David Arioch – Jornalismo Cultural

Jornalismo Cultural

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Um papo com Pedro Mirabete

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Foto: David Arioch

Hoje, bati um papo com Pedro Mirabete, que conheci no final do ano passado quando ministrei uma palestra em que falei um pouco sobre veganismo na Escola Curitiba. Pedro usa o desenho como sua principal forma de expressão. Já foi premiado em dois concursos. Além da satisfação, a atividade o ajuda a lidar com a ansiedade.

Written by David Arioch

March 21st, 2018 at 8:05 pm

Raj Singh Tattal: “Quem come carne está desconectado dos animais”

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Pentacularartist, um artista britânico contra a naturalização da exploração animal

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“The Silence of the Lambs”

Aos 38 anos, o britânico Raj Singh Tattal foi diagnosticado com Síndrome de Asperger, o que o ajudou a entender porque ele se tornava tão obsessivo quando se dedicava a alguma atividade. Embora desenhasse desde criança, quando descobriu o transtorno do espectro autista fazia 11 anos que ele tinha deixado o lápis de lado. Vegano, Tattal retomou o seu trabalho como desenhista na mesma época e, entre suas prioridades, decidiu usar a arte para fazer as pessoas refletirem sobre a crueldade contra os animais.

Para o artista, quem come carne está desconectado dos animais. “Me incomoda a maneira como os animais do campo são tratados e alimentados. Cordeiros são amados pelas crianças, mas também são mortos para o consumo humano. Há tantos adultos quanto crianças que não veem problemas nisso. E um filme que mostra essa estranha relação é ‘The Silence of the Lambs’ [O Silêncio dos Inocentes’ no Brasil]”, diz Raj Singh, também conhecido como Pentacularartist.

Ele se refere à cena em que Jodie Foster relembra a infância, quando estava em uma fazenda testemunhando a matança dos cordeirinhos que ela tanto amava. Aquela passagem cinematográfica teve tanto impacto sobre Tattal que ele criou uma obra homônima. “Foi um dos meus desenhos mais difíceis, não só a nível técnico, mas também emocional. Levei 95 horas e dez dias para criá-lo”, relata.1526934_758140244200290_1177308172_n

A intenção do artista foi transmitir a relação perturbadora entre seres humanos e animais. Quando crianças, eles amam brincar com os animais, mas quando crescem aceitam a exploração como se fosse uma parte natural da vida. “[Na obra] Os adultos que esfolam os cordeiros são supostamente as crianças que estão brincando com eles. A diferença é que elas cresceram. Cordeiros são animais amados por crianças e adultos porque são vistos como dóceis e belos. Mas isso não impede que eles tenham uma existência curta e horrível”, lamenta.

A obra feita em grafite e carvão foi a primeira da sua série sobre crueldade contra animais. Também é uma crítica ao fato de que muitos pais gostam de levar seus filhos para brincar com animais, mas não dizem a eles que aqueles belos e inocentes seres não humanos são reduzidos a pedaços de carne sobre um prato. “Espero que meu trabalho faça as pessoas pensarem sobre o que estão comendo”, enfatiza o desenhista.1512526_758137560867225_1344302203_n

Raj Singh Tattal se queixa que assim que os cordeiros chegam ao princípio da maturidade, já são preparados para a morte. “A carne de cordeiro de 12 a 20 meses é chamada de carne de um ano. A carne das ovelhas de seis a dez meses é vendida como baby lamb [carne de cordeiro bebê], e spring lamb [cordeiro primavera] são aqueles com três a cinco meses de idade. Fiquei chocado quando testemunhei corações de cordeiro vendidos em um supermercado local”, revela.

Raj Singh espera que as pessoas olhem para a sua arte e reflitam sobre o que elas estão promovendo quando estão comprando e comendo carne. Para ele, o sofrimento diário imposto a milhões de animais é um dos piores atos de maldade da humanidade. “Sou um artista londrino que trabalha com lápis de grafite e carvão, que se especializou em criar obras realistas em preto e branco. Embora eu ame todas as formas de arte, sigo pelo caminho da arte hiper-realista. E isso me inspirou a seguir os passos de artistas como Kelvin Okafor, Paul Cadden e outros. Estou em minha própria jornada para tornar realidade a minha meta de ser um artista hiper-realista”, assinala.

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“End of the Road”

Na obra “End of the Road”, o Pentacularartist transmite a mensagem de que o homem só é capaz de entender a dor de um animal ao se colocar no lugar dele. “Não vou dizer o que sinto, mas deixarei que os outros interpretem”, sugere o reservado e enigmático Tattal. Obras que outras pessoas precisariam de pelo menos um mês, o artista londrino é capaz de concluir em apenas quatro dias. A explicação é que ele é um sujeito que passa até 95% do tempo consigo mesmo.

“Realmente não gosto de mudanças. Fiquei até 12 anos sem sair de Londres. Tenho os mesmos pares de tênis, e já comi feijões cozidos todos os dias por 20 anos. Algumas dessas coisas soam muito triviais, mas com o tempo isso começa a irritar as pessoas ao seu redor. No passado, comecei a beber para tentar me encaixar entre as pessoas e fazer amigos. Mas hoje não bebo, só desenho, e nunca fui tão feliz”, garante.

Embora suas obras mostrem verdades sombrias e desconfortáveis, ele não se considera uma pessoa mórbida, mas sim alguém que extrai algo de bom e motivador a partir do que é triste. “Todos os meus trabalhos são em preto e branco, e baseados em grafite e carvão. ‘Beauty and the Beast’, é o terceiro desenho da minha série sobre crueldade contra animais. Levei 100 horas e 13 dias para terminar. Foi um dos mais demorados e difíceis que fiz até hoje”, pontua.

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“The Beauty and the Beast”

Uma crítica aos testes em animais realizados na indústria cosmética, a obra coloca uma mulher na mesma situação de coelhos usados como cobaias. Embora a prática tenha sido banida na Inglaterra em 1998, Raj Singh reclama que os testes ainda são usuais em outros países. “A União Europeia tem caminhado para a proibição de testes desde março de 2009. E desde 2012, é ilegal a venda de produtos cosméticos com ingredientes recentemente testados em animais. Embora seja encorajador que vários países fora da UE também estejam tentando adotar proibições semelhantes, isso é muito comum em países como China e Estados Unidos [assim como no Brasil]”, critica.

