David Arioch – Jornalismo Cultural

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“22 de Julho”, a história de um massacre norueguês

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Lançado em 2018 e disponibilizado pela Netflix, o filme “22 de Julho” conta a história dos atentados terroristas de 22 de julho de 2011 em Oslo e Utøya, na Noruega, quando o nacionalista de extrema-direita Anders Behring Breivik causou a morte de 77 pessoas.
 
O filme apresenta simultaneamente duas realidades; a preparação de Breivik (Anders Danielsen Lie) em Oslo, antes do atentado, baseada em informações divulgadas a partir do seu próprio julgamento, e os acontecimentos que precederam o ataque em Utøya, onde dezenas de jovens da Liga da Juventude dos Trabalhadores, vinculada ao Partido Trabalhista Norueguês, estavam reunidos.
 
Depois de explodir bombas em um complexo de prédios do governo norueguês, mesmo sem saber o resultado do ato terrorista, Breivik parte para Utøya, onde, se passando por policial, consegue atravessar até o acampamento da Liga da Juventude. Antes de matar os participantes acomodados em um dos espaços, o assassino em massa antecipa que eles serão mortos por serem “liberais, marxistas…”
 
Alguns deles sobrevivem para contar o que aconteceu na ilha – caso de Viljarn Hanssen (Jonas Strand Gravli) – que ocupa papel de destaque no drama pela sua própria história de superação depois de sobreviver a cinco tiros disparados por Breivik e carregar estilhaços de bala no tronco cerebral que poderiam fazer com que morresse a qualquer momento.
 
Após matar 69 jovens em Utøya e se deparar com a chegada da polícia, Breivik, que parece ter ensaiado suas ações, friamente joga as armas no chão e se ajoelha com as mãos sobre a cabeça para ser preso – sem manifestar qualquer nervosismo. Daí em diante, com a sua prisão em flagrante, a história se direciona para a sua relação com o advogado Geir Lippestad (Jon Øigarden), que mesmo sendo filiado ao Partido Trabalhista, quando é convocado para representá-lo, acaba aceitando.
 
Esta decisão também teria consequências em sua vida – como ameaças de morte e um convite da direção da escola onde sua filha estuda para retirá-la de lá por pressão de outros pais. Mesmo em um espectro político oposto ao de Breivik, o terrorista o escolhe para a sua defesa porque Lippestad já havia atuado como advogado de um neonazista alguns anos antes.
 
O profissionalismo de Lippestad surpreende, porque mesmo diante de um homem que matou tantos jovens, destruiu tantas famílias, e que não demonstra qualquer remorso, ele ainda visita a mãe de Breivik e tenta convencê-la a testemunhar a favor do filho. No entanto, ela declina a proposta. Lippestad também vai atrás do único supremacista norueguês que consegue encontrar que teve algum contato com Breivik, mas por via online.
 
O homem concorda em dar um depoimento durante o julgamento, mas conquista a cólera do terrorista ao dizer que jamais partilharia de um plano como aquele, e que, embora Anders Breivik se refira a si mesmo como uma espécie de líder, ele poderia citar vários nomes que realmente representam um ideal de liderança muito melhor do que Breivik.
 
Momentos como esse revelam como o terrorista é um egomaníaco e possui transtorno de personalidade narcisista. No entanto, Lippestad decide tentar diagnosticá-lo como alguém que sofre de esquizofrenia paranoide, para garantir que Breivik cumpra pena em um hospital de segurança máxima em vez de uma prisão convencional.
 
A princípio, o terrorista concorda, mas depois muda de ideia – porque entende isso como um desrespeito “aos seus próprios ideais”, já que ele estaria se assumindo como alguém que agiu por influência de transtornos psicológicos, não por crenças políticas.
 
O que chama atenção em “22 de Julho” são alguns fatos pitorescos que destoam da realidade de muitos países. Por exemplo, Breivik não é hostilizado em nenhum momento pela polícia – não sofre ataques físicos nem verbais. Apesar dos crimes, ele tem preservado todos os direitos de qualquer outro cidadão.
 
