David Arioch – Jornalismo Cultural

Jornalismo Cultural

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Animais que produzem medicamentos a partir de plantas podem despertar novas discussões sobre a senciência e a inteligência animal

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A medicina não é exclusivamente uma invenção humana, e muitos outros animais são conhecidos por se automedicarem com plantas e minerais

Orangotangos transformaram o extrato de uma planta da ilha de Bornéu em um analgésico tópico (Foto: Getty Images)

Este mês, a Scientific American, uma das revistas científicas mais prestigiadas dos Estados Unidos, publicou um artigo intitulado “Orangutans use plant extracts to treat pain”. Ou seja, “Orangotangos usam extratos de planta para tratar a dor”. No artigo, o autor Doug Main, afirma que a medicina não é exclusivamente uma invenção humana, e que muitos outros animais; como insetos, aves e primatas não humanos, são especialmente conhecidos no meio científico por se automedicarem com plantas e minerais – principalmente para tratar infecções e outras enfermidades. O que por si só já é um indicativo claro não apenas dos níveis de consciência animal, mas também de inteligência.

Mas o que mais chama a atenção no artigo, que pode despertar novas discussões sobre a inteligência animal e a senciência, ou seja, a capacidade de sentir dor, é que a pesquisadora e ecologista comportamental Helen Morrogh-Bernard, que há décadas estuda o comportamento dos orangotangos na ilha de Bornéu, encontrou evidências de que orangotangos têm produzido medicamentos de forma inédita a partir de plantas.

Helen, que trabalha para a Borneo Nature Foundation, passou mais de 20 mil horas realizando observação formal do comportamento desses animais, e constatou que ocasionalmente eles mastigam especificamente uma planta que não faz parte de suas dietas. Os orangotangos a mastigam até formar uma espuma e então a esfregam na pele. As massagens com o medicamento natural duram até 45 minutos, e normalmente o extrato é usado nas pernas e nos braços. Os pesquisadores acreditam que esse é o primeiro exemplo conhecido de um animal não humano usando um analgésico tópico fabricado por ele mesmo.

A planta, que tem o nome de Dracaena cantleyi, é um arbusto de aparência incomum com folhas riscadas, e é muito eficaz no tratamento de dores. A química do analgésico dos orangotangos da ilha de Bornéu foi estudada na Academia Tcheca de Ciências, na Universidade Palacký (em Oromouc, na República Tcheca) e na Universidade Médica de Viena.

Os pesquisadores dessas instituições, parceiros da Borneo Nature Foundation, adicionaram extratos às células humanas que foram cultivadas em um prato e as estimularam artificialmente para produzir citocinas – uma resposta do sistema imunológico que causa inflamação e desconforto. Os cientistas envolvidos na pesquisa relataram à revista acadêmica Scientific Reports que o extrato vegetal da Dracaena cantleyi reduziu a produção de vários tipos de citocinas.

Segundo o biólogo Jacobus de Roode, da Universidade Emory, sediada em Atlanta, nos Estados Unidos, o resultado realmente sugere que os orangotangos usam a planta para reduzir a inflamação e tratar a dor. Descobertas como essa ajudam a identificar plantas e substâncias químicas que podem ser úteis na fabricação de medicamentos de uso humano.

De acordo com o artigo “Orangutans use plant extracts to treat pain”, publicado pela Scientific American, em criaturas como insetos, a capacidade de se automedicar é quase certamente inata; as lagartas do tipo urso lanoso infectadas com moscas parasitas procuram e comem substâncias vegetais que são tóxicas para as moscas. Mas animais mais complexos podem aprender tais truques após uma descoberta inicial por um membro de seu grupo.

“Por exemplo, um orangotango pode ter esfregado a planta em sua pele para tentar lidar com parasitas e percebeu que ela também causava um agradável efeito analgésico”, disse Michael Huffman, primatologista da Universidade de Kyoto, no Japão. Esse comportamento pode então ter sido passado para outros orangotangos.

Aparentemente, não há registros desse tipo de automedicação fora do centro-sul de Bornéu, o que significa que a descoberta tem grande valor científico. E claro, tudo isso ajuda a endossar o fato de que não temos razão para subestimar a senciência e a inteligência animal não humana quando, cada vez mais, eles nos dão mostras de que ainda temos muito a aprender, e principalmente em relação às suas lições e ao valor da vida não humana – incluindo sua capacidade de sentir dor.





