David Arioch – Jornalismo Cultural

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Os equívocos no discurso de Anderson França contra os veganos

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Sobre veganismo, França revela incompreensão, talvez por pré-conceito baseado em recortes unilaterais

Anderson França já publicou inúmeras críticas equivocadas sobre veganos e o veganismo (Foto: Reprodução)

Anderson França é um escritor com muitos seguidores no Facebook. Admito que até pouco tempo atrás eu não sabia quem ele era, até que alguém me mostrou algumas de suas publicações fazendo críticas e oposição aos veganos e ao veganismo. Antes de escrever este texto, decidi dar uma rápida olhada no trabalho dele. Me parece um autor com uma perspectiva interessante da vida e do mundo, que tem uma preocupação com a questão da justiça racial e social; que não recorre a subterfúgios para abordar a realidade como é, de forma direta e clara. Porém, quando publica alguma crítica a veganos ou ao veganismo revela falta de entendimento do assunto, talvez por pré-conceito baseado em recortes unilaterais.

No dia 6 de fevereiro, ele publicou um texto declarando que “quando veganos dizem ‘humanos’, eles não querem assumir a responsabilidade dos humanos BRANCOS pelo consumo em massa de carnes. Eles mandam um ‘humanos’ pra tu pegar no ar.” Desculpe-me, mas essa interpretação não condiz com a realidade. O uso do termo “humanos” se sustenta em uma questão óbvia de semântica e literalidade. O veganismo é sobre nossas responsabilidades enquanto espécie, independente de cor, etnia ou qualquer outra coisa. Não se trata de amortização de responsabilidades, e isso parece incomodá-lo.

A questão é que se dizemos que os “brancos são os grandes culpados pela exploração de animais”, isso significa então que está tudo bem se os outros continuarem explorando e consumindo animais porque pretensamente a responsabilidade deles seria menor. Não, isso não é coerente e justo. Do ponto de vista do veganismo, qualquer ser humano envolvido na desnecessária exploração e objetificação animal contribui com esse sistema, de forma consciente ou inconsciente, já que atua como um reforçador dessa trivialização em menor ou maior proporção. Se me alimento de animais, não interessa a qual grupo étnico eu pertenço, porque evidentemente ajudo a endossar esse sistema exploratório.

Sim, “os brancos” foram os maiores responsáveis pela introdução do sistema industrial de criação de animais após a Segunda Revolução Industrial, até por uma questão óbvia de maior controle dos meios de produção. Não creio que isso seja novidade para vegetarianos e veganos. Não conheço ninguém que negue isso. Contudo, em menor ou maior nível, praticamente todos os povos humanos contemporâneos estão envolvidos na exploração e na objetificação animal.

O que muda basicamente são as motivações dessa exploração e desse consumo. Há minorias, como os inuítes e alguns outros povos nativos que vivem em áreas remotas, que fazem isso, de fato, por uma questão de sobrevivência. E há populações maiores, de bilhões de pessoas, às quais pertencemos, que estão nessa por fatores históricos e culturais. Afinal, desde muito cedo, nós, assim como nossos ancestrais, somos motivados a consumir animais porque estamos imersos na ilusão de que se alimentar de seres não humanos é essencial, por força de uma propaganda que visa apenas o lucro e que se fortaleceu a partir do início do século 20.

Segundo Anderson França em 18 de março de 2017: “São 9 da manhã, e Maria, vó de 4 filhos, pede pra um deles ir no mercadinho comprar uma caixinha de Nuggets. Ou como minha mãe, que no aperto, era linguiça da mais barata, UMA, pras bocas dividirem com arroz. Seco. Ou na família de milhões de pessoas, onde ‘a opção da proteína’ não é uma opção, as pessoas não comem carne porque querem, veganos.” O exemplo acima se enquadra na frágil crença na necessidade da proteína de origem animal. A população humana tem necessidades proteicas bem modestas, com exceção de atletas e praticantes de atividades físicas de alta intensidade. Se Maria ou a mãe de Anderson França tivessem descartado os nuggets ou a linguiça, a refeição teria sido mais saudável. Mas não o fizeram por costume e desconhecimento, o que é muito comum.

Negamos que, por falta de informação ou não, muitos comem animais porque gostam ou por hábito, e até mesmo quando escolhem as chamadas “piores opções” ou as “opções mais baratas”. Afinal, que tipo de nutriente essencial à vida alguém pode obter consumindo empanados, linguiças e salsichão? Não seria um gesto de amor ou altruísmo alertar as pessoas sobre os malefícios desses alimentos em vez de defender esse consumo apenas para fazer oposição ao veganismo?

E por que as pessoas insistem no discurso que devemos comer arroz, feijão e carne? Mero costume, e a carne quase sempre é destacada até com mais importância do que outros alimentos vegetais nutritivos e mais baratos. Duvida? Procure por promoções em feiras e mercados. Eu, por exemplo, compro mais de 10 quilos de vegetais com R$ 15 a R$ 20 em promoções semanais; e são alimentos que suprem diversas das minhas necessidades nutricionais. Acha isso impossível? No Facebook, há grupos e páginas como Veganismo Popular, Veganos Pobres Brasil, Vegana Pobre e outros que auxiliam quem acredita que não tem condições financeiras para ser vegetariano ou vegano. Os participantes podem inclusive interagir com moradores da mesma cidade, tirarem dúvidas, etc.

Quando me falam da impossibilidade em ser vegano, costumo contar a história do poeta sírio cego Al Ma’arri que viveu no século XI e enfrentou grandes períodos de miséria em sua vida. Ele se alimentava principalmente de feijões e teve uma velhice tranquila. Al Ma’arri não consumia nada de origem animal. Então como alguém pode dizer que hoje é impossível não se alimentar de animais? Que hoje é difícil ser vegano se há centenas de anos outros trilharam esse caminho?