Ademais, ele se vale da garantia dos direitos humanos na Noruega para fazer alguns pedidos incomuns, exigências e até mesmo debochar de algumas situações antes e durante o seu julgamento. Além disso, a sua cela não seria considerada cela em um país como o Brasil, avaliando o conforto oferecido a um condenado.
 
O filme também explora uma espécie de pobreza existencial do personagem, já que ele cria um universo fantasioso de contemplação em torno da própria figura – o que não condiz com a realidade. Breivik tenta fazer a polícia e o governo crer que ele tem muitos apoiadores, e que pertencia a um grupo grande.
 
A obra mostra um terrorista que tinha apenas uma relação vacilante com a mãe, de quem não parecia ser próximo, mesmo dividindo o mesmo espaço. O fato dela não querer testemunhar reforça também esse distanciamento familiar, já que no diálogo com o advogado ela não demonstra grande surpresa ou profunda emoção.
 
O diretor e roteirista Paul Greengrass demonstra cuidado em externalizar a pequenez do terrorista, e o faz explorando também a insegurança do protagonista que se ilude com a crença de ser o dono da situação. Breivik deseja ser condenado pelos crimes que cometeu, porque acredita que assim será reconhecido como uma espécie de herói da extrema-direita.
 
No entanto, ninguém da extrema-direita, pelo menos no recorte feito pelo filme com base no livro “Um de Nós”, de Åsne Seierstad, parece ter dado grande importância a Breivik à época – não que sua representatividade não existisse – mas não a ponto de angariar apoios massivos e explícitos. Talvez a cena que melhor represente que ele estava realmente sozinho é o momento em que pergunta ao advogado Lippestad se o visitará na prisão, e ele responde que não – e ainda se recusa a pegar na mão de Breivik quando a estende, o que não aconteceu no primeiro contato.
 
Esse momento funciona como uma sepultura viva para um assassino em massa que, mesmo imerso na idealização de um mundo que não cabe em uma realidade democrática e globalizada, ainda diz que se tivesse a oportunidade faria tudo de novo.
 
O ódio de Breivik, que o filme não faz questão de tentar explicar, talvez para evitar a humanização do terrorista, apenas dá pistas de que ele não tem empatia pelas pessoas, e que não vê problema em matá-las quando se opõem àquilo que ele qualifica como seus interesses maiores, que neste caso é uma suposta preservação da identidade norueguesa ameaçada pelo multiculturalismo acentuado pela globalização – na sua perspectiva – e que seu ódio pelo Partido Trabalhista Norueguês tem relação com o governo permitir que isso aconteça.
 
Greengrass não dedica o filme a condenar essa sua posição, talvez para não fazer do filme uma obra de engajamento político-partidário – mas a inadmissibilidade está mais no campo de suas ações do que de suas ideias – já que na Noruega não é crime ter tal ideologia. No entanto, o depoimento de Lara Rashid (Seda Witt), uma refugiada, dá voz lírica às incoerências da intransigência que culmina em violência quando ela pergunta o que fez para merecer tal destino – de ter sua irmã morta e ter sobrevivido ao atentado por pouco.
 
É difícil saber se a “simpatia” que o assassino manifesta pelo advogado Geir Lippestad é honesta, ou apenas uma necessidade de ter algum tipo de plateia para o seu próprio show – que a partir da condenação deixa de existir, já que ele é relegado a um confinamento que não o permite ter contato com outros detentos.
 
Interessante também é a forma como o filme explora, ainda que não em profundidade, as falhas do governo em não antever terrorismo por parte de nacionalistas de extrema-direita, mas apenas de “islâmicos” – como destacado na obra – o que revela também fragilidade de percepção, ainda que a Noruega seja uma nação de muitos recursos.
 
