David Arioch – Jornalismo Cultural

Jornalismo Cultural

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Assista “Terráqueos” no YouTube

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Vale a pena assistir o documentário “Terráqueos” para entender um pouquinho a realidade da exploração animal em todas as áreas. Você pode não virar vegetariano nem vegano, mas ao final terá outra percepção em relação à exploração animal. Se possível, dedique um tempinho.

 

 

 

Cartas que recebi de estudantes sobre a exploração animal

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Foto: David Arioch

Na foto, algumas das cartas que recebi de mais de 20 estudantes da área rural de Santa Maria de Jetibá, no Espírito Santo. Fui escolhido como ativista para me corresponder com eles sobre a realidade da exploração animal. Ainda não li todas, mas já me surpreendi com a sensibilidade e inocência deles. É uma honra participar desse projeto a convite do professor e escritor Antonio Neto. No decorrer da semana vou produzir e publicar um texto sobre isso em meu blog.





Frangos sob chuva

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Frangos em caixas com pouco espaço para movimentarem-se (Foto: Reprodução)

Encontrei na rodovia uma carreta transportando frangos na chuva. Centenas dentro de caixas amarelas de plástico, com penas parcialmente molhadas e pouco espaço para movimentarem-se. Tive a impressão de ver uma porção de olhos entre as fendas. Não sei se faziam silêncio ou barulho, porque o tamanho da caixa não permitiu tal distinção. E lá dentro, vidas que logo mais cessarão.

 

 





Matt Skiba: “Foi uma reação instintiva não querer carne [de animais] em meu corpo”

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Skiba é fundador da banda de punk rock Alkaline Trio, além de guitarrista e vocalista da banda Blink 182

““Imaginei-me comendo meu gato e, de repente, não pareceu tão bom para mim” (Foto: Reprodução)

Fundador da banda de punk rock Alkaline Trio, além de guitarrista e vocalista da banda Blink 182 desde 2016, Matt Skiba se tornou vegetariano aos 19 anos, assim que deixou a casa dos pais. Um dia, ele estava comendo um pedaço de carne e notou os olhos do seu companheiro felino em sua direção.

“Imaginei-me comendo meu gato e, de repente, não pareceu tão bom para mim. Foi uma reação instintiva não querer carne [de animais] em meu corpo. Isso é parte de quem sou. Foi uma decisão pessoal e natural”, informou em entrevista concedida a Liz Miller, do Veg News, e publicada em 22 de fevereiro de 2010.

Skiba não teve trabalho em levar muitos amigos para o vegetarianismo. Na realidade, ele não precisou dizer nada para convencê-los a não consumir mais alimentos de origem animal. Sua tática sempre foi levá-los para comer em restaurantes vegetarianos e veganos, mostrando que opções que não custem a exploração animal não faltam.

“Se eu não tivesse dito a eles que o sanduíche de ‘frango’ que eles estavam comendo era na realidade vegetariano, eles nunca saberiam, e tinha o gosto mais fresco e melhor do que o de qualquer frango. Há muita comida de boa qualidade lá fora e isso fala por si mesmo”, exemplificou o guitarrista e vocalista.

Matt Skiba acredita que a maioria das pessoas amam os animais, e que não é porque elas comem carne que elas são más ou desgostam deles. Para o músico, o problema é a ausência do reconhecimento de uma conexão entre as coisas, de reconhecer as implicações da exploração animal. “Acho que ignorância é uma bênção para muitas pessoas”, declarou.

Ele também disse que muita gente come comida vegetariana sem saber, sem vê-las como comida vegetariana; e que isso é a maior prova de que o vegetarianismo e o veganismo não estão realmente distantes de ninguém.

“Perdi o gosto pela carne. Não como carne há 17 anos. Lembro que olhei para o meu gato e pensei: ‘Cara, não posso comê-lo. Que diferença faria se fosse um gato pequeno ou uma vaca?’ E ocorreu-me que tudo está conectado e que eu não poderia mais contribuir com isso [a exploração animal]”, enfatizou em entrevista ao Cool Try, da Austrália.

Saiba Mais

Matt Skiba nasceu em McHenry, Illinois, em 24 de fevereiro de 1976. Ele fundou o Alkaline Trio em 1996.

Entre os anos de 1998 e 2013, Skiba lançou os álbuns “Goddamnit”, “Maybe I’ll Catch Fire”, “From Here to Infirmary”, “Good Morning”, “Crimson”, “Agony & Irony”, “This Addiction” e “My Shame Is True” com o Alkaline Trio.

