David Arioch – Jornalismo Cultural

Jornalismo Cultural

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“Carrega também, pai”

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No início da noite, quando saí da academia, passei em frente ao Rotary. Um garotinho, sem qualquer sinal de constrangimento, apontou o dedo para mim e chamou a atenção de seu pai.

— Pai, por que você não é forte que nem aquele tio árabe ali?
— Deve ser porque em vez do camelo carregar ele é ele quem carrega o camelo.
— Sim, carrego camelo nas costas — comentei de longe.
— Carrega também, pai — comentou a criança.

 

 





Written by David Arioch

September 14th, 2017 at 12:50 am

Promoção no açougue

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“Será que vou conseguir levar alguma coisa?”

Promoção no açougue. Fila imensa. Pessoas sorrindo. Pessoas apreensivas. Medo de não sobrar nada. “Será que vou conseguir levar alguma coisa?”, se perguntavam.

Alguém se acotovelou? Sim, sutilmente e bruscamente. O cheiro da câmara fria amenizava o calor de mais de 30 graus. Trazia um cheiro glacial de osso, de carne. Cheiro de morte? Sim, mas isso não sei se alguém considerou. Menos ainda se a fome dominou.

Faca que corre pelo corpo despedaçado. Serra, serra que não para. E não para mesmo. Vamos ensacar. Sorriso, churrasco, gargalhada. Gargalhada, churrasco e sorriso. Era o assunto do momento. Sem traços de vida. “Não saio daqui com menos de 30 quilos”, comentou um homem de meia-idade. Respirava com dificuldade. Fôlego fraco. Hipertensão? Doença coronariana? Pode ser.

— Com licença, posso lhe mostrar algo rapidamente? Preciso apenas de uma breve opinião.
— Sim, sem problema.
— Que merda é essa? Você é louco? Mostrar isso pra mim na fila do açougue.

Agradeci e caminhei até o próximo da fila. Mais um pedido.

— Que isso, menino! Me respeite que eu poderia ser sua mãe.
— Ok.

Mais um.

— Ah, piá sem noção! Tá maluco? — disse uma moça.

Outro.

— Respeite minha família. Estou com minha esposa e filhos aqui.

Mais.

— Acabou com o meu apetite. Tá satisfeito agora, seu infeliz?
— De modo algum, senhor.

Continuei.

— Ô açougueiro, faça alguma coisa aqui. Chame a gerência, sei lá. Esse cara aqui tá perturbando todo mundo na fila.
— Não, senhor. Pedi licença todas as vezes, e vocês concederam. Bom, acho que já cumpri o meu papel.
— Papel? Isso aí deve ser tudo mentira, coisa encenada. Ou se for verdade, coisa rara que acontece só nos piores lugares.
— Ok.
— Só isso que você tem a dizer?
— Sim. Agradeço a atenção de todos. Não tenho do me que queixar.
— É? Mas nós temos, de você sendo inconveniente.
— Obrigado. Tenham uma boa tarde.

Guardei o celular no bolso, mas antes li uma última mensagem que encerra o vídeo: “A consciência clama pelo que já não descansa.” Cinco pessoas abandonaram a fila.

— Já é alguma coisa — monologuei em direção à saída.

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Como você entrou aí?

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Na semana passada, andando perto da Catedral, ouvi uma voz estridente.

— Ei, você aí.

Tive que olhar várias vezes para ter certeza de onde vinha aquela voz.

— Aqui, mano. Cola aqui.
— Que isso? Como você entrou aí?
— Como cheguei aqui não interessa, parceiro. A verdade é que vamos ficar rico hoje.
— Quê?
— Bora caçar um tesouro. Tem coisa boa aqui dentro. Chega aí.
— Não, obrigado. Pode ficar com o tesouro pra você. Preciso trabalhar.
— Trabalhar pra que, mano? Você é bobo?
— Agradeço a consideração, mas vou indo.
— Azar o seu, louco.

O sujeito estava dentro de um bueiro, e entre as grades eu conseguia ver apenas sua testa lambuzada, sua boca se movendo e seus dedos cobertos de fuligem.

