David Arioch – Jornalismo Cultural

Jornalismo Cultural

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Por que você não se alimenta de animais?

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— Por que você não se alimenta de animais? O que existe de tão errado nisso?

Foto: Jo-Anne McArthur/We Animals

— Você já viu um boi, uma vaca e um bezerro pastando livremente? Um peixe serpenteando pelas águas? Um porco rolando na relva? Uma galinha ciscando sem pressa?

— Algumas dessas coisas, sim.

— O que você acha disso?

— É divertido, bonito de ver.

— Pois então. Se eu fosse um animal, provavelmente eu não ficaria feliz de ser privado dessas coisas que me trariam algum tipo de satisfação. Se me alimento de animais, não consigo ignorar minha culpa sobre aqueles que são privados de uma vida natural. Eu não gostaria de nascer, viver e morrer para atender supostas necessidades dos outros. Seria como viver sem um propósito próprio.

— Mas animais são criados com essa finalidade. Você não os veria se não fosse por causa da demanda por produtos de origem animal.

— Você tem razão, mas aqueles que vivem merecem gozar de uma vida sem exploração, privação ou sofrimento. Os animais que são reduzidos à comida depreciam a vida bem menos do que nós. Jamais deixariam de lutar diante da iminência da morte. Isso não é um exemplo de vontade de viver? Maior prova disso é que no chamado bem-estarismo os enganamos antes de matá-los. E claro, para parecermos mais humanos aos nossos olhos. Quero dizer, sou um sujeito tão bom que não o mato violentamente, apenas dissimulo uma situação antes do golpe final. Penso que enganar um ser vivo para matá-lo sem que supostamente ele sofra também é triste, porque é uma forma de traição, já que o animal segue seus comandos em confiança. Você já viu um animal oferecer alguma parte do corpo para que você a retalhe? Se um dia eles deixarem de existir, não será algo tão aberrante, penso. E por que seria? A vida deve seguir seu curso natural, e não existe nada de natural, por exemplo, em manipulação genética para atender caprichos humanos. Muitas vezes os animais nem se reconhecem como animais por causa da interferência humana. Tornam-se seres confusos, deslocados de sua própria vocação. Isso não é triste e preocupante?

— É…acho que faz sentido.

— Imagine se alguém o criasse e o colocasse para trabalhar o dobro do que você trabalharia normalmente, em sua capacidade natural. Como você se sentiria?

— Não concordo com essa comparação, é desleal.

— Tudo nos parece desleal quando observamos os outros como se estivessem abaixo dos nossos pés. Nos recusamos a exercer a empatia ou o reconhecimento do valor da vida animal porque isso exige uma revisão de valores. E também porque isso significa mastigar com a boca aberta e olhos esgazeados diante de um espelho convexo que mostra quem somos e o que fazemos; que revela a face que negamos na nossa relação com os animais.





 

O dilema do chouriço

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Fotos: Jo-Anne McArthur/Deli Portugal

Alexandre Dumas escreveu no “Grand Dictionnaire de Cuisine”, de 1873, que o chouriço de porco tem, em todo o caso, todas as más qualidades desse animal, e a maneira como é preparado o torna ainda mais indigesto. Permita-me discordar. Creio que o chouriço carrega a tradição sedimentada na centelha da barbárie, e esta não diz respeito às “péssimas qualidades” do suíno, mas sim do ser humano, embora isso não signifique que o faça amiúde conscienciosamente.

E a indigestão talvez seja conchavo da ferocidade e da teimosia projetando franca manifestação. Esqueça! Deixe me perguntar. Você já foi a uma pequena fábrica de chouriço? Ah! Normalmente o animal não é seviciado, morto e destrinchado tão distante do local onde se prepara o embutido – uma iguaria à base de gordura, sangue e pedaços de carne temperados com uma pequena diversidade vegetal. Vísceras! Vísceras! Entranhas! Cabidelas! Sortidas! Fornidas! Envolvidas…Tudo aquilo que nos enoja em seu estado natural, cruento, porém honesto.

Não parece-te um ritual? O sangue como elemento axial; aquele sangue soalheiro que verte como calor de água termal e torrente de bica de mina – sem igual. A tradição diz que é mais saborido quando colhido enquanto o animal respira, barafusta-se, agoniza e luta pela vida no tenro desconhecimento da impossibilidade. Quiçá, entrementes perguntaste: “Por que então me alimentaste? Me abraçaste? Deste-me um nome? O que fui para ti?” Pobre animal, nunca imaginou que a mão que afaga é a mão que apaga. Quem se importa? Quem come, pretere, omite, anui? Hã? Será? Veras?