Com o Blink 182, ele gravou o álbum “California” em 2016.

Referências

http://vegnews.com/articles/page.do?pageId=1716&catId=5

Interview: Matt Skiba (Alkaline Trio, Matt Skiba and The Sekerets)

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César Chávez: “Me tornei vegetariano depois de perceber que os animais sentem medo, frio, fome e tristeza como nós”

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“Bondade e compaixão para com todos os seres vivos é uma marca de uma sociedade civilizada”

Chávez com seus companheiros caninos (Foto: Cathy Murphy)

César Chávez foi um líder dos direitos civis nos Estados Unidos que atuou em defesa dos trabalhadores rurais. Em 1962, ele fundou com Dolores Huerta a National Farm Workers Association, atual United Farmer Workers (UFW). Assim como Mahatma Gandhi e Martin Luther King, Chávez também defendia o ativismo não violento. E foi exatamente isso que o levou a adotar mais tarde o vegetarianismo e a tornar-se também um defensor dos direitos animais.

Em vez da violência, o líder dos direitos civis chamava a atenção para a situação dos trabalhadores rurais por meio de táticas pacíficas como boicotes, greves e jejuns. Em 1968, ele ficou famoso pela realização de um jejum de 25 dias. Logo depois, César Chávez tornou-se vegetariano. A sua adesão ao vegetarianismo também foi influenciada por seu cão Boycott.

“Me tornei vegetariano depois de perceber que os animais sentem medo, frio, fome e tristeza como nós. Tenho sentimentos profundos pelo vegetarianismo e pelo reino animal. Foi meu cão Boycott que me levou a questionar o direito dos seres humanos de comer outros seres sencientes”, disse Chávez em citação registrada no livro “Animal Rights: All That Matters”, publicado em 2013 por Mark Rowlands.

Chávez, que foi vegetariano por 25 anos, e por vezes também considerado vegano, já que ele não consumia nada de origem animal, tornou-se um crítico da exploração animal em todos os níveis, inclusive tendo grande influência sobre milhares de pessoas. Ele não admitia que animais continuassem sendo usados como fonte de comida, cobaias em experiências científicas, “entretenimento” e “esportes”.

De acordo com Marc Grossman, que foi assessor de Chávez, o líder dos direitos civis fazia o possível para mostrar às pessoas que o vegetarianismo já deveria ter sido adotado pela humanidade se o nosso objetivo é um futuro mais justo e pacífico. Em homenagem ao tio e sua filosofia de vida que excluía a violência até mesmo do próprio prato, Camila Chávez tornou-se vegetariana, e em entrevista a Más Magazine declarou que o vegetarianismo é um caminho bem fácil. “Cresci rodeada por vegetarianos, e refeições vegetarianas são sempre uma opção”, comentou.

Carta escrita por Chávez em defesa dos animais (Foto: Reprodução)

Chávez acreditava que a paz só poderia ser verdadeiramente alcançada a partir do momento em que começássemos a respeitar todas as criaturas. “Bondade e compaixão para com todos os seres vivos é uma marca de uma sociedade civilizada. Por outro lado, a crueldade, seja dirigida contra seres humanos ou animais, não é exclusiva de qualquer cultura ou comunidade de pessoas”, escreveu em uma carta de 26 de dezembro de 1990, endereçada a Eric Mills, da Action For Animals.

Ele declarou ainda que luta de cães e galos, touradas e rodeios são provenientes da mesma fábrica, a fábrica da violência. Além disso, César Chávez defendia a valorização dos pequenos agricultores, e a produção de alimentos naturais. Nos Estados Unidos, o dia 31 de março, que lembra o seu aniversário, é dedicado à sua memória.

Nesse dia, muitas pessoas, principalmente na Califórnia e na Flórida, realizam trabalho voluntário em benefício da comunidade. Muitos inclusive passam o dia em abrigos de animais, distribuindo e divulgando panfletos sobre os direitos humanos e animais – considerados por Chávez como indissociáveis.

Saiba Mais

César Chávez nasceu em 31 de março de 1927 em Yuma, Arizona, e faleceu em San Luiz, também no Arizona, em 23 de abril de 1993.

Ele foi indicado três vezes ao Prêmio Nobel da Paz.

