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César Chávez: “Me tornei vegetariano depois de perceber que os animais sentem medo, frio, fome e tristeza como nós”

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“Bondade e compaixão para com todos os seres vivos é uma marca de uma sociedade civilizada”

Chávez com seus companheiros caninos (Foto: Cathy Murphy)

César Chávez foi um líder dos direitos civis nos Estados Unidos que atuou em defesa dos trabalhadores rurais. Em 1962, ele fundou com Dolores Huerta a National Farm Workers Association, atual United Farmer Workers (UFW). Assim como Mahatma Gandhi e Martin Luther King, Chávez também defendia o ativismo não violento. E foi exatamente isso que o levou a adotar mais tarde o vegetarianismo e a tornar-se também um defensor dos direitos animais.

Em vez da violência, o líder dos direitos civis chamava a atenção para a situação dos trabalhadores rurais por meio de táticas pacíficas como boicotes, greves e jejuns. Em 1968, ele ficou famoso pela realização de um jejum de 25 dias. Logo depois, César Chávez tornou-se vegetariano. A sua adesão ao vegetarianismo também foi influenciada por seu cão Boycott.

“Me tornei vegetariano depois de perceber que os animais sentem medo, frio, fome e tristeza como nós. Tenho sentimentos profundos pelo vegetarianismo e pelo reino animal. Foi meu cão Boycott que me levou a questionar o direito dos seres humanos de comer outros seres sencientes”, disse Chávez em citação registrada no livro “Animal Rights: All That Matters”, publicado em 2013 por Mark Rowlands.

Chávez, que foi vegetariano por 25 anos, e por vezes também considerado vegano, já que ele não consumia nada de origem animal, tornou-se um crítico da exploração animal em todos os níveis, inclusive tendo grande influência sobre milhares de pessoas. Ele não admitia que animais continuassem sendo usados como fonte de comida, cobaias em experiências científicas, “entretenimento” e “esportes”.

De acordo com Marc Grossman, que foi assessor de Chávez, o líder dos direitos civis fazia o possível para mostrar às pessoas que o vegetarianismo já deveria ter sido adotado pela humanidade se o nosso objetivo é um futuro mais justo e pacífico. Em homenagem ao tio e sua filosofia de vida que excluía a violência até mesmo do próprio prato, Camila Chávez tornou-se vegetariana, e em entrevista a Más Magazine declarou que o vegetarianismo é um caminho bem fácil. “Cresci rodeada por vegetarianos, e refeições vegetarianas são sempre uma opção”, comentou.

Carta escrita por Chávez em defesa dos animais (Foto: Reprodução)

Chávez acreditava que a paz só poderia ser verdadeiramente alcançada a partir do momento em que começássemos a respeitar todas as criaturas. “Bondade e compaixão para com todos os seres vivos é uma marca de uma sociedade civilizada. Por outro lado, a crueldade, seja dirigida contra seres humanos ou animais, não é exclusiva de qualquer cultura ou comunidade de pessoas”, escreveu em uma carta de 26 de dezembro de 1990, endereçada a Eric Mills, da Action For Animals.

Ele declarou ainda que luta de cães e galos, touradas e rodeios são provenientes da mesma fábrica, a fábrica da violência. Além disso, César Chávez defendia a valorização dos pequenos agricultores, e a produção de alimentos naturais. Nos Estados Unidos, o dia 31 de março, que lembra o seu aniversário, é dedicado à sua memória.

Nesse dia, muitas pessoas, principalmente na Califórnia e na Flórida, realizam trabalho voluntário em benefício da comunidade. Muitos inclusive passam o dia em abrigos de animais, distribuindo e divulgando panfletos sobre os direitos humanos e animais – considerados por Chávez como indissociáveis.

Saiba Mais

César Chávez nasceu em 31 de março de 1927 em Yuma, Arizona, e faleceu em San Luiz, também no Arizona, em 23 de abril de 1993.

Ele foi indicado três vezes ao Prêmio Nobel da Paz.

Referências

Rowlands, Mark. Animal Rights: All That Matters. McGraw-Hill Education; Primeira Edição (2013).

http://www.all-creatures.org/articles/ar-honoring.html

https://web.archive.org/web/20110708042558/http://in-dios.blogspot.com/2008/03/soy-vegetariano.html

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Lenhador, uma vida de sofrimento

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Péu, Márcio, Egon e Zé descobriram muito cedo que o trabalho pode destruir sonhos e até matar

Zé, Márcio, Egon e Péu sofrem até hoje com as consequências do trabalho como lenhador (Foto: David Arioch)

Zé, Márcio, Egon e Péu sofrem até hoje com as consequências do trabalho como lenhador (Foto: David Arioch)

Por anos, Péu, Márcio, Egon e Zé, moradores da Vila Alta de Paranavaí, no Noroeste do Paraná, acordaram às 3h para trabalhar. Assim que ouviam a buzina do caminhão às 3h30 em frente de casa, se aproximavam e subiam na cabine carregando as mochilas com as marmitas e as garrafas térmicas com água. A labuta quase sempre começava às 4h15, quando a escuridão impedia que enxergassem as árvores que eram pagos para derrubar e transportar.