Se o porco for morto sobre a mesma mesa em que o chouriço é preparado? Sem dúvida, sabor sui generis! “Tremendo!”, berram os lambe-beiços. Imagine só. Lanham as tripas do porco para embalá-lo em novas ou velhas tripas – orbiculares, unímodas. Talvez dele mesmo, talvez d’outros. Ou talvez artificiais caso o freguês não queira ter contato nu-a-nu com as “tripas” da vítima. Ah, alegórica sensibilidade…Claro, pelo menos não manualmente, no rostir de dedos. Já garganta abaixo é outra história, pois não?

 

 





 

A lição de Dabo

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Foto: Jo-Anne McArthur/We Animals

Meu pai sempre me contava a história de um senhor sérvio de Novi Pazar que ele conheceu por essas bandas na década de 1960, ainda garoto. Seu nome era Dalibor, mas como poucos sabiam pronunciá-lo, logo deram-lhe o apelido de Dabo. Era um senhor de meia-idade, olhar quiescente e barba ruça que pouco falava português. Nunca reclamava de nada para ninguém, e tinha maneira ímpar de demonstrar respeito diante das contrariedades.

Dabo não se alimentava de animais; consumia mormente o que plantava em sua chácara nas imediações do Parque Ouro Branco. Alguns o chamavam de estrambótico, esquisito, místico e “fruteiro”. Ele não se importava – nunca. Nem se abespinhava diante das provocações. Às vezes, jogavam pedaços de animais mortos em seu pomar, entre os apolíneos pés de mirtilo.

Antes de colher aqueles corpos mortos, ele sempre se ajoelhava, encostava a ponta do nariz na terra virgem e se desculpava enquanto mantinha uma das mãos sobre o corpo desfalecido – ou parte do que um dia foi um corpo. O ritual se repetia – um de cada vez. Então recolhia os animais e os sepultava.

Os episódios se repetiam e, em vez de reclamar ou denunciar os autores, logo transformou parte da chácara em um cemitério de animais. Alguns vizinhos começaram a se queixar, mesmo na inexistência de mau cheiro ou qualquer laivo cadavérico. Em uma noite de outono, convidaram Dabo para um grande churrasco em um sítio vizinho. Ele não rejeitava convites – nunca.

Quando a fumaça da churrasqueira começou a subir, ele a observou e se afastou a passos suaves. Depois de 15 ou 20 minutos, perguntou se alguém sabia a quantidade de carne que seria assada naquela ocasião e que tipo de carne.

Agradeceu e retornou para casa. Caminhou até o cemitério de animais e acendeu uma vela para cada quilo de carne. Havia muitas; as labaredas ganharam vida e iluminaram o céu da chácara. Tudo ao redor era escuridão. A fumaça da churrasqueira mirada ao longe vanesceu-se de súbito.

Muitas pessoas se aproximaram e o assistiram. Dabo, de olhos fechados, nem se moveu. Continuou de joelhos honrando a vida e a morte. Abriu a boca por um momento e disse: “Svetlost poštovanja je bombardovanje volje” – “A luz do respeito é o bombardeio da vontade.”

 





 

Um desabafo vegano (ou não)

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Arte: Blog do Cássio/Foto: Jo-Anne McArthur

Pessoas que fazem clubismo ou criam panelinhas no “meio vegano”, que boicotam ou rejeitam pessoas que fazem um trabalho sério? Não, obrigado. Prefiro ser um sujeito inclusivo mesmo. Ninguém é porta-voz do veganismo. As pessoas podem ser porta-vozes de organizações, grupos, etc. Porém, ninguém dita quem é mais vegano ou não; ou como as pessoas devem se comportar para parecerem mais ou menos veganas. O veganismo é um movimento, de fato, com toda a sua representatividade, mas ninguém tem autoridade para falar como se o veganismo fosse uma patente que pertencesse a si mesmo.

É a mesma coisa quando alguém cria algo que sobrevive mesmo após a sua morte. Essa coisa cria vida, se torna maior do que ela, e desenvolve raízes que nem o seu criador é capaz de controlar ou mensurar. Afinal, somos humanos, e nossa pequenez é evidente. A reconheço desde os primeiros anos de vida, porque assim fui criado. Vejo o veganismo da mesma forma. E devo dizer que acho lamentável quando encontro pessoas se comportando como se elas fossem os arautos de um movimento.

Sim, me identifico como vegano, porque é o termo que melhor condiz com a forma como encaro os animais. Porém, volto a dizer mais uma vez: “O veganismo pra mim não é uma questão de identidade, não sou vegano para parecer diferente aos olhos de ninguém.” Ser chamado de vegano ou não, não muda nada para mim. O meu trabalho é contra a exploração de animais. Gosta do meu trabalho? Obrigado. Não gosta? Sem problema também.