Referências

Rowlands, Mark. Animal Rights: All That Matters. McGraw-Hill Education; Primeira Edição (2013).

http://www.all-creatures.org/articles/ar-honoring.html

https://web.archive.org/web/20110708042558/http://in-dios.blogspot.com/2008/03/soy-vegetariano.html

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Carl Sagan contra a exploração animal

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 “É indecente de nossa parte afirmarmos que só os seres humanos podem sofrer”

“Se há vida, então acredito que não devemos fazer nada para perturbar essa vida” (Foto: Cosmos)

O astrofísico Carl Sagan, também conhecido como o “astrônomo do povo”, se tornou um dos cientistas mais respeitados do século 20. Com centenas de publicações científicas e mais de 20 livros lançados, Sagan conquistou popularidade mundial após o lançamento da série “Cosmos”, escrita por ele em parceria com a esposa Ann Druyan e Steven Soter. O programa baseado em 13 episódios ajudou a ampliar o interesse pela ciência e pela espiritualidade sem viés religioso.

E foi exatamente por causa da preocupação com o lugar do ser humano no universo, e o reconhecimento da nossa pequenez, que Sagan se tornou um crítico das ações humanas em detrimento de outros seres vivos. Uma de suas célebres frases foi eternizada no episódio “Blues for a Red Planet”, que foi ao ar em 26 de outubro de 1980. “Se há vida, então acredito que não devemos fazer nada para perturbar essa vida. Marte então, pertence aos marcianos, mesmo que eles sejam apenas micróbios”, recomendou.

Carl Sagan também condenava os experimentos feitos com animais. Provas dessa sua postura podem ser encontradas no livro “Shadows of Forgotten Ancestors”, publicado em parceria com a esposa Ann Druyan em 1992. Na obra, ele relata a triste realidade dos primatas explorados em prol da ciência”. Cita como exemplo um experimento em que macacos foram obrigados a puxar uma corrente para serem alimentados em um laboratório.

O problema é que essa mesma corrente eletrocutava outro macaco cuja agonia estava à vista, por intermédio de um espelho unidirecional. Se eles não a puxassem, ficariam com fome. Depois de aprender a usar as correntes, os macacos recusaram-se a fazer isso. No experimento, somente 13% dos animais a puxaram. Os outros 87% optaram pela fome.

Um macaco ficou sem comida por quase duas semanas para não ter que ferir o seu companheiro. Aqueles que tinham sido vítimas de choque elétrico em experiências anteriores estavam ainda menos dispostos a puxar a corrente. Carl Sagan e Ann Druyan então se perguntaram quantos seres humanos na mesma situação seriam tão altruístas.

Sagan apontou que os macacos usados no experimento, e que ainda assim se recusaram a provocar dor em outros seres vivos, nunca foram à escola dominical, nunca ouviram falar nos Dez Mandamentos, nunca se contorceram por causa de uma mera lição de educação cívica. Ainda assim, são exemplares em suas bases morais e sua corajosa resistência ao mal. “Entre esses macacos, pelo menos nesse caso, o heroísmo é a norma”, frisou.

Sagan: “[Os macacos] são exemplares em suas bases morais e sua corajosa resistência ao mal” (Foto:

Segundo o astrofísico, muitos de nós temos uma perturbadora predisposição a causar dor, e por uma recompensa muito menor do que a comida destinada a um macaco faminto submetido à privação durante um experimento. Para entender melhor o assunto, ele sugere que os leitores leiam o livro “Obedience to Authority: An Experimental Overview”, publicado por Stanley Milgram em 1974. “Na história humana há um número preciso de poucos cuja memória veneramos porque conscientemente se sacrificaram pelos outros. Para cada um deles, há multidões que nunca fizeram nada”, critica.

Em “Shadows of Forgotten Ancestors”, Sagan aponta que a humanidade se tornou cada vez mais insensível em relação aos animais, e não somente no campo da pesquisa científica, mas em todas as esferas, inclusive reduzindo-os à comida, vestuário e outros tipos de produtos:

“Os seres humanos – que escravizam, castram, fazem experimentos e retalham outros animais – têm uma tendência compreensível de fingir que os animais não sentem dor. Uma distinção entre seres humanos e animais é essencial se quisermos subjugá-los à nossa vontade, usá-lo, comê-los – sem qualquer inquietação no que tange à culpa ou arrependimento. É indecente de nossa parte, que muitas vezes nos comportamos de forma tão insensível em relação a outros animais, afirmarmos que só os seres humanos podem sofrer. O comportamento de outros animais torna essas pretensões enganosas. Eles são muito parecidos com nós.”

Carl Sagan dizia também que nossas simpatias morais não se encontram com os cientistas, mas com os não humanos, que enquanto vítimas de experimentos demonstram uma santa vontade de fazer sacrifícios para salvar os outros – em referência aos animais que se recusam a toma parte em experiências que causem dor aos seus semelhantes.

