David Arioch – Jornalismo Cultural

Jornalismo Cultural

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As armadilhas e a perspectiva capciosa do “bem-estar animal”

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Foto: Jo-Anne McArthur/We Animals

Você já percebeu como quando se fala em exploração animal sempre aparece alguém dizendo que há situações em que os animais não sofrem, que eles não são privados de nada, que não há nada de errado nisso? Esse fato tem relação direta com algo que eu chamo de “malícia da produção”. E o que é a malícia da produção?

É quando, por gozarmos de uma inteligência superior a dos animais, manipulamos a inocência não humana visando a lucratividade. Não quero discorrer sobre casos óbvios de crueldade explícita contra animais na produção industrial. Quero versar sobre algo relacionado à “cegueira do justo”, que surge quando somos incapazes de visualizar algo que por uma questão cultural, conveniente e unilateral não nos parece óbvio.

Não é incomum alguém que considera o veganismo radical citar o exemplo de uma bela fazenda modelo, onde os animais são supostamente bem tratados. Sei que esses chamados locais existem. Mas essa concepção de bem tratado é definida por quem? Por quem explora ou por quem é explorado?

Se exploro um animal e sou eu que digo se ele é bem tratado ou não, quem define o que é aceitável ou bom para ele sou eu, obviamente, e levando em conta em primeiro lugar o que esse animal tem a me oferecer. Humanos que exploram animais têm sempre uma perspectiva um tanto quanto capciosa do que é o chamado “bem-estar animal”, porque eles entendem que qualquer oposição ao que fazem representa em algum nível um risco aos seus lucros.

Sendo assim, não acho que a única baliza para considerar o que é certo ou errado em relação à nossa intervenção na vida dos animais seja o sofrimento óbvio, a tortura, a crueldade baseada na violência física. Na realidade, existe um ponto que não costuma ser muito considerado embora seja de suma importância nessa conscientização. Que ponto é esse? É a malícia da produção fundamentada no condicionamento animal.

Caso você seja contra a exploração de animais, em algum momento da sua vida alguém vai querer te apresentar uma “vaca feliz”, um animal supostamente bem-tratado e que dizem nunca ter passado por nenhum tipo de privação. Sim, pode ser que ela não tenha sofrido nenhum tipo de violação que nos pareça óbvia. No entanto, isso não significa que esse animal não tenha sido privado de ser mais do que uma fonte de alimento ou produto. Mas como assim?

Imagine uma situação. Você é criado para ser objetificado, para ser explorado desde o momento em que nasce. Essa é a sua realidade e isso é tudo que você conhece. Então é claro que a menos que você passe por uma situação mais explícita de privação e violência pode ser que você não manifeste contrariedade em relação à forma como vive, mas isso porque te condicionaram a aceitar uma vida para a qual você não deveria ter nascido, porque não diz respeito, de fato, a quem você é, e às suas reais necessidades. Porém, se você está imerso nessa realidade, e isso é tudo que você conhece, como esperar que você veja isso com estranhamento?

Em vários momentos da minha vida, conheci diversos animais criados para consumo que aos meus olhos pareciam ter uma bela qualidade de vida em uma fazenda. Mas por que tive essa impressão? Porque normalmente partimos da constatação mais evidente. Quero dizer, se um animal não está fisicamente ferido, se ele não está visivelmente estressado, se não aparenta precisar de nada, isso significa que está tudo bem. Na realidade, esse é um exemplo clássico que serve para endossar o discurso comum dos produtores de leite quando alegam que se “suas vacas” não estivessem satisfeitas elas “esconderiam o leite”.

Para ser honesto, isso na minha opinião não diz nada. Mas por que? Porque se uma vaca foi criada para ser ordenhada, ela foi condicionada a isso, e você vai usar tudo que sabe sobre ela a seu favor para manter o controle da situação. Você leva vantagem sobre esses animais, e vai usar isso como parâmetro para potencializar a produção de tudo que, aos seus olhos, eles têm a oferecer enquanto fontes de produtos, mesmo que jamais tenham dado tal autorização, já que animais claramente não existem para nos servir, nós que os condicionamos a isso, seja por meio da violência inequívoca ou não.

Ou seja, a intervenção humana iniciada no princípio da vida de uma vaca, por exemplo, leva à normalização de algo que não deveríamos entender como aceitável, e claro que porque estamos falando de um alimento que não existe naturalmente para seres humanos, mas sim para bezerros. Ademais, vamos considerar que vacas sejam, de fato, bem tratadas nesse sistema.

