, o autor optou por chocar de outra forma, nos convidando a conhecer esse universo como cúmplices, responsáveis em maior ou menor grau pela existência de um mercado baseado na exploração e extermínio de terráqueos não humanos.

Earthlings é visceral? Com certeza! E levando isso em conta alguém pode alegar que as imagens do filme não representam a realidade de todos os animais. Sim, é uma justificativa a se considerar, já que o tratamento oscila de acordo com objetivos, consumidor final, recursos e preceitos morais e éticos.

Earthlings foi escrito, dirigido e produzido pelo ativista Shaun Monson (Foto: Peta)

Earthlings foi escrito, dirigido e produzido pelo ativista Shaun Monson (Foto: Peta)

No entanto, nada altera o fato de que independente de cidade, estado ou país, estamos sempre diante de animais relegados a uma vida breve ou longa de servidão. Sem dúvida, são seres que mais cedo ou mais tarde vão morrer, claro, assim que servirem a um propósito que não foi escolhido por eles.

É provável que muita gente não acredite que faça parte do processo que envolve a indústria da exploração animal, porém não há como negar que se gostamos de cães e gatos, por exemplo, mas consumimos produtos de origem animal, somos negligentes e ilógicos porque temos uma conduta assentada no especismo, uma crença de viés cultural que cria a falsa ilusão de que somos justos mesmo quando não somos.

Nos baseamos na ilusão de que somos superiores, logo melhores, e todos os demais seres da natureza existem apenas para satisfazer nossas pretensas necessidades. É exatamente nisso que subsiste o argumento do documentário. Em Earthlings, presenciamos inclusive a perda da identidade dos animais. Quando confinados por longos períodos, eles enlouquecem e já não se reconhecem mais como semelhantes.

Exemplos são os porquinhos que praticam canibalismo após longos períodos de cárcere. O documentário se esforça para privilegiar a diversidade, e por isso aborda desde a realidade dos animais domésticos em situação de abandono, vítimas de eutanásia e outros tipos de execuções que visam conter as superpopulações, até golfinhos brutalmente assassinados para que os japoneses possam comercializar sua carne como “carne de baleia”.

Trilha sonora foi assinada pelo também vegano Moby (Foto: Reprodução)

Trilha sonora foi assinada pelo também vegano Moby (Foto: Reprodução)

E se a violência contra os animais se perpetua é porque infelizmente ainda há muitos consumidores que pouco se importam com a procedência e o custo real, para além do dinheiro, daquilo que consomem. “Enquanto houver matadouros, haverá campos de guerra”, escreveu Liev Tolstói, como bem citado em Earthlings, em referência ao infame anseio humano de estar sempre suplantando algo ou alguém – o que ainda pouco aprendemos a controlar.

“Nós chegamos como senhores da Terra, com estranhos poderes de terror e misericórdia. O ser humano devia amar os animais como o experiente ama o inocente, e como o forte ama o vulnerável. E quando somos tocados pelo sofrimento dos animais, aquele sentimento fala bem de nós, mesmo se o ignoramos. E aqueles que dispensam o amor pelas outras criaturas, como o puro sentimentalismo, ignoram uma parte importante e boa da humanidade. Mas nenhum humano vai perder nada ao ser gentil com um animal. E, na verdade, faz parte de nosso propósito dar-lhes uma vida feliz e longa. Na floresta, o Rei Lear pergunta a Gloster: ‘Como você vê o mundo?’ E Gloster, que é cego, responde: ‘Vejo-o porque o sinto.’”, narra Joaquin Phoenix, parafraseando “Rei Lear”, de Shakespeare, no final de Earthlings.

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A beleza é superficial?

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Arte hiperrealista da escultora estadunidense Carole A. Feuerman (Foto: Divulgação)

Arte hiper-realista da escultora estadunidense Carole A. Feuerman (Foto: Divulgação)

Beleza é algo tão superficial que despertou a atenção de Hegel, Kant, Nietzsche, Heidegger, Baumgarten, Hogarth, Hutcheson, Deleuze, Artistóteles, Sócrates, Platão, Plotino e uma lista infindável de pensadores e literatos. Há milhares de anos, o belo fascina o homem, o motiva e faz com que ele busque interpretar suas atitudes, emoções e sentimentos despertados pela beleza.