Saiba Mais

Carl Sagan nasceu em 9 de novembro de 1934 em Nova York e faleceu em Seattle em 20 de dezembro de 1996 em decorrência de pneumonia.

Sagan era defensor do ceticismo e promoveu a busca por inteligência extraterrestre. Foi pioneiro nos estudos do efeito estufa e da exobiologia. Fez carreira como professor da Universidade Cornell e em 1978 ganhou um Prêmio Pulitzer pela autoria de “The Dragons of Eden”. O seu romance “Contact” foi adaptado paro o cinema em 1997, sob direção de Robert Zemeckis.

Referências

Cosmos: A Personal Voyage: Blues For a Red Planet (PBS). Carl Sagan, Ann Druyan e Steven Soter. Gregory Andorfer Rob McCain. Veiculado originalmente em 26 de outubro de 1980.

Sagan, Carl; Druyan, Ann. Shadows of Forgotten Ancestors. Ballantine Books. Edição: Reprint (1993).

http://www.carlsagan.com

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Henry Salt, um pioneiro dos direitos animais

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“Devemos reconhecer o vínculo comum da humanidade que une todos os seres vivos em uma só fraternidade”

Henry Salt era um protovegano, e contrário à posição da Vegetarian Society, da Inglaterra, de promover o consumo de ovos, laticínios e mel (Foto: Reprodução)

O escritor inglês, humanitarista e reformador social Henry Salt foi um dos pioneiros da discussão sobre os direitos animais. Sua contribuição foi tão significativa que em 1975, quando o filósofo australiano Peter Singer publicou “Animal Liberation”, o seu livro mais famoso, mais tarde considerado uma das bases filosóficas do movimento de libertação animal, ele fez questão de dizer que uma nova geração descobriu tudo que tinha sido dito antes – em referência às obras deixadas por Salt, que faleceu cinco anos antes da criação do veganismo pela Vegan Society.

Henry Salt era um protovegano, e contrário à posição da Vegetarian Society, da Inglaterra, de promover o consumo de ovos, laticínios e mel como parte de uma dieta que eles consideravam a mais adequada aos “vegetarianos”. Salt sabia que o abandono do consumo de outros alimentos de origem animal era o único e verdadeiro caminho do vegetarianismo ético. Até porque consumi-los significa reconhecer que são alimentos de consumo humano.  No ensaio “A Plea for Vegetarianism”, publicado em 1885, ele declarou que mesmo os produtos lácteos são desnecessários e, sem dúvida, serão dispensados completamente sob um sistema de dieta mais natural.

No ano seguinte, esse trecho foi suprimido na nova versão que reuniu outros ensaios sob o título “A Plea for Vegetarianism, And Other Essays”, e porque a própria sociedade vegetariana inglesa deixou subentendido que caso Salt criticasse os hábitos dos vegetarianos da época, ele ficaria sem leitores, já que a maioria se enquadrava no que posteriormente foi definido como ovolactovegetarianismo. Por outro lado, a versão de 1885 é uma das provas da boa vontade de Henry Salt na luta pela consolidação do vegetarianismo ético que daria origem ao veganismo.

Também há que se ponderar que à época os vegetarianos da Vegetarian Society, que em sua maioria eram ovolactovegetarianos, não tinham um entendimento profundo das implicações morais e éticas do consumo de outros alimentos de origem animal. Muitos acreditavam que sem morte não havia violência ou privação, e essa linha de pensamento se baseava em um escasso entendimento das proposições da revolução industrial no que dizia respeito ao “destino comum” dos animais explorados para consumo humano.

Muitos ignoravam ou não percebiam que se alimentar de animais em qualquer nível significava legitimar a exploração sobre outras espécies. Exemplo disso foi o choque do escritor irlandês George Bernard Shaw, que abdicou do consumo de ovos e laticínios quando soube que simplesmente deixar de comer carne não contribuía tanto com o vegetarianismo ético quanto ele imaginava.

Analisando o contexto do vegetarianismo na Inglaterra do século 19, e levando em conta que Henry Salt teve de aceitar o fato de que ser “vegetariano demais” poderia gerar desconforto e antipatia por parte de outros “vegetarianos”, talvez seja justo dizer que os defensores do ovolactovegetarianismo da época se dividiam em dois grupos: os ingênuos ou menos informados, que acreditavam que simplesmente não consumir carne era o suficiente para endossar o vegetarianismo ético, e os acomodados – praticantes do vegetarianismo de conveniência, ou seja, que acreditavam que abdicar do consumo de laticínios e ovos seria um erro, já que significaria uma posição “radical” demais que poderia gerar conflitos no contexto das convenções sociais da época.

