David Arioch – Jornalismo Cultural

Jornalismo Cultural

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Se quiser ter filhos, seja feliz. Se não quiser, que seja também

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Os animais não afastam o ser humano de sua “humanidade”. Na realidade, eles a estimulam.

Há um texto sendo compartilhado em mídias sociais em que um senhor afirma que os bebês estão perdendo espaço para os “pets” ou “animais domésticos”, e que por isso estamos nos afastando de nossa “vocação humana”. Para ser honesto, não gosto muito do termo “pet”, porque como disse James Cromwell algumas vezes em entrevistas sobre direitos animais, quando falamos em “pet” há uma objetificação, uma reafirmação de uma ideia de que estamos falando de um ser vivo que parece que existe para nos servir, nos entreter. Claro que a ideia não é condenar quem usa o termo inocentemente, mas sim propor uma pequena reflexão.

O sujeito que publicou o texto em que critica quem convive com animais, mas não tem filhos, se posiciona como filósofo. Eu não o conheço, mas sei que no contexto da filosofia não cabe, ou pelo menos não deveria caber, senso comum ou discurso apelativo ou imponderado. Optar por não ter filhos não faz de ninguém menos humano. Desde a minha infância, tenho recordações de pessoas incríveis que marcaram a minha vida e optaram por não ter filhos.

“Teu individualismo revela tua natureza tão decadente e insuportável que somente um animal, devido a inocência, é capaz de tolerar-te, de ‘suprir’ a tua dificuldade de conviver e amar, de retirar-te da solidão, um dos tantos males da contemporaneidade.” Quando o sujeito faz tal afirmação, e extremamente agressiva se analisarmos a escolha das palavras, tenho a impressão de que ele está se referindo a pessoas que vivem em estoica misantropia.

Conheço mães e pais que são solitários, assim como pessoas que não têm filhos e não têm nenhum dos problemas citados acima. O ponto crítico desse tipo de afirmação é a óbvia generalização. Ter filhos ou não tê-los é direito de cada um. No texto, o autor afirma que o ato de ter filhos nos “humaniza”. Realmente ter filhos pode contribuir muito para o desenvolvimento humano, tenho exemplos disso na família. Mas isso não diz respeito a todos os seres humanos.

Não tê-los não significa caminhar em direção oposta. Muitos assassinos, criminosos e corruptos são pais de alguém. Acompanhe as notícias da realidade da violência intrafamiliar no Brasil e no mundo. Segundo a Fundação das Nações Unidas para a Infância, só no Brasil são registrados cinco casos por hora de violência intrafamiliar.

Sendo assim, está claro que ter filhos não “humaniza” todo mundo. Na realidade, acredito que essa percepção do ser humano que se transforma com a maternidade ou a paternidade é romântica. Sim, ela existe, mas não tanto quanto as pessoas gostam de fazer parecer, o que naturalmente é uma herança histórica cultural. E claro, quando a alçamos a níveis irreais, ela é mais idealizada do que vivida.

Muitas vezes, pessoas que vivem reclusas em seus pequenos círculos sociais, em suas zonas de conforto, acabam por ter dificuldade em perceber a heterogeneidade que isso abarca. Ter filhos, sem dúvida, pode ser um ato de amor, mas não tê-los não é um ato de desamor. Ademais, sabemos que há muitas pessoas que somente colocam filhos no mundo, mas não os educam nem dão amor.

Desrespeito, ausência de limites, comportamento violento, desvio de caráter, imoralidade, abandono…; não raramente isso faz parte do kit Omissão e Falta de Estrutura Familiar. Além disso, em um país cada vez mais populoso, não acho justo condenar pessoas que não querem ter filhos. Que cada um tenha o direito de fazer suas próprias escolhas. Se quiser ter filhos, seja feliz. Se não quiser, que seja também.





Written by David Arioch

November 14th, 2017 at 2:13 pm

Luiz Felipe Pondé: “O que eu acho do veganismo?”

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“Esse tipo de pureza pra mim não é diferente daqueles calvinistas doidos que queimavam gente e achavam que tudo era o demônio”

Pondé comete um equívoco ao dizer que veganismo é sobre pureza

Assisti um vídeo do filósofo Luiz Felipe Pondé criticando o veganismo. Obviamente, o meu objetivo não é desconsiderar o seu trabalho enquanto filósofo nem a sua figura humana, mas sim apontar falhas substanciais no seu discurso “O que eu acho do veganismo?”

Enquanto fuma um charuto, Pondé começa dizendo que uma pessoa sem vícios não deve ser merecedora de confiança. Bom, discordo, até porque tento sempre evitar generalizações. Na minha opinião, vícios, quase sempre surgem com escolhas pessoais e em muitos casos como consequência de uma fragilidade que pode inclusive reafirmar uma volatilidade moral, já que o vício reflete uma ausência de autocontrole, e isso pode implicar em prejuízo não apenas para si mesmo como também para os outros. Sendo assim, essa fragilidade pode criar uma ilusão de que temos o domínio de algo que na realidade tem o domínio de nós. Mas, claro, ainda vivemos em uma realidade em que cada um é livre para optar ou não por ter vícios.

