David Arioch – Jornalismo Cultural

Jornalismo Cultural

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Bronson Alcott, o homem que fundou uma comunidade “vegana” em 1843

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Pedagogo e filósofo estadunidense era contra a exploração e o consumo de animais

Alcott se tornou “vegano” aos 42 anos em 1842 (Arquivo: Amos Bronson Alcott Website)

Em 1843, o pedagogo e filósofo estadunidense Amos Bronson Alcott, um homem bastante influente em seu tempo, tanto que entre seus amigos e admiradores estavam personalidades como Herman Melville, Walt Whitman, Nathaniel Hawthorne, Henry David Thoreau, Ralph Waldo Emerson e Margaret Fuller, fundou em Harvard, Massachusetts, uma comunidade “vegana” chamada Fruitlands, que se situava em uma área de 90 acres, o equivalente a 360 mil metros quadrados. A propriedade foi comprada em parceria com o reformador educacional inglês Charles Lane.

De acordo com informações do Fruitlands Museum e do site oficial sobre a vida de Bronson Alcott, pai da escritora Louisa May Alcott, importante nome da literatura juvenil, nenhum tipo de alimento de origem animal era consumido na comunidade. “Eles não usavam nada de origem animal; nem lã, mel, cera ou esterco. Nem mesmo trabalho animal. Os fundadores sentiram que os seres humanos não deveriam tirar nada dos animais”, informam.

Idealista, Alcott sonhava com o dia em que os animais seriam livrados do trabalho árduo da mão de obra agrícola e da degradação do abate. O seu desejo com a criação da Fruitlands era de que as pessoas aprendessem mais sobre a importância de viver em harmonia com os animais, além de serem estimuladas a se desenvolverem intelectualmente e espiritualmente. Sua crença era a de que Fruitlands poderia ser uma iniciativa que se espalhasse por outras regiões dos Estados Unidos e para outros países.

A vida na comunidade também evidenciava a importância da relação com a terra. Todo o trabalho era feito por humanos. “Sem animais, é claro, recusando-se a usar cavalos em qualquer tipo de transporte. Não havia nem tratores naquela época”, escreveu John Davis no artigo “Bronson Alcott – American Pioneer Vegan”, publicado em 22 de março de 2011, destacando que mesmo com todas as adversidades, Alcott fez o possível para seguir adiante.

Com 11 anos, Anna Alcott, filha de Amos Bronson disse que nós, enquanto seres humanos, temos o poder de pensar e sentir, enquanto os animais, que estão em desvantagem em relação a nós, devem ter permissão para viverem em paz, sem serem usados em trabalho pesados ou reduzidos a alimento. “Como alguém pode comer carne quando há frutos tão suculentos?”, questionou a criança em citação do artigo “Fruitlands”, publicado no site oficial sobre a vida Bronson Alcott.

Embora o termo vegan tenha surgido somente em 1944, 100 anos antes a Família Alcott e os moradores de Fruitlands já defendiam uma filosofia de vida que mais tarde receberia o nome de veganismo. Reflexo disso é que muitos a consideram a primeira comunidade “vegana” dos Estados Unidos. Toda a alimentação dos moradores era proveniente das plantações da comunidade que funcionava sob um sistema de autossuficiência.  Porém, depois de sete meses a comunidade começou a ruir porque muitas pessoas que se juntaram a eles não contribuíam efetivamente com o trabalho que era desenvolvido lá dentro. Havia aqueles que não queriam trabalhar, mas somente comer, dormir e descansar sob as sombras das macieiras.

Uma das casas da comunidade Fruitlands (Arquivo: Amos Bronson Alcott Website)

Como Amos Bronson Alcott, Charles Lane e outros idealizadores costumavam viajar para divulgar a Fruitlands, na tentativa de conquistar novas parcerias, colaboradores e pessoas dispostas a colocarem em prática um projeto semelhante, muitas vezes o trabalho dentro da comunidade contava apenas com a força das mulheres e crianças das famílias Alcott e Lane, além de um homem conhecido como Palmer.