São muitas as condições e situações que impelem o ser humano a superar seus limites numa construção pessoal do belo, na busca por uma condição harmoniosa. Ainda assim, sempre vai ter gente dizendo que beleza é superficial. A estética está aí pra provar o contrário, desde os tempos antigos da Mesopotâmia, Egito, Pérsia, Grécia, China, Roma, Índia e Escandinávia.

O belo nunca vai ser simplesmente belo porque a beleza é uma forma completa de cognição, não apenas uma palavra vazia atribuída de um valor físico que reflete, partindo do senso comum, a jovialidade humana suscetível ao definhamento.

A beleza ou preservação dela envolve fatores de atração e abstração. É no belo também que desde sempre o homem se inspira para criar mitos e lendas que se perpetuam no imaginário das pessoas. Acreditar na beleza como superficial é uma perspectiva canhestra ou equivocada. Quantas obras de arte, das mais diversas ramificações, foram produzidas inspiradas no que a beleza humana é capaz de despertar? Sem contar com a elevação à posteridade…

Antes de morrer, em 7 de outubro de 1849, o escritor Edgar Allan Poe escreveu que beleza de qualquer tipo, em seu desenvolvimento supremo, invariavelmente excita a alma sensível às lágrimas, o que justifica por que o belo surpreende sem ser tipificado.

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Written by David Arioch

January 29th, 2016 at 11:56 pm

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As mais belas cavernas do mundo

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Stephen Alvarez é especialista em fotografar cavernas

Stephen Alvarez começou a fotografar cavernas em 1991

Imagem do fotojornalista estadunidense Stephen Alvarez, da National Geographic. Ele acompanhou o trabalho do explorador Kent Ballew em algumas das mais belas cavernas do mundo, situadas em Omã, Belize, Papua-Nova Guiné e México.

Acesse: alvarezphotography.com

 

Written by David Arioch

January 21st, 2016 at 10:38 pm

Uma noite em Paranavaí

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Me perdi refletindo sobre como a escuridão também aspira à vida, revela belezas inexistentes à luz do dia

"Ele defendia que a noite era o início, nunca o fim do dia” (Foto: Amauri Martineli)

“Ele defendia que a noite era o início, nunca o fim do dia” (Foto: Amauri Martineli)

Uma vez, assim como outras, saí à noite para dirigir sem propósito específico ou destino. Era por volta das 22h, e a luz anilada da lua descortinava o meu caminho. Nas imediações, um silêncio singular contrastava com pios de uma pequena coruja com as garras presas ao galho mais robusto de uma flamboyant que repousava em nossa casa, esparramando-se em formas menores que pareciam dedos de mãos disformes. Nas extremidades, o vento a acariciava com suavidade e ela estremecia, fazendo suas vagens se moverem como unhas longas em maturação.

Conhecedora da natureza, a coruja mantinha-se imóvel exatamente na altura em que a brisa era mais deleitosa, eriçando suas penas e a estimulando a inclinar a cabecinha amolgada para trás. Inflamada, observava atentamente o entorno e ajeitava as garras sobre um grande galho verdejante que cobria nosso quintal. Então emitia um canto prolongado que soava como sinal de agradecimento. Naquele dia, não vi muitas estrelas no céu. Bonançosas, as nuvens não tinham intenção de impressionar os mais desatentos. Tudo ao meu redor estava especialmente apolíneo e assim me perdi refletindo sobre como a escuridão também aspira à vida, revela belezas inexistentes à luz do dia, quando a clareza realça mais o perceptível do que o imperceptível.

“Por que relegam à noite tantos sinônimos funestos?”, pensei enquanto observava da entrada de casa a luz amarelada e desbastada sobre um poste do outro lado da rua. O sopro noturno prosseguia e me trazia o aroma orvalhado e fresco das hortelãs que minha mãe sempre plantou no quintal. Sentei no meio-fio por alguns minutos, e Kika, a cachorra mestiça de casa, se aproximou, emitindo sons miméticos que tentavam imitar a fala humana. Em situações de grande excitação, ela nunca latia. Queria uma autorização para ganhar as ruas tranquilas de uma noite acirrante. Concedida, correu empolgada, meneando o rabo torto que oscilava como ponteiro entre as pernas finas. Suas orelhas sacolejavam como pequenas e vigorosas bexigas amendoadas, recheadas de alguma coisa impalpável como um pouquinho de ar sem sê-lo.