Todos os animais têm direitos, a perspectiva de um cientista

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Marzluff: “A indústria humana frequentemente limita diretamente os direitos naturais – o lugar das espécies na ecologia e na evolução”

Marzluff: “Estou convencido de que todas as aves e mamíferos merecem o cuidado e a consideração que damos aos humanos” Foto: The Herald (Everett)

Em maio de 2015, o cientista e biólogo John M. Marzluff, que também é professor de ciências da vida selvagem na Universidade de Washington, publicou na revista Wired um artigo explicando por que ele acredita que todos os animais têm direitos. O texto intitulado “All Animals Have Rights: A Researcher’s Perspective” se baseia em suas experiências e na sua compreensão da intervenção humana na vida animal. Entre os anos de 1992 e 2014, Marzluff publicou vários livros sobre a realidade da vida selvagem: “The Pinyon Jay: Behavioral Ecology of a Colonial and Cooperative Corvid”, “In the Company of Crows and Ravens”, “Gifts of the Crow”, “Dog Days Raven Nights” e “Welcome do Subirdia”:

Perdoe-me PAI, por eu ter pecado. Faz 35 anos desde que me tornei um cientista e capturei milhares de aves selvagens, equipando-as com pulseiras barulhentas ou mochilas pesadas. Tornei públicas suas vidas privadas. Algumas, temporariamente confinei em gaiolas e as submeti a varreduras cerebrais destinadas a revelar pensamentos desconhecidos.

Sempre me pergunto se violei os direitos desses seres sencientes. Amo e respeito esses pássaros e dedico minha vida à sua conservação. No entanto, para argumentar persuasivamente por sua preservação, devo saber (e contar aos outros) sobre eles. Se possível, eu pediria sua permissão antes de forçar minha curiosidade sobre eles. Mas, claro, isso é impossível.

Como biólogo, acredito que todos os organismos vivos têm direitos. Como alguém que gasta uma boa parte do ano em companhia de animais inteligentes e sociais, como corvos e lobos, estou convencido de que todas as aves e mamíferos merecem o cuidado e a consideração que damos aos humanos.  A arquitetura neurológica avançada e a função cognitiva dessas criaturas comprovam o seu intelecto, mas não vejo razão para não estender direitos iguais a todos os animais.

Essa ética enfatiza o direito do indivíduo de manter o seu natural nicho ecológico e evolutivo. Aldo Leopold declarou isso eloquentemente em seu livro “A Sand County Almanac”, de 1948, “escrevendo” que algo está certo quando tende a preservar a integridade e a estabilidade e beleza da comunidade biótica. Em minha opinião, está certo – na perspectiva de Leopold – que para os animais viverem uma vida plena e livre em seu habitat natural eles precisam exercer seus papéis ecológicos e evolutivos.

Permitir que uma espécie simplesmente tenha o direito de existir significa que nós, seres humanos, devemos conceder a um camundongo o direito a uma vida em ritmo acelerado, reunindo sementes, se reproduzindo e, muitas vezes, acabando nas garras de um falcão faminto. Devemos ativar a capacidade da população de camundongos de evoluir em táticas evasivas. Os direitos dos falcões incluem a morte diária de camundongos e a evolução das estratégias para viver em um mundo dominado por humanos.

A indústria humana frequentemente limita diretamente os direitos naturais – o lugar das espécies na ecologia e na evolução – que eu concederia a todos os nossos irmãos selvagens. À medida que conduzimos algumas espécies em direção à extinção, comprometemos seu potencial evolutivo. À medida que procuramos reduzir os hábitos naturais de caça dos lobos e coiotes, violamos seus direitos de ser um predador.

Conforme concedemos a mais espécies seus direitos naturais, alguns dilemas certamente surgirão. Considere corvos e tetrazes. No oeste dos EUA, os corvos aumentaram em resposta à modificação de paisagens áridas. Nossas atividades proporcionaram aos corvos novos locais de nidificação, novos alimentos e permitem que eles se espalhem profundamente por terras silvestres degradadas e fragmentadas. Em contraste, essas mesmas ações condenam o perdiz-silvestre à extinção. O desaparecimento do perdiz fez com que os proprietários de terras, administradores da vida selvagem e conservacionistas propusessem o abate de corvos.

