David Arioch – Jornalismo Cultural

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O que vem do bicho é do bicho

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Pintura: Child With Chicken, de Diego Rivera

Na escolinha, a professora Helena falou sobre a relação dos seres humanos com os animais e mostrou dezenas de figuras para os alunos.

— A brincadeira é formar duplas e montar as peças de acordo com o que cada animal oferece de bom para a gente, tudo bem?
— Siiiiiiiiiimmmmmm! – responderam.

Depois de distribuir os quadrinhos de madeira para as crianças, a professora percebeu que Rubinho preferiu ficar sentado em um canto.

— O que foi, Rubinho? Você está passando mal? Sentindo alguma dor?
— Não…
— O que houve?
— Estou triste só…não quero brincar.
— Mas por que não? Você sempre amou brincadeiras envolvendo animais.
— Dessa eu não gostei.
— O quê?
— Esse jogo é de enganar.
— Como?
— Ah, não fala a verdade e quase todo mundo acredita.
— Qual é a verdade?
— Enquanto a gente se diverte os animais sofrem, e quase ninguém liga.
— Como assim, Rubinho?
— Ah, tia. Você falou que o boi, o frango, o porco e o peixe dão a carne; que a vaca dá o leite, a galinha dá o ovo e a abelha dá o mel. Isso não é certo…
— Por que você acha isso?
— Porque eles não dão nada pra gente, tia. Eles morrem, ficam presos ou sofrem por causa disso. É errado. Um dia, o vovô quase matou uma galinha na nossa frente. Ela se balançava e tentava escapar, com as perninhas pro ar. Fazia um barulhinho tão triste com o bico. Eu e a Marcelinha choramos e o vovô soltou ela. O chão ficou forrado de pena. Tadinha, se escondeu no galinheiro e começou a fazer um sonzinho esquisito. Acho que ela tava chorando. Ele ia matar ela só pra fazer galinha ao molho.
— A vida deles é essa, Rubinho.
— Mas não precisa, né? Eu e a Marcelinha não comemos carne, a gente nem sente falta. Tô vivo aqui. Ela também.
— Tudo bem, Rubinho. Mas não tem problema em tomar leite e consumir os ovos da galinha e o mel da abelha.
— Acho que tem sim, tia. Até o ano passado, o leite da minha mãe era meu. Então o leite da vaca é do bezerrinho até acabar. Não acho certo tomar o leite que é dele.
— Mas e os ovos e o mel?
— Ah, tia, não como nada de bicho não. O que vem do bicho é do bicho. Acho que se fosse pra mim ele me oferecia.
— É, Rubinho. Não posso negar que você tem um bom argumento.
— A gente não precisa de nada disso. Tem tanta coisa gostosa pra gente comer sem judiar de ninguém.
— Eu acredito.
— Minha mãe faz bolo, torta, pão, sorvete, tudo isso sem nada dos bichinhos.
— Sério?
— É sim. Na semana que vem vou trazer um bolo bem fofinho pra todo mundo experimentar.
— Traga sim. Tenho certeza de que vamos adorar.

Rubinho desfez o semblante tristonho, sorriu, abriu o caderno e mostrou um desenho para a professora. Um homem idoso soltava um peixe em um rio. Ao seu lado, havia um cão, um boi, um porco, uma cabra e uma galinha.

— Quem é esse?
— É o vovô, ele não come mais carne.
— Que legal! Então você conseguiu mudar a cabeça do vovô?
— Sim…no ano passado.
— Isso é incrível! Você deve ter ficado muito feliz.
— Fiquei sim!
— Muito bom, Rubinho! Parabéns!
Ah, tia. Aquela hora eu falei que os animais não dão nada pra gente. Eles dão sim.
— O quê, Rubinho?
— Eles dão lição de vida.

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A criança e o sofrimento animal

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Crianças têm facilidade em reconhecer o valor da vida animal (Foto: Kellie Perry)

O fato de um ser humano sentir-se mal diante do sofrimento animal é uma reação natural e prova de que não nascemos para nos alimentarmos de seres sencientes.

E quando tal sofrimento não nos sensibiliza, isso é um reflexo da banalização da vida não humana, ou seja, de que nos afastamos da nossa vocação humana em decorrência de um condicionamento.

A criança é uma prova disso. Ainda muito pequena, antes de ser condicionada, levada a aceitar a naturalização da exploração animal, ela jamais verá com bons olhos a ideia de um ser vivo que morreu para tornar-se comida em seu prato. E é por isso que a criança é mantida no obscurantismo até certa idade.