Entre os animais mais explorados em testes de produtos estão camundongos, coelhos, porquinhos-da-índia, macacos e gatos. Testes de irritabilidade na pele são os mais comuns. Geralmente os compostos químicos são esfregados sobre a pele raspada, ou então os técnicos pingam o produto nos olhos dos animais. Coelhos confinados em pequenas caixas são mantidos com as cabeças expostas, sem qualquer possibilidade de alívio para a dor. “Eles sofrem graves lesões, chegando à cegueira. São vítimas de estudos contínuos de alimentação forçada com duração de semanas ou meses para procurar sinais de doença ou riscos específicos para a saúde, como câncer e problemas congênitos.”

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Tattal em uma de suas exposições em Londres (Acervo: The Pentacularartist)

De acordo com Tattal, ao final dos testes até mesmo os animais que sobrevivem são mortos. Os métodos mais comuns são asfixia, destroncamento ou decapitação. Não há nenhum tipo de anestesia. “Nos Estados Unidos, uma grande porcentagem de animais usados em testes não entra nas estatísticas oficiais nem recebem proteção da Lei de Bem-Estar Animal”, reprova o Pentacularartist. Por outro lado, ele acredita que está crescendo o número de testes sem animais na indústria cosmética, até porque, hoje, mais do que nunca, é injustificável o uso de seres não humanos com essa finalidade.

“Eu costumava achar que eu era um fracassado”

Além de desenhar, Raj Singh Tattal participa de um grupo de apoio para pessoas com Síndrome de Asperger em Londres. “Eu costumava achar que eu era um fracassado. Há pessoas que fazem você se sentir como se fosse uma má pessoa porque você não faz certas coisas. Indo ao grupo de apoio, você vê pessoas na mesma situação que você, e percebe que são boas pessoas. É reconfortante falar com alguém. Eles podem dar conselhos e ajudá-lo”, defende.

Na adolescência, Tattal se apaixonou por ilustrações em quadrinhos. Aos 15 anos, criou o seu próprio super-herói que ganhou espaço em um jornal britânico de circulação nacional. Depois estudou arte e design, e, na faixa dos 20 anos, foi para a London South Bank University. Se graduou em design de produtos, mas por causa de problemas pessoais parou de desenhar por 11 anos.

“Fiquei longe da arte. Em novembro de 2012, a descoberta da Síndrome de Asperger despertou em mim um impulso incontrolável e voltei a desenhar. Peguei meus lápis e minhas canetas, comecei a desenhar e nunca mais pensei em parar novamente. Minha paixão e amor pela arte estão mais fortes do que nunca”, assegura.

Conheça um pouco mais o trabalho de Raj Singh Tattal

http://pentacularartist.wixsite.com/pentacularartist

https://www.facebook.com/Raj-Singh-Tattal-the-Pentacularartist-757948990886082/

https://www.instagram.com/pentacularartist/

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Sue Coe: “Ser vegano está além do que você come. É um movimento de justiça social”

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“Enquanto falamos, somos capazes de ouvir um bezerro que foi tirado da própria mãe e chora sem parar por três dias. Essa é a realidade [da produção de leite]”

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Sue Coe: “Quando você segura uma galinha, você percebe que há uma força de vida lutando para sobreviver”

Nascida em 21 de fevereiro de 1951, a artista e ilustradora Sue Coe, uma das maiores referências em arte sobre direitos animais, cresceu perto de um matadouro em Tamworth, Staffordshire, na Inglaterra. A experiência fez com que ela desenvolvesse um grande interesse em sensibilizar as pessoas sobre a crueldade contra os animais. Porém, seus pais esperavam que ela trilhasse outro caminho. Na adolescência, eles queriam que Sue se tornasse uma secretária ou trabalhasse em uma fábrica. Idealista, ela preferiu se arriscar como artista.

Estudou ilustrações e arte comercial na Chelsea School of Art e na Royal College of Art, em Londres. Mesmo sonhando com um futuro nesse ramo, ela se sentia incomodada com o fato de que as mulheres inglesas que atuavam nessa área só eram contratadas para ilustrar livros infantis. Coe não queria isso.

Para a sua surpresa, o dom para as artes chamou a atenção de revistas inglesas e de outros países europeus. Quando se mudou para Nova York em 1972, aos 21 anos, ela decidiu enveredar pelo caminho do artivismo, ou seja, começou a produzir arte como uma ferramenta de ativismo político. Na matéria “Staying True to a Unique Vision of Art”, publicada pelo Los Angeles Times em 1º de abril de 2001, ela relatou que o que a atraiu nos Estados Unidos foi o multiculturalismo, uma abertura de espírito muito emocionante.

Em Nova York, ela recebeu importantes convites para abordar questões como fome, miséria, terrorismo e racismo. Suas ilustrações ocuparam espaço privilegiado em edições de importantes veículos de comunicação, como o New York Times, New Yorker, Time, Newsweek, Village Voice, Esquire, Mother Jones e Rolling Stone.

Ainda nos anos 1970, enquanto vendia suas obras, Sue Coe deu aulas na School of Visual Arts, de Nova York. “Ela se estabeleceu como uma versátil artista adepta de pinturas, desenhos, litografias, colagens e gravuras, habilmente usando guache, grafite, aquarela, lápis de cera e carvão. […] Ela mostra problemas sociais ignorados ou ocultados pelo governo, corporações, sociedade e mídia. Ela costuma ser comparada a artistas como Honoré Daumier, Käthe Kollwitz e Francisco Goya”, escreveu Susan Vaughn, do LA Times.

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Foi no início dos anos 1980 que Sue Coe se voltou para a situação dos animais mortos para consumo humano. Ao longo de seis anos, ela realizou pesquisas e visitou matadouros de várias regiões dos Estados Unidos. “Quando comecei, pensei: ‘Ah, isso não vai mudar.’ Então percebi que poderia motivar as pessoas. Acho que o melhor que pode acontecer é você instigar o diálogo. Acredito que a maioria das pessoas tem a mente aberta”, informou Coe à Susan.

