David Arioch – Jornalismo Cultural

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A realidade do Carnaval que muitos ignoram

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Written by David Arioch

February 13th, 2018 at 2:08 am

O tratamento que dispensamos aos não humanos

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Animais famintos em direção ao matadouro e a última refeição de John Wayne Gacy, um dos serial killers mais famosos dos Estados Unidos (Fotos: Eyes on Animals e Departamento de Segurança dos Estados Unidos)

Para que as pessoas possam se alimentar de uma “carne de qualidade”, os animais, por padrão, são deixado em jejum prolongado. Isto, claro, para que suas reações fisiológicas associadas à última refeição não comprometam a qualidade da carne. Como isso pode parecer justo? Aceitável? Você já considerou o fato de que até mesmo serial killers, ou seja, assassinos que não raramente são considerados os piores seres humanos, recebem melhor tratamento?

Um exemplo? Sujeitos que estupraram e mataram dezenas de pessoas e que são condenados à morte nos Estados Unidos costumam ter o direito de escolher uma última refeição com tudo que lhes agrada. Já os animais não humanos, relegamos à fome antes do golpe mortal. Sendo assim, como alguém pode dizer que reprovar o consumo de animais e lutar pelo direito à vida não humana não é importante? Seres não humanos estão na pior escala de tratamento da história da humanidade. Muito abaixo daqueles que são considerados alguns dos piores criminosos da nossa história contemporânea.





 

O jogo de interesses na exploração de animais e a contradição da salvação

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Será que aos olhos dos animais não somos vistos como assassinos?

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Ilustração: Criminal Minds Encyclopedia/Foto: Jo-Anne McArthur/WeA nimals

Vamos esquecer por um instante o conceito legal, tradicional e legitimado socialmente de certo e errado e suas implicações ulteriores. Será que o famigerado Assassino do Zodíaco poderia ser considerado um executor com uma proposta de morticínio que segue os princípios do “abate humanitário”? É inegável que ele era um psicopata que usurpava vidas, e por isso merecia ser responsabilizado por seus atos. Mas, por pior que fossem suas ações, me parece, valendo-me me de sua trajetória, que ele não deixava de ter um código de ética.

Afinal, ele matava suas vítimas com tiros cirúrgicos, com precisão letal. Suas ações, independente de motivação, não deixavam rastros de passionalidade. Como um criminoso organizado, era como se estivesse simplesmente cumprindo um trabalho; tanto que sequer tocava suas vítimas. Ele não as torturava; não tinha qualquer interesse ordinário ou especial pelo sofrimento, mas apenas pelas consequências daquilo que não existiria sem o sofrimento pessoal ou transferível em algum nível. Ou seja, a morte.

O contato direto, a fisicalidade, não o interessava. O seu ritual se resumia ao gatilho. O prazer, se existiu, estava no disparo, e o seu clímax no desvanecimento da existência. E foi isso que impediu que ele jamais fosse capturado. Não era previsível nem imprevisível. Ostensivo e privativo, eu diria. Usava sempre o mesmo uniforme e quase sempre a mesma arma. Seu modus operandi e sua assinatura eram unos e indefectíveis na sua expressão e categoria nos anos 1968 e 1969. Seu método empedernido, mesmo que não motivado economicamente, já que não lucrava para matar, me levou a uma associação, concordem ou não, entre a sua pistola e a captive bolt pistol (no Brasil, conhecida como pistola de atordoamento ou de abate), usada nos matadouros dos países de “Primeiro Mundo” desde as primeiras décadas do século 20.

Me refiro à pistola empunhada pelos magarefes para disparar com brutal naturalidade um dardo que penetra o crânio de um animal não humano e atinge seu cérebro na tentativa de insensibilizá-lo no processo de abate. Se fizéssemos isso com seres humanos, independente de motivação, mesmo que em um caso de reparação ou de “lei de talião”, não seríamos considerados vis, túrbidos, refeces, monstros? Jeffrey Dahmer lobotomizava suas vítimas humanas. Será que o que fazemos com os animais antes de matá-los nas linhas de execução é tão diferente da lobotomização? Já que o disparo da captive bolt pistol rouba-lhes a própria identidade, tornando-os inúteis na sua própria essência, assim como os lobotomizados.

Acredito que há funcionários de matadouros que realmente não sentem prazer em tirar a vida de um animal não humano, já que muitos cumprem esse trabalho por alegada necessidade. Porém, será que isso não impacta em suas vidas? Em seu estado emocional e psicológico? Imagine ter um cotidiano pautado em violentar e matar animais. É preciso crer que está diante de objetos, não de vidas. É imprescindível desligar a compaixão – permitir-se uma dissociação. Do contrário, não serve para o trabalho.

