David Arioch – Jornalismo Cultural

Jornalismo Cultural

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“Você faz mais alguma coisa além de musculação?”

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Um dia, na academia, um camarada me perguntou se eu fazia mais alguma coisa além de musculação. Achei a pergunta um tanto quanto estranha, mas tudo bem:

— Sim, eu trabalho.
— Sério mesmo?
— Verdade.
— Você trabalha com que?
— Com jornalismo, sou jornalista.
— Ora, nunca imaginaria.
— É? Por quê?
— Por causa da sua aparência. E também achei que você ficasse horas na academia.
— Não. Na realidade, meu treino tem duração de 40 a 50 minutos, às vezes chegando a uma hora. É o suficiente pra me exercitar e ter um shape razoável.
— Realmente não é muito tempo.
— Sim, o dia tem 24 horas, então me resta um bom tempo pra me ocupar com outras atividades, não?
— É…





 

Written by David Arioch

June 10th, 2018 at 7:27 pm

“Você não é o Tora-Tora?”

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Hoje de manhã, enquanto eu estava aguardando a minha vez no banco, um cara se aproximou.

— E aí, rapaz — ele disse.

— E aí — respondi.

— Tudo bem?

— Sim e você?

— Também. Então, por que você não apareceu na Fazenda Santa Efigênia no sábado?

— Acho que está me confundindo, camarada.

— Você não é o Tora-Tora?

— Como?

— Tora-Tora!

— Não, cara. De modo algum. Foi um engano.

— Ah, me desculpe. É que vocês são parecidos. Na realidade, a barba. Não sei falar o nome dele, nome estranho, então demos esse apelido. Veio pra cá pra trabalhar como lenhador.

— Entendo.

— Então me desculpe.

— Sem problema.

— Mas, olhe, você tem cara de quem sabe cortar lenha. Se um dia quiser experimentar.

— Hum…é lenha de reflorestamento? Se não for, minha religião não permite.

— Qual é a sua religião?

— Sou vegano.

— Já ouvi falar disso. É tipo uma seita, né?

— Sim…

O cara riu; eu também. Nos despedimos.





 

Written by David Arioch

June 5th, 2018 at 12:41 am

Um encontro casual

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Ontem à tarde, caminhando até a seção de dietética do Guguy (mercado), uma senhora que não conheço começou a falar comigo.

— Que bom te encontrar aqui hoje.
— É? Mas por que?
— Porque eu olho pra você e você transmite uma coisa muito boa.
— Sério?
— Sim, verdade.
— Que bom! Muito obrigado. Fico realmente lisonjeado.
— Não precisa agradecer.

Eu sorri; a senhora sorriu. Caminhei para uma seção e ela para outra.

Written by David Arioch

June 3rd, 2018 at 1:58 pm

Você é um daqueles verdinhos?

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Acervo: Turkey Runner

Na fila do mercado, eu, uma camiseta verde do Type O Negative e uma boina. Uma senhorinha se aproximou e se posicionou atrás de mim aguardando a vez. Expliquei que ela não precisava ficar na fila porque pela idade ela tem preferência no caixa especial.

— Não, filho, eu gosto de ficar aqui. Tenho saúde e não tenho pressa.

— Que bom — respondi com o meu típico sorriso tímido.

— Filho, olhei pra você e pra sua cesta, diferente o que vi, admito. Você é um daqueles verdinhos?

— Como?

— Um daqueles verdinhos.

— Me desculpe, mas não sei, senhora. O que é um verdinho?

— Que não come carne, leite, ovo…

— É por aí. Acho que vou um pouquinho além inclusive.

— Olhe só, que honra! Um verdinho de verdade!

— É, acho que sim — comentei, entregue a um sorriso encalistrado.

— Olho esses carrinhos e cestas, só consigo pensar em uma coisa. Você sabia que antigamente não existia toda essa comilança de carne? Muita gente do meu tempo, criada em sítio, chegava a ficar até um ano sem comer carne. E vivia bem, realmente bem, com muita energia, lavourando.

— Isso é bom.

— Papai e mamãe deixaram a Polônia durante a guerra e eles viram tanto sangue e morte naquele lugar que quando chegaram ao Brasil falaram que iriam criar os filhos longe de qualquer tipo de morte. Dito e feito. Tenho 78 anos e não como carne desde os cinco anos quando chegamos aqui em 1944.