Não busco clubismo, busco inclusão, disseminação da informação. Não quero ser louvado ou idolatrado por ninguém. Quero apenas respeito e consideração. Faço um trabalho solitário, de fato, mas esse trabalho é motivado pela minha consciência e pelo meu coração, logo razão e sensibilidade. E isso me basta porque a minha ideologia é basicamente o respeito à vida.





 

Written by David Arioch

February 22nd, 2018 at 10:31 pm

Jan Gerdes, o ex-produtor de leite que transformou a sua fazenda em um santuário para os animais

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Gerdes: “Antes, eu negava que eu gostava deles. Não havia outra maneira. Eu queria ganhar a vida” (Foto: Hof Butenland)

O alemão Jan Gerdes era um típico produtor de leite que via os animais apenas como fonte de renda. Inclusive evitava proximidade para não criar laços com os animais explorados em sua fazenda no Norte da Alemanha. Porém, um dia ele decidiu se questionar sobre o que estava fazendo – se aquilo era, de fato, certo.

“Antes, eu negava que eu gostava deles. Não havia outra maneira. Eu queria ganhar a vida. E agora eles são meus camaradas. Se você está feliz, você fala com eles. Você fala com uma vaca, assim como se falasse com um porco, um gato ou um cachorro. Não vejo diferença. Todos eles têm suas qualidades e ficam felizes quando falo com eles”, disse em depoimento registrado no documentário “Live and Let Live”, lançado por Marc Pierschel em 2014.

A mudança na vida de Gerdes foi visceral, principalmente se considerada a história da fazenda Hof Butenland, construída no século 19, em Butjadingen, no estado da Baixa Saxônia. De acordo com Gerdes, várias gerações produziram leite e queijo no local. Em 1978, ele assumiu o negócio familiar de seus pais e se tornou o primeiro produtor da região a aderir ao sistema orgânico de produção. “Isso significava redução do rebanho, aumento dos estábulos e abolição de correntes e cordas. Os bezerros eram autorizados a ficar mais tempo com suas mães (geralmente são separados logo após o nascimento)”, afirma.

Ainda assim, o sistema não poderia ser considerado “humanitário” na ótica do ex-produtor de leite. O motivo? A vaca é abatida quando a produção diminui, quando deixa de procriar ou quando fica doente, segundo Jan Gerdes, que percebeu que o único caminho verdadeiramente favorável aos animais é a não exploração.

Então ele desistiu da criação de vacas leiteiras e, com a parceria da esposa Karin Mück, transformou a Hof Butenland em um santuário para os animais. Aos poucos, começaram a receber outros animais, principalmente aqueles que seriam sacrificados ou enviados aos matadouros. Além de bovinos, a Hof Butenland abriga porcos, galinhas, patos, gansos, cães, gatos, cavalos e coelhos.

O estatuto do santuário informa que o objetivo é estimular o amor e a compreensão em relação ao mundo animal por meio da educação e do bom exemplo, assim promovendo o verdadeiro bem-estar dos animais. Em Butenland, que é praticamente um centro de educação vegana, Jan e Karin explicam detalhadamente as consequências para os animais quando roubamos a sua liberdade, seus filhos e suas vidas.

Profundo conhecedor do sistema de produção leiteira, atividade a qual dedicou décadas, Gerdes sempre tem muito a ensinar aos visitantes do santuário. “O veganismo motivado eticamente como estilo de vida também desempenha um papel importante no trabalho educacional”, enfatiza e acrescenta que hoje, mais do que nunca, é importante prestar atenção aos animais, cujo sofrimento e reais necessidades físicas e psicológicas são ignoradas.

Jan Gerdes pondera que vacas são indivíduos como nós humanos; têm uma ampla gama de emoções e comportamentos que podemos interpretar e entender se as observarmos atentamente: “Para além da estrutura física e do número de estômagos, não são tão diferentes de nós. Em rebanho, as vacas formam estruturas sociais sólidas. Elas adoram seus filhos, nutrem amizades, se ajudam, são sensíveis, inteligentes e amorosas. Algumas delas são mais reservadas, outras são insolentes, impetuosas e curiosas. Algumas apreciam estar com muitas outras, e outras preferem ficar sozinhas. Nenhuma é igual à outra.”

O papel do casal Jan e Karin é devolver a vida e a liberdade aos animais resgatados de uma vida de exploração e privação, naturalmente incentivando o respeito e a empatia. “Claro, não temos que amar cada animal, mas devemos respeitar o direito à vida e não deixar que os motivos egoístas nos guiem. Isso começa com a produção e o consumo de alimentos, com os dolorosos testes em animais, com a produção de vestuário e entretenimento (zoológico, circo), além dos abusos que surgem quando animais são tratados como substitutos de crianças ou parceiros”, frisam.