O corvo não foi questionado sobre o assunto. No entanto, como os pesquisadores investigam a vida pessoal dos corvos, uma resposta pode ser apresentada em nome das aves escuras. Ao capturar, marcar, contar e seguir os corvos, soubemos que a maioria dos indivíduos não é caçadora de perdizes. Muitos raramente se aventuram em centros de atividade humana – cidades, depósito de lixo e campos agrícolas. Descobrir que os poucos corvos que vivem entre os perdizes têm vida longa e são rápidos aprendizes sugere que em vez de matar pode ser muito mais eficaz ensiná-los a evitar os perdizes.

O condicionamento aversivo de corvos para que não comam os ovos de perdizes e galinhas é viável, e uma vez treinados, os corvos territoriais protegem os perdizes, mantendo outros corvos na baía. Como os animais não têm voz para expressarem os seus direitos e confrontar aqueles que os negam, a pesquisa deve elucidar suas necessidades e falar em seu nome.

Para que nossa voz seja ouvida, pesquisadores devem se preocupar com o bem-estar animal. Comitês estaduais, federais e institucionais revisam pesquisas sobre animais vertebrados para incutir integridade científica e minimizar os riscos para os animais. Os pesquisadores são obrigados a usar modelos ou simulações sempre que possível, em vez de animais reais. Os pesquisadores também devem provar que o número de animais usados é apenas grande o suficiente para garantir rigor estatístico, não maior. Cada nuance da pesquisa é examinada – captura, cuidado, experimentação e treinamento pessoal. Fazer isso produz uma voz forte e eticamente defensável para aqueles que não podem falar.

Apesar da minha boa vontade em conduzir uma pesquisa cuidadosa e significativa em nome dos animais, é evidente que nem todas as aves que pesquisei aprovaram meus métodos. A imagem de um corvo rolando no chão tentando remover as faixas da perna que eu tinha acabado de aplicar incendeia em minha memória. As reações agressivas de outros à máscara que usei durante a captura, há nove anos, servem para me lembrar da minha influência duradoura [sobre suas vidas]. Essas dores são reduzidas, no entanto, quando a exposição à pesquisa sobre a vida selvagem amplia a mente humana para considerar as necessidades dos animais. O conhecimento científico levanta a cortina do mito e do mal-entendido para que possamos aprender a coexistir pacificamente com os animais selvagens que compartilham o nosso planeta.

Referência

Marzluff, John M. All Animals Have Rights: A Researcher’s Perspective. Wired (2015).

 

 





Sobre a realidade dos animais usados como cobaias

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” Em muitos casos, uma porção do cérebro do animal é cortada e descartada”

Há experiências com animais que fazem parte da categoria comportamento e aprendizado. Nesse caso, animais usados como cobaias são submetidos a isolamento social, alimentar, desidratação severa e privação de sono que podem durar dias, semanas, meses ou anos. As pesquisas com animais que visam avaliar o comportamento e o aprendizado não humano normalmente são baseadas na abertura do crânio do animal ainda consciente e na instalação de elétrodos no cérebro.

Nesse ínterim, o cérebro da vítima é manipulado como um brinquedo. Em muitos casos, uma porção do cérebro do animal é cortada e descartada; e ele é obrigado a encontrar alguma saída em um labirinto, por exemplo, mesmo incapaz de reagir naturalmente. Também é mantido sobre plataformas por dias, mas como sempre há água embaixo, o animal evita dormir com medo de cair e morrer afogado. Somente depois de muitos episódios de vivissecção que culminam em traumas extremos, ele entra em estado vegetativo. Como já não responde satisfatoriamente aos estudos, é descartado como lixo.

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Carl Sagan contra a exploração animal

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 “É indecente de nossa parte afirmarmos que só os seres humanos podem sofrer”

“Se há vida, então acredito que não devemos fazer nada para perturbar essa vida” (Foto: Cosmos)

O astrofísico Carl Sagan, também conhecido como o “astrônomo do povo”, se tornou um dos cientistas mais respeitados do século 20. Com centenas de publicações científicas e mais de 20 livros lançados, Sagan conquistou popularidade mundial após o lançamento da série “Cosmos”, escrita por ele em parceria com a esposa Ann Druyan e Steven Soter. O programa baseado em 13 episódios ajudou a ampliar o interesse pela ciência e pela espiritualidade sem viés religioso.

