David Arioch – Jornalismo Cultural

Jornalismo Cultural

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Conversando com crianças e pré-adolescentes sobre veganismo

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Lembranças que os alunos fizeram para mim em retribuição à minha visita (Foto: David Arioch)

A convite da professora Rosana Martineli, fui hoje à Escola Estadual Curitiba conversar com crianças e pré-adolescentes sobre história, contos e veganismo. Mais uma vez, uma experiência muito legal. Em um determinado momento, depois de eu falar um pouquinho sobre o que é ser vegano, e por iniciativa dos próprios alunos que tinham muita curiosidade em relação ao tema, um deles me perguntou:

— Mas você não precisa de carne?

— Será? Olhando pra mim, você acha que eu preciso de carne?

Muitos alunos riram.

— Não…humm…vou parar de comer carne também.

Em outro momento, outro aluno me perguntou o que eu faria se estivesse em uma ilha e precisasse comer um animal para sobreviver.

— Bom, acredito que isso não é algo que aconteceria facilmente, mas hipoteticamente se estou em uma ilha, e se nessa ilha há arvores, eu provavelmente recorreria em primeiro lugar aos frutos dessas árvores. Além disso, não há garantia nenhuma de que esse suposto animal seja o meu alimento, e não eu o alimento dele caso ele seja carnívoro. Por quê? Não tenho dúvida nenhuma de que as habilidades naturais de caça de um animal selvagem são muito superiores à humana. Afinal, o ser humano só é bom caçador quando está bem munido para a caça, ou seja, com armas em punho, e preparando-se para atingir um animal de forma traiçoeira, às escondidas, não é mesmo? Eu particularmente desconheço um ser humano que enfrente um animal selvagem com os próprios braços e de frente. Acho que há várias possibilidades que não podem ser descartadas. Mas é importante entender também que veganismo não é baseado em improbabilidades, no que é vagamente possível. É sobre eu fazer o possível para não tomar parte na exploração, na violência contra animais. Quero viver, certo? Eles também querem. Sigo esse caminho de reconhecer que eles também têm esse direito, e por isso não me alimento deles, assim como tenho a preocupação de não usar nada de origem animal.





Uma breve reflexão de Natal

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Te convido a refletir sobre o consumo de alimentos de origem animal no Natal.

 





Como podemos chamar os órgãos vitais de um animal de “miúdos”?

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Como podemos chamar os órgãos vitais de um animal de “miúdos”? Talvez miúda seja a nossa sensibilidade e consciência em relação ao papel que esses órgãos tiveram para esses seres que um dia foram cheios de vida.

Você não acha que o veganismo é um arbitrário exercício de poder?

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O que existe de exercício de poder na consideração de que seres sencientes têm direito à vida, não merecem ser reduzidos a produtos?

— Você não acha que o veganismo é um arbitrário exercício de poder?

— O veganismo não é impositivo, é consciencioso. Como o veganismo pode ser um arbitrário exercício de poder se nos empurra à margem da sociedade? O que existe de arbitrário exercício de poder na consideração de que seres sencientes têm direito à vida, não merecem ser reduzidos a produtos? Uma prática comprovadamente desnecessária, provada pela existência de vegetarianos e veganos saudáveis. Ainda no século 19 e até a metade do século 20, o consumo de animais era uma forma de distinção social, de status. Ou seja, somos tão cruéis que matamos outras espécies para provar à nossa que não somos semelhantes. E que se posso matar uma criatura que você não poderia matar, por não ter recurso para tal, sou melhor do que você. Isso não soa extremamente absurdo? Irracional?

Na Inglaterra, Lord Byron e Percy Bysshe Shelley condenavam os excessos, a glutonaria e a crueldade da burguesia, que matava uma quantidade absurda de animais para servir em banquetes particulares, e ainda faziam chacota dessas criaturas. Somos seres muito estranhos, de fato, se ponderarmos que muitos lutam para ter o direito de também financiar a morte de criaturas que até então faziam parte apenas dos hábitos alimentares de uma pequena parcela da população. Vivemos em um mundo onde há pessoas que quando pensam em uma vida melhor, logo a associam com a ideia de se alimentar de animais considerados exóticos. Isso sim é um vislumbre de exercício de poder.

