David Arioch – Jornalismo Cultural

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O amigo generoso e o exame de HIV

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Um ano depois, durante um bate-papo, meu amigo me confidenciou o motivo da generosidade

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Pediu que eu passasse no seu escritório no final da tarde para buscar uma doação de R$ 200 (Foto: Reprodução)

No ano passado, um amigo me ligou e pediu que eu passasse no seu escritório no final da tarde para buscar uma doação de R$ 200. “Olha, sei que você está sempre ajudando alguém na periferia de Paranavaí, então pegue esse dinheiro e faça alguma boa ação”, disse. Fiquei feliz com a contribuição porque na mesma semana conheci um casal passando um grande sufoco.

Recém-desempregado, o homem me confidenciou que não tinha a mínima ideia de como fariam para comprar comida naquele mês. Admito que me surpreendi com o gesto desse amigo, de quem não conhecia ainda tal qualidade altruísta. Ademais, não é sempre que as pessoas se dispõem a fazer doações sem que ninguém peça nada.

Um ano depois, durante um bate-papo, meu amigo me confidenciou o motivo da generosidade. Um dia antes da doação, ele foi até um laboratório para buscar o resultado de um exame de HIV. Quando chegou a sua vez de ser atendido, uma moça pediu que ele aguardasse um instante.

Rapidamente ela entrou em uma sala e logo retornou com semblante enleado e suspeitoso. Nisso a tensão do meu amigo foi crescendo e crescendo. “Preciso voltar lá dentro de novo. Por favor, senhor, aguarde mais um minuto. A situação não é brincadeira”, declarou enquanto preocupada o observava.

Se passaram dois, três, quatro e cinco minutos, e nada da moça retornar. Nesse ínterim, meu amigo já estava arrancando os fios da barba com uma das mãos e sentindo o mais desagradável dos comichões. Em pouco tempo sua tez ficou lívida e ele não conseguiu evitar de transpirar. Com a mão úmida e escorregadia, tirou o celular do bolso. E por um reflexo inimaginável o aparelho não espatifou no chão. Tremendo e se atrapalhando entre as teclas que pareciam alfabeto rúnico, digitou uma mensagem para a irmã, pedindo que ela orasse fervorosamente por ele.

“Pelamor de Deus! Tô no momento mais difícil da minha vida, minha irmã! Reúna todo mundo aí e se ajoelhem! Chame até os vizinhos! Se ajoelhem com muita vontade! Orem por mim com todas as forças! Não quero morrer!”, teclou, tentando não desfalecer na frente dos estranhos.

Pela sua cabeça passou um turbilhão de pensamentos. Imaginou até o próprio velório num dia frio e chuvoso em que ninguém compareceria porque iriam preferir cobertor e chocolate quente no conforto de casa. “Infiéis! Infiéis!”, gritava de dentro do túmulo ao receber as últimas pás de terra arremessadas por um coveiro corcunda recém-saído de um filme do Ed Wood.

“E assim morrerei, no mais repentino e ligeiro dos esquecimentos”, deduziu no seu drama copioso. “Não! Pera aí, Deus! Por favor! Assim não! Juro que se eu escapar dessa vou dar todo o dinheiro que tenho na minha carteira pra ajudar algum necessitado. Juro em nome de tudo! Juro agora!”, esbravejou no cerne da própria consciência.

De repente, foi interrompido pela atendente e voltou a si. Quando a moça estendeu a mão para entregar-lhe o resultado, meu amigo viu no rosto dela a confusa fisionomia dantes se dissipando, se transformando em expressão de bonomia. Nem parecia a mesma pessoa. “Desculpe pela demora. Não é nada não. É que hoje ficamos com duas funcionárias a menos e o serviço acumulou. Tá tudo certo! O senhor já pode ir. Tenha um excelente dia”, comentou com voz doce e um sorriso esfuziante.