Na praça da catedral, Kika manteve a boca aberta e os olhos intumescidos. Escorregou pela grama e fez balizas embaixo dos bancos de concreto. Quando cansou, retornou sem se importar com manchas de cal, punhado de carrapichos fincados no dorso e cheiro acentuado de sarça. Ela não ia longe. Nunca foi. Seu senso de liberdade não exigia mais de 500 metros de distância de casa. Assim que ela retornou, tirei o carro da garagem e fechei o portão. Coloquei um CD do Mogwai e comecei a ouvir “Take Me Somewhere Nice”.

O horizonte da Rua John Kennedy, no Jardim Iguaçu, parecia afunilado, entranhado numa escuridão cerúlea e silenciosa que principiava muito mais do que os olhos são capazes de ver num primeiro momento. Guiei o carro pela descida, observando mais adiante a brisa aproximando as copas das árvores, como se quisesse uni-las num túnel seivoso com uma base forrada de flores matizadas. Iam se amontoando nas ruas e calçadas, sincronizadas com o ritmo plácido e gracioso da música.

A ausência de aspereza era tão solene que as folhas e o floreado afagavam o asfalto ferido pelo descaso, remendando-o com suas figuras e cores que contrastavam com a opacidade da fuligem fedegosa de cana. A noite era dos felinos. Com poucos cães na rua, os gatos reinavam solitários. Brancos, pretos, acinzentados e mesclados atravessavam por todos os lados sem pressa, fazendo da cauda uma bandeira, um chicote e uma antena.

Antes de chegar à Avenida Parigot de Souza, um deles correu na minha frente. Ficou parado me observando com uma expressão cabalística. Depois lambeu o próprio pelo escuro como a noite. O rabo longo serpenteou remansado. As patas pouco se moviam e os olhos afogueados reluziam um vermelho portentoso. Desviei e o bichano continuou lá, imóvel no seu capitólio de piche. Assisti pelo retrovisor o reflexo dos seus rubis acompanhando o movimento das rodas do carro.

No semáforo perto do cruzamento da Avenida Paraná com a Rua Pernambuco, um catador de latinhas sem teto fez reverência medieval e estendeu as mãos calejadas, pedindo contribuição dos motoristas para comprar algo pra comer. A maioria se recusou a ajudar, até que alguém o chamou e estendeu através da janela do carro uma sacola com um lanche embalado e uma lata de refrigerante. Sem velar o sorriso largo, o rapaz agradeceu e caminhou rapidamente até um terreno baldio. Lá, abriu a sacola, retirou o lanche e de pedacinho em pedacinho alimentou uma cadelinha mestiça com as patas enfaixadas que repousava sobre um lençol surrado.

Desci mais um pouco, até as imediações do Terminal Rodoviário, onde três travestis, com cabelos bem escovados e usando saias e sapatos de salto agulha, apontavam as mãos para um homem de meia-idade embriagado e segurando uma faca de cozinha. “Se ele me chamar de corno outra vez, vou enfiar a faca nele!”, gritou cortando o vento com a lâmina apontada para o jovem que gargalhava em tom de deboche. Assistindo a cena e prevendo final trágico, o dono de um bar se aproximou e disse:

“Olha, Afonso, te conheço há muito tempo e sei que ainda não é o suficiente pra entender sua dor, mas se a vida não vale o amor, muito menos ela recompensa o desamor. Desilusão amorosa não destrói ninguém. O que te mata é a inexperiência em ver e sentir além. Perdi duas mulheres na minha vida, uma pra outro homem e outra pra morte. O amor não se trata de azar ou sorte. Não culpo Deus, não culpo ninguém. Aprendi há muito tempo que a vida é sempre maior do que nós. Ela é tão grande que muitas vezes não a enxergamos porque estamos cabisbaixos. Tenho certeza que amanhã cedo você vai perceber isso. Vá pra casa, meu amigo. Suas filhas vão precisar de você mais do que nunca.”