Em crítica aos veganos, Anderson França declarou em 18 de março de 2017 que “O agricultor SOCA veneno na fruta, e você compra, no seu supermercado da Zona Sul, após uma sessão de meditação no Jardim Botânico, tudo em harmonia, coloca na egobag, vai de bicicleta, passa sem falar com o porteiro, continua sendo um/uma egoísta que, agora, acha que é o momento de dizer pra milhões de pessoas, o quanto você estava certo. Que vida mesquinha, caras. Sai desse quadrado. Milhões de trabalhadores comem mal, comem comida processada, porque o tempo que gastam no trânsito, no trem, ônibus, BRT, Kombi, ida e volta, e o tempo no trabalho, lavando, descascando, embalando a fruta que você come depois do Ioga, isso tudo tira deles o momento com a família, tipo Fátima Bernardes no comercial com sorriso de orelha a orelha, servindo um prato com comida de plástico feita na agência de publicidade, com carininha, cenorinha, poesiazinha.”

Bom, eu não sei em quem o autor se baseou para fazer tal afirmação, mas é estranho usar um exemplo tão caricato e pejorativo para se referir a veganos de forma generalizada. Quem se preocupa com vidas não humanas é egoísta? Todos os veganos vivem na “Zona Sul”? Todos os veganos ignoram o porteiro? Todos os veganos têm tempo de sobra? É importante entender que veganos também lutam contra o uso de agrotóxicos, que por sinal é consumido em maior quantidade por quem consome animais do que por quem não consome, já que os animais criados para consumo se alimentam de enormes quantidades de vegetais contaminados com defensivos agrícolas, para não dizer pesticidas, praguicidas ou biocidas. Afinal, o ser humano tem predileção por matar e consumir animais herbívoros, já que a ideia de consumir um animal que comeu outro animal o enoja, a não ser quando ele é o próprio comedor de animais, o que é um ruidoso paradoxo.

Sobre as pessoas se alimentarem mal, como citado pelo escritor, creio que tenha mais relação com desinformação do que com tempo. Não considero a falta de tempo uma justificativa válida para não se alimentar um pouquinho melhor. A maioria dos veganos que conheço têm uma rotina bem atribulada. Há aqueles que saem de casa às 4h e retornam à noite. Quando o tempo é escasso, dedicam algumas horas do final de semana a prepararem alimentos e congelá-los para consumirem no decorrer da semana. Ou então improvisam com alimentos de rápido consumo, até mesmo frutas. Sou da seguinte opinião, se você não se importa com a sua própria vida, e prefere sabotá-la, siga em frente, mas saiba que talvez amanhã você não esteja aqui para amparar seus filhos e outros familiares. Não há nada que justifique o consumo de animais no mundo em que vivemos, muito menos o pretexto da saúde.

Escritor considera a alimentação vegana elitista, mas faz publicidade de “salmão com arroz basmati e legumes”. (Imagem: Reprodução)

Também me chamou a atenção uma publicação de Anderson França do dia 27 de junho de 2017 em que ele faz publicidade de um prato de “salmão com arroz basmati e legumes” por R$ 38 + taxa de entrega. Partindo de alguém que publica textos sobre acessibilidade e critica o veganismo por ser um “movimento elitista” e inacessível, reconheço que foi uma estranha surpresa. Fiquei imaginando quantas frutas, legumes, tubérculos e leguminosas eu poderia comprar com R$ 38 + taxa de entrega. Daria para alimentar ocasionalmente vários veganos. Provavelmente, eu compraria mais de 30 quilos de vegetais em um bom dia de promoção, e sem incentivar a exploração animal ou desconsiderar o risco de intoxicação por consumo de salmão criado em cativeiro e colorido artificialmente.

Outro ponto de reflexão é que a idealização de “qualidade de vida” associada ao consumo de “carnes nobres”, que parte de um equivocado senso comum, e é reproduzida por tanta gente, é a mesma dos glutões burgueses britânicos da era vitoriana, dos abastados da Grécia Antiga e dos imperadores romanos, que faziam da carne um símbolo de ostentação, de segregação social. Sendo assim, será que é coerente o oprimido buscar tomar parte em hábitos perpetuados a partir de uma consciência opressora? Não seria isso uma contradição? Ou será que o discurso de oprimido deve girar apenas em torno do que não diz respeito às nossas próprias inconsistências?

Anderson França enfatizou também que veganos brancos fazem parte de “uma civilização baseada na conquista e submissão de outros povos, e criam narrativas que sempre os coloca no centro.” Como veganos podem se colocar no centro se eles lutam contra o antropocentrismo e o especismo? Tomar para si o protagonismo de algo pode ser uma falha humana, mas sem relação com ser vegano. Uma rápida consulta sobre o conceito de veganismo rebate essa concepção não apenas incorreta como capciosa.

Eu já acredito que ao defender o consumo de animais o autor está endossando exatamente o que critica: “a civilização baseada na conquista e submissão de outros povos”. Se uma pessoa financia esse sistema, usufruindo do que ele oferece, ela tem responsabilidade sobre isso, não importando sua cor ou etnia, já que quando falamos em objetificação ou coisificação visando lucro o que importa é apenas uma coisa – números, tanto faz a cor ou etnia de quem está consumindo ou pagando.

Segundo Anderson França sobre o “pensamento eurocentrado” e o veganismo em 6 de fevereiro: “Visa manter os privilégios do sujeito branco, e de seus descendentes. Portanto, não seria demais revisitarmos o que estamos chamando de SISTEMA nos últimos 2 mil anos, uma vez que esse sistema passa por cima de outros para manter a sua narrativa. É aí que mora o perigo. Não é nem sobre o que você põe na sua boca ou no seu corpo, ou porque ‘ama’ animais, ou porque entende que isso seria justo com o ecossistema. É porque, por trás disso, ainda persiste a mão dessa cultura sobre outras.”

