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“Há quanto tempo os carneiros não morrem de velhice?”

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Versão da Companhia das Letras relançada no Brasil em 2016

Os dois carneirinhos passam o dia amarrados ao lado do estábulo em um pedaço de chão nu. Seus balidos, constantes e monótonos, começaram a incomodá-lo. Ele vai até Petrus, que está consertando a bicicleta, de rodas para o ar. “Esses carneiros”, diz, “não acha que podiam ficar amarrados em algum lugar onde possam pastar?”

“São para a festa”, Petrus diz. “Sábado vou matar os dois para a festa. Você e Lucy vêm também.” Ele limpa as mãos.

“Estou convidando você e Lucy para a festa.”

“Sábado?”

“É, vou dar uma festa no sábado. Festa grande.”

“Obrigado. Mas mesmo sendo para a festa, não acha que os carneiros podiam pastar?”

Uma hora depois, os carneiros ainda estão amarrados, ainda balindo dolorosamente. Petrus não está em parte alguma. Exasperado, ele desamarra os bichos e prende ao lado da represa, onde a relva é abundante.

Os carneiros bebem moderadamente, depois começam a pastar tranquilamente. São de raça persa, de cara preta, parecidos um com o outro no tamanho, nas cores, até nos movimentos. Gêmeos, com toda certeza, destinados desde o nascimento à faca do açougueiro. Bom, nada de mais nisso. Há quanto tempo os carneiros não morrem de velhice?

Carneiros não são donos de si mesmos, donos da própria vida. Existem para ser usados, até a última gota, a carne comida, os ossos moídos e dados às galinhas. Não sobra nada, a não ser talvez a vesícula biliar, que ninguém come. Descartes devia ter pensado nisso. A alma, suspensa na bile escura, amarga, escondida.

Páginas 141 e 142 de “Desonra”, de J.M. Coetzee, publicado em 1999.

Written by David Arioch

November 11th, 2017 at 8:09 pm

Sobre a exploração de ovelhas e carneiros

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Ovelhas e carneiros são tosquiados ao longo de toda a vida, assim servindo como matéria-prima para a indústria de lã. Porém, é importante considerar que há um mercado consumidor para o cordeiro, que é o carneiro ainda filhote. A carne de cordeiro é bastante valorizada quando o animal tem entre cinco e seis meses. No caso de animais da raça Dorper o abate é feito a partir de três meses.

Porém, o que determina o envio para o abate é a qualidade da carne e se o produtor tem interesse em usá-lo ou não como reprodutor. Caso contrário, mata-se nos primeiros meses um animal com expectativa de vida de 12 anos. No mais tardar, carneiros com dois anos e ovelhas com seis anos são enviados ao matadouro. Isto porque como os níveis de reprodução de ovelhas e carneiros caem nessa faixa etária, eles são considerados velhos e financeiramente inviáveis pelos produtores.

Como não são mais vistos como “boa matriz”, o destino desses animais, que muita gente pensa que são simplesmente tosquiados e têm uma vida feliz até os seus últimos dias, é o matadouro. Em qualquer parte do mundo, carneiros e ovelhas explorados pela indústria morrem precocemente, independente da finalidade da criação. Não é difícil chegar a essa conclusão se considerarmos que eles são mortos nos primeiros anos de vida, mesmo tendo uma expectativa de vida de 12 anos que pode ser estendida a 20 anos caso haja boa qualidade de vida.

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