David Arioch – Jornalismo Cultural

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Por que você acredita que o sofrimento de um animal não humano não é menor do que o humano na iminência da morte?

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Molly B., vaca que fugiu de um matadouro nos Estados Unidos em janeiro de 2006 (AP Photo/Great Falls Tribune, Robin Loznak)

— Por que você acredita que o sofrimento de um animal não humano não é menor do que o humano na iminência da morte?

— Acredito que o sofrimento de um animal não humano pode ser maior, sim, realmente maior, e por uma justificativa até simples – a incapacidade de racionalizar e verbalizar o que sente. Imagine a si mesmo em uma selva e diante de um animal muito maior e mais forte do que você. De repente, vocês estão diante um do outro, e não há nada que você possa fazer para impedir que ele o ataque e o mate. Afinal, ele não partilha do mesmo código comunicativo que você. Partindo da mesma situação de um animal prestes a ser abatido, ou seja, de total vulnerabilidade, eu diria que qualquer reação sua será em vão. Isto porque falo de situações equiparáveis.

Por exemplo, um animal na pista da morte em um matadouro está no mesmo estado de vulnerabilidade de uma pessoa desarmada e despreparada caminhando pela selva. Mas nisso subsiste uma distinção substancial. E qual seria? Se um animal me matasse em território selvagem, ele o faria instintivamente, seja por fome, medo, identificação de perigo ou qualquer outro fator que desencadeie essa reação. Já os animais cativos que matamos não nos apresentam qualquer perigo. São simplesmente criados para gerar lucro e saciar paladares, logo são mortos friamente.

Creio que não apenas legitimamos esse tipo de morte como a incentivamos e a incluímos, mesmo que arbitrariamente, na nossa moralidade antropocêntrica. Se ainda assim, a minha resposta não for o suficiente, sugiro que aqueles que discordam do meu posicionamento visitem matadouros e observem a reação dos animais antes de serem abatidos. Não é incomum eles recuarem, tentarem postergar o inevitável. Um animal que testemunha a morte de outro não se oferece para ser o próximo. Muito pelo contrário.

E a ausência de um código de comunicação em comum, sem dúvida torna tudo mais doloroso. Imagino que saberíamos, de fato, como é esse tipo de sentimento se uma espécie muito superior à nossa, e que tivesse um código de comunicação completamente diferente do nosso, fizesse algo parecido conosco. Claro, diferentemente dos selvagens, não despedaçamos nossas vítimas no instante em que as matamos. Porém, não fazemos isso depois? Os açougues e as seções de frios dos mercados provam que sim.

 





Matar um animal, uma criatura que não quer morrer, é uma incontestável arbitrariedade

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Fotos: We Animals/Jo-Anne McArthur

Matar um animal, uma criatura que não quer morrer, é uma incontestável arbitrariedade; uma facciosidade que parte de quem, por uma questão cultural, não vê nada de errado em subjugá-lo. Não conheço nenhuma história verídica de animal que sentiu prazer em tornar-se alimento. Ainda que isso acontecesse em um contexto fictício fundamentado na realidade, sabemos que até os animais considerados menos inteligentes não são tão tolos assim. Mesmo em um cenário ultrarromântico isso seria insidioso e baixo.

Ninguém nasce ansiando pela morte, nem aqueles que são mortos aos milhões. Logo não há como desconsiderar que se alimentar de animais significa nutrir-se da privação, mortificação e finitude de seres vulneráveis. Os níveis são diversos. Pode haver barbárie ou não. Mas não seria o anseio pela exploração e morte de outro um ato de barbárie em si? Muitos dizem em sua defesa que há métodos menos cruéis de se matar animais. Que podemos usurpar vidas que não nos pertencem sem a necessidade de violência excessiva.

Será que essa defesa se volta à minimização do sofrimento animal ou funciona como um afago na consciência humana? Será que nos importamos com os animais ou com a ideia de sermos vistos como menos empáticos, insensíveis ou incivilizados? Temos ojeriza pela possibilidade de sermos vistos como bárbaros porque vendemos um suposto padrão de exemplar civilidade.