Veganos podem ter atitudes equivocadas como qualquer pessoa que luta por outra causa. No entanto, é importante ter o cuidado de não reproduzir inverdades, dando a entender que o veganismo é um movimento de “perpetuação do poder dos brancos”. Em 1944, o movimento vegano surgiu sim e formalmente por iniciativa de um inglês, logo caucasiano, chamado Donald Watson. Sim, em uma realidade europeia, mas por interesse de um carpinteiro que vivia na pequena Keswick, e que não tinha qualquer pretensão financeira em criar um movimento, mas apenas um anseio de fazer com que outras pessoas, assim como ele, passassem a reconhecer os animais como sujeitos de uma vida. Watson não pertencia a qualquer elite e se dedicava a isso voluntariamente.

Não vejo sentido em rivalidades desnecessárias que tencionam desmerecer uma causa simplesmente porque do alto de nossas predileções individuais não nos interessa porque não são sobre nós, mas sim sobre outras espécies. Todo tipo de exploração é tema de grande urgência se envolve vidas imersas em um universo de desconsideração. E nesse momento, o mais importante talvez seja um outro olhar para além do que chamamos de “nossas prioridades”.

Há muitas pessoas de causas humanitárias, e me incluo entre elas, que se tornaram veganas e ativistas dos direitos animais. O veganismo, como uma questão de justiça social não concorre com outras causas. Muito pelo contrário. Sobre o veganismo ser elitista, sim, isso é inegável se partirmos de uma perspectiva de acesso à informação e oferta de produtos industrializados. Há produtos que realmente são caros, até porque a oferta corresponde à demanda. Porém, é possível viver muito bem sendo vegano sem consumir esses produtos.

Para reforçar a minha contrariedade em relação a esse discurso do Anderson França, de que o veganismo é inacessível, cito o exemplo de Thallita Xavier, autora do artigo “Como é ser vegana e favelada”. Thallita inclusive ministra palestras simplificando o veganismo, mostrando como ele é facilmente praticável – bastando querer. Anderson França aparenta desconhecer a existência do Movimento Afro Vegano e da Feira Afro Vegan, realizada no Rio de Janeiro, e que tem motivado a criação de outras feiras nos mesmos moldes em outras capitais brasileiras.

O escritor ignora também que a defesa dos direitos animais não é sobre privilégios para não humanos, mas sim sobre o direito à vida, o direito de não sofrer por intervenção humana. Veganos têm o claro entendimento de que os animais são sencientes, conscientes e inteligentes; e não existem para nos servir, já que isso demanda privação, sofrimento e morte. Infelizmente, matamos por ano cerca de 60 bilhões de animais terrestres e pelo menos um trilhão de animais marinhos. Isso deveria ser aceitável? É um motivo bastante justo para abdicar desse consumo.

Sempre que me deparo com alguém publicando algo contra o veganismo, imagino se essa pessoa tem ideia do impacto de seu discurso; se ela sabe a quem está beneficiando. Por quê? Porque veganos lutam contra a desvalorização da vida animal, e quem se empenha em desqualificar o veganismo, dependendo do discurso, pode contribuir involuntariamente com quem realmente se beneficia disso. Um exemplo? Muitas pessoas que dizem lutar por justiça social ignoram o fato de que a criação de animais para consumo e a produção de alimentos para nutrir esses animais movimenta muito dinheiro no mundo todo.

Além disso, fora as consequências para os animais, há também a comprovada agressão ao meio ambiente, como registrada na Amazônia, onde a pecuária responde por 65% do desmatamento, invadindo inclusive áreas protegidas, de acordo com o Instituto do Homem e Meio Ambiente da Amazônia. Creio que não seja nenhuma novidade que grandes produtores e empresas desse ramo buscam favorecimento e flexibilização legal para crescerem e lucrarem cada vez mais. Então, o que eles fazem? Eles patrocinam políticos ou até mesmo se lançam na política para legislarem em causa própria – claramente perenizando as desigualdades sociais. E nesse cenário, quem são os maiores prejudicados? A população humana, os animais e a natureza.





 

A luta pelos direitos animais não é sobre privilégios para não humanos

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Fotos: Jo-Anne McArthur/We Animals

Não raramente, encontramos pessoas, principalmente na internet, se esforçando para fazer com que outras pessoas associem a defesa dos direitos animais com a espúria ideia de que isso significa lutar por privilégios para animais não humanos em detrimento dos humanos. Há inclusive pessoas que dedicam tempo a alvissarar esse tipo de equívoco, não sei se por desinformação, preguiça ou má-fé. Se importar realmente com os animais não humanos, de fato, requer um tipo de consciência dissemelhante, de empatia não especista, de olhar para o outro e querer ajudá-lo mesmo sabendo que ele não pode te beneficiar. Afinal, trata-se de lutar por quem não tem voz.

Embora a nossa sociedade esteja imersa em desigualdades, acredito que aqueles que menos têm voz são os animais não humanos, já que não partilham do mesmo código comunicativo que nós, logo não podem reclamar; e suas queixas podem ser dissimuladas. Sendo assim, estão em grande desvantagem desde que deliberamos que eles existem para o nosso uso e abuso. E as piores consequências surgiram após a Revolução Industrial quando foram não apenas privados do reconhecimento enquanto seres viventes com necessidades específicas, como reduzidos a coisas e objetos.

