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Sobre a realidade da produção industrial de carne suína

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Sistema industrial impõe privação intensa aos animais

A realidade da produção industrial de carne suína pode ser chocante para quem consome carne e não tem a mínima ideia de como funciona esse sistema. Muitas porcas grávidas são aprisionadas como se fossem culpadas de algo, quando na realidade a privação existe simplesmente porque são animais condicionados a nascer, viver com brevidade e morrer distantes de uma vida natural. Há situações degradantes em que elas dormem sobre as próprias vezes em gaiolas apertadas.

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Written by David Arioch

July 19, 2017 at 1:19 am

Plotino: “Os animais têm sentimentos, portanto sentem prazer e dor”

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Plotino se recusava a consumir medicamentos com ingredientes de origem animal

Vários seguidores de Plotino não eram apenas vegetarianos, mas também vegetarianos éticos

Mestre de Porfírio, seu discípulo que escreveu “Da Abstinência do Alimento Animal”, considerada por inúmeros pesquisadores como a obra mais importante da Grécia Antiga sobre a abstenção do consumo de animais, Plotino foi um filósofo neoplatônico que melhor assimilou e aperfeiçoou não apenas os ensinamentos de Platão, mas também de Pitágoras e Plutarco, autor de “Do Consumo da Carne”, outra obra igualmente relevante na discussão sobre o tema.

Um asceta moderado, Plotino ficou famoso pela autoria das “Enéadas”, obra fundamental da filosofia ocidental que reúne 54 tratados em seis capítulos. Compilada e editada por Porfírio no ano de 270, as “Enéadas” são baseadas principalmente no conteúdo de palestras e debates de Plotino com seus alunos ao longo de 17 anos.

O filósofo neoplatônico estudou em Alexandria e na Pérsia antes de se mudar para Roma, onde fundou a sua própria escola. No livro “Sins of the Flesh: A History of Ethical Vegetarian Thought”, o pesquisador Rod Preece afirma que Plotino, que provavelmente era de origem romana e nasceu no Egito, foi protovegetariano a maior parte de sua vida. Defensor do ascetismo moderado, Plotino começou a se questionar sobre os hábitos alimentares da época que, segundo ele, tinham grande influência sobre o comportamento e a personalidade humana, incluindo sua relação com a vida e o mundo.

Nas “Enéadas”, ele declara que os animais têm sentimentos, portanto sentem prazer e dor. Na perspectiva de Plotino, a dor é a aisthesis, a percepção do corpo despojado. Ele usa o conceito de pathos como representação da empatia, do sentimento e da ligação afetiva quando diz que, conscientes, somos sensibilizados diante de uma situação em que a vítima morre ou sofre desnecessariamente; como é o caso dos animais não humanos há muito explorados. Quem também defende a ideia de que Plotino foi um importante nome na discussão do que se tornaria o vegetarianismo ético é o pesquisador Gordson Lindsay Campbell, editor de “The Oxford Handbook of Animals in Classical Thought and Life”.

“Embora não haja provas conclusivas, o estrito ascetismo de Plotino provavelmente incluiu o vegetarianismo, mesmo que o seu biógrafo, Porfírio, não tenha conseguido escrever por Plotino em relação ao assunto”, registrou Preece. Apesar disso, o que reforça a ideia de que Plotino realmente se voltava para a questão do que futuramente seria os direitos animais era a sua recusa em consumir medicamentos com ingredientes de origem animal, conforme informações do livro “Sins of the Flesh: A History of Ethical Vegetarian Thought”.

Preece afirma que vários seguidores de Plotino não eram apenas vegetarianos, mas inclusive vegetarianos éticos. E o argumento fundamentado nas ideias do filósofo neoplatônico, e que teve continuidade com Porfírio, é de que o ser humano precisava mudar a sua relação com os animais e se libertar das calamidades do corpo. Assim, é justo dizer que os ensinamentos de Plotino influenciaram Porfírio a escrever “Da Abstinência do Alimento Animal”, obra também influenciada por Pitágoras, sobre quem o discípulo de Plotino escreveu uma biografia.

Em “Vegetarianism – A History”, Jon Gregerson diz que para Plotino a única forma da humanidade alcançar a realidade suprema seria tratando todos os animais com respeito e compaixão. Ou seja, reconhecendo primordialmente o direito à vida, sem os prejuízos da exploração humana. “Porfírio deu continuidade ao trabalho de Plotino, apresentando evidências observacionais e históricas em defesa do vegetarianismo e da racionalidade dos animais”, enfatizou Nathan Morgan, autor de “The Hidden History of Greco-Roman Vegetarianism”. Influenciado por Plotino, Porfírio qualificou o consumo de carne como um encorajador da violência. Ademais, apresentou ideias antes defendidas pelo seu mestre neoplatônico de que os animais têm capacidade de raciocínio. Assim sendo, não faltam razões para estender a justiça a eles.