A ideia de uma morte romanesca, em prol de seres humanos, logo de outra espécie, é sempre quixotesca sob a perspectiva antropocêntrica e especista. “Sou grato a esse animal que morreu para que eu possa me alimentar”, há quem diga antes de uma refeição. Mas será que a sua nutrição depende da exploração e morte de uma criatura senciente? Um prazer com duração de minutos é equiparável ao valor de uma vida?

A expressão de um animal instantes antes da morte revela explicitamente o quanto ele não anseia por tal gratidão, já que mesmo quando os criamos e os submetemos a um nível visceral de condicionamento, eles não se reconhecem verdadeiramente como seres que existem para nos servir. Afinal, servir ao ser humano não é uma característica natural de seres de outras espécies, mas somente uma consequência de séculos de condicionamento, agrilhoamento e subordinação forçada.





Por que você considera mais ético não se alimentar de animais?

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Somos seres conscientes e capazes de escolher nossos próprios alimentos, de optar por uma boa nutrição que não envolva privação, sofrimento e morte

— Por que você considera mais ético não se alimentar de animais?

— Porque se sou capaz de sobreviver sem me alimentar da privação, sofrimento e morte de outras criaturas sencientes, não vejo motivo para continuar contribuindo com essa violência. Se mesmo diante de todas as informações as quais tive acesso sobre senciência, consciência animal e exploração animal, eu optasse por continuar me alimentando de animais, eu não faria isso por crer que a minha nutrição demanda o sofrimento e a morte de outras espécies, mas sim porque eu seria alguém reafirmando que o meu paladar, a minha conveniência, está no topo das minhas prioridades.

Acredito que eu colocar uma comodidade historicamente cultural acima do valor da vida de outras espécies, uma comodidade baseada na subjugação, e que deveria ser um bem inegociável dado ao seu fim faccioso enquanto bem de consumo, não é apenas injusto, como desnecessário e indigno de minha parte. Até porque sei que os animais não oferecem suas partes para que possamos esfaqueá-las ou fatiá-las. Por isso, quando encontro partes de animais reduzidas a produtos em mercados, ou onde quer que seja, o que vejo basicamente não é um bem de consumo colocado à venda de forma natural ou pacífica, mas sim representações fragmentadas de violência e arbitrariedade.

Experimente contar quantas partes que não pertencem a um mesmo animal você é capaz de encontrar em uma bandeja no açougue. Um quilo de alguma coisa pode representar a morte de quatro ou cinco animais, ou até mais. Isso não é uma forma de banalização da vida? Vidas ceifadas e partes acondicionadas em um pedaço de isopor com um involucro plástico, ou um saco plástico transparente, normalmente. Creio que a banalização da vida, mesmo quando não humana, diz muito sobre o valor que atribuímos ao que consideramos diferente, inferior e liliputiano.

Há animais na natureza selvagem que dependem essencialmente da carne. Esses eu jamais condenaria, pois fazem o que nasceram para fazer na luta pela sobrevivência; e, claro, sem ponderar, já que a eles não cabe o nosso discernimento. Mas nós? Não precisamos de nenhum alimento de origem animal. Somos seres conscientes e capazes de escolher nossos próprios alimentos, de optar por uma boa nutrição que não envolva privação, sofrimento e morte.





Written by David Arioch

November 9th, 2017 at 11:28 pm

Contato com Ivan Pavlov fez Sergei Esenin abandonar o consumo de carne

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Sergei Esenin foi um dos poetas russos mais influenciados por Tolstói. Mas foi o seu contato com o fisiologista Ivan Pavlov que fez com que ele abdicasse do consumo de todos os tipos de carne, além do tabaco. Em carta ao amigo Grigory Panfilov, ele informou também que deixou de consumir açúcar. Em diversos poemas, Esenin revela o seu amor e compaixão por cães velhos, vacas e cavalos.