Ela vai ter a chance de envelhecer ao lado do bezerro? Não, porque prioritariamente o leite é destinado a seres humanos. Ela vai ter a oportunidade de pelo menos envelhecer? Não, e por um fator mercadológico ululante – a drástica queda na produção de leite culmina no envio da vaca para o matadouro, e não raramente o seu destino são as pequenas porções de hambúrgueres dispostas na área de frios dos mercados.

Não esqueça também que muitas das doenças modernas que acometem esses animais têm relação com o sistema de produção. A verdade é que qualquer doença severa e onerosa já resulta no sacrifício do animal, porque nenhum produtor vai deixar de ponderar a relação entre preservação da vida x lucro. Existe alguma legislação que assegure que um animal não morra nessa circunstância? Não. Então como podemos falar em bem-estar animal quando isso mascara fatos irrefutáveis de que a vida do outro não é uma prioridade?

Creio que o condicionamento animal é uma das maiores barreiras dos direitos animais e do veganismo, porque o condicionamento, tanto humano quanto não humano, endossa a aceitação à exploração animal. Animais criados para consumo estão entre os mais inocentes, ingênuos e previsíveis. Claro, não foi por acaso que seus ancestrais foram domesticados. Com base nesse potencial a humanidade criou ao longo dos séculos “versões” ainda mais dóceis e facilmente condicionáveis. Afinal, isso explica por que no passado escolhemos criar bois e porcos para consumo e não leões e tigres, não é mesmo?

Se você analisar mesmo que superficialmente a história dos muitos povos escravizados pela humanidade, você verá que entre eles sempre existiram muitos que, em decorrência de terem sido escravizados desde a tenra idade, e tendo pouco ou nenhum contato com outra realidade, não viam isso como uma arbitrariedade, mas apenas um triste destino, uma infelicidade, um desamor proveniente de Deus ou até mesmo uma danação baseada na sua própria condição física ou étnica.

Então, te pergunto: “Se tivemos muitos seres humanos que mesmo sendo ostensivamente e visceralmente privados de qualquer direito ainda se conformavam com isso, por que animais não humanos, que sequer partilham do mesmo código comunicativo que nós, não se conformariam? Ou pelo menos não teriam sua conformação condicionada?” Animais humanos e não humanos têm níveis de resistência equiparáveis em alguns níveis e aspectos, porém toda resistência tem limites.

Animais que já não reagem diante da morte, como o boi que aceita o dardo da pistola pneumática em seu cérebro sem tentar escapar da caixa, o porco que passa horas com o olhar disperso sem mudar de posição em uma fazenda, o frango que deixa de bater as asas durante a viagem ao matadouro dentro de uma gaiola de plástico – nenhum desses são exemplos de que está tudo bem em matar e consumir animais, mas sim de que aproveitamos de suas vulnerabilidades para fazermos o que quisermos com eles. E como somos mais inteligentes, usamos isso a nosso favor, mesmo que em ações notoriamente imorais se partimos da perspectiva de que, mais cedo ou mais tarde, obliteramos a vida de quem não quer morrer, assim que o seu “propósito” de proporcionar lucro for cumprido.

Sim, somos ardilosos quando matamos pintinhos machos porque eles não têm valor comercial; quando fazemos debicagem de aves; quando extraímos ou desbastamos dentes de suínos, tradicionalmente sem anestesia; quando eletrocutamos o gado a caminho do matadouro ou de um navio para exportação de “carga viva”; quando marcamos animais com ferro quente; quando usamos iluminação artificial para enganar o relógio biológico das galinhas poedeiras visando ganho em produtividade; quando alimentamos “muito bem” animais que serão mortos em poucos meses.

Afinal, não os alimentamos assim para satisfazê-los, mas simplesmente para obter melhor produtividade. Mas não somente isso. E o que dizer das abelhas? Pequenos animais que têm sua rotina manipulada pela intervenção humana para que possamos garantir uma quantidade de mel considerada aceitável para os nossos padrões. Toda a apicultura é baseada na artificialização da rotina das abelhas. Ou seja, o homem aproveitando-se da ingenuidade animal. E nesse processo, quando elas são acometidas por parasitas, matamos até as saudáveis, porque seria muito trabalhoso identificar as enfermas.

Pergunte-se: “Por que abelhas dariam naturalmente mel aos seres humanos se esse alimento é produzido por elas para atender suas necessidades nutricionais quando são incapazes de saírem para buscar mais néctar e pólen?” Seja em situação de adversidade climática, queda de temperatura ou carência de floradas. E mais importante, não se engane, mesmo quando um animal criado para consumo pareça extremamente saudável e satisfeito, isso não significa que ele seja ou esteja, e nem mesmo que isso seja certo. Afinal, o que você está testemunhando é apenas resultado de mais um condicionamento visando aquilo que é sempre prioritário – o lucro.





