David Arioch – Jornalismo Cultural

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Lembranças do Mais Cinema

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Projeto reuniu cinéfilos de Paranavaí uma vez por semana ao longo de cinco anos

Reportagem sobre o Projeto Mais Cinema que saiu no jornal "O Paraná", de Cascavel, em 2009 (Imagem: Reprodução)

Reportagem sobre o Projeto Mais Cinema que saiu no jornal “O Paraná”, de Cascavel, em 2009 (Imagem: Reprodução)

Em Paranavaí, no Noroeste do Paraná, o Projeto Mais Cinema, realizado de 2008 a 2013, oferecia uma vez por semana sessões gratuitas de cinema na Casa da Cultura Carlos Drummond de Andrade, onde cinéfilos com faixa etária de 18 a 70 anos se reuniam para assistir filmes que não fazem parte do circuito comercial. Ao final das exibições, eu sentava na beira do palco, analisava o filme e abria espaço para perguntas e comentários.

Não vou mentir e dizer que muita gente participava do Mais Cinema. Não, isso não é verdade, mas, apesar do público modesto, fazia o nosso projeto valer a pena, já que quem frequentava a Casa da Cultura sabia o que estava buscando e o que encontraria. Além da oportunidade de assistir bons filmes, os cinéfilos ainda recebiam refrigerante e pipoca – tudo isso graças à Fundação Cultural de Paranavaí e ao nosso amigo Sobhi Abdallah, responsável pelo empréstimo de um projetor que substituiu o nosso já danificado.

Pelo seu idealismo minimalista, o Mais Cinema chamou tanta atenção que em poucos meses jornais de diversas cidades do Paraná publicaram reportagens sobre a iniciativa. Um exemplo foi o “O Paraná”, de Cascavel, na região Oeste, a quem concedi uma entrevista falando do nosso objetivo após seis meses de implantação do projeto que contava com o empenho voluntário de amigos e artistas como Amauri Martineli, Rosi Sanga, Elza Pavão, Sobhi Abdallah e Paulo Cesar de Oliveira.

“Valorizamos aqueles cineastas que tiram proveito da sensibilidade para estabelecer uma profunda construção de sentido, nada óbvio, mas com uma capacidade de humanização que faz o espectador ir embora refletindo sobre o mundo, a vida, suas experiências e seu comportamento”, declarei ao jornal “O Paraná” em 2009.

Logo no início, seguindo a proposta de exibir e discutir filmes “alternativos”, o projeto presenteou o público com um cosmopolitismo cinematográfico – cinema clássico, expressionismo alemão, neorrealismo italiano, cinema surrealista, realismo poético francês, nouvelle vague, cinema noir, novo cinema alemão e cinema novo brasileiro, entre outros movimentos artísticos.

Público também participava do debate ao final do filme (Foto: Amauri Martineli)

Público também participava do debate ao final do filme (Foto: Amauri Martineli)

Ao longo de cinco anos, exibimos muitos filmes, obras de mais de 40 países e de todos os continentes. Quem participou do projeto sabe que a prioridade era seguir na contramão da Indústria Cultural, fomentadora de uma fantasia distante do homem comum. O mais importante era levar o público à imersão, um convite à reflexão – imprescindível nas obras de cineastas aptos a captar o obscurantismo da complexidade humana – individual e coletiva.

Com esse caráter, dentre filmes nacionais exibidos, vale destacar o clássico “Vidas Secas”, adaptado por Nelson Pereira dos Santos, inspirado no livro homônimo de Graciliano Ramos. Na obra, o cineasta conduz o espectador, por meio de recursos estéticos, a sentir o vazio existencial, ingente e avassalador dos personagens: flagelados do sertão. A própria ausência de diálogo, em muitos momentos do filme, é elementar em transmitir uma miséria que não agride apenas o organismo, mas a essência do homem.

Não menos marginal é o filme neorrealista “Ladrões de Bicicleta”, do mestre italiano Vittorio de Sica, em que o personagem principal é um desempregado de origem humilde – idiossincrasia de uma decadente classe operária subjugada a um sistema socioeconômico que os impele a trocar valores e ideologias por comida.

Continuando nessa dimensão variegada, o público conheceu o futurista “Fahrenheit 451”, exímio exemplar da Nouvelle Vague, e idealizado pelo singular francês François Truffaut. No filme, uma sociedade hipócrita e paradoxal – afugentada pela opressão ditatorial, renega a literatura, numa crítica mordaz ao cerceamento da liberdade intelectual.

Uma ode à fragilidade humana, a bela trilogia das cores – “A Liberdade é Azul”, “A Igualdade é Branca” e a “Fraternidade é Vermelha”, do surpreendente diretor polonês Krzysztof Kieślowski, foi exibida em três sessões – numa sequência ordenada, respeitando a característica de unidade indissolúvel dos três filmes.

Na trilogia, cada obra tem seu título justificado de várias formas, seja por meio da estética ou da dialética, e sempre a partir do momento que a individualidade de um personagem é confrontada com a de outro, no contexto de um relacionamento. Sendo assim, é possível interpretar a partir da obra-prima de Kieślowski que ideologias, crenças, valores, conceitos, são todos descartáveis perante a vida.

Muitos outros filmes foram celebrados na Casa da Cultura, mas esses em especial merecem ser citados porque marcaram o início de um projeto que trouxe a Paranavaí até cinéfilos de outras cidades da região. Boas e duradouras amizades foram construídas no auditório da Casa da Cultura, a sala oficial do projeto Mais Cinema que hoje ainda é lembrado em tom de nostalgia por tanta gente que por lá passou, mesmo que somente uma vez.