David Arioch – Jornalismo Cultural

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Psoglav, o carnívoro

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No folclore balcânico há uma criatura telúrica que chamam de Psoglav, que teria vivido em algumas regiões que hoje fazem parte da Bósnia e de Montenegro. Ganhou fama de demônio, inclusive esteticamente, pelo fato de se alimentar de carne humana, chegando a desenterrar cadáveres.

Mas Psoglav era naturalmente carnívoro, e ainda assim se popularizou como um chavelhudo, pois sua sobrevivência, vinculada a uma condição rara, o tornava dependente do consumo de carne. Com o tempo, sua história ganhou novos elementos, para reafirmarem sua “natureza demoníaca”.

Porém, se ele se alimentava de carne por uma questão incontestável de sobrevivência, deveríamos chamá-lo de demônio? Ainda mais levando em conta que nos alimentamos da carcaça de outros seres vivos por uma questão cultural e opcional, ou seja, não por uma necessidade.

 

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Massacre de Srebrenica completa 23 anos este mês

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Corpos das vítimas do Massacre de Srebrenica (Foto: Reprodução)

De 11 a 22 de julho de 1995, o Exército da República Sérvia e os Chetniks, um grupo paramilitar sérvio, mataram mais de oito mil muçulmanos ao leste da Bósnia e Herzegovina. Muitas das vítimas eram crianças, adolescentes e idosos.

Esse crime em massa foi o primeiro genocídio reconhecido legalmente após o Holocausto, segundo informações do NIOD Institute for War – Holocaust and Genocide Studies. A ação foi liderada pelo general ultranacionalista Ratko Mladić que, visando uma “limpeza étnica”, ordenou que os muçulmanos do sexo masculino (de crianças a idosos) fossem localizados e executados. Tentando escapar da morte, muitos homens buscaram refúgio em um complexo da ONU.

Quem supostamente fazia a segurança no local era uma pequena tropa neerlandesa da Missão de Paz, mas eles testemunharam todos os crimes sem reagir. Além disso, o pedido de ajuda dos perseguidos foi ignorado pela ONU.

De acordo com relato de Zumra Šehomerovic, os invasores sérvios selecionaram meninas e jovens mulheres do grupo de refugiados. Todas elas foram estupradas. Os abusos sexuais muitas vezes ocorreram diante de testemunhas – inclusive dos filhos das vítimas. “Um soldado neerlandês simplesmente ligou seu walkman e circulou pelo local, ignorando o que estava acontecendo. Vi isso pessoalmente. Estava diante dos nossos olhos. Seria impossível eles não verem isso”, afirma Zumra.

Também havia uma mulher com um bebê de poucos meses. Um chetnik ordenou que a criança parasse de chorar. Como a criança continuou chorando, ele a degolou e riu. Outro soldado neerlandês assistiu tudo e não fez nada. “Vi coisas ainda mais terríveis. Havia uma garota, ela devia ter nove anos. Em um momento, recomendaram ao irmão que a estuprasse”, declara.

O garoto não fez isso e, segundo a sobrevivente, nem poderia,  já que ele era só uma criança. Então puniram o garoto o matando. Zumra testemunhou todas essas ações. “Quero enfatizar que tudo isso aconteceu ao lado da base [da ONU]. Também vi outras pessoas serem assassinadas. Algumas delas tiveram suas gargantas cortadas e outras foram decapitadas”, narra Zumra Šehomerovic.

Referências

Van Diepen Van der Kroef Advocaten. Writ of Summons: District Court, The Hague. legal-tools.org. Páginas 107–108.

http://www.cnj.it/documentazione/Srebrenica/NIOD/NIOD%20part%20IV.pdf

 

 

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Written by David Arioch

May 9th, 2017 at 12:43 pm

A essência pacifista de Tanović

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Terra de Ninguém mostra como a guerra é vazia em sentido

Filme gira em torno de um episódio da Guerra da Bósnia (Foto: Reprodução)

Ničija Zemlja, que no Brasil ganhou o nome de Terra de Ninguém, é um filme de 2001, do cineasta bósnio Danis Tanović. A obra que gira em torno de um episódio da Guerra da Bósnia foge do romantismo hollywoodiano e retrata com realismo o despropósito de um conflito sem heróis.

Tanović denuncia o desserviço dos meios de comunicação de massa (Foto: Reprodução)

A história se desenvolve a partir de dois inimigos naturais; o sérvio Nino (Rene Bitorajac) e o bósnio Ciki (Branko Djuric) que se perdem de seus agrupamentos e vão parar na “terra de ninguém” – uma área que não pertence a nenhuma das nações envolvidas na guerra e pode receber tanto uma investida militar dos sérvios quanto dos bósnios. O que torna a situação mais delicada é a presença do bósnio Cera (Filip Sovagovic) que depois de ferido foi colocado sobre uma mina por soldados sérvios.

O bósnio Ciki e o sérvio Nino, inimigos naturais (Foto: Reprodução)

Como o artefato é de fabricação estadunidense, há uma alusão à falta de empenho dos EUA pelo armistício, mesmo tendo o privilégio de ser a nação com maior apelo junto à Organização das Nações Unidas (ONU), além de símbolo da expansão ocidental. Enquanto a carnificina prossegue na “terra de ninguém”, Nino e Ciki firmam um pacto de mutualidade, iniciado com a tentativa de desativar a mina sobre a qual Cera repousa. O absurdo da situação cria uma atmosfera cômica; os protagonistas trocam favores e ao mesmo tempo tentam encontrar meios de se eliminarem.

Entre as cenas de destaque de Terra de Ninguém está uma em que o representante da ONU se empenha para negociar algumas medidas com o alto escalão, na esperança de tirar os dois soldados da zona de perigo. O pedido é negado. Tanović também denuncia o desserviço dos meios de comunicação de massa ao explorar o telejornalismo de mercado. No filme, uma repórter que sonha em ser famosa tenta gerar animosidade entre Nino e Ciki enquanto o idealista da ONU faz o possível para ajudá-los, mesmo sem o consentimento dos superiores. Em suma, Ničija Zemlja é um filme de caráter pacifista que explora o paradoxo da violência e mostra como a guerra é vazia em sentido.