E foi exatamente por causa da preocupação com o lugar do ser humano no universo, e o reconhecimento da nossa pequenez, que Sagan se tornou um crítico das ações humanas em detrimento de outros seres vivos. Uma de suas célebres frases foi eternizada no episódio “Blues for a Red Planet”, que foi ao ar em 26 de outubro de 1980. “Se há vida, então acredito que não devemos fazer nada para perturbar essa vida. Marte então, pertence aos marcianos, mesmo que eles sejam apenas micróbios”, recomendou.

Carl Sagan também condenava os experimentos feitos com animais. Provas dessa sua postura podem ser encontradas no livro “Shadows of Forgotten Ancestors”, publicado em parceria com a esposa Ann Druyan em 1992. Na obra, ele relata a triste realidade dos primatas explorados em prol da ciência”. Cita como exemplo um experimento em que macacos foram obrigados a puxar uma corrente para serem alimentados em um laboratório.

O problema é que essa mesma corrente eletrocutava outro macaco cuja agonia estava à vista, por intermédio de um espelho unidirecional. Se eles não a puxassem, ficariam com fome. Depois de aprender a usar as correntes, os macacos recusaram-se a fazer isso. No experimento, somente 13% dos animais a puxaram. Os outros 87% optaram pela fome.

Um macaco ficou sem comida por quase duas semanas para não ter que ferir o seu companheiro. Aqueles que tinham sido vítimas de choque elétrico em experiências anteriores estavam ainda menos dispostos a puxar a corrente. Carl Sagan e Ann Druyan então se perguntaram quantos seres humanos na mesma situação seriam tão altruístas.

Sagan apontou que os macacos usados no experimento, e que ainda assim se recusaram a provocar dor em outros seres vivos, nunca foram à escola dominical, nunca ouviram falar nos Dez Mandamentos, nunca se contorceram por causa de uma mera lição de educação cívica. Ainda assim, são exemplares em suas bases morais e sua corajosa resistência ao mal. “Entre esses macacos, pelo menos nesse caso, o heroísmo é a norma”, frisou.

Sagan: “[Os macacos] são exemplares em suas bases morais e sua corajosa resistência ao mal” (Foto:

Segundo o astrofísico, muitos de nós temos uma perturbadora predisposição a causar dor, e por uma recompensa muito menor do que a comida destinada a um macaco faminto submetido à privação durante um experimento. Para entender melhor o assunto, ele sugere que os leitores leiam o livro “Obedience to Authority: An Experimental Overview”, publicado por Stanley Milgram em 1974. “Na história humana há um número preciso de poucos cuja memória veneramos porque conscientemente se sacrificaram pelos outros. Para cada um deles, há multidões que nunca fizeram nada”, critica.

Em “Shadows of Forgotten Ancestors”, Sagan aponta que a humanidade se tornou cada vez mais insensível em relação aos animais, e não somente no campo da pesquisa científica, mas em todas as esferas, inclusive reduzindo-os à comida, vestuário e outros tipos de produtos:

“Os seres humanos – que escravizam, castram, fazem experimentos e retalham outros animais – têm uma tendência compreensível de fingir que os animais não sentem dor. Uma distinção entre seres humanos e animais é essencial se quisermos subjugá-los à nossa vontade, usá-lo, comê-los – sem qualquer inquietação no que tange à culpa ou arrependimento. É indecente de nossa parte, que muitas vezes nos comportamos de forma tão insensível em relação a outros animais, afirmarmos que só os seres humanos podem sofrer. O comportamento de outros animais torna essas pretensões enganosas. Eles são muito parecidos com nós.”

Carl Sagan dizia também que nossas simpatias morais não se encontram com os cientistas, mas com os não humanos, que enquanto vítimas de experimentos demonstram uma santa vontade de fazer sacrifícios para salvar os outros – em referência aos animais que se recusam a toma parte em experiências que causem dor aos seus semelhantes.