Um grande artista nem sempre é um bom exemplo de ser humano

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Há inclusive aqueles que foram considerados artistas de caráter duvidoso

Picasso sempre chamou a atenção pelos seus relacionamentos conturbados (Foto: Arnold Newman/Getty Images)

Picasso sempre chamou a atenção pelos seus relacionamentos conturbados
(Foto: Arnold Newman/Getty Images)

 

É comum alguém acreditar que um grande artista é um bom exemplo de ser humano, até mesmo uma pessoa perfeita, mas é importante ter em mente que isso não condiz com a realidade. Exemplos nunca faltam. Há inclusive aqueles que foram considerados por alguns como seres humanos de caráter duvidoso e que entraram para a história da arte como verdadeiros gênios, como é o caso do compositor alemão Richard Wagner, cujo antissemitismo dizem que chegou a ponto dele declarar que judeus são incapazes de produzir arte. Apesar disso, alguns estudiosos de sua obra dizem que ele tinha alguns amigos judeus.

O maestro judeu Daniel Barenboim, o maior intérprete da música de Wagner, chegou a fazer releituras das obras do compositor alemão em Israel e justificou que o germânico poderia ser repreendido, mas não sua música. “Ele não compôs uma única nota antissemita”, declarou quando questionado sobre o assunto. A explicação se sustenta até mesmo na ponderação de que bondade e maldade enquanto características pessoais são qualidades morais que não se aplicam à arte, principalmente do ponto de vista estético.

O editor do New York Times e crítico literário Charles McGrath defende que uma pessoa, independente de moralidade ou caráter, pode não apenas escrever um bom romance ou pintar uma bela tela como suavizar ou externalizar um grande infortúnio. “Pense em Guernica, de Picasso, ou Lolita, de Nabokov. É um romance excepcional sobre o abuso sexual de uma menor e descrito de uma maneira que faz com que o protagonista pareça quase simpático”, argumenta.

Pound era assumidamente antissemita e protofacista (Foto: Reprodução)

Pound era assumidamente antissemita e protofacista (Foto: Reprodução)

Degas, até hoje cultuado pelo seu perfil fervorosamente humanista, era antissemita e um defensor do tribunal francês que condenou o capitão Alfred Dreyfus, do exército francês, falsamente acusado de traição. Ezra Pound, expoente do modernismo, também era antissemita e protofascista, posições que ele assumia sem receio, embora a maioria não levasse a sério suas declarações sobre o assunto por considerá-lo excêntrico e até mesmo louco.

E na mesma esteira seguia seu amigo T.S. Eliot, da Igreja Anglicana, poeta que se orgulhava de uma posição ideológica muito próxima a de Pound. Já Picasso, sempre chamou a atenção pelos seus relacionamentos conturbados. Das sete mulheres com quem se envolveu amorosamente, duas cometeram suicídio e outras duas enlouqueceram.

Outro pintor com uma história de vida intrigante é o alemão Walter Sickert, referência da pintura avant-garde britânica. A escritora norte-americana Patricia Cornwell publicou um livro em que acusa Sickert de ser o famoso Jack O Estripador. Norman Mailer, duas vezes vencedor do Prêmio Pulitzer, tentou assassinar a esposa.

Filho escreveu carta a Hemingway dizendo como ele destruiu sua vida (Foto: Reprodução)

Filho escreveu carta a Hemingway dizendo como ele destruiu sua vida (Foto: Reprodução)

O pintor Caravaggio e o poeta e dramaturgo Ben Jonson participaram de duelos em que mataram seus adversários sem o menor remorso. E a lista segue extensa. Genet era ladrão, Rimbaud foi traficante de armas e Byron praticou incesto. Flaubert também se envolveu em um escândalo por pagar por sexo com garotos, sim, menores. “A base de toda grande obra de arte é uma pilha de barbárie”, escreveu uma vez o crítico literário alemão Walter Benjamin.