Hoje, mesmo considerados bens móveis em determinados contextos, continuam sendo explorados e mortos ao bilhões a cada ano, isso sem citar a estimativa de mais de um trilhão de animais marinhos mortos nesse período. Normalmente, o estado de miséria não humana passa despercebido porque a dissimulação é ainda mais ingente do que aquela que impomos aos seres humanos que infelizmente também estão imersos em miséria. Exemplo disso?

Muitas pessoas reconhecem facilmente o sofrimento humano em qualquer situação, mesmo que isso não desperte nelas um pressuroso anseio em ajudar. No caso dos animais não humanos, é comum não apenas a ausência ou alheamento da empatia como também o endosso da arraigada cadeia de negação. A maioria se recusa a racionalizar o sofrimento animal não humano mesmo que por um instante; é como se não existisse, fosse apenas fantasia.

Isso explica também porque a luta pelos direitos animais é urgente; porque os animais não são reconhecidos nem mesmo como sujeitos de uma vida, ao contrário dos seres humanos, por pior que seja a situação. Até porque, pelo menos no ocidente, qualquer atentado à vida humana, independente do que venha a acontecer, se alguém há de ser sentenciado ou não por suas ações, será considerado um crime ou há de gerar algum tipo de comoção com a divulgação do episódio.

Vivemos uma realidade em que as leis de maus tratos aos animais são tão subjetivas e defasadas que uma pessoa pode comprar um boi, levar para casa, torturá-lo e matá-lo. Se depois ele servir de alimento para um grupo de pessoas, pode haver até mesmo uma total desconsideração em relação à ação anterior; e o algoz talvez seja visto como um benfeitor.

Outro equívoco que aponto no discurso que tenta superficializar a luta pelos direitos animais é que a maioria daqueles que conheço que se tornaram vegetarianos ou veganos são pessoas que não aceitam as injustiças e não as veem como parte de uma realidade justificável, em que os “fins justificam os meios porque são inerentes à vida” e cabe a nós ignorá-las.

Sendo assim, a não aceitação da exploração animal tem relação com uma consciência imanente de justiça social. “Só se preocupa com os animais enquanto muitas crianças passam fome.” Afirmações como essa são temerárias e recaem no erro comum da propalação de rasas ou obtusas prenoções e observações.

Usar isso de forma genérica para deslegitimar a luta pelos direitos animais é essencialmente desacertado e tem um viés capcioso, principalmente se parte de alguém que não realiza trabalhos sociais com crianças famintas. Ademais, lutar por um algo não desqualifica outro algo. Sou da opinião de que devemos reconhecer o valor de cada ação em benefício de alguém.

Uma pessoa pode optar por lutar apenas pelos direitos animais por diversos fatores, mas isso não é regra. Para mais, se ela manifesta antagonismo em relação a esse tipo de desigualdade, ela já está cumprindo um papel inclusive social que sem dúvida nenhuma é muito mais relevante do que o daquele que critica sem se engajar em nenhum tipo de causa que beneficie vidas.

Quando se fala então em políticas públicas voltadas aos direitos animais, pré-conceitos e preconceitos surgem a níveis alarmantes, basicamente como consequência de maus hábitos, desinformação e obscurantismo. Vejo isso também como um merencório sintoma do apedeutismo, já que causas a favor da vida não concorrem entre si, logo é especioso afirmar o contrário.

Se alguém diz que temos assuntos mais urgentes a tratar do que a questão animalista, não reconheço coerência em tal afirmação. Afinal, tudo que envolve as ações humanas e suas consequências não apenas para nós, mas para as outras espécies que exploramos e violentamos exaustivamente, é de grande premência à vida na Terra.

Não vejo sentido em rivalidades desnecessárias que visam desmerecer uma causa simplesmente porque do alto de nossas predileções individuais não nos interessa porque não são sobre nós, mas sim sobre outras espécies. Todo tipo de exploração é tema de grande urgência se envolve vidas imersas em um universo figadal, medonho e displicente de desconsideração. E nessas horas, o mais importante talvez seja um outro olhar.

 





 

“Vocês veganos são ridículos”

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— Vocês veganos são ridículos. Vivem imitando o sabor e o aroma da carne. Vocês se apropriam do que é nosso.

— Legal, irmão. Não sabia que os ingredientes que dão sabor e aroma à carne são de origem animal. Pelo jeito você tempera a carne com vísceras, pele e sangue de animais, não é mesmo? Acredito que você não use nada do reino vegetal, como especiarias, condimentos, etc.





Written by David Arioch

November 26th, 2017 at 9:26 pm

Se quiser ter filhos, seja feliz. Se não quiser, que seja também

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Os animais não afastam o ser humano de sua “humanidade”. Na realidade, eles a estimulam.

Há um texto sendo compartilhado em mídias sociais em que um senhor afirma que os bebês estão perdendo espaço para os “pets” ou “animais domésticos”, e que por isso estamos nos afastando de nossa “vocação humana”. Para ser honesto, não gosto muito do termo “pet”, porque como disse James Cromwell algumas vezes em entrevistas sobre direitos animais, quando falamos em “pet” há uma objetificação, uma reafirmação de uma ideia de que estamos falando de um ser vivo que parece que existe para nos servir, nos entreter. Claro que a ideia não é condenar quem usa o termo inocentemente, mas sim propor uma pequena reflexão.

O sujeito que publicou o texto em que critica quem convive com animais, mas não tem filhos, se posiciona como filósofo. Eu não o conheço, mas sei que no contexto da filosofia não cabe, ou pelo menos não deveria caber, senso comum ou discurso apelativo ou imponderado. Optar por não ter filhos não faz de ninguém menos humano. Desde a minha infância, tenho recordações de pessoas incríveis que marcaram a minha vida e optaram por não ter filhos.