O que aparentemente fez a Fruitlands sucumbir em menos de um ano foram as divergências de opiniões entre os idealizadores. Outro agravante era a necessidade de capital para investir na propriedade, que acabou escasseando, já que eles não viviam para gerar lucro. “Quando foram forçados a escolher entre medidas práticas para o sucesso ou viver espiritualmente, eles optaram pela última”, segundo o artigo “Fruitlands”, que integra os arquivos do museu da comunidade. Alcott preferiu desistir do que dar continuidade, mas tendo que ir contra seus princípios. Em 1873, a escritora Louisa May Alcott publicou uma prosa satírica intitulada “Transcendental Wild Oats”, baseada em memórias de infância em Fruitlands.

Mesmo que o projeto não tenha durado muito tempo, Amos Bronson jamais deixou de acreditar no modelo de comunidade que idealizou junto com Charles Lane. Segundo registros de suas memórias que constam em seu site oficial, ele apenas se deu conta de que talvez o ser humano não tenha realmente aptidão para viver no Éden. Quem for a Harvard, no Condado de Worcester, em Massachusetts, pode visitar o Fruitlands Museum e conhecer a história da comunidade “vegana” do século 19.

Amos Bronson Alcott se tornou vegetariano em 1835

Amos Bronson Alcott se tornou vegetariano em 1835 e acredita-se que por influência dos pensamentos do filósofo grego Pitágoras. Mais tarde, a sua crença no vegetarianismo como uma filosofia de vida a ser seguida pela humanidade foi fortalecida após ele participar de palestras do reformador e ministro presbiteriano Sylvester Graham, defensor do vegetarianismo que viajava pelos estados Unidos criticando o consumo de alimentos de origem animal.

Em 1843, Alcott escreveu uma carta em que manifestou a sua crença de que o mundo seria um lugar muito melhor sem a exploração de animais:

“Calcula-se que, se nenhum alimento animal fosse consumido, um quarto da terra agora usada seria suficiente para o sustento humano. E os vastos caminhos agora apropriados pelas pastagens, cortes e outros modos de provisão para animais poderiam ser aproveitados de forma mais inteligente e afetuosa.”

Além de defender o abolicionismo animal quando ainda não existia formalmente a teoria dos direitos animais, Alcott lutava pelo fim da escravidão humana nos Estados Unidos, até por entender que não se pode lutar pelo fim de um tipo de exploração e ao mesmo tempo endossar ou ignorar outro.

Defendeu ainda os direitos das mulheres, e acredita-se, segundo John Davis, que ele se tornou “vegano” aos 42 anos em 1842: “Ele expandiu seus pontos de vista antiescravidão, incluindo animais não humanos.” Logo após o seu regresso aos Estados Unidos, surgiu o anseio de fundar uma comunidade livre da exploração animal.

Referências

Maurer, Donna. Amos Bronson Alcott: Idealist, Tanscendentalist, Vegetarian. Vegan Handbook. The Vegetarian Resource Group.

Davis, John. Bronson Alcott – American Pioneer Vegan. Veg Source (22 de março de 2011).

http://www.alcott.net





Uma população alheia à organização comunitária

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Secretário da Ucampar explica porque Paranavaí tem uma estrutura comunitária tão fragilizada

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João Francisco de Paula: “Paranavaí tem que crescer da periferia para o centro” (Fotos: David Arioch)

O secretário-geral da União Comunitária das Associações de Moradores de Paranavaí (Ucampar), João Francisco de Paula, é um dos nomes mais emblemáticos da organização comunitária em Paranavaí. Militando na área há 33 anos, acompanhou todo o processo de formação das comunidades locais, mas principalmente das periferias.

De Paula participou da formação das primeiras associações de moradores no final dos anos 1970, numa época em que os movimentos político e comunitário partilhavam os mesmos ideais. Mais tarde, assistiu a dissidência de grupos populares que não se alinhavam mais com as questões partidárias.

“Muitos líderes de bairros foram cooptados politicamente e adquiriram o vício de misturar os interesses do bairro com os próprios”, revela o secretário, acrescentando que quando alguém disputa um cargo de presidente de associação de moradores, já almejando uma candidatura política, corre o risco de priorizar o que não vale a pena ou confundir a própria área de atuação. “Os presidentes naquele tempo não entendiam a organização comunitária”, desabafa.