No local, se preparavam fazendo uma rápida ginástica laboral e aos poucos se embrenhavam no mato com cuidado, checando a presença de animais, principalmente cobras como cascavel, a mais comum em grandes áreas de eucalipto. “Quando a lenha fica amontoada, não pode chegar batendo a mão. Tem que levantar uma a uma, fazendo barulho. O farolete você leva por conta própria senão algum animal te pega”, avisa Marcelo Martins Melo, o Péu, de 27 anos, que trabalha há mais de nove anos como lenhador.

Mesmo com os cuidados, o perigo sempre foi iminente. Pisadas em cobras, quedas em buracos de tatus e ataques de marimbondos mamangava-de-toco, uma das espécies mais perigosas, acontecem mais cedo ou mais tarde. Maicon Martins Melo, o Egon, de 24 anos, e lenhador desde a adolescência, se recorda das picadas que levou do inseto. Teve de trabalhar o dia todo agonizando, com febre e dor de cabeça. “Cada marimbondo desse dá várias picadas, não só uma. Mesmo assim não pude parar o serviço porque o patrão disse que não me pagaria se eu não ajudasse a carregar toda a lenha”, explica. Os lenhadores também costumam ser picados por escorpiões e aranhas. Tudo isso pode acontecer na primeira hora de serviço de cada manhã, antes do sol despontar no horizonte.

Péu: "Estou com a coluna muito machucada até hoje. Com o tempo foi só piorando" (Foto: David Arioch)

Péu: “Graças a Deus que o pau bateu na cabine e no retrovisor antes de vir pra cima de mim, senão teria aberto a minha cabeça” (Foto: David Arioch)

Preocupados com o horário, colocavam à prova a força e a coragem. Para ganhar tempo, nos primeiros minutos na área de corte, sentavam no chão ou escoravam em uma árvore e abriam as marmitas. Depois de comer rapidamente um pouco de arroz, feijão, carne e salada, o corte e o carregamento prosseguiam por pelo menos seis horas. “Lá pelas 8h, se o cortador estiver muito atrasado, a gente para bem rapidinho pra comer um pouco mais, até em pé mesmo. Daí ajudamos a cortar a lenha pra adiantar o serviço. O cortador retribui ajudando a carregar e descarregar”, conta Péu, acrescentando que os lenhadores nem sempre têm tempo de descanso.

Os adeptos do fumo de corda e do cigarro de palha são dispensados logo no primeiro dia de serviço. A justificativa é que atrasam o trabalho dos outros lenhadores. “Não pode parar pra fumar. Senão a gente já começa a falar: ‘Vamos embora, vamos embora’”, relata Egon. Sem imprevistos, a jornada chega ao fim entre 14h30 e 15h30, assim que os lenhadores descarregam a lenha no local de destino, onde a madeira serve para abastecer principalmente as caldeiras das farinheiras e indústrias de cerâmicas. No entanto, se algo der errado, não chegam em casa antes de anoitecer.

A atividade possui um alto índice de desistência. Além de força, é preciso desenvolver boas técnicas de corte e transporte para controlar a exaustão. “Quando vai descarregar pau pesado, você tem que abraçar ele, ‘macaquear’ pra cima e jogar certinho lá embaixo. Pra ficar bom mesmo leva anos. O cara tem que aprender a suportar o calor, lidar com câimbras e beber muita água pra evitar a desidratação”, recomenda Péu que perdeu as contas de quantos lenhadores viu passando mal e desmaiando na mata por causa da alta intensidade do trabalho.

Apesar do risco de hipoglicemia, alguns lenhadores mais experientes passam o dia em jejum. O objetivo é acelerar o serviço e economizar, já que as refeições no campo são de responsabilidade dos trabalhadores. “Você consegue ganhar cem reais num dia, mas as roupas, algumas ferramentas e a comida são por sua conta. Se pensar bem, o seu lucro não passa de R$ 50”, reclama Márcio Alexandre Santos, de 23 anos, que ingressou no ramo aos 12. Para receber o valor integral da diária, três lenhadores precisam carregar 23 toneladas de lenha. Ou seja, 7,6 mil quilos por pessoa. Uma peça de eucalipto com apenas 1,50m chega a pesar até 80 quilos. “A gente se esforça pra sair da roça antes do meio-dia porque esse horário é terrível. O calor vem com tudo e você começa a sentir muita dor”, garante Péu.

Outro problema comum são os acidentes. Sem equipamentos de segurança, os trabalhadores vivem muitas situações de perigo. Há três anos, José Paulo Silva Pereira, de 18 anos, conhecido como Zé, estava cortando um eucalipto com uma motosserra. Antes que percebesse, o vento jogou sobre ele uma árvore que estava logo atrás, cortada por um companheiro. Lenhador desde os 11 anos, Zé sentiu uma pancada muito forte no ombro e caiu no chão, gemendo de dor. No dia seguinte, mesmo ferido, voltou ao trabalho após a ameaça do patrão de mandá-lo embora. “Até hoje sinto dor no ombro, uma queimação bem forte”, comenta.

