David Arioch – Jornalismo Cultural

Jornalismo Cultural

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Morto pode ter cheiro doce?

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Criança, passeando pelo cemitério, passei por um mausoléu e falei com uma senhora que limpava um túmulo: Morto pode ter cheiro doce? Como? Morto pode ter cheiro doce? Doce? Doce! Como? Quem morre, não desaparece, vira doce? Quê, filho? Só depois que me afastei ela notou um balde de pipoca doce no mausoléu ao lado. Ali nunca faltava pipoca – branca, amarela, rosa, vermelha, sortida – um simulacro curioso da vida.

Written by David Arioch

August 4th, 2018 at 5:55 pm

Quando eu era criança…

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Quando eu era criança, eu achava que os adultos tinham todas as respostas. Quanto mais velho, mais respostas. “Deve ser bom ser adulto, saber tantas coisas. Ter tanta confiança, segurança. Adultos são incríveis. Estão lá em cima e eu aqui embaixo, querendo crescer como feijão no algodão. Foram como nós, mas agora estão em um estágio bem avançado”, eu pensava.

Havia dois universos – o meu e o dos adultos. Como criança, eu só podia deambular por esse universo ocasionalmente, quando permitiam. Eu não queria exatamente ser adulto – tinha apenas curiosidade precoce sobre esse mundo ignoto. Puerilidade, penso hoje.

Não, você cresce e o que cresce com você são as dúvidas –
meu caso. Volatilidade, o conhecimento perpassa por isso comecei a crer. Quando conhecia algum ser alheio a esse universo eu dizia que ele, manietado às suas pequenas certezas, talvez fosse tão abençoado quanto amaldiçoado pela ignorância. Mas, em muitos casos, a maldição pode ser invisível. Que assim seja então.

Hoje, sem melindre, prefiro me definir apenas como um colecionador de dúvidas, pirronismo, ambiguidades, suspicácias. Uma vida ingerindo, digerindo e regurgitando palavras e ideias que podem renascer ou simplesmente desvanecer. Talvez seja isso que dê sentido à minha vida, porque sempre suspeito que imerso nas minhas asseverações e verdades ineludíveis talvez eu deixasse de deambular para escorar, e escorar me parece tão chato que sinto sono só de pensar – mas sem a possibilidade de sonhar.

 

Written by David Arioch

July 18th, 2018 at 12:25 am

Quando ensinamos nossos filhos a “respeitar” os animais os comendo

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Reflexões de um minuto – A criança e o sofrimento animal

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Tião e Tonho

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Pintura: Jo Frederiks

O menino viu o pai entrando no barracão com uma foice. No cabo, um pedaço de fita isolante. Era com ela que fazia tantos bichos gritarem antes de desaparecerem, deixando um curto rastro de sangue grosso. Tão grosso que se misturava à terra e se transformava num caminho, caminho para lugar nenhum.

Tião se esforçou para chacoalhar a porta de madeira, que rangia, mas não cedia. “Sou fraco demais”, monologou o menino fazendo bico.

— Deixa eu entrar, pai, deixa eu entrar!
— Não! Vá pra dentro com seus irmãos que tenho serviço pra fazer.
— Por favor, pai! Eu imploro. Me deixe, me deixe entrar! Não vou atrapalhar…

Tião sentou no chão de terra e começou a chorar observando o céu anilado.

— Aqui tá azul, mas lá dentro deve tá vermelho. O pai não me engana. Tá fazendo maldade de novo.

Cochilou depois de tanto bater em vão na tábua velha que servia de apoio para as costas. Sonhou que a porta se abriu. O pai acariciava Tonho. Ninguém gritava ou mugia. O silêncio, como o desejo, resplandecia. O boi inclinou a cabeça e Tião deu-lhe um abraço.

Sentia a respiração morna de Tonho, seus olhos escuros e vibrantes. Serenidade e ânsia, pela vida que não se esvaía. O suficiente. De repente, o boi correu em disparada. O pai não conseguiu alcançá-lo. Duas grandes folhas de bananeira caíram sobre o lombo de Tonho e transformaram-se em asas. O boi voou, voou tão alto que desapareceu entre as nuvens.

Tonho acordou com o último mugido. Pungente, abafado, pesaroso. Acabou. Bateu novamente na porta do barracão. O pai abriu.