Apesar disso, a arte consegue perseverar como enobrecedora porque ela inspira e transporta o leitor ou espectador. “Ela refina nossas discriminações, amplia a nossa compreensão e simpatia. Se ela faz isso conosco, imagine o que ela não é capaz de fazer com seus autores? Nos apegamos a essas noções porque cremos que a arte nos leva à evolução moral”, enfatiza McGrath.

Questionado se bons exemplos também fazem boa arte, o editor do New York Times responde que há muitos bons artistas que são decentes ou moralmente íntegros. Ou seja, que não são racistas, não batem em suas esposas, não ignoram suas famílias, não praticam injúrias nem mesmo sonegam impostos. “O artista é alguém vinculado à sua própria lei. Ele acaba por ser até mesmo egoísta, mas em muitas situações porque precisa. Grandes artistas tendem a viver para sua arte mais do que para os outros”, declara.

Dickens expulsou a esposa de casa e mandou o filho para a Austrália (Foto: Reprodução)

Dickens expulsou a esposa de casa e mandou o filho para a Austrália (Foto: Reprodução)

A afirmação de McGrath pode ser facilmente comprovada se avaliarmos as biografias de artistas como Fitzgerald, Faulkner, Bellow, Yates e Agee, homens que tiveram casamentos desfeitos, filhos negligenciados e pouco amados. E será que a arte vale a infelicidade dos mais próximos? Hemingway se casou quatro vezes e teve dois filhos problemáticos.

Quando Gregory completou 21 anos, ele escreveu uma carta ao pai dizendo como ele destruiu sua vida e a de outros quatro familiares. Depois de se tornar uma transexual alcoólatra em Miami, Gregory morreu em uma penitenciária feminina. Outros agravantes eram o perfil mulherengo de Hemingway e suas constantes bebedeiras. Além disso, sempre se importou mais em escrever do que em cuidar da família.

Assim que se casou com Catherine Hogarth, Charles Dickens, um dos mais famosos romancistas ingleses, prometeu que seria um pai e marido exemplar, levando em conta a própria infância miserável, acentuada pela ausência da figura paterna. No entanto, fez tudo diferente. Foi um pai desleixado e péssimo marido. Irritado ao ver que a cada gravidez a sua esposa ficava mais gorda e doente, Dickens se tornou um sujeito amargo.

“Ele expulsou a própria esposa de casa e anunciou em sua revista que fez isso porque ela era uma mãe tão irresponsável que nem os filhos a suportavam. Mais tarde, despachou o filho Edward, de 16 anos, para a Austrália e nunca mais o viu novamente. Dickens morreu sob o domínio completo da arte, uma arte cruel que exige de seus praticantes uma desumana servidão”, avalia Charles McGrath.

Referência

McGrath, Charles. Good Art, Bad People, The New York Times, The Opinion Pages, Global Agenda, Genius At Work. 22/06/2012.

Casal de idosos recebe uma grande ajuda na Vila Alta

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Esse tipo de sensibilidade é cativante e faz todo e qualquer esforço valer a pena

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Dona Neide e Seu Juvenal com algumas das doações (Foto: David Arioch)

Hoje passei algumas horas na Vila Alta, na periferia de Paranavaí, e visitei o Seu Juvenal e a Dona Neide, o casal que se tornou tema de uma matéria minha porque precisavam de ajuda para a substituição de um precário telhado. Devo dizer que o resultado tem sido muito melhor do que eu esperava.

Além de conseguirmos todas as telhas graças à doação do senhor Carlos Gomes, uma excelente pessoa que ainda se ofereceu para custear as despesas com mão de obra, recebemos contribuições muito boas em dinheiro da dona Sueli Takahashi, do Ministério do Trabalho, uma senhora extremamente atenciosa e carinhosa; e também do meu amigo Sobhi Abdallah, um grande parceiro de longa data – e sem dúvida uma das melhores pessoas que já conheci em Paranavaí.