 

Direitos animais não são sobre privilégios para não humanos

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Será realmente que os animais não têm tanta vontade de viver?

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Animais desesperados pela liberdade

Será realmente que os animais não humanos não têm tanta vontade de viver? Será realmente que eles querem ser resumidos à comida no prato de alguém? Há provas de que em determinadas situações os animais lutam mais pela vida do que os seres humanos. Isso realmente não significa nada? Não deveria incitar algum tipo de empatia que não envolva apenas seres humanos? É justo matá-los e comê-los? Reduzi-los a produtos voltados a saciarem um prazer que não ultrapassa alguns minutos? Vale a reflexão.

Written by David Arioch

December 3rd, 2017 at 4:50 pm

“O reconhecimento do direito animal à vida é isso, não me colocar acima deles quando posso viver bem sem explorá-los”

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“Eu gosto de ter um shape legal, mas isso não é mais importante pra mim do que não comer animais”

— Vamos supor que você tenha virado vegano no mês passado, e de repente grande parte da sua muscular construída em anos de musculação está indo embora. O que você faria? Digo isso num cenário hipotético em que não é possível evitar essa perda de massa magra.

— Eu não faria nada. Claro, eu gosto de ter um shape legal, mas isso não é mais importante pra mim do que não comer animais. O que tenho é um corpo que é consequência da minha filosofia de vida. E se uma nova filosofia de vida não permitisse que eu tivesse uma boa massa muscular, sem problema. Pra mim, o reconhecimento do direito animal à vida é isso, não me colocar acima deles quando posso viver bem sem explorá-los. Meu ego e minha vaidade diminuem um pouquinho mais a cada dia. Ter saúde seria o suficiente para continuar trilhando o meu caminho. Isto aqui é uma carcaça que merece cuidados para que eu possa ter uma boa qualidade de vida. Porém, me vejo mais abaixo do que acima, talvez uma consequência natural de um tipo peculiar, ou estranho aos olhos de alguns, de estabelecimento de prioridades.

 

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Mesmo que não existisse aquecimento global, que direito teríamos de destruir outras espécies e o seu habitat?

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Explorar, destruir e matar simplesmente para o nosso próprio benefício. Onde existe coerência nisso? (Imagem: Nasa)

Uma pessoa pode não acreditar em aquecimento global, mas está aí um fato interessante divulgado pela FAO e pela One Green Planet, e jamais contestado por qualquer órgão ou pela indústria alimentícia – 70% das plantações do mundo são destinadas para alimentar animais de criação que serão comidos por seres humanos. Não pense em aquecimento global, mas somente no absurdo da situação. Isso deveria ser aceitável?

Mesmo que não existisse aquecimento global, que direito teríamos de destruir outras espécies e o seu habitat? Vamos supor que nossa interferência no meio ambiente não resultasse em grande impacto para a vida humana, ainda assim isso seria justo? Explorar, destruir e matar simplesmente para o nosso próprio benefício. Onde existe coerência nisso?

Os outros animais também têm o direito de viver. Falar das consequências para a humanidade é sempre uma forma de apelar ao que nos toca, nos atinge, mas não deveria ser assim, porque isso sempre nos coloca em uma posição de protagonismo. As pessoas deveriam entender que outras vidas e outros espaços existem, e que deveriam ser intocados independente de qualquer coisa, e não simplesmente porque isso também nos afeta.

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Written by David Arioch

July 28th, 2017 at 8:51 pm

Por que você não se alimenta de animais?

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— Por que você não se alimenta de animais? O que existe de tão errado nisso?

Foto: We Animals/Jo-Anne McArthur

— Você já viu um boi, uma vaca e um bezerro pastando livremente? Um peixe serpenteando pelas águas? Um porco rolando na relva? Uma galinha ciscando sem pressa?

— Algumas dessas coisas, sim.

— O que você acha disso?

— É divertido, bonito de ver.

— Pois então. Se eu fosse um animal, provavelmente eu não ficaria feliz de ser privado dessas coisas que me trariam algum tipo de satisfação. Se me alimento de animais, não consigo ignorar minha culpa sobre aqueles que são privados de uma vida natural. Eu não gostaria de nascer, viver e morrer para atender supostas necessidades dos outros. Seria como viver sem um propósito próprio.

— Mas animais são criados com essa finalidade. Você não os veria se não fosse por causa da demanda por produtos de origem animal.