Enquanto Anders Breivik se apaga, com seu show tendo um curto prazo de validade que chega ao fim com a sua condenação, sendo relegado ao isolamento prisional, o jovem Viljarn Hanssen, sobrevivente icônico de 22 de julho de 2011, vê sua própria luz acender depois de muita luta pela sobrevivência e de enfrentamento da possibilidade de morrer a qualquer momento – sendo obrigado a reaprender a andar, se alimentar e a viver.
 
Sua libertação simbólica, que o afasta de seus pesadelos, surge quando ele consegue depor contra o seu algoz. Com uma história com tantos mortos, é difícil falar em vitória, mas é possível reconhecer que Breivik, que tencionava matar os chamados “líderes do futuro” na Noruega, teve e ainda tem de lidar com a realidade. Enquanto eles estão aqui fora, ele continua na prisão.

Os 76 anos de “Casablanca”

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Humphrey Bogart (1899-1957) e Ingrid Bergman (1915-1982), estrelas de “Casablanca”, de 1942 (Foto: Popperfoto/Getty Images)

Lançado em dezembro de 1942, “Casablanca” vai ser sempre lembrado como um clássico que aborda a impossibilidade do amor. O filme do cineasta tcheco Michael Curtiz conta a história do exilado estadunidense Rick Blaine (Humphrey Bogart) que mora em Casablanca, no Marrocos, onde administra uma casa noturna e ajuda refugiados estrangeiros no início dos anos 1940.

O protagonista vive um dilema quando reencontra acidentalmente a antiga paixão Ilsa (Ingrid Bergman) que tenta fugir para os Estados Unidos com o marido Victor Laszlo (Paul Henreid), um antinazista tcheco. A obra aproveitou com certo caráter propagandístico, e bastante favorável aos EUA, o sentimento de contrariedade ao Nacional Socialismo de Hitler durante a Segunda Guerra Mundial.

Embora hoje seja cultuado em todo o mundo, a verdade é que quando Casablanca começou a ser produzido não havia tantas expectativas em torno do sucesso da película. Nem mesmo o elenco, principalmente a atriz Ingrid Bergman – que não acreditava tanto no filme – imaginava que a obra figuraria até hoje entre as dez das mais importantes listas de melhores trabalhos cinematográficos da história. “Casablanca” surgiu a partir de um roteiro de teatro intitulado “Everybody Comes To Rick’s” dos teatrólogos Murray Burnett e Joan Alison, que o escreveram após uma viagem internacional.

Sem dinheiro e investidores para produzirem o espetáculo, optaram por vendê-lo por vinte mil dólares, à época, um valor bem elevado para uma história nunca encenada. Mas a fórmula do filme deu certo e o investimento de pouco mais de um milhão de dólares garantiu quase quatro milhões em faturamento. Casablanca ainda arrecadou muito mais nas décadas subsequentes, a partir de lançamentos especiais e merchandising.

A essência antinazista da obra também teve repercussão muito positiva da crítica que naquele tempo já era favorável em explorar até a exaustão a figura do “herói americano”, sujeito aparentemente falho, mas capaz de abdicar do amor em prol da liberdade e felicidade coletiva. Reflexo dessa grande aceitação são os três prêmios que o filme conquistou no Oscar nas categorias melhor roteiro, filme e diretor. Na minha opinião, uma interpretação esfíngica, sempre digna de destaque, é a do inconfundível eslovaco Peter Lorre que vive Ugarte, um estrangeiro e amigo de Rick que vende cartas de trânsito para refugiados.

Written by David Arioch

March 5th, 2019 at 1:15 am

“Stroszek”, o mundo de Bruno

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“Stroszek” foi lançado por Werner Herzog em 1977 (Foto: Reprodução)

Em 1977, o cineasta alemão Werner Herzog lançou “Stroszek”. No filme, Bruno S. tem problemas psicológicos e é alcoólatra, mas sua condição individual é apenas resultado do meio. Ou melhor, da ausência de um meio. Depois de deixar um hospital psiquiátrico, reencontra Eva, jovem que parece ter sido a única pessoa a se importar com ele ao longo de toda a sua vida. Motivado por ela, decide se afastar da inapetente e gélida realidade de Berlim para buscar um futuro melhor nos Estados Unidos. Um futuro que nunca almejou verdadeiramente.