A artista inglesa, que se considera uma jornalista visual, possui um estilo mordaz que lembra o trabalho do escritor e reformador social Upton Sinclair, autor de The Jungle (A Selva), que denunciou as mazelas da indústria frigorífica em 1906. Modesta, Sue Coe diz que se um dia alcançar 1% da genialidade do pintor holandês Rembrandt Harmenszoon van Rijn, autor de Slaughtered Ox (Boi Abatido), de 1655, ela se sentirá realizada.

Autora de livros de ilustrações como “Dead Meat”, de 1995; “Pitt’s Letter”, de 2000; “Sheep of Fools”, de 2005; “Cruel: Bearing Witness to Animal Exploitation”, de 2012; e “The Animals’s Vegan Manifesto”, de 2017, ela contribuiu para que milhares de pessoas se tornassem vegetarianas e veganas por meio de sua arte engajada na defesa dos direitos animais. Muitas de suas ilustrações denunciam principalmente a cruel realidade vivida por animais criados e mortos para tornarem-se comida. “Por favor, veja por si mesmo, vá a um matadouro. Veja o que ocorre e, se você não pode, pergunte a si mesmo o porquê”, sugeriu.

Sempre que a questionam sobre como ela consegue retratar situações dolorosas sem enlouquecer, Sue Coe argumenta que o seu trabalho é uma forma de terapia, além de sentir-se motivada pela possibilidade de mudar a mente das pessoas em relação a como os animais são vistos e tratados. “Quando você segura uma galinha, e elas são feitas apenas de carne e ossos, mas você sente um coração batendo rapidamente, você percebe que há uma força de vida lutando para sobreviver, é isso que me move”, argumentou em entrevista ao LA Times.butcher-to-the-world-fix

Durante alguns anos, a ilustradora vegana Sue Coe viveu em um apartamento de um quarto em Nova York, dedicando-se às ilustrações. Embora famosa nesse meio, sempre vendeu impressões de alguns de seus trabalhos a preços bem acessíveis. “Não compro coisas que não preciso. Meu trabalho é mais importante do que possuir um micro-ondas [por exemplo]”, ponderou, acrescentando que destina parte de seus lucros à Farm Sanctuary, em Watkins Glen, em Nova York. O santuário cuida de animais que seriam mortos pela indústria agropecuária.

Segundo Sue, mesmo que você seja uma artista e tente desenhar 50 vacas ou 50 ovelhas, você precisa ter em mente que todas elas têm diferentes personalidades. E se você for a um santuário e começar a desenhá-las, elas se apoiarão em você, e você sentirá o seu doce hálito com aroma de feno:

“Cada uma é tão individual e diferente. E desenhar apenas 50 é quase impossível. Por isso, preciso olhar nos olhos de uma ovelha ou de todos os animais que encontro em um matadouro, o que representa apenas uma gota do sangue de todos os animais massacrados. E assim que sou notada, muitos deles me olham diretamente nos olhos, e o que eles dizem, eu registrei isso em um livro. O que eles dizem é tão claro como se escrevessem em inglês e com letras gigantes: ‘Por que vocês estão fazendo isso comigo?’ É o que eles estão dizendo.”

Em entrevista a Sunaura Taylor, da Bomb Magazine, de Nova York, em 2 de agosto de 2012, Sue Coe contou que pessoas influentes do mercado editorial de Nova York tentaram se livrar dela nos anos 1980. Mesmo que não tenham conseguido fazer com que desistisse do seu trabalho, ela prefere dizer que não tem uma carreira, mas sim uma missão: “Já amarguei meses e meses sem dinheiro, pensando: ‘Ah, como eu gostaria de ter sido capaz de vender este mês, ou coisa parecida. Mas estou tão acostumada com isso agora. Então nunca pensei no meu trabalho como uma carreira.”

Ela jamais se esqueceu do dia em que acompanhou um bando de cabras e ovelhas arrastadas para um matadouro. Compenetrada no comportamento dos animais, ela se distanciou de si mesma. “Continuei a desenhar mecanicamente, e o resultado é um desenho que nunca estará à venda. É um lembrete para mim, do porquê estou fazendo esse trabalho”, justificou.

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Questionada sobre como faz para conseguir entrar em matadouros onde nenhum jornalista entrou antes, Sue Coe explicou que tudo depende da abordagem e das ferramentas que você carrega. “Levo apenas papel e lápis, e as pessoas podem ver o que estou fazendo. Não estou roubando nada. Não vou tirar nada. Se eles querem meus desenhos, eles podem tê-los. Contanto que eu não retrate trabalhadores como monstros, o que nunca faço de qualquer maneira, embora algumas vezes fiz isso, tenho de admitir”, revelou em entrevista a Caryn Hartglass no podcast “It’s All About Food” em 20 de junho de 2012.

Sue Coe prefere visitar matadouros menores, porque esses são os que menos dificultam suas visitas. Mesmo assim, ela sempre se depara com uma mesma situação – funcionários de matadouros com receio de ficarem desempregados. “Eles não querem ser atacados por ativistas dos direitos animais. Então eles me veem e simplesmente conversamos sobre qualquer assunto que eles queiram. Muitos deles são falantes de espanhol. Então dou-lhes um desenho, e eles podem olhar e dizer se devo mudar alguma coisa. Eles apenas olham e dizem: ‘Ah, isso é bom! Você poderia ser estenógrafa’”, narrou.

Sue perdeu as contas de quantos matadouros visitou ao longo de décadas. Só no livro “Cruel: Bearing Witness to Animal Exploitation”, de 2012, ela traz ilustrações de experiências em 35 a 40 matadouros. “É muito mais fácil entrar em matadouros halal [islâmico] ou kosher [judaico] porque eles são pequenos, de propriedade familiar. Os maiores são da IBP [International Pork and Beef]. Entrei [em matadouro deles também], mas foi muito difícil. Costumo chegar dizendo: ‘Sou uma artista. Gostaria de desenhar.’ Eles dizem sim ou não”, resumiu.

