David Arioch – Jornalismo Cultural

Jornalismo Cultural

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Oi…posso te fazer uma pergunta?

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Pedi só uma garrafa de água, caminhei até uma cadeira e sentei diante de uma mesa (Arte: Tom Brown)

Em outra cidade, o único local onde tive tempo de parar e checar se tinha algo que eu pudesse comer foi em uma lanchonete de um posto de combustíveis. Quando a atendente me mostrou todas as opções, expliquei que não como nada com nenhum tipo de carne, laticínios e ovos.

Então pedi só uma garrafa de água, caminhei até uma cadeira e sentei diante de uma mesa, testemunhando através de uma parede de vidro um pedaço de natureza ainda intocado. Três caras acompanhados de uma moça me observavam em uma mesa de canto.

Enquanto eu bebia tranquilamente, notei que a atendente continuava olhando para mim. Quando percebeu que percebi, ela ficou um pouco acanhada e disfarçou passando uma flanela sobre o balcão. Cerca de dois minutos depois, ela se aproximou:

— Oi…posso te fazer uma pergunta?
— Sim…
— Como você consegue ser desse tamanho sem comer carne, leite e ovos?
— Deve ser a natureza me agradecendo por não me alimentar de seus filhos.

Ela riu, eu sorri; nos despedimos.

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Uma luz estranha

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Notei uma luz estranha, como se estivesse me seguindo

À noite, saindo da academia, notei uma luz estranha, como se estivesse me seguindo; projetando-se rasteira, em direção às minhas pernas. Quando olhei para trás, vi um cachorro com uma lanterninha na cabeça.

 

 





Written by David Arioch

May 17, 2017 at 1:06 am

Um presente para a mamãe

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” Será que digo que sou jornalista? Provavelmente ela vai me expulsar da loja… ” (Foto: Luxury Safes)

Saí para comprar um presente para a minha mãe. Fui até uma joalheria, e enquanto eu olhava alguns brincos e colares, uma moça se aproximou e perguntou se eu precisava de ajuda.

— Por enquanto, não…

— Se precisar, estarei aqui ao lado, tudo bem?

— Ah sim. Muito obrigado!

Enquanto eu analisava um belo anel que parecia forjado por um nibelungo, uma mulher pediu que a vendedora me levasse até ela.

— Por gentileza, o senhor pode me acompanhar?

Mesmo sem entender nada, acenei positivamente com a cabeça. “O que será isso, hein?”, pensei.

Diante de um longo balcão acastanhado, uma mulher muito bonita, com pouca maquiagem, e em um longo vestido preto, sorriu e me cumprimentou.

— O senhor não precisa se contentar com as nossas peças mais baratas. Temos algo realmente especial.

— É? — falei, mas ponderei: “E por que eu não me contentaria com as peças mais baratas? E que para mim pareciam bem caras…”

— Sim. Temos uma sala especial para atender pessoas como você. “Não entendi. Pessoas como você? Que tipo de pessoa eu sou?”

— É?

— Sim…me acompanhe, por favor.

Percorremos um corredor à direita do caixa, ela acionou uma senha e uma porta blindada, que mais parecia um cofre, abriu. Entramos.

— Acredito que tudo esteja à sua altura.

— Como assim à minha altura? Será que essa mulher não está me confundindo com outra pessoa? — refleti.

A peça mais barata naquela sala era um par de brincos de R$ 22 mil. Mas ela fazia questão de me mostrar colares que custavam até R$ 120 mil. Talvez fossem feitos de alguma coisa mais valiosa do que vidas? Ela sorria copiosamente, como se acreditasse que eu não sairia de lá sem comprar nada.

— Será que digo que sou jornalista? Provavelmente ela vai me expulsar da loja… — inferi silenciosamente.

— A senhora tem peças realmente bonitas, o problema é que estou bem distante de comprar o par de brincos “mais barato”.

Pensei em quantas crianças famintas poderiam ser alimentadas com o dinheiro a ser pago por aqueles brincos, anéis e colares. Bom, não cabe a mim dizer o que cada um deve ou não fazer com o seu dinheiro. Além disso, a verdade é que estamos todos no mesmo lugar, mas nem por isso fazemos parte do mesmo mundo.

— Não seja modesto….sei que o senhor é rico.

— Como? Até parece. Não entendi.