"Como não temos registro em carteira, os patrões apenas viram as costas. Para segurar você no serviço, eles fazem muitas promessas que não são cumpridas” (Foto: David Arioch)

Márcio: “Como não temos registro em carteira, os patrões apenas viram as costas. Para segurar você no serviço, eles fazem muitas promessas que não são cumpridas” (Foto: David Arioch)

Em 2007, Péu passou por situação semelhante quando o tronco de uma árvore atingiu-lhe o pescoço, causando uma luxação. Depois de três dias em casa, voltou ao trabalho na segunda-feira. Se embrenhou na mata para carregar uma das primeiras toras derrubadas na madrugada fria e escura. De repente, ouviu um estalo incomum na coluna vertebral e caiu no descampado se contorcendo de dor. “Tinha uns galhos atrapalhando e fiz força demais. Estou com a coluna muito machucada até hoje. Com o tempo foi só piorando”, assegura enquanto muda de posição com receio de não conseguir se levantar até o final da entrevista.

O rapaz também se recorda do episódio em que de forma impensada um colega puxou uma tora de eucalipto que estava sustentando a base da pirâmide de madeiras sobre a carroceria do caminhão. Como resultado, um tronco bateu diretamente no tórax e em seguida nas pernas de Péu. O lenhador desmaiou e teve de ser carregado por colegas. Até melhorar, ficou alguns dias em casa. Quando retornou, o patrão acusou o rapaz de abandono de serviço e se recusou a pagar as diárias atrasadas. “O problema é a velocidade que a madeira cai. Dependendo da altura, uma tora ganha força de 150, 200 quilos. Graças a Deus que o pau bateu na cabine e no retrovisor antes de vir pra cima de mim, senão teria aberto a minha cabeça”, enfatiza.

Independente dos cuidados, é impossível encontrar lenhadores que nunca foram atingidos pela queda de um tronco. Quando o rosto é ferido por galhos a maior preocupação é ficar cego. “Você sente um graveto entrando e saindo como se fosse uma agulha. Não cheguei a perder a visão, mas ganhei uma cicatriz no canto do olho”, revela Péu que se aproxima para mostrar a marca que se assemelha a um borrão vermelho. Apesar disso, há jovens que tiveram experiências ainda piores, como é o caso de Márcio Alexandre Santos que se considera um homem de sorte por estar vivo. Na luta para sobreviver com dignidade, o rapaz enfrentou os primeiros percalços aos 14 anos.

À época, estava trabalhando em uma fazenda perto de Loanda, no Noroeste do Paraná, quando um toco quase arrancou dois dedos de sua mão. Como ainda eram 10h, o homem que contratou Márcio Alexandre não quis ir embora, esbravejando que o prejuízo seria grande. Sem kit de primeiros socorros, enrolaram a mão ensanguentada do adolescente com fita crepe. Com medo de não receber nenhum centavo, continuou chorando de dor enquanto arrastava alguns galhos com a outra mão. “Quando viu o ferimento, o patrão falou que eu podia ir embora, só que sozinho e a pé. Preocupado, usei uma mão para ajudar a descarregar a lenha na farinheira. Fiquei até o final e cheguei em casa lá pelas seis da tarde, totalmente pálido porque perdi muito sangue. Só que o pagamento pelo serviço nunca recebi”, relembra.

Egon: "Um dia quase morri na BR-376. Tinha cinco na cabine, o caminhão ficou sem freio e nos envolvemos em um acidente com uma carreta" (Foto: David Arioch)

Egon: “Um dia quase morri na BR-376. Tinha cinco na cabine, o caminhão ficou sem freio e nos envolvemos em um acidente com uma carreta” (Foto: David Arioch)

Mesmo com as agruras do trabalho, o rapaz estava feliz por ter conseguido comprar uma moto e ainda ajudar nas despesas de casa. Sonhava em conquistar a independência, um ideal que foi interrompido em 12 de julho de 2013. Naquele dia, por volta das 15h, após encher a carroceria do caminhão com lenha, Márcio e mais cinco homens deixaram uma fazenda em Santa Cruz do Monte Castelo, também no Noroeste do Paraná. Muito cansado, cochilou ao lado do motorista na cabine superlotada, até que mil metros adiante na rodovia PR-182 sentiu uma movimentação estranha. Quando olhou pelo retrovisor, a quinta-roda do caminhão quebrou e a carroceria começou a tombar. O motorista tentou reverter a situação, mas era tarde demais.

No acidente, a lenha se espalhou pela rodovia e três pessoas se feriram gravemente. Márcio ficou em pior estado. Só não morreu porque uma família que morava em uma casa à beira da estrada ligou a tempo para o Corpo de Bombeiros. Depois de receber os primeiros socorros no Hospital Municipal de Loanda, o rapaz foi enviado para a Unidade de Terapia Intensiva (UTI) da Santa Casa de Paranavaí, onde ficou internado por 15 dias. Segundo os médicos, Márcio nunca mais andaria. “Falaram que eu viraria um vegetal. No primeiro mês, meu patrão conseguiu um encaminhamento para o Hospital Angelina Caron, em Campina Grande do Sul [Região Metropolitana de Curitiba], comprou medicamentos três vezes e me deu um colete. Depois nunca mais, inclusive não recebi as últimas diárias. Acho que ele descontou do que gastou”, deduz.