Outra pessoa que ajudou muito e por quem tenho grande estima é o Gugu Ditzel, da Vida Farma, que foi até a casa do Seu Juvenal e da Dona Neide entregar medicamentos e deixar claro que eles nunca mais vão precisar comprar remédio. Gugu também levou cesta básica, pagou as faturas de energia elétrica e água do casal e se dispôs a continuar pagando.

Agora a meta é comprar o forro e tenho certeza que nos próximos dias essa parte também vai ser concluída. Outras pessoas têm me ligado para contribuir e acredito que boas novas cheguem até a semana que vem. Também destaco o interesse do meu amigo Felipe Figueira que sensibilizado tem acompanhado a situação do casal e já deixou claro que sua doação está garantida na aquisição do forro.

Sei que todos que ajudaram não fazem questão nenhuma de aparecer, mas acho importante e justo citá-los porque não é fácil encontrar pessoas dispostas a ajudar hoje em dia. Esse tipo de sensibilidade é cativante e faz todo e qualquer esforço valer a pena. Outro presente foi ver a expressão de felicidade no rosto do Seu Juvenal e da Dona Neide, pessoas humildes e batalhadoras que não merecem passar por tantas dificuldades numa fase da vida em que deveriam estar descansando confortavelmente.

Dona Neide me confidenciou que mal tem conseguido dormir. “Nunca esperava que um dia a gente fosse receber tanta ajuda assim de repente”, comentou emocionada. Só tenho a agradecer a todos esses ótimos seres humanos que conheço e aqueles que conheci através desse episódio. Se não fosse por essas pessoas, meu trabalho não valeria a pena, seria isento de valor, e talvez não existisse.

Conheça a história do casal

//davidarioch.com/2016/04/25/casal-de-idosos-precisa-de-ajuda-para-comprar-um-novo-telhado/

A recompensa e o medo da danação

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“E se as pessoas soubessem que não ganhariam nada por serem boas?”

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Representação do inferno criada pelo pintor italiano Sandro Botticelli

Ao longo da minha vida, tive contato com diversas religiões e algumas antagônicas em certos aspectos. Fiz catequese e participei de escolas dominicais na minha infância e nos primeiros anos da adolescência. Até para minha surpresa, eu costumava estar entre os melhores alunos, embora minhas dúvidas soassem acéticas ou dignas de um infiel para alguns ou muitos. Ainda assim, eu não hesitava em refletir profundamente sobre o que lia e ouvia. Mesmo pequeno, não tinha facilidade em absorver qualquer coisa como verdade inquestionável.

O comportamento humano já me intrigava naquele tempo porque para além das cortinas de fé eu percebia algo nas pessoas que me parecia estranho e paradoxal. “Seja um bom menino que mais cedo ou mais tarde a recompensa aparece”, me diziam muitos quando eu ainda era criança. E esse discurso se repetiu muitas outras vezes e das mais variadas formas. As palavras mudavam, mas não deixavam de transmitir a mesma mensagem. Até que um dia eu comecei a me questionar.

“E se as pessoas soubessem que não ganhariam nada por serem boas? Se descobrissem que se trata de um dever como ser humano e simplesmente isso? E se após a morte lhe fosse reservado um lugar ao lado daqueles que você considera descrentes, ruins e degenerados? Você ainda faria tudo que fez? Seria realmente a mesma pessoa? E se não houver recompensa, não há motivo para ser bom ou justo?”

Me deparo todos os dias com pessoas que sustentam a própria fé e a ideia de fazer o bem como uma moeda de troca para ser beneficiado no futuro ou no pós-morte, como se Deus tivesse assinado algum termo de responsabilidade ou de indenização pela vida terrena que muitos depreciam na ânsia pelo paraíso. Como não encarar isso como uma forma de mercantilização da bondade? Por que não ser bom porque é sensato e condiz com a natureza humana quando ela não é subtraída da própria essência?