Bruno S. quer apenas passar seus dias nos becos tocando acordeão para uma plateia de dois ou três curiosos que escoram nas janelas. Dinheiro não significa nada, mas beber permite um passeio fora de si, uma divagação pela órbita existencial extemporânea. Ser a si mesmo na proporção do não ser. Sensibilidade à flor da pele, incomunicabilidade – defeitos e predicados de Bruno S.

Bruno S. não quer muito, mas, na sua inocência rarefeita, se arrisca pelos outros – por um amigo idoso e pela moça que o cativa. Nos Estados Unidos, onde a fronteira idiomática impede que os outros entendam o que diz, reconhece que a violência dos valentões que o incomodavam diariamente nas ruas de Berlim se transforma em uma violência da incomunicabilidade. Agora é uma violência espiritual e econômica.

Ele, que não sabe nada de inglês, confia nos outros e continua orbitando por um cenário inapetente e uma gélida realidade. Uma cidadezinha qualquer de Wisconsin ou Berlim, Bruno não via diferença. Parecia tudo igual. American way of life? No way! Mas na Alemanha pelo menos alguém entenderia o que ele diz, mesmo regularmente ignorado. Com Eva, compra casa, TV e outros eletrodomésticos. Não ganham o suficiente e não honram o financiamento, o banco não perdoa. Eva foge para Vancouver com um caminhoneiro que conhece na lanchonete de beira de estrada onde trabalha como garçonete.

Bruno S. revive a solidão de sempre. Levam sua casa, sua TV e os outros eletrodomésticos. Ele não tinha como pagar, e o banco, de certo, não iria perdoar. Já sem ter onde morar, participa de um assalto com seu velho amigo e idoso Scheitz que, revoltado, planeja um assalto. Não, não foi planejado. Num rompante de cólera, pegam uma arma, ameaçam invadir um banco e desistem. Parece difícil. Então assaltam o vizinho, barbeiro, alvo fácil – mas que, segundo eles, também financia o banco, logo é tão culpado quanto.

Usam o dinheiro para comprar comida. Não há tempo para uma refeição. Scheitz é preso e Bruno S. parte sem destino com um caminhão-guincho e uma arma. Problemas no caminhão, o abandona ligado e circulando pelo mesmo lugar ou lugar nenhum à beira da estrada. Pega fogo. Dane-se. Gasta suas últimas moedas em uma máquina onde uma galinha toca piano incessantemente. Bruno S. sorri enquanto tudo gira, tudo vai e volta para o mesmo lugar. Um ciclo vicioso ou apenas um ciclo. Sonho, alienação, expectação, desesperança, tanto faz. Um pouco de tudo, um pouco de nada.

A ele, parece que isso já não diz nada, também já não desperta nada. Bruno S. não sonha, mas continua lançando chispas de inocência. Sobe, desce e sorri, continua sorrindo, imerso no momento. O resto não interessa mais.

 

Written by David Arioch

August 29th, 2018 at 1:40 am

“A Streetcar Named Desire” e Elia Kazan

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A Streetcar Named Desire”, de 1951, que no Brasil recebeu o nome de “Uma Rua Chamada Pecado”. É um dos filmes mais icônicos de Elia Kazan, se não o mais – marcado pela tríplice desejo, tragédia e morte. Kazan foi um genial e polêmico artista, que concebia suas obras sob a perspectiva do realismo socialista norte-americano. Foi acusado de entregar colegas de trabalho durante o macartismo. Quando morreu, aos 94 anos, já não gozava do prestígio do auge da carreira eternizada por películas inesquecíveis como “A Streetcar Named Desire”.