Written by David Arioch

November 8th, 2017 at 2:26 pm

Ellen G. White: “Essas criaturas são guiadas para a morte, para que os seres humanos se banqueteiem com as suas carcaças”

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Ellen G. White: ““Animais são frequentemente transportados por longas distâncias e sujeitos a grande sofrimento até chegarem ao mercado” (Acervo: Ellen G. White State)

Escritora e uma das fundadoras da Igreja Adventista do Sétimo Dia, Ellen Gould White se tornou uma das personalidades mais controversas de seu tempo pela sua obstinada defesa do vegetarianismo, o promovendo inclusive em escolas, hospitais e centros médicos. Entre as suas obras mais famosas que também versam contra o consumo de animais está o livro “The Ministry of Healing”, publicado em 1905.

No entanto, “Healthful Living”, de 1896, foi uma das primeiras obras em que Ellen G. White abordou o vegetarianismo. Na página 97, ela declara que a dieta de muitos animais é baseada simplesmente em vegetais e grãos, e que o ser humano deveria seguir esse exemplo, já que não temos o direito de nos alimentarmos de criaturas mortas. Segundo Ellen, um animal que não seja essencialmente carnívoro não tem necessidade de destruir outro animal para se alimentar. No livro “Counsels on Diet and Foods”, de 1903, a autora diz que vegetais, frutas e grãos são o suficiente para uma alimentação saudável e bem completa. “Nem uma onça [28 gramas] de carne deve ser enfiada em nossos estômagos. Devemos voltar ao propósito original de Deus na criação do homem”, defende na página 380.
Com livros publicados em mais de 140 línguas, Ellen Gould White se tornou bastante influente à sua época, tanto que há quem diga que ela inspirou o famoso médico John Harvey Kellogg, também adventista, a criar um dos mais famosos cereais matinais de todos os tempos – Corn Flakes. Sua influência também se deve ao fato dela ter sido uma escritora e oradora incansável, chegando a escrever mais de cinco mil artigos e a publicar 40 livros. Suas obras somam mais de 50 mil páginas manuscritas, segundo o artigo “Ellen G. White: A Brief Biography, de Arthur L. White, publicado no The Official Ellen G. White Website em agosto de 2000.

Em “The Ministry of Healing”, lançado em 1905, a escritora afirma que a dieta indicada ao ser humano no princípio não incluía alimento de origem animal. “Não foi senão depois do dilúvio, quando tudo quanto era verde na Terra havia sido destruído, que o homem recebeu permissão para comer carne”, escreveu. Porém, segundo a escritora, foi uma permissão temporária. Ellen faz a ressalva de que Deus escolheu a comida dos seres humanos quando os levou para viverem no Éden, o que não compreendia nada de origem animal.

Porém, na perspectiva de Ellen, o ser humano insistiu no consumo de carne, e em decorrência disso, teve de amargar inúmeras doenças e muitas mortes relacionadas a esse hábito: “Os que se alimentam de carne, não estão senão comendo cereais e verduras, pois o animal recebe a partir desses alimentos a nutrição que garante o seu crescimento. A vida que havia no cereal e na verdura passa aos que os ingerem. Nós a recebemos comendo a carne do animal. Melhor é obtê-la diretamente, comendo aquilo que Deus proveu para o nosso uso.”

Ellen defende que a inteligência de muitos animais é tão semelhante à inteligência humana que chega a ser um mistério (Acervo: Ellen G. White State)

Outro ponto que, segundo a escritora deveria ser o suficiente para desconsiderar a carne como alimento, é o surgimento de doenças que só existem em decorrência da criação de animais para consumo. “A população come ininterruptamente carne cheia de germes de tuberculose e câncer. Assim são transmitidas essas e outras doenças. Muitas vezes são vendidas a carne de animais que estavam tão doentes que os donos receavam mantê-los vivos por mais tempo. E o processo de engorda para a venda produz enfermidades”, critica.

