David Arioch – Jornalismo Cultural

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Matamos até quando homenageamos os nossos mortos

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Ontem, passei no mercado e observei a enorme fila do açougue. Hoje, muitas daquelas pessoas que estavam na fila provavelmente foram ou irão ao cemitério para relembrar ou homenagear seus entes queridos. Mesmo para quem não é religioso, a data acaba por trazer alguma lembrança daqueles que partiram. Afinal, é natural lembrarmos dos nossos.

Por outro lado, no almoço e no jantar deste Dia de Finados, muitas dessas pessoas se alimentarão de morte. Sim, nos recordaremos dos nossos falecidos enquanto comemos a carne daqueles que jamais receberam ou receberão qualquer homenagem. Tiveram uma breve vida mecânica. Morreram como se jamais tivessem existido.

Entre mastigadas e mordidas na carne que pertenceu a um ser senciente e consciente, falaremos sobre os bons e maus momentos vividos juntos daqueles que se foram. Os outros não nos interessam, porque não são como nós. Ao nosso redor, os mais diferentes tipos de carne. Quantas espécies, quantos animais mortos? Difícil dizer. Podem ser partes de diferentes animais, que tinham distintas personalidades.

A verdade é que matamos até quando homenageamos os nossos mortos. Destruímos vidas sem qualquer consideração. Afinal, esses mortos que comemos não são enterrados. O seu funeral é a fumaça da churrasqueira que queima suas partes fracionadas, irreconhecíveis. Se passam do ponto, são lançadas no lixo, como qualquer coisa insignificante, mais do que nunca destituídas de valor.





Um barbudo no Dia de Finados

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Pense numa situação visceral de estranhamento. Estou falando de mim no Cemitério de Alto Paraná visitando parentes falecidos. Muita gente com aquele olhar de surpresa, observando o barbudo aqui:

“O que esse muçulmano está fazendo aqui?” “Muçulmano, Dia de Finados? Oi?” Não sabia que muçulmanos iam ao cemitério.”

E para fechar com chave de ouro, na saída, uma amiga de infância da minha mãe me abraça e diz: “Que honra! Hoje até o Osama veio homenagear os falecidos.” Ah! Recebi também um folheto religioso antes de partir. “Sei que não é a sua religião, mas ficarei feliz se puder ler”, disse um senhor católico.

Written by David Arioch

November 2nd, 2016 at 3:34 pm

Em respeito à memória de parentes falecidos

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Minha bisavô Maria, meu tio-avô Lula, meu tio-avô João e a manilha (Fotos: David Arioch)

Em respeito à memória de parentes falecidos em 1962 e 1970, desde criança vou ao cemitério de Alto Paraná no Dia de Finados. É um costume sem conotação religiosa. Meus familiares, parte deles imigrantes, se mudaram para esta região na década de 1940, quando o Novo Norte do Paraná ainda estava em processo de colonização.

Embora eu não tenha nascido nem vivido em Alto Paraná, reconheço que é um lugar rico em histórias. O caminho até o cemitério é muito intrigante. Há casas de sítios e fazendas que foram abandonadas há muito tempo, mais tarde consideradas assombradas. Também há lugarejos, antes colônias, envoltos por narrativas insólitas, como a de um rapaz que dormiu por anos e a de famílias de mulheres que expulsavam invasores a tiros.

O cemitério de Alto Paraná é um dos mais antigos da região Noroeste do Paraná. Quando vou lá, visito primeiro o túmulo da minha bisavó, que fica logo na entrada. Depois, vou ao túmulo do meu tio-avô Renato, que tinha apelido de Sete Metros e Lula. Ele era policial e foi assassinado em Curitiba em 1970, aos 31 anos. Sua história também faz parte do meu livro “Areia Branca”.
O terceiro a ser visitado normalmente é o tio João, que cometeu suicídio aos 25 anos, em 1962. Quando ele faleceu, meu bisavô construiu um túmulo e colocou uma manilha. Pediu que quebrassem o topo dela, a deixando disforme, simbolizando a quebra do ciclo da vida, já que meu tio-avô tirou a própria vida na mocidade. Depois de perder dois filhos ainda jovens, minha bisavó parou de se alimentar, acabou por adoecer e faleceu em 1970.