João de Paula: "As pessoas precisam se reunir independente de lideranças políticas"

João de Paula: “As pessoas precisam se reunir independente de lideranças políticas”

Em entrevista ao autor deste blog, João Francisco de Paula fala sobre a importância da organização comunitária em Paranavaí, o desinteresse da população, aspectos positivos e negativos das associações de moradores, além de conquistas da Ucampar. Confira alguns trechos:

Como o senhor avalia a organização comunitária em Paranavaí?

A organização comunitária é importante para o avanço dos bairros, embora esteja um pouco estagnada em Paranavaí. Isso acontece porque as lideranças confundem um pouco a sua atuação com a política partidária. Há algum tempo, optei por me afastar da política porque partidos têm interesses próprios, o que acaba prejudicando a comunidade. Precisamos que todos os bairros se organizem, da periferia ou não, porque assim é mais fácil conquistar algo.

Quais são os bairros que estão mais bem articulados?

O Jardim São Jorge é um bairro bem articulado, tem lideranças antigas, pessoas que estão sempre lá ajudando os demais. Depois vem o Sumaré com líderes que também se preocupam com a comunidade.

Como melhorar a organização popular?

As pessoas se reunirem independente de lideranças políticas. Os líderes comunitários precisam buscar apoio e suporte financeiro para executar alguns projetos. É preciso estar em contato constante com o bairro. Só assim se consegue atender as reivindicações.

Sabemos que é comum um líder comunitário vislumbrar uma projeção política. O senhor acredita que isso seja favorável ou prejudicial ao bairro que ele representa?

Não tem porque se ligar em política partidária. A comunidade organizada, ciente do que quer, do que pretende, consegue tudo com facilidade, e é muito melhor se for independente de partido. Mas nada impede que no futuro um companheiro líder de uma comunidade possa disputar um cargo de vereador ou deputado, até porque eu mesmo fiz isso.

Quantos bairros tem representatividade em Paranavaí?

Temos 27 associações de moradores, mas funcionando mesmo não mais que 20. Temos muitas associações que começaram e logo acabaram. Este ano, vamos retomar esse trabalho de mobilização nos bairros. Acho que a organização comunitária pode mudar profundamente a situação da cidade em todos os sentidos.

Secretário-Geral da Ucampar: "O poder tem que ser comunitário, de todos"

Secretário-Geral da Ucampar: “A população não tem consciência da importância da organização comunitária”

Em uma comunidade não organizada, o que um morador pode fazer para mudar o cenário atual?

Eu sugiro que reúna pelo menos cinco pessoas e crie uma comissão provisória, prevendo a implantação de um estatuto. Daí é só publicar um edital e reunir interessados do bairro em compor chapas para as eleições. O ideal é que haja vários candidatos. Assim o processo se torna mais participativo e democrático.

O que foi feito para unir mais as associações de moradores?

Estamos tentando reunir as associações em conjunto com a Ucampar. Fazemos assembleias para estimular as lideranças. Explicamos que não se pode fundar uma associação e simplesmente cruzar os braços. Entidade é algo que você cria, estrutura e depois passa para outra pessoa. O poder tem que ser comunitário, de todos.

Desde que foi fundada em abril de 2007, quais as conquistas da Ucampar?

Quando o Wanderlei Giraldes assumiu a presidência já tínhamos um compromisso de realizar eventos para melhorar a movimentação das associações. Ele conseguiu articular esse trabalho e logo lançamos a Campanha de Preservação do Patrimônio Histórico e outra relacionada ao IPTU que teve boa repercussão. Todas as associações participaram. O intuito da Ucampar é fazer com que a comunidade participe das decisões políticas, questionando e reivindicando. Sem participação, não há mudanças.

Quem são os apoiadores?

Os apoiadores da Ucampar são os próprios presidentes de associações. Eu acho que não tem apoiador maior que as próprias lideranças de bairros como entidades independentes, sem ligação com poder público municipal, estadual ou federal. Hoje, Paranavaí cresce do centro para a periferia, mas tem que crescer da periferia para o centro também.

A população de Paranavaí tem consciência da importância da organização comunitária? 