O estatuto do santuário Hof Butenland defende que os animais não são máquinas, não existem para satisfazer nossas necessidades; nem mesmo são nossos: “Defendemos, portanto, um estilo de vida chamado veganismo. Ele vai além da dieta e cobre todos os aspectos da vida e da união humana e animal. Somente observando e respeitando outros animais como indivíduos podemos realmente reconhecer quem eles são.”





 

Tem ovo, leite, mel? “É só um bolo!”

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Foto: Jo-Anne McArthur/We Animals

— Bora comer um bolo ali, irmão.

— Agradeço, mas estou satisfeito.

— Vai fazer desfeita mesmo?

— O que tem nesse bolo?

— O de sempre.

— Tem ovo, leite, mel?

— É só um bolo!

— Fico realmente grato pela consideração, mas vou declinar.

— Ô louco, irmão! Vai sacanear mesmo?

— Não, de modo algum, o respeito prevalece.

— Mas recusar assim é patifaria.

— Será? Veja bem, escrevo sobre a exploração de animais diariamente porque faço franca oposição a isso. Creio que sacana eu seria em ter a postura que tenho e me alimentar de algo de origem animal, mesmo que esporadicamente. Ética é ética, irmão. Não faço concessão por um prazer, mesmo que ocasional.

— Xaropão mesmo, hein? As pessoas vão se afastar de você, cara. Isso ferra a vida social de qualquer um.

— E uma vida social deveria ser baseada na obliteração de outra vida social? Quero dizer, se socializo me alimentando de animais, isso significa que contribuo para arruinar outras vidas e outras relações sociais. Claro, não humanas, mas ainda assim relações sociais, já que nos alimentamos de seres sociáveis. Vale a pena? Nossa interação deveria depender do fim dos outros? Deveríamos socializar com a morte? A morte é socializável? Porque se a morte é reconhecida como um essencial socializável o derramamento de sangue pode ser considerado uma virtude, já que une pessoas em torno de uma mesa farta que não existiria sem mortes. Você acredita nisso? Matar é uma virtude?

— Ah, cara! Não é bem assim… Vamos pegar leve.

— Então vamos colocar de outra forma. Você gosta de miúdos de animais? Coraçãozinho de frango ou galinha, por exemplo.

— Até que curto, com cervejinha e limão vai muito bem.

— Você sabe quantos coraçõezinhos você come tomando a sua cervejinha?

— Não sei, mas como bem.

— Cada coraçãozinho de frango ou galinha pesa em média 10 gramas. Será que você come pelo menos 200 gramas? Se sim, e ponderando essa referência, isso significa que você se alimenta de 20 frangos ou galinhas em uma “socialização”. Será que é radical dizer que em cada bandeja de miúdos, por exemplo, estamos diante de uma hecatombe, uma chacina de aves? Um quilo de coraçõezinhos significa até cem aves mortas.

— Caramba! Agora você me assustou.

 





 

Os 35 anos do clássico punk pela libertação animal “Carne Significa Assassinato”

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Arte: Conflict/Foto: Jo-Anne McArthur/We Animals

Dois anos antes do The Smiths lançar “Meat is Murder”, a banda britânica de anarco-punk Conflict lançou o clássico “Meat Means Murder” ou “Carne Significa Assassinato”, que faz uma crítica direta ao consumo de carne e à exploração animal. A música faz parte do álbum “It’s Time to See Who’s Who”, lançado em Londres em março de 1983, e que à época se tornou uma referência para o movimento pela libertação animal na Inglaterra.

Em entrevista a Pete Woods, do Ave Noctum, publicada em 5 de dezembro de 2013, o vocalista e membro-fundador do Conflict, Colin Jerwood, disse que a princípio a ideia era simplesmente formar uma banda sem maiores pretensões. Porém, com o tempo, eles ficaram surpresos com o impacto que suas músicas tiveram entre os ativistas pelos direitos animais. “Na verdade, nunca imaginei que essas palavras que escrevi teriam esse impacto e inspirariam tantas pessoas”, disse.

Quando “Meat Means Murder” foi lançada, Colin era apenas um jovem vegetariano de 20 anos, que mais tarde se tornaria vegano. Em entrevista a Niall McGuirk, publicada pelo The Thumped em 5 de maio de 2013, ele relatou que logo se envolveu com o grupo de ação direta Animal Liberation Front (A.L.F), conhecido por invadir lojas, laboratórios e fazendas para libertar animais. “A A.L.F teve que ser muito cuidadosa depois de algumas grandes prisões. Coisas ainda acontecem. Há um grupo chamado A-Team que tenta acabar com brigas de cães [na Inglaterra]. Não são tantos os estabelecimentos de vivissecção que podem ser invadidos agora porque eles são intocáveis por causa do dinheiro”, revelou.