Kerry S. Walters e Lisa Portmess, autores de “Religious Vegetarianism: From Hesiod to the Dalai Lama”, apontam Plotino como o responsável pela consciência vegetariana de Porfírio, que também se inspirava em Pitágoras e Empedócles. A obra “Da Abstinência do Alimento Animal”, do filósofo neoplatônico foi uma reação argumentativa ao abandono do filósofo Firmus Castricius, que deixou a Escola de Plotino para renunciar à dieta vegetariana e se juntar aos cristãos.

Do livro 1 ao livro 4 de “Da Abstinência do Alimento Animal”, Porfírio defendendo o estilo de vida apregoado pela Escola de Plotino, assinala que o consumo de carne é intemperante, logo incompatível com a vida filosófica. Ele argumenta que o sacrifício de animais é ímpio, que os animais merecem um tratamento justo e que os sábios do passado condenavam o consumo de carne.

Embora o mestre de Plotino não tenha falado abertamente do vegetarianismo na obra “A República”, tudo leva a crer que Platão via com bons olhos a abstenção do consumo de carne. Prova disso é o fato de que muitos neoplatônicos se identificavam com uma vida livre do consumo de carne. “Publicamente, sua dieta era aceitável como parte do verdadeiro ascetismo. Portanto, não atraiu controvérsia”, pontuou Colin Spencer em “The Heretic’s Feast: A History of Vegetarianism”.

Outro fato revelador é que no século 3 Plotino conseguiu aprovação e apoio do Imperador Galiano para construir o que poderia ter sido a primeira cidade vegetariana ocidental, e que teria como referência a República de Platão. O seu nome seria Platonópolis. Mas o sonho de Plotino esbarrou no Senado, que vetou a sua proposta. Apesar disso, seu trabalho teve continuidade com Porfírio e outros filósofos que mais tarde influenciaram o vegetarianismo ético e a discussão em torno do que daria origem aos direitos animais.

Referências

Plotino. The Enneads: Abridged Edition. Penguin Classic (1991).

Porfírio. Gillian Clark. On Abstinence from Killing Animals (Ancient Commentators on Aristotle). Bristol Classical Press; Reprint Edition (2014).

Spencer, Colin. The Heretic’s Feast: A History of Vegetarianism. UPNE. First Edition (1995).

Preece, Rod. Sins of the Flesh: A History of Ethical Vegetarian Thought. Páginas 112-113. UBC Press (2017).

Gregerson, Jon. Vegetarianism, a History. Jain Publishing Company (1995).

Walters, Kerry; Lisa Portmess. Religious Vegetarianism: From Hesiod to the Dalai Lama. State University of New York Press (2001).

Campbell, Gordon Lindsay. The Oxford Handbook of Animals in Classical Thought and Life (Oxford Handbooks). Oxford University Press; First Edition (2014).

Walters, Kerry; Lisa Portmess. Ethical Vegetarianism: From Pythagoras to Peter Singer. State University of New York Press; Reprint Edition (1999).

The Hidden History of Greco-Roman Vegetarianism

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Mate Coma

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“Que demais esse lugar. Dizem que os lanches deles são os melhores da região”

Arte: Dana Ellyn

Inauguraram uma lanchonete fora da cidade. Mate Coma. Ioan e Colomano percorreram pouco mais de 15 quilômetros até chegarem ao local. Boa vegetação nativa nos entornos, arborismo, tirolesa, frescor; cães, gatos e coelhos brincando às margens de uma lagoa.

— Que demais esse lugar! – disse Ioan.

— Show mesmo! Não conhecia isso aqui – comentou Colomano.

— Dizem que os lanches deles são os melhores da região.

— Também fiquei sabendo disso. Veremos se é verdade.

Lá dentro, a iluminação não era das melhores. Intencional. Os fregueses comiam como se não houvesse amanhã. Normal. Ian e Colomano foram ignorados. Ninguém se importava com quem entrava ou saía. Sem piscar, um homem com um lanche desmesurado entre as mãos o devorava; vez ou outra, roçando a língua pela carne malpassada.

— Delícia! – monologou, ignorando as pessoas à sua volta.

— Tem sangue na roupa daquele homem, e não é pouco. Será que ele sabe disso?

— Não tenho a mínima ideia. Seria uma boa avisá-lo?

— Pode ser.

Ioan se aproximou, cutucou o ombro do homenzarrão e ouviu um grunhido.

— Senhor, com licença, me perdoe a intromissão, mas só quero avisar que tem sangue na sua roupa.

— É?

— Sim…

Nenhuma palavra, risos, bafo quente. O homem virou as costas e continuou mastigando.

— Parece que as pessoas aqui só querem comer. Nada mais importa.

— Bom, isso aqui é uma lanchonete, não é mesmo? — ironizou Colomano.