Não que trabalhar em um matadouro transforme essas pessoas em sujeitos terríveis, já que são seres humanos imersos em um universo de legitimação de mortes de outras espécies. Afinal, eles seguem o protocolo da indústria e não ousam questioná-la por diversos fatores – pessoais ou não. A atividade se resume a ser pago, em muitos casos mal pago, para matar sob o respaldo legal. Há uma “roupagem” de atividade comum, impedindo que aquele que dispara uma arma contra a cabeça de um animal reconheça isso como errado, cruel, e menos ainda como assassinato. Claro, porque a humanidade diz que está tudo bem em matar, desde que não seja um ser humano; e desde que aquela morte gere algum produto ou bem de consumo.

O mundo ao seu redor diz que o que ele faz é certo numa proporção muito maior do que a condenatória, já que o valor da vida animal não humana é proporcional ao peso da carcaça no contexto comercial. Porém, há um aspecto tétrico a se considerar. Essa realidade pode brutalizar o ser humano e transformá-lo, se assim o permitir. E se o executor desenvolve prazer pelo que faz, mesmo que isso signifique a morte de ser de outra espécie, ele corre o risco de definitivamente abrir mão de uma das qualidades mais importantes do ser humano, que é a empatia. Isso realmente não é impossível. Vídeos amadores pululam no YouTube mostrando que como os animais não partilham do mesmo código comunicativo que nós, há sempre aqueles que agem, de fato, como violentadores, psicopatas, serial killers, rampage killers ou mass murderers em relação aos animais de outras espécies.

O contato naturalizado com a violência pode asselvajar o ser humano, principalmente aqueles que já têm predisposição à ferocidade; ou a transferir frustrações aos vulneráveis com quem convive – com destaque para aqueles que não podem reclamar do próprio sofrimento por não terem uma voz que inspira respeito e consideração. Quem não se recorda do clássico do cinema de terror intitulado “Texas Chainsaw Massacre?” Nas partes mais pesadas do filme, estamos diante de um matadouro, e tudo que acontece lá dentro choca facilmente os seres humanos porque as vítimas são humanas. Por outro lado, ignoramos que aquela é a realidade ordinária não humana. Desconsidere a figura do serial killer e substitua os personagens humanos do filme por animais e você terá uma representação trivial do cotidiano.

Pessoas penduradas em grilhões, e sendo golpeadas violentamente, assim como fazemos com porcos; e, claro, tendo partes de seu corpo removidas. O código de comunicação do assassino também parece ser outro, e a sua ausência de empatia faz refletir sobre a empatia que negamos aos seres de outras espécies. É como se não ouvíssemos os animais, assim como os assassinos em série não ouvissem os seres humanos – como se enxergassem a si mesmos como uma espécie além – dotada do direito de nos exterminar. Analise alguns discursos de serial killers e você verá que não é difícil perceber que vários deles se referem às suas vítimas como se fossem bovinos e suínos.

Claro que a minha intenção não é chamar de assassino quem sobrevive matando animais, mas o ato em si é análogo a um assassinato quando subtraímos vidas que não nos pertencem, independente de finalidade. Mas o mundo e a nossa realidade social, cultural e econômica nos dizem diariamente que esse assassinato é justo, necessário e legal, porque tem o aval da maior parte da população e do Estado. E a morte de animais, além de cruel e evidentemente desnecessária, já que é possível viver muito bem sem matar outras espécies para consumo, pode preparar alguém para ações que, enfim, despertem a atenção da população, deixando-a em choque, como é o caso dos crimes cometidos pelo Zodiac Killer, citado no início do texto.

Além desse, me recordo também do caso de Jeremiah Burroughs, funcionário de um matadouro, que enfastiado de executar animais dóceis, acabou por matar mais de 70 pessoas. Há quem diga que o meio e a naturalização da violência contra não humanos o levou a matar pessoas. Não posso afirmar, mas não duvido, e creio que ele não seja o único. Ademais, há inúmeros assassinos e serial killers que adotaram em suas execuções métodos comuns em matadouros e na indústria da carne. Outros exemplos são Jeffrey Dahmer, Robert Pickton, os Bloody Benders, Ottis Toole, Albert Fish, Ed Gein, Béla Kiss, Richard Trenton Chase, Joachim Kroll, Armin Meiwes, Andrei Chikatilo, Arthur Shawcross, Issei Sagawa e Robert Maudsley, entre outros.