Hoje, sim, muitos têm acesso à carne, pelo menos se compararmos com outros períodos. Isso deveria realmente ser comemorado? Já que isso é consequência de um grande aumento da violência contra outras espécies. E a que custo a carne foi barateada, se tornou mais acessível ao longo do tempo? Isso aconteceu porque em vez de matarmos centenas ou milhares de animais, passamos a matar milhões e bilhões. Esse é o real preço por um tipo tétrico de acessibilidade.

Se eu fosse um animal não humano, mas gozando de consciência humana, obviamente que eu diria que o pior exercício de poder perpetrado contra os meus é aquele exercido pela humanidade. E claro, mesmo sendo um animal humano já reconheço isso como uma manifestação de perpetuação da barbárie travestida de civilidade.





Matar um animal, uma criatura que não quer morrer, é uma incontestável arbitrariedade

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Fotos: We Animals/Jo-Anne McArthur

Matar um animal, uma criatura que não quer morrer, é uma incontestável arbitrariedade; uma facciosidade que parte de quem, por uma questão cultural, não vê nada de errado em subjugá-lo. Não conheço nenhuma história verídica de animal que sentiu prazer em tornar-se alimento. Ainda que isso acontecesse em um contexto fictício fundamentado na realidade, sabemos que até os animais considerados menos inteligentes não são tão tolos assim. Mesmo em um cenário ultrarromântico isso seria insidioso e baixo.

Ninguém nasce ansiando pela morte, nem aqueles que são mortos aos milhões. Logo não há como desconsiderar que se alimentar de animais significa nutrir-se da privação, mortificação e finitude de seres vulneráveis. Os níveis são diversos. Pode haver barbárie ou não. Mas não seria o anseio pela exploração e morte de outro um ato de barbárie em si? Muitos dizem em sua defesa que há métodos menos cruéis de se matar animais. Que podemos usurpar vidas que não nos pertencem sem a necessidade de violência excessiva.

Será que essa defesa se volta à minimização do sofrimento animal ou funciona como um afago na consciência humana? Será que nos importamos com os animais ou com a ideia de sermos vistos como menos empáticos, insensíveis ou incivilizados? Temos ojeriza pela possibilidade de sermos vistos como bárbaros porque vendemos um suposto padrão de exemplar civilidade.

A ideia de uma morte romanesca, em prol de seres humanos, logo de outra espécie, é sempre quixotesca sob a perspectiva antropocêntrica e especista. “Sou grato a esse animal que morreu para que eu possa me alimentar”, há quem diga antes de uma refeição. Mas será que a sua nutrição depende da exploração e morte de uma criatura senciente? Um prazer com duração de minutos é equiparável ao valor de uma vida?

A expressão de um animal instantes antes da morte revela explicitamente o quanto ele não anseia por tal gratidão, já que mesmo quando os criamos e os submetemos a um nível visceral de condicionamento, eles não se reconhecem verdadeiramente como seres que existem para nos servir. Afinal, servir ao ser humano não é uma característica natural de seres de outras espécies, mas somente uma consequência de séculos de condicionamento, agrilhoamento e subordinação forçada.





Dick Gregory: “Galinhas, peixes, porcos e vacas sentem dor, assim como eu e você. Por favor, ajude a acabar com essa injustiça”

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Gregory: “Animais e seres humanos sofrem igualmente. A violência causa a mesma dor, o mesmo derramamento de sangue, o mesmo fedor de morte, a mesma arrogante, cruel e brutal usurpação da vida”

Comediante e ativista pelos direitos civis e pelos direitos animais, Dick Gregory começou a ganhar fama nos Estados Unidos no início dos anos 1960 com o seu stand-up livre de tabus. Protestou contra a Guerra do Vietnã e participou de todas as manifestações lideradas pelo reverendo Martin Luther King Jr, incluindo a Marcha Sobre Washington e as Marchas de Selma a Montgomery. Sempre que considerava necessário, Gregory fazia greve de fome para chamar a atenção para alguma causa. Também foi preso inúmeras vezes em protestos.

No artigo “The Circus: “Its Modern Slavery”, de 1998, que faz críticas contundentes à exploração animal, Gregory conta que quando trabalhou com Luther King Jr., ele percebeu que o melhor caminho para se alcançar a justiça é por meios pacíficos: “Sob liderança do Dr. King, me tornei totalmente comprometido com a não violência, e fui convencido que a não violência vai na contramão de qualquer tipo de morte. Acredito que o mandamento ‘Não Matarás’, não diz respeito apenas aos seres humanos em relação à guerra, linchamento, assassinato, mas também aos animais que matamos por comida e esporte. Há passos simples que cada um de nós pode seguir para ajudar a acabar com a exploração de outros seres.”