— Você tem razão, mas aqueles que vivem merecem gozar de uma vida sem exploração, privação ou sofrimento. Os animais que são reduzidos à comida depreciam a vida bem menos do que nós. Jamais deixariam de lutar diante da iminência da morte. Isso não é um exemplo de vontade de viver? Maior prova disso é que no chamado bem-estarismo os enganamos antes de matá-los. E claro, para parecermos mais humanos aos nossos olhos. Quero dizer, sou um sujeito tão bom que não o mato violentamente, apenas dissimulo uma situação antes do golpe final. Penso que enganar um ser vivo para matá-lo sem que supostamente ele sofra também é triste, porque é uma forma de traição, já que o animal segue seus comandos em confiança. Você já viu um animal oferecer alguma parte do corpo para que você a retalhe? Se um dia eles deixarem de existir, não será algo tão aberrante, penso. E por que seria? A vida deve seguir seu curso natural, e não existe nada de natural, por exemplo, em manipulação genética para atender caprichos humanos. Muitas vezes os animais nem se reconhecem como animais por causa da interferência humana. Tornam-se seres confusos, deslocados de sua própria vocação. Isso não é triste e preocupante?

— É…acho que faz sentido.

— Imagine se alguém o criasse e o colocasse para trabalhar o dobro do que você trabalharia normalmente, em sua capacidade natural. Como você se sentiria?

— Não concordo com essa comparação, é desleal.

— Tudo nos parece desleal quando observamos os outros como se estivessem abaixo dos nossos pés. Nos recusamos a exercer a empatia ou o reconhecimento do valor da vida animal porque isso exige uma revisão de valores. E também porque isso significa mastigar com a boca aberta e olhos esgazeados diante de um espelho convexo que mostra quem somos e o que fazemos; que revela a face que negamos na nossa relação com os animais.

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O mundo é tão grande quanto a compaixão humana poderia ser

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“Dizemos que amamos a vida e o outro, mas o outro são poucos” (Foto: Reprodução)

Vivemos em um mundo onde tudo é possível, até mesmo o fim da crueldade contra os animais. O mundo é tão grande quanto a compaixão humana poderia ser. Nascemos para crescer, evoluir, transpor barreiras, e reconhecer o direito à vida daqueles que nos parecem reles simplesmente por não se comunicarem como nós.

Ignoramos que abstraímos vidas que não geramos, e acreditamos que isso é parte natural da nossa existência. Fechamos os olhos para o fato de que aquilo que corrói o outro também nos corrói – mas de maneira que não enxergamos objetivamente porque estamos preocupados demais com nossas individualidades e peculiaridades estritamente humanas.

Dizemos que amamos a vida e o outro, mas o outro são poucos; apenas aqueles com quem simpatizamos e julgamos merecedores da existência, sob uma perspectiva que é sempre mais homogênea do que heretóclita. Penso que um mundo livre da crueldade animal só vai ser possível quando a consciência da maioria apontar, quem sabe, e mesmo que infelizmente e inconsequentemente, até por força de tragédias inesperadas e pouco imaginadas, que a salvação da humanidade depende também da forma como tratamos aqueles que são inferiorizados.

Enquanto um simples animal pacato e silencioso for maltratado ou desprezado por não ter voz análoga à nossa, dificilmente sairemos do abismo moral que criamos para defender o que chamamos de direito e necessidade de sobrevivência, mesmo que o tempo há muito tenha mostrado que o que fazemos é simplesmente tentar perpetuar aquilo que relativiza nosso valor existencial – nosso desejo de provocar o fim ansiando pelo festim.

 

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Mata-se um ser vivo por um prazer efêmero

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Arte: Sue Coe

Quando alguém come um animal, e diz que aquele ser morreu cumprindo o seu papel, eu pergunto: Será que a mãe, o pai, o filho ou a filha daquele animal partilha da mesma opinião? Se eles nascem com essa finalidade, por que então eles e os seus se emocionam, não reconhecem a morte precoce como natural e até mesmo ficam enlutados?

Os animais têm emoções, sentimentos, e aqueles que colocamos sobre a mesa nunca morrem sorridentes ou satisfeitos em tornarem-se comida. Ademais, demonstram dor e sofrimento de maneira bastante óbvia. É triste reconhecer que mata-se um ser vivo por um prazer efêmero, que não ultrapassa minutos.

Aquele que se regozija com a morte em benefício do próprio paladar ignora o fato de que a morte também o habita, já que somos aquilo que fazemos, comemos, pensamos e sentimos. Como podemos almejar a paz enquanto nos alimentamos de morte?

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Written by David Arioch

February 11th, 2017 at 5:13 pm

Ransom Riggs e o conto do filho vegetariano de um fazendeiro

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“Quando se deu conta de que a carne das refeições vinha de animais, recusou-se a comer aquilo”

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O livro “Contos Peculiares”, do escritor estadunidense Ransom Riggs, é considerado um livro dentro de livros, já que surgiu a partir da série “O Lar da Srta. Peregrine para Crianças Peculiares”. Como pesquiso sobre direitos animais, vegetarianismo e veganismo na literatura, dos dez contos que fluem com facilidade e fazem o leitor mergulhar em um universo quimérico de possibilidades e impossibilidades, um me chamou mais a atenção. É a história de um jovem bastante sensível que reconhece o direito à vida de todas as criaturas. E por isso, se recusa a comê-las, explorá-las ou puni-las, mesmo sendo filho de um fazendeiro.