Pondé afirma que é contra qualquer tipo de pureza, a busca pela pureza. Bom, veganismo não é sobre pureza. Claro, buscamos o abolicionismo animal, mas não vivemos imersos em uma realidade ultrarromântica. Veganos têm consciência de suas limitações, e ainda assim aceitam o desafio de fazer o possível para reduzir impactos na vida dos animais. Segundo o filósofo, “as pessoas têm o direito de comer o que quiser, contanto que não seja outros seres humanos.” Esse é um ponto crítico sob a perspectiva vegana. O chamado “direito” do ser humano de se alimentar de outras criaturas não foi” concedido” por ninguém a não ser por ele mesmo, logo uma arbitrariedade, já que consiste em subjugar outros animais sencientes e conscientes, ignorando seus interesses, ou seja, o direito à vida.

“Os animais são sujeitos de uma vida? Esta é a pergunta que precisa ser feita sobre os animais porque é a pergunta que precisamos fazer sobre nós”, escreveu o filósofo Tom Regan no livro “Empty Cages”. Segundo Regan, não podemos declarar que o motivo pelo qual nós enquanto seres humanos temos direitos é porque somos igualmente sujeitos de uma vida, mas outros animais, que são exatamente como nós enquanto sujeitos de uma vida, bem, eles não têm nenhum direito. “Isso seria como se colocar diante do mundo e gritar: ‘Um Volvo não é um carro porque um Volvo não é um Ford!’

A opinião de Luiz Felipe Pondé, ao defender o ato de matar animais e consumi-los como um direito é evidentemente especista e antropocêntrica. Em síntese, é uma defesa de status quo, da perpetuação do que já existe e é praticado. O seu posicionamento não reconhece a defesa dos direitos animais e menos ainda a legitimidade da teoria abolicionista animal, que defende que os animais não existem para os nossos próprios fins, em qualquer circunstância.

Pondé diz que não cabe condenação a quem consome proteína animal. Acredito que depende. Não vejo necessidade em atacar pessoas, realmente, até porque isso é contraproducente. Porém, de forma conscienciosa, considero imprescindível criticar com probidade o nosso papel enquanto espécie e a nossa iníqua relação com os outros animais, até porque as pessoas não costumam refletir sobre o seu papel em relação as outras espécies, por considerá-las inferiores. Então a conscientização é importante. Afinal, matamos por ano, e não por uma questão de necessidade, bilhões de criaturas que, assim como nós, gostariam de viver, não de morrer. Não há romantismo nisso, mas apenas a constatação da realidade. Ninguém nasce ansiando pela própria finitude.

Para Pondé, muitas pessoas aderem ao veganismo “por uma certa tensão puritana”. Discordo. Veganos não são isentos de vícios, não são seres perfeitos, nem se julgam como tal. Pelo menos desconheço quem faça isso, e se há casos desse tipo é uma questão de equivocada construção individual, sem respaldo na filosofia de vida vegana. Basta analisarmos a história do veganismo e o trabalho dos seus principais pensadores e teóricos. A observação de Pondé me parece mais próxima do vegetarianismo místico do que do veganismo quando cita “puritanismo”, “puritano”, “purismo”, “pureza”, embora sejam palavras que compõem um grande escopo de significados, até mesmo antagônicos em alguns aspectos. Na realidade, o veganismo é bem prático. Basta partirmos da seguinte premissa: “ Se posso viver bem sem matar ou tomar parte na morte de outros seres vivos, por que fazer isso?”

Pondé enfatiza que outro grande equívoco é “a ideia de que você pode se retirar da cadeia de violência da natureza”. Bom, não conheço veganos que afirmam categoricamente que estão completamente livres da cadeia de violência, até porque a maioria vive a realidade urbana, e nesse contexto é mais difícil ainda se livrar das armadilhas que envolvem a exploração animal, já que o ser humano subjuga outras espécies de forma tão visceral que até mesmo pneus contêm insumos de origem animal. Como é o caso do ácido esteárico baseado em gordura bovina. Porém, nada disso impede a luta para diminuir cada vez mais essa exploração, demandando alternativas que não envolvam agrilhoamento e morte de outras espécies. Veganismo é sobre o aperfeiçoamento na nossa relação com outros animais, até alcançarmos um objetivo maior que é o abolicionismo animal. Se temos condições de mudar hábitos desnecessários, que impactam negativamente em outras vidas, por que não fazer isso? Por que não mostrar para as outras pessoas que é possível viver bem gerando menos violência? Como consequência, isso reduz a objetificação animal.

Outra observação feita pelo filósofo Pondé é a de que o veganismo “deixa a experiência humana do gosto um pouco cerceada”. Bom, veganos não vivem em privação alimentar. Temos uma grande riqueza de alimentos vegetais acessíveis à nossa disposição, e são eles que dão inclusive sabor aos alimentos de origem animal. Afinal, que gosto teria, por exemplo, a carne, sem os temperos de origem vegetal? O que deixa claro que, do ponto de vista alimentar, vegetais são essenciais, ao contrário dos alimentos de origem animal. Até porque a existência de veganos é a prova maior de que ninguém morre sem consumir animais.

Luiz Felipe Pondé também diz que veganos consideram quem come carne como assassino. Bom, não vejo dessa forma, e acredito que quem entende o veganismo em essência sabe que o consumo de carne é um infeliz fator histórico e cultural baseado no costume. A própria literatura vegana e dos direitos animais discorre sobre isso exaustivamente. Para Pondé, veganos buscam uma espécie de pureza que não existe. “Esse tipo de pureza pra mim não é diferente daqueles calvinistas doidos que queimavam gente e achavam que tudo era o demônio”.

