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“Let There Be Light”: traumas no pós-guerra

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Lançado em 1946 e disponibilizado pela Netflix, “Let There Be Light” é um documentário sobre as consequências psicológicas e emocionais da guerra na vida dos soldados dos EUA que participaram da Segunda Guerra Mundial. Um trabalho impactante, o filme foi proibido pelo governo de ser exibido por mais de 30 anos.

À época, temiam que a opinião pública pudesse se voltar contra o governo e inviabilizar o interesse dos mais jovens em ingressarem nas Forças Armadas. Logo no início o documentário informa que pelo menos 20% das baixas dos EUA durante a guerra foram de natureza psiquiátrica.

Um retrato sensível de uma realidade pouco conhecida e divulgada, somos apresentados em “Let There Be Light” a jovens com histórias bem peculiares de experiências na guerra e que encontram dificuldades em se adaptarem à realidade civil quando retornam para casa.

Por isso são encaminhados ao Hospital General Mason, situado em Long Island (NY), onde passam alguns meses em tratamento psiquiátrico que inclui hipnose e narcoanálise. Algumas histórias chamam bastante atenção, como a de um rapaz que sofre um trauma psicológico tão severo na guerra que perde os movimentos das pernas – não conseguindo mais andar.

Por meio da narcoanálise, ele recupera os movimentos. Há também jovens que sofrem amnésia e não sabem quem são, mas que, por meio da hipnose, resgatam a própria identidade. Alguns relatam que durante a guerra perderam a vontade de viver, se colocando em situações perigosas – buscando a própria morte – algo comum principalmente entre aqueles que testemunharam tantas mortes no seu próprio batalhão.

Outros não sabem se a guerra acabou e se estão em território inimigo ou nos EUA. Há aqueles que não conseguem mais dormir, parar de chorar, que gaguejam a maior parte do tempo ou sentem tremores que parecem não ter fim. Chama atenção o tratamento dispensado pelos psiquiatras aos soldados.

Eles são atenciosos, sensíveis, bem preparados e fazem com que muitos soldados consigam redescobrir ou recuperar algo que perderam durante a guerra. Há um momento simbólico daquela realidade geral quando um dos psiquiatras diz que eles jamais serão quem eram.

Isso é corroborado por um rapaz que afirma que antes da guerra ele adorava sair com os amigos, se divertir. Porém, tudo isso perde o sentido para ele. Há um contraste muito grande com a imagem que os EUA venderam dos soldados da época.

Muitos deles no filme parecem inseguros e há aqueles que não sentem prazer ou orgulho de ter participado da guerra. Um dos soldados, que foi para a zona de combate, esconde as próprias medalhas que recebeu porque não as reconhece como uma grande conquista.

“Let There Be Light” mostra que muitos deles eram realmente muito jovens quando retornaram para casa, e ainda assim foram enviados para combater japoneses e alemães. Há algo de ingênuo e inocente em suas expressões e falas, o que é percebido pelos psiquiatras que os tratam de uma forma que muitos deles jamais experimentaram nem mesmo no contexto familiar.

É interessante a forma como o filme apresenta a evolução de alguns soldados, embora deixe claro que seja impossível prever se eles realmente voltaram a ser saudáveis no aspecto psicológico e emocional em longo prazo. Mas no documentário o que mais se destaca é a valorização da dignidade humana e o reconhecimento de que, diferente do contexto da guerra, vidas importam.