David Arioch – Jornalismo Cultural

Jornalismo Cultural

Archive for the ‘Cotidiano’ tag

Como você entrou aí?

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Na semana passada, andando perto da Catedral, ouvi uma voz estridente.

— Ei, você aí.

Tive que olhar várias vezes para ter certeza de onde vinha aquela voz.

— Aqui, mano. Cola aqui.
— Que isso? Como você entrou aí?
— Como cheguei aqui não interessa, parceiro. A verdade é que vamos ficar rico hoje.
— Quê?
— Bora caçar um tesouro. Tem coisa boa aqui dentro. Chega aí.
— Não, obrigado. Pode ficar com o tesouro pra você. Preciso trabalhar.
— Trabalhar pra que, mano? Você é bobo?
— Agradeço a consideração, mas vou indo.
— Azar o seu, louco.

O sujeito estava dentro de um bueiro, e entre as grades eu conseguia ver apenas sua testa lambuzada, sua boca se movendo e seus dedos cobertos de fuligem.

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Written by David Arioch

September 11th, 2017 at 1:28 am

Você anda falando com a minha mulher no Facebook

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Arte: Alex de Pase

— Você anda falando com a minha mulher no Facebook.
— Depende, falando o que?
— Conversando, ora.
— Imagino que se for verdade, seja uma conversa normal.
— Não é pra ter conversa normal com ela.
— Não?
— Não.
— E?
— E aí que não é pra falar com ela. Conversa de nenhum tipo.
— Senhor, converso com inúmeras pessoas diariamente. Até porque o meu trabalho é escrever. Se escrevo e publico, isso atrai pessoas, e pessoas conversam.
— Mas não com minha mulher. Não é pra falar com ela.
— Onde o senhor conseguiu o meu número?
— Isso não vem ao caso.
— Não fale com minha mulher.
— Ok.
— Tá avisado.
— Sem problema. Obrigado pela gentileza de me ligar e tenha uma boa noite.
— Não fale com minha mulher, viu?
— Uhum.

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Written by David Arioch

September 11th, 2017 at 1:20 am

Uma situação de risco

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Arte: Gerard Boersma

Há três anos, eu estava parado em um semáforo em uma rua escura. Notei duas motos colando no meu carro. Quando vi pelo retrovisor um rapaz abrindo a mochila, retirando algo rapidamente e a repassando para o outro motociclista, não pensei duas vezes. Iriam me assaltar.

Os dois usavam capacete com viseira preta, o que tornava impossível identificá-los. Assim que o semáforo abriu, segui meu caminho, mas fingindo que estava tudo bem. E os dois vieram no encalço, cada um de um lado. Decidi mudar o trajeto. Assim que virei à esquerda, derrubei sem querer um dos motociclistas, que bateu na lateral, rente ao pneu traseiro.

Parei o carro e fui até ele pra saber se estava machucado. O jovem estava bem, apenas atordoado. Ofereci toda a assistência necessária, inclusive autorizei que ele substituísse todas as peças danificadas da moto. Também recomendei que ele não fizesse mais aquilo. O pneu da moto dele estava quase colado no meu para-choque no semáforo. E eram mais de 23h. Difícil não pensar que era um ladrão.

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September 10th, 2017 at 10:57 pm

Como você descobriu onde eu moro?

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Arte: San Martin

O cara chega na sua casa depois das 22h pedindo dicas de musculação. Você nunca o viu na vida.

— Como você descobriu onde eu moro?
— Me falaram por aí.
— Como assim por aí? Você vai me desculpar, mas isso é muito estranho.
— Como?
— Vir na minha casa essa hora sendo que nunca te vi.
— É que eu só tinha esse horário livre pra falar contigo, fora que a noite é mais silenciosa.

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Written by David Arioch

September 10th, 2017 at 10:52 pm

“Tio, você já deve ter matado muita gente”

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Pintura: K. Pralahad

Há algum tempo, eu estava na Oficina do Tio Lu, na Vila Alta, na periferia, quando um garotinho veio conversar comigo. Curioso, sorria e não tirava os olhos dos meus braços.

