David Arioch – Jornalismo Cultural

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Uma luz estranha

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Notei uma luz estranha, como se estivesse me seguindo

À noite, saindo da academia, notei uma luz estranha, como se estivesse me seguindo; projetando-se rasteira, em direção às minhas pernas. Quando olhei para trás, vi um cachorro com uma lanterninha na cabeça.

 

 





Written by David Arioch

May 17, 2017 at 1:06 am

Que tudo que você não fala ganha vida “na sua cara”

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Berlin Wall East Side Gallery

Quando eu era criança, acredito que por volta dos oito anos, um dia a professora, uma freira, me chamou diante da turma na Escola São Vicente de Paulo e perguntou o que mais gosto de fazer:

— Gosto de escrever.
— O que você escreve, David?
— Histórias…
— Que tipo de histórias?
— Das coisas que vejo na rua, na “cara das pessoas”…
— Como assim na “cara das pessoas”?
— É que a “cara das pessoas” é feita de histórias.
— De que tipo?
— Do tipo que elas não querem contar. Então eu imagino o que é e escrevo…
— Mas isso não é ser mentiroso?
— Não…
— Me explique melhor…
— Se você prestar atenção, muitas vezes a “cara das pessoas” diz aquilo que elas não querem contar.
— E o que elas não querem contar?
— Acho que muita coisa. Meu avô fala que trazemos “na cara” as histórias que não contamos.
— E o que isso significa pra você?
— Que tudo que você não fala ganha vida “na sua cara”.

 

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Written by David Arioch

May 14, 2017 at 11:08 pm

O gato branco com o rato na boca

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Foto: NatalieShuttleworth/Getty Images

Vejo o gato branco e bem alimentado pela vizinha com algo acinzentado na boca. Paro o carro e reconheço que é um ratinho ainda vivo. O gato retribui o meu olhar com altivez. Encosto o carro, desço e vou atrás do gato.

Ele sai correndo e sigo no encalço. Depois de correr três quarteirões, o gato invade um terreno baldio. Pulo o muro e continuo a perseguição. Ele continua me olhando com ar de vitória, uma expressão capciosa de deboche; como se eu jamais fosse capaz de encurralá-lo.

Então o gato se embrenha no meio da sarça e, sem contar com o imprevisível, fica preso em uma planta rasteira. Me aproximo, ele não vela o desgosto. Massageio seu cangote e, apesar da resistência inicial, acaba soltando o ratinho ainda vivo. Por dois ou três segundos, parece que nem o camundongo acredita no que aconteceu. Quando recobra os sentidos, desaparece através de um buraco no muro.

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Written by David Arioch

May 10, 2017 at 2:19 pm

Posted in Crônicas/Chronicles

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O conflito da medonha

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A barrinha de proteína a quem dei o nome de Medonha (Foto: David Arioch)

Hoje à tarde, passei no trabalho de uma amiga e conversamos um pouco na cozinha da empresa onde ela trabalha. Nesse ínterim, tirei uma barra do bolso e comecei a comer. Curiosa, ela me olhou e perguntou:

— O que você tá comendo?
— Medonha!
— Nossa, David! Que grosseria! Que baixeza!
— Como?
— Me xingando do nada…
— Claro que não! Medonha é o nome da minha barrinha!
— Agora não adianta tentar se justificar.

 

 

 
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Written by David Arioch

May 10, 2017 at 2:09 pm

Beijos ao acaso

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Praça do Teatro Municipal, onde nos beijamos (Foto: Elessandro Almeida)

No ano passado, durante um espetáculo no Teatro Municipal, sentei sozinho nas últimas poltronas, como de costume. Gosto do silêncio da plateia e da ampla perspectiva do palco. Assim que me levantei, esbarrei em uma moça. Era muito bonita. Me desculpei e ela perguntou se poderia sentar ao meu lado.

— Sim, fique à vontade.

Trocamos alguns olhares que se encontravam e outros que se desencontravam.

— Quer sair daqui? — ela perguntou.

— Como?

— Dar uns beijos…

— Onde?

— Lá fora.

— Pode ser. Vamos aí.

Ela sorriu, deu um puxão na minha barba e saiu na minha frente. Fui atrás dela e nos encontramos lá fora. Não havia ninguém além de nós. A praça não estava tão clara, mas uma luz amarelecida e vacilante iluminava nossas cabeças. Nos beijamos por alguns minutos, espreitando a movimentação.

— Vamos lá pra casa – ela disse.