Sim, há pessoas que ficam exacerbadas diante do sofrimento animal, da exploração contumaz, e acabam cometendo alguns excessos em seus discursos, porém não cabe generalizações. Esse comportamento é reflexo de uma ânsia por justiça para animais não humanos. Quero dizer, há boa vontade nisso, o problema é que ela pode ter ancorado em uma falha de comunicação imersa nos arroubos da passionalidade.

Se você dialogar com um vegano, por mais ofensivo que considere o seu discurso, você vai perceber que se trata de uma pessoa bem-intencionada que busca e sonha com o melhor para os animais. Comparar veganos com terroristas é bastante surreal, levando em conta que não há registros de arbitrariedades desse tipo praticadas por veganos. Você não encontra veganos violentando quem não é, matando pessoas. Nem mesmo os grupos de ação direta costumam praticar ou defender qualquer tipo de violência quando decidem articular alguma ação em benefício de animais não humanos.

“Tem aí um filósofo chamado Peter Singer, é uma espécie de guru, apesar de que muitos veganos nem sabem disso”, afirmou Pondé. Não duvido que haja veganos que realmente nunca ouviram falar em Peter Singer e em seu livro “Animal Liberation”, porém isso não faz de alguém mais ou menos vegano, até porque obras de direitos animais quando chegam ao Brasil costumam custar caro, logo não são realmente acessíveis. Além disso, depois de Singer, e principalmente a partir dos anos 1980, outros filósofos e pensadores também escreveram sobre o assunto, inclusive seguindo por um caminho diferente e independente de Singer. Também é importante considerar que hoje em dia há muito material sendo produzido sobre o tema e disponibilizado na internet em forma de artigos, o que também tem contribuído bastante para uma melhor conscientização em torno do veganismo e dos direitos animais. Ou seja, não há mais uma dependência de meios tradicionais.

“O que eu critico no veganismo é uma percepção sensorial estética infantil da realidade associada a uma expectativa purista e moralista. E eu não gosto de purismo e moralismo.” Sobre essa citação de Luiz Felipe Pondé eu devo dizer que a considero bem baralhada. Nem purismo nem moralismo têm a ver com veganismo. Veganismo é uma perspectiva não excludente da moralidade, enquanto que o moralismo é baseado em preceitos proverbiais que ignoram a particularidade e a complexidade de uma situação. Na realidade, o veganismo faz exatamente o oposto do moralismo, que é fundamentado na tradição, uma tradição cediça. Acredito que “percepção sensorial estética infantil” é aquela despertada pela propaganda da indústria da exploração animal.

Ou seja, em que a subjugação ou morte de um ser vivo é romantizada e celebrada. Exemplos disso são as embalagens de produtos, os comerciais da Sadia, etc. Ou até mesmo a histórica e recorrente dissociação entre produto e morte. Essa negação, no meu entendimento, também é uma “percepção sensorial estética infantil da realidade”, assim como situações em que pessoas que comem carne ficam surpresas e sensibilizadas com algum fato que envolve a exploração animal. Posso citar como exemplo o caso recente em que uma moça ficou horrorizada porque encontrou um mamilo em um pedaço de bacon. Isso não seria “percepção sensorial estética infantil da realidade”? Eu digo que sim.

Em síntese, achei o vídeo do filósofo Luiz Felipe Pondé criticando o veganismo vacilante e equivocadamente pontual. Quero dizer, me parece que ele se baseou em alguns exemplos de comentários que viu por parte de alguns veganos na internet e usou isso para fundamentar a sua crítica, ignorando o que realmente é a filosofia de vida vegana, e provavelmente não tendo a preocupação de buscar sólidas referências. Ademais, não posso deixar de reconhecer que há um ponto positivo nessa crítica. E qual seria? Ele não teria feito um vídeo falando de veganismo se o tema não estivesse em evidência. Então é claro que as críticas vão crescendo de acordo com a visibilidade e adesão ao veganismo. Para finalizar, parafraseio Adam Smith, uma das referências filosóficas de Pondé, no capítulo 2 do quinto livro de “Wealth of Nations”: “Pode-se duvidar de que a carne do açougue seja necessária à vida em qualquer lugar.”

 

 





Não entre em um relacionamento alimentando falsas esperanças

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Nunca tive um relacionamento abusivo. Nunca odiei nenhuma guria com quem me relacionei. E creio que isso seja recíproco. Mulheres, amigas, amigos entram na minha vida e saem, se assim desejarem, o que acho bem natural.

Se você conhece alguém e esse alguém espera de você algo que você não pode oferecer, simplesmente não seja sem noção. O que quero dizer? Não entre em um relacionamento alimentando falsas esperanças. A carência pode levar as pessoas a cometerem equívocos que trazem sérias consequências. Uma delas pode ser magoar profundamente alguém que espera de você mais do que você pode oferecer. Creio que muitos relacionamentos começam errado por causa disso.

Um relacionamento para dar certo deve partir do princípio de que duas pessoas querem a mesma coisa, têm objetivos em comum na relação e não estão pensando em obstáculos que já podem minar a relação. Quem entra em um relacionamento sério para trair, ou pelo menos pensando nessa possibilidade, pode muito bem deixar claro para a outra pessoa essa sua inclinação. O que significa que isso não cabe em um relacionamento monogâmico.