— Tio, você já deve ter matado muita gente.
— Por que você acha isso?
— Por causa do tamanho do seu braço, ué. É muito forte.
— E você acha que braço forte é pra matar pessoas?
— Se não é pra matar, é pelo menos pra bater, né?
— Não, claro que não.
— Ué, não?
— Não…
— Ué, pra que então?
— Pra abraçar.
Ele ficou em silêncio me olhando.
— Não é melhor?
— É sim… — respondeu com um sorriso amarelecido.

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Written by David Arioch

August 19th, 2017 at 12:15 am

“Você é um ladrão de ar, um ladrão!”

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” Você não acha que deveria inspirar e respirar um pouco menos?”

No banco, enquanto eu aguardava a minha vez, um senhor perscrutou um rapaz:

— Você não tem ideia do mal que está fazendo.
— Como?
— Isso mesmo!
— Isso mesmo o que?
— Você inspira e respira alto, com uma intensidade absurdamente desconfortável e desrespeitosa. Isso é ultrajante!
— Como?
— Isso mesmo!
— Isso mesmo o que?
— Você não acha que deveria inspirar e respirar um pouco menos? Não se dá conta de que está me roubando um pouco de ar? Não só meu, mas de todos que estão próximos de nós.
— Respiro normalmente. De boa.
— Não mesmo. Sinto que o ar não está fluindo corretamente desde que você se aproximou. Você é um ladrão de ar, um ladrão! — bradou o homem, chamando a atenção das pessoas mais próximas.

Assustado, o rapaz se levantou e caminhou até o outro lado do banco, temendo que o homem se aproximasse.
O sujeito de meia-idade ainda o assistia à segura distância com um olhar reprovador, ajeitando os óculos sobre o nariz. Cutucou o vizinho e disse:

— Agora ele vai roubar o ar daqueles outros infelizes, é um tremendo ladrãozinho de ar.

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Written by David Arioch

August 8th, 2017 at 4:41 pm

A senhorinha da fila

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Arte: Anne Buffington

A maioria das pessoas se irrita com filas. Acho que sou estranho, pois não reclamo, quero dizer, não quando tenho algum tempo livre. Hoje mesmo, fiquei cerca de 40 minutos na fila do caixa rápido. Irônico, não? Três pessoas sorriram pra mim na fila, o que significa que notaram muito bem minha presença. Quem sabe, até mais do que eu gostaria no meu anseio de parecer invisível, um voyeur. Brincadeira. Ou talvez não.
Na fila do caixa rápido, que atravessava o setor de hortifruti e de frios, notei um carrinho à minha frente, mas ninguém o estava guiando.

— A senhora sabe de quem é esse carrinho? — perguntei a uma moça acompanhada da filha que sorria timidamente.
— Não! Não sei. Quero dizer, de uma senhora aí, mas eu que não vou empurrar.

Empurrei o carrinho mais à frente, para acompanhar a fila, e uma senhora se aproximou:

— Obrigada! Fui pegar uma coisinha ali – justificou com um sorriso largo.
— Tudo bem – respondi.

Atrás de mim, três homens conversavam. Um deles parecia o Casagrande, tanto no aspecto físico quanto no tom de voz grave e ansioso, que não permitia folga nem para recuperar o fôlego. Falavam de lanches, violência, desenvolvimento urbano, pedágio, estradas, entre outras coisas.

— Londrina está cheia de mafiosos. Você não é mafioso, né? Sou doido de perguntar isso, porque se for, tu não vai deixar eu chegar nem na porta do meu carro depois dessa.

Os outros dois riram.

A senhorinha abandonou o carrinho outra vez. A moça e sua filha olharam pra mim, talvez aguardando alguma reação enérgica de minha parte.

Continuei no mesmo lugar, assistindo um rapaz alto e extremamente magro analisando uma bandeja de morangos. Ele nem piscava; deslizou os dedos pelo invólucro, e mudou a bandeja de posição inúmeras vezes. Talvez procurando algum resquício de podridão entre as frutas.

Um garotinho acompanhando o pai na fila pediu chocolate, e o pai respondeu que não, que ele já havia comido ontem, e o trato é um chocolate por semana.
À minha frente, a mesma moça de antes oferecia um desses bolinhos recheados e industrializados para a filha. E a menina se mostrava desinteressada.

