David Arioch – Jornalismo Cultural

Jornalismo Cultural

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Crianças e adolescentes de São Petersburgo criados como vegetarianos em 1904

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Em 1904, a revista “Вегетарианский вестник” ou “O Mensageiro Vegetariano”, publicou fotos de crianças e adolescentes de São Peterbusrgo, na Rússia, criados como vegetarianos desde o nascimento. O objetivo era incentivar outras famílias a seguirem o mesmo caminho, mostrando como o vegetarianismo é uma filosofia de vida que não compromete o desenvolvimento, muito pelo contrário.





Boi Velho

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Quando eu era criança, meu avô me contou a história do Boi Velho, um bovino que viveu por 31 anos em um sítio perto do Povoado de Cristo Rei. Quando jovem, seu nome era Bolgar, mas passou mais da metade de sua vida sendo chamado de Boi Velho. Por causa desse nome, muita gente acreditava que ele nasceu velho.

Bolgar era manso, tão manso que as crianças que viviam na região saíam até uma hora mais cedo de casa para brincar com ele antes de partirem para a escola. Mesmo com a idade avançada, o Boi Velho deitava no pasto e rolava como uma criança sobre o descampado. Às vezes, os garotos tinham que ajudá-lo a tirar o capim que invadia suas narinas.

Seus olhos eram cristalinos; uns dizem que pela idade, outros pela bondade. Um dia, Toninho, uma das crianças que visitava o Boi Velho todos os dias, massageou o pelo do boi, chorou e disse: “Não como mais seus irmãos, Boi Velho. E meus irmãos também vão parar. Prometo pra você!” Uma das crianças entendeu o que Toninho falou para o boi. Outras, não.

— Vocês abraçam o Boi Velho e depois vão comer carne na janta. Vocês tão errado — insistia o menino.
— Errado? Por que errado? — perguntaram.
— Olhe só. O Boi Velho é da mesma carne que vocês comem, que vocês gostam de comer. Vocês já pensaram em fazer churrasco do Boi Velho?
— Claro que não, né? Você é doido? Isso é horrível! Quero não.
— Ué, então não come os outros.
— Humm…

Alguns dos garotos se recordavam das palavras de Toninho, mas logo que chegavam em casa e sentiam o cheiro de carne cozida ou assada, esqueciam completamente. Sempre vencia o paladar, mas Toninho não desistia. Num final de tarde, conversou com Seu Boni e pediu autorização para fazer uma surpresa para os amigos. O velho que cuidou a vida inteira de Bolgar concordou.

— Tá certo. Vá lá — respondeu o velho húngaro.

Toninho chamou o seu tio Magrão para encontrá-los no sábado à tarde no sítio do Seu Boni. Quando os garotos chegaram ao local, Magrão estava afiando uma faca longa com cabo de madeira. Movia a lâmina de um lado para o outro, e de ponta a ponta com destreza.

— Que isso? O que o seu tio tá fazendo, Toninho?
— Não sei. Deixe ele.
— Mas cadê o Boi Velho?
— Sei lá.

Magrão chamou a atenção dos sete garotos que o rodeavam e caminhou até um barracão.

— Vocês fiquem aqui que eu vou preparar a carne pra vocês, tá bom? Sei que vocês gostam muito de carne.
— Quê? Que carne? — questionou Laurinho.

Seguiram Magrão, mas foram impedidos de entrar no barracão. Não era possível ver nada. Só ouvir. Quanta agitação. Havia algo de errado na ausência do Boi Velho.
Golpes. Mugidos. Gemidos. Cascos se batendo contra o chão. Violência. Violência. As crianças começaram a gritar e a chorar.

— O que você tá fazendo com o Boi Velho, tio? Pelo amor de Deus! Não mata ele. Pelo amor de Deus! — suplicavam.
— Por que você não faz nada, Toninho?

Toninho se afastou sem dizer palavra.

— Tá bom! Tá bom! A gente não quer carne. A gente não quer mais saber de carne. Nunca mais vou comer carne. Prometo! Prometo mesmo!
— É verdade, juro!
— É sim, tio! Solta ele!
— Ele é nosso melhor amigo. Faz isso não, tio!
— Tô pegando raiva e nojo de carne. É sério!

Tarde demais. O que tá feito tá feito — gritou Magrão lá de dentro, fazendo sua voz grave e fúnebre ecoar.