— Pois é…

Diante de uma mesa, Ioan pegou o cardápio. Grande variedade de carnes. De cavalo a jacaré. Na última página, um aviso – “Conseguimos qualquer tipo de carne, independente de espécie.”

— Isso é interessante — concluiu Colomano.

Ao lado da descrição de cada lanche havia sugestões de abate, de como garantir que as partes mais nobres da carne não sejam maculadas durante e após a execução de cada animal.

— O que significa isso? E essas ilustrações de abate? Isso é realmente estranho — reclamou Ioan.

— Será? Acho que não. Me parece algo bem honesto, diferente do que vemos por aí.

— Sei lá, cara! Isso parece demais pra minha cabeça.

Em uma vitrola perto do balcão tocava “Everybody Hurts”, do REM, enquanto os fregueses comiam. “When you’re sure you’ve had enough of this life…Hang on.”

— Boa noite. Sejam bem-vindos ao Mata Come. O que vocês desejam?

— Falaram que é possível comer à vontade e de graça neste lugar. Não vou negar que foi isso que trouxe a gente aqui.

— Ah sim! Esplêndido! Já sabem como funciona?

— Não… – responderam ao mesmo tempo.

— Pois bem! O que vocês vão querer?

— É simples assim? – questionou Ioan.

— Esse é o primeiro passo – respondeu o garçom.

— Ah…ok.

— Quero um X-Vitela. Ele vem mesmo com 300 gramas de carne?

— Sim, na opção tradicional, mas nessa modalidade que vocês querem a quantidade de carne é ilimitada.

— Uau! Que maravilha! — comemorou Ioan.

— E você, Colomano?

— Quero algo mais usual. Um X-Filé Mignon vai bem.

— Podem me acompanhar?

— Tudo bem.

Atravessaram a cozinha e caminharam até um galpão bem iluminado com dezenas de divisórias. Grilhões, correntes, caixas, gaiolas, carretilhas, roldanas, torneiras, pias, facas, marretas, sangue fresco e riscos no chão. Não. Nenhuma alucinação.

— Que gritos e gemidos são esses? – perguntou Ioan.

— É o grito da comida, meu senhor, simplesmente o grito da comida. Não se preocupe.

Pios, cacarejos, gorjeios, uivos, assobios, grunhidos, mugidos, latidos, miados, coachos, relinchos.

— Que barulheira! Isso aqui parece uma selva – comentou Colomano.

— Não exatamente. Apenas atendendo o gosto do freguês.

— Me acompanhem, por favor.

Atravessaram um corredor, barulho mais intenso, luzes amarelas, insetos agitados, nenhuma janela.

— Os senhores podem entrar aqui. Aguardem um momento.

O garçom fechou a cortina branca e os deixou sozinhos com um robusto boi acastanhado. Enquanto balançava a cabeça de um lado para o outro, o animal visivelmente dopado mugia com a cabeça escorada em um latão; um mugido sepulcral e fragilizado.

— O que está acontecendo aqui? – perguntou Ioan já exaltado.

— Vamos esperar – sugeriu calmamente Colomano.

O garçom retornou acompanhado de um peão empurrando um carrinho de mão. As rodas rangiam e as pernas do bezerro tremiam. Tiraram o animal de cima do carrinho e o colocaram no chão. Fraco demais para manter-se em pé.

— O que é isso? – questionou Ioan.

— O X-Vitela.

— Como?

— Isso mesmo!

Sem dizer mais nada, o garçom mostrou um mural com duas opções de execução — MARRETADA OU DEGOLA.

— Aqui no Mate Coma o senhor pode comer à vontade e sem pagar nada se matar o animal usado no recheio do seu lanche. O senhor pediu um X-Vitela e o seu amigo um X-Filé Mignon. Temos aqui um boi e um bezerro. Tudo é feito por nossa conta, menos o abate do animal. Quem deseja começar?

— Isso é loucura! Não posso matar um animal. Nem mesmo posso vê-lo morrer – esbravejou Ioan.

— Mas imagino que o senhor coma carne, não?

— Claro que sim, mas não tomo parte na morte do animal.

— Será?

— Que desaforo! Não vou ficar aqui sendo tratado com desrespeito.

— Acalme-se, Ioan! – sugeriu Colomano.

— O garçom tem razão. Se comemos, matamos, a única diferença é que não golpeamos.

— Você também? Pelo amor de Deus, Colomano! O que está acontecendo com você?

— Ora, nada! Apenas uma fagulha oportuna de sensatez.

— Quer saber? Mate você os dois. Perdi o apetite.

— Que assim seja, meu amigo.

Ioan atravessou o barracão a passos céleres e caminhou em direção à lanchonete. Sentou-se.

Resistente, o boi mugia entre as marretadas de Colomano. Foram 12 para entregar-se ao fim. O sangue escorria pelo piso. Fresco, grosso e escuro — o mousse da morte. Língua de fora, cabeça pesada, olhos vazios.