Intitulado “O Gafanhoto”, o conto começa narrando a história de Edvard, um homem que deixou a Noruega em busca de prosperidade nos Estados Unidos. Ele passou por tantas dificuldades no passado que decidiu dedicar-se completamente a uma fazenda que comprou no Território de Dakota, na região setentrional da Luisiana.

Recordando-se da experiência vivida por um amigo que se apaixonou, casou, teve filhos e vivia na pobreza, Edvard evitava relacionamentos. Porém, como sentimentos independem de razão ou mesmo querer, o norueguês se apaixonou, casou e mais tarde teve um filho. A criança nasceu com um coração tão grande que um lado do peito era perceptivelmente maior que o outro.

Mas a felicidade gerada pelo nascimento do filho, que trouxe muitas expectativas a Edvard, chegou ao fim quando a esposa fragilizada acabou falecendo após o parto. Tendo de criar o menino sozinho, o fazendeiro sentiu raiva da criança por ela ser especial – estranha e delicada.

Mesmo ciente de que o menino não tinha culpa da morte da esposa, todo o amor de Edvard se transfigurou em amargura. Nem as semelhanças físicas dos dois sensibilizaram o homem, que se sentia incomodado por ter um filho com coração tão imenso que se apaixonava facilmente:

“Aos sete anos, tinha pedido em casamento uma colega de turma, uma vizinha e a organista da igreja, quinze anos mais velha. Se um pássaro por acaso caísse do céu, Ollie passava dias e dias chorando. Quando se deu conta de que a carne das refeições vinha de animais, recusou-se a comer aquilo novamente. O garoto por dentro era pura sensibilidade.”

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Quando o menino tinha 14 anos, uma nuvem de gafanhotos que se estendia por quilômetros devorou o capim, o milho e o trigo da localidade. Os insetos arrancaram até a lã dos carneiros. Encarados como a maior ameaça dos últimos tempos, os colonos iniciaram uma guerra contra os gafanhotos, e assim cada cidadão foi obrigado a entregar quinze quilos de gafanhotos mortos por semana. Quem não fizesse isso, seria multado.

Enquanto Edvard cumpria o seu papel, Ollie recusou-se a matar qualquer inseto. O menino via valor na vida de todas as criaturas, inclusive dos gafanhotos, e saía de casa arrastando os pés para não matar nenhum deles. Irritado com o comportamento do filho que lhe custou uma multa, Edvard virou as costas para ele.

Ninguém na cidade conversava mais com o menino, e sentindo-se muito solitário, Ollie fez amizade com um gafanhoto, tornado seu confidente. O inseto, alimentado às escondidas, era mantido embaixo da cama para que Edvard não o visse. “Não é sua culpa que todos o odeiem. Você só está fazendo o que foi criado para fazer”, disse ao gafanhoto que recebeu o nome de Thor. Em resposta, ouviu somente um “Crii-criiic”.

Quando Edvard descobriu que havia um gafanhoto morando sob o seu teto, ele o arremessou na lareira e Ollie chorou depois de ouvir o lamento agudo do seu grande amigo não humano. Expulso de casa, o menino passou a noite no campo até ser encontrado pelo pai. O homem ficou chocado ao reconhecer que o filho se tornou um gafanhoto gigante. Sem saber o que fazer, buscou a ajuda de um velho sábio que possuía um livro justificando a metamorfose:

“Aqui diz que, quando uma pessoa com certo temperamento peculiar e um coração grande e generoso não se sente mais amada pelos de sua própria espécie, ela assume a forma de qualquer criatura com a qual sinta uma conexão maior.”

Edvard então foi informado de que o filho só voltaria a forma normal se fosse realmente amado por alguém. Incapaz de demonstrar o seu amor, e sentindo repulsa por Ollie ter se tornado um dos seres que ele mais desprezava, o homem alardeou por toda a cidade que ele daria a sua fazenda a quem amasse seu filho e o fizesse retornar à forma humana.

O menino em forma de gafanhoto acabou capturado por filhos de colonos. Eles o aprisionaram, mas não conseguiram alcançar o objetivo, pois nenhum deles o amava, nem mesmo o respeitava. Vendido para um velho caçador, o gafanhoto começou a conviver com cães de caça, até que assumiu a forma de um cão. Durante uma caçada, ele soube que sua função era recolher os gansos abatidos pelo caçador.