Afonso soltou a faca no chão e ela tiniu contra a calçada de mosaico português. Mirando o chão, falou obrigado com a voz embargada e abafada. Levou as mãos ao rosto para esconder as lágrimas, virou as costas e correu arrastando o par de chinelos pela Avenida Salvador, até desaparecer no breu da Rua Serafim Afonso Costa.

Subi pela Rua Paraíba, onde quase em frente ao Shopping Cidade um casal discutia, atraindo curiosidade e comentários até de quem passava a metros de distância. Alguns pareciam esperar e até torcer pelo pior. Não prestei muita atenção na conversa, apenas no momento em que o rapaz puxou a moça para si e a calou, segurando-a pela cintura e dando-lhe um beijo vulcânico que diminuiu até o ritmo do trânsito na Rua Getúlio Vargas.

Depois segui em direção à Avenida Distrito Federal e por um descuido entrei na rotatória sem dar preferência a uma caminhonete que vinha acelerada. Segurando uma lata de cerveja, o motorista buzinou, me ultrapassou na contramão, reduziu a velocidade, abriu o vidro e manteve o dedo médio apontado, aguardando minha reação e me impedindo de passar dos 20 quilômetros por hora. Quando levantei o polegar da mão esquerda, ele simplesmente desapareceu do meu campo de visão, deixando uma rajada de fumaça que em poucos segundos se desvaneceu como sua ira.

Continuei dirigindo, sentindo o vento brando no rosto, o bálsamo volátil das ruas e de tudo que a habita. O tráfego seguia fleumático na entrada do Jardim São Jorge. Acompanhava a lentidão que contagiava um grupo de adolescentes encostados na parede de um prédio comercial abandonado. Bebiam tubão e uns zombavam das tatuagens dos outros, numa brincadeira de ressignificações.

No entorno da Praça dos Expedicionários, um idoso sentado sobre os próprios pés monologava num tom que parecia um exercício de dicção. Quando me viu, se aproximou e me convidou pra descer do carro. “Chega aí, gente fina. Vou te contar uma história”, adiantou. O homem parecia um jovem habitando um corpo de mais de 70 anos. Mantinha a postura ereta e se movia com leveza.

“Não tenho problema na coluna porque a vida toda andei mais inclinado pra cima do que pra baixo. Como você vai enxergar o mundo se não fizer isso?”, ponderou às gargalhadas. Me puxou pelo braço e me levou até o centro da praça, onde as cinzas de seu pai foram lançadas décadas atrás. Em poucos segundos, senti perfume de hortênsia. Quando olhei para o lado, vi aquele homem de quem nunca soube o nome tirando um sem número de pétalas azuis dos bolsos de uma calça larga. Ao caírem no chão, ajudavam a completar um grande círculo apoteótico.

Era uma homenagem ao seu pai, um pracinha que participou da Segunda Guerra Mundial e sobreviveu a um bombardeio em Montese, no Norte da Itália, mas morreu atropelado no mesmo lugar onde a praça foi construída, após salvar um cão abandonado. “Ele continua por aqui. Sei disso porque o mesmo vento que tantas vezes levou suas cinzas para longe daqui as trouxe de volta. Elas vêm e vão, indeléveis, na brincadeira do sopro sul com o sopro norte. A presença do meu velho vem acompanhada do som de um assobio que ele dava sempre que ria. Defendia que a noite era o início, nunca o fim do dia.”

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Os Olhos de Ivad

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Quando dormia, sentia-se sempre nos confins de sonhos ilógicos, estáticos e inalterados

"Não preciso existir em um lugar, mas junto de alguém" (Pintura: Leonid Afremov)

“Não preciso existir em um lugar, mas junto de alguém” (Pintura: Leonid Afremov)

Por muito tempo, Ivad foi um ser nostálgico, embriagado em um lago de devaneios impessoais que canibalizavam sua pessoalidade. Pueril, demorou a perceber sua capacidade de observar o mundo com seus próprios olhos. Quando dormia, sentia-se sempre nos confins de sonhos ilógicos, estáticos e inalterados. Pela manhã, acordava questionando-se sobre o motivo pelo qual os seres humanos adotavam para si a ideologia de outrem, mesmo sem a certeza da crença em algo.