— Vou pegar um doce bem gostoso pra você.
— Não ligo, mãe.
— Ah, você vai adorar.

E assim nasce uma criança condicionada a gostar de doces.

Um pouco mais à frente, um homem muito parecido com o Eduardo Cunha atraía olhares curiosos. Mas ninguém dizia nada.

— Eu que não queria estar na pele desse senhor.

Alguém comentou que Paranavaí é um buraco. Outro rebateu:

— Se é um buraco, então você pulou dentro, porque você também mora nele.

Levei cotoveladas de pessoas que andavam como se estivessem pogando em uma roda punk. Nem percebiam que me atingiam. “Sem problema!” Deve ser pressa ou o costume da pressa. Ela toma conta das pessoas até quando não estão fazendo nada. Vez ou outra, eu saía da fila para que alguém atravessasse até o outro lado. Uma senhora agradeceu, os outros não. “Tudo bem!” Cerca de 20 minutos depois, o rapaz continuava observando os morangos. O vi movendo os lábios.

— Acho que esse cara fala com os morangos. O que será que o morango disse pra ele? — me perguntei.

A senhorinha continuava abandonando o carrinho e enchendo uma cestinha sobre ele. Kiwi, batata, abacate, manga, limão, cenoura, berinjela, caqui. Foi tudo que vi ela indo e voltando para colocar no carrinho desde que entrei na fila. Alguns a reprovavam. Eu não me importava. Nem o cara logo atrás, distraído conversando com seus amigos.
A moça e a filha seguiam incomodadas com a mulher. A menina olhava para mim de tempo em tempo, como se ainda aguardasse uma reação minha ou dissesse com os olhos:

— Po, você não vai fazer nada mesmo? Nem falar nada?

— Não, não vou – eu não disse.

A fila crescia, crescia, sem parar. Já estava com o dobro do tamanho.

Perto da minha vez no caixa, a senhorinha chamou-me a atenção:

— Filho, esqueci mais uma coisinha, você pode cuidar aqui pra mim?
— Posso sim. Tudo bem.

Logo despareceu entre as bancas.

— Cara, como você tem paciência. Como você aguenta tudo isso? — questionou a moça.

Apenas dei um sorriso enviesado.

A senhorinha passou pelo caixa e ficou parada em uma das entradas do mercado. Assim que paguei e caminhei em direção à saída, ela chamou-me a atenção:

— Olhe, filho. Isso aqui é pra você. Muito obrigada mesmo – disse sorrindo e me entregando uma caixinha de figos orgânicos e selecionados.
— Que isso! Poderia ser eu no lugar da senhora. Não é necessário.
— Eu insisto, por favor.
— Tudo bem. Muito obrigado pela gentileza – respondi timidamente.

A observei caminhando em direção ao carro, onde havia um jovem casal em roupas bem surradas. A moça carregava um bebê.

— Deus abençoe a senhora.
— A senhora é uma boa pessoa.
— Imagina…
— Querem uma carona?
— Não. A gente vai pegar o ônibus aqui na frente. A gente conseguiu o dinheiro da passagem com um moço antes de falar com a senhora.
— Então tá bom. Fiquem em paz.
— A senhora também.

Ela entrou no carro carregando apenas uma sacola. As outras foram entregues ao homem que caminhou até a parada de ônibus com a companheira e o bebê.

 

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Written by David Arioch

August 6th, 2017 at 10:02 pm

“Pare de fazer essa vozinha tosca”

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O “bem-humorado” Porthos

De manhã, enquanto eu observava os gatos brincando no quintal, escutei uma voz esquisita se projetando a centímetros do chão.