Choro. Choro. Choro. Berro. Berro. Berro. Lágrimas. Quando Magrão abriu a porta do barracão, não havia mais ninguém lá dentro. O Boi Velho, que repousava ao lado da mangueira, se levantou e caminhou até as crianças. Lágrimas e risos. Risos e lágrimas. O boi assistiu tudo, imerso na sua mansidão. Correram e o abraçaram. Bolgar caiu no chão feito criança. Nenhum dos garotos comeu carne novamente.

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Exploração animal e a criança no restaurante

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Se você percorrer mercados, lanchonetes e restaurantes e, naturalmente, prestar atenção à sua volta, sempre vai encontrar pais obrigando crianças a se alimentarem de animais

Se você percorrer mercados, lanchonetes e restaurantes e, naturalmente, prestar atenção à sua volta, sempre vai encontrar pais obrigando crianças a se alimentarem de animais. Sei que muitos fazem isso até mesmo de forma irrefletida, por uma questão historicamente cultural. Afinal, poucas propagandas foram tão bem-sucedidas quanto a da suposta necessidade do consumo de alimentos de origem animal.

Porém, quem analisa sob outra perspectiva, e aqui me refiro à reação genuína de estranhamento, pode se surpreender em reconhecer como estamos entorpecidos por uma realidade fragmentada que nos condiciona a viver não da forma mais adequada, justa ou saudável, mas da maneira que parece mais socialmente aceitável.

E quando falo em socialmente aceitável, quero dizer que até mesmo a saúde é relegada a segundo plano, ou nem mesmo é relegada a plano algum. Permita-me citar uma breve história que exemplifica tal raciocínio sobre condicionamento alimentar.

Passando em um restaurante para conversar brevemente com alguém, notei uma criança com, talvez, três anos resistindo em comer um pedaço de carne bovina ou “cadáver de boi”. A garotinha não fazia barulho, apenas lacrimejava enquanto se recusava a observar um bife em seu prato.

— Num gosdibife.
— Não precisa gostar. É só comer – disse o pai.
— Num quero.
— Coma…coma já esse bife – prosseguia o homem tentando não chamar a atenção.
— Não!
— Por favor, filhinha – insistia a mãe.
— Olhe nas outras mesas, todo mundo está comendo carne. Só você que não – continuou o pai.
— Deixa. Num sou eles. E eles não é eu.
— Aé? Então tá! — reagiu o pai.
O casal acabou cedendo, mas não desistiram de punir a criança.
— Tudo bem. Mas hoje não vai ter sobremesa.
— Num picisa.

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2,3 milhões de crianças são exploradas pela indústria do chocolate na Costa do Marfim e em Gana

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Foto: Slave Free Chocolate

Em 2017, de acordo com a ong Slave Free Chocolate, 2,3 milhões de crianças continuam trabalhando em regime análogo à escravidão na produção de cacau na Costa do Marfim e em Gana. A maior parte dos produtores ganha menos de um dólar por dia. Essa realidade é sustentada por fabricantes de chocolate que pagam uma miséria pelo cacau produzido.

Entre eles estão Hershey, Mars (que fabrica o Snickers), Nestlé, ADM Cocoa, Godiva, Fowler’s Chocolate e Kraft (que inclui Lacta, Trident e Oreo). Ou seja, ao comprarmos produtos desses fabricantes, contribuímos com essa escravidão moderna. Outro ponto a se considerar é que essas marcas também contribuem com a exploração de animais nesse mercado.

Referência

Slave Free Chocolate

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O que vem do bicho é do bicho

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Pintura: Child With Chicken, de Diego Rivera

Na escolinha, a professora Helena falou sobre a relação dos seres humanos com os animais e mostrou dezenas de figuras para os alunos.

— A brincadeira é formar duplas e montar as peças de acordo com o que cada animal oferece de bom para a gente, tudo bem?
— Siiiiiiiiiimmmmmm! – responderam.

Depois de distribuir os quadrinhos de madeira para as crianças, a professora percebeu que Rubinho preferiu ficar sentado em um canto.