— Que história interessante. Se a senhora quiser me contar um dia em detalhes, posso transformar em alguma coisa.

— Quem sabe — ela respondeu sorrindo.

— Seria muito legal — comentei.

— Olhe, o conteúdo da minha cestinha é parecido com o da sua. Estamos apenas em um espectro diferente de gerações, pelo menos nesta vida — disse sem desvanecer o sorriso.

— Não duvido — comentei sorrindo.

— É, sempre enxergo um verdinho de longe.

— Por causa da minha camiseta? — questionei com um sorriso enviesado.

— Não — respondeu rindo.

— Hum…

— Meu pai dizia que os nossos melhores hábitos são sempre translúcidos diante dos nossos olhos e dos olhos dos outros quando existe boa vontade. Claro, desde que nós e os outros queiramos enxergar — explicou a senhora antes da despedida.

 





“Cara, a Páscoa já foi”

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Passei casualmente nas Americanas e vi que havia uma grande quantidade de ovos de Páscoa da Choco Soy de vários sabores. Eles estavam vendendo por R$ 35. Não me importo com ovos de Páscoa, mas por um instante olhei para um funcionário e falei:

— Cara, a Páscoa já foi, vendam por R$ 5 cada ovo que levo todos que sobraram. Me comprometo a distribuir a maior parte para a criançada da Vila Alta.
— Não podemos, amigo. O gerente não está aqui agora, mas acho que pode reduzir o preço nos próximos dias.
— Tudo bem, talvez eu passe aqui depois.
— Mas por que seu interesse nesses ovos? Ah, nem precisa responder. Aposto que você é vegano.
— Por que acha isso?
— Acho que só veganos fazem isso.





Written by David Arioch

April 3rd, 2018 at 12:33 am

Sentada em um banco de praça

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Written by David Arioch

March 30th, 2018 at 7:30 pm

Me dá sua carteirinha de vegano!

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Arte: Reprodução

Saindo da academia, já cansado, pernas esmorecendo pela destruição marota do treino de segunda, atravessei a rua e tão logo desativei o alarme do carro, um cara sentado em uma mureta saltou e gritou:

— Porra, cara! Tô aqui na espreita faz hora. Você é vegano! Tá andando de carro por que?
— Porque preciso. Preciso estar em vários lugares diariamente e tenho pouco tempo livre. Por enquanto é o jeito.
— Precisa porra nenhuma! Isso não é vegano, caramba! Parece um refém do sistema com esse papinho pós-história.
— É mesmo?
— É, me dá essa merda dessa carteirinha aí!
— Que carteirinha?
— Sua carteirinha de vegano, ora!
— Não tenho carteirinha.
— Como não?
— Não tenho.
— Olhe, cara, dessa vez vou te liberar, mas só porque seus pneus são da Michelin.
— Obrigado, irmão. Não sei o que eu faria sem a minha carteirinha.
— Tá! Tá! Tá! Tá liberado! Vai vegano!
Fiz um V com os dedos médio e indicador da mão direita e ele retribuiu enquanto comia uma goiaba.

 

 





 

No estacionamento do mercado

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Ontem de manhã, caminhando em direção ao carro no estacionamento do mercado, uma mulher não me viu e bateu o carro em mim enquanto eu caminhava. Não cheguei a cair no chão, só arqueei o corpo. Mas ela reconheceu o barulho do choque, desceu, me olhou e rapidamente começou a gesticular em vez de falar. Sem saber como reagir diante daquela situação, fiz alguns sinais que aprendi com um amigo que tem uma irmã surda. Ficamos nós dois tentando nos comunicar. Cerca de dois ou três minutos depois, uma amiga dela chegou:
 
— Quase atropelei esse rapaz sírio. Na realidade, bati o meu carro nele, mas ainda bem que ele não se machucou.
— Sério? Mas ele está bem?
— Acho que sim. Olhe a cara dele. Não parece estar com dor.
— É verdade — comentou a amiga.
— Sim, estou bem — respondi — limpando a sujeira dos joelhos.
— Você fala português?
— Sim, sou daqui.
— Nossa, nem imaginava. Encontrei agora há pouco um grupo de sírios lá em cima e pensei que você fosse um deles.
— É?
— Sim…
— Ok.
— Vou indo…
— Então tá. Se cuide.
— Obrigado, ostani dobro.
— O que ele disse?
— Sei lá! Acho que é sírio mesmo.