Written by David Arioch

November 2nd, 2016 at 3:17 pm

Um dia de “guerra civil” em Terra Rica

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Quando católicos e umbandistas duelaram em frente à Igreja Santo Antônio de Pádua

Antiga Igreja Matriz, cenário do conflito que envolveu centenas de pessoas (Foto: Reprodução)

Igreja Matriz, cenário do conflito que envolveu centenas de pessoas (Foto: Reprodução)

Em 1960, Terra Rica, no Noroeste do Paraná, já era uma cidade habitada por pessoas das mais diversas crenças. No entanto, essa diversidade, que até então inspirava a tolerância e respeito em prol do desenvolvimento, foi ofuscada por um conflito que jamais seria esquecido pelos moradores do município. Em 2 de novembro do mesmo ano, Terra Rica viveu um episódio digno de uma guerra civil em frente à Igreja Matriz.

Era Dia de Finados, quando integrantes do Centro de Umbanda de Terra Rica decidiram realizar uma passeata até o Cemitério Municipal, na Avenida Rio de Janeiro. O trajeto incluía passar em frente à Igreja Santo Antônio de Pádua, o que foi interpretado como uma afronta pelos católicos. Ciente da movimentação, o padre Vicente Magalhães de Teixeira, o primeiro pároco da cidade, se dirigiu até o Centro de Umbanda para tentar impedir a realização da passeata, embora há quem diga que o padre tenha apenas pedido para mudarem o percurso.

A solicitação da autoridade religiosa foi ignorada, então membros dos grupos Congregados Marianos e Filhas de Maria pegaram facas e foices e montaram guarda na entrada da Igreja Matriz. “Me recordo que quando os umbandistas apareceram a situação saiu de controle e os católicos levaram o conflito até as últimas consequências”, relatou o pioneiro Joaquim Pereira Briso em entrevista concedida ao autor deste blog em 2006.

No dia do conflito, católicos incendiaram o Centro de Umbanda de Terra Rica (Foto: Reprodução)

Após o confronto, católicos incendiaram o Centro de Umbanda de Terra Rica (Foto: Reprodução)

Muita gente se feriu, mas ninguém morreu. Não foram poucos que tiveram de ser levados em estado grave para o hospital. Há testemunhos de pessoas que perderam a visão durante a briga. De acordo com o pesquisador Edson Paulo Calírio, a luta começou “no braço”, só que os mais exaltados logo recorreram a foice, facão, balaústre, tijolo e pedra. Qualquer objeto próximo da mão era usado como arma. Alguns pioneiros afirmaram que o conflito teve início às 13h e se estendeu por toda a tarde.

Havia centenas de pessoas na entrada da Igreja Santo Antônio de Pádua no momento da confusão. Os umbandistas somavam cerca de 300 pessoas, um número considerado bem inferior a quantidade de católicos no local para impedir que os manifestantes continuassem a passeata até o cemitério. “No final da tarde, em uma ação extrema, os católicos foram até o centro de umbanda e atearam fogo em tudo. Não sobrou praticamente nada, só as vigas incineradas’”, lembrou Pereira Briso.

O padre Vicente e os grupos Congregação Mariana e Filhas de Maria justificaram o incêndio contra os umbandistas como consequência do desrespeito aos católicos e também de uma suposta ameaça ao pároco. Já os pioneiros que não pertenciam a nenhum grupo religioso pensavam e ainda pensam diferente. “A verdade é que o camarada que criou esse centro em Terra Rica começou a se sobressair demais, fazer uns milagres esquisitos, daí só precisaram de uma justificativa para tocar fogo no terreiro”, declarou Joaquim Pereira Briso. No mesmo dia da briga entre católicos e umbandistas, três crianças que caminhavam pela Avenida Rio de Janeiro, via de acesso ao Cemitério Municipal, foram atropeladas por um caminhão.