Assim como não cabe ser egoísta e individualista a maior parte do tempo. Claro, é impossível nunca ser egoísta e individualista, mas é possível não ser a maior parte do tempo, bastando apenas refletir a respeito e fazer um pouco de esforço em prol de algo que não diz respeito apenas a si mesmo.

Relacionamentos muitas vezes não dão certo por falta de comunicação e honestidade. E claro, empatia, já que não se colocar no lugar do outro permite que as pessoas tenham atitudes totalmente incompatíveis com uma relação saudável. Não é monogâmico? Então encontre pessoas que também não são. Não tem segredo. É só acreditar no respeito e colocar isso em prática.

Se tratando de relacionamentos, não acho que as pessoas devam ser iguais ou muito parecidas. Na minha opinião, o que elas devem, em primeiro lugar, é ter uma forte razão para estarem juntas. O que acontece a partir daí, vai depender do esforço, da vontade e da inclinação de cada um.

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Written by David Arioch

September 10th, 2017 at 11:02 pm

Não é correto relacionar veganismo com religião

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“Me diga quais religiões que lutaram de fato pela libertação animal?”

Não acho correto relacionar veganismo com religião. O veganismo surgiu no Ocidente e a sua única defesa é pelos direitos animais. Afinal, não existia nada nos moldes atuais antes do veganismo, e a literatura relacionada aos direitos animais está aí para provar isso.

E se alguém me pergunta, mas e as religiões que condenam o consumo de animais? Eu respondo com outra pergunta: Me diga quais religiões que até lutaram de fato pela libertação animal? Elas normalmente dialogam com os seus, não com os outros. E mesmo quando seus adeptos não consomem animais, eles não realizam de fato um trabalho abrangente contra a objetificação animal, como o defendido pelos ativistas dos direitos animais.

É um caminho perigoso esse de relacionar vegetarianismo místico ou religioso com veganismo, e simplesmente porque não são a mesma coisa. Uma pessoa pode ser religiosa e vegana, isso é normal, mas não concordo quando dizem que sua religião é vegana, porque veganismo não tem nada a ver com religião; porque o veganismo é o reconhecimento do direito animal à vida e a luta pelo abolicionismo animal. E a verdadeira transformação tem acontecido a partir daí.

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A dor de uma pessoa é somente dela

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Rimbaud, exemplo de artista que transformou a dor em arte (Arte: Cezanne)

Quando me sinto mal, normalmente penso que há pessoas em situação pior que a minha. Faz sentido? Sim. Resolve? Depende. Mas faço questão de fazer uma observação que considero importante. Muitas vezes há uma tendência a se comparar o sofrimento de uma pessoa com o das outras. Isso é justo? Nem sempre, e não deve ser um padrão.

Por isso, sou da opinião de que a dor de uma pessoa é somente dela, e só ela sabe o que isso representa em sua vida. Quando me coloco no lugar do outro, tenho como parâmetro tal reflexão: “A minha dor não é maior nem menor do que a de ninguém, ela é simplesmente a minha dor.” Isso basicamente diz muito sobre o que penso em relação à individualidade do sofrer.

Acredito que evitar comparações em relação à dor de alguém é importante, porque em vez de ajudar, na tentativa de mostrar a alguém que o seu sofrimento “é inferior ao de outro”, e por isso deve ser assimilado como tal, pode atrapalhar e muito. Nisso subsiste o risco de nivelar a dor do outro por baixo, como se fosse algo insignificante. E como podemos avaliar a dor de alguém quando não partilhamos do mesmo sentimento e experiência em dado momento?

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Written by David Arioch

June 21st, 2017 at 11:33 pm

Machado de Assis X Balzac

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Balzac influenciou Machado de Assis

Acho injusto quando vejo sites de notícias e de literatura dizendo que um escritor foi ou é melhor do que o outro. Há alguns meses, li um artigo em que alguns especialistas falaram que Machado de Assis foi muito maior do que Balzac, tratando-se de qualidade literária e retrato crítico da realidade.

Considero isso equivocado, até porque o estilo de Machado de Assis, por exemplo, foi influenciado por Balzac, e ele mesmo admitia isso; e nunca buscou tal comparação. Augusto dos Anjos, por vezes considerado por brasileiros como maior que Rimbaud, também admitiu influência daquele que foi um dos nomes mais enigmáticos e controversos do simbolismo. Sou contra esse ufanismo literário.

Não vejo razão em dizer quem é melhor que quem. São rivalidades desnecessárias, até porque os critérios são imprecisos, e nesse sentido pouco se leva em conta as particularidades de cada um, o ritmo de produção e o zeitgeist, que é o espírito de uma época. E não acredito que bons escritores escrevem para serem considerados melhores do que os outros. Creio que a intenção da maioria é sempre tocar o leitor, ser entendido pelo leitor, simplesmente isso.

A rivalidade na literatura surgiu com os críticos, e a crítica infelizmente não contribui em nada nesse tipo de debate, já que pouco interessa ao leitor quem foi maior que quem. O mais importante era e é o que cada escritor tem a oferecer.