Nos anos 1990, Kazan, um turco de origem grega que adotou os Estados Unidos como lar, foi alvo de críticas severas de atores conceituados como Sean Penn, Ed Harris, Richard Dreyfuss, Holly Hunter e Nick Nolte pelo que fez no passado. Até hoje há controvérsias sobre a contribuição de Kazan à lista negra do Comitê de Investigação de Atividades Antiamericanas do Senado dos Estados Unidos. Partiu, mas deixou um legado que influenciou o cinema de Francis Ford Coppola, John Cassavetes e Martin Scorsese. Para muitos, um ótimo cineasta, para outros, um traidor; pra mim, também um bom escritor, autor de “America, America”, um livro tornado filme que há muito tempo conheci acidentalmente em um sebo.

Ergástulo

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Eu e alguns amigos, que formamos o coletivo de audiovisual Cinesia, produzimos recentemente um curta-metragem intitulado “Ergástulo”. Convido vocês a assistirem e compartilharem suas impressões.

 

Written by David Arioch

June 24th, 2018 at 6:12 pm

Anúncio pró-veganismo vai ser veiculado nos cinemas dos EUA antes da exibição de “Han Solo – Uma História Star Wars”

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” Nos sentimos separados do resto, mas nenhum de nós merece ser tratado com menos respeito”

RZA: “Nossa tarefa deve ser libertar-se do preconceito e nos vermos em todos os outros” (Foto: Reprodução)

Na segunda-feira, 28, “Han Solo – Uma História Star Wars”, estreia nos cinemas dos Estados Unidos. Uma das novidades da vez é que antes da exibição do filme os espectadores vão assistir um anúncio pró-veganismo estrelado pelo líder do grupo Wu-Tang Clan, Robert Fitzgerald Diggs, mais conhecido como RZA. A campanha idealizada pela Peta mostra o músico, produtor e ator vegano se transformando em diferentes homens, mulheres e animais enquanto fala que todos somos o mesmo.

No vídeo, RZA diz que somos todos iguais em todas as formas que importam, não importando como parecemos, quantos anos temos, que língua falamos ou quem amamos. Não importa se temos pelos, penas ou barbatanas; nem mesmo o comprimento do nariz ou o número de pernas.

Ele afirma que não somos diferentes em nenhum aspecto realmente importante: “Todos nós temos pensamentos e sentimentos. Todos nós sentimos amor, dor, solidão e alegria. Todos nós temos a capacidade de entender, mas nem sempre entendemos. Nos sentimos separados do resto, mas nenhum de nós merece ser tratado com menos respeito. Nossa tarefa deve ser libertar-se do preconceito e nos vermos em todos os outros.”

Sobre a criação do anúncio, a Peta justificou que outros animais sentem dor e alegria e têm uma sensação de autopreservação, assim como os humanos. “Todos podem ajudar a mantê-los seguros escolhendo refeições veganas, comprando roupas e produtos de cuidados pessoais livres da crueldade contra os animais, e ficando longe de circos e parque temáticos que os forçam a se apresentar.”





A história da crueldade contra os animais em Hollywood

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“Os seres humanos têm abusado de animais para entretenimento desde o início dos tempos”

Pelo menos 25 cavalos foram mortos ou tiveram que ser sacrificados durante as filmagens de A Carga da Brigada Ligeira, de 1936 (Foto: Reprodução)

A crítica de cinema e escritora britânica Anne Billson, autora do livro “Cats on Film”, ou “Gatos no Cinema”, publicou hoje no jornal britânico The Guardian um artigo intitulado “Chicken decapitation and battered cats: Hollywood’s history of animal cruelty”, em que ela convida o leitor a refletir sobre a história da crueldade contra os animais no cinema, e especialmente em Hollywood. Exatamente por não ser vegana nem vegetariana, mas repudiar o tratamento dispensado aos animais no cinema, ela diz que “está ciente de que os animais morrem todos os dias para nos alimentarmos e para usarmos sapatos de couro. Por outro lado, prefere não assistir as cenas de crueldade contra os animais, e se isso faz dela uma hipócrita, que assim seja”.