Nascido em St. Louis, no Missouri, em 12 de outubro de 1932, e falecido em 19 de agosto de 2017 em Washington D.C., Gregory foi um artista muito respeitado no cenário da comédia dos Estados Unidos, chegando a influenciar comediantes como Richard Pryor e Eddie Murphy. Nos anos 1950, quando se apresentava em clubes de comédia de Chicago, ele já se esforçava para tentar diminuir o preconceito e a segregação racial por meio de seus shows.

Em 20 de agosto de 2017, um dia após a sua morte, a Peta publicou um artigo intitulado “Dick Gregory: Animals and humans suffer and die alike”, que fala sobre o empenho do comediante em conscientizar as pessoas sobre a realidade da exploração animal. “Galinhas, peixes, porcos e vacas sentem dor, assim como eu e você. Por favor, ajude a acabar com essa injustiça”, declarou Gregory em uma das citações.

Em uma das campanhas da Peta criticando a KFC, o comediante fala sobre o sofrimento dos animais mortos para rechearem os baldes de frango da rede de fast food. Suas críticas envolvendo exploração animal incluíam desde a debicagem de aves até o desmame forçado estimulado pela indústria de laticínios. “Animais e seres humanos sofrem igualmente. A violência causa a mesma dor, o mesmo derramamento de sangue, o mesmo fedor de morte, a mesma arrogante, cruel e brutal usurpação da vida. Não precisamos fazer parte disso”, defendeu no artigo “The Circus: It’s Modern slavery”, publicado no Marin Independent Journal em 28 de abril de 1998.

Dick Gregory discursando no 23º Congresso Vegetariano Mundial em 1975 (Acervo: IVU)

No artigo, Dick Gregory também declarou que quando via os animais cativos em circos, logo pensava na escravidão, levando em conta que são enjaulados, presos a grilhões e forçados a trabalharem sob a ordem de um chefe. “Eles nunca têm o gosto da liberdade. Vão da jaula ao picadeiro, e do picadeiro à jaula. Viajam milhares de milhas a cada temporada, o que significa longas horas em vagões ou trailers, sem espaço para se esticar e menos ainda para correr. Não importa o que digam, não há como persuadir um elefante a dançar e um tigre a saltar através de aros sem qualquer tipo de punição ou violência: “Instrutores carregam chicotes, ferramentas afiadas usadas para atingir pontos sensíveis.”

O comediante se recordou da morte de dois animais que excursionavam com o Ringling Bros. and Barnum & Bailey Circus nos Estados Unidos. Um bebê elefante de três anos chamado Kenny, mesmo doente, foi forçado a fazer três shows em um dia. Ao final da terceira apresentação, ele deitou e morreu: “Ele viveria com sua mãe na natureza selvagem por pelo menos 15 anos. Em outra situação, usaram um tigre em uma foto publicitária do Ringling Brothers. Quando o animal atacou um dos treinadores, o outro treinador entrou em cena, o devolveu à jaula, pegou uma arma de fogo e o matou a tiros”, relatou Gregory chocado com a crueldade do homem. Os dois episódios seriam facilmente evitados se os animais não tivessem sido privados de seu habitat.

No artigo “Dick Gregory, 50 years a vegan activist dies at 84”, publicado no Animals 24-7 em 25 de agosto de 2017, Merritt Clifton conta que Dick Gregory abandonou o consumo de carne em 1965 e se tornou um frutariano em 1967. “A sua participação no movimento dos direitos civis extinguiu o apetite de Gregory por carne. Ele começou a reconhecer a relação entre a violência contra seres humanos e a violência contra animais não humanos”, escreveu. Mais tarde, o comediante acabou influenciando Dexter Scott King, o segundo filho de Martin Luther King, a tornar-se vegano, e consequentemente Dexter teve influência sobre a mãe Coretta Scott King que viveu os seus últimos 12 anos de vida como vegana.

Em 1973, Gregory publicou o livro “Natural Diets for Folks Who Like to Eat: Cookin’ With Mother Nature”, que de forma bem-humorada apresenta os benefícios da alimentação vegetariana. A obra foi relançada várias vezes e se tornou um best-seller em sua categoria. Outra curiosidade é que em 1975 o comediante participou do 23º Congresso Vegetariano Mundial, realizado pela Organização Vegetariana Internacional (IVU).