“Teu individualismo revela tua natureza tão decadente e insuportável que somente um animal, devido a inocência, é capaz de tolerar-te, de ‘suprir’ a tua dificuldade de conviver e amar, de retirar-te da solidão, um dos tantos males da contemporaneidade.” Quando o sujeito faz tal afirmação, e extremamente agressiva se analisarmos a escolha das palavras, tenho a impressão de que ele está se referindo a pessoas que vivem em estoica misantropia.

Conheço mães e pais que são solitários, assim como pessoas que não têm filhos e não têm nenhum dos problemas citados acima. O ponto crítico desse tipo de afirmação é a óbvia generalização. Ter filhos ou não tê-los é direito de cada um. No texto, o autor afirma que o ato de ter filhos nos “humaniza”. Realmente ter filhos pode contribuir muito para o desenvolvimento humano, tenho exemplos disso na família. Mas isso não diz respeito a todos os seres humanos.

Não tê-los não significa caminhar em direção oposta. Muitos assassinos, criminosos e corruptos são pais de alguém. Acompanhe as notícias da realidade da violência intrafamiliar no Brasil e no mundo. Segundo a Fundação das Nações Unidas para a Infância, só no Brasil são registrados cinco casos por hora de violência intrafamiliar.

Sendo assim, está claro que ter filhos não “humaniza” todo mundo. Na realidade, acredito que essa percepção do ser humano que se transforma com a maternidade ou a paternidade é romântica. Sim, ela existe, mas não tanto quanto as pessoas gostam de fazer parecer, o que naturalmente é uma herança histórica cultural. E claro, quando a alçamos a níveis irreais, ela é mais idealizada do que vivida.

Muitas vezes, pessoas que vivem reclusas em seus pequenos círculos sociais, em suas zonas de conforto, acabam por ter dificuldade em perceber a heterogeneidade que isso abarca. Ter filhos, sem dúvida, pode ser um ato de amor, mas não tê-los não é um ato de desamor. Ademais, sabemos que há muitas pessoas que somente colocam filhos no mundo, mas não os educam nem dão amor.

Desrespeito, ausência de limites, comportamento violento, desvio de caráter, imoralidade, abandono…; não raramente isso faz parte do kit Omissão e Falta de Estrutura Familiar. Além disso, em um país cada vez mais populoso, não acho justo condenar pessoas que não querem ter filhos. Que cada um tenha o direito de fazer suas próprias escolhas. Se quiser ter filhos, seja feliz. Se não quiser, que seja também.





Written by David Arioch

November 14th, 2017 at 2:13 pm

Luiz Felipe Pondé: “O que eu acho do veganismo?”

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“Esse tipo de pureza pra mim não é diferente daqueles calvinistas doidos que queimavam gente e achavam que tudo era o demônio”

Pondé comete um equívoco ao dizer que veganismo é sobre pureza

Assisti um vídeo do filósofo Luiz Felipe Pondé criticando o veganismo. Obviamente, o meu objetivo não é desconsiderar o seu trabalho enquanto filósofo nem a sua figura humana, mas sim apontar falhas substanciais no seu discurso “O que eu acho do veganismo?”

Enquanto fuma um charuto, Pondé começa dizendo que uma pessoa sem vícios não deve ser merecedora de confiança. Bom, discordo, até porque tento sempre evitar generalizações. Na minha opinião, vícios, quase sempre surgem com escolhas pessoais e em muitos casos como consequência de uma fragilidade que pode inclusive reafirmar uma volatilidade moral, já que o vício reflete uma ausência de autocontrole, e isso pode implicar em prejuízo não apenas para si mesmo como também para os outros. Sendo assim, essa fragilidade pode criar uma ilusão de que temos o domínio de algo que na realidade tem o domínio de nós. Mas, claro, ainda vivemos em uma realidade em que cada um é livre para optar ou não por ter vícios.

Pondé afirma que é contra qualquer tipo de pureza, a busca pela pureza. Bom, veganismo não é sobre pureza. Claro, buscamos o abolicionismo animal, mas não vivemos imersos em uma realidade ultrarromântica. Veganos têm consciência de suas limitações, e ainda assim aceitam o desafio de fazer o possível para reduzir impactos na vida dos animais. Segundo o filósofo, “as pessoas têm o direito de comer o que quiser, contanto que não seja outros seres humanos.” Esse é um ponto crítico sob a perspectiva vegana. O chamado “direito” do ser humano de se alimentar de outras criaturas não foi” concedido” por ninguém a não ser por ele mesmo, logo uma arbitrariedade, já que consiste em subjugar outros animais sencientes e conscientes, ignorando seus interesses, ou seja, o direito à vida.

“Os animais são sujeitos de uma vida? Esta é a pergunta que precisa ser feita sobre os animais porque é a pergunta que precisamos fazer sobre nós”, escreveu o filósofo Tom Regan no livro “Empty Cages”. Segundo Regan, não podemos declarar que o motivo pelo qual nós enquanto seres humanos temos direitos é porque somos igualmente sujeitos de uma vida, mas outros animais, que são exatamente como nós enquanto sujeitos de uma vida, bem, eles não têm nenhum direito. “Isso seria como se colocar diante do mundo e gritar: ‘Um Volvo não é um carro porque um Volvo não é um Ford!’

A opinião de Luiz Felipe Pondé, ao defender o ato de matar animais e consumi-los como um direito é evidentemente especista e antropocêntrica. Em síntese, é uma defesa de status quo, da perpetuação do que já existe e é praticado. O seu posicionamento não reconhece a defesa dos direitos animais e menos ainda a legitimidade da teoria abolicionista animal, que defende que os animais não existem para os nossos próprios fins, em qualquer circunstância.