Em 1984, o Conflict realizou shows em protesto contra a prisão de membros da A.L.F. Também arrecadou dinheiro para a libertação dos ativistas. Na página 166 do seu livro “No Future: Punk, Politics and British Youth Culture – 1976-1984”, lançado em 2017, Matthew Worley escreveu que em termos práticos o anarquismo punk tende a desautorizar a organização política formal a favor da ação, e entre as suas diversas facetas, principalmente na Inglaterra, estão ações de libertação animal, sabotagem à caça e levantamento de fundos para grupos de ativismo animalista: “Alguns, incluindo Colin Jerwood, do Conflict, alinharam-se com a Animal Liberation Front (A.L.F), o que condiz com a ação direta defendida em seu EP To a Nation of Animal Lovers EP (1983).”

Outro autor que reconhece a importância musical do Conflict como instrumento de conscientização sobre a realidade da exploração animal e do chamamento para o ativismo em favor dos direitos animais a partir da década de 1980 é Ian Glasper, autor do livro “The Day the Country Died: A History of Anarcho Punk 1980-1984″, de 2006. “Depois do Crass, a maioria das pessoas quando fala no gênero anarco-punk pensa imediatamente no Conflict, uma banda cuja música era honesta, agressiva e intransigente, e que fazia dos direitos animais a sua questão principal”, destacou na página 104 do seu livro.

No artigo “Nailing Descartes to the Wall: animal rights, veganism and punk culture”, publicado em 2014 na Anarchist Library, Len Tilbürger e Chris P. Kale citam que entre as inúmeras bandas anarco-punk que abraçaram os direitos animais e o veganismo nos anos 1980, Conflict é considerada a mais importante: “Para complementar suas exortações líricas, eles projetavam imagens de vídeo, obtidas pela própria banda que se infiltrou em matadouros, em telas por trás do palco enquanto se apresentavam. Eles também exaltavam os movimentos de ativistas pela libertação animal na década de 1980”.

Nas páginas 232 e 233 da tese de PhD “An Investigation into the Emergence of the Anarcho-Punk Scene of the 1980s”, publicada pela Universidade de Salford, no Reino Unido, em outubro de 2004, o autor Mike Dines observa que muito do material do Conflict oferece um “chamado às armas” na luta contra matadouros e as estruturas do governo. Ele usa como exemplo a faixa “Ungovernable Force”, de 1986, em que Colin Jerwood questiona: “O que significa ação direta?” Então ele continua: “Isso significa que não estamos mais preparados para continuarmos sentados e permitir que coisas terríveis e cruéis aconteçam. Ação direta pelos direitos animais significa causar danos econômicos aos que abusam e lucram com a exploração”.

Meat Means Murder (Carne Significa Assassinato) – 1983

A fábrica está produzindo, tudo processado, embalado e organizado

Uma substância abatida e obscura, e no rótulo lê-se “carne”

Escondida por trás de nomes falsos como porco, presunto, vitela e bife

Um olho é um olho, uma vida é uma vida, a atual crença esquecida

A linha de produção diária ainda está alimentando essa farsa

Para acabar sobre a sua mesa e então sair pela sua bunda

 

Você ainda continua na fila e continua assistindo

Serrarem os membros adequadamente para os ensopados

Carcaças empilhadas num monte

Sortidos, macios, suculentos pedaços congelados

Bem, você não percebe que aquele suco é sangue?

De gargantas recém-nascidas, rios de sangue jorram

Sangue de jovens corações, sangue de veias

Seu sangue, o sangue deles, serve da mesma maneira!

 

Agora você está diante da mesa, sentado, sorrindo

Sentado ali comendo, você nunca perceberá como aquilo foi feito.

Está servido sobre um prato esterilizado, você não pensará na matança

O mais longe que seu cérebro irá é “isso é pra fritar ou grelhar?”

Você lamenta pelo abate de focas, pelo massacre de baleias

Mas realmente importa se vive na terra ou na água?

Você nunca teve um casaco de pele, você acha que é cruel com os visons

Bem, e quanto à vaca, o porco ou a ovelha? Eles não te fazem pensar?

Desde o dia em que você nasceu, nunca te contaram da peça que está faltando?