— Tá, você queria ver, então veja. Não vou mais esconder nada.

O homem saiu com as mãos ensanguentadas.

Cabeça de um lado, corpo do outro. Um no chão, outro na mesa de angelim. É o fim. Baldes de lata cheios de carmesim.

Para o menino, nada mais existia, somente Tonho que repousava a cabeça sobre a terra arenosa e fria.

— Você tá bonito, Tonho. Te vi voando no céu agorinha. Sua boca tá seca. Você deve tá com sede.

Pegou uma pequena bacia branca, colocou água fresca e a derramou sobre a boca do boi. Olhos fixos. Não reagia.

— Entendi. Você tá muito cansado. Amanhã a gente brinca.

 





Por que o pai matou a galinha?

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Foto: Cristian Bernardo Velasco Valdez

Com cinco anos, Hugo testemunhou seu pai matando uma galinha no quintal. Nunca tinha visto aquele animal com vida. Achava que galinhas já nasciam mortas. Chorou quando viu a pequena ceder com o pescoço destroncado. O pai olhou para o menino. Não disse nada. Entrou em casa e pediu para que a esposa limpasse a galinha e preparasse o jantar.

Hugo correu até o quintal, juntou as penas da galinha que voaram pelo chão de terra e as guardou dentro do bolso. Enquanto a mãe temperava a galinha, o menino tomou coragem e se aproximou.

— Por que o pai matou a galinha?
— Pra gente comer, filho.
— Mas ela queria morrer?
Silêncio.
— A vida é assim, Hugo.
— Por quê?
Silêncio.
— Depois a gente conversa. Agora preciso fazer a janta.

Hugo entrou no quarto. Ficou lá mais de hora e retornou. Desenhou uma galinha, tirou as penas do bolso e as colou na ave tristonha. Depois foi até a cozinha e entregou o desenho para a mãe.

— Olhe, mãe, eu disse que ela não queria morrer.

A mulher observou a expressão lacrimosa do animal. As lágrimas da mãe desceram junto com as lágrimas da galinha, pinguinhos escuros de lápis.





Mãe e filho

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Foto: Wired

Vi uma criança chorando, forçada a ficar longe de sua mãe. Claro que ela não queria, mas não tinha forças para fazer a sua vontade prevalecer. Sua mãe também tentou se aproximar. Não adiantou. Correu para alcançar o filho. Tarde demais. Manteve os olhos no horizonte, vendo o caminhão se afastar com a criança na carroceria.

Enquanto a seguravam, parecia querer atravessar a cortina de poeira com os olhos. Balançou a cabeça e manteve a perspectiva. A observava e ela reagia. Olhos baixos e escuros, cabelos cobrindo parcialmente a fronte. Um olhar sorrateiro, o último registro daquele amor despedaçado pela violência da vida.

Ninguém chorou pela situação, só os dois que amargavam as agruras da inocência, da intransigência e da sofreguidão. Ele morreria mais cedo, a mãe morreria mais tarde depois de uma vida de servidão. Sobreviveriam as lembranças dos toques, das brincadeiras, das cabeças se tocando e se amornando. A bonomia da amamentação. Talvez o cheiro do campo, da relva. Sim, alguém de sensibilidade não esqueceria.

Mais surgiriam e mais morreriam. A história se repetiria muitas vezes no campo, quando fosse dada a ordem: “Aqui o bezerro não mama mais. Esse leite é pra vender. Pode levar!” Seria muita sorte permitir que os dois se encontrassem como pedaços de bife sobre um prato. Não! Não! Não! A morte, sob jugo humano, clama por destinos diferentes, destinos que não permitem encontros, porque quando a mãe partir os cascos da criança não existirão mais.

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“Tio, você já deve ter matado muita gente”

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Pintura: K. Pralahad

Há algum tempo, eu estava na Oficina do Tio Lu, na Vila Alta, na periferia, quando um garotinho veio conversar comigo. Curioso, sorria e não tirava os olhos dos meus braços.

— Tio, você já deve ter matado muita gente.
— Por que você acha isso?
— Por causa do tamanho do seu braço, ué. É muito forte.
— E você acha que braço forte é pra matar pessoas?
— Se não é pra matar, é pelo menos pra bater, né?
— Não, claro que não.
— Ué, não?
— Não…
— Ué, pra que então?
— Pra abraçar.
Ele ficou em silêncio me olhando.
— Não é melhor?
— É sim… — respondeu com um sorriso amarelecido.