Para Márcio, as maiores consequências foram a perda total dos movimentos do braço direito e cinco fraturas da coluna cervical. Só voltou a andar porque teve muita força de vontade, segundo a mãe Maria de Fátima Oliveira. Sem condições de trabalhar e sem receber nenhum tipo de auxílio, o jovem passou por quatro cirurgias pelo Sistema Único de Saúde (SUS) e hoje conta apenas com o suporte da família. “Meu braço continua na mesma situação. Como não temos registro em carteira, os patrões apenas viram as costas. Para segurar você no serviço, eles fazem muitas promessas que não são cumpridas”, desabafa o jovem que ganhou uma grande cicatriz que começa no peito e termina perto da orelha. Márcio e outro rapaz envolvido no acidente decidiram lutar por direitos trabalhistas há dois meses, após as recusas do patrão de oferecer assistência. Por enquanto não houve acordo.

O que também mostra a negligência por parte dos comerciantes de lenha, responsáveis por abastecer dezenas de indústrias de Paranavaí e região, é a exigência de que o caminhão não pode retornar com menos de 23 toneladas de lenha, sendo que por medidas de segurança é recomendado não ultrapassar 15 toneladas. “Se você levar 20 mil quilos o patrão fala que não cobre nem as despesas dele”, denuncia Egon. Com o caminhão muito pesado, os riscos de acidente na estrada aumentam por causa da perda de estabilidade. Outro problema é o limite de passageiros que normalmente não é respeitado.

Zé: “Trabalho com lenha há sete anos e fui tratado como bandido. Me expulsou da casa dele e ainda ameaçou chamar a polícia" (Foto: David Arioch)

Zé: “Trabalho com lenha há sete anos e fui tratado como bandido. Me expulsou da casa dele e ainda ameaçou chamar a polícia” (Foto: David Arioch)

O assunto faz Péu se recordar do dia em que iria buscar lenha com dois amigos, mas surgiu um imprevisto e foi substituído por outro companheiro de longa data. Na volta, o motorista perdeu o controle do caminhão que rompeu a proteção da ponte e caiu no Rio Ivaí. Os três rapazes morreram. Depois do acidente, muitos lenhadores cogitaram abandonar a atividade. “Foi em 2012. Fiquei tão assustado que me ocupei com outro tipo de serviço por alguns meses. A verdade é que ainda tenho medo. Você nunca sabe se vai chegar em casa”, afirma Péu.

“O cara pensa até em tirar a própria vida”

Após se ferir gravemente em 2013, o então lenhador Márcio Alexandre Santos entrou em depressão. Se sentiu desnorteado ao saber que não poderia mais trabalhar, se exercitar ou dirigir. “Única coisa que faço hoje é bater uma enxadinha pra fingir que tô carpindo. O médico alertou que se eu cair de mau jeito, sofrer alguma queda, corro o risco de nunca mais levantar. Dizem que não vou mais andar como antes. Tem dia que essa lembrança acaba comigo”, se queixa visivelmente emocionado.

Tão nocivo quanto a dor física, o sentimento de inutilidade também atinge a maioria dos lenhadores em algum momento da vida. O fato de serem jovens e já diagnosticados com diversos problemas de saúde faz com que deixem de acreditar em um futuro melhor ou até mesmo em uma vida longa. “Com 20 e poucos anos você tá pior que cara de 40, 50. Esse é o preço de começar a atuar em serviço pesado na infância ou adolescência. Se ficar encostado, qual mulher vai te querer? Nessa hora o cara pensa até em tirar a própria vida”, admite o lenhador Marcelo Martins Melo, o Péu, que muitas vezes ficou deprimido e inquieto dentro de casa por não estar em condições de trabalhar.

Nos finais de semana a diversão do rapaz era jogar bola com os amigos. Hoje não pode mais porque está com a coluna vertebral severamente comprometida. É a segunda vez que Péu fica impossibilitado de trabalhar por um longo período. “Na primeira, fiquei nove meses debilitado e não recebi nada do patrão. Me machuquei de novo há dois meses e tive que abandonar a lenha. Fiz até um empréstimo pra comprar medicamentos. Rapaz, se faltar remédio eu nem ando!”, confessa enquanto se levanta e caminha a passos curtos e rasteiros.

Há poucos dias, quando Péu foi até a casa do patrão mostrar o atestado e a receita médica, o homem o chamou de mentiroso e vagabundo. Em seguida, virou as costas e fechou a porta. Humilhações são constantes na vida dos lenhadores. “Quando você se machuca, tem patrão que te xinga e sai falando mal pra ninguém te contratar. Na lógica dele, se o cara consegue ficar em pé é porque ainda está bom pra trabalhar, até mesmo no caso de uma árvore prensar sua cabeça e você perder uma orelha. Agora se acertar um pneu e causar algum dano, ele te ameaça e faz você pagar”, lamenta.