Saiba Mais

Carl Sagan nasceu em 9 de novembro de 1934 em Nova York e faleceu em Seattle em 20 de dezembro de 1996 em decorrência de pneumonia.

Sagan era defensor do ceticismo e promoveu a busca por inteligência extraterrestre. Foi pioneiro nos estudos do efeito estufa e da exobiologia. Fez carreira como professor da Universidade Cornell e em 1978 ganhou um Prêmio Pulitzer pela autoria de “The Dragons of Eden”. O seu romance “Contact” foi adaptado paro o cinema em 1997, sob direção de Robert Zemeckis.

Referências

Cosmos: A Personal Voyage: Blues For a Red Planet (PBS). Carl Sagan, Ann Druyan e Steven Soter. Gregory Andorfer Rob McCain. Veiculado originalmente em 26 de outubro de 1980.

Sagan, Carl; Druyan, Ann. Shadows of Forgotten Ancestors. Ballantine Books. Edição: Reprint (1993).

http://www.carlsagan.com

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Nikola Tesla: “Todos os esforços devem ser feitos para impedir o massacre cruel dos animais”

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“Penso, portanto, que o vegetarianismo é uma desistência louvável do hábito bárbaro estabelecido”

Tesla: “Muitos povos que vivem quase que exclusivamente de vegetais possuem físico e força superiores” (Foto: Reprodução)

Conhecido como “O homem que espalhou luz pela face da Terra” e “O Mágico da Eletricidade”, o inventor, físico e engenheiro elétrico sérvio Nikola Tesla é considerado um dos mais produtivos e enigmáticos gênios da humanidade. Uma de suas maiores contribuições foi no desenvolvimento do sistema de fornecimento de energia elétrica de corrente alternada. Seu trabalho teve papel determinante na implantação e distribuição de eletricidade doméstica. Além disso, ele foi fundamental na criação do rádio e desenvolveu um sistema de transmissão de energia sem fios em 1901. Com esse projeto, seu objetivo era oferecer energia elétrica livre e gratuita.

Referência em eletromagnetismo, Tesla criou reatores para veículos com controle remoto, máquinas para tentar se comunicar com extraterrestres e chegou a apontar equívocos no trabalho de Albert Einstein sobre a teoria do campo unificado. Mas, para além da ciência, Nikola Tesla era um homem preocupado não apenas com o futuro da humanidade, mas também dos animais. Em seu artigo “The Problem of Increasing Human Energy With Special References To The Harnessing of the Sun’s Energy”, publicado na revista Century Illustrated em junho de 1900, ele disse que a criação de gado como meio de fornecer alimento para os seres humanos é censurável.

“É certamente preferível criar legumes, e penso, portanto, que o vegetarianismo é uma desistência louvável do hábito bárbaro estabelecido. Podemos substituir alimentos [de origem animal] por alimentos vegetais e realizar nosso trabalho de forma vantajosa. Não é uma teoria, mas um fato bem demonstrado. Muitos povos que vivem quase que exclusivamente de vegetais possuem físico e força superiores”, escreveu.

Tesla afirmava não ter dúvida alguma de que alimentos vegetais como a aveia, além de ser mais econômico do que a carne, é superior no que diz respeito ao desempenho mecânico e mental do ser humano. “Esses alimentos sobrecarregam bem menos os nossos órgãos digestivos e nos tornam mais contentes e sociáveis, produz um bem difícil de estimar. Em vista desses fatos, todos os esforços devem ser feitos para impedir o massacre cruel dos animais, que é destrutivo para a nossa moral”, argumentou.

O inventor defendia que o consumo de carne é um grande mal porque impede que o ser humano se volte para o verdadeiro futuro. Segundo Nikola Tesla, é preciso realizar uma reforma alimentar radical, começando logo após o nascimento. Embora não fosse tão sociável, o inventor tinha grande amizade com o escritor Mark Twain, que também atuava em defesa dos animais, principalmente no campo da vivissecção, que ele condenava totalmente e lutava para bani-la.