“Comediante, ativista dos direitos animais, pacifista, vegetariano e defensor da alimentação natural, Dick Gregory deu aos participantes um testemunho de seu ponto de vista em todos esses campos de atividades”, segundo informações da IVU. Naquele ano, Dick Gregory ajudou a angariar recursos para combater a fome nas Ilhas Britânicas com comida vegetariana.

 

Referências

Dick Gregory Speaks Up for Animals in Circuses

 

 

Dick Gregory: ‘Animals and Humans Suffer and Die Alike’

 

https://ivu.org/congress/wvc75/gregory.html

http://www.newsweek.com/dick-gregory-heres-what-you-need-know-about-pioneering-comedian-and-civil-652431





Ellen G. White: “Essas criaturas são guiadas para a morte, para que os seres humanos se banqueteiem com as suas carcaças”

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Ellen G. White: ““Animais são frequentemente transportados por longas distâncias e sujeitos a grande sofrimento até chegarem ao mercado” (Acervo: Ellen G. White State)

Escritora e uma das fundadoras da Igreja Adventista do Sétimo Dia, Ellen Gould White se tornou uma das personalidades mais controversas de seu tempo pela sua obstinada defesa do vegetarianismo, o promovendo inclusive em escolas, hospitais e centros médicos. Entre as suas obras mais famosas que também versam contra o consumo de animais está o livro “The Ministry of Healing”, publicado em 1905.

No entanto, “Healthful Living”, de 1896, foi uma das primeiras obras em que Ellen G. White abordou o vegetarianismo. Na página 97, ela declara que a dieta de muitos animais é baseada simplesmente em vegetais e grãos, e que o ser humano deveria seguir esse exemplo, já que não temos o direito de nos alimentarmos de criaturas mortas. Segundo Ellen, um animal que não seja essencialmente carnívoro não tem necessidade de destruir outro animal para se alimentar. No livro “Counsels on Diet and Foods”, de 1903, a autora diz que vegetais, frutas e grãos são o suficiente para uma alimentação saudável e bem completa. “Nem uma onça [28 gramas] de carne deve ser enfiada em nossos estômagos. Devemos voltar ao propósito original de Deus na criação do homem”, defende na página 380.
Com livros publicados em mais de 140 línguas, Ellen Gould White se tornou bastante influente à sua época, tanto que há quem diga que ela inspirou o famoso médico John Harvey Kellogg, também adventista, a criar um dos mais famosos cereais matinais de todos os tempos – Corn Flakes. Sua influência também se deve ao fato dela ter sido uma escritora e oradora incansável, chegando a escrever mais de cinco mil artigos e a publicar 40 livros. Suas obras somam mais de 50 mil páginas manuscritas, segundo o artigo “Ellen G. White: A Brief Biography, de Arthur L. White, publicado no The Official Ellen G. White Website em agosto de 2000.

Em “The Ministry of Healing”, lançado em 1905, a escritora afirma que a dieta indicada ao ser humano no princípio não incluía alimento de origem animal. “Não foi senão depois do dilúvio, quando tudo quanto era verde na Terra havia sido destruído, que o homem recebeu permissão para comer carne”, escreveu. Porém, segundo a escritora, foi uma permissão temporária. Ellen faz a ressalva de que Deus escolheu a comida dos seres humanos quando os levou para viverem no Éden, o que não compreendia nada de origem animal.

Porém, na perspectiva de Ellen, o ser humano insistiu no consumo de carne, e em decorrência disso, teve de amargar inúmeras doenças e muitas mortes relacionadas a esse hábito: “Os que se alimentam de carne, não estão senão comendo cereais e verduras, pois o animal recebe a partir desses alimentos a nutrição que garante o seu crescimento. A vida que havia no cereal e na verdura passa aos que os ingerem. Nós a recebemos comendo a carne do animal. Melhor é obtê-la diretamente, comendo aquilo que Deus proveu para o nosso uso.”

Ellen defende que a inteligência de muitos animais é tão semelhante à inteligência humana que chega a ser um mistério (Acervo: Ellen G. White State)

Outro ponto que, segundo a escritora deveria ser o suficiente para desconsiderar a carne como alimento, é o surgimento de doenças que só existem em decorrência da criação de animais para consumo. “A população come ininterruptamente carne cheia de germes de tuberculose e câncer. Assim são transmitidas essas e outras doenças. Muitas vezes são vendidas a carne de animais que estavam tão doentes que os donos receavam mantê-los vivos por mais tempo. E o processo de engorda para a venda produz enfermidades”, critica.