— O que foi, Rubinho? Você está passando mal? Sentindo alguma dor?
— Não…
— O que houve?
— Estou triste só…não quero brincar.
— Mas por que não? Você sempre amou brincadeiras envolvendo animais.
— Dessa eu não gostei.
— O quê?
— Esse jogo é de enganar.
— Como?
— Ah, não fala a verdade e quase todo mundo acredita.
— Qual é a verdade?
— Enquanto a gente se diverte os animais sofrem, e quase ninguém liga.
— Como assim, Rubinho?
— Ah, tia. Você falou que o boi, o frango, o porco e o peixe dão a carne; que a vaca dá o leite, a galinha dá o ovo e a abelha dá o mel. Isso não é certo…
— Por que você acha isso?
— Porque eles não dão nada pra gente, tia. Eles morrem, ficam presos ou sofrem por causa disso. É errado. Um dia, o vovô quase matou uma galinha na nossa frente. Ela se balançava e tentava escapar, com as perninhas pro ar. Fazia um barulhinho tão triste com o bico. Eu e a Marcelinha choramos e o vovô soltou ela. O chão ficou forrado de pena. Tadinha, se escondeu no galinheiro e começou a fazer um sonzinho esquisito. Acho que ela tava chorando. Ele ia matar ela só pra fazer galinha ao molho.
— A vida deles é essa, Rubinho.
— Mas não precisa, né? Eu e a Marcelinha não comemos carne, a gente nem sente falta. Tô vivo aqui. Ela também.
— Tudo bem, Rubinho. Mas não tem problema em tomar leite e consumir os ovos da galinha e o mel da abelha.
— Acho que tem sim, tia. Até o ano passado, o leite da minha mãe era meu. Então o leite da vaca é do bezerrinho até acabar. Não acho certo tomar o leite que é dele.
— Mas e os ovos e o mel?
— Ah, tia, não como nada de bicho não. O que vem do bicho é do bicho. Acho que se fosse pra mim ele me oferecia.
— É, Rubinho. Não posso negar que você tem um bom argumento.
— A gente não precisa de nada disso. Tem tanta coisa gostosa pra gente comer sem judiar de ninguém.
— Eu acredito.
— Minha mãe faz bolo, torta, pão, sorvete, tudo isso sem nada dos bichinhos.
— Sério?
— É sim. Na semana que vem vou trazer um bolo bem fofinho pra todo mundo experimentar.
— Traga sim. Tenho certeza de que vamos adorar.

Rubinho desfez o semblante tristonho, sorriu, abriu o caderno e mostrou um desenho para a professora. Um homem idoso soltava um peixe em um rio. Ao seu lado, havia um cão, um boi, um porco, uma cabra e uma galinha.

— Quem é esse?
— É o vovô, ele não come mais carne.
— Que legal! Então você conseguiu mudar a cabeça do vovô?
— Sim…no ano passado.
— Isso é incrível! Você deve ter ficado muito feliz.
— Fiquei sim!
— Muito bom, Rubinho! Parabéns!
Ah, tia. Aquela hora eu falei que os animais não dão nada pra gente. Eles dão sim.
— O quê, Rubinho?
— Eles dão lição de vida.

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A criança e o sofrimento animal

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Crianças têm facilidade em reconhecer o valor da vida animal (Foto: Kellie Perry)

O fato de um ser humano sentir-se mal diante do sofrimento animal é uma reação natural e prova de que não nascemos para nos alimentarmos de seres sencientes.

E quando tal sofrimento não nos sensibiliza, isso é um reflexo da banalização da vida não humana, ou seja, de que nos afastamos da nossa vocação humana em decorrência de um condicionamento.

A criança é uma prova disso. Ainda muito pequena, antes de ser condicionada, levada a aceitar a naturalização da exploração animal, ela jamais verá com bons olhos a ideia de um ser vivo que morreu para tornar-se comida em seu prato. É por isso que a criança é mantida no obscurantismo até certa idade.

E se a criança perde essa característica natural, que é reconhecer a importância da vida independente de espécie, isso ocorre fatalmente por influência do meio, dos pais ou de outras pessoas. Assim, ensina-se que se os animais são comida, logo eles têm pouco valor.

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Written by David Arioch

June 29th, 2017 at 1:44 am

O castelo pula-pula

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Na festa de aniversário da minha sobrinha, a criançada quase destruiu um castelo pula-pula (Foto: Menegazzo)

Na festa de aniversário da minha sobrinha, a criançada quase destruiu um castelo pula-pula. Então alguém achou que seria uma boa me chamar para impedir que o castelo esvaziasse completamente, caindo murcho sobre o gramado.

Enquanto eu tentava resolver o problema, uma das crianças puxou minha barba e gritou: É de verdade! É de verdade! É barba mesmo! As outras vieram ver, também querendo colocar a mão. Uma delas pulou de cima do castelo e quase caiu em cima das minhas costas.