 

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Written by David Arioch

June 21st, 2017 at 11:31 pm

Considerações sobre a violência

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A violência é uma forma de descontrole

Agressividade, violência, são formas de descontrole. Se você não tiver controle sobre isso, isso terá controle sobre você. E quando você achar que está dominando alguma coisa ao fazer uso da agressividade ou da violência, estará apenas sendo subjugado pelo que te priva da sua própria humanidade, sem que você perceba. As consequências disso podem ser o seu próprio definhamento.

Uma briga é sempre uma derrota, tanto para quem vence quanto para quem perde. Para quem perde, porque a violência física dificilmente é esquecida ou deixa de ser materializada em trauma ou grande frustração. Para quem vence, porque, assim como o outro, também provou que não teve controle sobre as próprias emoções, assim cultivando uma inimizade que pode perdurar por toda a vida.

Orgulho de bater em alguém. Por que eu teria orgulho de bater em alguém? O que muda o ser humano para melhor é tocar a sua consciência, não o seu corpo. Se bato em alguém, significa que não tenho mais nada a oferecer além dos meus punhos. Ademais, é estranho reconhecer que há quem revele desprezo e raiva por quem defende a não violência.

Sobre violência, faço questão de compartilhar uma história real que vivi aos 19 anos (Faz parte de uma crônica intitulada “Briga de Rua”). Acredito que não existe melhor forma de desarmar alguém do que subverter expectativas.

“Com 19 anos, fui colocado à prova num início de noite na Avenida Paraná, em frente à antiga Imobiliária Gaúcha, onde alguns amigos marcaram um encontro. Na realidade, era uma armadilha de jovens ébrios. Chegando lá, um deles inventou histórias a meu respeito. Me provocou em vão, pois não reagi. Em silêncio, observei as atitudes dos três que me instigavam a brigar. Sem mover os pés da calçada, me mantive calmo num ambiente hostil. Ainda assim, um deles se aproximou de mim e acertou um soco na minha boca.

O sangue escorreu pelos meus lábios espessos. Experimentei a queimadura do corte no canto superior direito. Na mesma posição, passei o polegar direito pelos lábios, vi o sangue denso, levantei meu dedo banhado em carmesim e perguntei: “Cara, por que você fez isso? É uma pena…” Meu amigo Edson quis bater no agressor, só que eu o impedi porque nada naquele momento me causava medo. “A Morte tinha desaparecido de sua frente e em seu lugar via a luz”, refleti, lembrando-me de Ivan Ilitch, de Tolstói.

Contrariando todas as expectativas, me calei, lavei minha boca em uma torneira instalada no mesmo local e fui em direção à Praça dos Pioneiros, retornando com a roupa avermelhada em algumas partes. Não senti raiva, apenas um misto de pesar e náuseas. Em casa, o sangue foi lavado com lágrimas pachorrentas que já não se repetiam mais. Observava no espelho a abertura no lábio com olhos grandes, então amiudados, e o palato esbraseado pela nebulosa bonomia. Tudo que era palpável no fundo era impalpável. Ao longo de 10 anos, assisti cada um dos envolvidos no episódio aparecer no portão de casa pedindo desculpas.”

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Written by David Arioch

June 18th, 2017 at 8:40 pm

Breves reflexões sobre a vida hipermoderna

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Arte: Steve Cutts

Gilles Lipovetsky disse que a vida hipermoderna nos moldes atuais poderá nos destruir; e em algum nível isso vem acontecendo há muito tempo. Infelizmente, parece-me que a vida moderna não foi planejada como deveria, e as consequências disso estão por todos os lados.

Acordei pensando em suas teorias hoje e me recordei de Knut Hamsun, vencedor do Nobel que era anti-civilização, que acreditava que quanto mais distante da sua própria natureza, mais o ser humano se tornaria alheio às próprias necessidades, se apegando à superficialidade daquilo que ele considera viver sem ser viver. Viver para comprar em vez de comprar para viver é um exemplo clássico disso.

O mundo pode ser um lugar estranho se pensarmos que vivemos para atender necessidades que nunca foram primárias, ou nem mesmo necessidades. As pessoas estão cada vez mais doentes porque já não reconhecem o seu papel no mundo, que parece implacável e sempre disposto a engolir quem não se adapta à velocidade e ferocidade da vida moderna.

Muitas pessoas respiram muito mal, pouco observam à sua volta, não sabem dizer qual era a cor do céu numa tarde ensolarada. Em muitos casos, não enxergam a si mesmas, ou têm uma visão distorcida de quem são, porque tudo isso parece insignificante quando se tem um objetivo que é sacrificar a própria vida para se destacar mais do que os outros, para ter muito mais dinheiro do que os outros. Existe sempre uma competição, porque competir significa vencer alguém; e muitos realmente veem isso como o sentido da vida, um respiro de glória, até mesmo de superioridade.

Não raramente falamos em igualdade e redução das desigualdades sociais, mas jogamos na loteria. E poucos, ainda sendo otimista, mesmo que ganhassem um grande prêmio, realmente teriam a coragem de destinar pelo menos uma parte desse dinheiro para ajudar a reduzir as mazelas que tanto criticam. Parece que estamos imersos na demagogia, na contradição…na hipocrisia, embora ainda haja esperança. E nem sempre por má-fé, mas sim porque é uma cultura já entranhada no cerne da nossa vida em sociedade.