— Será que é uma boa? Não nos conhecemos direito…

— É sim. Você vai gostar. Relaxa…

— Ok…

Chegando lá, encontramos a família toda na sala. Provavelmente 10 a 12 pessoas. Ela perguntou meu nome na frente do pai e da mãe. Respondi naturalmente enquanto coçava a barba.

— Você não é brasileiro, é? — perguntou o homem.

— Não…

— Sabia! Com essa cara…

— Hum…

— Vamos lá pra varanda — ela sugeriu.

Nos beijamos um pouco mais, até que começamos a nos estranhar. Depois de meia hora, os olhos dela não eram mais os mesmos. Àquela altura, percebi que não tínhamos nada em comum, a não ser tempo ocioso. Ela me observou e disse:

— Você é muito barbudo. A gente podia cortar um pouco. Vou pegar a tesoura.

— Que isso? De jeito nenhum!

— Olhe, meu amor, se quiser namorar tem que ser do meu jeito…

— Como assim namorar? Quem aqui está falando em namoro?

— Como não, seu filho da puta? Você acha que é bom demais pra mim? É isso?

— De jeito nenhum. Você é incrível. Acho apenas que não estamos namorando…

— Como? Gostou de beijar, não gostou? Agora tem que seguir o riscado.

—Que isso, moça! Que riscado? – questionei com o coração palpitando.

— Você acha que é assim?

— Nos conhecemos, sei lá, acho que não tem mais de 40, 45 minutos…

— Não interessa. Você aceitou conhecer meus pais. Eles estão de prova.

Subitamente, ela gritou e o velho apareceu segurando um facão. O imaginei vindo para cima de mim arrastando a lâmina no piso e saltando com o facão apontado para a minha garganta.

— Quer um pedaço de cana? Estou rachando agora — perguntou o homem.

— Não, senhor, mas muito obrigado pela gentileza — respondi tentando esconder o suor das mãos que tremulavam.

O velho piscou e voltou para dentro da casa sem dizer nada. Ela continuou furiosa.

Falei que era melhor eu ir embora.

— Amanhã você vem que horas me ver?

— Não moro aqui.

— Mas você volta, né?

— Volto sim.

— Sendo assim, vou confiar na sua palavra.

Por garantia, passei três meses escondido dentro de casa.

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Written by David Arioch

May 10, 2017 at 1:48 pm

“Po, olha esse cara! Bruto demais dos pés até a touca”

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Passei no mercado para buscar pão para a minha mãe (Foto: Reprodução)

Saí da academia e passei no mercado para buscar pão para a minha mãe. Na fila do caixa rápido, um cara ficava me observando. Até que ele se aproximou e disse:

— Caramba, mano! Tenho que te falar! Você tem um visu que dá medo! Olha o físico e a cara desse homem aqui, Renata!

Envergonhada, a moça que o acompanhava apenas sorriu e comentou:

— Não liga não. Meu irmão é assim mesmo.

Com meu típico sorriso enviesado, comentei que estava tudo bem. Então ele continuou:

— Po, olha esse cara! Bruto demais dos pés até a touca. Que barba sinistra, meu velho!

Eu já constrangido, sem saber o que dizer, pensei até em sair da fila do caixa rápido. Então Renata o puxou pelo braço, o levando para o setor de hortifruti. De lá, ele ainda falou:

— Serião, mano! Se você me der um tapa acho que eu não levanto.

Enquanto algumas pessoas riam e sorriam, eu só acenava a cabeça e tentava esconder a vergonha por trás da barba.

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Written by David Arioch

May 6, 2017 at 1:34 am

O gato preto

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Começou a miar e a esfregar as unhas na minha barba (Foto: Reprodução)

Voltando da academia, um gato preto saltou no capô do meu carro. Quando uma moça se aproximou para pegá-lo, ele pulou em meu colo e começou a miar e a esfregar as unhas na minha barba, como se procurasse alguma coisa.

Depois de tanta insistência, e já me sentindo sem jeito diante da situação, da minha barba caiu uma modesta porção de ração. O gato comeu, miou, saltou e bebeu a água que a moça serviu em um potinho na calçada.

Satisfeito, deu uma última olhadela para mim e para a moça antes de correr para a escuridão, onde vi seus olhos denunciarem malícia e intenção. Estava feito! Um pneu furado e a lataria do carro visivelmente riscada.

O gato preto cobrou de quem o ignorou. Deixou sua assinatura em uma caminhonete estacionada sob a luz bruxuleante de um poste, onde seus riscos cintilavam como faíscas de azar e sorte.