— Me desculpe, meu amigo, mas agora é a sua vez – falou segurando a cabeça do bezerro caramelo que tremia e se encolhia no canto com olhos vendados.

Um golpe certeiro na garganta o fez deitar e se debater com as patas moles até perecer. Expressão final de terror e desespero. O sangue não parava de jorrar, se misturando ao do boi recém-falecido. Eram como pai e filho, lado a lado, combinando carcaças.

— Parabéns! O senhor não fugiu. Realmente assumiu a responsabilidade — disse o garçom.

— Certo…Que seja! Vai demorar muito para os lanches ficarem prontos?

— Não muito. O senhor pode seguir esse corredor e virar à direita. A última porta é um banheiro. Pode se limpar ou se lavar lá.

— Ok. Obrigado…

Na lanchonete, Ioan não conteve as lágrimas enquanto assistia “Blackfish”, de Gabriela Cowperthwaite.

— Que história mais triste. Meu coração está com você, Tilikum – monologou esfregando as pontas dos dedos nos olhos.

— Sabia que você não iria embora. E aquela conversa de que perdeu o apetite? – indagou Colomano.

— Fiquei mal na hora, mas já passou – justificou Ioan.

— Ah sim. Então tá.

— Os lanches logo serão servidos, inclusive o seu. Vai querer ou não?

— Assim sim.

— Bueno! Bueno!

Quando o garçom retornou com o X-Filé Mignon e o X-Vitela, Ioan e Colomano ficaram extasiados com o que viram. Cada lanche tinha 12 camadas.

— É sempre assim? Com 12 camadas?

— Não. É porque o senhor matou o boi com 12 marretadas.

— Isso foi criativo, devo admitir.

— Podemos comer sem tocar nesse assunto? — reclamou Ioan.

— Ok…ok..ok… — concordou Colomano.

Assim que deu a primeira mordida, Ioan cuspiu um pedaço de lanche no prato.

— Que nojo! Meu Deus do céu! O que tem errado neste lugar?

Colomano também sentiu um gosto estranho na boca e fez o mesmo.

— Garçom, amigo, venha aqui, por favor.

— Isso é extremamente nojento. Horrível! Estou com ânsia de vomito.

— O que houve, meus senhores?

— O que houve?

— Tem um fio de cabelo longo e castanho no meu lanche. Que repugnante!

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O que você acha de ovolactovegetarianos?

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O que você acha de ovolactovegetarianos?

Também há exploração, privação e sofrimento na produção de leite e ovos

Acho que é um bom caminho para quem tem como primeiro passo abandonar o consumo de todos os tipos de carne. Mas acho importante também que as pessoas tenham em mente que o ovolactovegetarianismo, embora seja um passo importante no abandono do consumo de produtos de origem animal, não deixa de contribuir com a exploração animal. Exemplo clássico disso é o fato de que a maior parte do leite consumido pela população é proveniente do sistema industrial, e o sistema industrial prevê a separação do bezerro da vaca para que o leite seja destinado ao consumo humano. Para produtores de gado leiteiro não é interessante a criação de bezerros machos, então acaba sendo mais vantajoso economicamente matá-los ou até mesmo vendê-los para o mercado de carne de vitela. Às vezes, alguém diz que é visceral demais dizer que o consumo de laticínios é tão terrível quanto o de carne. Não, não é, basta refletirmos sobre a duração dessa exploração e todos os seus desdobramentos, começando, por exemplo, pelo estado da vaca e do bezerro após a separação. A vaca naturalmente procura o bezerro e ele faz o mesmo, caso tenham a oportunidade. O estado emocional dos dois em decorrência da impotência é de alto estresse seguido de sofrimento. E claro, tudo isso pode culminar na morte do bezerro, que pode ser reduzido a uma carne pela qual as pessoas pagam caro e consomem como se fosse algo natural. Logo se tomo leite ou consumo qualquer produto com laticínios, acabo por incentivar em menor ou maior proporção a morte de bezerros machos e quem sabe a comercialização de carne de vitela. Além disso, a queda na produção de leite não raramente é associada à mastite, uma grave inflamação das glândulas mamárias. É importante entender que vacas exploradas nesse ramo são condicionadas a produzirem leite em um ritmo não natural, e isso consequentemente reduz a expectativa de vida do animal. Também é preciso ponderar que a exploração do gado leiteiro é mais duradoura e só é interrompida quando o animal morre. Sim, a vaca leiteira que já não produz muito leite e não é economicamente viável manter viva. Depois de uma vida de contumaz exploração, o destino dela é o matadouro, ter sua carne, entre outros fins, reduzida a porções de hambúrgueres congelados enfileirados na área de frios dos mercados. Não duvido que haja exceções, mas a verdade é que no geral a produção e o consumo de laticínios nos leva a isso, e claro, a ânsia por carne industrializada.

Mas e se as pessoas consumissem leite de pequenos produtores, em que não há o mesmo sofrimento imposto pela indústria?