Quando permitem que Sue Coe visite um matadouro, ela é revistada e em seguida lhe entregam um uniforme. “Não é necessário que alguém entre em um matadouro para ver e entender o que acontece lá dentro. Você esquece muito rapidamente, pessoas esquecem, mas eu nunca esquecerei. Vou fazer isso até morrer, porque é minha responsabilidade com os rostos que vi. Esse é o meu trabalho. Essa era a vida deles. Eu os vi. Eles olharam em meus olhos, e eles me viram”, garantiu a ilustradora a Sunaura Taylor, da Bomb Magazine.4- The Ghosts Of The  Skinned Want Coats Back.jpg

Com a experiência de quem acompanha a realidade dos animais explorados na indústria alimentícia desde os anos 1980, Sue admite que produzir centenas e centenas de desenhos e pinturas sobre a questão animalista intensificou sua conexão com os animais. Em entrevista a Elin Slavick do Media Reader, em 2005, ela destacou a importância de educar o público sobre a trajetória do “alimento” de origem animal antes dele chegar à mesa:

“Acredito na bondade das pessoas, e acho que elas são inteligentes o suficiente para fazerem uma boa escolha. Abram as portas dos matadouros e das fazendas. Deixe as pessoas verem como as porcas são mantidas presas suas vidas inteiras, sem espaço para girarem o corpo. Porcos em estado natural [livres], passam 70% de suas horas de vigília explorando o ambiente, se enraizando na sujeira e socializando. Os bezerros, fracos demais para manterem-se de pé, são alimentados apenas com leite, encaixotados e enviados para o abate. Há cientistas que dizem que as vacas leiteiras estão tão cansadas quanto um ser humano correndo em uma maratona, por causa do estresse em seus corpos em decorrência da enorme produção de leite. E as galinhas, que vivem sem espaço suficiente para estica suas asas, são seis por cada gaiola até o momento do abate; ficam com os ossos tão fracos que desenvolvem fraturas por causa do estresse físico.” (An Interview with Sue Coe By Elin Slavick, Media Reder, 2005).

Sue Coe jamais acreditou que as leis do bem-estarismo, que alega diminuir o sofrimento do animal reduzido a produto, vão culminar no abolicionismo animal. Para ela, não existe bem-estar quando se fala em um animal que vai ser eventualmente morto para o consumo humano. “Sob este sistema econômico, a pressão é para que a pequena fazenda fique maior ou vá à falência. Penso que esta luta para melhorar as condições de vida dos animais criados em fazenda tem chamado a atenção das pessoas. Ela tira a pressão sobre o pequeno criador, que pode receber subsídios para migrar da criação de animais para a produção de vegetais, e isso [em médio ou longo prazo] acabará por eliminar os métodos das fazendas industriais”, analisou.

Sue viaja muito ministrando palestras sobre desenhos e ilustrações, e não para ativistas dos direitos animais, mas sim para comunidades, locais em que, para a sua surpresa, seu trabalho é muito bem recebido. “Costumo dizer que as fazendas industriais são erradas e discutirmos sobre isso. Então eles falam que vão parar de consumir produtos de origem animal. Agora a pergunta número um que recebo é: ‘Está tudo bem em comer produtos do abate humanitário?’ Claro que digo que não! Não está tudo bem em comer qualquer animal, de pequenas ou grandes fazendas. E as pessoas entendem. Se alguém se torna um farol por causa do meu trabalho, esse é o meu prêmio. Como disse um ativista, é como empurrar uma pedra até uma colina com a ponta do nariz. Não é fácil, mas pode ser feito”, relatou a Caryn Hartglass, do podcast “It’s All About Food” e a Susan Vaughn, do Los Angeles Times.

“Não podemos nem chegar perto da opressão do direito corporativo [da indústria da exploração animal]. Nossa propaganda é como um minúsculo dedal cheio de verdades – uma minúscula partícula. Mas essa partícula é muito perigosa para eles. Por isso que eles estão constantemente tentando esmagá-la. Quero dizer, tudo que temos a fazer é um panfleto, cartaz ou grafite, e isso pode explodi-los em um sopro, porque tudo que eles fazem é baseado em mentiras. E [sabemos que] um pouco de verdade pode se espalhar por águas oleosas.” (Drawing Attention: Sue Coe, de Sunaura Taylor, Bomb Magazine, 2 de agosto de 2012.) 

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Sue Coe não se define politicamente. Ela alega que isso pode interferir na mensagem. Em sua opinião, não é útil rotular-se. “Como artista, desejo que o espectador olhe através dos meus olhos, veja o que vi, e não olhe para a cor dos meus olhos. […] Não sei se a alegria é possível para cada ser vivo, mas cada ser vivo faz o máximo que pode para evitar sofrimento e dor”, disse a Elin Slavik, do Media Reader.

Vivendo há alguns anos em uma cabana sustentável e com energia solar em uma floresta ao norte de Nova York, Sue Coe não raramente escuta o que ocorre nas fazendas vizinhas. “Enquanto conversamos, somos capazes de ouvir um bezerro que foi tirado da própria mãe e chora sem parar por três dias. Essa é a realidade [da produção de leite]”, lamentou a Caryn Hartglass.

Sobre a sua descrença no suposto abate humanitário, a artista também relatou como exemplo a experiência de um amigo que visitou um matadouro no Canadá. No local, eles têm câmaras de gás, onde os porcos seguem um sistema de linha única. Porém, quando o animal percebe a iminência da morte, ele faz de tudo para sair do local, inclusive tentando escalar as laterais:

“Nesse processo, eles são eletrocutados nos olhos, que é uma parte tão sensível deles quanto a nossa. Eles são cutucados para seguirem no sistema de linha única. Assim, o chamado abate humanitário acaba por ter o dobro de tortura. É por isso que quando os defensores dos direitos animais se envolvem com isso, eles precisam ser muito cuidadosos, porque a indústria da carne é apenas sobre como lucrar. E eles podem incluir câmaras de gás porque são baratas, já que mata seis animais de cada vez. É por isso que acho incrivelmente ingênuo, ou terrível, quando os defensores dos direitos animais se envolvem nesse tipo de manipulação da indústria da carne”, confidenciou ao podcast “It’s All About Food” em 20 de junho de 2012.slaughterhouseentrance

Sue Coe argumenta que o único caminho de assegurar um tratamento mais justo aos animais não humanos é o veganismo. Ninguém precisa ser um amante dos animais para se tornar vegetariano ou vegano. O mais importante é entender que eles também têm direito à vida “Ser vegano está além do que você come. É um movimento de justiça social. Não se trata de uma escolha enquanto consumidor”, explicou a Caryn.