Não, e muitas vezes nem as próprias associações. São poucas que têm essa consciência. Há lideres comunitários que se consideram mandatários, a voz do bairro, e não é bem assim. Tem que liderar sim, mas com democracia, discutindo todas as necessidades do bairro, além de propor fiscalizações, acompanhar o trabalho da Câmara Municipal, levar propostas, sugerir projetos e “pegar no pé”.

Quais municípios podem ser citados como referência no assunto?

Acredito que londrina, onde conheci associações com boa organização comunitária. Outros exemplos são Santo André e Diadema, no interior de São Paulo, que atuam na gestão participativa; significa participação direta na administração com propostas e discussões. São alguns exemplos de exercício de cidadania.

Venda de lotes urbanos era lucro garantido

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Imóveis bem localizados não requeriam grande investimento

Colonizadoras já faziam estudos de viabilidade econômica antes de investir em loteamentos (Foto: Acervo da Fundação Cultural)

Na região de Paranavaí, no Noroeste do Paraná, nas décadas de 1940 e 1950, em função das despesas com benfeitorias, colonizadoras não lucravam com a venda de propriedades rurais, mas sim com a comercialização de lotes urbanos que eram mais valorizados e não requeriam grande investimento.

Para investir nas áreas mais povoadas, as companhias de colonização faziam antes um estudo de viabilidade econômica. A iniciativa ia ao encontro da difícil realidade da época, a de que o progresso não teria como se estender a todas as regiões. Por isso, os primeiros colonizadores estabeleceram prioridades e desistiram de povoar muitas localidades.

Um exemplo foi o trabalho desempenhado pelo pioneiro Carlos Antônio Franchello que mais tarde fundou o município de Querência do Norte. Franchello comprou 15 mil alqueires de terras na região de Paranavaí, no entanto investiu somente em parte das propriedades. As áreas mais ermas, o pioneiro dividiu em lotes de dez alqueires que receberam a denominação de colônia e os vendeu por preços que cobriam as despesas com desmatamento e demarcação.

As colônias eram comercializadas por 30 mil cruzeiros e cada família podia adquirir até quatro, segundo informações do livro “História de Paranavaí”, do escritor Paulo Marcelo Soares da Silva. As companhias de terras consideravam o preço simbólico, pois um pequeno lote em área urbana não custava menos de 20 mil cruzeiros por estar bem situado e contar com uma razoável infraestrutura.

As colônias de Paranavaí eram comercializadas por 30 mil cruzeiros (Foto: Reprodução)

“Algumas companhias tinham boa influência e eram muito espertas, faziam propagandas pelo Brasil afora com promessas de escola, farmácia e comércio. Certos recursos já existiam na cidade ou no povoado antes da companhia aparecer”, afirmou o pioneiro gaúcho João Alegrino de Souza, acrescentando que a mobilização da comunidade fazia a diferença se tratando de progresso. Em contraponto, o pioneiro catarinense José Matias Alencar declarou que havia colonizadoras em Paranavaí que realmente investiam e se empenhavam para levar qualidade de vida à população e não simplesmente lucrar com a venda de terrenos.

Outro fato interessante sobre essa etapa da história local é que apesar da desvalorização dos imóveis rurais se comparado aos urbanos, ainda assim as colonizadoras levavam vantagem nas negociações de propriedades do campo, pois não era firmado nenhum compromisso de investimento em recursos de necessidade básica como captação de água e energia elétrica. Quem comprava uma grande propriedade rural já assumia a responsabilidade pelo desenvolvimento do local, caso quisesse transformá-lo em um núcleo urbano.

“Na maioria das glebas a terra não era cara, mas o problema é que dependendo da localização nem adiantava esperar o progresso. Tem gente que passou a vida toda morando em área rural esperando que o lugar fosse no mínimo transformado em distrito e isso nunca aconteceu”, comentou o pioneiro cearense João Mariano.

Em depoimento no livro “História de Paranavaí”, Carlos Franchello afirmou que os lotes urbanos mais acessíveis da Colônia Paranavaí eram vendidos na Gleba 27-A, atual Querência do Norte, onde um terreno podia ser comprado por 145 cruzeiros ao mês. Nos anos 1950, o objetivo da companhia de terras de Franchello era atrair principalmente agricultores gaúchos e catarinenses, famílias interessadas no solo virgem do Noroeste Paranaense.