Será que aos olhos dos animais não humanos que seguem matadouro adentro não existe a possibilidade de que sejamos vistos como serial killers, mass murderers? A verdade que muitos se negam a ver é que assim como vítimas humanas de assassinatos não têm qualquer anseio em morrer, os animais não humanos nos matadouros partilham do mesmo interesse. Uma prova disso? Antes de executar um animal, dê a ele, ou peça que deem a ele, a oportunidade de fugir. Então você terá sua resposta.





 

O protovegetarianismo na literatura do poeta romano Ovídio

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“Seres humanos, parem de profanar seus corpos com alimentos ímpios”

Ovídio ajudou a eternizar o filósofo grego Pitágoras como um dos precursores do vegetarianismo no Ocidente (Acervo: Ancient History Encyclopedia)

Influência para Dante Alighieri, Shakespeare, Caravaggio, Michelangelo, Boccaccio, Rembrandt, Rousseau, Chaucer, Kafka, James Joyce, Fernando Pessoa e Cruz e Sousa, entre outros importantes nomes da literatura e das artes plásticas, o poeta romano Ovídio se tornou mais conhecido pela autoria da obra em latim “Metamorfoses”, composta em 15 livros em hexâmetro heroico e considerada uma das mais importantes obras da mitologia clássica.

Quando “Metamorfoses” foi publicada pela primeira vez no ano 8 do século I, Ovídio chegou a ser considerado um contraventor em diversos círculos sociais, principalmente pela forma como descreve, mesmo que poeticamente, um mundo diferente daquele idealizado pelos imperadores da época. Até hoje a causa de seu exílio na remota Tomis (atual Constanta ou Constança, na Romênia), na Cítia Menor, ao Sul do Mar Negro, ainda á incerta, embora “Metamorfoses” tenha sido publicada no mesmo ano.

Mas não é difícil entender por que Ovídio, que gozava de grande popularidade, despertaria desconfiança e receio. Assim como alguns filósofos da Grécia Antiga que foram perseguidos por suas ideias que se voltavam mais para o desenvolvimento humano, equilíbrio entre os seres vivos e à potencialização de sensibilidades, como Sócrates, que foi obrigado a ingerir cicuta após 30 dias preso, Ovídio também não admitia restrições ao intelecto e à capacidade humana de gerir a compaixão e o respeito pela vida em suas multifárias formas.

No 15º livro de “Metamorfoses”, há dois capítulos em especial que chamam a atenção. Na versão traduzida do original em latim para o inglês por Anthony S. Kline, no capítulo “Os Ensinamentos de Pitágoras: Vegetarianismo”, Ovídio ajudou a eternizar o filósofo grego Pitágoras como um dos precursores do vegetarianismo no Ocidente, o que contribuiu para dar origem ao termo “pitagóricos” em referência a “vegetarianos”, locução que passaria a existir formalmente apenas no século 19, em referência a quem se abstém do consumo de carne e de outros alimentos de origem animal. Sendo assim, é importante reconhecer que se a história do vegetarianismo no Ocidente remete a mais de 2,5 mil anos, em parte isso se deve a autores como Ovídio, já que Pitágoras, por exemplo, não publicou nada em vida.

Em “Metamorfoses”, o poeta romano narra que havia um homem que fugiu de Samos porque, odiando a tirania de seus governantes, preferiu viver em exílio voluntário. Segundo Ovídio, embora os deuses estivessem longe, Pitágoras poderia visitá-los através do céu e do poder de sua mente, já que o que a natureza negou à visão humana, Pitágoras poderia desfrutar a partir do seu terceiro olho – em menção à sua capacidade intuitiva atilada.

Pitágoras fazia questão de dividir o seu conhecimento com o público. De acordo com o poeta romano, ele reunia multidões silenciosas que ouviam as maravilhas de suas palavras quanto à origem do universo e das causas das coisas. Discorria sobre o mundo físico, os deuses, o surgimento da neve, a origem dos relâmpagos, das tempestades, dos trovões e das estrelas. Na realidade, sobre tudo que era oculto ou mesmo intencionalmente velado. Incentivava também a abstenção do consumo de animais, um fato em especial que estimulou o pintor flamengo Peter Paul Rubens a conceber a pintura que receberia o nome “Pitágoras advogando o vegetarianismo”, criada entre os anos de 1618 e 1620.