A ilustradora espera que chegue o dia em que os direitos animais e as questões de justiça social sejam bem aceitos, e as pessoas vejam como era o passado e digam: “Aqueles eram tempos sombrios, quando seres humanos costumavam matar animais para comer.” Sue crê que é muito fácil ser seduzido pela ideia de que os seres humanos são simplesmente maus. Porque se vermos o que fazemos deliberada e inconscientemente aos animais não humanos, a nós mesmos, a tudo, é muito fácil pensar que não há esperanças.

“É muito sedutor, mas não é verdade. Temos agora uma estrutura econômica que atinge a pior parte da espécie humana. Imagino uma sociedade com um tipo de estrutura econômica diferente – porque eu absolutamente acredito que os seres humanos farão o melhor sempre, se eles tiverem a oportunidade de tentar. Vi isso em tantos países diferentes no mundo, onde as pessoas são tão pobres, mas ainda partilham suas últimas coisas. Acho que seres humanos geralmente são muito nobres, estamos apenas presos neste maldito sistema que nos reflete. É uma ingenuidade política pensar que o ativismo dos direitos animais é apenas uma questão – que qualquer ativista é uma pessoa de apenas uma questão”, assinalou em entrevista a Sunaura Taylor, da Bomb Magazine publicada em 2 de agosto de 2012.

Saiba Mais

Para quem quiser conhecer melhor o trabalho de Sue Coe, acesse: www.graphicwitness.org

A artista inglesa pede que as pessoas visitem o site do santuário que ela ajuda em Nova York. Na página, há muitas informações sobre investigações de crueldades contra animais em fazenda – www.farmsanctuary.org.

Referências

http://www.graphicwitness.org/coe/latimes.htm

http://elena-kuzmina.blogspot.com.br/2008/05/art-activism-interview-with-sue-coe-by.html

http://bombmagazine.org/article/6696/

http://responsibleeatingandliving.com/interview-with-gary-steiner-and-sue-coe/

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No filtro de Kemmy Fukita

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Com arte em filtro de papel reaproveitado, jovem ilustradora chama atenção pela singularidade

Kemmy Fukita reaproveita os filtros usados pela mãe (Foto: Arquivo Pessoal)

Kemmy Fukita reaproveita os filtros usados pela mãe (Foto: Arquivo Pessoal)

Em 2015, a ilustradora Kemmy Fukita, de Paranavaí, no Noroeste do Paraná, criou uma página no Facebook para divulgar o seu projeto “No Filtro”, em que reaproveita filtros de papel usados para coar café. Unindo arte e sustentabilidade, Kemmy reproduz com singularidade imagens de pessoas famosas e anônimas em construções visuais que transmitem fortes sentimentos e sensações.

Seus traços influenciados pelo hiper-realismo, surrealismo e art nouveau são carregados de intensidade, influências que ela assume com orgulho, assim como a fotografia. “Muitos dos meus desenhos surgem da observação. Gosto muito de desenhar rostos femininos realistas e um pouco desfigurados do real, com cicatrizes. Isto porque sempre tentei representar uma mulher forte, apesar das dificuldades que ela tenha de passar”, explica.

Toda vez que Dona Rosa termina de usar um filtro de café, a filha Kemmy, de 20 anos, o lava com sutileza, para preservá-lo com aspecto envelhecido, e aguarda a secagem antes de começar a produção de mais um desenho. “O processo não é demorado, mas exige muita paciência porque se algo der errado é preciso recomeçar. Para desenhar um rosto realista, por exemplo, eu levo uma hora. Varia de acordo com o grau de dificuldade”, informa.

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“Vi que o giz pastel garantia melhor pigmentação e incluí também as tintas nanquim e aquarela” (Foto: Kemmy Fukita)

Após criar obras em papelão, um dia Kemmy Fukita estava observando a mãe preparar café e teve a ideia de separar o filtro já usado. O lavou, secou e começou a pintar. Gostou tanto da primeira experiência que criou uma página com seus desenhos, frases e trechos de músicas reproduzidos em filtros. “Me baseei em artistas com quem já me identificava. A princípio, tudo era feito com lápis de cor e tinta guache. Depois vi que o giz pastel garantia melhor pigmentação e incluí também as tintas nanquim e aquarela”, revela.

Desde o ano passado, a artista cria obras sob encomenda. As mais pedidas são pautadas em imagens de escritores e músicos, seguidas por desenhos de pessoas comuns. Trabalhos inspirados nas fotos mais icônicas do escritor estadunidense Charles Bukowski estão no topo dos pedidos mais atendidos por Kemmy. “Eu o admiro muito, tanto que um dos meus poemas prediletos é ‘O Pássaro Azul’. Também faço muitas obras baseadas em bandas de rock e cantores e cantoras de outras épocas”, enfatiza.

“É preciso entender que coloco amor e dedicação no que faço” (Foto: Kemmy Fukita)

“É preciso entender que coloco amor e dedicação no que faço” (Foto: Kemmy Fukita)

Cada encomenda, com moldura e dois filtros – um acompanhado de ilustração e outro de uma frase, custa apenas R$ 40. “Uso como embrulho o TNT ou um papel transparente amarrado com uma cordinha de sisal”, destaca, deixando claro o quanto é caprichosa no que se propõe a fazer. Ainda assim a artista reconhece que o seu trabalho não é devidamente valorizado, já que há pessoas que reclamam do preço cobrado por cada obra. “É preciso entender que coloco amor e dedicação no que faço”, argumenta a ilustradora.

Com o projeto “No Filtro”, Kemmy admite que se descobriu ainda mais como ser humano e artista. Inspirada no pai poeta, várias vezes premiado no Festival de Música e Poesia de Paranavaí (Femup), ganhou coragem para escrever poemas e publicá-los com seus desenhos. “Desanimei muitas vezes e tive bloqueios criativos, uma descrença no que faço. Mas foram nesses momentos difíceis que encontrei pessoas me apoiando e falando para eu não desistir. Uma frase que sempre trago comigo é do Vinicius de Moraes: ‘A arte não ama os covardes’. É bem isso. Quem vive neste mundo precisa de coragem para se arriscar e amar o que faz”, defende.