Ainda assim eu não endossaria tal prática. Por quê? Porque isso reafirmaria a crença de que os animais existem para nos servir. Não deixaria de ser uma posição antropocêntrica e especista. E claro, alguém pode alegar que o animal não sofre. Vamos supor que isso seja possível. Nem todo mundo teria condições de ter uma vaca em casa ou comprar o suposto embora enganoso “leite eticamente sustentável” e “cruelty free”. E como a demanda seria alta, essas pessoas que consomem o “leite eticamente sustentável” incentivariam os outros a fazerem o mesmo. A demanda seria muito grande, e quem teria que suprir isso seria o sistema industrial, e no sistema industrial é impossível que não haja privação e sofrimento, porque a privação e o sofrimento são consequências de demandas muito altas de consumo num curto período de tempo.

E sobre o consumo de ovos?

O consumo de ovos também tem sua faceta tétrica. O romantismo que a indústria defende não condiz com a realidade em nenhum aspecto. Você já visitou granjas de pequenos produtores? Eu já, e muitas vezes, e posso dizer que ainda assim o nível de estresse das galinhas é muito difícil de ser controlado. E por que isso? Porque elas não estão levando uma vida natural. A dura vida das galinhas começa logo que nascem. Com dez dias de idade, passam pelo processo de debicagem, ou seja, têm seus bicos cortados para que não pratiquem canibalismo quando o nível de estresse se torna muito alto. Mas como eu disse antes, ser ovolactovegetariano é louvável, mas é uma meia medida caso a pessoa não pense em ir além. Quero dizer, não é o suficiente para quem quer evitar realmente tomar parte na exploração animal. Quando falamos de ética alimentar no contexto dos direitos animais, a alimentação vegetariana estrita é a mais adequada.

O que você diria para quem é ovolactovegetariano há anos?

Eu sugiro que, caso seja uma escolha ética, que a pessoa reflita a respeito, porque há sofrimento em um copo de leite, em um ovo, e até mesmo no mel, já que nos apiários as abelhas também são condicionadas a trabalharem em um ritmo não natural. Quero dizer, normalmente elas não vivem mais do que 45 dias a serviço dos seres humanos. A rainha também é substituída, entenda-se como morta, quando começa a colocar menos de dois mil ovos por dia. Isso não seria uma forma de exploração? Elas poderiam viver mais. O romantismo na produção de mel também é preocupante. Onde há intervenção humana na vida animal com fins econômicos, pode acreditar que ali há uma vida não natural. Porque vidas não foram feitas para gerar lucro, sendo assim há sempre uma dissonância entre expectativa de vida e geração de renda.

 

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“Não consigo olhar pra carne sem pensar em bicho morto”

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Arte: Dana Ellyn

Enquanto eu aguardava atendimento na prefeitura, um camarada se aproximou:

— E aí, Arioch. Tudo bem, cara?
— Estou bem e você?
— Não muito…
— Por que não?
— Rapaz, comecei a ler seus textos e não consigo mais fazer churrasco no final de semana. Ando com um remorso muito grande de comer carne. Última vez que comi um bife foi há seis dias. Não desceu muito bem e não consigo olhar pra carne sem pensar em bicho morto.
— Sério? Isso é muito bom.
— É, né? Mas eu não esperava algo assim. Ainda mais vindo de uma família que criava gado, e que tem o churrasco como tradição. Mas agora não sei. Não consigo mais pensar em churrasco como antes. Não sei se vou virar vegetariano, vegano. Mas sei que hoje em dia a carne me atrai pouco, muito pouco.
— Existe uma mudança aí, pode acreditar. É um novo caminho na sua vida. Po, fico feliz em saber disso.
— Fica feliz, né? Cara, você entra na mente das pessoas. Até meu pai começou a ler seus textos.

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O boi e o menino

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Arte: Juan Bosco

Dirigindo pelas estradas de Alto Paraná, perto da Água do Cedro, encontrei um menino andando lado a lado com um boi. Encostei o carro, desci, pedi uma informação e perguntei se ele morava longe. Então o garotinho de nove ou dez anos apontou uma porteira aberta e uma casa de madeira no horizonte à sua direita. A postura e os olhos daquele boi me fizeram suspeitar que havia algo realmente incomum sobre ele.