“Ele foi o primeiro a condenar o ato de servir carne à mesa. […] Seres humanos, parem de profanar seus corpos com alimentos ímpios. Há colheitas, há maçãs envergando os galhos; e uvas amadurecendo nas videiras; há ervas aromáticas; e aquelas que podem ser suaves e gentis sobre as chamas; […] A terra pródiga de sua riqueza, fornece-lhe um suave sustento e oferece comida sem morte ou derramamento de sangue”, exorta Ovídio citando Pitágoras.

O poeta romano escreveu, baseando-se no discurso do grego, que a carne satisfaz a fome dos animais selvagens, embora não todos eles, já que cavalos, ovelhas e bovinos se alimentam de grama. “Tigres armênios, leões furiosos, lobos e ursos desfrutam de comida molhada com sangue. Ó, quão errada é a carne feita de carne; para um corpo voraz engordar, engolindo outro corpo; para uma criatura viver a partir da morte de outra criatura! Assim, entre essas riquezas, a terra, a maior das mães, cede. Você não é feliz a menos que rasgue, com dentes cruéis, lastimosas feridas, recordando assim a prática do ciclope; e você não pode satisfazer o seu voraz apetite e a sua inquieta fome a menos que você destrua outra vida”, critica.

Entre os ensinamentos de Pitágoras, Ovídio aborda a Era do Ouro, uma época em que os seres humanos eram felizes porque se satisfaziam com os frutos das árvores e com as ervas que a terra produzia, assim não contaminando os seus lábios com sangue. Naquele tempo, os pássaros abriam caminho no ar em segurança, sem terem o que temer, assim como os leões que vagavam sem medo da intervenção humana: “Mas, uma vez que alguém, quem quer que fosse, invejava as presas do leão e enchia sua insaciável barriga com carne, abria-se caminho para o crime.”

Ovídio relata que a violência humana contra os animais começou a partir da violência e da morte das “feras selvagens”. E tal ferocidade, também citada no diálogo de Sócrates com Glauco, e registrado por Platão em “A República”, remete à ganância humana, aos homens invadindo áreas naturais cada vez maiores não para satisfazerem suas necessidades básicas, mas sim para lucrarem com suas produções, o que deixa subentendido que havia aqueles que já não se contentavam com a igualdade. Estes buscavam status, distinção baseada no poder pecuniário.

“A perversidade se espalhou ainda mais, e acredita-se que o porco foi considerado o primeiro a merecer o abate porque arrancou as sementes com o seu largo focinho e destruiu a esperança de uma colheita. A cabra foi levada à morte, no altar da vingança, para navegar pelas vinhas de Baco. Esses dois sofreram pelos seus crimes!”, conta Ovídio, acrescentando que rebanhos tranquilos como de ovelhas, animais naturalmente pacíficos, também foram vítimas da procacidade humana, mesmo sem terem invadido ou destruído plantações.

Citando os ensinamentos de Pitágoras, Ovídio declara que o ser humano imerso na violência contra os animais é um ingrato, indigno da dádiva que é o milho. Também fala dos homens que forçavam os bovinos a puxarem o arado, e quando estes já não gozavam da mesma vitalidade eram mortos a sangue frio, com golpes de machado no pescoço:

“Não era suficiente ter cometido tal maldade; envolveram os deuses em seus crimes e acreditam que os deuses se deleitavam com o abate dos bois que sofriam. A vítima, com sua beleza excepcional (uma vez que ser agradável é prejudicial), e que se distinguia pelas fitas rituais de ouro, era posicionada em frente ao altar enquanto ouvia, sem entender, as orações, e via o milho que trabalhou tanto para produzir sendo colocado entre seus chifres, e depois derrubado, manchado com o sangue das facas que refletiam na água límpida.”

Tencionando descobrir qual era a verdadeira vontade dos deuses, os homens, imersos na violência legitimada, arrancavam os pulmões do peito dos animais enquanto estes ainda estavam vivos, com o coração rufando. “Disso (tão grande é a fome do homem pelo alimento proibido) você se alimenta, ó raça humana! Não, eu imploro, concentre sua mente nas admoestações. Quando você coloca a carne do gado abatido em sua boca, sabe e sente que está devorando uma criatura amiga”, censura o autor.