Charretes se destacavam na década de 1950

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Meio de transporte era muito usado pela população de Paranavaí

Charretes circulavam principalmente pelas regiões do Ponto Azul e Zona do Baixo Meretrício (Acervo: Fundação Cultural de Paranavaí)

Nos anos 1950, o meio de transporte mais usado pela população de Paranavaí, no Noroeste do Paraná, era a charrete. O serviço que tinha um custo baixo ficava disponível o dia todo em três pontos da cidade. Pioneiro lembra que os charreteiros tomavam conta de todas as ruas numa época em que os automóveis eram acessíveis a poucos.

As charretes surgiram em Paranavaí na década de 1940, mas se popularizaram em 1950, quando houve um bom crescimento populacional registrado a partir de 1948. Com o aumento do número de moradores, surgiu a necessidade de um serviço de meio de transporte que facilitasse a vida em comunidade. “Foi aí que alguns migrantes tiveram a ideia de trabalhar como charreteiros. Quase ninguém tinha carro, e como tudo ainda era longe, já que nem todo mundo tinha condições de morar na região central, o jeito era pagar pelo serviço de charrete”, relatou o pioneiro cearense João Mariano, acrescentando que o preço de uma “corrida” era acessível.

Por volta de 1955, havia em Paranavaí mais de 80 charreteiros que se dividiam em três localidades: Ponto Azul, Avenida Paraná e Zona do Baixo Meretrício, quase em frente à Boate da Cigana [onde se situam os prédios Catuay e Guarapari]. Muitos dos pioneiros que atuavam no ramo eram ex-peões que trabalharam na abertura de estradas e derrubada de mata.

Aqueles que não deram certo como comerciantes e produtores rurais também usavam cavalos e bois para outra finalidade. “O serviço de peão era pesado e sofrido, então acontecia do sujeito guardar um dinheirinho, comprar um cavalinho, uma carroça velha, mandar reformar e transformar em charrete”, explicou Mariano. Outros compravam madeiras, procuravam materiais que podiam ser aproveitados e a construíam por conta própria.

Os charreteiros eram contratados principalmente para levar passageiros ao Ponto Azul e ao Aeroporto Edu Chaves [atual Colégio Estadual de Paranavaí (CEP)], além de transportar pessoas até a Zona do Baixo Meretrício. “Uma charrete chegava a fazer até dezenas de viagens num dia. Tinha época que tinha muito serviço, mas de vez em quando diminuía um pouco por causa de alguma crise agrícola”, relatou o pioneiro, acrescentando que o modelo da carroça variava conforme a situação financeira do carroceiro.

Enquanto algumas ofereciam o mínimo de conforto, como um assento estofado, muitas eram mais simples, com bancos de madeira. “Numa corrida curta quase ninguém se importava com isso, mas se o trajeto fosse um pouco mais longo ficava desconfortável. Tinha peão que chegava a descer da carroça com o corpo duro”, brincou João Mariano que nunca se esqueceu das muitas oportunidades em que viu as ruas da cidade tomadas por dezenas de charretes.

Segundo o pioneiro, estranho era o som de um motor em meio a tantos animais trotando, galopando e relinchando. “Quando fazia muito calor, e no fim da tarde os charreteiros voltavam pro ponto, às vezes traziam um vento que levantava a poeira das ruas de chão batido. O céu avermelhava enquanto o solo arenoso as donas de casa castigava, sujando toda a roupa do varal, mas fazer o que se era mais um dia de trabalho normal?”, poetizou João Mariano.

No tempo das quermesses

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Grandes festas para angariar fundos tiveram início em Paranavaí em 1951

Quermesse reunia milhares de pessoas (Acervo: Ordem do Carmo)

Em 1951, pioneiros de Paranavaí, no Noroeste do Paraná, começaram a realizar as primeiras quermesses para ajudar a comunidade, principalmente a Paróquia São Sebastião que construiu a primeira igreja local. Naquele tempo, era o único espaço de oração para uma legião de migrantes e imigrantes que viviam na colônia.

Normalmente, quem organizava a quermesse criava uma lista com todos os itens necessários para a realização da festa. Depois reunia um grupo de voluntários que percorria a cidade a pé pedindo prendas ou dinheiro. Cada um ajudava como podia, cientes de que tudo que era arrecadado seria leiloado na quermesse, sempre iniciada após a missa e a bênção do padre.