Anne, que é contra a violência contra os animais no cinema, reconhece que a sétima arte é um meio controverso em essência, e que cinéfilos como ela frequentemente se veem em um dilema – que é a veemente contrariedade à censura. Porém, quando a suposta liberdade é usada como pretexto para explorar e impingir sofrimento aos animais, não há como ser favorável, já que essa permissividade garante inclusive a manutenção da objetificação, da subordinação forçada e da desvalorização da vida animal, mesmo quando animais são incluídos como personagens que servem a um retrato cru da realidade. Afinal, a tecnologia já permite que animais não sejam usados para benefício humano no cinema.

Ela começa o artigo citando o seu desinteresse em relação ao lançamento do filme “The House That Jack Built”, do polêmico cineasta dinamarquês Lars Von Trier:

Se não estou ansiosa para ver A Casa que Jack Construiu, quando finalmente chega às telas do Reino Unido, não é por causa da violência contra mulheres e crianças que ajudou o filme a ganhar uma rodada inicial de críticas de repúdio. Não, o que realmente me enche de terror é a perspectiva de ver um patinho com a perna arrancada com um alicate.

Mesmo depois que a Peta [organização Pessoas pelo Tratamento Ético dos Animais] deu uma bronca para confirmar que Von Trier realmente não torturou um patinho (o efeito foi alcançado ‘usando a magia dos filmes e partes de silicone’), a ideia me deixa enojada. (Independente disso, o filme fez convidados correrem saída afora durante a sua estreia internacional em Cannes no início do mês). Meio século assistindo filmes de terror pode ter me acostumado à violência misógina na tela (o que não quer dizer que eu goste), mas não me ajudou a lidar com os maus-tratos contra os animais.

Se Von Trier realmente tivesse torturado aquele patinho, ele estaria seguindo uma longa e desonrosa tradição de autores tratando animais pior do que tratam as atrizes. Andrei Tarkovsky mostrou um cavalo levando um tiro no pescoço e sendo empurrado escada abaixo em Andrei Rublev (1966). Jean-Luc Godard filmou um porco tendo a sua garganta cortada em Fim de Semana (1967). Galinhas foram decapitadas em Pat Garrett e Billy The Kid (1973) de Sam Peckinpah. 1900 (1976), de Bernardo Bertolucci, contém cenas de sapos sendo torturados e um gato aterrorizado sendo amarrado para que Donald Sutherland possa esmagá-lo até a morte com a cabeça. O diretor corta o ato (graças aos céus), e gosto de pensar que Sutherland realmente não matou o gato, embora os italianos tenham uma peculiaridade a esse respeito. O escritor Curzio Malaparte, em um ensaio de 1943 sobre Mussolini, descreve um tradicional entretenimento de férias na Toscana, onde homens da classe trabalhadora, com as mãos amarradas às costas, matam gatos até a morte com suas cabeças raspadas.

Francis Ford Coppola incorporou imagens de um búfalo-asiático, que é golpeado com facões até a morte em Apocalypse Now (1979). Sátántangó (1994), de Béla Tarr, mostra um gato sendo maltratado. Tarr insistiu que o gato não foi ferido, mas claramente ele não estava preocupado em mostrar que ele estava sendo girado por suas patas dianteiras. Entre as cenas do thriller de vingança Oldboy (2003), de Park Chan-Wook, o ator Choi Min-Sik, um “budista devoto”, foi flagrado se desculpando com os polvos vivos que estava comendo – o que te faz pensar na morsa de Lewis Carroll, chorando diante das ostras que ele estava devorando.