Saiba Mais

O Conflict foi fundado em Eltham, Sul de Londres, em 1981. A formação original da banda era Colin Jerwood (vocal), Francisco ‘Paco’ Carreno bateria), Big John (guitarra), Steve (Guitarra) e Pauline (vocal). O primeiro lançamento do Conflict foi o EP “The House Man Built”, de 1982. Em 1983, no EP “To a Nation of Animal Lovers”, Steve Ignorant, do lendário Crass, fez uma participação especial. Mais tarde, com o fim do Crass, ele ingressou como segundo vocalista.

Referências

Woods, Pete. Interview – Conflict. Ave Noctum (5 de dezembro de 2013).

McGuirk, Niall. It’s Not About Sitting In Your Slippers – An Interview With Conflict’s Colin Jerwood. The Thumped (5 de maio de 2013).

Worley, Matthew. No Future: Punk, Politics and British Youth Culture – 1976-1984. Página 166. Cambridge University Press (2017).

Glasper, Ian. The Day the Country Died: A History of Anarcho Punk 1980-1984. Página 104. PM Press (2014).

Tilbürger, Len; Kale, Chris P. Nailing Descartes to the Wall: animal rights, veganism and punk culture. Anarchist Library (2014).

Dines, An Investigation into the Emergence of the Anarcho-punk Scene of the 1980s. PhD thesis. University of Salford, UK. Páginas 232-233 (2004).





 

Um vegano no churrasco

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Foto: Reprodução

— Boa tarde
— Boa tarde…
— Então você é o tal do cara que não consome carne, ovos, leite e tal?
— Bom, não sei se podemos dizer que sou o tal cara, já que há mais pessoas como eu, que não se alimentam de animais. Acho mais justo dizer que sou apenas “um dos caras”.
— Sei.
— Mas nem uma linguicinha de vez em quando para socializar com os amigos? Ninguém vai ficar sabendo, só entre nós.
— Acho que é bem possível socializar com os amigos sem a “linguicinha”. Bom, se bem que posso preparar Bucanera também, caso alguém queira.
— Bucanera? Que diabos é isso?
— É a minha linguiça vegetal e consideravelmente saudável.
— Sei. Mas se é vegetal não é linguiça, né? E saudável? Isso tá muito errado, cara!
— Por que não?
— Por que não vem de bicho, ora!
— E a páprica, o alho, a cebola e a pimenta que dão o sabor à linguiça são provenientes de quais animais?
— O que isso tem a ver? Não vamos distorcer as coisas. Linguiça é linguiça e ponto.
— Você tem razão. Sou um linguiceiro veganamente contraventor.
— O quê?
— Continuarei chamando de linguiça.
— Não! Não! Não! Ninguém morreu, ora! Ninguém morreu! Ninguém foi despedaçado! Você não juntou nem pagou para que alguém embalasse vísceras, cartilagens, miúdos, sangue, pedaços suculentos de gordura – deliciosos sebinhos em uma apetitosa tripa de porco. Sua linguiça nem mesmo deve ter uma quantidade de sódio que ultrapassa a ingestão diária de um adulto.
— Entendo. Que sabor magnificente tem a carne em seu estado natural, não é mesmo? Apague o fogo da churrasqueira. Por que perder tempo temperando tudo com ingredientes vegetais? Pra que fogo? Que tal simplesmente comer direto da fonte? Não pouparíamos tempo e trabalho? Imagine o deleite de socializar dilacerando uma vida com os próprios dentes. Poderíamos rasgar e comer partes ainda quentes de um animal com seu coração pulsando ruidosamente. Imagine toda a adrenalina, serotonina e endorfina desencadeadas pelo prazer dessa deliciosa violência. Afinal, não é pra isso que temos os nossos caninos? Nossas garras? Nossa agilidade felina?
— Que nojo, cara! Você é bem sinistro. Olhe, nada contra você, mas você é um tipo bem radical.





 

Frieda, a vaca que ganhou o direito de envelhecer

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Frieda gosta de passar bastante tempo sozinha (Foto: Hof Butenland)

Nascida em 19 de novembro de 1999, a vaca Frieda escapou de ser enviada para um matadouro em dezembro de 2005, quando ainda vivia em um cubículo em uma fazenda leiteira no Norte da Alemanha. O seu primeiro bezerro nasceu em fevereiro de 2002, meses depois de ser inseminada artificialmente.

Em abril de 2003, Frieda teve outro bezerro. À época, a sua produção de leite não passava dos cinco mil litros por ano, sendo considerada baixíssima para os padrões industriais e significando que ela não era mais lucrativa como vaca leiteira. A verdade é que Frieda não era uma exceção, mas apenas parte de um processo normalizado, se considerarmos que vacas leiteiras “de alto desempenho” costumam ser abatidas após a segunda ou terceira gestação, segundo o ex-produtor de leite alemão Jan Gerdes.