— Conheci seu pai, parte da sua família…

— Acho que não, hein…

— Conheci sim…não seja assim…

— Certo. Agradeço a confiança em me trazer aqui, mas preciso ir embora…

— Rápido assim? Não vai levar nada? Nem uns fios de ouro para adornar a sua barba?

— Não tenho como levar nada desta sala, senhora. E me desculpe, mas sofro de claustrofobia. Devo dizer que este ambiente não ajuda.

Ela estava bloqueando a saída, e quando percebeu o meu estado de descontentamento, abriu passagem. Atravessei a loja rapidamente, e na saída um homem tocou em meu ombro e indagou:

— Você não é filho do Salim Murat Mesut?

 

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Written by David Arioch

May 14, 2017 at 11:15 pm

O gato que caiu no quintal

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De repente, um gato saltou o muro e caiu na minha frente (Foto: Reprodução)

De vez em quando, deito no quintal, sentindo a brisa no rosto, na barba; e reflito um pouco. Hoje, enquanto me distraía com algumas ideias, ouvi um barulho estranho entre os arbustos do quintal vizinho. De repente, um gato saltou o muro e caiu na minha frente, quase entre as minhas pernas. Sem que eu pudesse entender o que estava acontecendo, o bichano veio para cima de mim.

Me afastei, e ele continuou mostrando as garras, um olhar cabuloso e nada amistoso. Mesmo parecendo tão pequeno diante de mim, o gato insistiu em me cercar.

— Que mal pode acontecer? É só um gato pequeno – inferi.

Mas aquele gato pequeno saltou em minha direção e, se eu não o tivesse segurado no ar, talvez tivesse até mesmo furado um dos meus olhos. Enquanto se debatia, ele tentava atingir ou puxar a minha barba de alguma forma. Tudo bem. O mantive à distância segura do meu rosto e caminhei até a casa vizinha.

— Este gato é da senhorita? Ele pulou no quintal de casa – expliquei, o entregando nas mãos da vizinha.

— É sim. Me desculpe pelo transtorno, ela está assim porque doamos um dos gatinhos que nasceu há algumas semanas.

— Ah, entendi. Não tem problema — comentei sem graça.

A moça não conseguiu velar a vontade de rir. Constrangido, me despedi, ela agradeceu, e caminhei de volta para casa. A primeira coisa que fiz foi entrar no banheiro. Me observei no espelho e tentei entender como a minha barba parece um filhote de gata.

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Written by David Arioch

May 14, 2017 at 10:32 pm

O gato branco com o rato na boca

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Foto: NatalieShuttleworth/Getty Images

Vejo o gato branco e bem alimentado pela vizinha com algo acinzentado na boca. Paro o carro e reconheço que é um ratinho ainda vivo. O gato retribui o meu olhar com altivez. Encosto o carro, desço e vou atrás do gato.

Ele sai correndo e sigo no encalço. Depois de correr três quarteirões, o gato invade um terreno baldio. Pulo o muro e continuo a perseguição. Ele continua me olhando com ar de vitória, uma expressão capciosa de deboche; como se eu jamais fosse capaz de encurralá-lo.

Então o gato se embrenha no meio da sarça e, sem contar com o imprevisível, fica preso em uma planta rasteira. Me aproximo, ele não vela o desgosto. Massageio seu cangote e, apesar da resistência inicial, acaba soltando o ratinho ainda vivo. Por dois ou três segundos, parece que nem o camundongo acredita no que aconteceu. Quando recobra os sentidos, desaparece através de um buraco no muro.

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Written by David Arioch

May 10, 2017 at 2:19 pm

Posted in Crônicas/Chronicles

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O conflito da medonha

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A barrinha de proteína a quem dei o nome de Medonha (Foto: David Arioch)

Hoje à tarde, passei no trabalho de uma amiga e conversamos um pouco na cozinha da empresa onde ela trabalha. Nesse ínterim, tirei uma barra do bolso e comecei a comer. Curiosa, ela me olhou e perguntou:

— O que você tá comendo?
— Medonha!
— Nossa, David! Que grosseria! Que baixeza!
— Como?
— Me xingando do nada…
— Claro que não! Medonha é o nome da minha barrinha!
— Agora não adianta tentar se justificar.

 

 

 
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Written by David Arioch

May 10, 2017 at 2:09 pm

“Po, olha esse cara! Bruto demais dos pés até a touca”

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Passei no mercado para buscar pão para a minha mãe (Foto: Reprodução)

Saí da academia e passei no mercado para buscar pão para a minha mãe. Na fila do caixa rápido, um cara ficava me observando. Até que ele se aproximou e disse:

— Caramba, mano! Tenho que te falar! Você tem um visu que dá medo! Olha o físico e a cara desse homem aqui, Renata!