De acordo com informações do livro “100 Cats Who Changed Civilization: History’s Most Influential Felines”, de Sam Stall, Tesla ficou fascinado pelo desconhecido após uma experiência que ele teve na infância, quando vivia em uma fazenda isolada na atual Croácia. À época, o seu melhor amigo era um gato chamado Macek, que ele dizia ser o melhor gato do mundo. Durante um dia de inverno, particularmente frio e seco, uma enorme carga de eletricidade foi acumulada na atmosfera. As pessoas que caminhavam na neve deixavam pegadas cintilantes, e as bolas de neve arremessadas, quando se chocavam contra algo, explodiam como fogos de artifício.

Além de gatos, Tesla tinha uma relação especial com pombos (Foto: Reprodução)

Embora Tesla tivesse ficado surpreso com tudo que viu, o melhor estava por vir. “No crepúsculo, enquanto acariciava as costas de Macek, vi um milagre que me deixou sem palavras e maravilhado. Nas costas de Macek havia uma folha de luz e ao tocá-la minha mão produziu um jorro de faíscas [que fazia um barulho] tão alto que podia ser ouvido por toda a casa”, relatou Tesla.

Conforme o gato percorria os cômodos escuros da casa, o garoto ficou admirado ao vê-lo brilhando suavemente. Até aquele momento, ele jamais tinha demonstrado qualquer interesse ou aptidão para a ciência. Em sua própria autobiografia, intitulada “My Inventions: The Autobiography of Nikola Tesla”, publicada originalmente em 1919, o inventor deixa claro que se não fosse pelo gato Macek, ele talvez não tivesse descoberto sua vocação.

Amante dos animais, Nikola Tesla mantinha contato diário com pombos. Enquanto a maioria das pessoas que gostavam de pombos se contentavam em alimentá-los, o inventor, além de oferecer-lhes alimento, recolhia as aves doentes que encontrava por onde passava e as abrigava no hotel onde estava hospedado. Um dia, ficou encantado por uma pomba branca com manchas cinzas nas asas.

Em uma noite de 1922 a ave voou até o seu quarto no Hotel St. Regis, em Nova York. Ele percebeu que ela parecia desesperada, tentando se comunicar. Em sua autobiografia, Tesla narrou que viu luzes mais intensas nos olhos da pomba do que nas lâmpadas mais poderosas que ele criou em seu laboratório. A ave faleceu sem que ele tivesse tempo de tomar qualquer decisão. Quando viu que nada mais poderia ser feito, Nikola Tesla declarou que algo em sua vida tinha chegado ao fim e que todo o trabalho ao qual ele tinha se dedicado também.

Saiba Mais

Nikola Tesla nasceu em Smiljan, atual Croácia, em 10 de julho de 1856 e faleceu em Nova York em 7 de janeiro de 1943, aos 86 anos. No momento de sua morte, ele estava em seu quarto em um hotel.

Tesla era um homem muito à frente do seu tempo, tanto que até hoje persiste o mistério em torno das suas pesquisas, já que logo após sua morte o FBI recolheu boa parte do seu trabalho e o selou em um arquivo registrado como secreto.

Referências

Stall, Sam. 100 Cats Who Changed Civilization: History’s Most Influential Felines. Páginas 17-19. Quirk Books (2007).

Tesla, Nikola. My Inventions: The Autobiography of Nikola Tesla. Martino Fine Books (2011).

http://www.tfcbooks.com/tesla/1900-06-00.htm

https://teslauniverse.com/nikola-tesla/timeline/1922-teslas-favorite-pigeon-dies

http://www.huffpostbrasil.com/entry/nicola-tesla-love-pigeon-facts-inventor_n_4320773

http://historybuff.com/4-strange-facts-about-nikola-tesla-to-share-at-your-next-nerd-gathering-6Q0pA9jgDgao

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Written by David Arioch

March 24th, 2017 at 9:57 am

Goethe e a busca pelo conhecimento

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Para o escritor, o universo se expandia através das ciências e das artes

Georg Melchior Kraus

Goethe acompanhou uma batalha entre o Exército Revolucionário Francês e as Forças Prussianas de Intervenção na juventude (Arte: Georg Melchior Kraus)

No dia 22 de março de 1832, Johann Wolfgang von Goethe, um dos mais célebres nomes da literatura alemã, estava em sua casa em Weimar, na Turíngia, segurando a mão de sua nora Otília. Na data, ele falou dos passeios que daria nos meses seguintes e se recordou de uma moça de sua juventude. Também balbuciou o nome de seu grande amigo, o igualmente famoso poeta Friedrich von Schiller, falecido em 9 de maio de 1805.

