David Arioch – Jornalismo Cultural

Jornalismo Cultural

Archive for the ‘Brilho Eterno de Uma Mente Sem Lembranças’ tag

E se você pudesse apagar suas lembranças?

without comments

Wysoccan, baseado na erva Datura Stramonium, pode apagar todas as memórias de uma pessoa (Foto: Reprodução)

Wysoccan, baseado na erva Datura Stramonium, pode apagar todas as memórias de uma pessoa (Foto: Reprodução)

Em 2004, quando assisti o filme “Eternal Sunshine of the Spotless Mind”, que no Brasil ganhou o nome de “Brilho Eterno de uma Mente Sem Lembranças”, com roteiro do inconfundível Mr. Kaufman, me questionei se havia algo no mundo que realmente fosse capaz de manipular as lembranças humanas. Mais tarde, descobri que sim.

Existe o Wysoccan, baseado na erva Datura Stramonium, que pode apagar todas as memórias de uma pessoa. Os nativos angolquinos do Canadá usam a fórmula no rito de passagem da infância para a adolescência. Na crença deles, ninguém pode se tornar um guerreiro se estiver preso às lembranças da infância. O tal do Wysoccan chegou a ser usado por hippies em algumas partes do mundo, já que como alucinógeno é mais potente que o LSD.

Contribuição

Este é um blog independente, caso queira contribuir com o meu trabalho, você pode fazer uma doação clicando no botão doar:





Gondry, Kaufman e as dores da alma

without comments

Eternal Sunshine of the Spotless Mind aborda a instabilidade humana frente às adversidades das relações amorosas

O filme é elevado a um caráter metafórico excepcional (Foto: Reprodução)

O filme é elevado a um caráter metafórico excepcional (Foto: Reprodução)

Lançado em 2004, Eternal Sunshine of the Spotless Mind, que chegou ao Brasil com o fidedigno título Brilho Eterno de uma Mente Sem Lembranças, é um filme do gênero drama do cineasta francês Michel Gondry em parceria com o estadunidense Charlie Kaufman, roteirista muito conhecido por obras conceituais como Being John Malkovich, de 1999, e Adaptation, de 2002.

Protagonizado por Joel (Jim Carrey) e Clementine (Kate Winslet), que se somam a outros personagens interpretados por famosos como Elijah Wood, Kirsten Dunst e Mark Ruffalo, Eternal Sunshine of the Spotless Mind é um filme interessante sobre a ficcional possibilidade de desconstrução das emoções e sentimentos. Após um conflito amoroso, Clementine decide se submeter a um procedimento neurocirúrgico para apagar Joel de sua memória. A iniciativa parte de uma premissa e anseio de idealização instintivamente humana após grande, mas natural experiência de sofrimento.

Ao saber do ato de Clementine, Joel opta por fazer o mesmo. Durante o processo se arrepende e começa uma batalha psicológica e emocional para preservar fragmentos de sua vida com a namorada. A dor se intensifica ainda mais conforme a mulher se desvanece da memória de Joel. Momentos vividos a dois tornam-se vazios quando o homem é relegado a ser o único personagem de uma realidade que só poderia ser intensa se vivida de forma compartilhada. Tudo parece desértico, difuso e disperso em um contexto mental fugidio e atroz, onde a dor desequilibra a essência humana e submete o homem ao desespero das incertezas da própria existência.

Joel e Clementine chegam a representar a desmaterialização do amor (Foto: Reprodução)

Joel e Clementine chegam a representar a desmaterialização do amor (Foto: Reprodução)

A introspecção leva Joel ao cume da solidão, assim o filme se eleva a um caráter metafórico excepcional. Juntos, Joel e Clementine, inertes em mundos paralelos, mas dissonantes, chegam a representar a desmaterialização do amor. É algo tão dolorosamente humano que lança turbilhões de luz sobre as falhas da natureza social, principalmente a individualização motivada pela insegurança e franca possibilidade de incompreensão. No fundo, tudo é sustentado como consequência de uma comunicação canhestra.

Em suma, Eternal Sunshine of the Spotless Mind é uma obra bela e triste que mistura humanismo, existencialismo e surrealismo. Muito bonita ao traduzir a interiorização e as dores da alma com requinte poético, mas sensivelmente tétrica em premeditar e denunciar o princípio do fim das boas e tradicionais relações humanas. Afinal, o filme parece se embasar na ideia de que em situações de conflito amoroso e existencial cresce o número de pessoas que preferem reclamar de não ter acesso a uma tecnologia capaz de eliminar os desconfortos que as afligem. Não se dão conta que melhor seria ponderar e tentar lidar de frente com as situações mais complicadas.