Acredito de fato que o ser humano é naturalmente benevolente, quando não o é significa que em algum momento suas características naturais foram corrompidas. Também penso que o justo nem sempre é verdadeiramente justo por um senso moral, por um senso altruísta. Muitas vezes a bondade nasce do medo da punição, da danação, de ser relegado à escuridão eterna. “Foi tarde. Tá ardendo no inferno, no colo do capeta”, já ouvi copiosamente. E que autoridade tem alguém em afirmar isso? Ou até mesmo desejar o mal a alguém? Quem somos nós para definir o que as pessoas merecem?

Diversas religiões falam que o fiel, o bom, ganhará os céus. Mas ser devoto de uma religião não significa ser bom e vice-versa. A bondade, como a caridade, independe de religião. Ela precisa fluir sempre de dentro do ser humano para fora, e mesmo distante de uma igreja há quem faça ela prevalecer até mais do que a de um suposto fiel. Crer que é melhor por ter uma religião reafirma apenas uma posição de devoto de ocasião.

Muitas vezes também li e ouvi pessoas afirmando que Deus há de punir seus desafetos porque ninguém “mexe com um servo ou serva de Deus”. Aí então surge uma curiosa distorção de crenças em que o religioso se coloca numa posição de deidade enquanto a Deus é delegada a função de subserviência, como um servo que deve atender aos caprichos de alguém com uma visão distorcida e particularista de justiça. Assim há seres humanos que não apenas se veem como merecedores de recompensa, mas vão muito além – eles a exigem em retribuição à fé que afirmam possuir incondicionalmente.

Uma vida dedicada ao próximo

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Na infância, Rosinha percorria até 20 quilômetros a pé com o pai para rezar pelos enfermos

Dona Rosinha: “Desde que nasci meu pai já orava pelos outros e fazia caridade. Vem de geração em geração” (Foto: David Arioch)

Dona Rosinha: “Desde que nasci meu pai já orava pelos outros e fazia caridade. Vem de geração em geração” (Foto: David Arioch)

Chego na casa de Dona Rosinha no Jardim Ipê, como é mais conhecida Rosa Ferreira dos Santos, e o seu marido, o vigilante Cido Dias dos Santos, pede que eu entre. Sem cerimônia, diz que ela já está me aguardando. Quando me vê, a dona de casa exibe um sorriso largo e singelo e me convida para sentar em um sofá na sala.

Miudinha e ansiosa pela entrevista, Rosinha tem uma rara força e resistência, o que ela atribui à fé religiosa. Procurada toda semana por pessoas que desejam algum tipo de graça, a dona de casa diz que não é benzedeira, mas sim rezadora. “O povo chega aqui e pede pra eu rezar. Meu trabalho pra ajudar quem precisa é baseado em três orações: ‘Pai Nosso’, ‘Creio em Deus-Pai’ e ‘Salve Rainha’. São as mais fortes pra gente”, afirma.

Além de orações, muitos são atraídos pelos seus remédios caseiros para dores nas costas, gripe e bronquite, feitos há 16 e 20 anos. “Quando acontece de não vir quase ninguém numa semana eu já fico preocupada, me perguntando se minha oração ainda está ajudando. Mas depois o número de visitas aumenta e fico feliz”, comenta com simplicidade.

A cultura da oração entrou na família de Rosinha com os bisavós e desde então a família segue a tradição de ajudar quem precisa, independente de classe social. “Desde que nasci meu pai já orava pelos outros e fazia caridade. Vem de geração em geração. As pessoas me procuram bastante por motivos de doença e também pra passar em algum tipo de concurso. Muita gente já me ligou agradecendo depois. Só não sei é a minha fé que é mais forte ou a fé deles em mim”, declara sorrindo.

Ainda criança, e vivendo em um cenário que lembra a atmosfera mística do filme “O Pagador de Promessas”, de Anselmo Duarte, Rosinha e os sete irmãos acompanhavam o pai em caminhadas de até 20 quilômetros para levar orações àqueles que já não podiam frequentar uma igreja, principalmente por problemas de saúde. Quando chegavam ao local, o pai e os filhos rodeavam o enfermo e oravam por horas.