Sempre vejo pessoas vendendo a fórmula do sucesso, e a maioria delas prometem muitas riquezas materiais e dão dicas de como vencer os outros, ser melhor do que os outros. A fórmula quase sempre envolve superar os outros mais do que a si mesmo; como se os outros fossem nossos inimigos. É como se sempre tivéssemos inimigos – no trânsito, na internet, nas filas, na escola, na faculdade, no trabalho.

Cremos que somos livres quando na realidade somos servos de uma cultura já consolidada que vende a ideia de que somos senhores de nós mesmos, quando às vezes não somos senhores nem de nossas menores decisões. As armadilhas há muito foram instaladas, mas nossos olhos talvez ainda não sejam tão treinados para enxergá-las.

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Written by David Arioch

June 14th, 2017 at 1:10 am

É possível criticar sendo gentil, não sendo rude nem ofensivo

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Arte: Matthew Stutely

Uma coisa intrigante quando você escreve muito é que se você comete um ou alguns erros tolos em um texto, já aparece gente te atacando. Por outro lado, os muitos textos que você escreve corretamente essas mesmas pessoas não dizem nada a respeito.

Quero dizer, pessoas que só estão aguardando você cometer um erro para tentar desqualificar o seu trabalho. Ou pessoas que nunca dispensarão um elogio a você, mas que aparecerão de vez em raramente te condenando. Para criticar, não é preciso desqualificar o trabalho de ninguém. É possível criticar sendo gentil, não sendo rude nem ofensivo.





Written by David Arioch

May 22nd, 2017 at 3:34 pm

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Drauzio Varella e as falhas na afirmação de que a crítica ao consumo de carne é ideológica

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Não é verdade que não há trabalhos científicos comprovando os malefícios da carne

A minha intenção não é desmerecer o trabalho do médico oncologista Drauzio Varella (Foto: Extra)

Em abril deste ano, o médico oncologista Drauzio Varella, que há muito tempo se tornou referência para a população brasileira, afirmou na entrevista intitulada “Crítica à carne é ideológica”, publicada pela Revista Globo Rural, que não existe trabalho científico comprovando que a carne vermelha faz mal à saúde. Drauzio declarou que se criou “uma porção de mitos” a partir de estudos realizados nas décadas de 1960 e 1970 nos Estados Unidos.

Drauzio Varella tem todo o direito de se opor a pesquisadores, acadêmicos e médicos que apontam os malefícios do consumo de carne, até porque ele nunca velou que é um defensor do consumo de alimentos de origem animal. Porém, a afirmação de que não há trabalhos científicos comprovando isso não é realmente verdadeira, e pode naturalmente induzir o leitor a crer que realmente ninguém nunca apresentou nenhuma evidência das implicações do consumo de carne.

O livro “The China Study”, publicado em 2005 pelo bioquímico estadunidense T. Colin Campbell, que tem doutorado na área de efeitos da nutrição na saúde em longo prazo, e que foi criado em uma fazenda de gado leiteiro nos anos 1940 e 1950, mostra que isso não é realmente verdade. O seu livro examina a relação entre o consumo de produtos de origem animal e o surgimento de doenças cardíacas, diabetes e câncer. E chega à conclusão que uma dieta vegetariana é mais saudável.

O trabalho, que começou no início dos anos 1970 e se estendeu por 20 anos, foi realizado pela Academia Chinesa de Medicina Preventiva, da Universidade Cornell, em parceria com a Universidade de Oxford. Eles analisaram as taxas de mortalidade por câncer e outras doenças crônicas em 2400 condados chineses, reunindo ao final do estudo dados de 880 milhões de chineses (96% da população à época).

O trabalho foi realizado por iniciativa do premier chinês Zhou Enlai. Diagnosticado com câncer, pediu que fizessem um mapeamento da doença na China, para entender de que forma isso estava relacionado com os hábitos alimentares dos chineses. O estudo registrou que nos condados onde o consumo de alimentos de origem animal se tornou muito elevado, as taxas de mortalidade eram mais altas, o que eles classificaram como consequências de “doenças ocidentais”, já que esses hábitos foram influenciados pela cultura do Ocidente. Por outro lado, nas localidades onde pouco ou nada se consumia de origem animal, as pessoas eram mais saudáveis. O trabalho mais tarde foi considerado o maior estudo de nutrição da história.

Claro que há variáveis a se ponderar, como por exemplo, a prioridade a alimentos saudáveis e prática de atividades físicas, entre outras coisas. No entanto, o “The China Study” justifica que somos mais suscetíveis a contrair determinadas doenças quando consumimos carne, laticínios e ovos, o que não significa que vegetarianos ou veganos estejam livres de doenças. Mas apenas que estão indo por um caminho onde isso pode ser evitado com mais facilidade com os devidos cuidados.

Na entrevista, Dráuzio Varella diz também que nos Estados Unidos “como a carne vermelha tem colesterol, foi concluído que o consumo dela devia ser reduzido. O que aconteceu então? Os americanos diminuíram significativamente o consumo de carne e, no lugar, colocaram carboidratos. A partir dessa resolução, até hoje, a epidemia de obesidade nos EUA aumentou descontroladamente. E, dada a influência dos EUA na área da saúde, essa ideologia cresceu sem parar. Resultado: estamos todos enfrentando uma epidemia de obesidade.”