Márcio quase morreu quando transportava lenha em 12 de julho de 2013 (Foto: Acervo Familiar)

Lenhador quase morreu em acidente no dia 12 de julho de 2013 (Foto: Acervo Familiar)

O lenhador Maicon Martins Melo, o Egon, conta que um dia o motorista do caminhão de lenha não viu a motosserra deixada no chão e passou por cima, a danificando. Na hora de receber, o patrão descontou R$ 100 de Egon. Só depois o rapaz soube que o motorista o culpou. “O patrão nem quis ouvir a verdade. Pra prejudicar mais ainda, ele nunca dá nota ou recibo de nada. Pra você ter uma ideia da situação, em Paranavaí tem 15 comerciantes de lenha. Desse total, só três respeitam os lenhadores ou dão algum tipo de assistência”, declara Egon.

“Enriqueceram às custas do trabalho de crianças e adolescentes”

Desde que a Vila Alta surgiu nos anos 1970, o bairro se tornou o maior reduto de lenhadores de Paranavaí, no Noroeste do Paraná. Até hoje dezenas de jovens são seduzidos pela promessa de receber um bom pagamento no mesmo dia, logo ao final do serviço. “Vem gente de todos os cantos buscar lenhador aqui. Sempre foi assim. Enriqueceram às custas do trabalho de crianças e adolescentes. Se não fosse os menores de antigamente, eles não teriam nada. Muita gente perdeu e ainda perde a vida na lenha, até porque não leva mais de um ano pra você se machucar”, desabafa Márcio Alexandre Santos enquanto ajeita o braço inutilizado quando trabalhava na área.

Quem também sofreu muito foi o lenhador José Alexandre Silva Pereira, o Zé, que há poucos dias foi até a casa do patrão receber o pagamento das últimas diárias. “Trabalho com lenha há sete anos e fui tratado como bandido. Me expulsou da casa dele e ainda ameaçou chamar a polícia. Me senti tão mal que só virei as costas e parti”, assinala o rapaz que atualmente atua como lombador e dorme na câmara fria de um caminhão nas noites em que passa longe de casa.

Estado do caminhão que estava com sobrecarga e superlotado no dia do acidente (Foto: Acervo de Márcio Santos)

Caminhão de lenha que tombou na PR-182 estava com sobrecarga e superlotado (Foto: Acervo de Márcio Santos)

Em Paranavaí, um comerciante de lenha vende cada carga por R$ 2,1 mil, o que garante pelo menos R$ 1,3 mil de lucro diário, livre de despesas. “Um patrão com quatro caminhões e que faça uma viagem por dia ganha mais de R$ 100 mil por mês. Se for duas viagens, o lucro passa de R$ 200 mil”, destaca Péu que atua no ramo desde 2006. O que torna o mercado realmente lucrativo é que cada empresa que compra lenha tem uma demanda diária de até 200 toneladas.

“Vamos ralar o peito dele”

Uma prática que os lenhadores mais conscientes tem se esforçado para banir do campo é o “rala peito” que consiste em jogar toras de árvores sobre os mais jovens, obrigando-os a ganhar força rapidamente. Incentivada por comerciantes de lenha, a brutal forma de iniciação de lenhadores costuma ser aplicada principalmente em crianças e adolescentes nos 15 primeiros dias de trabalho. “Eles viam um novato e já gritavam ‘vamos ralar o peito dele’. Isso aí judia demais. Tem que ajudar a evitar de se machucar, não o contrário”, reprova Péu.

De acordo com Egon, é impossível um lenhador não se deparar com injustiças no cotidiano. “Um dia quase morri na BR-376. Tinha cinco na cabine, o caminhão ficou sem freio e nos envolvemos em um acidente com uma carreta. O carreteiro morreu e ficamos até as 2h juntando lenha, morrendo de fome. Cheguei em casa às 4h. Você acha que o patrão me deu algum extra? Pagou só pelo primeiro carregamento e ainda reclamou do prejuízo”, narra o rapaz que até hoje se recorda de um companheiro que morreu prensado entre toras de eucalipto.

Os lenhadores são unânimes em sugerir que os motoristas mantenham distância de caminhões que transportam lenha. Argumentam que já viram toras cair sobre automóveis e motocicletas. “Quando você atravessa uma cidade o risco de algo dar errado é ainda maior. Alguém tem que ficar sempre na porta, observando a carga. Se um pau mudar um pouquinho de posição, o motorista precisa parar pra você alinhar tudo”, sugere Márcio.

Egon também faz questão de mencionar o dia em que um cabo de aço amarrado a uma árvore arrebentou e passou de raspão pela sua cabeça. O companheiro de serviço foi atingido violentamente no queixo e na boca. Como o jovem estava desmaiado e sangrando muito, os demais lenhadores aproveitaram a ausência do patrão para levar o rapaz ao Pronto Atendimento Municipal de Paranavaí. Mais tarde, receberam o recado de que a diária não seria paga.