“Ele era rezador de terço igual eu sou agora. Foi a herança que me deixou. Lembro que íamos tão longe que às vezes até dormíamos na beira da estrada. Meu pai e os filhos mais velhos carregavam os menores nas costas. Nunca foi homem de sair e deixar a família abandonada em casa”, destaca.

"Faço exatamente como meu pai me ensinou” (Foto: David Arioch)

“Faço exatamente como meu pai me ensinou” (Foto: David Arioch)

O relato remete aos anos 1960 e início dos anos 1970, quando a família de Rosinha vivia em cidades como São Jorge do Patrocínio, Pérola, Altônia e Rondon, nas regiões de Umuarama e Cianorte. “Morávamos em um canto, daí passava um tempo e a gente mudava, até que ficamos na residência do meu tio em São Jorge do Patrocínio. Depois arrumamos uma casa e começamos a trabalhar como boia-fria nos cafezais. O serviço mais perto exigia pelo menos quatro quilômetros de caminhada”, conta.

Após o falecimento do pai, há quase 20 anos, Rosinha continuou a tradição familiar, inclusive o trabalho de aplicar injeções em enfermos, algo que aprendeu na juventude, numa época de grande carência médica. “Quando um doente não pode sair de casa e a ajuda não chega, as pessoas me procuram. Faço exatamente como meu pai me ensinou”, justifica.

A dona de casa defende que o mais importante é fazer o bem aos outros sem esperar nada em troca. “Nem poderia ser diferente. Já alcancei tantas graças que só tenho a agradecer. Não me vejo no direito de cobrar nada de ninguém”, afirma. De acordo com a zeladora Maria Ruth Serrano, Rosinha é uma mulher atenciosa e batalhadora que possui muita força. “O trabalho dela é maravilhoso. Tá sempre preocupada com o próximo”, garante Ruth que a conhece há mais de 30 anos.

Segundo o marido Cido, o que também reafirma a solidariedade da esposa é o fato de nunca terem morado sozinhos. “Ela sempre trouxe alguém pra gente cuidar. Alguns eram parentes e outros não. Quase todos os irmãos dela já moraram com nós. Hoje cuidamos do meu pai. Torço para que ela nunca precise parar de fazer esse trabalho porque sei que é a maior satisfação da vida dela”, argumenta o vigilante.

“Nunca gostei de ficar à toa em casa”

Nascida em Salinas, no Norte de Minas Gerais, Dona Rosinha adotou Paranavaí como lar há 37 anos. “Já fiz de tudo na minha vida. Até trabalhei de doméstica e não me adaptei, retornando pra roça de café. Agora faço apenas trabalhinhos como confecção de rosários e crochê”, explica e acrescenta que atualmente a renda familiar é baseada no salário do marido e do filho.

A dona de casa, acostumada a realizar serviços manuais, foi obrigada a parar de trabalhar após o implante de um marca-passo. “Ninguém dá serviço para alguém nessa condição. Não sou aposentada. Já tentei três vezes e não consegui, nem mesmo pelo INSS. Por que os ricos se aposentam e eu não? Tem muita gente por aí aposentada sem necessidade”, desabafa.

A casa onde vive há dois anos no Jardim Ipê, e perto de uma igreja, foi conquistada com muito sacrifício, assim como praticamente tudo na vida de Rosinha. “Me empenhei para que meus filhos estudassem e hoje me orgulho de saber que se formaram na faculdade. Quando eram crianças, eu até trabalhava na escola pra garantir uma boa educação pra eles”, revela.