T. Colin Campbell, autor do livro “The China Study”, que estudou as implicações do consumo de alimentos de origem animal por 20 anos (Foto: Second Opinion)

Não sei em quais estudos ele se baseou para fazer tal declaração, mas isso também não é de todo verdade. Sim, os estadunidenses, assim como pessoas de outros países do Ocidente, consomem quantidades excessivas de carboidratos, e isso sem dúvida favorece o surgimento de muitas doenças, mas há equívocos substanciais no discurso de Varella. Normalmente quem opta por uma dieta vegetariana visando saúde ou qualidade de vida, dificilmente vai consumir quantidades estratosféricas de glicídios, alimentos industrializados – principalmente processados. Não se troca seis por meia dúzia quando se visa conscientemente a saúde.

Ademais, em 19 de agosto de 2016, a Fusion TV publicou uma matéria sobre um assunto também repercutido por muitos outros veículos de comunicação – “Last year americans ate meat like it was going out of style (it’s not)”, que mostra que houve um aumento no consumo de carne nos Estados Unidos em 2015, baseando-se em estudos do Rabobank. Ou seja, por si só, isso já é um indicativo de que as pessoas não estão trocando proteínas de origem animal por carboidratos ruins na velocidade apontada por Varella, mas sim consumindo os dois – que combinados são responsáveis pelo comprometimento da saúde humana.

Outra prova que refuta a posição de Drauzio é que nos Estados Unidos 5% da população se declara como vegetariana, e 2,5% vegana, segundo dados da organização One Green Planet. Sendo assim, onde está toda a população que ele afirma abdicar do consumo de proteínas de origem animal em favor dos maus carboidratos? O vegetarianismo e o veganismo tem crescido, mas, por enquanto, não na proporção desejada por vegetarianos e veganos. Ao mesmo tempo que diz que os críticos do consumo de carne se baseiam em generalizações, Varella parece ignorar que também faz o mesmo, principalmente quando diz que a crítica ao consumo de carne é meramente ideológica.

Então se não for por honestidade e visando o bem da população, por que o pesquisador T. Colin Campbell, filho de produtores de leite, se tornou um defensor da dieta vegetariana que ministra palestras contra o consumo de leite? Por que Howard Lyman, ex-pecuarista que tinha mais de sete mil cabeças de gado, abdicaria disso tudo para se manifestar contra o consumo de carne? Inclusive registrando em seu livro “Mad Cowboy” que ele mesmo tinha o hábito de mandar seus funcionários pulverizarem inseticidas na alimentação e na água do gado para afastar insetos e “pragas”.

Acredito que esses dois homens têm conhecimento mais profundo da realidade do sistema de produção de alimentos de origem animal e das suas consequências na alimentação humana do que o oncologista Dráuzio Varella que, embora seja um profissional respeitado no que diz respeito a vários assuntos, nunca realizou nenhum estudo relevante sobre o tema e incorre em análises equivocadas quando discorre sobre consumo de carne e vegetarianismo, que são áreas que fogem da sua competência.

Em 2006, o The New York Times qualificou o “The China Study” como o “Grande Prêmio da Epidemiologia”, e o “mais abrangente grande estudo já realizado sobre a relação entre a dieta e o risco de desenvolver doenças.” Drauzio pode discordar do conteúdo do livro, mas ele poderia apresentar algum outro estudo equivalente sobre o qual alguém tenha dedicado 20 anos de pesquisa?

Frank Hu: “Este estudo fornece evidências claras de que o consumo regular de carne vermelha, especialmente carne processada, contribui substancialmente para a morte prematura” (Foto: Arquivo Pessoal)

E uma prova de que talvez ele não conheça a obra “The China Study” pode ser encontrada na entrevista para a Revista Globo Rural. Drauzio Varella, parafraseando o epidemiologista Walter Willet, da Universidade Harvard, assinala que somente um estudo com duração de 20 anos poderia trazer resultados realmente consistentes. Como mencionado anteriormente, o livro de T. Colin Campbell foi baseado em um projeto de pesquisa com duração de 20 anos.

E se o “The China Study” não for o suficiente para levar o leitor a refletir sobre a questão, é válido citar o artigo “Cutting red meat – For a longer life”, publicado em junho de 2012 pela Universidade Harvard, a mesma citada por Varella quando diz que não se pode associar o consumo de carne com o surgimento de doenças. “Este estudo fornece evidências claras de que o consumo regular de carne vermelha, especialmente carne processada, contribui substancialmente para a morte prematura”, disse Frank Hu, um dos principais cientistas envolvidos no estudo e professor de nutrição da Harvard School of Public Health.

Na pesquisa, publicada no Archives of Internal Medicine em 9 de abril de 2012, uma equipe de pesquisadores de Harvard procurou estabelecer ligações entre o consumo de carne e a as causas de mortalidade. Eles examinaram os casos de 84 mil mulheres e 38 mil homens em mais de duas décadas. Aqueles que consumiam principalmente carne vermelha, claramente se enquadravam nos grupos de risco de morte prematura.

Depois de 28 anos, aproximadamente 24 mil pessoas que participaram dos estudos da Harvard Medical School sobre a associação entre consumo de carne e mortalidade, faleceram em decorrência de doenças cardíacas e câncer. Analisando os questionários feitos pelos pesquisadores, constatou-se que essas pessoas tinham entre seus hábitos alimentares o consumo de bife, carne de porco, cordeiro e hambúrgueres.