Frases dos lenhadores

“Duvido chegar um lenhador e falar que o corpo é filé. Não é. Tem problema nas costas, no joelho, no ombro e no cotovelo.”

Marcelo Martins de Melo, o Péu, 27.

“A lenha é tão pesada e cruel que você perde até o vigor físico pra praticar um esporte e se exercitar.”

Márcio Alexandre Santos, 23.

“Quando o pessoal começa a se machucar e espalhar os riscos do serviço, o patrão dispensa todo mundo e monta uma equipe nova.”

Maicon Martins Melo, o Egon, 24.

“Acontece de cortar e amontoar num dia e falarem pra voltar só no outro dia pra carregar. Daí você ganha só uma diária, mesmo trabalhando dois dias.”

José Paulo Silva Pereira, o Zé, 18.

Saiba Mais

O número de lenhadores para o corte e transporte de uma carga pode oscilar de 3 a 6.

De acordo com os quatro lenhadores entrevistados, os caminhões que transportam lenha raramente passam por manutenção.

Um vídeo que mostra brevemente uma parte da rotina dos lenhadores de Paranavaí:

Independência e sangue

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O que o mundo ignorou sobre a Guerra da Tchetchênia

Os enormes estragos da Guerra na Tchetchênia (Foto: Reprodução)

Os enormes estragos impostos pela guerra na Tchetchênia (Foto: Reprodução)

Nos anos 1990, a Guerra da Tchetchênia entrou para a história como um dos grandes momentos de selvageria e carnificina da humanidade, chegando a ser comparada com a Segunda Guerra Mundial. O conflito foi desencadeado ao Sul da Rússia, desestabilizando completamente uma região ocupada por uma população castigada por condições precárias de vida.

A primeira fase da Guerra da Tchetchênia teve início em 1994, quando tropas russas atacaram indiscriminadamente cidades e vilas. Tudo em represália à tentativa dos tchetchenos de serem independentes e criarem um estado autônomo islâmico. Os soldados russos não hesitavam em matar e estuprar civis, além de saquear e queimar residências e lojas. O trunfo da Mãe Rússia eram as grandes formações de aviões e tanques com artilharia pesada que em poucas horas causavam enormes estragos.

Nem mesmo as crianças eram poupadas, tanto que a beligerância é lembrada como um momento histórico de revelia aos direitos humanos e às leis de guerra. Sobre o assunto, até hoje o mundo e a grande imprensa pouco se manifestou, segundo o jornalista estadunidense Barry Renfrew que por muitos anos atuou como correspondente de guerra da Agência Associated Press.

Matar ou morrer por um ideal

Tchetchenos orando antes da batalha (Foto: Reprodução)

Tchetchenos orando antes da batalha (Foto: Reprodução)

A guerrilha tchetchena se articulou para dar o troco nos opressores e conseguiu. Mais motivados e bem preparados que os russos, os guerrilheiros lutavam pelo nacionalismo e ódio étnico. O propósito era matar ou morrer por um ideal. Já os russos chegaram a um ponto em que estavam mais preocupados em sobreviver às investidas dos guerrilheiros do que vencer. “Foi uma guerra tão selvagem que não há justificativas para explicá-la”, comenta Renfrew que assistiu de perto o constituído governo democrático russo buscar no seu passado de ferocidade medieval e totalitarismo os métodos mais cruéis para punir o povo da Tchetchênia.

Enquanto os russos viam os tchetchenos como selvagens traiçoeiros e criminosos, os tchetchenos encaravam os russos como conquistadores cruéis e espoliadores de sua pátria. “A Rússia é uma colcha de retalhos formada por muitos grupos étnicos que foram conquistados à força. E todo governo russo, independente de ideologia, sempre acreditou que a preservação desse império deve ser mantida a qualquer custo”, diz o jornalista. A dissolução da União Soviética já havia sido encarada como um pesadelo que feriu profundamente o orgulho russo, então a possibilidade de perder qualquer território, por menor que fosse, era algo inaceitável.

Barry Renfrew: "Para eles, ser independente é um fato indiscutível da natureza"

Barry Renfrew: “Para eles, ser independente é um fato indiscutível da natureza” (Foto: Reprodução)

Um povo nacionalista e marcial

Os tchetchenos, desde sempre conhecidos como um povo nacionalista e marcial, foram os últimos a serem conquistados pela Rússia Czarista do Século XIX. Certa vez, na década de 1940, em punição a não subserviência dos tchetchenos, o ditador soviético Josef Stalin deportou centenas de milhares de homens, mulheres e crianças para a Ásia Central, onde a maioria morreu sob terríveis condições. A resistência dos tchetchenos chegou ao ápice em 1991, quando aproveitaram o colapso da União Soviética e declararam independência.