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Written by David Arioch

August 19th, 2017 at 12:15 am

“Agora fiquei até com vontade de ser pai”

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“O semblante não era o mesmo. Quem era aquela criança que tomou o seu lugar?” (Desenho: Nino Andaresta)

Em uma loja, enquanto eu aguardava atendimento, observei um bebê em um bebê conforto ao lado do balcão. Tão lindo com aqueles olhinhos serenos e geometricamente redondos de anime. Sorria sem parar enquanto balançava as mãozinhas e as perninhas curtas simulando bicicletinha. Lindo de ver! Expondo o umbiguinho para fora da camisetinha verde com estampa do Hulk. Vez ou outra, soltava algum gritinho suave, empolgado observando coelhinhos de pelúcia pouco acima de sua cabeça.

— Que linda inocência! Que beleza de criança! Que doçura!
— Agora fiquei até com vontade de ser pai. Que coisinha linda e hipnotizante.

O bebê continuava simulando bicicletinha. Um verdadeiro atleta.

— Esse vai gostar muito de se exercitar. Não tenho dúvida disso!

Fui surpreendido. A criança sorriu pra mim, um daqueles sorrisos raros de comerciais de TV, do tipo enviesado.

— Preciso ser pai, cara! Quero isso na minha vida – monologuei.

Ainda bem que ninguém percebeu que falei mais alto do que imaginei.

Era incrível ver aquele pequeno ser cheio de vida, de vontade de existir. Um mundo de infinitas possibilidades se abria diante dele.

— Esse vai conquistar o mundo, parece bem peculiar.
— Nossa! Preciso ser pai, cara! Isso é demais!

De repente, os olhos da criança mudaram, enturveceram. Pressionou uma mãozinha contra a outra, como se estivesse prestes a esmagar os próprios dedinhos. As bicicletinhas d’antes se transformaram em golpes violentos no ar.

O semblante não era o mesmo. Quem era aquela criança que tomou o seu lugar?

Me afastei a passos cuidadosos quando o bebê começou a gritar e a dar violentas cabeçadas no bebê conforto. Uma, duas, três, quatro, cinco, seis, sete, oito, nove cabeçadas consecutivas.

— Diabeisso! O que está acontecendo aqui? — pensei, mas não falei.

Preocupado, olhei em volta. Ninguém me olhava. Ainda bem. Assim ninguém acharia que tive algo a ver com a infanta fúria. A criança berrava cada vez mais alto. Que vozeirão sinistro!

— Desse jeito, vai cantar death metal – concluí.

Eu não sabia mais se me afastava ou se me aproximava. Por pouco, a criança não vira o bebê conforto com a força das cabeçadas e dos chutes no ar. Até que sua mãe chegou.

— Não quero mais ser pai. Deixa quieto.

E a vontade passou.

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Written by David Arioch

July 28th, 2017 at 1:13 am

O policial e a criança

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Arte: Norman Rockwell

No mercado, vi uma cena que me chamou a atenção enquanto eu estava na fila do caixa rápido. Um policial militar escolhia alguns pães quando um garotinho, acompanhado do pai e da mãe começou a sorrir efusivamente. Consegui ver seus olhos cintilando mesmo eu não estando tão perto.

A mãe e o pai cumprimentaram o policial e falaram que a criança sempre teve grande admiração por policiais. Dava para ver no rosto do garotinho que a figura do policial para ele é a de um herói. Acanhado, mas lisonjeado, o rapaz fardado balançou a cabeça e disse poucas palavras. Nem precisaria dizer nada. A expressão compenetrada e sisuda de antes desapareceu com a chegada do menino.

O sorriso da criança o desarmou. E ele também começou a sorrir sem parar, olhando para a criança e vez ou outra mirando os pais com seus olhos encalistrados. O menininho pediu para dar um abraço no policial e ele concordou. Agachou e envolveu a criança nos braços por alguns segundos.

Mesmo depois que o casal e o filho partiram, o policial continuou sorridente, passou por mim sem conseguir velar o sorriso. Continuava tímido, translúcido, feliz e provavelmente agradecido por um presente inesperado que o impediu de retomar a expressão circunspecta.

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Written by David Arioch

July 8th, 2017 at 1:11 am