“Mesmo os produtos lácteos são desnecessários e, sem dúvida, serão dispensados completamente sob um sistema de dieta mais natural” (Foto: Reprodução)

Em 1906, quando Henry Salt publicou “The Logic of Vegetarianism”, mais uma vez ele evitou fazer críticas ao consumo de outros produtos de origem animal, e mais uma vez para não despertar a inimizade dos membros da Vegetarian Society. Porém, quando foi vice-presidente dessa mesma entidade, não raramente ele argumentava que jamais entendeu porque a palavra vegetariano trazia, enquanto conceito de uma época em que o vegetarianismo era quase sinônimo do não consumo de carne, alimentos que nunca foram de origem vegetal.

Nesse aspecto, a natureza espirituosa, humanitarista, modesta e tranquila de Henry Salt falava mais alto, e ele acabava por não ir tão longe em seus discursos mais críticos. Porém, mesmo sem precisar conquistar desafetos, as suas obras por si só já traziam a transparência de seu caráter e desejo de ver os animais livres do jugo humano.

Prova disso é que em 1890, quando Gandhi estudava direito em Londres, e já não seguia os preceitos do vegetarianismo indiano, até pelo fato de encará-lo mais como uma obrigação, ele leu um dos livros de Henry Salt, o que transformou sua vida e abriu seus olhos para o vegetarianismo ético. “Li o livro de Salt, de capa a capa, e fiquei muito impressionado. A partir do dia em que li este livro, me tornei vegetariano por escolha”, declarou.

Salt tinha uma forma não agressiva de chamar a atenção para os direitos animais, e isso também fez e faz dele um grande exemplo de transformação e divulgação positiva do vegetarianismo ético. Há quem o considere a figura mais importante do movimento vegetariano do final do século 19 para o século 20. E um dos livros que contribuiu para isso foi “Animals’ Rights: Considered in Relation to Social Progress”, publicado originalmente em 1892, e qualificado pelo filósofo Peter Singer como uma das obras essenciais em defesa dos direitos animais.

O livro é dividido em temas como o caso dos animais domésticos, o caso dos animais selvagens, a matança de animais para produção de comida, tortura experimental e linhas de reforma, entre outros tópicos. No livro, Salt diz que o sofrimento imposto aos animais é consequência da ausência de direitos, e vale-se dos absurdos que ouvia de tanta gente, inclusive do meio intelectual, na tentativa de legitimar a exploração animal, considerando-a como parte natural do ciclo da vida.

Ele apresenta argumentos refutando todas as justificativas especistas que ouviu ao longo de anos, e destaca a importância de uma cruzada intelectual, literária e social contra a opressão animal. No entendimento do escritor inglês o que os animais vivem hoje é a mesma realidade vivida anteriormente pelos escravos, e os discursos contra os direitos animais são tão falaciosos quanto os dos detratores do abolicionismo.

Henry Salt vivia com a esposa em uma casa de campo, onde plantavam a própria comida. Em 1891, o escritor fundou a Liga Humanitária, que se manteve na ativa até 1920. Como secretário geral e editor, ele fez campanha tanto em favor dos direitos dos desprivilegiados quanto dos animais não humanos. Na página 2 de “Animals’ Rights: Considered in Relation to Social Progress”, ele escreveu que a noção de que a vida de um animal é isenta de “propósito moral” pertence a uma classe de ideias que não pode ser aceita pelo pensamento humanitário avançado da atualidade.

“A noção de que a vida de um animal é isenta de “propósito moral” pertence a uma classe de ideias que não pode ser aceita pelo pensamento humanitário avançado da atualidade”

“É uma suposição puramente arbitrária, em desacordo com os nossos melhores instintos, em desacordo com a nossa melhor ciência, e absolutamente fatal (se o assunto for claramente pensado) para qualquer realização plena dos direitos animais. Se quisermos fazer justiça às raças inferiores, devemos nos livrar do “grande abismo” fixado entre elas e a humanidade; e devemos reconhecer o vínculo comum da humanidade que une todos os seres vivos em uma só fraternidade universal”, escreveu.