“Para eles, ser independente é um fato indiscutível da natureza, assim como as montanhas que cercam suas terras. Eles não precisam se justificar. E se você tenta questioná-los sobre isso, recebe um olhar reprovador”, explica Barry Renfrew. Quem também não se posicionou sobre essa guerra foi a Justiça Internacional. O Ocidente fechou os olhos para a Tchetchênia e tratou o conflito como uma questão interna sem base legal para intervenção externa, mesmo ciente de que os russos foram responsáveis pela morte de milhares de civis tchetchenos. “A verdade é que o Ocidente preferiu apoiar Boris Iéltsin e o seu dito governo pró-ocidental em Moscou. Se limitou a simplesmente fazer apelos por uma conduta ‘mais moderada’”, frisa o jornalista.

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A invasão russa se transformou em um desastre (Foto: Reprodução)

O papel do exército

Em dezembro de 1994, os soldados russos chegaram à Tchetchênia, onde se surpreenderam com a grande quantidade de mulheres e crianças tentando bloquear a entrada dos tanques. A maioria implorava para que voltassem para a Rússia. Um general decidiu suspender a invasão alegando que o papel do exército não era lutar contra os próprios cidadãos. Mas nada disso impediu a tragédia que estava por vir. Mais tropas russas invadiram a Tchetchênia em uma ação prevista como rápida e inofensiva para os civis.

“A situação saiu de controle e se transformou em um desastre. Os russos começaram a bombardear os assentamentos civis. Bem organizados, os tchetchenos capturaram aviadores inimigos e em alguns casos nem se deram o trabalho de transformá-los em prisioneiros. Para servir de lição, alguns foram mortos lá mesmo”, enfatiza Renfrew que viu o despreparo do exército russo nas investidas em solo tchetcheno.

Quando Grozny sucumbiu

Grozny, a capital, sucumbiu diante de uma truculenta batalha campal. Enquanto por terra a artilharia pesada dos tanques martelava a cidade. Pelos céus, os russos apelavam para as sequências de bombardeamentos aleatórios, como se não houvesse uma real estratégia de atuação. “A meta parecia ser pulverizar a cidade, pois estavam destruindo tudo”, lembra. Um fato curioso é que a maior parte de Grozny era ocupada por uma população de etnia russa. Desesperados, os sobreviventes fugiam para as aldeias vizinhas.

Grozny depois de destruída pelo Exército Russo (Foto: Reprodução)

Grozny depois de destruída pelo Exército Russo (Foto: Reprodução)

A capital foi a mais castigada porque a Rússia acreditava que a maior base insurgente se situava no coração de Grozny. Até aquele momento, os tchetchenos se refugiavam em grandes blocos de apartamentos, onde era possível reforçar as proteções, tornando-as mais resistente aos ataques. “Eu podia ver claramente que ambos os lados fariam de tudo para ganhar. O interesse maior era derrubar o inimigo”, comenta Renfrew. Embora contassem com menos armamento militar, os tchetchenos conseguiram render muitos inimigos. Aqueles que não foram mortos receberam bom tratamento e foram até liberados.

No Verão de 1996, o Kremlin declarou ao mundo que a vitória na Tchetchênia estava assegurada, após um ataque surpresa que culminou na captura de vários líderes do movimento separatista. “Não foi bem isso que aconteceu. A Rússia retirou suas forças da Tchetchênia para salvar a própria imagem. Não havia esperança de vitória militar”, avalia o jornalista estadunidense.

Capital foi a cidade mais castigada da Tchetchênia (Foto: Reprodução)

Capital foi a cidade mais castigada da Tchetchênia (Foto: Reprodução)

A imposição russa em 2000

A Rússia apenas conseguiu se impor sobre os separatistas em 2000, quando restaurou o domínio direto da Tchetchênia ao destruir Grozny. Resistentes, os rebeldes montaram uma base de ataque nas colinas. Com o passar dos anos, os tchetchenos sofreram grandes baixas. Uma das maiores foi a morte do líder separatista Aslan Maskhadov em março de 2005, seguida pela do comandante militar Shamil Basayev, assassinado em julho de 2006.

Entre as muitas crianças mortas pelos russos entre os anos de 1999 e 2000 estava Tapa Arskeyov, irmão de Dmitri Arskeyov. Tapa que tinha 12 anos acompanhava o pai Sergey, na tentativa de convencer um grupo de soldados russos a não invadir uma área escolar em Grozny. Foi uma tentativa em vão, embora um dos invasores tenha se sensibilizado com a situação.

“Outros que vinham atrás viram meu pai e Tapa com as mãos para o alto; apenas acenavam. Antes que os russos perguntassem qualquer coisa, atiraram contra suas cabeças. Os dois caíram mortos”, confidencia Dmitri Arskeyov que hoje tem 25 anos. Enquanto alguns russos ficaram chocados com o acontecimento, outros simplesmente riram e seguiram adiante, sem se importar com os corpos de pai e filho já caídos sem vida sobre o solo. Dmitri e a mãe Lydia tiveram de recolhê-los com um carrinho de mão.