Trabalho inspirado em imagem e frase de Charles Bukowski (Foto: Kemmy Fukita)

“Eu o admiro muito, tanto que um dos meus poemas prediletos é ‘O Pássaro Azul’” (Foto: Kemmy Fukita)

Além de artista, Kemmy Fukita é estudante de moda. Perto de se graduar, não pensa em atuar como estilista. Quer trabalhar com ilustração de moda, se desvinculando da criação de roupas. “Quero futuramente conciliar a ilustração de moda com o aspecto social, pouco valorizado”, confidencia. Sem nunca ter estudado desenho, Kemmy é autodidata, porém acredita que o curso de moda a ajudou a desenvolver habilidades específicas, como se aperfeiçoar no desenho de mãos e pés.

A primeira experiência desenhando foi aos 13 anos, quando decidiu reproduzir os personagens da Turma da Mônica, de Mauricio de Sousa. “Só que não eram tão realistas. Ao longo dos anos fui testando outros materiais além do papel comum. Tive a ideia de pintar desenhos minúsculos em hashi e deu certo. Também fiz isso em pratinhos de papelão, usando tinta guache e palitinhos de dente. Eu era revoltada com pincéis”, conta rindo.

A página “No Filtro”, criada por Kemmy em 2015, se aproxima dos nove mil seguidores. A ilustradora justifica que a crescente popularidade é resultado da divulgação de um de seus trabalhos em uma página de música do Facebook. “E também a uma encomenda feita pelo presidente da Fundação Cultural de Paranavaí, Amauri Martineli. Tudo isso foi de grande importância e eu não esperava, nem tinha noção de que tantas pessoas valorizariam a minha arte”, comemora.

Página do projeto No Filtro no Facebook

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O homem de mais de 2,5 mil obras

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José Mário: “O desenho é um desabafo mental”

"O que crio à noite é diferente do que produzo durante o dia" (Fotos: Amauri Martineli)

Em 1984, o artista plástico paranavaiense José Mário Afonso Costa descobriu no desenho uma forma de materializar e canalizar emoções e sentimentos. Os traduziu com caneta em formas retas, mais tarde sinuosas, que se tornaram subjetivas e ganharam novas dimensões.

Para o artista, grande admirador de Pablo Picasso, a despreocupação com a objetividade na arte representa a complexidade da vida, a gradação do homem. Guiado pelo subconsciente, às vezes, José Mário intitula uma obra antes mesmo de criá-la. Não se prende aos rótulos, correntes artísticas, e preza pela liberdade intelectual como sendo a fórmula mais completa de se aproximar da essência humana.

Ao longo da entrevista, se mostra inquieto, embora detalhista, enquanto discorre sobre arte, cultura, família e formação artística e profissional. O artista se preocupa em agradar, mas tem opiniões próprias, questiona e fala abertamente sobre qualquer assunto. Algumas perguntas são respondidas com brevidade, já outras, “Zé Mário”, como é mais conhecido, não responde sem antes situar um contexto, levantar da cadeira e contar alguma história do presente ou passado.

Gosta de conversar sem pressa, é observador, e não se priva de manter o diálogo em um nível que mostre se o interlocutor entende algo de arte e também das suas obras. Passamos alguns minutos interpretando um dos desenhos do artista, um universo de curvas, onde o homem também é animal, vegetal, objeto material e imaterial. Confira abaixo os principais trechos da entrevista com o autor de mais de 2,5 mil obras.

"Já produzi muito, mas nunca me rendi a nada"

DA – Como foi o primeiro contato com o desenho?

JM – Comecei em 1984, motivado pelas figuras que mais me chamavam atenção nos livros do meu pai. Tinha 14 anos e mudei para Curitiba pra fazer o Segundo Grau [Ensino Médio]. Me interessei pelo abstrato e depois pela arte figurativa. Mais tarde, fui para Presidente Prudente [interior de São Paulo]. Estudei medicina por dois anos e meio, mas abandonei o curso. Também passei pela Fafipa.

DA – São experiências que se refletem nas suas obras?

JM – Sim. Foi um período em que obtive muito conhecimento, estando em contato com a arte ou não, até porque passado algum tempo decidi trabalhar com meu irmão no nosso sítio em Santa Maria, perto de Alto Paraná.

DA – Todas essas transformações interferiram na dedicação à arte?

 JM – Meus desenhos eram mais compactos, então fui ampliando, aumentando a dimensão, tendo um cuidado maior com as formas, só que sempre chegava o momento de me desligar disso tudo. Ficava dois meses por ano envolvido com desenho e o restante me dedicando a outras atividades bem diferentes.

 DA – Nos seus trabalhos, as curvas parecem representar um novo ciclo, a ruptura com a linearidade. Você encara o rompimento com as linhas retas como resultado do seu amadurecimento?

JM – Sim. No começo meus desenhos eram mais infantis. Isso mudou só mais tarde, principalmente após o falecimento do meu pai que era uma inspiração pra mim. Sempre fui muito observador, e prefiro desenhar com naturalidade, sem planejamento. Quando começo algo, dificilmente sei como vai terminar porque minha principal referência é o que está no meu subconsciente.

"Comecei em 1984, motivado pelas figuras nos livros do meu pai"

DA – Quais as artes que mais o inspiram a desenhar?

 JM – Já desenhei muito ouvindo música, chego a dar nome de canções aos meus desenhos. Também tem muito cinema no que faço, inclusive uma referência ao martelo do filme The Wall, do Pink Floyd. Nos tempos da faculdade, produzia muito enquanto os professores passavam filme em sala de aula.

DA – Já teve preferência por alguma corrente artística?

JM – Não. Já produzi muito, mas nunca me rendi a nada. Jamais tive preocupação em simplificar o que faço porque o desenho pra mim é um desabafo mental. O que crio à noite é diferente do que produzo durante o dia.

DA – Das 2,5 mil peças já produzidas, muitas estão fora de Paranavaí?

JM – Que me lembre, além de Paranavaí, tenho desenhos em Curitiba, Rondonópolis [no Mato Grosso], Campinas [São Paulo], Paraíso do Norte. Me lembro de quando ilustrei o livro do meu pai [o escritor Altino Afonso Costa que empresta nome ao Teatro Municipal de Paranavaí], Buquê de Estrelas. Nessa época, aprendi a ser mais detalhista.

