David Arioch – Jornalismo Cultural

Jornalismo Cultural

Archive for the ‘caça’ tag

Valdir Colatto e Luiz Carlos Heinze querem “arrendar” terras indígenas

without comments

Em 2016, o Estadão publicou a série de reportagens Terra Bruta, revelando que embora seja proibido criar gado em área indígena, fazendeiros já têm mais de 93 mil cabeças de gado na terra indígena dos javaé e carajás, na Ilha do Bananal (TO). Como se isso fosse pouco, atualmente, duas lideranças da Bancada Ruralista, Valdir Colatto (PMDB/SC) e Luiz Carlos Heinze (PP/RS) estão tentando viabilizar um projeto que permite o “arrendamento” de terras indígenas. Colatto também é o deputado federal responsável pelo projeto que tenta legalizar a caça de animais selvagens no Brasil.

Written by David Arioch

February 8th, 2018 at 7:36 pm

Brian May: “Porcos, bois e cordeiros são criados puramente como mercadorias, prontos para o brutal matadouro”

without comments

“Diariamente, me torno impopular com várias pessoas, que ainda acreditam que os animais foram colocados na Terra para serem usados e abusados pelos seres humanos” (Foto: Brian May Official Website)

No dia 5 de dezembro de 2010, o jornal britânico Sunday Express publicou um artigo intitulado Why I have to speak for the Animals (Por que eu tenho que falar pelos animais), assinado por Brian May, guitarrista e compositor da lendária banda de rock Queen, além de astrofísico. No texto, May, que há muito tempo se tornou um ativista pelos direitos animais, fez duras e contundentes críticas à exploração animal, versando sobre a redução de animais a alimentos, caça e experiências laboratoriais. Logo abaixo, segue o artigo traduzido na íntegra:

Alguém me perguntou recentemente como eu gostaria de ser lembrado. We Will Rock You? Tocando no Palácio de Buckingham? Eu disse, dada a escolha, que prefiro ser lembrado por acelerar o fim da crueldade contra os animais e por ter semeado as sementes de verdadeiro respeito em relação a maneira como tratamos todas as criaturas. Parece uma mudança radical de carreira para mim, não é? Meu amor pela música é inabalável, juntamente com meu amor pela astrofísica, estereoscopia e Photoshop, mas o meu amor pelos animais me levou a deixar a minha guitarra em segundo plano para tentar dar voz aos animais. Então, diariamente, me torno impopular com várias pessoas, que ainda acreditam que os animais foram colocados na Terra para serem usados e abusados pelos seres humanos. Humano é o nome que damos a nós mesmos, e há um adjetivo derivado disso, implicando compaixão, sensibilidade e justiça: a palavra “humano”.

Ao longo da história, o homem tentou justificar o seu comportamento em relação a outros humanos e outros animais. Na Era do Iluminismo, ele justificou que mulheres eram queimadas por estarem possuídas pelo diabo. Ao escrever a Constituição dos Estados Unidos, ele justificou que os escravos deveriam ser mantidos porque “eles não eram iguais a nós”, e que a sociedade entraria em colapso sem a escravidão. Os homens justificaram tantos comportamentos terríveis: tortura de prisioneiros políticos, degradação das mulheres, abuso de crianças, vitimização das minorias e a quase erradicação dos povos nativos.

Esses abusos horríveis são vistos hoje de forma vergonhosa. Como poderíamos pensar que por um ser humano ter uma aparência diferente, ele não tem sentimentos, direito à liberdade, comida, respeito e igualdade de oportunidades? Outra revolução está acontecendo agora. Começamos a perceber que outras criaturas neste planeta têm tanto direito de viver, respirar e aproveitar o seu tempo quanto nós. Mas estamos no primitivo início dessa realização. Enquanto escrevo, milhões de animais estão sofrendo nas mãos dos seres humanos. A indústria animal (leia “Comer Animais”, de Jonathan Safran Foer) envolve o abuso de milhões de criaturas todos os dias, com sentimentos semelhantes aos nossos.