"Me empenhei para que meus filhos estudassem e hoje me orgulho de saber que se formaram na faculdade" (Foto: David Arioch)

“Me empenhei para que meus filhos estudassem e hoje me orgulho de saber que se formaram na faculdade” (Foto: David Arioch)

Por mais de dois anos, a rezadora fez trabalho voluntário na Santa Casa de Paranavaí. Assim que terminava os afazeres domésticos, ia até o hospital, onde dava banho e trocava as roupas dos enfermos. “Nunca gostei de ficar à toa em casa. Por isso passava horas na Santa Casa, ajudando principalmente aqueles que não recebiam visitas de parentes”, garante.

Com a proximidade do Natal, Dona Rosinha explica que está preparando um presépio feito de jornal dobrado, em forma de torre. Seguindo uma velha tradição, em vez de pintá-lo com tinta, ela vai colori-lo com carvão molhado. “Fazemos isso todos os anos e atrai muita gente. As pessoas pedem muitas orações, até quem não pode vir faz o pedido por telefone”, confidencia.

“Não tinha quase comida, só um pouquinho de arroz e feijão cru”

Aos 20 anos, quando trabalhava como boia-fria, Rosinha, acompanhada do pai e dos irmãos, percorria a pé 15 quilômetros de estrada de terra para chegar ao cafezal. Saía de casa às 5h, antes do galo cantar, quando a escuridão ainda tomava conta do lugar. “Um dia a gente tava em casa se preparando pro trabalho e não tinha quase comida, só um pouquinho de arroz e feijão cru. Minha mãe olhou nas panelas e ficou preocupada”, conta. Então sugeriu ao marido que pedisse um pouco de mandioca para o patrão, senão teriam de passar fome no dia seguinte.

No mesmo dia, às 9h, uma vizinha bateu na porta da casa de Dona Joana, mãe de Rosinha, e reclamou que seus três filhos estavam sem comer há três dias. Sensibilizada, Joana deu metade do arroz e do feijão cru já insuficiente para alimentar a própria família. Por volta do meio-dia, uma mulher desceu de um automóvel em frente à casa de Rosinha e bateu palmas, surpreendendo Dona Joana. “Naquele tempo era difícil ver carro em São Jorge do Patrocínio. Ela chamou minha mãe e mostrou um saco de estopa enorme cheio de alimentos. Tinha tanta coisa que a gente nem sabia o que era. Pra gente era comida de rico”, lembra Rosinha rindo e chorando.

Um homem que acompanhava a mulher posicionou o saco ao lado do pequeno portão da casa dos pais de Rosinha. No mesmo instante, o mais novo dos oito filhos de Dona Joana começou a chorar. Ela se desculpou e foi ver o que aconteceu com a criança. Quando retornou, a mulher não estava mais lá, nem o homem e o carro que a trouxe. “Minha mãe ficou desesperada. Queria agradecer de qualquer jeito. Ela correu toda a vizinhança tentando saber o paradeiro da mulher. Todos os vizinhos falaram a mesma coisa, que não viram carro nenhum passar por aquelas bandas naquela manhã. Então minha mãe chorou, se sentindo abençoada por Deus”, narra com olhos marejados.

Solidária, Dona Joana retirou apenas o essencial do saco de estopa e dividiu o restante com quatro famílias de boias-frias. O dia foi tão especial que até a jornada de trabalho dos que foram para o campo acabou mais cedo. “A gente sempre chegava em casa à noite, lá pelas nove horas, porque demorava pra arruar o café, mas naquele dia vimos o Sol desaparecer através da nossa janela”, relata Rosinha chorando.

“Senti mãos me pegando e me levantando”

Numa noite, Dona Rosinha sentiu tontura e não conseguiu dormir. Preocupados, o marido e os filhos a levaram para o Pronto Atendimento Municipal (PA), onde recebeu um pouco de soro intravenoso. Às 6h, a dona de casa deveria ir Arapongas, no Norte Central do Paraná, trocar o marca-passo que parou de funcionar, mas ninguém a chamou. Assim que levantou e olhou pela janela, já estava tudo claro lá fora. Então Rosinha deitou com os olhos fechados debaixo de uma lâmpada, pedindo a Deus que não deixasse nada de ruim acontecer com ela. “Senti mãos me pegando e me levantando. Fiquei com os olhos fechados porque não tive vontade de abrir. Quando fui colocada novamente na cama, abri os olhos e não tinha ninguém ao meu lado, como se ninguém tivesse entrado no quarto”, conta.