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Written by David Arioch

April 19, 2017 at 1:05 am

Um motorista embriagado

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Desci e caminhei em sua direção. Embriagado, o sujeito mal falava (Arte: Reprodução)

Em novembro de 2014, eu estava em frente a um mercado quando um motorista bateu à esquerda do meu carro e seguiu ziguezagueando pela rua. Quando vi o amassado pelo retrovisor, fui atrás dele. Sinalizei para que parasse e ele encostou o seu Corcel II bem deteriorado, com o escapamento arrastando no asfalto.

Desci e caminhei em sua direção. Embriagado, o sujeito mal falava. Sua esposa também desceu e expliquei que ele bateu no meu carro. Constrangida, a mulher se desculpou enquanto o marido fazia caretas, ria e tamborilava as mãos sobre o capô do carro. Ele parecia não se importar com a situação. No banco de trás, uma garotinha de tranças, com três ou quatro anos, assistia tudo em silêncio, segurando uma bonequinha inteiriça de plástico duro, dessas mais baratas.

A esposa do motorista me deu o número do seu telefone e implorou para não chamar a Polícia Militar. Na realidade, eu nem tinha essa intenção. Ela sugeriu que eu entrasse em contato para passar o orçamento do conserto. Antes de ir embora, perguntei de onde eles eram e o que faziam. “A gente mora e trabalha na roça dum homi aí, ‘samo lavrador’. Tamu ino visita o túmulo da minha mãe. Pedi pra ele não beber, mas é teimoso demais. Cê pode ligar qualquer hora”, se justificou constrangida.

Nunca liguei. Só assisti o sujeito serpenteando o carro e desaparecendo dois quarteirões abaixo enquanto a fumaça do escapamento ocultava o veículo. A sinuosidade de suas vidas talvez fosse representada pelos traços sulcados no rosto daquela mulher precocemente envelhecida. Meu prejuízo material nem de longe se aproximava do seu padecimento existencial.

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Written by David Arioch

April 12, 2017 at 8:38 pm

Sete pãezinhos e um fujão

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Peço sete pães e aguardo a atendente selecioná-los na sua rotineira cordialidade (Foto: Reprodução)

Na padaria do mercado, peço sete pães e aguardo a atendente selecioná-los na sua rotineira cordialidade. De repente, escuto um som fofo e morredouro na sua sutilidade – do tipo “ploft” suave. O pãozinho agoniza no chão. Gerado há pouco tempo, já não tem mais razão de ser, caído sem chance de se restabelecer. Posso ver nos olhos da atendente que ela discorda. Me observa de soslaio, esperando apenas uma distração e, quem sabe, numa plena desatenção, uma oportunidade de enfiar no saco o “pãozinho sujo”, privado da própria vocação.

Não tiro os olhos dela. Ela reage virando as costas para mim, e manipula o saco de pão com uma astúcia que parece sem fim. Não desiste! E meus olhos continuam mirando-a. Escuta meus passos. Sei disso porque vejo suas orelhas vibrando e seus olhos titubeando. Estamos mais próximos do que antes. E minha sombra desarmoniza suas intenções. Ela disfarça por mais um ou outro segundo, sorri em minha direção, e encosta o pãozinho na parte externa do saco marrom.

Há um ou dois minutos, ele era igual aos outros. Ninguém pode negar, mas foi maculado, e aos seus irmãos já não pode se juntar. Que assim seja feita a justiça do alimento! Juro que por um segundo vi um traço que parecia um sorriso. Um pão sorrindo? Impossível! Ou não? A moça da padaria me entrega o saco de pão quente. Ruborizada, me dá um último sorriso, sem velar o ar de derrota.

Quando abro o saco, e, descuidado, inalo a fumaça que me esbraseia o salão, vejo sete irmãozinhos parifomes repousando. Do outro lado, o pãozinho fujão se esconde de baixo de um segundo balcão, e desaparece em um buraco do tamanho de minha mão.

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Written by David Arioch

April 9, 2017 at 12:49 am

No caixa do Muffato

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Na fila do caixa do Muffato, encontrei uma mulher sofrendo para carregar a compra em uma cestinha, então me ofereci para ajudar. Quando chegou a vez dela, a filhinha, que deve ter uns três anos e carregava um pacote de bolachas e um saquinho de frutas, esperou eu me afastar um pouquinho e disse: “Que muçulmano bonzinho, mãe!”





Written by David Arioch

April 1, 2017 at 11:06 pm