Ian Redmond, zoologista renomado mundialmente, diz que há uma geração atrás, qualquer biólogo que atribuísse “sentimentos e comportamento maternos” a uma macaca abraçando a sua prole seria acusado de antropomorfismo e jamais seria levado a sério novamente como cientista. Esse não é mais o caso. O mapeamento recente dos genomas revelou a surpreendente semelhança entre a composição humana com a dos primatas, e apenas um pouco menos semelhante a de mamíferos como ratos e camundongos. Agora não é mais aceitável a ideia de que os animais agem simplesmente por instinto enquanto os “seres humanos pensam e se comportam racionalmente”.

Em 2004, depois de 100 anos desde que pessoas iniciaram um trabalho de cuidados aos animais, o Hunting Act foi aprovado neste país [Inglaterra], proibindo o “esporte” covarde e desprezível da caça à raposa, juntamente com a caça às lebres e a caça aos cervos com matilhas. Recentemente, vimos a indignação do público em relação ao assassinato sem sentido de um magnífico veado, e banalmente por causa dos seus chifres. Mas esta é apenas a ponta do iceberg; milhões de criaturas altamente inteligentes, mais inteligentes do que cães e gatos que esta nação tanto ama, estão sendo abusadas na Grã-Bretanha neste momento.

Porcos, bois e cordeiros são criados puramente como mercadorias, prontos para o brutal matadouro. Frangos e galinhas são criados em gaiolas sem a indulgência de uma vida ou morte decente [natural]. Todos os animais de criação são agora espécies criadas pelo ser humano para atender a demanda por mais produtividade e mais e mais dinheiro sem qualquer preocupação com o seu bem-estar. Aqueles perus, que serão abatidos neste Natal, nunca irão andar [em referência ao fato de que muitos engordam tanto em pouco tempo que são incapazes de se locomover, além de sofrerem com as articulações fragilizadas].

Outras aves são criadas em gaiolas, e depois libertadas para viverem uma vida lamentavelmente curta que termina com tiros de espingarda, só por diversão. Milhões de primatas, que são nossos parentes mais próximos, são usados em experiências, mantidos em gaiolas em laboratórios, campos de concentração que chamamos de “humano” [Brian May faz uma crítica a banalização do termo ‘humane’, normalmente usado na tentativa de banalização do sofrimento animal. O termo humano traz embutida a ideia de que um animal é bem tratado antes de morrer, o que é uma contradição em essência, já que nenhuma criatura explorada morre feliz]. E temos um governo que quer trazer de volta a caça às raposas (alegando que isso é humano, pedindo “provas” de que as raposas sofrem).

Referência

May, Brian. Why I have to speak for the animals. Sunday Express. Publicado em 5 de dezembro de 2010.  





Written by David Arioch

November 30th, 2017 at 6:44 pm

A caça

without comments

Um homem encontrou um caçador acompanhado do filho na mata. Eles arrastavam com dificuldade o cadáver de uma onça-pintada.

— Querem ajuda?
— Sim, por gentileza.

Depois de percorrerem mais de um quilômetro, pararam ao lado de uma caminhonete. O caçador pediu que o homem fotografasse ele e o filho com a onça inanimada.