O aliendígena

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Plebeu: “Todo mundo dizia que eu tinha criado um estilo, mas não me deram incentivo algum”

Plebeu produz pelo menos 15 obras por mês (Foto: David Arioch)

Há mais de vinte anos, Roldney Plebeu, de Paranavaí, no Noroeste do Paraná, encontrou na arte mais do que um hobby e uma profissão: uma razão existencial. Cada uma de suas telas recebe cores e formas que nascem da mistura de impressões e sentimentos. É a arte existencialista de um aliendígena, como o artista define a si e tudo que produz.

Roldney Plebeu, 42, teve o primeiro contato com o desenho e a pintura na infância. “Comecei rabiscando com caneta”, diz. Na adolescência, se tornou um artista autodidata solitário por causa da incompreensão e falta de apoio. Aos 23 anos, sentiu necessidade de amadurecimento artístico e tentou entender melhor as próprias pinturas. Anos depois, insatisfeito em Paranavaí, Roldney se mudou para São Paulo.

Na capital paulista, o artista conheceu alguns empórios, institutos e escolas de artes como a Panamericana Escola de Arte e Design. “Precisava saber se o meu trabalho pertencia a alguma corrente artística, mas apenas me decepcionei. Todo mundo dizia que eu tinha criado um estilo, que sou revolucionário da arte, mas não me deram incentivo algum”, lamenta, sem esconder a decepção.

Plebeu não conseguiu custear as despesas em São Paulo por muito tempo e logo adotou como lar um banco gelado do Terminal Rodoviário da Barra Funda, espaço que dividia com mendigos. “Eu dormia pouco nessa época. Ficava a maior parte do tempo pintando na Avenida Paulista”, relata. O destino era sempre uma viela do Museu de Arte de São Paulo Assis Chateaubriand (Masp).

Lá, chamou a atenção de estrangeiros. Turistas dos Estados Unidos, Japão, Inglaterra e Israel compraram muitas de suas obras. “Um norte-americano, Joshua Rodriguez, presidente de uma fábrica de medicamentos do Texas, gostou muito do meu trabalho. Comprou até pinturas inacabadas”, garante Roldney. Convidado a se mudar para Londres, recusou a proposta para não se distanciar da mulher e dos filhos que estavam em Paranavaí.

Não demorou para os seguranças do Masp pedirem para Plebeu procurar outro lugar para pintar. Sem lugar fixo para expor as obras, o artista teve dificuldade em vender o que produzia. “Comecei a dar aula de graça para crianças de rua que eram viciadas em drogas”, explica. Pouco tempo depois, a desvalorização artística levou Roldney à depressão crônica. “Diziam que minhas obras eram complexas demais. Não consegui vender mais quase nada. Me envolvi com pichação e comecei a usar drogas”, revela o artista que abandonou a dependência química quatro anos depois e retornou a Paranavaí.

Emocionado, declara que nunca conquistou estabilidade trabalhando com arte, inclusive há períodos em que enfrenta sérias dificuldades para comprar materiais. “Pintar é uma terapia, mas é uma pena que com essa arte eu não consiga manter a mim e minha família”, desabafa o pintor que também é escultor. Plebeu manipula madeira, pedra-sabão e ferro.

O conceito aliendígena

O estilo aliendígena é uma referência as origens do artista (Foto: David Arioch)

Roldney Plebeu é um artista prolífico. Consegue produzir pelo menos 15 obras por mês. Pinta telas com extrema naturalidade, tanto que abre mão de criar esboços. “Muito do que pinto surge como uma surpresa até pra mim, é algo sem planejamento, um reflexo da maneira como eu encaro o mundo e a vida”, justifica Plebeu que materializa impressões e emoções usando pincel e tinta.

O artista é autor do estilo aliendígena de conceber arte. O neologismo é uma referência às origens de Roldney Plebeu, um sincretismo de europeu e índio. “Eu sou o aliendígena, uma mistura de etnias. Trato das diferenças em meio ao caos mundial. Cada pessoa pode interpretar como quiser”, comenta.

Plebeu: “Muito do que pinto surge como uma surpresa até pra mim” (Foto: David Arioch)

O conceito estético aliendígena parece carregar um pouco de brasilidade, tropicalismo, existencialismo, surrealismo e modernismo; uma arte de origem globalizada e destribalizada que aborda a heterogeneidade cultural do ser humano e descortina as dificuldades do homem em reconhecer a si mesmo diante do semelhante. É possível encarar cada pintura de Plebeu como um quebra-cabeças, tanto na forma quanto no conteúdo, inclusive os personagens do quadro são fragmentos que se encaixam tanto quanto se antagonizam.

Roldney Plebeu também trabalha com paisagismo. É uma maneira de dar novas perspectivas a um ambiente. “É como criar um mundo dentro de outro”, avalia o artista plástico que também é poeta, letrista e escreve até versos de rodeio.

Frase do artista plástico Roldney Plebeu sobre a arte aliendígena

“Em São Paulo, quando era mais jovem, mostrei meus quadros para pessoas com grande formação em arte. Achei que me dariam respostas, mas me enganei.”

Contato

Para mais informações sobre o trabalho de Roldney Plebeu, basta ligar para (44) 9832-3901

Persil: brasilidade em evidência

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Premiado artista plástico destaca a importância de se valorizar a cultura brasileira 

Gabirus: identidade folclórica com ênfase na realidade. (Crédito: David Arioch)

Gabirus: identidade folclórica com ênfase na realidade urbana. (Foto: David Arioch)

O paranavaiense Roberto Persil se interessou pelas artes plásticas ainda na juventude. De lá para cá, são mais de 40 anos de carreira, sintetizados em pelo menos 1,5 mil obras, entre pinturas e esculturas que retratam a brasilidade. O reconhecimento de tal longevidade são as inestimáveis premiações e participações em salões de artes do Paraná, São Paulo e Mato Grosso.

 

Apaixonado pela cultura nativa brasileira e regionalista, Persil trabalha com elementos que resgatam lendas de um Brasil ainda desconhecido pela maioria. Exemplo é uma série de esculturas que vai muito além da acadêmica releitura contemporânea. “Recriei os Gabirus. São seres que moram embaixo de pontes e se situam entre o homem e o animal. Representam as pessoas que perderam o vínculo com a sociedade e com a família”, revela.