Eles também comiam embutidos como bacon, cachorro-quente, salsicha e salame, entre outros. O estudo determinou que cada porção diária adicional de carne vermelha aumentou o risco de morte em 13%. O impacto subiu para 20% tratando-se de carne processada.

Na entrevista à Revista Globo Rural, Dráuzio Varella pontua que qualquer um tem o direito de ser vegetariano, mas que nem por isso evitará um ataque cardíaco, caso seja sedentário, tenha genética desfavorável, colesterol elevado e hábito de exagerar na comida. Bom, os vegetarianos e veganos que conheço não se veem como imune a todas as doenças do mundo, mas fazem o que está ao seu alcance para tentar evitá-las.

O vegetarianismo enquanto opção alimentar não é perfeito, e sabemos que há inúmeras variáveis, mas usar desse discurso para desconsiderar a dieta vegetariana é reverberar senso comum, já que ninguém está negando o fato de que sedentarismo e obesidade também podem ser prejudiciais para vegetarianos e veganos. No entanto, o que os estudos que mostram os malefícios do consumo de produtos de origem animal provam é que é mais fácil ser saudável não consumindo carne do que comendo. Ou seja, uma pessoa obesa que opta por uma dieta vegetariana tem mais chances de recuperar a própria saúde.

Outro artigo da Universidade Harvard, intitulado “Becoming a Vegetarian”, e publicado em outubro de 2009 e atualizado em 18 de março de 2016, explica que comparado com os consumidores de carne, vegetarianos tendem a consumir menos gorduras saturadas e colesterol, e mais vitaminas C e E. Também têm uma dieta mais rica em fibras, ácido fólico, potássio, magnésio, carotenoides e flavonoides.

Como resultado, eles têm níveis mais baixos de mau colesterol, pressão sanguínea mais baixa, e tudo isso pode ser associado à longevidade e redução do risco de muitas doenças crônicas. Em 2003, a Associação Dietética Americana (ADA) publicou um relatório afirmando que os vegetarianos têm 50% menos riscos de contrair diabetes, doenças cardíacas e amargar oscilações nos níveis de colesterol.

Outra citação de Drauzio Varella que merece atenção é a de que a carne é uma fonte maravilhosa de B12. Realmente, carne é uma fonte de B12, mas frisar que é uma fonte maravilhosa é algo contestável, porque dá a entender que o consumo de carne por si só sempre vai ser o suficiente para impedir a deficiência de vitamina B12, o que não é verdade.

O mito de que consumir carne sempre garante bons estoques de B12 foi derrubado em 2000, quando o Framingham Offspring Study, publicado pelo The American Journal of Clinical Nutrition, constatou que 39% dos participantes de uma pesquisa realizada com três mil homens e mulheres sofriam de deficiência de vitamina B12. A informação mais reveladora é que não foi percebida diferença entre quem consumia carne vermelha, aves, peixes ou nenhum desses alimentos.

A conclusão do estudo foi de que todos, vegetarianos ou não, devem fazer exames e, se necessário, consumir suplementos de vitamina B12. E quanto à carne ser uma grande fonte de ferro, é importante deixar claro que ela não é a única. Drauzio poderia ter citado também as leguminosas, castanhas, sementes, cereais integrais, couve, frutas secas e melado.

A minha intenção não é desmerecer o trabalho do médico oncologista Drauzio Varella, que é uma referência para tantos brasileiros, e com sua experiência e conhecimento trouxe luz a importantes debates ao longo de décadas. Porém, no que diz respeito ao vegetarianismo e à defesa do consumo de alimentos de origem animal, ele tem feito declarações, e não de hoje, ignorando todos os estudos que fazem oposição a uma dieta rica em proteínas de origem animal.

Fontes que comprovam que uma dieta vegetariana é mais saudável não faltam. Outro exemplo é a pesquisa “Vegetarian dietary patterns and mortality in Adventist Health Study 2”, da Universidade Loma Linda, referência em cardiologia, realizada com 70 mil pessoas nos Estados Unidos. Depois de seis anos, os pesquisadores concluíram que o número de morte entre vegetarianos foi 12% menor do que entre aqueles que consumiam carne.

Saiba Mais

O estudo “Comparison of Nutritional Quality of the Vegan, Vegetarian, Semi-Vegetarian, Pesco-Vegetarian and Omnivorous Diet”, concluído em 14 de março de 2014 por pesquisadores belgas concluiu que veganos têm os hábitos alimentares mais saudáveis.

O livro “The China Study” inspirou a criação do documentário “Forks Over Knives“, que conta a história do jornalista Lee Fulkerson, que teve a vida transformada depois de adotar uma dieta vegetariana.

Referências

http://revistagloborural.globo.com/Colunas/sebastiao-nascimento/noticia/2017/04/critica-carne-e-ideologica-diz-drauzio-varella.html

http://www.socakajak-klub.si/mma/The+China+Study.pdf/20111116065942/

http://www.health.harvard.edu/staying-healthy/becoming-a-vegetarian

https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/10648266

http://www.mdpi.com/2072-6643/6/3/1318

https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/23836264

https://www.andeal.org/vault/2440/web/JADA_VEG.pdf

http://www.mdpi.com/2072-6643/6/3/1318

 

http://tv.fusion.net/story/338095/last-year-americans-ate-meat-like-it-was-going-out-of-style-its-not/

 

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