No final do século 19, Ellen G. White percebeu que já era comum os animais serem privados da luz do dia e do ar puro, respirando somente a atmosfera de estábulos imundos, e talvez sendo alimentados com comida deteriorada, o que facilitava a contaminação e proliferação de doenças:

“Animais são frequentemente transportados por longas distâncias e sujeitos a grande sofrimento até chegarem ao mercado. Privados dos campos verdes para viajarem por longas milhas em estradas quentes e empoeiradas, dentro de veículos imundos e lotados, eles ficam febris e exaustos, e passam muitas horas em privação de água e comida. Essas criaturas são guiadas para a morte, para que os seres humanos se banqueteiem com as suas carcaças.”

Para Ellen G. White, a situação dos peixes não é diferente, levando em conta a contaminação das águas e a ausência de boa matéria orgânica como fonte de alimento. Além de sofrerem pela má intervenção humana, quando morrem tornam-se alimentos; um alimento que também ocasiona enfermidades. “Muitos [seres humanos] morrem de doenças devido ao uso da carne, e essa causa não é suspeitada por eles nem pelos outros”, enfatiza.

Além das questões envolvendo saúde e religião, a escritora também apontava como igualmente importante as implicações morais do consumo de carne. Quando discursava sobre o tema, ela pedia que os espectadores pensassem na crueldade por trás do consumo de carne, e os efeitos que isso desencadeia na vida em sociedade, onde a ternura para com as outras criaturas é majoritariamente desconsiderada.

No livro “The Ministry of Healing”, Ellen defende que a inteligência de muitos animais é tão semelhante à inteligência humana que chega a ser um mistério. Observa que os animais veem, ouvem, amam, temem e sofrem. Se servem de suas capacidades melhor do que os seres humanos. Manifestam simpatia e ternura em relação aos seus companheiros de sofrimento:

“Educai a consciência, aliciai a vontade, mostre o caminho do bom e saudável alimento e a mudança acontecerá rapidamente, fazendo desaparecer a necessidade de carne” (Acervo: Ellen G. White State)

“Muitos animais demonstram aos seus uma afeição muito superior àquela manifestada por alguns seres humanos. Que homem, dotado de um coração humano, havendo já cuidado de animais domesticados, poderia fitá-los nos olhos tão cheios de confiança e afeição, e entregá-los voluntariamente à faca do açougueiro? Como lhes poderia devorar a carne como algo delicioso?”

No início do século 20, a autora já considerava um equívoco crer que a força muscular depende do uso de alimento de origem animal, já que podemos recorrer a cereais, frutas e oleaginosas, alimentos que contêm tudo que é necessário à nossa nutrição. “Quando se deixa o uso de carne, há muitas vezes uma sensação de fraqueza ou falta de vigor. Muitos alegam isso como prova de que a carne é essencial. Mas é devido a este alimento ser estimulante, deixar o sangue febril e os nervos estimulados, que assim lhes parece ser algo que faz falta. Alguns acham tão difícil deixar de comer carne o quanto é para um bêbado deixar o álcool. Mas logo se sentirão muito melhor com a mudança”, garante.

Na defesa da abstenção de alimentos de origem animal, Ellen Gould White jamais viu o vegetarianismo como uma impossibilidade. Ela acreditava que mesmo em países com maiores índices de pobreza é possível implementar hábitos vegetarianos na população mais carente. Ela sugeria a realização de pesquisas e a discussão sobre meios de incentivar a produção de alimentos de origem vegetal mais baratos. “Com cuidado e habilidade, é possível preparar pratos nutritivos e saborosos, substituindo a carne. Em todos os casos, educai a consciência, aliciai a vontade, mostre o caminho do bom e saudável alimento e a mudança acontecerá rapidamente, fazendo desaparecer a necessidade de carne. Já não é tempo de todos dispensarem a carne da alimentação?”, questionou no capítulo “A Carne Como Alimento”, do livro “The Ministry of Healing”, publicado em 1905.

Saiba Mais

Ellen Gould White nasceu em Gorham, no Maine, em 26 de novembro de 1827 e faleceu em Elmshaven (Santa Helena), na Califórnia, em 16 de julho de 1915.