Pondé diz que não cabe condenação a quem consome proteína animal. Acredito que depende. Não vejo necessidade em atacar pessoas, realmente, até porque isso é contraproducente. Porém, de forma conscienciosa, considero imprescindível criticar com probidade o nosso papel enquanto espécie e a nossa iníqua relação com os outros animais, até porque as pessoas não costumam refletir sobre o seu papel em relação as outras espécies, por considerá-las inferiores. Então a conscientização é importante. Afinal, matamos por ano, e não por uma questão de necessidade, bilhões de criaturas que, assim como nós, gostariam de viver, não de morrer. Não há romantismo nisso, mas apenas a constatação da realidade. Ninguém nasce ansiando pela própria finitude.

Para Pondé, muitas pessoas aderem ao veganismo “por uma certa tensão puritana”. Discordo. Veganos não são isentos de vícios, não são seres perfeitos, nem se julgam como tal. Pelo menos desconheço quem faça isso, e se há casos desse tipo é uma questão de equivocada construção individual, sem respaldo na filosofia de vida vegana. Basta analisarmos a história do veganismo e o trabalho dos seus principais pensadores e teóricos. A observação de Pondé me parece mais próxima do vegetarianismo místico do que do veganismo quando cita “puritanismo”, “puritano”, “purismo”, “pureza”, embora sejam palavras que compõem um grande escopo de significados, até mesmo antagônicos em alguns aspectos. Na realidade, o veganismo é bem prático. Basta partirmos da seguinte premissa: “ Se posso viver bem sem matar ou tomar parte na morte de outros seres vivos, por que fazer isso?”

Pondé enfatiza que outro grande equívoco é “a ideia de que você pode se retirar da cadeia de violência da natureza”. Bom, não conheço veganos que afirmam categoricamente que estão completamente livres da cadeia de violência, até porque a maioria vive a realidade urbana, e nesse contexto é mais difícil ainda se livrar das armadilhas que envolvem a exploração animal, já que o ser humano subjuga outras espécies de forma tão visceral que até mesmo pneus contêm insumos de origem animal. Como é o caso do ácido esteárico baseado em gordura bovina. Porém, nada disso impede a luta para diminuir cada vez mais essa exploração, demandando alternativas que não envolvam agrilhoamento e morte de outras espécies. Veganismo é sobre o aperfeiçoamento na nossa relação com outros animais, até alcançarmos um objetivo maior que é o abolicionismo animal. Se temos condições de mudar hábitos desnecessários, que impactam negativamente em outras vidas, por que não fazer isso? Por que não mostrar para as outras pessoas que é possível viver bem gerando menos violência? Como consequência, isso reduz a objetificação animal.

Outra observação feita pelo filósofo Pondé é a de que o veganismo “deixa a experiência humana do gosto um pouco cerceada”. Bom, veganos não vivem em privação alimentar. Temos uma grande riqueza de alimentos vegetais acessíveis à nossa disposição, e são eles que dão inclusive sabor aos alimentos de origem animal. Afinal, que gosto teria, por exemplo, a carne, sem os temperos de origem vegetal? O que deixa claro que, do ponto de vista alimentar, vegetais são essenciais, ao contrário dos alimentos de origem animal. Até porque a existência de veganos é a prova maior de que ninguém morre sem consumir animais.

Luiz Felipe Pondé também diz que veganos consideram quem come carne como assassino. Bom, não vejo dessa forma, e acredito que quem entende o veganismo em essência sabe que o consumo de carne é um infeliz fator histórico e cultural baseado no costume. A própria literatura vegana e dos direitos animais discorre sobre isso exaustivamente. Para Pondé, veganos buscam uma espécie de pureza que não existe. “Esse tipo de pureza pra mim não é diferente daqueles calvinistas doidos que queimavam gente e achavam que tudo era o demônio”.

Sim, há pessoas que ficam exacerbadas diante do sofrimento animal, da exploração contumaz, e acabam cometendo alguns excessos em seus discursos, porém não cabe generalizações. Esse comportamento é reflexo de uma ânsia por justiça para animais não humanos. Quero dizer, há boa vontade nisso, o problema é que ela pode ter ancorado em uma falha de comunicação imersa nos arroubos da passionalidade.

Se você dialogar com um vegano, por mais ofensivo que considere o seu discurso, você vai perceber que se trata de uma pessoa bem-intencionada que busca e sonha com o melhor para os animais. Comparar veganos com terroristas é bastante surreal, levando em conta que não há registros de arbitrariedades desse tipo praticadas por veganos. Você não encontra veganos violentando quem não é, matando pessoas. Nem mesmo os grupos de ação direta costumam praticar ou defender qualquer tipo de violência quando decidem articular alguma ação em benefício de animais não humanos.

“Tem aí um filósofo chamado Peter Singer, é uma espécie de guru, apesar de que muitos veganos nem sabem disso”, afirmou Pondé. Não duvido que haja veganos que realmente nunca ouviram falar em Peter Singer e em seu livro “Animal Liberation”, porém isso não faz de alguém mais ou menos vegano, até porque obras de direitos animais quando chegam ao Brasil costumam custar caro, logo não são realmente acessíveis. Além disso, depois de Singer, e principalmente a partir dos anos 1980, outros filósofos e pensadores também escreveram sobre o assunto, inclusive seguindo por um caminho diferente e independente de Singer. Também é importante considerar que hoje em dia há muito material sendo produzido sobre o tema e disponibilizado na internet em forma de artigos, o que também tem contribuído bastante para uma melhor conscientização em torno do veganismo e dos direitos animais. Ou seja, não há mais uma dependência de meios tradicionais.