No dia seguinte, reprovando a atitude do homem, ele fugiu pelo campo com os gansos. Sem saber do paradeiro do filho, Edvard sentiu-se muito mal pela perda de Ollie. Mais tarde, o fazendeiro casou-se novamente e teve uma filha a quem deu o nome de Asgard. A menina, que de tão bondosa era muito semelhante a Ollie, não enfrentou a mesma intransigência por parte do pai, provavelmente porque o homem temia cometer os mesmos erros.

Um dia, tendo somente nabos para comer, o fazendeiro comemorou quando encontrou um ganso no campo, disperso de seu bando. Edvard capturou o animal e o levou para casa, feliz com a possibilidade de um jantar à base de carne de ganso. “Mas nós não precisamos matá-lo. Podemos tomar sopa de nabo outra vez esta noite, eu não me importo!”, insistiu a menina que desabou diante da gaiola do ganso e começou a chorar.

Lembrando-se do filho, Edvard concordou em poupá-lo. Em pouco tempo, o animal tornou-se o melhor amigo de Asgard. E todos respeitavam o seu desejo de não querer vê-lo morto nem ferido. A convivência dos dois e o amor que ela dedicava ao ganso fez com que ele, numa manhã, retornasse à sua forma humana.

Acompanhado de Asgard, o pai ficou extremamente emocionado e perguntou a Ollie se ele poderia perdoá-lo. “Eu o perdoei há anos. Só demorei um pouco para encontrar o caminho de volta para casa”, declarou o rapaz de bom coração.

Ransom Riggs

De acordo com a Editora Intrínseca, Ransom Riggs cresceu na Flórida, mas reside na terra das crianças peculiares, Los Angeles. Formou-se no Kenyon College e na Escola de Cinema e TV da Universidade do Sul da Califórnia, além de fazer alguns curtas-metragens premiados. Nas horas vagas é blogueiro e repórter especializado em viagens, e sua série de ensaios de viagem, Strange Geographies, seu primeiro romance, pode ser lida em ransomriggs.com.

Saiba Mais

“Contos Peculiares”, de Ransom Riggs, foi lançado no Brasil em 2016 pela editora Intrínseca.

“O Gafanhoto” é o oitavo conto da obra.

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O chamado dos animais

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Se transformaram em uma porquinha eufórica que grunhia e girava em torno do próprio rabo

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Era um porquinho landrace que percorria meu rosto com a língua (Arte: Cari Humphry)

Ainda tenho fresca na minha memória a lembrança da última vez em que comi carne. Me ofereceram um lanche, o que eu passava até meses sem comer, e aceitei. Afinal, era uma sexta-feira à noite. “Tudo bem, é só hoje”, pensei. Mordi sem pressa e sem o prazer de outrora o alimento que trazia uma variedade de carnes – filé de frango, hambúrguer e pedacinhos de bacon. Era enorme e mal cabia nas minhas mãos, embora elas não sejam pequenas.

Depois de comer, observei o papel branco que envolvia o lanche. O enrolei e o joguei na lixeira. Há muito tempo me acostumei a não comer demais porque não vejo sentido em ir além das minhas necessidades. Sentado, perdi o interesse em continuar lendo um livro que até então invadia meus pensamentos e divagações. Me senti inchado, não pela quantidade de alimento que ingeri, mas por algum motivador que acredito ser biologicamente inexplicável. De súbito, minha boca ficou azeda como se tivesse recebido uma dose de fel. Fui até o meu quarto, me olhei no espelho e não me reconheci. Meus olhos estavam translúcidos e dentro deles vi algo se movendo repentinamente, como que motivado por um descomedido desconforto.

Levei as mãos ao meu abdômen e notei que minha barriga chapada tinha se tornado irreconhecível, disforme e malemolente. Involuntariamente, se distendia numa ocultação criteriosa. Era incompreensível porque não comi tanto. Quando voltei a atenção ao meu rosto no espelho, havia alguns riscos carminados nas escleróticas. Fechei os olhos por um momento e quando os abri tinham se desvanecido. O mesmo aconteceu com as marcas que surgiram na minha barriga, lembrando toques de uma pata. “Que coisa mais estranha! O que está acontecendo comigo?”, me questionei assustado.

Desliguei o computador, apaguei a luz e deitei na cama. Eu estava cansado e o sono prosseguia distante do meu desejo. Fiquei observando o teto e notei que ele se movia aos poucos. Não poderia ser tontura porque minha noção espacial persistia precisa. Ao meu lado, eu enxergava tudo com exímia clareza. Assim que o teto se abriu, como se fosse deslocado de lugar, sem causar qualquer tipo de barulho, desordem ou sujeira, a chuva fresca se lançou diligente sobre mim. Me movimentei sobre a cama com a ligeireza de quem está sofrendo de espasmo hípnico. Em pé e hipnotizado pelo céu enluarado que iluminava meu quarto com uma luz cerúlea, continuei calado, inerte.