Ansiando para que as persianas se abrissem para o sol da manhã, o autor de Fausto pediu a um empregado: “Mais Luz!” E então seu dedo tracejou uma palavra no ar e ele mudou de posição em sua cadeira, caindo no sono e sucumbindo em um momento que ninguém imaginava que ele morreria.

Quarenta anos antes, Goethe acompanhou uma batalha entre o Exército Revolucionário Francês e as Forças Prussianas de Intervenção. Ele viu no conflito bélico uma oportunidade para conduzir uma pesquisa sobre uma inédita teoria de luz e cor, que mais tarde se transformaria no livro Teoria das Cores, publicado em 1810, e que inspirou os artistas pré-rafaelistas.

O escritor britânico Christopher Middleton escreveu em sua introdução à poesia de Goethe que durante a Batalha de Valmy o alemão foi visto divagando, estudando os efeitos das ondas de choque na visão, levando em conta a luz sobre a poeira. Os resultados desse trabalho contribuíram em vários ramos da ciência – anatomia, biologia, botânica e geologia.

Goethe também teve um importante papel no governo alemão como administrador de artes. Todas essas atividades alimentaram sua paixão pela busca de sinais que pudessem levá-lo a um plano maior na história. Goethe se empenhou ainda em fazer com que a língua alemã fosse vista como uma “textura viva”, o que justifica porque ele é considerado na Alemanha não apenas um grande poeta, mas também um símbolo nacional.

O escritor caiu no sono e sucumbiu em um momento que ninguém imaginava que ele morreria (Arte: Reprodução)

O escritor caiu no sono e sucumbiu em um momento que ninguém imaginava que ele morreria (Arte: Reprodução)

Se dedicando a temas cósmicos ao longo de toda a carreira, o escritor concluiu a última etapa de seus trabalhos autobiográficos nos últimos meses de vida, quando finalizou a segunda parte da obra-prima Fausto. “Agora posso olhar a minha vida como o mais puro presente”, declarou Goethe prevendo o próprio fim.

O drama poético em que o protagonista faz um pacto com o diabo em troca de sabedoria e conhecimento para entender a vida exigiu 60 anos do alemão. A história autobiográfica reflete o próprio anseio de Goethe na busca por luz em um universo que se expande por meio das ciências e das artes.

Ao contrário da obra inglesa The Tragical History of Doctor Faustus, de Christopher Marlowe, em que Fausto é condenado ao inferno, na obra romântica de Goethe o protagonista que vendeu sua alma a Mefistófeles tem direito à redenção.

Fragmento de Fausto II

Ay, neste pensamento eu prometo minha fé inabalável

Aqui a sabedoria diz sua palavra final e verdadeira

Ninguém tem a liberdade ou a vida que merece

A menos que a conquiste diariamente e como se fosse a primeira vez

Fausto morre e Mefistófeles aparece para reclamar seu prêmio. Todo o espaço é preenchido com anjos, e ouve-se um coro durante o enterro, de acordo com a última cena do último ato da obra-prima.

Fausto, obra original publicada em 1808 (Foto: Reprodução)

Fausto, obra original publicada em 1808 (Foto: Reprodução)

Rode mais uma vez as chamas do amor

A pura luz se revela

Aqueles que foram deplorados pela vida

A verdade ainda curará

Resgatados, não mais serão escravos de maus cuidados

Em breve e de tudo por tudo

A felicidade será deles

Saiba Mais

Johann Wolfgang von Goethe nasceu em 28 de agosto de 1749 e faleceu em 22 de março de 1832.

Suas maiores obras são “Fausto”, Os Sofrimentos do Jovem Werther, “Os Anos de Aprendizado de Wilhelm Meister”, “As Afinidades Eletivas”, “Prometeus” e “Teoria das Cores”.

Referências

http://www.todayinliterature.com/

Lewes, George Henry. The Life of Goethe (1855). Adamant Media; 2000.

Williams, John. The Life of Goethe. A Critical Biography. Wiley-Blackwell; 2001.

Middleton, Christopher. Goethe, Volume 1: Selected Poems. Princeton University Press; 1994.