Em 1914, aos 63 anos, Henry Salt conseguiu ampliar a discussão em torno do uso de produtos animais. Após a Primeira Guerra Mundial, ainda publicou muitos livros, que só não tiveram maior repercussão porque o clima tenso da guerra ofuscou o debate sobre o vegetarianismo ético. Em 1931, quando Gandhi ministrou uma palestra intitulada “A Base Moral do Vegetarianismo” na Vegetarian Society, em Londres, ele teve o auxílio de Henry Salt, que à época estava com 80 anos. Gandhi então fez o que poucos fizeram até então, e provavelmente influenciado pela base filosófica de Salt – qualificou o uso de leite por vegetarianos como uma tragédia.

Não foi somente em relação a isso que Salt influenciou Gandhi. As biografias que o defensor dos direitos animais escreveu sobre Percy Bysshe Shelley e Henry David Thoreau também chamaram a atenção do líder indiano. Influenciado por Henry Salt, Gandhi leu o ensaio “A Desobediência Civil”, publicado por Thoreau em 1849, o que teve grande impacto em seu ativismo político.

O poeta Percy Shelley, que era vegetariano e protovegano, foi uma importante influência para Henry Salt. O reformador social o considerava um exemplo de ser humano empenhado na luta pelos direitos humanos, animais e da verdadeira liberdade de pensamento e ação. Salt se identificou muito com Shelley porque, assim como ele, era alguém que lutava contra aqueles que se opunham ao progresso.

“Quando digo que vou morrer, como tenho vivido, racionalista, socialista, pacifista e humanitarista, devo deixar claro o meu propósito. Não acredito na religião presentemente estabelecida. Mas tenho uma fé religiosa muito firme – um credo de parentesco que eu chamo; uma crença de que nos próximos anos haverá um reconhecimento da fraternidade entre homem e homem, nação e nação, humano e sub-humano, o que vai transformar um estado de semi-selvageria, como o temos em nossa civilização, em um estado onde não  haverá tal barbaridade como a guerra, o roubo dos pobres pelos ricos, ou o uso de animais inferiores pela humanidade”, registrou Henry Salt em um papel deixado sobre sua mesa antes de falecer.

Saiba Mais

Henry Salt nasceu na Índia Britânica em 20 de setembro de 1851 e faleceu em Surrey, na Inglaterra, em 19 de abril de 1939.

Ele lutou muito contra a vivissecção.

Referências

Salt, Henry. Animals’ Rights: Considered in Relation to Social Progress. Cornell University Library (1894).

Singer, Peter. Animal Liberation: The Definitive Classic of the Animal Movement. Harper Perennial; Edição: Updated ed (2009).

Salt, Henry. The Logic of Vegetarianism: Essays and Dialogues. G. Bell and sons (1906).

Henry, Salt. A plea for vegetarianism and other essays Vol: 1886 1886. Facsimile Publisher (2015).

http://www.henrysalt.co.uk/

 

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O vegetarianismo na vida e na obra de Scott Adams, criador de Dilbert

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“Você quer dizer, por que não pego animais mortos, e os cozinho até tornarem-se carcinógenos?”

Scott Adams tornou-se vegetariano na faixa dos 30 anos (Foto: Reprodução)

O cartunista Scott Adams, criador de Dilbert, famoso personagem do mundo das tirinhas, tornou-se vegetariano na faixa dos 30 anos. O que o motivou a tomar tal decisão foi um prato ruim que ele consumiu com carne de frango.

“Decidi tentar ser vegetariano para ver como é e me senti muito melhor. Menos dores de estômago e mente mais clara; e sei que vou viver mais dessa forma”, afirmou em entrevista ao Famous Veggie. Embora tenha sido motivado por uma questão pessoal envolvendo saúde e hábitos alimentares, Adams deixou claro que hoje em dia a sua decisão de não comer animais está muito além disso.

“Em um mundo perfeito todos os animais seriam tratados com bondade. Mas em um mundo com seis bilhões de pessoas indelicadas, os resultados serão inferiores ao ideal. Não é uma luta que acho que possa ser vencida”, lamentou.

Adams sugeriu que pessoas que consideram a carne essencial e benéfica, pesquisem um pouco mais sobre o assunto, porque provavelmente terão surpresas. Segundo o cartunista, a pergunta mais tola que ele já ouviu ao longo de décadas de vegetarianismo foi “’Como você consegue sua proteína?’” Então eu pergunto quantas pessoas eles conhecem que estão hospitalizadas por deficiência de proteína”, declarou.

Em inúmeras tirinhas publicadas desde os anos 1990, Scott Adams abordou o vegetarianismo e o veganismo. Em uma delas, Dilbert diz a Dogbert que não entende porque ele ou qualquer um se tornaria vegetariano. “Você quer dizer, por que não pego animais mortos, e os cozinho até tornarem-se carcinógenos, então os como em vez de alguma coisa nutritiva? É a sua pergunta?”, satiriza.