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Written by David Arioch

September 11th, 2017 at 1:28 am

Você anda falando com a minha mulher no Facebook

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Arte: Alex de Pase

— Você anda falando com a minha mulher no Facebook.
— Depende, falando o que?
— Conversando, ora.
— Imagino que se for verdade, seja uma conversa normal.
— Não é pra ter conversa normal com ela.
— Não?
— Não.
— E?
— E aí que não é pra falar com ela. Conversa de nenhum tipo.
— Senhor, converso com inúmeras pessoas diariamente. Até porque o meu trabalho é escrever. Se escrevo e publico, isso atrai pessoas, e pessoas conversam.
— Mas não com minha mulher. Não é pra falar com ela.
— Onde o senhor conseguiu o meu número?
— Isso não vem ao caso.
— Não fale com minha mulher.
— Ok.
— Tá avisado.
— Sem problema. Obrigado pela gentileza de me ligar e tenha uma boa noite.
— Não fale com minha mulher, viu?
— Uhum.

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Written by David Arioch

September 11th, 2017 at 1:20 am

Uma situação de risco

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Arte: Gerard Boersma

Há três anos, eu estava parado em um semáforo em uma rua escura. Notei duas motos colando no meu carro. Quando vi pelo retrovisor um rapaz abrindo a mochila, retirando algo rapidamente e a repassando para o outro motociclista, não pensei duas vezes. Iriam me assaltar.

Os dois usavam capacete com viseira preta, o que tornava impossível identificá-los. Assim que o semáforo abriu, segui meu caminho, mas fingindo que estava tudo bem. E os dois vieram no encalço, cada um de um lado. Decidi mudar o trajeto. Assim que virei à esquerda, derrubei sem querer um dos motociclistas, que bateu na lateral, rente ao pneu traseiro.

Parei o carro e fui até ele pra saber se estava machucado. O jovem estava bem, apenas atordoado. Ofereci toda a assistência necessária, inclusive autorizei que ele substituísse todas as peças danificadas da moto. Também recomendei que ele não fizesse mais aquilo. O pneu da moto dele estava quase colado no meu para-choque no semáforo. E eram mais de 23h. Difícil não pensar que era um ladrão.

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Written by David Arioch

September 10th, 2017 at 10:57 pm

Como você descobriu onde eu moro?

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Arte: San Martin

O cara chega na sua casa depois das 22h pedindo dicas de musculação. Você nunca o viu na vida.

— Como você descobriu onde eu moro?
— Me falaram por aí.
— Como assim por aí? Você vai me desculpar, mas isso é muito estranho.
— Como?
— Vir na minha casa essa hora sendo que nunca te vi.
— É que eu só tinha esse horário livre pra falar contigo, fora que a noite é mais silenciosa.

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Written by David Arioch

September 10th, 2017 at 10:52 pm

Dizem que boi não fala

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Arte: Betty Mulligan

Na saída de Paranavaí, encontrei um boi tentando se coçar no tronco de uma árvore na entrada de um sítio. Ele parecia solitário, mas ao mesmo tempo tranquilo, sentindo a brisa massageando suas orelhas cendradas. Desci do carro. Não havia ninguém além dele. Ameacei me aproximar e o boi manteve os olhos em minha direção.

Não parecia incomodado com a minha presença. Cheguei perto e ele parou de se coçar e ficou me olhando por um instante, sem mover qualquer parte do corpo, como uma estátua de carne e osso. Cheguei mais perto. Continuou se esforçando em vão. Ainda mais perto. O boi não achou ruim. Ousei e massageei sua cabeça adornada por um belo par de chifres, uma verdadeira raridade num universo onde cornos são cerrados logo cedo.

Quando encostei a mão em seu dorso, ele abaixou a cabeça e depois a levantou. Então passei a mão exatamente onde ele não conseguia se coçar. Seu corpo tremia como de uma criança recebendo carícias. Depois de cerca de dois minutos, me afastei, até que um homem se aproximou.

— Ele é manso mesmo. Só tem essa cara que às vezes dizem que assusta, mas é bom de tudo. Não tem maldade nenhuma, diferente da gente.
— É o senhor que mora aí?
— Não…era a casa do Seu Barbosa. Só que ele já morreu e o boi ficou.
— Como assim? E nunca tentaram matar ele?
— Esse aí? Esse aí é o Tucurunda. É boi, mas a vizinhada cuida dele e respeita por causa da história dele.
— Que história?
— Ele salvou um menino de morrer afogado.
— Como assim?
— O Joinha foi criado junto com ele, o filho do Seu Barbosa, e há muito tempo ele os primos foram brincar no açude ali pra baixo. Quando o menino pisou em falso e afundou, o boi tava na margem e começou a mugir, mugir bem alto, até que o Seu Barbosa ouviu e veio correndo. Ele pulou na água e deu tempo de puxar o menino ainda com vida. Graças ao Tucurunda, né?
— Que história incrível…
— Pois é…e dizem que boi não fala.