Envergonhada, a moça que o acompanhava apenas sorriu e comentou:

— Não liga não. Meu irmão é assim mesmo.

Com meu típico sorriso enviesado, comentei que estava tudo bem. Então ele continuou:

— Po, olha esse cara! Bruto demais dos pés até a touca. Que barba sinistra, meu velho!

Eu já constrangido, sem saber o que dizer, pensei até em sair da fila do caixa rápido. Então Renata o puxou pelo braço, o levando para o setor de hortifruti. De lá, ele ainda falou:

— Serião, mano! Se você me der um tapa acho que eu não levanto.

Enquanto algumas pessoas riam e sorriam, eu só acenava a cabeça e tentava esconder a vergonha por trás da barba.

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Written by David Arioch

May 6, 2017 at 1:34 am

O rato e a criança

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O rato e o chocolate

Vi um rato indo em direção à boca-de-lobo com um pedaço de chocolate. Uma garotinha se aproximou e gargalhou sem maldade. O roedor se esquivou e a criança chorou. Ninguém se entendia, parecia. Anormal e natural, dizia a lágrima que descia. Enquanto um se desprendia, o outro, coagido pela dureza vida, não se rendia.





Written by David Arioch

April 20, 2017 at 1:19 am

O gato preto

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Começou a miar e a esfregar as unhas na minha barba (Foto: Reprodução)

Voltando da academia, um gato preto saltou no capô do meu carro. Quando uma moça se aproximou para pegá-lo, ele pulou em meu colo e começou a miar e a esfregar as unhas na minha barba, como se procurasse alguma coisa.

Depois de tanta insistência, e já me sentindo sem jeito diante da situação, da minha barba caiu uma modesta porção de ração. O gato comeu, miou, saltou e bebeu a água que a moça serviu em um potinho na calçada.

Satisfeito, deu uma última olhadela para mim e para a moça antes de correr para a escuridão, onde vi seus olhos denunciarem malícia e intenção. Estava feito! Um pneu furado e a lataria do carro visivelmente riscada.

O gato preto cobrou de quem o ignorou. Deixou sua assinatura em uma caminhonete estacionada sob a luz bruxuleante de um poste, onde seus riscos cintilavam como faíscas de azar e sorte.

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Written by David Arioch

April 19, 2017 at 1:05 am

Um motorista embriagado

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Desci e caminhei em sua direção. Embriagado, o sujeito mal falava (Arte: Reprodução)

Em novembro de 2014, eu estava em frente a um mercado quando um motorista bateu à esquerda do meu carro e seguiu ziguezagueando pela rua. Quando vi o amassado pelo retrovisor, fui atrás dele. Sinalizei para que parasse e ele encostou o seu Corcel II bem deteriorado, com o escapamento arrastando no asfalto.

Desci e caminhei em sua direção. Embriagado, o sujeito mal falava. Sua esposa também desceu e expliquei que ele bateu no meu carro. Constrangida, a mulher se desculpou enquanto o marido fazia caretas, ria e tamborilava as mãos sobre o capô do carro. Ele parecia não se importar com a situação. No banco de trás, uma garotinha de tranças, com três ou quatro anos, assistia tudo em silêncio, segurando uma bonequinha inteiriça de plástico duro, dessas mais baratas.

A esposa do motorista me deu o número do seu telefone e implorou para não chamar a Polícia Militar. Na realidade, eu nem tinha essa intenção. Ela sugeriu que eu entrasse em contato para passar o orçamento do conserto. Antes de ir embora, perguntei de onde eles eram e o que faziam. “A gente mora e trabalha na roça dum homi aí, ‘samo lavrador’. Tamu ino visita o túmulo da minha mãe. Pedi pra ele não beber, mas é teimoso demais. Cê pode ligar qualquer hora”, se justificou constrangida.

Nunca liguei. Só assisti o sujeito serpenteando o carro e desaparecendo dois quarteirões abaixo enquanto a fumaça do escapamento ocultava o veículo. A sinuosidade de suas vidas talvez fosse representada pelos traços sulcados no rosto daquela mulher precocemente envelhecida. Meu prejuízo material nem de longe se aproximava do seu padecimento existencial.

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Written by David Arioch

April 12, 2017 at 8:38 pm