— Ô David, pare de fazer essa vozinha tosca, nhim nhim nhim. Coisa tonta, mano! Você acha que tá falando com quem? Por que vocês fazem isso? Sou adulto! Nem filhote eu sou. Olhe o meu tamanho, louco! Só não faço filho porque você mandou arrancar as minhas bolinhas.
— Quê?
— É isso aí! Você tem problema? Não gosto dessa vozinha. Vá falar assim com as crianças, mano. Aqui não! Vamos conversar de igual pra igual.
— Como?
— É, tem problema sim – disse Porthos, um dos gatos daqui de casa me observando com um olhar enviesado e expressão carrancuda enquanto lambia as próprias patas.
— Outra coisa, você tá de bobeira, né? Porque você tirou o lixador de unhas do nosso quartinho? Você acha que sou o Zé do Caixão? Seu egoísta!
— Que isso! Sempre tratei vocês bem.
— Será? Será mesmo? Tem certeza? Absoluta?
— Então reclame, ora.
— Deixa quieto. Pode ir pra lá. Não quero mais conversar. Quando eu precisar, eu chamo.

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Written by David Arioch

August 6th, 2017 at 9:26 pm

“Moço, o que você tanto olha?”

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A Noite Estrelada, de Van Gogh

Saí da academia e passei na Praça dos Pioneiros apenas para caminhar. Enquanto eu andava, comecei a observar o céu límpido, onde despontavam inúmeras estrelas. Minutos depois, uma mulher se aproximou:

— Moço, o que você tanto olha? Me mostre também que quero ver.

— Estou olhando as estrelas.

— Só isso? Achei que fosse algo mais interessante.

— Pois é…

 





Written by David Arioch

August 1st, 2017 at 9:32 pm

“Agora fiquei até com vontade de ser pai”

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“O semblante não era o mesmo. Quem era aquela criança que tomou o seu lugar?” (Desenho: Nino Andaresta)

Em uma loja, enquanto eu aguardava atendimento, observei um bebê em um bebê conforto ao lado do balcão. Tão lindo com aqueles olhinhos serenos e geometricamente redondos de anime. Sorria sem parar enquanto balançava as mãozinhas e as perninhas curtas simulando bicicletinha. Lindo de ver! Expondo o umbiguinho para fora da camisetinha verde com estampa do Hulk. Vez ou outra, soltava algum gritinho suave, empolgado observando coelhinhos de pelúcia pouco acima de sua cabeça.

— Que linda inocência! Que beleza de criança! Que doçura!
— Agora fiquei até com vontade de ser pai. Que coisinha linda e hipnotizante.

O bebê continuava simulando bicicletinha. Um verdadeiro atleta.

— Esse vai gostar muito de se exercitar. Não tenho dúvida disso!

Fui surpreendido. A criança sorriu pra mim, um daqueles sorrisos raros de comerciais de TV, do tipo enviesado.

— Preciso ser pai, cara! Quero isso na minha vida – monologuei.

Ainda bem que ninguém percebeu que falei mais alto do que imaginei.

Era incrível ver aquele pequeno ser cheio de vida, de vontade de existir. Um mundo de infinitas possibilidades se abria diante dele.

— Esse vai conquistar o mundo, parece bem peculiar.
— Nossa! Preciso ser pai, cara! Isso é demais!

De repente, os olhos da criança mudaram, enturveceram. Pressionou uma mãozinha contra a outra, como se estivesse prestes a esmagar os próprios dedinhos. As bicicletinhas d’antes se transformaram em golpes violentos no ar.

O semblante não era o mesmo. Quem era aquela criança que tomou o seu lugar?

Me afastei a passos cuidadosos quando o bebê começou a gritar e a dar violentas cabeçadas no bebê conforto. Uma, duas, três, quatro, cinco, seis, sete, oito, nove cabeçadas consecutivas.

— Diabeisso! O que está acontecendo aqui? — pensei, mas não falei.

Preocupado, olhei em volta. Ninguém me olhava. Ainda bem. Assim ninguém acharia que tive algo a ver com a infanta fúria. A criança berrava cada vez mais alto. Que vozeirão sinistro!

— Desse jeito, vai cantar death metal – concluí.

Eu não sabia mais se me afastava ou se me aproximava. Por pouco, a criança não vira o bebê conforto com a força das cabeçadas e dos chutes no ar. Até que sua mãe chegou.

— Não quero mais ser pai. Deixa quieto.

E a vontade passou.

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Written by David Arioch

July 28th, 2017 at 1:13 am