— E esse boi? Ele mora com vocês?
— Sim, senhor.
— Vocês estão passeando?
— Isso mesmo. Como o senhor sabe?
— É que lá de trás vocês já pareciam companheiros. E agora, de perto, vi que esse boi não tem nenhuma marca no corpo.
— Pra que marcar o bicho, né? Eu que não quero ter o couro marcado. Acho que ninguém quer, né?
— Pois é. Realmente…
— Vocês passeiam sempre?
— Ah, não. Só quando ele quer.
— E como você sabe quando ele quer?
— Ele encosta na porteira, e esfrega a orelha. Meu pai diz que ele faz isso desde criança.
— Desde criança?
— Isso.
— Quantos anos ele tem?
— Ah, ele tem 21.
— Nossa! Incrível!
— É o que todo mundo diz – comentou sorrindo.
— Forte desse jeito? E como ele viveu tanto?
— Não sei dizer não, senhor. Deve ser porque a gente nunca judiou dele, deixa ele bem solto no pasto.
— Isso é bom.
— É sim.
— Vocês nunca pensaram em abater ele?
— Não, senhor. Que isso! O Mestre é da família, é bicho que nem a gente.
— Vocês não comem carne?
— Não. A gente só mexe com horta e pomar. Meu vô, meu pai e minha mãe falam que comer o que não nasce de novo não presta. Tá certo não.
— Ninguém da sua família come carne?
— Não, ninguém.
— Sempre foi assim?
— Não. Foi por causa de uma coisa que aconteceu com o bisa antes do meu pai nascer.
— O que aconteceu?
— Meu bisavô tinha um cemitério no fundo do sítio dele. Um dia, uma vaca entrou lá e empurrou um pedaço de bife dentro de um buraco. Depois ela arrastou a terra com a pata pra cobrir o bife. O bezerro dela tinha sido levado fazia acho que duas semanas. Então o bisa chorou quando viu e prometeu nunca mais comer carne, nem mexer com isso. Essa história a gente escuta desde bem pequeno.

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Sobre ser contra algumas formas de exploração e desconsiderar o veganismo

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Arte: End Trophy Hunting Now

É estranho ser contra diversas formas de exploração e ainda assim considerar o veganismo como algo impraticável ou impossível. Quero dizer, se me alimento de animais, e tenho acesso à informação sobre as variantes da exploração de seres sencientes, devo reconhecer que se compro um pedaço de carne isso significa que algum ser vivo passou por privação ou sofrimento, ou os dois; senão aquele pedaço não chegaria às minhas mãos.

Claro, posso defender algumas bandeiras contrárias a alguns tipos específicos de exploração, mas analisando como um todo, as minhas contrariedades seriam pontuais, e em alguns casos até paradoxais e convenientes, já que é mais fácil defender aquilo que nos atinge primariamente.

Eu não acharia justo eu fazer um discurso sobre exploração, igualdade e equidade, por exemplo, em um churrasco convencional. Quero dizer, enquanto me alimento de animais. Mas por que? Simplesmente porque eu me sentiria invalidando o meu próprio discurso. Claro, esse é o meu entendimento, e a minha perspectiva. Não vendo verdades; apenas estimulo reflexões.

Alguém que é contrário a algumas formas de exploração poderia alegar que não vive sem carne. Não, não vivemos sem a nossa própria carne, ou seja, do nosso corpo, assim como qualquer animal não humano. E é por isso que não existe carne sem morte, embora muita gente ainda resista a fazer tal associação. Não há como negar que um pedaço de carne que se consome é mais do que o simbólico fim de uma vida. Representa a negação à plena existência, e até mesmo à existência verdadeiramente pacífica.

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Written by David Arioch

June 10, 2017 at 9:04 pm

“Também num gosto de carne”

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Pintura: Xueling Zou

Enquanto eu aguardava atendimento em um escritório de advocacia, um garotinho bastante animado, com seus cinco ou seis anos, me observava com um olhar de curiosidade.

— Qual é o seu nome, tio?

— David e o seu?

— Bruno…

— Você é forte, né, tio?

— Eu tento…

— É sim!

— Você deve comer muita carne pra ser forte assim…

— Por que você acha isso?

— Por que minha mãe diz que a gente precisa de carne pra ficar forte. Ah, então acho que você come muita carne.

— Não como não…

— É?

— É sim…

— Não precisa?

— Não, não preciso, ninguém precisa. Só que tem que comer direitinho pra não faltar nada, porque se você não come carne e fica doente as pessoas vão falar que é porque você não come carne. Então tem que se cuidar.

— Também num gosto de carne. Vou falar de você pra minha mãe, tio, e ver se ela deixa eu não comer também.

A secretária assistiu tudo e achou graça da nossa conversa. Quando os pais de Bruno saíram de uma das salas, ele se aproximou deles:

— Mãe, olha aquele tio ali, ele é forte e não come carne. Você disse que quem não come carne morre.

Com um sorriso amarelecido, a mãe não disse nada e o pai riu. Em segundos, atravessaram a recepção em direção à saída. Bruno sorriu mais uma vez.