Uma das tirinhas mais famosas de Adams sobre vegetarianismo (Arte: Reprodução)

“Exatamente. Tem alguma razão? Você se juntou a um culto?”, continua Dilbert. Dogbert apenas responde: “Aparentemente.” O humor de Scott Adams em Dilbert sempre foi pautado no absurdo das coisas, principalmente sobre a realidade empresarial, já que ele, como economista, também é um crítico desse meio. E o vegetarianismo, na figura do cachorro Dogbert, acabou entrando também enquanto tema como uma forma de abordar a hipocrisia e o comodismo que envolve a indústria da exploração animal e o consumo, principal motivador desse sistema de produção.

Os três alimentos preferidos do autor de Dilbert são arroz, brócolis e macarrão. Mesmo com uma alimentação relativamente simples, o milionário destacou que há lugares para onde ele viaja nos Estados Unidos que é difícil encontrar pratos que agradem o paladar de um vegetariano acostumado à simplicidade. “É difícil viajar para alguns lugares dos Estados Unidos, por exemplo, fora da Califórnia. Em Iowa, eles colocam carne até na salada”, reclamou.

E foi pensando na questão da diversidade alimentar e da oferta de opções para vegetarianos e veganos que Scott Adams e seu sócio Jack Parker lançaram o Dilberito em 1999 pelo selo Scott Adams Foods. Embora o produto tenha saído de circulação em 2003, agradou muita gente. O alimento vegetariano que tinha forma de burrito, trazia 100% dos valores diários de vitaminas e minerais. E era oferecido nos sabores comida mexicana e indiana, alho e ervas, e churrasco.

Saiba Mais

Scott Adams nasceu em Windham, Nova York, em 8 de junho de 1957.

Ele publicou as primeiras tirinhas de Dilbert em 16 de abril de 1989.

Referências

http://www.famousveggie.com/interviews/scott_adams.aspx

Adams, Scott. Dilbert: A Treasury of Sunday Strips (2000).

 

 

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C. David Coats e a ilusão dos animais felizes por “darem” carne, leite e ovos à humanidade

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Lançado em 1989, o livro “Old MacDonald’s Factory Farm” é um livro bastante atual sobre a realidade da exploração animal

A realidade é ilustrada por uma imagem menor, em preto e branco, que dá o tom do conteúdo do livro

Lançado em 1989, o livro “Old MacDonald’s Factory Farm”, do defensor dos direitos animais C. David Coats traz uma capa bonitinha, bem colorida. Quem o julga a partir da imagem principal se engana ao pensar que se trata de mais uma obra que romantiza a exploração animal. Muito pelo contrário. A realidade é ilustrada por uma imagem menor, em preto e branco, que dá o tom do conteúdo do livro que propõe um debate bem atual; que dialoga com a realidade no que diz respeito à dura vida dos animais criados, principalmente nos moldes industriais, para serem reduzidos à comida e outros produtos.

No prefácio da obra, já são levantadas pertinentes reflexões que destacam como o ser humano consegue ser contraditório e destrutivo:

O ser humano não é um animal maravilhoso? Ele mata animais selvagens – pássaros, todos os tipos de felinos, coiotes, castores, marmotas, camundongos, raposas e dingos – aos milhões com a intenção de proteger os animais de criação e seus alimentos.”
Então ele mata os animais de criação aos bilhões e os come. Este hábito, por sua vez, mata milhões de seres humanos; porque comer todos esses animais leva a condições degenerativas de saúde que são fatais, como doenças cardíacas, doenças renais e câncer. Na sequência, o ser humano tortura e mata milhões de animais para encontrar a cura para essas doenças.

Em outros lugares, milhões de seres humanos estão morrendo em decorrência da fome e da desnutrição; isto porque os alimentos que eles poderiam comer estão sendo usados na engorda de animais de criação. Enquanto isso, algumas pessoas estão tristemente morrendo de rir desse absurdo da humanidade, que mata tão facilmente e violentamente, e uma vez por ano envia cartões orando pela paz na Terra.

Em “Old MacDonald’s Factory Farm”, C. David Coats aponta que nos anos 1980 já era difícil encontrar animais brincando nas fazendas, simplesmente porque as técnicas de produção em massa e os programas de eficiência no agronegócio já se voltavam para os volumes excessivos de produção com custos cada vez menores. Ou seja, a banalização da vida acentuou-se e os animais passaram a amargar ainda mais privação e sofrimento com o surgimento das chamadas fazendas industriais.