No final do século 19, Ellen G. White percebeu que já era comum os animais serem privados da luz do dia e do ar puro, respirando somente a atmosfera de estábulos imundos, e talvez sendo alimentados com comida deteriorada, o que facilitava a contaminação e proliferação de doenças:

“Animais são frequentemente transportados por longas distâncias e sujeitos a grande sofrimento até chegarem ao mercado. Privados dos campos verdes para viajarem por longas milhas em estradas quentes e empoeiradas, dentro de veículos imundos e lotados, eles ficam febris e exaustos, e passam muitas horas em privação de água e comida. Essas criaturas são guiadas para a morte, para que os seres humanos se banqueteiem com as suas carcaças.”

Para Ellen G. White, a situação dos peixes não é diferente, levando em conta a contaminação das águas e a ausência de boa matéria orgânica como fonte de alimento. Além de sofrerem pela má intervenção humana, quando morrem tornam-se alimentos; um alimento que também ocasiona enfermidades. “Muitos [seres humanos] morrem de doenças devido ao uso da carne, e essa causa não é suspeitada por eles nem pelos outros”, enfatiza.

Além das questões envolvendo saúde e religião, a escritora também apontava como igualmente importante as implicações morais do consumo de carne. Quando discursava sobre o tema, ela pedia que os espectadores pensassem na crueldade por trás do consumo de carne, e os efeitos que isso desencadeia na vida em sociedade, onde a ternura para com as outras criaturas é majoritariamente desconsiderada.

No livro “The Ministry of Healing”, Ellen defende que a inteligência de muitos animais é tão semelhante à inteligência humana que chega a ser um mistério. Observa que os animais veem, ouvem, amam, temem e sofrem. Se servem de suas capacidades melhor do que os seres humanos. Manifestam simpatia e ternura em relação aos seus companheiros de sofrimento:

“Educai a consciência, aliciai a vontade, mostre o caminho do bom e saudável alimento e a mudança acontecerá rapidamente, fazendo desaparecer a necessidade de carne” (Acervo: Ellen G. White State)

“Muitos animais demonstram aos seus uma afeição muito superior àquela manifestada por alguns seres humanos. Que homem, dotado de um coração humano, havendo já cuidado de animais domesticados, poderia fitá-los nos olhos tão cheios de confiança e afeição, e entregá-los voluntariamente à faca do açougueiro? Como lhes poderia devorar a carne como algo delicioso?”

No início do século 20, a autora já considerava um equívoco crer que a força muscular depende do uso de alimento de origem animal, já que podemos recorrer a cereais, frutas e oleaginosas, alimentos que contêm tudo que é necessário à nossa nutrição. “Quando se deixa o uso de carne, há muitas vezes uma sensação de fraqueza ou falta de vigor. Muitos alegam isso como prova de que a carne é essencial. Mas é devido a este alimento ser estimulante, deixar o sangue febril e os nervos estimulados, que assim lhes parece ser algo que faz falta. Alguns acham tão difícil deixar de comer carne o quanto é para um bêbado deixar o álcool. Mas logo se sentirão muito melhor com a mudança”, garante.

Na defesa da abstenção de alimentos de origem animal, Ellen Gould White jamais viu o vegetarianismo como uma impossibilidade. Ela acreditava que mesmo em países com maiores índices de pobreza é possível implementar hábitos vegetarianos na população mais carente. Ela sugeria a realização de pesquisas e a discussão sobre meios de incentivar a produção de alimentos de origem vegetal mais baratos. “Com cuidado e habilidade, é possível preparar pratos nutritivos e saborosos, substituindo a carne. Em todos os casos, educai a consciência, aliciai a vontade, mostre o caminho do bom e saudável alimento e a mudança acontecerá rapidamente, fazendo desaparecer a necessidade de carne. Já não é tempo de todos dispensarem a carne da alimentação?”, questionou no capítulo “A Carne Como Alimento”, do livro “The Ministry of Healing”, publicado em 1905.

Saiba Mais

Ellen Gould White nasceu em Gorham, no Maine, em 26 de novembro de 1827 e faleceu em Elmshaven (Santa Helena), na Califórnia, em 16 de julho de 1915.