Depois a dona de casa se levantou e lembrou a enfermeira de que ela precisava ir a Arapongas trocar o marca-passo. “Veio uma equipe grande me ajudar. Na ambulância, durante toda a viagem, senti como se as mesmas mãos que não vi continuassem acariciando o lugar onde o marca-passo que não funcionava mais estava instalado. Sentia tudo, mas não via nada”, garante.

Após receber anestesia, Rosinha ficou sabendo que não havia condições de recuperar seu marca-passo, sendo necessário fazer a substituição. “Foi preciso fazer uma outra cirurgia de última hora pra trocar o marca-passo. A operação acabou tão rápido que até a equipe médica se surpreendeu. E eu ainda sentia aquela mão desconhecida no marca-passo”, assegura.

Ao final da cirurgia, a dona de casa foi avisada que precisaria de dois ou três dias de repouso para conseguir andar novamente. Surpreendendo todos, Rosinha levantou na manhã seguinte, andando por todo o quarto e se oferecendo para ajudar os pacientes deitados nas camas mais próximas. “O médico disse que nunca viu uma recuperação tão rápida. Dias atrás também tive um princípio de [acidente vascular cerebral] AVC, só que logo ficou tudo bem”, comemora com voz remansosa.

Frases de Dona Rosinha

“Seguindo as lições de meu pai e minha mãe, não consigo passar um dia sem ajudar alguém”

“Quando eu era criança, uma moça que era nossa vizinha tentou se matar. Ela tomou veneno cinco vezes e chegou até a beber soda e não morreu. Se não for a hora, não adianta insistir”

“Qualquer pessoa que aparece aqui pra eu cuidar, eu cuido, porque Deus me deu esse dom e eu sigo em frente”

Saiba Mais

Dona Rosinha, que também é procurada por pessoas de outras cidades e regiões, mora no Paraná há 53 anos. Quem quiser entrar em contato com ela, pode ligar para (44) 3045-7819.

A lição de Dona Maria

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Dona Maria: "O mais importante é cuidar dos meus animais." (Foto: David Arioch)

Dona Maria: “O mais importante é cuidar dos meus animais.” (Foto: David Arioch)

Há três semanas, comecei a produzir o meu novo documentário da série Realidade da Periferia. Ontem, fiz questão de interromper a filmagem na Vila Alta, um dos bairros mais pobres de Paranavaí, no Noroeste do Paraná, para conhecer de perto a situação da Dona Maria, uma senhora que trabalha recolhendo materiais recicláveis.

Na segunda-feira, a casa dela foi atingida por uma enxurrada que causou um grande prejuízo. Apesar da situação extremamente difícil, ela estava mais preocupada com os seus animais do que consigo mesma.

No interior da casa, sobre uma pequena cama, estava uma cadelinha prenha, a quem ela trata como se fosse uma filha. Na terça-feira, a cachorrinha passou mal e ela percorreu quilômetros a pé, até encontrar um médico veterinário.

No casebre moram também outros dois cães que gostam de ficar perto da única porta, como se fossem responsáveis pela segurança do lar. Em cima de um colchão, me deparei com o que mais me chamou a atenção – três pratinhos com ração.

Dona Maria mal ganha o suficiente para a subsistência, chega até a passar fome, e há dois dias quase perdeu a casinha construída com as próprias mãos. Apesar de tudo, ela afirma que o mais importante é cuidar de seus três animais.

Written by David Arioch

April 2nd, 2014 at 11:53 am