O Ato de 1937 para Filmes Cinematográficos (Com Animais), estabelecido pelo Parlamento Britânico, “proíbe a exibição ou o fornecimento de um filme [no Reino Unido] se animais forem cruelmente maltratados com a finalidade de produzi-lo.” O Conselho Britânico de Censores de Cinema, ainda corta as cenas reais de abusos contra animais, embora seja mais tolerante do que no caso dos filmes de terror. Sátántangó e Oldboy passaram sem cortes, mas os novos lançamentos em Blu-Ray de A Montanha dos Canibais (1978), de Sergio Martino e Cannibal Ferox (1981), de Umberto Lenzi, passaram por cortes de dois minutos, entre outras cenas que mostram o desmembramento de uma tartaruga, uma iguana sendo partida e criaturas peludas e fofas que são atacadas e comidas por cobras enormes.

Mas então ambos os filmes conquistaram notoriedade, tendo sido classificados como “filmes nojentos”. Os extras em ambos os relançamentos incluem entrevistas nas quais os respectivos diretores falam sobre a crueldade contra os animais. Martino diz: “De certa forma, foi uma cena construída porque colocamos o macaco e a píton juntos, mas não planejamos o final disso…então é realmente desagradável assistir.”

É bastante perturbador ver um cervo sendo engolido por uma cobra em um dos especiais de David Attenborough sobre a natureza, mas o próprio Attenborough traçou a linha do reality show em que os competidores matam crocodilos, porcos e perus “apenas para ter uma imagem”.

Os seres humanos têm abusado de animais para entretenimento desde o início dos tempos, e os cineastas não se mostraram com mais princípios do que aqueles que participam do chapeamento de texugos ou das touradas. O outrora admirável pioneiro de dublês Akima Canutt inventou um dispositivo chamado “The Running W”, que derrubava cavalos a galope, muitas vezes machucando-os ou os matando no processo. Pelo menos 25 cavalos foram mortos ou tiveram que ser sacrificados durante as filmagens de A Carga da Brigada Ligeira (1936), enfurecendo Errol Flynn, o astro do filme, que atacou o seu diretor Michael Curtiz. Tal foi o clamor público quando um cavalo quebrou a sua espinha depois de cair de um penhasco de 70 pés durante a filmagem de Jesse James (1939), que a American Humane (equivalente a RSPCA) foi finalmente encarregada de supervisionar o tratamento dado aos animais nos sets de Hollywood.

Mesmo assim, parece que o selo de aprovação da AH não é garantia de que “nenhum animal acabe machucado”. Enquanto pesquisava para o meu livro Cats on Film, descobri que pelo menos 20 gatos morreram durante a produção de Koneko Monogatari (1986), um filme japonês sobre um gatinho ruivo e branco e seu companheiro pug, intitulado “As Aventuras de Milo e Otis”, com narração de Dudley Moore. A AH deu um sinal positivo, e os rumores nunca foram checados, mas é óbvio que quando você assiste ao filme é perceptível que os animais estão em constante perigo. O BBFC [British Board of Film Classification] cortou 16 segundos do filme e deu a ele um certificado U, mas a cena de um gato “caindo” de um penhasco e desesperadamente tentando sair do mar em segurança é o suficiente para me fazer nunca mais querer vê-lo novamente.

Anne Billson continua: “Aqui estou eu sendo hipócrita de novo, porque enquanto me refiro à crueldade com gatinhos ou patinhos, posso tolerar os não amigáveis escorpiões e formigas sendo incendiados em A Quadrilha Selvagem (1969), ou os horríveis répteis cortados em pedaços em Cannibal Ferox. Mas viva o CGI, que agora torna qualquer tipo de tortura animal redundante. ‘Hoje, eu filmo essas cenas de uma maneira diferente’, admite Lenzi em sua entrevista sobre o lançamento de Cannibal Ferox. ‘Eu provavelmente vou refazê-lo agora com mais ajuda do departamento de efeitos especiais.’”

Referência

Billson, Anne. Chicken decapitation and battered cats: Hollywood’s history of animal cruelty. The Guardian (24 de maio de 2018).