E se a criança perde essa característica natural, que é reconhecer a importância da vida independente de espécie, isso ocorre fatalmente por influência do meio, dos pais ou de outras pessoas. Assim, ensina-se que se os animais são comida, logo eles têm pouco valor.

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June 29, 2017 at 1:44 am

O castelo pula-pula

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Na festa de aniversário da minha sobrinha, a criançada quase destruiu um castelo pula-pula (Foto: Menegazzo)

Na festa de aniversário da minha sobrinha, a criançada quase destruiu um castelo pula-pula. Então alguém achou que seria uma boa me chamar para impedir que o castelo esvaziasse completamente, caindo murcho sobre o gramado.

Enquanto eu tentava resolver o problema, uma das crianças puxou minha barba e gritou: É de verdade! É de verdade! É barba mesmo! As outras vieram ver, também querendo colocar a mão. Uma delas pulou de cima do castelo e quase caiu em cima das minhas costas.

Outras duas correram em torno de mim e gritaram: “Vai explodir! Vai explodir!” Naquele momento, não sei se falavam de mim ou do pula-pula, aí depende da malícia e da inocência.

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May 14, 2017 at 11:21 pm

Se tivéssemos aulas de direitos animais nas escolas

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Foto: Elena Shumilova

Se tivéssemos aulas de direitos animais nas escolas, acredito que a violência contra animais não seria tão banalizada, e creio também que isso teria bom peso no que diz respeito à violência contra seres humanos.

Quando um jovem transgressor faz piada de algum ato praticado contra os animais, por exemplo, isso nem sempre significa maldade, mas sempre significa ignorância. Além disso, o ato normalmente depende de um fator cultural de permissividade.

E a forma como os jovens são criados diz muito sobre isso. Se um filho vê o pai chutando um cachorro, naturalmente ele vai entender que o cão pode ser chutado, e que isso não é errado. Afinal, pelo menos até certo ponto da vida, as crianças se desenvolvem observando as ações parentais.

Talvez a criança nem chegue a considerar a possibilidade da dor do animal, se a empatia por outros seres vivos não for estimulada. Então creio que em situações como essa, quando os pais são omissos, uma disciplina que incluísse direitos animais poderia fazer uma boa diferença.

Acredito nisso porque ao longo dos anos conheci crianças e adolescentes que levaram bons valores para casa, fazendo os pais se questionarem sobre suas más ou equivocadas ações praticadas de forma impensada ou herdadas de outras gerações.

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April 29, 2017 at 5:16 pm

Sobre suicidas a serviço do terrorismo

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(Foto: Omar haj kadour/AFP)

O sujeito, já preparado para morrer, dirige um caminhão cheio de explosivos e mata um monte de crianças famintas na Síria. E com esse ato cruel e bárbaro ainda espera descansar no paraíso, em um lugar privilegiado. É absurdo, não? Para nós, não para eles.

A verdade é que suicidas como esse não se importam em morrer porque julgam que não têm nada a perder. E a propaganda mais forte dos grupos terroristas não gira em torno da fé ou do respeito ao islamismo. Na realidade, a religião mesmo, deturpada ou não, acaba por ter até um intrigante papel secundário.

A propaganda se sustenta na idealização e na promessa do paraíso. Ou seja, o que esse ato tem a oferecer ao ser humano que se sacrifica pela fé – nisso há um viés antropocêntrico. Livros como “Isis: Inside the Army of Terror” e “The Secret History of al Qaeda” deixam isso claro.

Pelo menos por parte dos grandes meios de comunicação, quando se fala em terrorismo no Oriente Médio, pouco se aborda que os mentores intelectuais dessas ações jamais cometeriam suicídio, e é por isso que eles se perpetuam no comando de organizações criminosas. Quando morrem, não foi porque quiseram assim.

Eles fazem lavagem cerebral nos mais miseráveis, ignorantes e analfabetos. Inventam histórias, prometem cuidar de suas famílias miseráveis quando esses partirem. A fé dissimulada, e no pior contexto, tem mais chances de cegar um homem faminto do que aquele de barriga cheia.

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April 17, 2017 at 12:39 am

Posted in Críticas

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Sobre crianças, pais e cães

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Foto: Elena Shumilova

Na minha infância, me recordo que alguns pais faziam os filhos terem medo de animais. Não raramente, quando eu saía da escola, me lembro que quando passávamos por algum lugar cheio de animais, principalmente cães dos mais variados portes, e normalmente dóceis, eu ouvia algum pai ou alguma mãe dizendo a algum garotinho ou garotinha:

“Vai, fica aí perto que ele vai te morder. Depois não adianta chorar” ou “Sai de perto desse cachorro. Não vê que ele é bravo?” São tantos exemplos que me veem à memória e que ratificam essa nossa obtusa cultura de estranheza em relação aos animais. Não que não seja bom ser cauteloso, mas creio que é preciso também ter cuidado com as palavras e a força desse discurso, que naturalmente pode fazer crianças verem animais como seres amedrontadores. Ademais, se um cão, por exemplo, torna-se bravo ou hostil, não é de sua natureza obviamente, mas sim por má influência humana.