— Não posso fazer isso.
— Por quê?
— Pelo mesmo motivo que esse animal jamais exibiria o seu filho aos dele como se fosse um troféu.
— Você é louco? Isso é uma onça, não uma pessoa.
— O senhor tem razão. É justamente por não ser uma pessoa que ela não faria isso. Não goza dessa estranha capacidade.
— A propósito, por que mataram esse animal e o que farão com ele?
— Matamos porque é matreira. Já nos avisaram que ela tem invadido chácaras, sítios e fazendas da região.
— Quem disse ao senhor?
— Um sujeito que mora naquele sítio a leste.
— Isso é intrigante.
— Por quê?
— Porque é lá que eu moro.
— O que pretende fazer com a onça?
— Curtir o couro, fazer um tapete, um churrasco. Dizem que carne de onça tem gosto de lombo de porco. Vamos experimentar.
— O senhor tem comida em casa?
— Sim…
— Fartura?
— Sim…
— Então por que comer a carne desse animal? O senhor já viu outro ser vivo arrancar o couro de alguém para servir apenas para limpar-lhe os pés?
— Então farei um casaco.
— Imagino que o senhor tenha blusas e jaquetas em casa…
— Farei um cobertor.
— O senhor tem passado frio atualmente?
— Não…
— Imagino.
— Amigo, farei o que eu quiser. Não me interessa sua opinião. Só aceitei ajuda para carregá-la.
— Tudo bem. Mas o que o senhor ensina ao seu filho fazendo isso?
— Ensino que é importante estar preparado pra tudo.
— Humm…
— E o senhor pensa em viver em uma área de mata fechada?
— Não…
— Então em qual circunstância seu filho teria que matar um animal desses?
— Não interessa.
— O que você aprendeu com seu pai hoje?

O menino ficou em silêncio.

— Chega dessa conversa. Vá cuidar de sua vida.
— Tudo bem, senhor.

Entre as ramagens, um filhote de onça-pintada ameaçava se aproximar.

— O senhor tem uma dívida. Se um dia aquele filhote lhe cobrar, o senhor não poderá reclamar. 

O caçador riu, mas deixou a onça e partiu.





Written by David Arioch

October 19th, 2017 at 12:05 am

Uma breve perspectiva da caça

without comments

Família de leopardos (Foto: Reprodução)

Imagine, você de boa com sua família e, de repente, alguém, sem mais nem menos, manda um tiro nas suas costas. Você deita ali mesmo agonizando enquanto seus filhos tentam te socorrer – se não fugirem desesperados, dependendo da circunstância. Essa é a perspectiva da caça por parte de quem tem algum tipo de sensibilidade pelos animais.





Written by David Arioch

April 29th, 2017 at 2:16 pm

Kid Rock, matando animais por diversão

without comments

Kid Rock com o puma que ele matou em 2015

Em 1998, vi um cara na MTV cantando uma música chamada “Cowboy”. Seu nome? Kid Rock. Nunca gostei muito da sua música, mas creio que sua popularidade começou naquele ano. O que eu não sabia até recentemente, mas que não me surpreendeu tanto, é que ele gosta de caçar, e inclusive paga por isso. Em uma das fotos publicadas pelo próprio músico, ele aparece com um puma que matou apenas por diversão. Kid Rock já saiu algumas vezes em caçadas com Ted Nugent, que também se orgulha de seus feitos e os publica na internet.





Written by David Arioch

March 28th, 2017 at 7:21 pm

R. Lee Ermey, nascido para matar?

without comments

Foto que R. Lee Ermey publicou em sua página no Facebook em 2014

Nas primeiras cenas de Full Metal Jacket (Nascidos Para Matar), do mestre Stanley Kubrick, dezenas de jovens estão em um campo de treinamento onde se submetem aos mandos e desmandos do sargento Hartmann (R. Lee Ermey). Embrutecido pelo meio, a expressividade do personagem é assombrosa. Politicamente incorreto, o sargento traça comparativos entre fuzileiros navais e criminosos, deixando transparecer a ideia de que um bom soldado sempre está apto a matar alguém com naturalidade, assim como um assassino.

Carrasco incondicional, Hartmann escolhe o jovem Gomer Pyle (Vincent D’Onofrio) como vítima logo no início do filme. Gordinho, o rapaz é estigmatizado como símbolo do fracasso em um universo onde a boa forma é enaltecida. As frases ofensivas do verborrágico sargento percorrem os tímpanos de Pyle com a rispidez de uma lâmina. Aos poucos, o jovem tenta se moldar de acordo com o ambiente e a necessidade de sobrevivência. E mais, sofre uma lavagem cerebral tão truculenta que a sensibilidade desaparece e dá vazão a um hermético comportamento psicopata.