 

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“Sim, o plano ainda é o mesmo”

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“Claro que sim. Nada mudou”

Em uma longa fila, enquanto eu aguardava pacientemente e observava a movimentação, um camarada me ligou.

Eu — Sim, o plano ainda é o mesmo. Não precisa se preocupar.

Eu — Claro que sim. Nada mudou.

Eu — Ele confirmou que vai fazer a instalação.

Eu — Pode confiar. O material realmente é de boa qualidade.

Eu — Melhor, impossível. Com ele, não tem erro.

Eu — Acho que teremos uma explosão daquelas, de felicidade.

Eu — Sim, está tudo acertado. Vai ser uma surpresa tremenda. Só tem que tomar cuidado pra ninguém perceber nada antes.

Eu — Não, creio que não. Ele disse que o trabalho de instalação é garantido. Sim, não precisa ativar nada, vai vir tudo pronto.

Eu — Arriscado? Não, de modo algum.

Conforme a conversa fluía, notei algumas pessoas me assistindo. Mas simplesmente ignorei. Uma senhora com olhar assustado, e que estava logo atrás de mim, apontou o dedo em direção à minha barba, e saiu da fila a passos ligeiros. Não entendi o motivo e continuei a conversa.

Eu — Você avisou?

Eu — Eles vão correr onde depois?

Eu — Eles já tinham me avisado.

Mais duas pessoas saíram da fila.

Eu — Sim, ele não quer que o grupo leve crédito por nada. Já pediu anonimato.

Eu — Claro que não. Não tem a menor chance. Vai acontecer como planejado.
Mais uma pessoa se afastou.

Antes de desligar o celular, Roberto comentou:

— Uma pena que eles não poderão participar por causa do treino, mas espero que o braço mecânico funcione e que o Seu Zé goste, porque deu tanto trabalho pra conseguir um.

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Written by David Arioch

August 20th, 2017 at 10:32 am

Posted in Crônicas/Chronicles

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“Tio, você já deve ter matado muita gente”

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Pintura: K. Pralahad

Há algum tempo, eu estava na Oficina do Tio Lu, na Vila Alta, na periferia, quando um garotinho veio conversar comigo. Curioso, sorria e não tirava os olhos dos meus braços.

— Tio, você já deve ter matado muita gente.
— Por que você acha isso?
— Por causa do tamanho do seu braço, ué. É muito forte.
— E você acha que braço forte é pra matar pessoas?
— Se não é pra matar, é pelo menos pra bater, né?
— Não, claro que não.
— Ué, não?
— Não…
— Ué, pra que então?
— Pra abraçar.
Ele ficou em silêncio me olhando.
— Não é melhor?
— É sim… — respondeu com um sorriso amarelecido.

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Written by David Arioch

August 19th, 2017 at 12:15 am

“Você é um ladrão de ar, um ladrão!”

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” Você não acha que deveria inspirar e respirar um pouco menos?”

No banco, enquanto eu aguardava a minha vez, um senhor perscrutou um rapaz:

— Você não tem ideia do mal que está fazendo.
— Como?
— Isso mesmo!
— Isso mesmo o que?
— Você inspira e respira alto, com uma intensidade absurdamente desconfortável e desrespeitosa. Isso é ultrajante!
— Como?
— Isso mesmo!
— Isso mesmo o que?
— Você não acha que deveria inspirar e respirar um pouco menos? Não se dá conta de que está me roubando um pouco de ar? Não só meu, mas de todos que estão próximos de nós.
— Respiro normalmente. De boa.
— Não mesmo. Sinto que o ar não está fluindo corretamente desde que você se aproximou. Você é um ladrão de ar, um ladrão! — bradou o homem, chamando a atenção das pessoas mais próximas.

Assustado, o rapaz se levantou e caminhou até o outro lado do banco, temendo que o homem se aproximasse.
O sujeito de meia-idade ainda o assistia à segura distância com um olhar reprovador, ajeitando os óculos sobre o nariz. Cutucou o vizinho e disse:

— Agora ele vai roubar o ar daqueles outros infelizes, é um tremendo ladrãozinho de ar.

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Written by David Arioch

August 8th, 2017 at 4:41 pm