Questionava se apenas rememoravam a insipidez da crise existencial ou também mercantilizavam a própria imagem. Divagava tanto que logo surgia uma súbita dificuldade de enxergar. Seria o primeiro sinal de catarata ou glaucoma? Nada disso, era Ivad emocionado. Sentado sobre o galho de uma árvore, banhava-se em lágrimas e, apático, logo sucumbia diante das agruras da realidade humana. Vivia assim, caindo e levantando; monologando e refletindo sobre a condição existencial dos humanos.

Quando completou 24 anos, Ivad, insatisfeito e repleto de dúvidas sobre o comportamento humano, resolveu fazer sua primeira viagem longe do clã dos Choira. Conscientes de que o jovem Ivad deveria conhecer vários mundos, diferente daquele com o qual se acostumara, os anciãos o apoiaram em sua jornada, mas exigiram que ele aceitasse a companhia de Ainos, uma jovem da mesma idade. Os dois partiram em uma madrugada de lua nova, quando o entristecer das pradarias foi reconfortado, mais adiante, pelo despontar de girassóis em tons tão purificados que pareciam envoltos por nimbos.

Ivad, de aspecto sorumbático e olhos acinzentados, caminhava calado. Ainos, o contraponto de feições gentis e olhar vivificado, o observava constantemente, tentando encontrar em alguma expressão singela a informação que pudesse cristalizar uma ponte de comunicação entre eles. Ivad temia dividir suas dúvidas e curiosidades com a companheira de viagem. Para ele, mesmo que pertencessem a um mesmo mundo material, ela ainda era-lhe como alguém de outra espécie. Ainos o percebia distante, mas sentia-se impelida a saber o que tanto Ivad procurava e por que era-lhe tão importante.

No terceiro dia da jornada, Ainos, estarrecida pelo silêncio de Ivad, decidiu questioná-lo. “O que procura em outros mundos que não existe no seu? Não temes o ardil de seus olhos? Somos reféns deles, podem tanto clarear quanto obscurecer nossas vidas e nossos sonhos. Se abri-los demais, pode se ferir com o argueiro de outra realidade. Mas, também, se não abri-lo, há de enxergar apenas o mundo semeado em seu interior.”

Ivad, então, dialogou pela primeira vez durante a viagem. “Na minha busca não há certezas, apenas incertezas. Mas preciso ir além do meu universo simbólico para conhecer a verdade dos relatos que me fizeram sobre os humanos. Realmente dividem características de deuses e demônios? A mais pura metáfora da incoerência mundana? “, perguntou com expressão tímida. Ivad quis observá-la melhor tanto quanto quis desviar a profundidade de seus olhos – anseios paradoxais.

No oitavo dia da jornada, Ainos fez um comentário que surpreendeu Ivad: “Percebes que o interesse de alguém por algo pode torná-lo parte do que procura, do seu próprio interesse? Tudo depende da intensidade, e não do seu valor positivo ou negativo. Um ser confunde-se com outro quando a curiosidade chega a torná-lo avesso à sua própria natureza.” Ivad, acostumado ao ostracismo, decidiu não refugiar-se em seus receios.

“Talvez tenha razão. Quem sabe minha preocupação com os humanos tenha nascido de um tácito anseio de tornar-me um. Ou melhor, uma razão desconhecida para existir; algo que me fizesse crer que sou real, e ao mesmo tempo destribalizado, diferente de meus semelhantes. Para ser sincero, não dá para afirmar que essa foi minha única intenção. Isso porque também sou ilusão; uma oferenda a mim mesmo quando faço uso do açoite psicológico”, disse Ivad, sentindo-se vulnerável.

A natureza de Ivad intrigava Ainos que jamais encontrara alguém tão peculiar. Tais existências antagônicas eram como peças que dão sustentabilidade a uma ponte que liga dois universos esculpidos dentro de um. No décimo dia de viagem, quando chegaram à entrada do mundo dos humanos, Ivad olhou para Ainos e hesitou. Deu três passos para trás e ela o acompanhou com olhos marejados. Aproximou-se dele, encostou sutilmente a mão em seu ombro e perguntou com voz trêmula: “Vai desistir de sanar suas dúvidas? Encontrar respostas para as questões que o incomodam? Vai abandonar o sonho de adentrar a realidade dos humanos?”