 

 



Written by David Arioch

May 24th, 2018 at 7:49 pm

Canadá vai sediar o primeiro festival internacional de cinema vegano

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As inscrições do festival se encerram no dia 31 de julho

Estão abertas as inscrições do Ottawa International Vegan Film Festival, que vai ocorrer no Mayfair Theatre, em Ottawa, no Canadá, no dia 14 de outubro. Realizado anualmente, o festival, que segue os moldes dos festivais mais tradicionais, vai ser o primeiro do gênero no mundo. Então se você tem pelo menos um filme de curta-metragem com temática vegana e legendas em inglês não perca a oportunidade de participar e motivar mais pessoas a respeitarem os animais independente de espécie.

De acordo com o organizador Shawn Stratton, sem dúvida, o objetivo é usar o festival para inspirar mais pessoas a adotarem o estilo de vida vegano, e também a motivar aqueles que já estão trilhando esse caminho. Além, claro, de inspirar mais cineastas e veganos a abordaram por meio de obras audiovisuais questões que envolvem a exploração e o respeito aos animais. “Estamos dando a eles uma oportunidade de exibir seus filmes para mais pessoas”, explica Stratton.

Os filmes de curta e longa-metragem podem ser inscritos nas categorias “defesa dos animais”, “estilo de vida’, “saúde e nutrição” e “proteção ambiental”. Os melhores filmes de cada categoria serão premiados. Também haverá premiação por voto popular. Segundo o coordenador do Ottawa Vegan Film Festival, seria muito bom se os participantes enviassem filmes com histórias autênticas que oferecem um senso de esperança em relação ao futuro dos animais. Parte do lucro do festival vai ser destinado a instituições de caridade. Todo o processo é feito online e as inscrições se encerram no dia 31 de julho. Para mais informações, acesse o site do Ottawa International Vegan Film Festival.

 





“Warriors” de Sol Yurick e “Anábase” de Xenofonte

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Se você gosta do livro “The Warriors”, do Sol Yurick, ou da adaptação cinematográfica do livro feita pelo Walter Hill, sugiro que leia “Anábase” porque tudo leva a crer que “The Warriors” foi inspirado nessa que é a obra mais famosa de Xenofonte.

Na obra grega, a história se passa antes da era cristã e é protagonizada por soldados, não por violentos membros de gangues. Porém, tanto os soldados de Xenofonte quanto os marginais de Yurick enfrentam uma série de obstáculos para retornarem para casa. Sem dúvida, se ler uma, vale a pena ler a outra.





Written by David Arioch

January 2nd, 2018 at 12:06 am

“Mas ele era soviético, e não se pode confiar em soviéticos…”

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“A Infância de Ivan”, um dos filmes exibidos na maratona (Foto: Reprodução)

Em 2009, quando eu coordenava o Projeto Mais Cinema, passei uma maratona do Tarkovsky na Casa da Cultura Carlos Drummond de Andrade, e um cara apareceu no final da sessão.

— Vim aqui porque quero saber se você está desenvolvendo algum tipo de arquitetura intelectual em favor do socialismo e do comunismo.

— Como é? Arquitetura intelectual? Do quê?

— Não sei…acho que é muito suspeito você exibir filmes dos tempos da União Soviética…

— Será mesmo? Tarkovsky era um escultor do tempo, um artista da fragilidade humana. A vida para ele era como um espelho, um sonho. Se não me engano foi em 1979 que o governo soviético impediu que um dos filmes dele, Stalker, fosse enviado para o Festival de Cannes; e por julgar que era uma crítica aos gulags, os campos de concentração da União Soviética. Independente de qualquer coisa, ele não era e nunca foi um partidarista. A humanidade dele estava acima de tudo.

— Mas ele era soviético, e não se pode confiar em soviéticos…

— Ok…

Contribuição

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Written by David Arioch

May 27th, 2017 at 2:48 pm