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Written by David Arioch

June 6, 2017 at 3:19 pm

Sócrates e o consumo de carne como símbolo da injustiça e das desigualdades

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A redução dos animais à comida seria um gatilho para minar as condições de construção de uma sociedade mais justa

Sócrates: “Esse hábito de comer animais não exigiria que abatêssemos animais que conhecemos como indivíduos” (Arte: Reprodução)

Um dos fundadores da filosofia ocidental, o filósofo ateniense Sócrates ficou conhecido principalmente pela sua contribuição no campo da ética e da epistemologia. Suas crenças e ideias tornaram-se mundialmente famosas por meio de seus diálogos e discursos registrados por seus discípulos Platão e Xenofonte. Embora não seja possível afirmar se Sócrates foi vegetariano ou protovegetariano, na obra “A República”, escrita por Platão no século 4 a.C., está clara a sua preocupação sobre as consequências do consumo de carne e da exploração animal, além das implicações desse hábito na saúde humana.

Na página 77 de “A República”, Sócrates comenta com Glauco que levando em conta a forma como as pessoas viviam nas cidades, logo seria considerada imprescindível a criação de gado de todos os tipos. “Mas, levando este tipo de vida, teremos necessidade de muito mais médicos do que antes”, diz Sócrates a Glauco, que concorda com a associação do consumo de carne com o surgimento de problemas de saúde.

Sócrates também critica o hábito dos pastores da época de treinarem os cães para auxiliá-los no trabalho com os rebanhos de carneiros, reconhecendo que esse costume poderia endurecer a natureza dos animais, excitando a intemperança dos cães e tornando-os seres brutos. “A fome ou qualquer hábito vicioso os levaria a fazer mal aos carneiros e a tornarem-se iguais aos lobos [que apenas agiam instintivamente] dos quais os deveriam proteger”, declarou o filósofo ateniense na página 147 de “A República”. A observação de Sócrates revela uma preocupação com o fato da humanidade subverter a natureza animal para benefício próprio.

Na segunda parte de “A República” Platão apresenta Sócrates como um sujeito preocupado com as implicações morais do abate de animais, embora ele demonstre que, primariamente, o que o incomodava era a possibilidade de que o consumo de animais pudesse corromper cada vez mais a humanidade, a distanciando de sua natureza justa e complacente. “Esse hábito de comer animais não exigiria que abatêssemos animais que conhecemos como indivíduos, e em cujos olhos poderíamos olhar e ver-nos refletidos, apenas algumas horas antes de nossa refeição?”, questiona, ao que Glauco responde prontamente: “Esse hábito exigiria isso de nós.”

A coisificação dos animais não humanos é apontada por Sócrates e Glauco como algo capaz de impedir a humanidade de alcançar a felicidade. “E, se seguirmos esse modo de vida, não teremos de visitar o médico com mais frequència?”, questiona o filósofo, que recebe a confirmação de Glauco: “Teríamos tal necessidade.” Sócrates prevê ainda que o hábito de comer animais e criá-los com a finalidade de vendê-los transformaria o ser humano em alguém não somente ambicioso, mas ganancioso a ponto de espoliar propriedades vizinhas para ampliar suas pastagens:

“Se nosso vizinho seguir um caminho semelhante, não teremos que ir à guerra contra o nosso próximo para garantir maiores pastagens? Porque as nossas não serão mais suficientes para o nosso sustento, e nosso vizinho terá a mesma necessidade e entrará em guerra conosco?” Glauco corrobora o receio do ateniense ao confirmar que sim, deixando subentendido que a humanidade se tornaria mais suscetível à decadência e às tentações de uma sociedade imersa em desigualdades. Para Sócrates, a redução dos animais à comida seria um gatilho para minar as condições de construção de uma sociedade mais justa – e um distanciamento cada vez mais crescente da forma mais genuína de felicidade.

Essas reflexões de Sócrates envolvendo a exploração animal e o consumo de carne vão ao encontro do estudo da virtude. Ele dizia que é mais importante a busca do desenvolvimento humano do que a busca pela riqueza material – um dos principais motivos da exploração de animais enquanto produtos. Sócrates acreditava tanto nisso que nem mesmo quando foi sentenciado à morte por questões políticas, segundo as obras “Apologia” e “Críton”, de Platão; e pessoais, de acordo com Xenofonte, optou por curvar-se ao júri ou fugir em vez de enfrentar a injusta condenação. Nascido em 470 a.C., Sócrates, que preferiu à morte ao exílio, faleceu em 399 a.C, depois de ser obrigado a ingerir cicuta após 30 dias preso.

Referências

Platão. A República. Nova Fronteira (2014).

Platão. A República – Parte II. Escala Educacional (2006).

The Republic of Plato. Translation by F. Sydenham and T. Taylor, revised by W.H.D. Rouse. With introduction by Ernest Barker. London – Methuen (1906).

Kofman, Sarah. Socrates: Fictions of a Philosopher (1998).