“O que eu critico no veganismo é uma percepção sensorial estética infantil da realidade associada a uma expectativa purista e moralista. E eu não gosto de purismo e moralismo.” Sobre essa citação de Luiz Felipe Pondé eu devo dizer que a considero bem baralhada. Nem purismo nem moralismo têm a ver com veganismo. Veganismo é uma perspectiva não excludente da moralidade, enquanto que o moralismo é baseado em preceitos proverbiais que ignoram a particularidade e a complexidade de uma situação. Na realidade, o veganismo faz exatamente o oposto do moralismo, que é fundamentado na tradição, uma tradição cediça. Acredito que “percepção sensorial estética infantil” é aquela despertada pela propaganda da indústria da exploração animal.

Ou seja, em que a subjugação ou morte de um ser vivo é romantizada e celebrada. Exemplos disso são as embalagens de produtos, os comerciais da Sadia, etc. Ou até mesmo a histórica e recorrente dissociação entre produto e morte. Essa negação, no meu entendimento, também é uma “percepção sensorial estética infantil da realidade”, assim como situações em que pessoas que comem carne ficam surpresas e sensibilizadas com algum fato que envolve a exploração animal. Posso citar como exemplo o caso recente em que uma moça ficou horrorizada porque encontrou um mamilo em um pedaço de bacon. Isso não seria “percepção sensorial estética infantil da realidade”? Eu digo que sim.

Em síntese, achei o vídeo do filósofo Luiz Felipe Pondé criticando o veganismo vacilante e equivocadamente pontual. Quero dizer, me parece que ele se baseou em alguns exemplos de comentários que viu por parte de alguns veganos na internet e usou isso para fundamentar a sua crítica, ignorando o que realmente é a filosofia de vida vegana, e provavelmente não tendo a preocupação de buscar sólidas referências. Ademais, não posso deixar de reconhecer que há um ponto positivo nessa crítica. E qual seria? Ele não teria feito um vídeo falando de veganismo se o tema não estivesse em evidência. Então é claro que as críticas vão crescendo de acordo com a visibilidade e adesão ao veganismo. Para finalizar, parafraseio Adam Smith, uma das referências filosóficas de Pondé, no capítulo 2 do quinto livro de “Wealth of Nations”: “Pode-se duvidar de que a carne do açougue seja necessária à vida em qualquer lugar.”

 

 





Não entre em um relacionamento alimentando falsas esperanças

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Nunca tive um relacionamento abusivo. Nunca odiei nenhuma guria com quem me relacionei. E creio que isso seja recíproco. Mulheres, amigas, amigos entram na minha vida e saem, se assim desejarem, o que acho bem natural.

Se você conhece alguém e esse alguém espera de você algo que você não pode oferecer, simplesmente não seja sem noção. O que quero dizer? Não entre em um relacionamento alimentando falsas esperanças. A carência pode levar as pessoas a cometerem equívocos que trazem sérias consequências. Uma delas pode ser magoar profundamente alguém que espera de você mais do que você pode oferecer. Creio que muitos relacionamentos começam errado por causa disso.

Um relacionamento para dar certo deve partir do princípio de que duas pessoas querem a mesma coisa, têm objetivos em comum na relação e não estão pensando em obstáculos que já podem minar a relação. Quem entra em um relacionamento sério para trair, ou pelo menos pensando nessa possibilidade, pode muito bem deixar claro para a outra pessoa essa sua inclinação. O que significa que isso não cabe em um relacionamento monogâmico.

Assim como não cabe ser egoísta e individualista a maior parte do tempo. Claro, é impossível nunca ser egoísta e individualista, mas é possível não ser a maior parte do tempo, bastando apenas refletir a respeito e fazer um pouco de esforço em prol de algo que não diz respeito apenas a si mesmo.

Relacionamentos muitas vezes não dão certo por falta de comunicação e honestidade. E claro, empatia, já que não se colocar no lugar do outro permite que as pessoas tenham atitudes totalmente incompatíveis com uma relação saudável. Não é monogâmico? Então encontre pessoas que também não são. Não tem segredo. É só acreditar no respeito e colocar isso em prática.

Se tratando de relacionamentos, não acho que as pessoas devam ser iguais ou muito parecidas. Na minha opinião, o que elas devem, em primeiro lugar, é ter uma forte razão para estarem juntas. O que acontece a partir daí, vai depender do esforço, da vontade e da inclinação de cada um.

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Written by David Arioch

September 10th, 2017 at 11:02 pm

Não é correto relacionar veganismo com religião

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“Me diga quais religiões que lutaram de fato pela libertação animal?”

Não acho correto relacionar veganismo com religião. O veganismo surgiu no Ocidente e a sua única defesa é pelos direitos animais. Afinal, não existia nada nos moldes atuais antes do veganismo, e a literatura relacionada aos direitos animais está aí para provar isso.

E se alguém me pergunta, mas e as religiões que condenam o consumo de animais? Eu respondo com outra pergunta: Me diga quais religiões que até lutaram de fato pela libertação animal? Elas normalmente dialogam com os seus, não com os outros. E mesmo quando seus adeptos não consomem animais, eles não realizam de fato um trabalho abrangente contra a objetificação animal, como o defendido pelos ativistas dos direitos animais.

É um caminho perigoso esse de relacionar vegetarianismo místico ou religioso com veganismo, e simplesmente porque não são a mesma coisa. Uma pessoa pode ser religiosa e vegana, isso é normal, mas não concordo quando dizem que sua religião é vegana, porque veganismo não tem nada a ver com religião; porque o veganismo é o reconhecimento do direito animal à vida e a luta pelo abolicionismo animal. E a verdadeira transformação tem acontecido a partir daí.

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A dor de uma pessoa é somente dela

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Rimbaud, exemplo de artista que transformou a dor em arte (Arte: Cezanne)

Quando me sinto mal, normalmente penso que há pessoas em situação pior que a minha. Faz sentido? Sim. Resolve? Depende. Mas faço questão de fazer uma observação que considero importante. Muitas vezes há uma tendência a se comparar o sofrimento de uma pessoa com o das outras. Isso é justo? Nem sempre, e não deve ser um padrão.