Ivad não desviou os olhos de Ainos. Deu o seu primeiro sorriso sincero, embora acanhado, e explicou:

— Agora percebo por que a designaram para me acompanhar. Não foi coincidência ou receio de que eu pudesse não retornar, muito pelo contrário. Vejo agora o quão confuso estive; não procurava ninguém, a não ser a mim mesmo. Por um artifício de ingenuidade, decidi vagar para encontrar meu espaço entre os mundos. Tolice de minha parte acreditar que precisaria ir tão longe para sentir-me vivo. Agora ouço a minha respiração. Ela acompanha a sua voz. Não preciso existir em um lugar, mas junto de alguém; uma existência que complementa a minha e para a qual eu também sirva de extensão. Algo como o encontro das águas de dois rios que antes do poente entrelaçam-se dignificando uma existência-mor. É assim que todos os seres sensíveis e pensantes sobrevivem, não enaltecendo a grandiosidade da própria sapiência, mas encontrando-a e ampliando-a na experiência partilhada com o outro.

Naquele dia, Ivad desistiu de continuar a viagem, mas descobriu, no cerne de sua existência, curiosamente despertada por uma pessoa que não a si mesmo, motivo para iniciar uma nova jornada, sem hesitações ou receios. “Não preciso mais conhecer o mundo dos humanos, pois sei que dentro de mim não habita apenas uma espécie, mas o sincretismo de todas aquelas que, embora imperfeitas, resplandecem sob o manto da Terra”, afirmou.

Os Olhos de Ivad foi escrito e publicado pela primeira vez em 2008.

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Written by David Arioch

August 16th, 2015 at 10:39 am

Reminiscências de um suicida

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As imagens persistem como se a altivez da morte me espreitasse a vida mais do que nunca

"Sinto-me como a tela de uma arte despojada de seus valores morbidamente conceituais" (Pintura: Rudolf Brink)

“Sinto-me como a tela de uma arte despojada de seus valores morbidamente conceituais” (Pintura: Rudolf Brink)

As reminiscências ecoam na minha mente como bruscos flashes do que vivi. Lembro dos momentos de corriqueira harmonia, mas que me foram plenos como o infinito. Os cães correndo pela casa ao encontro de um abraço humano amortecido por pelos grossos e brancos. O aroma vindo da cozinha e deslizando como ondas radiantes ao encontro de minhas narinas que o absorviam com um suave suspiro a olhos fechados.

Sinto como se fosse hoje os dissabores das discussões durante as viagens, mas que sempre terminavam num resplandecente ar de calmaria e reflexão. Época em que os sorrisos eram mais preciosos que a matéria-prima de qualquer ourivesaria. Ao momento que a representação dos sons, imagens e fragrâncias vão me confortando, sinto a pontada que me sorve a existência. Minhas têmporas dilatam a cada imagem do passado, como se a dor rogasse pelas simples, mas representativas alegrias.

Percebo meus lábios secos que um dia já foram úmidos e corados como morangos frescos e silvestres. O abstêmio azedo em minha boca sorvendo um entorpecente filete de sangue. Sangue formador de pequenos traços que fomentam uma abstração do vermelho; obra de fazer inveja a Tristan Tzara. Decidido por uma ignóbil saída, abracei as mãos da finitude, esta que me fora apresentada como um doce caminho percorrido por quem tropeçou no abismo das inverdades.

A pólvora fora uma das grandes invenções da humanidade, e talvez sem a qual eu não tivesse decidido por evitar o futuro da lúdica realidade. A bala que se aloja em minha cabeça gera aflição enquanto forma uma pequena cascata à sua volta. O sangue derrama-se como uma pequenina bica de mina ao mesmo tempo em que se confunde com as inquilinas lágrimas de meus olhos. Como a relação do pequeno riacho com a sua nascente (essa que preconiza o fim das ilusões em chão). O salgado orvalho transparente em ablução com o doce vermelho (segundo os falsos princípios da vida).

Apresento-me imóvel e relativamente lúcido a derrocada do meu mundo paralelo, ao tempo que pressinto a lugubridade do meu final se aproximando da emancipação da carne. As imagens persistem em meu espólio mental como se a altivez da morte me espreitasse a vida mais do que nunca. Sinto-me como a tela de uma arte despojada de seus valores morbidamente conceituais.