O motivo? Problemas que surgem precocemente envolvendo fertilidade, inflamações nos úberes e doenças ortopédicas. No entanto, Frieda não foi abatida de imediato porque era “útil” como uma “incubadora” para a transferência de embriões. O seu terceiro bezerro nasceu em maio de 2004. Porém, ela jamais teve a oportunidade de ver, lamber ou amamentar qualquer um de seus filhos. Por quê? “Normalmente os bezerros são separados das vacas logo após o nascimento”, lamenta Gerdes.

Depois de dar à luz ao terceiro bezerro, Frieda desenvolveu problemas nos ligamentos pélvicos e passou muito tempo imóvel em um estábulo. Isso indicava que provavelmente logo ela seria enviada para um matadouro, destino comum das vacas leiteiras que se tornam onerosas ou “inúteis” aos olhos dos produtores de leite.

Frieda escapou do matadouro graças à intervenção do casal Jan Gerdes e Karin Mück, ex-produtores de leite, e fundadores do santuário Hof Butenland, ao Norte da Alemanha. Quando chegou ao novo lar, livre da exploração, Frieda levou bastante tempo para voltar a confiar em alguém e recuperar parte da sua condição física. Precocemente envelhecida e emocionalmente exausta, ela sempre preferiu passar a maior parte do tempo distante do rebanho, aproveitando o silêncio.

De acordo com Gerdes, no geral, a sua saúde melhorou muito, mas Frieda ainda amarga consequências em decorrência de uma vida de exploração como vaca leiteira – o que inclui danos no fígado, problemas metabólicos e sanguíneos. Apesar de tudo, ela adora receber carícias e massagens por todo o seu corpo.

Referência

Hof Butenland Leaflet. Frieda’s Fate – From Dairy cow to resident of the cow retirement home (abril de 2015).





 

O fazendeiro sueco que abandonou a criação “humanitária” de animais e se tornou vegano

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Gustaf Söderfeldt e a esposa Caroline se dedicam à produção de vegetais orgânicos (Foto: Metro.se)

O fazendeiro sueco Gustaf Söderfeldt é uma prova viva do quanto a chamada “criação humanitária de animais” é uma contradição em essência. Em 2006, já fazendo parte de um movimento emergente na Suécia chamado “Grow Your Own”, ele criava porcos, ovelhas, cabras e galinhas. Tudo que ele produzia, incluindo o que ele chamava de “carne ética”, era comercializado em sua loja em Åmmeberg, na municipalidade de Askersund.

“Enquanto eu gerenciava a minha loja, minhas ideias e opções de uma ‘carne ética’ começaram a desmoronar. Logo percebi que produzir carne é tão desnecessário quanto violento. A ‘carne ética” é uma impossibilidade enquanto cultivar alimentos abundantes à base de plantas é sempre possível”, diz.

Söderfeldt notou que os rótulos que ele colocava em seus produtos, destacando-os como alimentos baseados no “bem-estar animal” serviam para convencer os consumidores de que eles estavam comprando produtos “éticos”, e isso os incentivava a jamais deixarem de consumi-los.

A consequência disso, na própria perspectiva do fazendeiro, era que ele contribuía para que os animais fossem vistos não apenas como seres inferiores, mas existencialmente inúteis. Afinal, segundo Söderfeldt, o seu trabalho ajudava a perpetuar a crença de que se os “criamos bem” podemos explorá-los e mata-los por razões completamente desnecessárias.

“Isso pode soar engraçado, mas descobri o veganismo no YouTube, e foi lá que aprendi que era uma opção saudável e viável. Meu mundo como um produtor de ‘carne ética’ em pequena escala foi totalmente virado de cabeça para baixo. Fechei a minha loja, parei de criar animais e me tornei ativo na comunidade vegana. Agora, com minha esposa Caroline, comando uma fazenda totalmente orgânica, sem manejo animal, sem sangue, sem ossos ou quaisquer outros insumos de origem animal. Acho importante considerar que [antes] matei muitos, muitos animais, além de enviá-los para numerosos matadouros”, revela Gustaf Söderfeldt.

A loja do fazendeiro sueco também tinha contrato com outros matadouros. Ele contava não apenas com um constante fornecimento de “carne ética”, mas também de queijos, ovos, laticínios e outros produtos de origem animal que recebiam o selo de “produto ético”: “Então, realmente matei muitos animais e, bem, sinto muito em dizer que na época isso não me afetou muito. Ou pelo menos não no nível do qual eu tenho consciência hoje.”