Outra característica dos Gabirus é que, assim como os mendigos, eles também vagam pelas ruas recolhendo coisas do lixo para comer. Além disso, criam relações afetivas com animais, principalmente gatos, cães e ratos – seres que consideram pertencentes a um mesmo plano existencial.

O artista plástico também se dedica a fazer releituras mais sofisticadas da realidade. Em uma de suas obras, a profundidade expressionista entre a fusão de colagem e pintura lhe rendeu um prêmio em um salão de artes. Conceituado pelo aporte inovador, gosta de mesclar materiais e elementos das mais diversas correntes artísticas. Algo perceptível no atelier que criou em casa, onde reúne centenas de obras.

O amor pela atividade é tão grande que Persil também montou um atelier em Cuiabá, no Mato Grosso, para onde viaja quando tem tempo. Sobre o motivo da escolha, justifica que é uma região com fortes elementos da cultura primitiva brasileira. “Vou pra lá todo mês de julho e aproveito pra absorver isso.Transfiro todo o conhecimento adquirido para as minhas esculturas e quadros”, frisa.

Quando tem pouco tempo disponível, o artista opta por concepções artísticas mais objetivas, em que o uso de tintas acrílicas é mais comum, pelo fato do processo de secagem ser mais acelerado. “Lecionei língua portuguesa por 30 anos, então adquiri esse costume de me dedicar a artes mais sofisticadas apenas quando tenho bastante tempo livre”, declara.

Roberto Persil com uma de suas telas: a interpretação depende da bagagem cultural do apreciador (Crédito: David Arioch).

Persil: “A interpretação depende da bagagem cultural do apreciador “(Foto: David Arioch)

Eis que surge um artista

Na infância, Persil tinha dificuldades para escrever, então seus pais o encaminharam a um artista local que dava aulas de caligrafia. Superado o problema e passado alguns anos, Persil se sentiu atraído pelos desenhos. “Tinha 12 anos e fiquei maravilhado com a beleza dos desenhos coloridos, do simples lápis-de-cor e da anatomia humana”, lembra.

Apesar de ter convivido durante décadas com a falta de tempo, o artista plástico já ultrapassou a marca de 1,5 mil obras. “Uma vez, para participar de um salão de artes, fiz 400 desenhos em dois meses. Isso foi em outubro e novembro de 1989”, conta.

Mesmo com um currículo artístico extenso, o prolífico Roberto Persil garante que as premiações recebidas no Paraná, São Paulo e Mato Grosso são sempre simbólicas. “Às vezes, somos premiados com R$ 500 e os custos com a peça é de R$ 800. Então é mais para somar à carreira”, garante. Persil faz parte do grupo de artistas brasileiros que sempre trabalharam para investir em arte. “O que não é fácil, pois exige dedicação”, assegura.

Aos 15, começou a usar crayon, determinante para se tornar frequentador do Empório Artístico Michelangelo, localizado na Líbero Badaró, em São Paulo. “Ia pra lá só pra comprar lápis francês e outros materiais”, destaca em tom bem-humorado. Mesmo muito jovem, os desenhos do artista já representavam mais que formas e cores; era o reflexo de um dom que partia do coração e se conduzia até os dedos das mãos. “Resolvi ir para São Paulo e Rio de Janeiro, o sonho de todo menino. Só que como vivíamos a Ditadura Militar era complicado. Sem emprego fixo, um garotinho era visto como suspeito”, revela.

Depois de dois anos vivendo entre São Paulo e Rio de Janeiro, produzindo arte final para listas telefônicas, Roberto Persil não conseguiu alcançar o sonho, mas descobriu nas capitais um novo fazer artístico. “Em 1973, me encantei pelas esculturas em madeira. Naquele tempo, trabalhos que valorizavam a cultura brasileira, principalmente nordestina, estavam no auge”, reitera. Mesmo não lucrando muito nas capitais, o artista trouxe consigo uma bagagem cultura que, segundo ele, não tem preço.

“Troquei a arte pela sobrevivência”

Em 1976, Roberto Persil começou a trabalhar com esculturas em madeira. Logo foi obrigado a render-se a uma indústria cultural em que a  originalidade artística perdia espaço para a injusta e desleal dinâmica das produções em série. “Como não tinha terminado a faculdade ainda, troquei a arte pela sobrevivência. Fazia tudo em um atelier no fundo de casa”, salienta.

No ano seguinte, retomou a carreira artística e conquistou estabilidade financeira se tornando professor de português. Em 1980, o artista ganhou seus primeiros prêmios. “Lembro bem da primeira vez. Foi no 2º Salão de Artes Plásticas para Novos, em Cascavel [no Oeste Paranaense]. Acho que deveriam investir mais nesses salões porque ajuda os artistas que estão em processo de maturação”, recomenda.

De acordo com Persil, é lamentável que os curadores de eventos artísticos não visitem ateliers de artistas principiantes. “São esses que precisam de ajuda, não os renomados. Nenhum órgão vinculado à cultura brasileira dá valor a quem está começando”, desabafa. Uma ótima contribuição seria a Secretaria de Cultura do Estado ou o Ministério da Cultura, por exemplo, ajudarem jovens artistas a criarem seus primeiros catálogos.

Contra o estrangeirismo

Produzir peças que resgatem a cultura nativa brasileira significa ofertar elementos históricos ainda desconhecidos pela população. Com esse pensamento, Roberto Persil faz um apelo para que os novos pintores e escultores brasileiros acreditem em si mesmo e no local em que vivem.

“Um artista não deve se vincular a estrangeirismo nenhum se quer reconhecimento genuíno. Devemos parar de importar ideias. Temos doze horas de luz, e essa luminosidade já pode ser explorada como fruto da nossa cultura”, enfatiza.

Saiba mais

Roberto Persil produzia 15 esculturas por semana na época em que contava com ajuda de um auxiliar.

Em média, o artista plástico pinta uma tela por semana.

Frase de destaque

“Nunca saberei dizer quantos desenhos já fiz, porque toda arte que produzo nasce de um desenho.”