Cemitério é mais antigo que a cidade

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Necrópole surgiu quando Paranavaí ainda era um distrito

Jazigo da Família Moraes é o mais visitado

Jazigo da Família Moraes é o mais visitado (Foto: David Arioch)

Os primeiros sepultamentos no Cemitério Municipal de Paranavaí, no Noroeste do Paraná, foram realizados em 1947. À época, antes de se tornar cidade, a Colônia Paranavaí, distrito de Mandaguari, ainda era conhecida como Fazenda Brasileira.

Naquele tempo, o portão de entrada do cemitério ficava localizado onde hoje é a área central da necrópole. A atual fachada foi construída somente décadas depois. A demora, segundo pioneiros, se deve a um problema de planejamento. O espaço era pequeno e não contemplava o desenvolvimento da cidade, então precisaram comprar novos lotes e extinguir uma larga rua que atravessava o cemitério.

O administrador do Cemitério Municipal, Amilcar Pereira do Santos, sabe muito bem o que isso significa. Ele viu o espaço ser ampliado três vezes ao longo de 33 anos de trabalho. “Já carpi, construí muro, fui coveiro, auxiliar de médico-legista e hoje estou aqui como administrador”, frisa, acrescentando que durante muito tempo ele e dois colegas de trabalho foram responsáveis pela manutenção da necrópole.

Oito funcionários cuidam dos cinco mil túmulos onde estão enterradas mais de 30 mil pessoas. Segundo Santos, o trabalho se torna mais intenso no final de outubro, quando o fluxo de visitas no Cemitério Municipal aumenta muito por causa do feriado de Dia de Finados. “O horário de expediente passa a ser das 6h às 19h. Posso dizer que o nosso trabalho triplica. Sempre tem alguém pedindo informação ou precisando de alguma ajuda. Mas tudo corre bem porque atendemos um de cada vez”, pondera Amilcar.

Apesar da maioria dos túmulos serem visitados apenas no período que precede o feriado, alguns são recordistas de público. Exemplo é o jazigo da Família Moraes, próximo à entrada do Cemitério Municipal, que apresenta a imagem de um avião sobrevoando o campo e recebe até três visitas por dia. “As pessoas sempre perguntam como foi o acidente”, destaca Amilcar Santos. O belo desenho impresso em azulejo é uma representação simbólica do último momento vivido por Oswaldy Teixeira de Moraes.

“Em 1976, ele e mais três pessoas foram para o Mato Grosso do Sul. Viajaram a trabalho para negociar a venda de terras. Durante o voo, começou a chover e eles tentaram descer e, sem sucesso, o avião se chocou contra uma peroba. Isso aconteceu perto de Naviraí”, conta o administrador do cemitério. No acidente morreram duas pessoas de Paranavaí e duas de Londrina.

Outro túmulo que recebe um bom número de visitas é o de Armando Trindade Fonseca que ficou conhecido como um grande radialista. “Pelo menos três pessoas, inclusive de outras cidades, visitam o túmulo dele toda semana. Não é pra menos. Ele era muito conhecido na região e foi pioneiro do rádio. Infelizmente, problemas de saúde o levaram à morte”, comenta Amilcar Pereira.

Curiosidades

Em 1950, a Prefeitura de Mandaguari enviou um livro oficial de inumações que passou a ser administrado pelos próprios moradores.

No Cemitério Municipal, 400 pessoas estão sepultadas na ala de “gavetas”, onde são depositados os restos mortais de indigentes e pessoas sem condições financeiras para comprar um túmulo.

O Cruzeiro das Almas é bastante frequentado. No local, os visitantes deixam garrafas com água, velas, flores e pedidos para se curar de alguma enfermidade ou conseguir emprego.

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