Referências

White, Ellen G. The Ministry of Healing (1905). Ellen G. White State (2013). (Disponível em https://egwwritings.org)

White, Ellen G. Healthful Living (1896). Ellen G. White State (2013). (Disponível em https://egwwritings.org)

White, Ellen G. Counsels on Diet and Foods (1903). (Disponível em https://egwwritings.org)

White, Arthur L. Ellen G. White: A Brief Biography. (Disponível em http://www.whiteestate.org/about/egwbio.asp)

 





O que aconteceria com os animais se o mundo se tornasse vegano?

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Arte: Irmãos de Mães Diferentes, da série Utopia, do artista alemão Hartmut Kiewert

Não é incomum as pessoas perguntarem o que aconteceria com os animais se o mundo se tornasse vegano. Quando alguém faz tal questionamento, é importante que essa pessoa pondere sobre uma realidade alcançável, não utópica, digressiva. Essa pergunta é feita de duas formas – buscando uma resposta realmente válida ou simplesmente como uma forma de tentar minar qualquer argumento vegano.

Essa pergunta, se feita de forma capciosa, é tola. O mundo não vai se tornar vegano hoje ou amanhã. Esse trabalho em prol do abolicionismo animal é feito como qualquer projeto de longo prazo colocado em prática pela humanidade. Analise com brevidade o nosso passado e reflita sobre a abolição da escravidão, grandes conquistas sociais, entre outras coisas. Algumas delas vieram à tona subitamente? Foram alcançadas rapidamente? Não. São sempre trabalhos iniciados há muito, muito tempo, e que exigem maturação. Toda luta que coloque em xeque o status quo jamais teve visibilidade até o momento em que passou a ser vista como realmente é, ou seja, algo credível e justo.

O vegetarianismo e o veganismo, embora não nos moldes atuais, existem desde o princípio da humanidade. Mas só a partir dos séculos 19 e 20 que passou a haver maior articulação em torno desses ideais. Tivemos um amadurecimento estrutural e nos aproximamos do que entendemos hoje como direitos animais e abolicionismo animal. A literatura da libertação animal, criada formalmente na década de 1970, por exemplo, foi inspirada nas ideias do escritor inglês Henry Salt, que já versava sobre o assunto em 1885.

Vivemos um período de aperfeiçoamento das ideias do abolicionismo animal, de luta pela implementação de políticas públicas. Há mais produção, mais acesso à informação, e isso é muito bom para a mentalização, porque impacta nas nossas relações de consumo, no fortalecimento da ideia de que animais não são objetos, mas sim seres sencientes que merecem viver à sua maneira. Claro, o abolicionismo animal não vai acontecer facilmente ou tão logo. Ninguém vai pegar um megafone e anunciar em um canal no YouTube ou na TV que repentinamente todos os animais foram libertados dos matadouros, das áreas de confinamento.

Não creio que veremos bilhões de animais atravessando ruas e pastos. Nem mesmo sendo remanejados para outras áreas. Sabe por que? Porque o veganismo pelo menos por enquanto tem acontecido majoritariamente sob o aspecto da desaceleração de consumo. O que isso significa? Significa que o veganismo vai ganhando espaço conforme a demanda de produtos de origem animal for diminuindo. Com isso, quem lucra com a exploração animal não terá motivos para investir tanto, até por entender que trata-se de mau investimento.

Com a desaceleração do consumo, será mais fácil desenvolver um trabalho de educação vegana. Na minha opinião, a educação vegana depende dessa desaceleração. Atualmente, estamos caminhando para banir a realização de testes de produtos em animais nos próximos anos. Pode parecer pouco, mas só de instigar nas pessoas a reflexão contra a objetificação animal em laboratórios já existe uma possibilidade de ponderação mais ampla sobre a exploração animal.

Atualmente, as pessoas não veem com bons olhos os circos que exploram animais, tanto que é uma prática banida em muitos estados e países. Os zoológicos que lucram com a exploração animal também já não são romantizados. Há cada vez mais pessoas reprovando a realização de vaquejadas, touradas e rodeios, entre outras práticas violentas. Há mais comoção em relação ao abandono de animais, e as pessoas estão mais preocupadas com a origem do que consomem. Prova disso é que se você apresentar uma boa alternativa de produto industrializado sem ingrediente de origem animal, sempre haverá aqueles que optarão por não continuarem endossando esse tipo de exploração. O mundo vegano tem sido construído a cada dia, e não da forma utópica apontada de forma jocosa por quem o considera irrealizável.