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Platão e a crítica ao consumo de carne

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O filósofo grego qualificava a carne como um luxo capaz de levar os seres humanos à decadência

Como Sócrates, Platão idealizava uma cidade onde as pessoas não se alimentassem da matança de animais (Arte: Reprodução)

Não é possível afirmar que o filósofo grego Platão tenha sido vegetariano ou mesmo protovegetariano, já que não há registros fidedignos de seus hábitos alimentares. Porém, em sua obra “A República”, escrita no século 4 a.C., há indícios de que o discípulo de Sócrates e mestre de Aristóteles reconhecia a importância de um estilo de vida natural. A exemplo de Sócrates, Platão idealizava uma cidade onde as pessoas não se alimentassem da matança de animais, o que alguns pesquisadores interpretaram mais tarde como uma reação ao fato de que à época o consumo de carne já estava muito vinculado ao status dos cidadãos.

Embora também dissesse que tudo existia para o benefício humano, o filósofo grego que era adepto da frugalidade via a abstenção do consumo de carne como um caminho contrário aos excessos e à guerra. De acordo com o pesquisador Nathan Morgan, autor de “The Hidden History of Greco-Roman Vegetarianism”, Platão qualificava a carne como um luxo capaz de levar os seres humanos à decadência. “Ele foi influenciado por conceitos pitagorianos, mas não foi tão longe quanto Pitágoras. Não é clara a forma como ele se alimentava”, pondera Morgan.

Por outro lado, aquele que é considerado por muitos como pioneiro da filosofia ocidental enfatizava a importância da razão, mesmo que isso significasse sacrificar a sensação ou a percepção. Por isso, há quem diga que Platão pode ter contribuído negativamente para o entendimento que Aristóteles teria mais tarde sobre o valor da vida animal não humana; já que a concepção e o enaltecimento de razão enquanto logos naturalmente excluíam seres não humanos.

Contudo, em “A República”, sua obra mais famosa, e inspirada nos diálogos de Sócrates, Platão escreveu que em uma sociedade ideal as pessoas prepararão farinha de cevada e de frumento, cozinharão esta e amassarão aquela. Colocarão seus estupendos bolos e os seus pães em ramos ou folhas frescas e, deitadas em camas de folhagem, feitas de teixo e de murta. “Regalar-se-ão com seus filhos, bebendo vinho, com a cabeça coroada de flores, e cantando louvores aos deuses; passarão assim agradavelmente a vida juntos e regularão o número de filhos pelos seus recursos, para evitar os incômodos da pobreza e os temores da guerra”, registrou na página 76 de “A República”.

E continuou – citando um diálogo de Sócrates com Glauco: “Eles terão sal, azeitonas, queijo, cebolas e esses legumes cozidos que se costumam preparar no campo. Como sobremesa, terão figos, ervilhas e favas; assarão na brasa bagas de murta e bolotas, que comerão, bebendo moderadamente. Assim, passando a vida em paz e com saúde, morrerão velhos, como é natural, e legarão aos filhos uma vida semelhante a deles.”

Na obra, Platão deixa subentendido que um estilo de vida baseado em excessos mina a justiça e potencializa a injustiça. Valendo-se do discurso de Sócrates, ele discorre que a verdadeira cidade deve ser sã – moderada e voltada para a simplicidade. Não pode ser tomada pelo arrebatamento da excitação, do consumo desenfreado. “Parece que muitos não se satisfarão com esse padrão de vida simples e com esse regime: terão leitos, mesas, móveis de toda a espécie, pratos requintados, essências aromáticas, perfumes para queimar, cortesãs, variadas iguanas, e tudo isto em grande quantidade. Portanto, já não podemos considerar apenas necessárias as coisas a que nos referimos no começo: moradias, vestuários e calçados; teremos de levar em conta a pintura e a arte de bordar, procurar ouro, marfim e materiais preciosos de todas as qualidades. Não é isso?”, questiona.

Fundador da primeira instituição de ensino superior do Ocidente, Platão deixou como legado outras obras que ficaram conhecidas como os “diálogos da maturidade”: Fédon, Fedro, Banquete, Menexêno, Eutidemo e Crátilo. Nascido em Atenas em 427 ou 428 a.C, o filósofo grego faleceu em 347 ou 348 a.C.

“Os homens afirmam que é bom cometer a injustiça e mau sofrê-la, mas que há mais mal em sofrê-la do que bem em cometê-la. Por isso, quando mutuamente a cometem e a sofrem e experimentam as duas situações, os que não podem evitar um nem escolher o outro julgam útil entender-se para não voltarem a cometer nem a sofrer a injustiça. Daí se originaram as leis e as convenções e considerou-se legítimo e justo o que prescrevia a lei. E esta a origem e a essência da justiça: situa-se entre o maior bem — cometer impunemente a injustiça — e o maior mal — sofrê-la quando se é incapaz de vingança”, escreveu Platão nas páginas 55 e 56 de “A República”.

Referências

Platão. A República. Nova Fronteira (2014).

https://ivu.org/history/greece_rome/plato.html

The Hidden History of Greco-Roman Vegetarianism


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Written by David Arioch

May 31, 2017 at 9:28 pm