Outras duas correram em torno de mim e gritaram: “Vai explodir! Vai explodir!” Naquele momento, não sei se falavam de mim ou do pula-pula, aí depende da malícia e da inocência.

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Written by David Arioch

May 14th, 2017 at 11:21 pm

Se tivéssemos aulas de direitos animais nas escolas

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Foto: Elena Shumilova

Se tivéssemos aulas de direitos animais nas escolas, ou pelo menos uma disciplina de ética que realmente incluísse os direitos animais, acredito que a violência contra animais não seria tão banalizada, e creio também que isso teria bom peso no que diz respeito à violência contra seres humanos.

Quando um jovem transgressor faz piada de algum ato praticado contra os animais, por exemplo, isso nem sempre significa maldade, mas sempre significa ignorância. Além disso, o ato normalmente depende de um fator cultural de permissividade.

E a forma como os jovens são criados diz muito sobre isso. Se um filho vê o pai chutando um cachorro, naturalmente ele vai entender que o cão pode ser chutado, e que isso não é errado. Afinal, pelo menos até certo ponto da vida, as crianças se desenvolvem observando as ações parentais.

Talvez a criança nem chegue a considerar a possibilidade da dor do animal, se a empatia por outros seres vivos não for estimulada. Então creio que em situações como essa, quando os pais são omissos, uma disciplina de direitos animais, ou que incluísse os direitos animais, poderia fazer uma boa diferença.

Acredito nisso porque ao longo dos anos conheci crianças e adolescentes que levaram bons valores para casa, fazendo os pais se questionarem sobre suas más ou equivocadas ações praticadas de forma impensada ou herdadas de outras gerações.

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Written by David Arioch

April 29th, 2017 at 5:16 pm

Sobre suicidas a serviço do terrorismo

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(Foto: Omar haj kadour/AFP)

O sujeito, já preparado para morrer, dirige um caminhão cheio de explosivos e mata um monte de crianças famintas na Síria. E com esse ato cruel e bárbaro ainda espera descansar no paraíso, em um lugar privilegiado. É absurdo, não? Para nós, não para eles.

A verdade é que suicidas como esse não se importam em morrer porque julgam que não têm nada a perder. E a propaganda mais forte dos grupos terroristas não gira em torno da fé ou do respeito ao islamismo. Na realidade, a religião mesmo, deturpada ou não, acaba por ter até um intrigante papel secundário.

A propaganda se sustenta na idealização e na promessa do paraíso. Ou seja, o que esse ato tem a oferecer ao ser humano que se sacrifica pela fé – nisso há um viés antropocêntrico. Livros como “Isis: Inside the Army of Terror” e “The Secret History of al Qaeda” deixam isso claro.

Pelo menos por parte dos grandes meios de comunicação, quando se fala em terrorismo no Oriente Médio, pouco se aborda que os mentores intelectuais dessas ações jamais cometeriam suicídio, e é por isso que eles se perpetuam no comando de organizações criminosas. Quando morrem, não foi porque quiseram assim.

Eles fazem lavagem cerebral nos mais miseráveis, ignorantes e analfabetos. Inventam histórias, prometem cuidar de suas famílias miseráveis quando esses partirem. A fé dissimulada, e no pior contexto, tem mais chances de cegar um homem faminto do que aquele de barriga cheia.

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Written by David Arioch

April 17th, 2017 at 12:39 am

Posted in Críticas

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Sobre crianças, pais e cães

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Foto: Elena Shumilova

Na minha infância, me recordo que alguns pais faziam os filhos terem medo de animais. Não raramente, quando eu saía da escola, me lembro que quando passávamos por algum lugar cheio de animais, principalmente cães dos mais variados portes, e normalmente dóceis, eu ouvia algum pai ou alguma mãe dizendo a algum garotinho ou garotinha:

“Vai, fica aí perto que ele vai te morder. Depois não adianta chorar” ou “Sai de perto desse cachorro. Não vê que ele é bravo?” São tantos exemplos que me veem à memória e que ratificam essa nossa obtusa cultura de estranheza em relação aos animais. Não que não seja bom ser cauteloso, mas creio que é preciso também ter cuidado com as palavras e a força desse discurso, que naturalmente pode fazer crianças verem animais como seres amedrontadores. Ademais, se um cão, por exemplo, torna-se bravo ou hostil, não é de sua natureza obviamente, mas sim por má influência humana.






Written by David Arioch

March 21st, 2017 at 2:19 am