Mas como isso foi possível? O exemplo de Söderfeldt é muito comum nesse meio. Ele explica que a normalização da morte dos animais criados para consumo por parte de quem lucra nesse meio tem uma justificativa bem simples e usual. Os seres humanos têm formas muito efetivas de bloquear emoções negativas e se concentrar em aspectos positivos, mesmo que para isso seja necessário ignorar ou evitar a conscientização a respeito do impacto de nossas ações sobre os outros. Afinal, considera-se essencialmente o benefício para si mesmo.

“Eu estava recebendo tanto feedback positivo dos outros criadores quanto dos meus clientes que compravam a minha ‘carne feliz’. As pessoas realmente querem acreditar que matar animais é uma coisa boa. Então se você disser isso a elas, bem, então você tende a formar um clube (ou culto) em torno dessa mensagem em que você concede a si mesmo uma validação moral contínua. E assim surgem argumentos típicos como: ‘os animais são necessários para a agricultura sustentável’ ou ‘o pasto é bom para a biodiversidade’, etc”, enfatiza.

De acordo com Gustaf, só aos 34 anos ele abriu os olhos para a realidade dos animais, despertando para a empatia e o respeito independente de espécie. O que também o levou para o veganismo foi o fato de que ele já tinha uma predisposição em tentar minimizar o sofrimento animal. Porém, buscou refúgio na ilusão do chamado “abate humanitário”, que considera que se você cria animais proporcionando-lhes algum tipo de “qualidade de vida”, qualidade esta que é dúbia, porque é reconhecida assim por você, não pelo animal, isso te leva a crer que você tem o “direito” de matá-los:

“Em primeiro lugar, eu era alguém da cidade, e toda a razão pela qual comecei a criar animais de forma ‘humanitária’ era que eu odiava a ideia das fazendas industriais e queria desenvolver uma alternativa viável. Eu genuinamente me importava com os animais e queria fazer o certo para eles. Queria que eles tivessem melhores vidas do que no sistema convencional. Essa era a minha motivação como fazendeiro. Veganismo não era um conceito com o qual eu estava familiarizado.”

Quando começou a aprender mais sobre o veganismo, Söderfeldt percebeu que os veganos se importam verdadeiramente com os animais e, mais do que ele na época em que criava animais para consumo sob o sistema “humanitário”: “Veganos eram mais logicamente e moralmente rigorosos e responsáveis do que eu. Eles chegaram a uma conclusão lógica a partir dessa ideia, que é: se você se preocupa com os animais, você não deve explorá-los.”

Outro testemunho de grande importância do fazendeiro sueco é o de que se você cria animais para consumo ou como fonte de matéria-prima a violência e a crueldade integram a sua rotina, não importando se você trabalha em um sistema considerado “mais humano” ou “menos humano”. Isto porque, segundo ele, o sangue, a coragem, o medo, o sofrimento, a separação das famílias, a degradação da mercantilização dos corpos e da vida em geral são parte da sua realidade:

“Com mais pesquisas, aprendi que o veganismo é uma opção mais saudável e realista. […] Se o veganismo fosse viável, isso significaria que eu poderia realmente fazer o tipo de mudança significativa e positiva na minha vida e na minha relação com os outros, que até então eu pensava estar fazendo quando me tornei um fazendeiro “ético”. Então dei uma chance ao veganismo.”

Gustaf Söderfeldt não nega que no início foi difícil transformar o seu negócio totalmente baseado na exploração de animais em uma fazenda orgânica e vegana. O problema maior não era ele ou a sua força de vontade, mas a típica realidade do mundo ocidental, onde as pessoas são muito habituadas a se alimentarem basicamente com poucos vegetais, muita carne, muita gordura e muito açúcar.

Porém, hoje o fazendeiro afirma com orgulho que ele e a esposa Caroline conseguem sobreviver com a renda de uma fazenda orgânica e vegana: “Cultivamos tomates, batatas, feijões, ervilhas, cenouras, alface, cebolas, repolho, brócolis, flores e muito mais. Vendemos tudo em vários mercados para produtores por meio de subscrições.”

Söderfeldt, que se tornou vegano em 2013, garante que o veganismo foi uma das melhores escolhas de sua vida. Além de reconhecer que os animais não merecem ser explorados, ele defende, valendo-se da sua experiência como agricultor, que o futuro da agricultura sem a exploração de animais é muito promissor tratando-se de eficiência de recursos, uso da terra, sustentabilidade e bem-estar emocional do próprio agricultor. “Tudo isso além de poupar trilhões de animais por ano. Minha fazenda, minha consciência e minha saúde melhoraram imensamente desde que me tornei vegano, e fico grato por compartilhar essa história”, destaca.

Referência

Söderfeldt, Gustaf. I Became a ‘Humane Farmer’ to Help Animals; I Should Have Gone Vegan . Free From Harm (Agosto de 2017).