Quando assisti ao clássico de Kubrick, imaginei que aquele comportamento do sargento Hartmann, enaltecendo a violência, fosse somente parte de um personagem. Anos depois, descobri que não. O ator que o interpreta, R. Lee Ermey realmente gosta de violência, mas contra animais não humanos. É possível encontrar muitas fotos dele na internet caçando animais selvagens simplesmente por diversão.

Contribuição

Este é um blog independente, caso queira contribuir com o meu trabalho, você pode fazer uma doação clicando no botão doar:





Written by David Arioch

March 28th, 2017 at 7:08 pm

A falta de sentido da caça

without comments

O que leva uma pessoa a viajar milhares de quilômetros para matar um animal em seu habitat? Como um sujeito desse pode sentir-se forte ou feliz por assassinar um ser vivo que nunca representou ameaça à sua vida? É um dos maiores exemplos de soberba e estupidez. Qualquer dia, quero escrever sobre o perfil de caçadores, porque ninguém me tira da cabeça que tem algo de errado com essas pessoas, e quero saber exatamente o que é.

Written by David Arioch

January 25th, 2017 at 11:43 pm

“Me senti como se eu tivesse cometido um assassinato”

without comments

Walking the Line – Pheasant Hunting, de Michael Sieve

O britânico William Harris, um dos caçadores mais famosos de seu tempo, conta que durante os anos de 1836 e 1837 viajou para longe no coração da África com a mera intenção de perseguir animais, algo que ele definia como uma de suas paixões. Em uma passagem de sua biografia, publicada em Bombaim em 1838, ele descreve como atirou em seu primeiro elefante, uma fêmea.

Na manhã seguinte, indo procurar seu novo alvo, ele descobriu que todos os elefantes tinham fugido da localidade, exceto um jovem elefante que passou a noite toda ao lado de sua mãe morta. Vendo os caçadores, o animal não sentiu medo e, com os mais claros e vivos sinais de tristeza desconsolada, caminhou até eles. Então moveu seu minúsculo tronco como se suplicasse por ajuda. Sobre o episódio, registrou Harris em sua biografia: “Eu estava cheio do mais verdadeiro remorso pelo que tinha feito e me senti como se eu tivesse cometido um assassinato.”

 

Contribuição

Este é um blog independente, caso queira contribuir com o meu trabalho, você pode fazer uma doação clicando no botão doar:





Written by David Arioch

January 25th, 2017 at 11:42 pm

A caça à onça em Cidade Gaúcha

with 3 comments

O dia em que Fernandez e Euclides quase foram mortos por uma onça

Onça caçada por Fernandez e Euclides em 1957 (Arquivo: Ordem do Carmo)

Em Cidade Gaúcha, no Noroeste do Paraná, os pioneiros Fernandez e Euclides decidiram caçar uma onça que entrou no chiqueiro de Fernandez e comeu alguns porcos em 1957. O que os caçadores não esperavam é que a onça, matreira como era, não cairia tão fácil na emboscada.

Nos anos 1950, Cidade Gaúcha, que surgiu para abrigar migrantes do Sul do Brasil, era um pequeno vilarejo envolto por mata primitiva. Um lugar onde a derrubada de mata e as queimadas faziam parte do cotidiano. Em meio a tal cenário já despontavam as onças, animal que foi considerado o mais perigoso da fauna noroestina.

Na descrição dos pioneiros de Cidade Gaúcha, eram “enormes gatos” com um “miado” díspar e grave que ressoava pelo povoado durante a noite e podia ser ouvido a quilômetros de distância. Chamava atenção pela estatura, pois grande e pesada ainda conseguia ser veloz. O animal se pendurava nos galhos das árvores mais altas e lá ficava imóvel por horas, até o momento oportuno de dar o bote.