Um criminoso de guerra no poder

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Kadyrov, líder pró-Rússia responsável por 75% dos crimes de guerra na Tchetchênia (Foto: Reprodução)

Em 2007, Ramzan Kadyrov, filho do ex-presidente Akhmad Kadyrov, assassinado em 2004, assumiu a presidência da Tchetchênia, tendo como principal apoiador o presidente russo Vladimir Putin. Na segunda fase do conflito, as forças russas e seus aliados tchetchenos foram acusados de abuso generalizado de civis, incluindo desaparecimentos, torturas e matança indiscriminada. Grupos de direitos humanos internacionais estimaram que até cinco mil civis foram sequestrados por forças russas ou pró-Rússia.

Muitos inocentes eram violentados brutalmente para assumirem ligação com a guerrilha, mesmo quando não tinham qualquer relação com grupos separatistas. As forças de Kadyrov, conhecida como Kadyrovtsy, são creditadas por levarem a cabo a maior parte das abduções, tanto que a Federação Internacional de Helsinki para Direitos Humanos descobriu que a Kadyrovtsy operava uma rede de prisões secretas na Tchetchênia. O grupo é responsável por 75% dos crimes de guerra cometidos contra os tchetchenos. Ainda assim, quando reassumiu a localidade, a Rússia fez questão de oferecer o cargo de presidente da Tchetchênia ao criminoso de guerra Ramzan Kadyrov.

Como reflexo da guerra, até hoje as forças russas de segurança da Tchetchênia permanecem mal treinadas, indisciplinadas e corruptas. E isso tem relação direta com a pouca responsabilidade pelos abusos que cometeram ao longo de muitos anos. “Todos os militares russos julgados pelos crimes na Tchetchênia foram absolvidos ou receberam penas modestas. Me recordo do episódio de dois soldados que saíram impunes, após matarem seis civis em 2005”, exemplifica o jornalista Barry Renfrew. A justiça russa aceitou a alegação de que os acusados seguiam apenas ordens superiores, algo incompatível com um verdadeiro julgamento de guerra.

A retaliação tchetchena

Conforme se intensificou o ataque aos civis tchetchenos, os guerrilheiros decidiram levar a guerra até a Rússia. Lá, os rebeldes usaram civis como escudos humanos. Um dos episódios mais marcantes foi registrado em outubro de 2002, quando os tchetchenos tomaram um teatro em Moscou durante a realização de um musical popular. Nesse dia, os próprios russos mataram os reféns quando liberaram um gás venenoso.

Guerrilheiros decidiram levar a guerra até a Rússia (Foto: Reprodução)

Dois anos depois, os separatistas fizeram mil reféns em uma escola na cidade de Beslan, o que acabou na morte de 330 pessoas. Também houve ataques a hospitais, concertos públicos e áreas residenciais. O comandante tchetcheno Shamil Basayev declarou em 2005 que era preciso fazer com que todos os russos sentissem a dor da guerra. “A responsabilidade é de toda a nação russa. Se a guerra não chega até eles individualmente, ela nunca terá seu fim na Tchetchênia”, disse Basayev.

A repreensão tardia

Os Estados Unidos e alguns outros países ocidentais tardiamente decidiram repreender a Rússia pela negligência quanto aos direitos humanos na guerra. Em 2000, o então presidente estadunidense George Bush ameaçou interromper a ajuda que dava à Rússia, caso continuassem matando mulheres e crianças – deixando muitos refugiados tchetchenos órfãos. Mas tudo mudou após o 11 de setembro de 2001 e o surgimento de alegações de que alguns comandantes da Tchetchênia tinham ligação com a Al Qaeda e outros grupos terroristas internacionais.

Espertos, os russos aproveitaram o sentimento anti-islâmico para vender a ideia de que a luta na Tchechênia tinha como objetivo evitar a criação de um estado islâmico terrorista. Mesmo recebendo severas críticas da União Europeia, a Rússia conseguiu sair vitoriosa da situação. Em pouco tempo, a questão quase desapareceu das pautas da política internacional. “A Rússia transformou a Tchetchênia em um país perigoso tanto para os tchetchenos quanto para os estrangeiros. Hoje em dia, infelizmente, há pouca discussão pública sobre a Tchetchênia”, lamenta Renfrew.

Barry Renfrew acompanhou de perto a Guerra da Tchetchênia (Foto: Reprodução)

Barry Renfrew acompanhou de perto a Guerra da Tchetchênia (Foto: Reprodução)

Sobre Barry Renfrew

O jornalista Barry Renfrew começou a trabalhar na Associated Press em 1978. Desde então, já atuou como correspondente de guerra em Sydney, Moscou, Joanesburgo, Seul, Islamabad, Cabul e Londres. Antes de se tornar um dos diretores mais importantes da AP, Renfrew foi chefe do escritório no Paquistão e trabalhou na sede da Associated Press em Nova York e também na Virgínia Ocidental.

 Curiosidade

Imagens do documentário “Melancholian 3 Huonetta” que mostra as consequências da Guerra da Tchechênia. A música é da banda de post-rock finlandesa Magyar Posse – Single Sparks Are Spectral Fires.

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