Referências

White, Ellen G. The Ministry of Healing (1905). Ellen G. White State (2013). (Disponível em https://egwwritings.org)

White, Ellen G. Healthful Living (1896). Ellen G. White State (2013). (Disponível em https://egwwritings.org)

White, Ellen G. Counsels on Diet and Foods (1903). (Disponível em https://egwwritings.org)

White, Arthur L. Ellen G. White: A Brief Biography. (Disponível em http://www.whiteestate.org/about/egwbio.asp)

 





Ian McKellen: “Carne morta só parecia realmente apetitosa quando disfarçada ou escondida por uma massa ou batatas”

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Acervo: Ian McKellen Site

Em 1980, o ator britânico Ian McKellen, bastante conhecido pelos seus trabalhos como Magneto na franquia “X-Men” e Gandalf na franquia “O Senhor dos Anéis”, passou por uma experiência que o fez refletir sobre o consumo de produtos de origem animal, o levando a abdicar do consumo de carne.

“Olhei para baixo e vi algo se movendo sobre o Tamisa em uma manhã. A maré estava baixa, e vi um cadáver de quatro patas preso entre as pedras. Sem pelos, branco e inchado. Era um bezerro, uma ovelha, uma cabra ou um cachorro? Olhei para ele até a maré subir e lavá-lo. Por 24 horas, não senti fome. Quando comecei a comer novamente, eu não poderia mais encarar a carne, fresca ou enlatada”, escreveu na carta “Que diferença um dia pode fazer – Por que eu sou vegetariano”, escrita no outono de 1997.

McKellen afirmou que na mesma noite decidiu tornar-se vegetariano. O que endossou sua posição foram as fotos da realidade da exploração animal nas fazendas e na indústria. Ainda assim, o motivo mais forte continuou sendo o testemunho do animal morto: “Não é razão ou consciência que me mantém distante da carne, mas apenas uma lembrança desse corpo não identificável e decomposto na praia”, argumentou.

Ian McKellen, nascido no condado inglês de Lancashire em 25 de maio de 1939, ano em que foi iniciada a Segunda Guerra Mundial, declarou que nunca desenvolveu um verdadeiro gosto por carnes. Na realidade, implicitamente já sentia um desgosto pelo abate de cordeiros, vacas, coelhos, patos, galinhas. “Carne morta só parecia realmente apetitosa quando disfarçada ou escondida por uma massa ou batatas. Eu preferia carne enlatada, como sardinha e salmão, que poderia ser amassada e colocada no sanduíche sem qualquer sinal de que aquilo um dia foi uma vida”, revelou.

O ator percebeu que a não associação entre a morte e o animal enquanto alimento é o que facilita o seu consumo e evita que as pessoas pensem a respeito, já que nisso subsiste uma dissimulação estética.

Referência

http://www.mckellen.com/writings/veggie.htm

 

 





Written by David Arioch

November 7th, 2017 at 11:12 am

Ellen G. White: “Essas criaturas são guiadas para a morte, para que os seres humanos se banqueteiem com suas carcaças”

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“Animais são frequentemente transportados por longas distâncias e sujeitos a grande sofrimento até chegarem ao mercado. Privados dos campos verdes para viajarem por longas milhas em estradas quentes e empoeiradas, dentro de veículos imundos e lotados, eles ficam febris e exaustos, e passam muitas horas em privação de água e comida. Essas criaturas são guiadas para a morte, para que os seres humanos se banqueteiem com suas carcaças.”

Ellen Gould White, escritora e uma das fundadoras da Igreja Adventista do Sétimo Dia no capítulo 24 de “The Ministry of Healing”, publicado em 1905.





A primeira vez de Rubinho no açougue

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“Hog Heaven”, de Susan Jenkins

Rubinho foi ao açougue pela primeira vez. Nunca tinha visto nada parecido. No seu ideário meninil, o açougueiro era como um mágico que concebia a carne a partir de dotes sobrenaturais. Bastaria reunir alguns ingredientes, e voilà, assim surgia a carne, corada e sem violência.