Os pioneiros Euclides e Fernandez relataram décadas atrás que era muito complicado matar uma onça. No entanto, o juízo sempre cedia à cólera quando um colono chegava em casa e se deparava com alguns animais mortos ou levados pela felina. Exemplo foi o colono Fernandez que perdeu parte da criação de porcos para a onça. Irascível, o pioneiro previu o retorno do animal conhecido por dizimar criações de suínos, bovinos e equinos.

Fernandez decidiu caçá-la antes que levasse o que sobrou da criação. Contou com a parceria do amigo Euclides, caçador que há muito tencionava eliminá-la. O fato das baixas nas criações serem sempre provocadas pelo mesmo animal despertou um misto de ódio, excitação e senso de justiça. Não reconheciam que o invasor por aquelas bandas era o homem e não a onça.

A caçada malsucedida

Tudo foi preparado previamente, e no dia seguinte pela manhã, Euclides e Fernandez, acompanhados de dois cães de caça, se embrenharam na mata. Depois de percorrerem alguns quilômetros a pé, soltaram os cachorros para farejarem os rastros da onça. Logo começaram a rosnar e latir, até que o silêncio tomou conta do lugar. Um dos cães sumiu e o outro retornou ofegante e assustado. Para Fernandez, só podia ser um sinal de que a “inimiga” estava próxima. Ajeitaram os gatilhos das espingardas e, sem piscar, deram alguns passos até ouvirem o som que emanava dos galhos de uma árvore. Lá estava a felina, como se os aguardasse, atenta a cada movimento dos caçadores.

Quando Fernandez deu o primeiro tiro o animal saltou. Com as patas, dilacerou seus braços e ombros – na região da escápula e do úmero. O estrago foi tão grande que o homem sentiu as garras da onça roçando os ossos. O gatilho da espingarda de Euclides falhou no momento do ataque. Desesperado ao vê-la sobre o companheiro, o caçador tirou uma peixeira da cintura e a golpeou. Mesmo ferida, a felina atacou os dois braços de Euclides, destruiu a espingarda e depois fugiu pela mata.

Frei Ulrico Goevert em Cidade Gaúcha no dia da caçada (Arquivo: Ordem do Carmo)

Apesar de muito machucados, os dois foram encontrados por colonos e levados para o hospital de Rondon. Lá, segundo o frei alemão Ulrico Goevert, que vivia em Paranavaí, estavam com febre alta e braços e ombros atados.

Dias depois, os colonos voltaram à rotina. Mas só até a mulher de Fernandez revelar que a onça levou ‘o seu melhor porco”. “A raiva o cozinhou por dentro. Parecia que a vergonha causada pela onça doía mais que o ferimento nos ombros”, comentou Frei Ulrico no livro “Histórias e Memórias de Paranavaí”. À época, o padre estava participando de uma missão religiosa em Rondon e Cidade Gaúcha.

Uma nova emboscada

Sem pestanejar, Fernandez pegou novamente a espingarda, a municiou e foi até a casa de Euclides convidá-lo para a caçada. O amigo aceitou, ajeitou a peixeira na cintura e seguiu o companheiro. De acordo com os caçadores, era preciso mais cautela porque a onça ferida sempre foge do perigo. Acompanhados por um cão de caça, seguiram as pegadas do animal e o avistaram devorando o pernil de um leitão. Rapidamente, Fernandez puxou o gatilho e acertou o peito da onça que ainda tentou resistir, mas faleceu.

A primeira coisa que fizeram foi medir a felina. Tinha 2,64m de comprimento e pesava mais de 100 quilos. Orgulhosos, Fernandez e Euclides tiraram várias fotos ao lado da onça-pintada morta. “Quando vi a magnífica pele do animal já curtida brotou em mim o desejo de pendurá-la no Seminário Carmelitano Teresiano de Vocações Tardias, em Bamberg [no Estado da Baviera, na Alemanha], para despertar nas novas gerações de missionários a alegria da caça à onça”, destacou o padre alemão.  A pele da felina foi leiloada por cerca de dois mil cruzeiros e o dinheiro doado para o Hospital de Rondon que atendia principalmente os menos favorecidos.