Se pensarmos que há 20 anos, ou até menos, tudo que citei acima era parte de uma realidade considerada normal, não é difícil reconhecer que essas mudanças são pontos positivos e determinantes para a construção de um mundo vegano, e todos esses fatores dependem da conscientização sobre a exploração animal em todas as esferas. Penso que se o veganismo se tornar uma realidade para a maioria da população, e espero que seja, mesmo que eu não esteja aqui, o número de animais criados e reduzidos a produtos e entretenimento será surpreendentemente menor. Tão menor se comparado à atualidade que não será difícil remanejar para santuários os últimos animais explorados, onde poderão viver até os seus últimos dias.





Sempre que você mostrar alguma denúncia de crueldade contra animais, alguém dirá que não é necessário se preocupar

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Sempre que você mostrar alguma denúncia de crueldade contra animais, alguém dirá que não é necessário se preocupar, porque isso é exceção. Porém, acho importante não desconsiderar que muitas das desgraças que a humanidade viveu no passado e ainda vive no presente foram endossadas pela aceitação. A partir do momento que normalizamos qualquer ação que prejudique outras vidas, logo não deveria ser naturalizada, estamos dando o nosso aval para que essas práticas não sejam abolidas.

Não é raro alguém usar o argumento de que o problema da crueldade pode ser resolvido com boa fiscalização. Bom, vivemos em um país com mais de 207 milhões de pessoas, imerso em corrupção, desigualdades e outros tipos de injustiças, e que mata 191 animais por segundo. Estou citando apenas criaturas criadas para consumo. Tem certeza que quer falar sobre fiscalização? Não é preciso recorrer a nenhuma organização para concluirmos que é impossível evitar que animais sofram ou passem por algum tipo de privação. Até porque são criaturas que, assim como nós, não desejam sofrer e morrer, independente de tratamento e circunstância.

Muitas vezes, a construção conceitual da exceção no nosso ideário é apenas uma forma de nos eximirmos de culpa, e seguirmos nossas vidas como se estivéssemos dando o nosso melhor. Mas a realidade é que não fazemos isso, apenas nutrimos tal ilusão; perpetuamos uma relação de conveniência que se arrasta por séculos. Se as possibilidades para uma vida mais justa em relação aos outros surgem a cada ano, com um número cada vez mais crescente de alternativas, por que não devemos abraçá-las, nos esforçarmos para não impactarmos tanto na vida de outras criaturas?

Não é difícil fazer isso quando há genuína boa vontade. Se a você isso parece difícil, acredite, talvez o seu esforço não seja lídimo. Claro que viver como sempre vivemos nos parece sempre mais sedutor e confortável. Afinal, as pessoas não gostam tanto de mudanças quanto dizem gostar, e principalmente se isso faz com que questionem o seu estilo de vida, a sua concepção de mundo e de valores. A simples verdade que muitos rejeitam é que não somos tão bons quanto nos julgamos na nossa relação com vidas não humanas, e isso é uma consequência natural da nossa displicência.





Ocidentais e orientais e o consumo de animais

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Uma diferença que percebo entre os ocidentais e os orientais no que diz respeito principalmente ao consumo de carne é que os ocidentais se esforçam para enquadrar seus maus hábitos alimentares que envolvem a exploração animal dentro de um conceito distorcido de bonomia, enquanto que os orientais assumem a responsabilidade de seus atos em relação a isso. Eles não se esforçam para tentar provar que são justos com os animais quando os matam.

Ou seja, há orientais que nos parecem bárbaros nos aspectos da exploração animal porque eles não têm vergonha de assumir o que fazem, enquanto que os ocidentais preferem delegar responsabilidades, tentando isentar-se de culpa. Não admitimos que digam que tratamos os animais com crueldade, porque nós enquanto ocidentais nos consideramos mais civilizados do que os outros, quando a verdade é que rejeitamos o fato de que tudo que os animais sofrem perpassa pela nossa responsabilidade.

Temos culpa em relação ao que outras espécies sofrem, mas nos consideramos melhores por não realizarmos festivais sangrentos a céu aberto, por não incentivarmos o abate ritual. Isso faz de nós melhores? Culturalmente falando estamos imersos em um contexto onde a morte é sempre justificável quando não somos nós que matamos embora pagamos.