David Arioch – Jornalismo Cultural

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“Droboy tume Romale! Não vou ler a sua mão”

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Pintura: Flora The Gypsy Flower Seller, de George Clausen

No centro, uma cigana me parou e pediu um minuto da minha atenção. “Droboy tume Romale! Não vou ler a sua mão. Mas quero te contar uma coisa.” Consenti. Ela disse que já me conheceu, não nesta vida, mas em outras.

— Você pode não acreditar, mas viveu pelo menos dez vezes mais do que eu. E a sua aparência é sempre a mesma, em cada uma dessas vidas. Os olhos pretos, os cabelos pretos e a barba preta ajudam a equilibrar a luz que existe em você. Por isso te reconheci. Seus olhos são os mesmos de sempre. Você é antigo, e acho que não tem ideia do quanto. Mas as pessoas não saberem isso é uma vantagem maior pra você do que pra elas.

— Antigo? Como assim?

— Sim, meu rapaz. Esta é a sua vida agora, mas você traz muito de outras vidas.

— Sei.

— Morro volá, falo sério! Meu bisavô já falava de você quando eu era criança. Ele te conheceu como Oleg, um kalderash que vivia nos Montes Urais; adquiria a sabedoria dos animais e a compartilhava com os humanos. Se um dia o encontrá-lo novamente, prometo mostrar uma pintura que ele fez de você. Vai te surpreender.

— Sério? Seria interessante ver isso.

— Por que não acredita?

— Não duvido da senhora, mas talvez tenha me confundido com alguém ou algo do tipo.

— De modo algum, sua presença é sentida à distância.

— Hum…

— Aposto que você decidiu usar barba longa pela primeira vez quando fez 30 anos.

— Como a senhora sabe? Talvez um palpite?

— Porque você fez isso em todas as suas outras vidas. Nunca usou barba longa antes dos 30 anos.

— Hum…

— Sabe por que?

— Acho que não há um motivo em especial…

— Há sim. Sempre há. Porque os fios longos sempre marcaram um novo ciclo em todas as suas vidas.

— É?

— Pois acredite, porque não tenho porque mentir. Afinal, não estou cobrando nada, estou?

— Nisso a senhora tem razão.

— Óbvio que sim.

— Hum…

— Bato! Meu pai ficaria feliz de vê-lo também. Ele sempre ouvia suas histórias na infância.

— Quais histórias?

— São muitas. Ah, isso eu não vou contar agora. Quem sabe, em outra ocasião.

— Entendi. Bom, senhora, vou indo porque tenho compromisso e já estou atrasado.

— Não se preocupe. Vá em paz. Akana mukav tut le Devlesa!

Caminhei alguns passos e olhei para trás. A cigana tinha desaparecido.

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Written by David Arioch

June 24th, 2017 at 6:14 pm

No centro e no mercado

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Dias atrás, no centro, bem na esquina da Avenida Paraná com a Rua Souza Naves, uma cigana começou a balançar as pulseiras e gritou, me chamando de “wortako”. Olhei receoso, indeciso sobre parar ou não. Quando segui adiante, ela veio em minha direção, ameaçando segurar minha mão.

Fiquei tão surpreso que acabei sem reação, com os pés interrompidos. A cigana olhou bem nos meus olhos duas ou três vezes, alternando toques e esfregões na palma da minha mão direita. De repente, levou a mão à boca e disse: “Você não é filho do Tayrone?” Respondi que não, ela soltou minha mão e gritou: “Che chorrobiya! Che chorrobiya! Seu mentiroso! Mentiroso! Eu conheço a sua família!” Enquanto ela balançava as pulseiras, me afastei a passos rápidos.

Um pouco mais cedo, fui ao mercado. Na seção de grãos, peguei um pacote de farinha de trigo para quibe, de uma marca que até então eu não conhecia, e comecei a ler a lista de ingredientes e outras informações complementares. De repente, uma mulher se aproximou e disse: “Aposto que até você que come muito quibe está estranhando o preço, não?”

6 de novembro de 2016.

 

Written by David Arioch

November 16th, 2016 at 10:19 am

A Boate da Cigana

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Boate era a grande diversão dos homens de Paranavaí nos anos 1950

Capitão Telmo era frequentador assíduo da Boate da Cigana (Acervo: Fundação Cultural de Paranavaí)

Capitão Telmo era frequentador assíduo da Boate da Cigana (Acervo: Fundação Cultural de Paranavaí)

Na década de 1950, sem dúvida, o ambiente mais frequentado pelos homens de Paranavaí, no Noroeste do Paraná, era a Boate da Cigana, uma casa situada na então Zona do Baixo Meretrício.

Ninguém sabe ao certo o ano em que foi fundada a Boate da Cigana, situada algumas quadras abaixo do antigo Aeroporto Edu Chaves, atual Colégio Estadual de Paranavaí (CEP). Mas estima-se que surgiu antes de 1955 e logo se tornou o principal ponto de entretenimento do público masculino adulto. A boate, que tinha como principal via de acesso a avenida que recebeu o nome de Heitor Alencar Furtado, foi fundada por uma gaúcha conhecida apenas como “Cigana”.

Segundo pioneiros, era uma loira de beleza estonteante que antes de vir a Paranavaí vivia em Paranaguá, na Região Metropolitana de Curitiba. A Cigana também chamava atenção pelo carisma e cordialidade com que tratava os frequentadores da casa. “A boate atraía não apenas homens de Paranavaí, mas de toda a região, e funcionava tanto de dia quanto de noite”, relatou o pioneiro cearense João Mariano, acrescentando que naquele tempo o local era a maior fonte de entretenimento dos homens.

Para os clientes da casa, a gaúcha disponibilizava mais de vinte moças. Eram todas muito bonitas. Apesar do serviço oferecido não ser bem visto por uma camada da sociedade, é importante lembrar que a Cigana não permitia atitudes desrespeitosas, nem confusões no interior da boate. “A casa era frequentada até por gente importante, autoridades influentes de Curitiba e de outros estados que visitavam Paranavaí”, confidenciou Mariano, mas se recusando a citar nomes.

O movimento na Boate da Cigana sempre aumentava nos finais de semana, quando os peões que atuavam na derrubada da mata e criação de estradas retornavam a Paranavaí. “Muitos se empolgavam tanto que deixavam todo o salário na casa”, comentou o pioneiro, referindo-se a algo que era muito comum nos anos 1950, quando os mais humildes se contentavam com o prazer efêmero proporcionado pelo álcool e pelas damas da noite.

O que chama muita atenção até hoje quando o assunto é a Boate da Cigana é o fato do espaço ter sido frequentado por pessoas de todas as classes sociais, desde os mais abastados até os mais desfavorecidos. Todos se tratavam muito bem, como se as diferenças sociais não existissem.

Dentre as figuras de maior destaque da história de Paranavaí, e que se tornou um assíduo frequentador da Boate da Cigana, está o Capitão Telmo Ribeiro. Quando chegava à boate, normalmente à noite, o capitão sempre dizia: “Quem tá dentro não sai, quem tá fora não entra.” E ninguém ousava contrariá-lo. A casa imediatamente era fechada e só abriam as portas quando ao amanhecer o galo cantava.

Pela manhã, Telmo Ribeiro pagava as despesas de todos os clientes. Também era conhecido por presentear as damas da noite. Segundo pioneiros, a boate nunca teve um cliente como o capitão que gostava de passar muitas horas conversando e bebendo em companhia da cigana gaúcha.

Curiosidade

A Boate da Cigana era tão famosa que havia um ponto de charrete em frente ao local.