No capítulo “Os Ensinamentos de Pitágoras: A Santidade da Vida”, Ovídio defende que, seguindo os preceitos de Pitágoras, devemos permitir e garantir que os animais vivam em segurança e de forma honrada, não cabendo a nós intervir no curso de suas naturezas, nem decidir quando suas vidas devem findar simplesmente por um capricho hedonista:

“Não podemos preencher as nossas barrigas como se estivéssemos em um banquete canibal. Que perversidade eles fazem, quão impiedosamente se preparam para derramar o próprio sangue humano, aquele que rasga a garganta de um bezerro com a faca e escuta insensível o seu balido; […] que chora como uma criança, ou se alimenta de uma ave que eles mesmos alimentaram. Até que ponto isso não é um verdadeiro assassinato? Para qual caminho isso leva? […] Deixe o boi morrer de velhice. Não engane os pássaros com galhos molhados nem aprisione o veado, assustando-os com cordas emplumadas ou iscas traiçoeiras como ganchos farpados. […] Deixe sua boca livre de seu sangue, desfrute de uma comida mais suave.”

Saiba Mais

Ovídio nasceu no ano 23 a.C. em Sulmona, na atual Itália, e faleceu no ano 17 ou 18 da Era Cristã em Tomis, na Cítia Menor.

Além de “Metamorfoses”, Ovídio legou obras como “Amores”, “Cartas de Pônticas”, “As Heroides”, “Curas para o Amor”, “A Arte de Amar” e “Tristezas”.

Referências

Ovid. Anthony S. Kline. Ovid’s Metamorphoses. University of Virginia (2000).

Platão. A República. Nova Fronteira (2014).





 

Imagine a sensação…

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Foto: We Animals/Jo-Anne McArthur

Imagine a sensação de ter o seu pescoço puxado violentamente por uma corda. Imagine a sensação de carregar cicatrizes pelo corpo que são resultados de violência que membros de outra espécie animal perpetraram contra você simplesmente por diversão.

Imagine a sensação de não viver de acordo com a sua natureza e ainda ter o seu sofrimento exposto para uma multidão. Imagine a sensação de cair no chão, ter a face afundada na terra suja ou na lama e ouvir gritos, berros e risos daqueles que o assistem.

Imagine a sensação de não encontrar empatia por onde quer que você direcione os seus olhos que já não são os mesmos em decorrência da vida que lhe impuseram. Imagine em que ponto estaria o seu coração?





Written by David Arioch

December 31st, 2017 at 1:55 pm

Não, realmente não está tudo bem em explorar animais

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Animais não humanos também compartilham desse interesse em não morrer (Foto: Jan van IJken)

De acordo com a interpretação clássica do direito, basicamente os animais não têm direitos, enfatizou um camarada, referindo-se à nossa Constituição que realmente não assegura direitos aos animais. Sim, de fato, o que temos são leis subjetivas (alguns podem interpretar como limitadas, dúbias, capciosas ou falhas) de proteção aos animais contra a crueldade, o que em si é uma contradição em essência, já que a exploração animal, praticada neste momento contra milhões de animais só no Brasil, é um ato de crueldade em si – levando em conta dois fatores – a exploração precoce que culmina em morte precoce, ou a exploração precoce prolongada que também culmina em morte. A morte em si é um ato de crueldade refletido nos olhos da vítima que não quer ceder.

— Mas se a lei diz que não é crime explorar esses animais na indústria frigorífica ou leiteira, significa que está tudo dentro da lei, dentro do senso de justiça ocidental, logo não há nada de errado nessa prática.

— Realmente, mas todas as suas ações se sustentam em parâmetros legais? Quero dizer, se a lei não diz que alguns de nossos atos não são criminosos, então devemos cometê-los? Sabemos que tudo que é ilegal é considerado errado, mas nem tudo que é errado é considerado ilegal. Se bato em um carro parado de madrugada e fujo, posso escapar da punição caso não haja nenhuma testemunha, mas a minha inclinação moral me impede de desaparecer sem dar satisfação ou me predispor à reparação. Assim como uma pessoa pode esquecer uma carteira ao meu lado, eu poderia pegá-la, guardar no bolso e ir embora. Mas eu não faria isso. Por que? Porque reconheço que é errado. Entendo as implicações disso para o outro, me coloco em seu lugar. Uso a mesma baliza moral quando se trata de animais explorados diuturnamente como fontes de matéria-prima, alimentos e produtos. Sim, eles não são como nós, mas são seres viventes e sencientes que, de maneira diversa, expressam interesse em não sofrer ou morrer.

— Mas, mais cedo ou mais tarde, eles morrerão de qualquer forma.

— Você tem razão, mais cedo ou mais tarde, eu também morrerei de qualquer forma, mas nem por isso você me vê oferecendo o pescoço para ser degolado. Animais não humanos também compartilham desse interesse em não morrer. Sendo assim, não, realmente não está tudo bem em explorar animais.