Saiba Mais

Nos anos 1950, alguns pioneiros pagavam muito dinheiro para caçadores livrarem suas propriedades das onças.

Observação

Como está claro no texto, nem mesmo os mais civilizados tinham consciência de que o homem era o verdadeiro invasor.

As caçadas do frei Estanislau

with 2 comments

 Hobby do frade era se aventurar na selva de Paranavaí

Frei Estanislau se mudou para Paranavaí em 1951 (Acervo: Ordem do Carmo)

Frei Estanislau é um personagem histórico de Paranavaí. Se mudou para o Noroeste do Paraná em 1951 e viveu aventuras inesquecíveis numa época em que a mata virgem envolvia a cidade.

O pernambucano Agripino José de Souza, conhecido como frei Estanislau, deixou muitas lembranças. Carismático, o frade tinha o poder de cativar os mais jovens. “Ele brincava com as crianças como se pertencesse a elas, e os pequenos o obedeciam como se fosse o pai deles”, relatou o frei alemão Ulrico Goevert no livro “Histórias e Memórias de Paranavaí”.

O frade foi noviço do frei Ulrico na Ordem do Carmo, em Recife, Pernambuco, onde recebeu o convite para vir a Paranavaí trabalhar com o frade alemão. Chegou aqui em outubro de 1951 e estranhou as dificuldades em se conseguir carne. “Só havia carne na cidade uma vez por semana”, frisou Goevert.

Foi aí que Estanislau disse ao frade alemão que conseguiria carne sem gastar nenhum centavo. No dia seguinte, o pernambucano saiu cedo e retornou às 20h. Frei Ulrico se surpreendeu ao ver a mochila cheia de aves e outros pequenos animais caçados por frei Estanislau. “Ele mesmo preparou e por vários dias tivemos uma mesa farta. Eu lhe dava licença para caçar duas vezes por mês”, revelou Goevert. Além de pássaros silvestres, o frade caçava veados, queixadas e pacas.

Um fato jamais esquecido pelo frei pernambucano foi uma caça a um grupo de macacos que comiam todo o milho da plantação de um colono local. “Acertei um dos animais e ele caiu ferido aos meus pés. Gritava igualzinho a uma criança e ainda estendia as mãozinhas ensanguentadas, pedindo ajuda. Foi terrível! Nunca mais atiro em macaco, mesmo que roubem todo o milho”, desabafou frei Estanislau quando retornou para casa.

Frade pernambucano (segundo da esquerda à direita) era ótimo caçador (Acervo: Ordem do Carmo)

A caça era o grande hobby do frade pernambucano que sempre reunia um grupo para se embrenhar na mata virgem do Noroeste Paranaense. Iam a cavalo e as caçadas duravam de dois a três dias. No entanto, um acontecimento desestimulou o frei. “Uma vez, amarramos os cavalos nas árvores e providenciamos as coisas para passar a noite. De repente, escutamos o rugido de uma onça. Ficamos muito assustados e pegamos nossas espingardas. Duas luzes esverdeadas brilharam e desapareceram”, contou frei Estanislau.

Com o susto, o frade e os companheiros não conseguiram se mover. Mais tarde, ouviram mais um esturro de onça. A experiência foi tão impactante que ninguém dormiu. Desde então, as caçadas se tornaram cada vez mais raras e o frade pernambucano nunca mais dormiu na mata.

As velas do frade caçador

Nos anos 1950, nenhuma casa comercial de Paranavaí vendia velas, então com a proximidade do feriado de Páscoa, o frei Estanislau teve a ideia de buscar cera na selva que cercava a cidade, onde havia muitas colmeias de abelhas silvestres. “Ele foi para o mato na Semana da Paixão. Com a ajuda de dois amigos, derrubou em dois dias uma peroba parecida com o carvalho alemão”, assinalou frei Ulrico.