Por isso, sou da opinião de que a dor de uma pessoa é somente dela, e só ela sabe o que isso representa em sua vida. Quando me coloco no lugar do outro, tenho como parâmetro tal reflexão: “A minha dor não é maior nem menor do que a de ninguém, ela é simplesmente a minha dor.” Isso basicamente diz muito sobre o que penso em relação à individualidade do sofrer.

Acredito que evitar comparações em relação à dor de alguém é importante, porque em vez de ajudar, na tentativa de mostrar a alguém que o seu sofrimento “é inferior ao de outro”, e por isso deve ser assimilado como tal, pode atrapalhar e muito. Nisso subsiste o risco de nivelar a dor do outro por baixo, como se fosse algo insignificante. E como podemos avaliar a dor de alguém quando não partilhamos do mesmo sentimento e experiência em dado momento?

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Written by David Arioch

June 21st, 2017 at 11:33 pm

Machado de Assis X Balzac

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Balzac influenciou Machado de Assis

Acho injusto quando vejo sites de notícias e de literatura dizendo que um escritor foi ou é melhor do que o outro. Há alguns meses, li um artigo em que alguns especialistas falaram que Machado de Assis foi muito maior do que Balzac, tratando-se de qualidade literária e retrato crítico da realidade.

Considero isso equivocado, até porque o estilo de Machado de Assis, por exemplo, foi influenciado por Balzac, e ele mesmo admitia isso; e nunca buscou tal comparação. Augusto dos Anjos, por vezes considerado por brasileiros como maior que Rimbaud, também admitiu influência daquele que foi um dos nomes mais enigmáticos e controversos do simbolismo. Sou contra esse ufanismo literário.

Não vejo razão em dizer quem é melhor que quem. São rivalidades desnecessárias, até porque os critérios são imprecisos, e nesse sentido pouco se leva em conta as particularidades de cada um, o ritmo de produção e o zeitgeist, que é o espírito de uma época. E não acredito que bons escritores escrevem para serem considerados melhores do que os outros. Creio que a intenção da maioria é sempre tocar o leitor, ser entendido pelo leitor, simplesmente isso.

A rivalidade na literatura surgiu com os críticos, e a crítica infelizmente não contribui em nada nesse tipo de debate, já que pouco interessa ao leitor quem foi maior que quem. O mais importante era e é o que cada escritor tem a oferecer.

 

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Written by David Arioch

June 21st, 2017 at 11:31 pm

Considerações sobre a violência

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A violência é uma forma de descontrole

Agressividade, violência, são formas de descontrole. Se você não tiver controle sobre isso, isso terá controle sobre você. E quando você achar que está dominando alguma coisa ao fazer uso da agressividade ou da violência, estará apenas sendo subjugado pelo que te priva da sua própria humanidade, sem que você perceba. As consequências disso podem ser o seu próprio definhamento.

Uma briga é sempre uma derrota, tanto para quem vence quanto para quem perde. Para quem perde, porque a violência física dificilmente é esquecida ou deixa de ser materializada em trauma ou grande frustração. Para quem vence, porque, assim como o outro, também provou que não teve controle sobre as próprias emoções, assim cultivando uma inimizade que pode perdurar por toda a vida.

Orgulho de bater em alguém. Por que eu teria orgulho de bater em alguém? O que muda o ser humano para melhor é tocar a sua consciência, não o seu corpo. Se bato em alguém, significa que não tenho mais nada a oferecer além dos meus punhos. Ademais, é estranho reconhecer que há quem revele desprezo e raiva por quem defende a não violência.

Sobre violência, faço questão de compartilhar uma história real que vivi aos 19 anos (Faz parte de uma crônica intitulada “Briga de Rua”). Acredito que não existe melhor forma de desarmar alguém do que subverter expectativas.

“Com 19 anos, fui colocado à prova num início de noite na Avenida Paraná, em frente à antiga Imobiliária Gaúcha, onde alguns amigos marcaram um encontro. Na realidade, era uma armadilha de jovens ébrios. Chegando lá, um deles inventou histórias a meu respeito. Me provocou em vão, pois não reagi. Em silêncio, observei as atitudes dos três que me instigavam a brigar. Sem mover os pés da calçada, me mantive calmo num ambiente hostil. Ainda assim, um deles se aproximou de mim e acertou um soco na minha boca.

O sangue escorreu pelos meus lábios espessos. Experimentei a queimadura do corte no canto superior direito. Na mesma posição, passei o polegar direito pelos lábios, vi o sangue denso, levantei meu dedo banhado em carmesim e perguntei: “Cara, por que você fez isso? É uma pena…” Meu amigo Edson quis bater no agressor, só que eu o impedi porque nada naquele momento me causava medo. “A Morte tinha desaparecido de sua frente e em seu lugar via a luz”, refleti, lembrando-me de Ivan Ilitch, de Tolstói.

Contrariando todas as expectativas, me calei, lavei minha boca em uma torneira instalada no mesmo local e fui em direção à Praça dos Pioneiros, retornando com a roupa avermelhada em algumas partes. Não senti raiva, apenas um misto de pesar e náuseas. Em casa, o sangue foi lavado com lágrimas pachorrentas que já não se repetiam mais. Observava no espelho a abertura no lábio com olhos grandes, então amiudados, e o palato esbraseado pela nebulosa bonomia. Tudo que era palpável no fundo era impalpável. Ao longo de 10 anos, assisti cada um dos envolvidos no episódio aparecer no portão de casa pedindo desculpas.”

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Written by David Arioch

June 18th, 2017 at 8:40 pm