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A Pós-História e a morte de Deus

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Quando o homem deixou de ver o outro como semelhante

Quando a astronomia surgiu despedaçando o céu (Arte: Jeremy Perez)

Deus foi referência inquestionável para o homem até o momento que a astronomia surgiu, despedaçando o céu – simbólico paraíso etéreo. Com isso a relação litúrgica e religiosa semeada pelas denotações “irmão” e “próximo” tornou-se, no âmago social, anacrônica. A ciência incitou no homem a necessidade de refletir sobre o sentido da vida, despertando o embate entre Deus e Ciência; um conflito virulento na cultura ocidental, composta estritamente por uma maioria que jamais observou o mundo sob aspectos que envolvem dicotomia ou dualidade.

É mais simples encarar a realidade como única e inquestionável, respaldada pela convicção no Paraíso do Éden. Bom, trata-de algo posteriormente questionado, de modo mordaz, em estudos metafísicos que se tornaram grande alegoria da descrença. São muitas as obras que fazem romper a tênue e frágil linha entre sobriedade e insânia. Um exemplo proeminente é o trabalho do renomado e controverso filósofo alemão Friedrich Wilhelm Nietzsche que viveu os seus últimos onze anos de vida em manicômios.

Nietzsche: exemplo da fragilidade entre sobriedade e insânia (Foto: Reprodução)

Mas, se ainda vivesse, Nietzsche provavelmente concordaria que na contemporaneidade o homem raras vezes observa o mundo como um arcabouço de semelhantes. Sim! O outro se tornou apenas mais um ser habitando o plano terreno. Mesmo assim a desestruturação social ainda é evitada, quem sabe em virtude dos direitos do homem. Deus é morto todos os dias em nome da Ciência, como dizia o filósofo tcheco Vilém Flusser, responsável pela criação da denominação Pós-História – período em que o homem se afasta da imagem de Deus para se reestruturar novamente, como se recriasse uma outra história, paralela a até então vivenciada.

Em meio a tudo isso, surge ainda o Caos Organizador do filósofo francês Gilles Lipovetsky que usa o termo para definir a intrínseca relação entre o progresso e o regresso na hipermodernidade. Nesse contexto, o homem tende a resgatar valores e comportamentos de seus antepassados, principalmente conceitos de vida empíricos e míticos. Tenta se afastar paulatinamente da tecnologia que o escravizou, tornando-o sedentário e atribuindo-lhe características sub-humanas. Realmente, tantos bens de consumo são, de fato, mecanismos responsáveis por facilitar a vida humana?

O homem como refém de criações supérfluas (Arte: Collin Dunn)

Nunca o foram, pois o papel da Indústria Cultural é simplesmente falsear a ideia da necessidade. Infelizmente a maioria não se vê como refém das criações supérfluas, algo que acontece em razão do homem do ser se tornar o homem do ter. Hoje, a máquina, até “caricaturável”, signo-mor da tecnologia, é tão determinante na vida do homem que o amedronta. Em vez do progresso nos dar respostas e confiabilidade a respeito do futuro, nos torna mais confusos; sofremos com incessantes males psicológicos. O ser humano se deprime com facilidade e passa a ter, mais do que nunca, receio das grandes doenças da atualidade. O progresso, por vezes, leva ao suicídio.

O temor o estimula a resgatar antigas crenças; tudo aquilo que servia de base à existência. O homem se afasta da tecnologia para alcançar o conforto que jamais foi propiciado pela industrialização. Convicções arcaicas e obsoletas são resgatadas todos os dias. Por quê? Porque a natureza admite a necessidade do equilíbrio. O crescente aumento tecnológico engrandece o medo. Na atualidade, em âmbito academicista, principalmente europeu e norte-americano, fala-se muito da hiperponografia; a extrema exposição à sexualidade que cresce a cada dia na internet. Porém este é um assunto à parte.

O futuro é incerto, pois a individualização do homem aumenta a cada dia, tornando-o ainda mais frágil e inapto ao convívio social. Antes de sua morte, o velho Flusser propôs a continuidade do progresso, sem esquecer de driblar os desequilíbrios aos quais o sistema que envolve todos os seres humanos está exposto. Afinal, a realidade manufatureira é infindável, elemento intrínseco desse período – a Pós-História.