O universo paradoxal me deixa a melindrar entre o falso puritanismo e a misantropia, como se a minha existência fosse desvanecendo numa macabra, mas pueril e complacente liturgia. Tornei-me um todo poderoso, senhor da própria morte, que antes do meu último suspiro deixei levar com o sangue toda uma enganosa virtuosidade ideológica. Mas, previamente ao mortiço, antes do meu consciente estardalhaço, consenti uma reflexão que me acalmou as células, o fato de que o mundo em que vivi era tanto de Odin como de Fenrir.

A crônica acima, a minha primeira publicada em um jornal, foi escrita em 2004.

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A fábula de Amélie Poulain

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Jeunet e a beleza embutida de simplicidade

Amélie Poulain, contraponto no universo de criações sombrias de Jeunet (Foto: Reprodução)

Amélie Poulain, contraponto no universo de criações sombrias de Jeunet (Foto: Reprodução)

Lançado em 2001, O Fabuloso Destino de Amélie Poulain, é um filme popular de estética leve e colorida do cineasta francês Jean-Pierre Jeunet que aborda a beleza da natureza humana a partir de uma jovem que tenta se distanciar das complexidades da vida.

O Fabuloso Destino de Amélie Poulain é um contraponto no universo de criações sombrias de Jeunet. O filme transmite beleza e uma peculiar pureza do início ao fim, tendo como elemento central da história a graciosa Amélie Poulain (Audrey Tautou), uma jovem que após a morte da mãe se muda sozinha para o boêmio Montmartre, em Paris, onde consegue um trabalho como garçonete.

Um filme humanista com predicados de fábula (Foto: Reprodução)

Um filme humanista com predicados de fábula (Foto: Reprodução)

O maior hobby de Amélie é observar pessoas; a ela, seres tão desconhecidos, mas ao mesmo tempo fantásticos. O passatempo surge a partir de um episódio vivido na infância. O pai, Raphael Poulain (Rufus), após realizar alguns exames com a filha, a diagnosticou com um problema cardíaco crônico, a privando de ir ao colégio, ter amigos e até mesmo sair de casa. Poulain nunca soube que o coração de Amélie sempre acelerava justamente pela sua presença, um contato tão raro.

Amélie poderia ter se tornado alguém com graves distúrbios psicológicos e emocionais. Mas nada disso acontece. Já adulta, deixa de ser uma espectadora para se tornar protagonista da própria vida. A cena em que entrega um relicário com brinquedos ao ex-proprietário do apartamento onde mora é uma das mais memoráveis. A satisfação do homem é transcendental.

Amélie deixa de ser uma espectadora para se tornar protagonista da própria vida (Foto: Reprodução)

Amélie deixa de ser uma espectadora para se tornar protagonista da própria vida (Foto: Reprodução)

Amélie percebe algo que conjugado a sua sensibilidade não é comumente notado pela maioria das pessoas: pequenas coisas tornam a vida mais rica e a inflam de sentido não pelo que são, mas pelo que representam. A partir daí, o mundo da personagem se materializa num espectro de ações altruístas.

Sobre a estética usada por Jeunet, é destacável o uso e abuso de cores nos planos de filmagens, o que proporciona vivacidade surreal e representa a exteriorização da beleza interior de Amélie. Em cor pastel, os tons leves da fotografia remetem à pureza existencial da garçonete. Além disso, a presença de um narrador em off garante um caráter didático e descritivo.

Há também muitas cenas de cortes rápidos, flertando com a edição objetiva usada em videoclipes, além de outras em plano-sequência; tudo contribuindo para tornar a obra mais dinâmica. No mais, O Fabuloso Destino de Amélie Poulain é um filme humanista com características de fábula que cria uma ponte entre a realidade física e a fantasia psicológica.

Trilha Sonora

Após o lançamento do filme, a trilha sonora do compositor francês Yann Tiersen ganhou projeção mundial, sendo regravada por centenas de artistas e usada como background de milhares de espetáculos por todo o mundo, além de programas televisivos. Sem dúvida, a canção mais popular da soundtrack é Comptine d’Un Autre Été que recebeu várias versões do próprio Tiersen.