 

Written by David Arioch

March 26th, 2018 at 2:22 am

“Vixi, mano! Vegano?”

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Pintura: Tom Nuggent

Voltando para casa, encostei o carro rente ao meio-fio e atendi uma ligação. De repente, um cara em outro carro, e do outro lado da rua, esticou o pescoço para fora. Ele parecia levemente (ou não) embriagado.

— Ô, mano, que barba da hora. Empresta aí.
— O quê?
— A barba. Empresta aí.
— E como seria emprestar a barba?
— Corta um pedaço aí e joga pra cá.
O rapaz abriu o porta-luvas e mostrou um tubo de cola.
— Olhe aqui, problema resolvido.
Esfregou um pouco de cola nas maçãs e sorriu.
— Não posso fazer isso. Não faz o menor sentido — respondi.
— Eu pago, irmão. Não é de graça não. Olhe aqui, po. Já estou com o rosto branco.
— Por que você fez isso, cara? Isso é perigoso. É tóxico, e pra piorar essa cola nem deve ser vegana.
— Quê?
Silêncio. Começou a gemer e a tremer como se estivesse tendo uma convulsão.
Desci do carro para socorrê-lo.
— Rá! Te peguei! — gritou e começou a gargalhar.
Minha barba se encolheu como um pequeno arbusto massageando o meu pescoço.
— Não vai topar mesmo?
— Já disse. Não tenho interesse, mas obrigado.
— Caramba, mano! Você é mau!
— É que sou vegano. Toda vida importa pra mim, inclusive a da minha barba.
— Vixi, mano. Vegano? Mexo com essas coisas não. Valeu!
Deu partida no carro e foi embora com o rosto cheio de cola.




 

Written by David Arioch

February 16th, 2018 at 11:48 pm

Onde você vai?

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Saindo do Teatro Municipal, passei em uma loja de conveniência. Na saída, observei uma coruja que me assistia. “A noite é sua”, disse a ela.

— Onde você vai? — perguntou uma moça dentro de um carro estacionado.
— Quê? — respondi.
— Onde você vai.
— Vou pra casa.
— Por quê?
— Porque sim.
— Quer carona?
— Não, obrigado. O meu carro está logo ali — expliquei.
— Venha aqui.
— Não entendi.
— Rapidinho, querido.
— Você me conhece?
— Claro.
— Como?
— Já ficamos juntos há algum tempo.
— Acho que não.
— Ficamos sim.
— Não creio, tenho boa memória.
Fiquei em silêncio.
A moça abriu a bolsa, tirou o celular e mostrou algumas fotos.
— Não entendi.
— Nós lá em casa.
— Quê?
— A nossa festinha.
— Tudo bem, mas não sou eu na foto.
— Isso não vem ao caso.
— Como não? Você disse que sou eu.
— Mas é você. Tenho mais uma coisa pra te mostrar.
— Hã?
— Que isso?
— É seu — afirmou segurando um pequeno tufo de barba que mais parecia um pedaço de Assolan envernizado.
— Isso não é minha barba.
— Claro que é, querido. Você está me chamando de mentirosa?
— Não, mas por que está guardando isso?
— Lembrança.
— Hum…
— Tá. Então, vamos tomar alguma coisa?
— Não posso. Tenho que acordar cedo.
— Nossa, você é chato, hein? Por acaso, você é antissocial?
— Sinceramente? Acho que não tenho como negar.
Silêncio.
— Você pareceu bem comunicativo e desinibido aquele dia em casa. Quando você dormiu, cortei um pedacinho da sua barba. Nem percebeu, né?
— Tenho certeza de que não sei onde você mora.
— Eu, você, Cláudia e Roberta. Tem certeza que não se lembra?
— Quê?
— Vai ficar de palhaçada? — insistiu a mulher.
— Não, mas preciso ir. Me desculpe, mas não sou quem você imagina.
— Tudo bem, querido. Mas vou continuar de olho em você.
— Você é muito gentil. Tenha uma boa noite.

Sem olhar para trás, entrei no carro e minutos depois me dei conta de que eu estava sendo seguido. Mantendo os vidros fechados, estacionei e observei a aproximação de um carro pelo retrovisor. Alguém cutucou o vidro com as pontas dos dedos.

— Boa noite, desculpe o incômodo. Você pode me dizer qual é o melhor caminho para o Jardim Oásis?





Written by David Arioch

November 19th, 2017 at 8:43 pm