A beleza da madrugada outonal que ofertava um aroma variegado de folhas e flores foi ofuscada pelo miasma trazido por uma vaquinha voadora com focinho de porco e pés de galinha. Apesar de tudo, era um animal lindo na sua singularidade desarmônica. Me recordei das pinturas de Corine Perier e Chris Buzelli. A diferença era que elas não tinham cheiro de morte. Quando a vaquinha pousou ao meu lado, a pestilência se intensificou. “Nem bebo! Que bizarrice é essa? Será que estou pirando?”, refleti. Ela ficou me observando sem emitir som. Seus olhos se agigantavam e em seguida diminuíam. Parecia um coração pulsando. E o fedor só aumentando. De repente, deu um mugido misturado com cacarejo e grunhido. Então se inclinou para que eu massageasse sua cabeça.

Um deles pulou no meu travesseiro e começou a piar, como se quisesse alguma coisa (Arte: Dan Kosmayer)

Um deles pulou no meu travesseiro e começou a piar como se quisesse alguma coisa (Arte: Dan Kosmayer)

Antes que eu a tocasse, a vaquinha partiu da mesma forma que chegou – voando e lançando de suas mamas alguns jatos de leite encorpado misturado com sangue. Uma porção impactou sobre minha cabeça. Passei a mão e notei meus cabelos engordurados, com fedentina de coalhada e ferrugem. Respirei profundamente com olhos fechados, tentando restabelecer a serenidade, e quando os abri tudo tinha sumido, com exceção do cheiro de morte que na realidade era emanado do meu corpo, não da vaquinha.

Voltei para a cama sofrendo de indisposição estomacal – dava a impressão de que o lanche estava revirando meu estômago. Dormi menos de uma hora porque ouvi um barulho insólito que se repetia a cada cinco ou dez segundos. Incomodado, inclinei a cabeça por baixo da cama e percebi um bichinho úmido e morno acariciando a minha tez. Era um porquinho landrace que percorria meu rosto com a língua. No escuro, seus olhos cintilavam como se tivessem luz própria. Ele sorria e aquilo era intrigante.

Prestando muita atenção em mim, recuou sorrateiramente, como que arrependido. Tropeçou sobre as próprias patas e chorou. Suas lágrimas escorriam pelo focinho. Acuado num canto ao lado da porta, o medo destacava ainda mais a sua pele rosácea. Fiquei mais confuso e sobressaltado quando o porquinho me fez uma pergunta com voz titubeante: “Por que você comeu minha mãe?”

O questionamento não se repetiu e imaginei que eu estivesse delirando. Não respondi. Preservei o silêncio até a chegada repentina da ânsia de vômito. Pálido, vi minhas mãos tornadas diáfanas. Algo subia dentro de mim enquanto meu corpo esquentava e esfriava. Quando abri a boca, os pedacinhos de bacon se lançaram ao chão inteiriços. Se juntaram como se fossem magnetizados.

Em poucos segundos se transformaram em uma porquinha eufórica que grunhia e girava em torno do próprio rabo. Extasiado, o filhote se jogou sobre ela e, sôfrego, a lambeu. Os dois ficaram ali, juntos, tão próximos que tive a impressão de que dividiam a mesma respiração. Quando desviei os olhos rapidamente, eles desapareceram. Deitei na cama outra vez. Dormi por duas ou três horas até perceber um animal tocando as minhas costas. Era leve e tinha cheiro de quirera de milho e farelo de soja. Havia três pintinhos andando em cima de mim.

Um deles pulou no meu travesseiro e começou a piar como se quisesse alguma coisa. Ciscava tentando transmitir uma mensagem. Levantei e o observei subir pelo meu braço como se fosse uma ponte. Sobre o meu ombro, ele piava com ternura, se comunicando com os outros dois que repetiam o trajeto. Num rompante, a ânsia de vômito veio com tudo. De minha boca saíram alguns pedaços pequenos e inteiros de filé de frango que antes de caírem no chão ganharam a forma de um frango que voou por curta distância batendo as asas e fazendo uma balbúrdia gangosa.