Para a Paróquia São Sebastião, independente de valor, qualquer doação era bem vinda e demonstrava o interesse da população em contribuir. Nos leilões públicos, o padre alemão Ulrico Goevert sempre se surpreendeu. “Era incrível como uma coisa totalmente sem valor recebia um alto lance”, comentou o frei no pequeno livro “Histórias e Memórias de Paranavaí”.

As brincadeiras eram o grande atrativo da festa que reunia quase toda a população local, além de pessoas de outras cidades e povoados. Exemplo disso foi o leilão de uma mamadeira que um amigo ofereceu a outro para mamar em troca de 20 cruzeiros. “Ele se recusou e ofereceu 50 cruzeiros para o rapaz que fez a primeira oferta dar uma mamada”, relatou o padre. Um jogo simples como o da mamadeira durava horas e até alguém dar o último lance dezenas de pessoas já estavam envolvidas na brincadeira.

As ofertas cresciam tanto que uma mamadeira era leiloada por mais de mil cruzeiros. Ao final do jogo, o participante que não tivesse dinheiro para cobrir a última oferta tinha de subir na mesa, colocar a mamadeira na boca e chorar como um bebê. Enquanto isso, o público não continha as gargalhadas.

Frei Alberto Foerst cuidava do leilão de animais (Foto: Wilmar Santin)

Outro jogo que prendia a atenção do público era o “cavalinho de lata” que ficava sobre um rolamento e permitia ao vencedor faturar até cinco vezes mais o dinheiro investido. Havia também uma barraca em que as pessoas apostavam em qual das 25 casinhas um coelhinho entraria. Enquanto o bichinho corria o público gritava sem parar. Tinha ainda um jogo dos fumantes em que o participante arremessava argolas sobre maços de cigarro. Quem acertasse, ganhava o produto.

Na quermesse, eram leiloados porcos, bezerros e carneiros. Porém, nenhum animal podia ser comercializado abaixo do preço de mercado. Quem cuidava do leilão de animais era o frei Alberto Foerst. ”Se fosse pra vender barato, preferíamos guardar os animais em nossa propriedade”, disse frei Ulrico. Sorteios de rifas eram outro atrativo da quermesse e para participar bastava pagar vinte cruzeiros. “O prêmio era algo como um canivete de cem cruzeiros”, enfatizou o alemão.

Famílias patrocinavam as festas

Com relação à gastronomia, as festas também levavam à tona as particularidades de vários povos. À época, o churrasco não era tradição nas festas da região, então o que mais agradava a população eram os leitões assados e temperados com bastante sal e pimenta. O que era muito bom para os idealizadores da quermesse, pois o prato aumentava muito a venda de bebidas.

Quando a festa tinha duração de dois dias, a organização do evento conseguia um patrocinador para cada dia. Eram as famílias de melhor poder aquisitivo que custeavam as despesas mais importantes. Segundo frei Ulrico, os resultados das arrecadações com as festas eram publicados em um edital para que toda a comunidade acompanhasse. “Sempre surgia uma rivalidade, nenhuma família queria arrecadar menos que a outra, o que beneficiava a igreja e a escola”, avaliou o padre alemão.

Freis Burcardo e Adalbert conseguiam doações da Alemanha (Fotos: Wilmar Santin)

Como Paranavaí era muito jovem nos anos 1950, os patrocinadores das quermesses adotavam como bandeira o estado ou país de origem. “Havia disputa de poloneses contra alemães, italianos e japoneses, baianos e paulistas, cearenses e pernambucanos e muitos outros”, destacou frei Ulrico, acrescentando que o dinheiro arrecadado era usado para saldar dívidas com construções e reformas de igreja, escola e hospital.

De vez em quando, algum pioneiro doava terrenos para serem rifados e a renda destinada a novos investimentos para a comunidade. “Dava para ganhar o equivalente a quatro vezes o valor do lote”, assegurou o padre. É importante lembrar que contribuições financeiras também partiam da Alemanha, organizadas pelos freis alemães Adalbert Deckert e Burcardo Lippert, de Bamberg, no Estado da Baviera.