“Falaram que a carne de boi aqui é a mais fresca da cidade”, “Sim, meu tio fornece carne pra eles, tão matando bem.” Um quadro na parede branca mostrava três bois descansando sobre o pasto verdejante.

“Nem imagina o que os espera, a faca é o destino final”, comentou um rapaz com voz lamuriosa ajeitando o boné sobre a cabeça. Sim, o choque foi tremendo. Rubinho preferiu não falar nada. Observou tudo. Facas e serras fatiando carnes e ossos, pessoas de um lado para o outro carregando sacolas de carne.

Ao fundo, o líquido glutinoso dava um aspecto desagradável que incomodava Rubinho. “Parece catchup, só que ralinho”, monologou. Mas o que mais chamou a atenção do menino foi um leitãozinho prostrado sob a vitrine. Rubinho insistiu tanto que sua mãe concordou em comprá-lo.

— Tem certeza que você quer isso, Rubinho?
— Tenho, mãe! Tenho sim.
— Não sabia que você gostava tanto assim de carne de porco.

O menino não disse nada.

Mais tarde, já em casa, a mãe de Rubinho correu até o quarto para chamar o marido.

— Você não vai acreditar no que eu vi — disse espaventada e com as mãos trêmulas.

Depois de enrolar o leitãozinho em uma mantinha, Rubinho lançou a última colher de terra sobre o corpo do animalzinho no quintal. Afofou a terra com as mãos, na tentativa de deixá-la bem homogênea, e ainda ajoelhado olhou para as nuvens:

— Não pude te salvar, mas pelo menos agora você vai chegar inteiro no céu.





Você sabe por que os animais ficam em jejum antes do abate?

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Fotos: Daryl Hewison e Pixabay

Você sabe por que os animais ficam em jejum antes do abate? Por um período de 8 a 24 horas dependendo do sistema de produção e da espécie.

Para evitar vômitos e congestão durante o transporte, ou até mesmo asfixia. Também facilita o abate e diminui as chances de contaminação da carne. Uma prática bastante humanizada, não? Ou seja, os interesses que são considerados prioritariamente são os dos criadores, dos frigoríficos e dos consumidores. E os interesses dos animais? Simplesmente não são abalizados, já que eles são categorizados como produtos, não sujeitos de uma vida.





Written by David Arioch

October 8th, 2017 at 1:19 am

Tom Regan: “Comer animais, comer sua carne, como eu fazia, certamente encorajava seu abate”

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Fora seu pacifismo, Gandhi me fazia um desafio novo, que falava diretamente aos hábitos da minha vida. Embora escrevesse para todo e qualquer leitor, ele parecia estar falando pessoalmente comigo. Era como se ele quisesse saber como eu, Tom Regan, podia ser contra a violência desnecessária, como a da Guerra do Vietnã, quando os seres humanos são as vítimas, mas apoiar este mesmo tipo de violência (violência desnecessária) quando as vítimas são os animais.

“Por favor, me explique, professor Regan”, a voz de Gandhi pedia, da página, “o que aquelas partes de corpos mortos (isto é, ‘pedaços de carne’) estão fazendo no seu freezer? Por favor, explique, professor, como é que o senhor pode reunir ativistas antiguerra na sua casa e lhes servir uma vítima de outro tipo de guerra, a guerra não declarada que os humanos estão empreendendo contra os animais?” Não tenho certeza, mas tive a impressão de detectar um sorriso furtivo e sarcástico no rosto de Mahatma.

Claro que Gandhi estava certo sobre algumas coisas. Comer animais, comer sua carne, como eu fazia, certamente encorajava seu abate, um modo verdadeiramente horrível e violento de morrer, algo que mais tarde eu acabaria conhecendo de perto, quando, mesmo sentindo uma forte aversão ao que estava fazendo, vi porcos, galinhas e vacas encontrarem seu fim sangrento.

Páginas 48 e 49 de Empty Cages (Jaulas Vazias), de Tom Regan.

 





Written by David Arioch

October 5th, 2017 at 8:49 pm