Written by David Arioch

March 21, 2017 at 2:19 am

O riso das crianças

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Saí para correr há pouco, e depois de cinco quilômetros encontrei um Monza parado no meio da rua. Então ajudei um senhor a empurrá-lo por pouco mais de um quilômetro. Nesse ínterim, duas crianças, provavelmente suas filhas, brincavam que também empurravam o veículo enquanto me olhavam, se entreolhavam e gargalhavam com bonomia. Não sei se riam da minha barba ou de algum outro aspecto da minha aparência. Sem saber o motivo, ou mesmo me importar com isso, comecei a rir também, porque sei que esse tipo de espontaneidade é uma das joias da infância.

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Written by David Arioch

February 26, 2017 at 10:27 pm

Veganismo na infância

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Foto: VegFest

VegKids, realizado dentro da VegFest na Inglaterra e na Escócia, e que tem inclusive apoio do governo. Lá, crianças, em companhia dos pais, são incentivadas e orientadas a tornarem-se veganas desde os primeiros anos de vida. A VegFest é um dos maiores evento veganos do mundo.

Written by David Arioch

January 23, 2017 at 12:29 am

Sobre a Campanha de Natal na Vila Alta

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Momento inesquecível da entrega de presentes para as crianças da Vila Alta (Foto: Douglas Alves)

Tem algumas pessoas fazendo comentários estranhos sobre a campanha de Natal que realizamos na Vila Alta, na periferia de Paranavaí. Bom, só para esclarecer, eu e meus amigos que decidimos fazer esse trabalho, não vamos à periferia somente no Natal.

Na realidade, tentamos ajudar de alguma foma o ano todo, e já tem anos. A diferença é que pela primeira vez decidimos fazer uma campanha de Natal, isto porque percebemos que mesmo com tantas campanhas realizadas nessa época do ano ainda existe carência em relação a isso.

Já produzi inclusive alguns documentários sobre a realidade da periferia, então sugiro que procurem conhecer o trabalho das pessoas envolvidas em campanhas antes de julgá-las de algum modo. Tem muita gente que não faz isso somente no Natal. Ademais, não divulgo fotos e textos sobre o assunto para me promover, mas sim para mostrar que qualquer um é capaz de ajudar, o que pode motivar mais pessoas.

Outro ponto positivo é que serve como um gratificante registro de nossas ações e também uma boa lembrança para os moradores do bairro que também usam Facebook, acessam blogs e outras mídias.

Written by David Arioch

December 24, 2016 at 7:00 pm

Campanha de Natal na Vila Alta

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Sem dúvida, o Natal já valeu a pena

Sem dúvida, o Natal já valeu a pena

Hoje, distribuímos mais de 700 presentes para crianças e pré-adolescentes na casa do Tio Lu, na Vila Alta, na periferia de Paranavaí. Fiquei muito feliz em fazer parte disso. Foi uma iniciativa que contou com a ajuda de muitos doadores, muita gente boa. Eu seria até injusto de citar nomes de doadores porque não tenho dúvida alguma de que alguém acabaria por ficar de fora.

Mas preciso destacar que nada disso seria possível sem a parceria de grandes amigos como Luzimar Ciríaco Andrade e João Henrique de Andrade, além da minha mãe e do Tio Lu, pessoas que fizeram parte de todo o processo iniciado em novembro. Também agradeço meus irmãos Guimarães Jvnior e Douglas Alves que ajudaram muito, assim como minha cunhada Adri e sua mãe Lina.

Como o período que antecede o Natal é marcado por muitas campanhas, fiquei preocupado com a possibilidade de não conseguirmos alcançar a meta. Mas com a ajuda de tanta gente legal, foi tolice de minha parte tal insegurança. É difícil acreditar que mais de 600 pessoas foram beneficiadas com um trabalho realizado ao longo de um mês.

Também tive o grande e inédito privilégio de ser o Papai Noel da vez. Fiquei emocionado em ver crianças felizes só pelo fato de serem lembradas. É isso. Acredito que o Natal não poderia ser melhor, pessoas se unindo para fazer algo pelos outros. Posso dizer que meu Natal foi hoje, e claro que valeu a pena.

Written by David Arioch

December 23, 2016 at 11:36 pm