Afastados da vida natural, os animais reduzidos a produtos não passam de matéria-prima. Em crítica a essa normalização da crueldade, Coats narra o que há de mais sombrio na natureza humana na sua relação com as outras espécies, quando motivado pela ambição e ganância. Ele cita como exemplo a realidade de animais confinados em espaços onde a movimentação é quase impossível. Também discorre sobre suas pesquisas na indústria da suinocultura, onde testemunhou animais vivendo acorrentados.

O escritor informa que a maioria dos animais explorados pela indústria não vivem mais do que 1/3 do que viveriam se não fossem explorados e mortos. Porcos em caixas, gado com o chifre arrancado sem anestesia, vacas leiteiras mortas e reduzidas à carne de hambúrguer quando já não atingem a meta na produção de leite; bezerros mantidos anêmicos no escuro até serem abatidos para que as pessoas possam comer bifes de vitela; aves com bicos cortados com lâmina quente e confinadas a vida toda; tudo isso endossa um cenário macabro que faz parte da realidade cotidiana da maioria dos animais de criação.

No livro, o cenário da produção de alimentos de origem animal é descrito com uma crueza fiel à realidade, se distanciando visceralmente da propaganda que faz os animais parecerem felizes em morrer para saciar supostas necessidades humanas. É um retrato de uma realidade que só pode ser compreendida dessa forma se o leitor analisá-la de forma sensível. Na perspectiva de “Old MacDonald’s Factory Farm”, é preciso se colocar no lugar do animal ou pelo menos reconhecer que não são apenas os seres humanos e os outros animais com quem convivemos no cotidiano que têm direito à vida.

Fazendas onde os animais se divertem “doando” leite, ovos e carne? Não no mundo real, deixa claro C. David Coats que também aborda temas como impacto ambiental, engenharia genética e consequências dos produtos de origem animal para a saúde humana. Ele discute ainda a expansão da agropecuária e a absurda quantidade de área destinada à produção de alimentos usados na nutrição animal. Outro ponto de destaque do livro é o debate sobre a aplicação excessiva de antibióticos nos animais de criação, o que já era visto nos anos 1980 como um perigo para a saúde humana.

Além disso, Coats não se limita a criticar a exploração animal. Como o livro é resultado de anos de pesquisa, ele também apresenta ações e ideias de projetos de transição da agropecuária para produções sustentáveis e que não gerem privação e sofrimento animal – como a de alimentos orgânicos, entre outras sugestões que poderiam ser colocadas em prática para substituir produtos de origem animal.

Mesmo lançado em 1989, o livro discorre sobre problemas que ainda compõem a nossa realidade. Em uma rápida pesquisa em outras fontes, encontramos provas de que ainda hoje os animais estão longe de ter uma vida justa. Tal conclusão, até mesmo excetuando a questão de tortura ou outros tipos de violência, parte do princípio de que são seres sem direito à vida, já que existem simplesmente para atender nossas pretensas necessidades e morrer, cumprindo um papel que é vantajoso ao ser humano, mas nocivo às espécies que têm sua expectativa de vida extremamente reduzida.

Tantos anos após o lançamento do livro de C. David Coats, vimos poucas mudanças positivas em relação a isso, até porque a demanda por produtos de origem animal, acompanhando o crescimento populacional, aumentou muito desde o final da década de 1980.

Segundo Osler Desouzart, membro da diretoria consultiva do World Agricultural Forum e diretor da OD Consulting, em 1980 o consumo de carnes per capita era de 30,6 quilos ao ano, e em 2013 chegou a 43,1 quilos. Em um mundo onde a demanda é muito grande, naturalmente abre-se bastante espaço para a omissão no que diz respeito à violência contra animais de criação, já que há uma naturalização e legitimação da violência em prol de um pretenso bem maior – a produção de carne, leite, ovos e outros produtos que custem a privação e a vida de seres não humanos.

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William Ralph Inge: “Temos escravizado o resto da criação animal”

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William Ralph Inge, indicado três vezes ao Nobel de Literatura (Foto: Reprodução)

“Temos escravizado o resto da criação animal e temos tratado nossos primos distantes de pelos e penas tão mal que, sem dúvida, se eles formulassem uma religião, eles iriam descrever o Diabo em forma humana.”

Páginas 166-167, de “Outspoken Essays”, publicado em 1922 pelo escritor inglês, professor da Universidade de Cambridge, defensor dos direitos animais e sacerdote anglicano William Ralph Inge, indicado três vezes ao Prêmio Nobel de Literatura – em 1922, 1923 e 1929.