— Tudo bem, mas o próprio Aristóteles foi uma grande influência para a base moral cristã ocidental, e ajudou a endossar o uso de animais. Quero dizer, ele rejeitava a ideia da racionalidade animal, pesando contra os animais a concepção da “racionalidade matemática”, que o levava a ver os animais como sujeitos sem qualquer direito que justificasse não consumi-los ou usá-los.

— Sim Aristóteles fez isso, e teve influência inegável sobre o antropocentrismo. Mas ao citar Aristóteles, você desconsidera Pitágoras, Plutarco, Plotino, Empedócles, Platão, Teofrasto, Apolônio de Tiana, entre outros da Grécia Antiga que, embora divergissem em alguns aspectos, convergiam para a questão moral da vida não humana em algum nível. É importante não ignorar que a moralidade e a ética independem da legalidade, porque versam sobre o que clama à integridade e à virtude humana. É sobre quem você é como sujeito que reconhece o êthos de suas ações para além do que lhe é concernente. Ou seja, há a prática e o reconhecimento de uma atribuição de valor, e é isso que fazemos, por exemplo, quando rejeitamos a ideia de que animais não são sujeitos de direitos. Isto porque o direito no caso dos animais, não é uma prerrogativa para assegurar privilégios a seres não humanos, mas sim direitos básicos como existir sem correr o risco de sofrer em decorrência da intervenção humana. Tenha em mente que direitos animais não envolvem humanização, não dizem respeito a isso; porque o ato de humanizar animais em si é, na minha concepção, um ato reprovável. Mas por que? Porque reverbera especismo a partir do momento que ansiamos por aproximá-los de nós na tentativa de atribuir valores humanos às suas existências; e isso considero evidentemente errado. Animais não precisam de valores humanos, precisam do reconhecimento de seus valores não humanos, que é o que realmente condiz com quem são, não com quem os tornamos ou queremos que eles sejam.





Natal, época de solidariedade entre seres humanos e aumento da crueldade contra não humanos

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Natal, época de solidariedade entre seres humanos e aumento da crueldade contra não humanos (Ilustração: Matt Kenyon)

Written by David Arioch

December 24th, 2017 at 11:11 pm

Para além do destino final que é a morte para ser reduzido a alimento

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Os bezerros que hesitavam na hora de embarcar no navio levavam choque

Para além do destino final que é a morte para ser reduzido a alimento, os bezerros enviados para a Turquia levaram choque no momento do embarque e seguem viajando em pé por um percurso que deve levar no mínimo 15 dias. Que tal se colocar um pouquinho no lugar deles? Isso é realmente aceitável? Será que deveríamos colaborar com isso?

E logo mais eles serão abatidos por degola com um golpe em forma de meia lua, que consiste em cortar os três principais vasos – jugular, traqueia e esôfago – abate halal. Esse é o destino que deveríamos dar aos animais? Infelizmente, esse é o tipo de prática que endossamos por meio do consumo de carne.





Written by David Arioch

December 16th, 2017 at 12:01 am

Você sabia que quando foram abertos os primeiros zoológicos, os tratadores tinham de proteger os animais dos ataques dos espectadores?

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Elizabeth Costello: “Os espectadores sentiam que os animais estavam ali para serem insultados e humilhados”

Você sabia que quando foram abertos os primeiros zoológicos, os tratadores tinham de proteger os animais dos ataques dos espectadores? Os espectadores sentiam que os animais estavam ali para serem insultados e humilhados, como prisioneiros em uma marcha triunfal. Já promovemos uma guerra contra os animais, que chamamos de caça, embora, na verdade, guerra e caça sejam a mesma coisa (Aristóteles percebeu isso claramente).

Essa guerra foi travada ao longo de milhões de anos. Só a vencemos definitivamente faz algumas centenas de anos, quando inventamos as armas de fogo. Só quando a vitória foi absoluta é que pudemos nos permitir cultivar a compaixão. Mas a nossa compaixão é muito rarefeita.

Por baixo dela existe uma atitude mais primitiva. O prisioneiro de guerra não pertence à nossa tribo. Podemos fazer o que quisermos com ele. Podemos sacrificá-lo aos nossos deuses. Podemos cortar seu pescoço, arrancar seu coração, atirá-lo ao fogo. Não existe lei quando se fala de prisioneiros de guerra.

Páginas 118-119 de “Elizabeth Costello”, de J.M. Coetzee, publicado em 2003.