 Somente um boi que se apresentou como Pastiche falou comigo (Arte: OuShiMei)

Somente um boi que se apresentou como Pastiche falou comigo (Arte: OuShiMei)

Os pintinhos saltaram sobre ele e os quatro correram porta afora, na escuridão amena da madrugada. Não fui atrás. Com os braços apoiados sobre a cama, assisti tudo sentado, com olhos combalidos e semicerrados. Extenuado, caí na cama e adormeci. Em sono profundo, me vi comendo o lanche da noite passada. A cada mordida, eu sentia a dor da finitude, o aroma ininterrupto da morte. Toda a tristeza diante do passamento era absorvida pelo meu organismo e corpo, fazendo-me experimentar pontuais calafrios.

Medo, ansiedade, estresse, impotência e agonia. Os animais mortos concentravam tudo isso em suas carnes que recheavam meu lanche, fazendo vibrar dentro de mim a aglutinação de uma energia negativa intempestiva e solene emanada pela certeza do definhamento. A dor atravessava a minha essência e me fazia assistir os instantes finais de bovinos, suínos, caprinos e aves. Muitos choravam antes da execução porque reconheciam que suas vitalidades foram inibidas precocemente.

A morte perfazia um caminho tortuoso que subsistia dentro de mim. “Veja a minha dor, sinta a minha dor. Um mundo com animais demais e vidas de menos. Um dia, os humanos vão sofrer como nós. A carne há de sobrar, mas não haverá a quem dar de comer. E assim o mundo vai apodrecer rendido aos excessos desenfreados da produção”, ecoava na minha mente uma voz que embora bem articulada simulava um sincretismo de sons de animais de várias espécies.

“Nasci por esses dias. Veja só o meu tamanho, como cresci. E amanhã já vou morrer porque assim quis o meu criador”, comentou um frango resignado dentro de uma gaiola plástica, antes de ter os pés decepados por um facão. Os mais ingênuos, que não sabiam de seu destino, batiam as asas em vão. Se feriam gravemente, mas lutavam pela liberdade com inocência e inaptidão, já que desconheciam outra realidade que não a do confinamento.

Em uma fazenda enorme a perder de vista, os porcos comentavam entre si que haveria um grande abate no dia seguinte. Um deles conseguiu escapar e revelar a trama aos outros animais encarcerados a 50 e até 100 metros de distância. “Fomos criados pra morrer! Pra morrer! Só isso! Nada mais!”, berrava um jovem porco desajeitado. Durante a madrugada os animais se reuniram e cavaram uma vala mastodôntica. Em sequência saltaram no cabouco e pediram que dezenas de cavalos da coudelaria os cobrissem com terra.

“Pelo menos vamos morrer com dignidade”, argumentou um dos porcos mais bem cotados da propriedade. Optaram por se matar porque acreditavam que perdiam a alma quando serviam de alimento aos humanos. No dia seguinte, todos estavam mortos – filhotes, jovens adultos e animais velhos, abraçados independente de espécie. Em frente ao enorme sepulcro improvisado havia uma frase riscada sobre a terra – “O especismo é como uma vela resfolegando sob a chuva.”

Acordei mais uma vez quando ouvi um grito. Me vi entre grades sendo transportado sobre um caminhão. Procurei minhas mãos e não as encontrei. Olhei para baixo e percebi que eu não era mais um ser humano, a não ser pela minha própria consciência, condição psicológica e emocional. Fisicamente eu era um robusto boi preto ladeado por outros bois. A maioria mantinha-se em silêncio. Somente um boi que se apresentou como Pastiche falou comigo.

“Tá chegando a hora, amigo. Nossa jornada chegou ao fim. Pasto, confinamento e abate. É a nossa sina”, lamentou, projetando um mugido fúnebre e prolongado. De repente, todos ficaram em silêncio, com suas cabeças vultosas mirando as próprias patas. Ouvi um som estranho e uníssono. Era como um ritual que eu não entendia porque eu não era um boi de verdade.

Reconheci o peso da morte quando o motorista do caminhão perdeu o controle e caímos de uma ribanceira. Lá embaixo, onde o capim penetrava minhas narinas e invadia minha boca a contragosto, vi a carroceria quebrada e aberta. Ao meu redor, meus companheiros de viagem estavam mortos, inclusive Pastiche que trazia uma expressão de satisfação em meio à penúria. Havia um cheiro estupefaciente de sangue, estrume e ração à base de milho.

Com poucos ferimentos e escoriações, me levantei e corri pelo prado verdejante. Minhas orelhas altaneiras captaram o som oxítono de uma revoada de andorinhas. Continuei correndo sem parar, por uma terra infinita onde o ser humano jamais poderia me alcançar. Recém-despertado de mais um sonho, fiquei sobressaltado, com o coração disparado, sentindo em meus lábios sabor que parecia ser da minha própria carne. Enleado, vi que ainda repousava ao meu lado o papel branco do lanche, lembrança inolvidável de uma avalanche.

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