Da colmeia de um metro de diâmetro que estava próxima ao topo da árvore extraíram cinco litros de mel. O restante escorreu pelo chão com o impacto da queda. Segundo o frade alemão, os três caçadores fizeram uma bola enorme com a cera derretida em uma caçarola.

Frei Estanislau (sentado à esquerda) passava até três dias na mata (Acervo: Ordem do Carmo)

“Na noite do Domingo de Ramos, o frei Estanislau voltou para casa com o rosto tão inchado que nem o reconheci. Levou muitas ferroadas. Mesmo assim, ele sorriu e disse que trouxe quase dez quilos de cera”, enfatizou Goevert. O frade pernambucano confeccionou as velas e deixou toda a igreja iluminada. Pioneiros lembram que sentiam de longe o cheiro agradável de mel tomando conta da igreja no Domingo de Páscoa.

Um presépio à brasileira

A primeira comemoração pública de Natal realizada em Paranavaí foi preparada pelo frei Estanislau. Para a criação do presépio, o frade foi até a mata acompanhado de crianças e adolescentes para buscar matéria-prima. “Ele fez um presépio com 24 figuras de 10 cm de altura. Quando a cortina caiu durante a Missa do Galo não gostei muito do que vi. Mas percebi que a população adorou e contemplou”, salientou frei Ulrico.

Logo o frade alemão se deu conta que a obra foi feita de acordo com as tradições brasileiras. “Por ser alemão, num primeiro momento achei que muitas coisinhas não tinham nada a ver com o presépio de Belém. Depois refleti e percebi que o presépio não foi feito para um missionário alemão, e sim para o povo que mora aqui”, pontuou frei Ulrico que parabenizou o frei Estanislau durante a celebração.

Frei Estanislau, Dom Geraldo, frei Ulrico e as crianças que participaram da primeira celebração de Natal (Acervo: Ordem do Carmo)

No mesmo dia, o frade pernambucano reuniu cem crianças vestidas de branco para levarem o Menino Jesus de 40 centímetros, ladeado por duas velas, até a igreja. “Enquanto os demais cantavam ‘Noite Feliz’, de acordo com a velha melodia alemã, coloquei Jesus na manjedoura”, ressaltou o frei alemão.

Frei se dedicou à Vila Operária

Agripino José de Souza, conhecido como frei Estanislau, chegou a Paranavaí durante a Festa de Santa Terezinha, no dia 3 de outubro de 1951. Conforme informações do livro “Histórias e Memórias de Paranavaí”, o frei Ulrico Goevert ficou muito feliz em recebê-lo. “No dia seguinte, fomos ao comércio comprar um fogão a prestação, utensílios para a cozinha e roupas de cama”, lembrou o frade alemão.

Frei Estanislau construiu igreja, salão de festas e paróquia da Vila Operária (Acervo: Ordem do Carmo)

Estanislau ajudou Goevert até dezembro de 1955, quando deixou a Ordem do Carmo para trabalhar no Rio de Janeiro. Retornou a Paranavaí, concluiu o ginásio na Escola Paroquial, atual Colégio Nossa Senhora do Carmo, e o clássico no Colégio Estadual de Paranavaí (CEP). Em 1970, se mudou para Curitiba, onde estudou filosofia e teologia.

Se tornou sacerdote aos 50 anos, em 16 de março de 1975. Então retornou a Paranavaí, onde se dedicou à Vila Operária. frei Estanislau construiu a igreja, o salão de festas e a paróquia do bairro. Em 1988, foi convidado a trabalhar em Querência do Norte, até que faleceu em 17 de maio de 1989. O corpo do frade foi trazido a Paranavaí e sepultado na cripta da Igreja São Sebastião.

Frases do frei Ulrico Goevert sobre o frei Estanislau

“Frei Estanislau tinha uma alma sem mácula e um coração de ouro.”

“Nunca esquecerei como preparou a primeira festa de Natal.”

“Com o seu humor sadio, me tirou muitas preocupações da cabeça. Nas dificuldades, era tão engenhoso que eu fiquei muitas vezes admirado.”