David Arioch – Jornalismo Cultural

Jornalismo Cultural

Archive for the ‘Doença’ tag

Muitos dizem que a vida é pra curtir…

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Fonte da arte: Grupo Escolar

Alimentação também é uma forma de condicionamento social. É uma pena que muita gente ignore a influência ou o peso que isso tem em sua vida e na vida daqueles que afeta ou sobre quem exerce influência.

Muitos dizem que a vida é para curtir, que não importam os excessos na alimentação, ou até mesmo os vícios (como se isso fosse sinônimo de curtir). Mas é uma opinião que sempre muda quando uma pessoa contrai uma doença grave. Acredite, essa opinião de hoje pode mudar amanhã, e talvez seja tarde demais.

Se você não cuidar de você mesmo, dificilmente os outros poderão fazer melhor por você depois. Ninguém está imune a uma doença, mas não vejo motivo para aproximá-la. Também não digo para ninguém levar uma vida franciscana, porém acredito que a ponderação é uma via salutar.

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Written by David Arioch

August 19th, 2017 at 12:21 am

Acredito que o câncer surgiu a partir do momento que nos afastamos da nossa natureza

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Arte: Elena Gitelson

Acredito que o câncer surgiu a partir do momento que nos afastamos da nossa natureza. Meu pai faleceu em decorrência dessa doença quando eu era criança. Se eu pudesse voltar no tempo, teria dito para ele fazer uma terapia nutricional, não simplesmente os tradicionais tratamentos agressivos.

Não demonizo os tratamentos modernos de câncer, só acredito que não são tão eficazes sem o reencontro do ser humano com a sua própria natureza. Na realidade, creio que todas as doenças surgiram a partir do momento que nos afastamos de nossa natureza, inclusive aquelas apontadas como resultado de predisposição genética. Afinal, uma doença não se desenvolve facilmente em um ambiente verdadeiramente saudável.

 

 





Written by David Arioch

July 24th, 2017 at 2:48 pm

Idoso precisa de ajuda para tratamento de doença infecciosa aguda

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Seu Juvenal sofre em decorrência de erisipela, uma doença que causa inchaço extremo nos pés e nas pernas (Foto: David Arioch)

O aposentado Juvenal Ferreira, que sobrevive com apenas um salário mínimo, e há muito tempo deixou de andar em decorrência de graves problemas de saúde, passa o dia em uma cadeira de rodas. Morador da Vila Alta, na periferia de Paranavaí, ele sofre em decorrência de uma doença infecciosa aguda chamada erisipela, que provoca extremo inchaço nos pés e nas pernas.

“Tenho outros problemas de saúde, mas esse é o pior. Tem dia que não consigo dormir, porque a dor é muito grande. O medicamento não é oferecido pelo SUS, então a gente tem que comprar na farmácia. Já estou endividado e não tenho mais condições de continuar comprando os remédios; e são caros pra gente. Não é fácil, meu filho”, explica.

Seu Juvenal conta com o apoio da esposa, Dona Neide, que é quem se responsabiliza por todas as suas necessidades diárias, já que ele não consegue andar. Os únicos medicamentos usados pelo aposentado até hoje e que deram bons resultados foram as pomadas SAF-Gel, um gel hidratante com alginato de cálcio e sódio, e Quadrilon – indicado para dermatoses causadas por infecção bacteriana ou fúngica.

“Gasto dois tubos de cada por mês. E quando falta, a minha situação piora”, garante Seu Juvenal. A pomada SAF-Gel custa de R$ 50 a R$ 60, e a pomada Quadrilon pode variar de R$ 22 a R$ 35. O sonho de Juvenal Ferreira, que quase teve as pernas amputadas por causa da doença, é voltar a andar ou pelo menos ficar em pé sem a ajuda de ninguém. Para mais informações, ligue para (44) 98837-5322.

Saiba Mais

O endereço do Seu Juvenal é Rua das Ameixas, Nº 19, Quadra 15, Lote 18, na Vila Alta.

 

Written by David Arioch

June 1st, 2017 at 1:38 pm

Quando as pessoas se afastam de alguém que tem uma grave doença

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Fico surpreso quando as pessoas se afastam de alguém que tem uma grave doença. Se eu tivesse uma namorada e descobrisse que ela tem câncer ou até mesmo HIV, é claro que eu não me afastaria dela.

Sempre tive o exemplo da minha mãe que cuidou do meu pai até o último momento, mesmo ele incapaz de se levantar de uma cama, e já não reconhecendo ela em decorrência de um câncer que se espalhou pelo cérebro.

Minha mãe cuidou dele o tempo todo. Ao mesmo tempo, criou eu e meus dois irmãos. À época, o Juninho tinha só um ano de idade. O amor é isso, a doação e a mais genuína forma venusta de empatia que se sobressai a tudo.

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Written by David Arioch

February 8th, 2017 at 10:38 am

Posted in Reflexões

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A ansiedade social de Kafka

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Samsa é a gradação surrealista do escritor em estado patológico, como uma figuração quimérica

Kafka1906

1906 – Kafka sofria de ansiedade social (Foto: Reprodução)

O primeiro e mais pungente indício de que o escritor tcheco Franz Kafka sofria de ansiedade social está na sua obra mais famosa – “A Metamorfose”, de 1915. A transformação de Gregor Samsa revela não apenas o medo, aceitação seguida de ostracismo e o rompante de cólera do protagonista diante de um mundo que pouco representa além da compressão da sua própria existência, mas também as inúmeras facetas das afecções e doenças então inominadas que atingiam Kafka.

Samsa é a gradação surrealista do escritor em estado patológico, como a sua própria figuração quimérica e exemplarmente estruturada a partir de seus problemas registrados em cartas e diários. “Sou incapaz de viver com as pessoas, de falar. Vivo imerso em mim. Me sinto apático, sem juízo e com medo. Não tenho nada a dizer a ninguém. Nunca!”, escreveu em uma das cartas enviadas à tradutora tcheca Milena Jesenská, com quem se correspondeu entre os anos de 1920 e 1923, estabelecendo um grande laço de confiança.

Estar sozinho era tão essencial para Kafka que ele via nisso uma genuína forma de poder, algo que dissolvia o seu interior e o preparava para trazer à tona o que ele resguardava de mais profundo em seu âmago. “Quando estou voluntariamente só, há uma ligeira ordenação em meu interior e isso faz com que eu não sinta falta de nada”, declarou.

Introvertido, as interações sociais faziam com que o autor se sentisse drenado. Somente a completa solitude garantia a recuperação de sua energia e serenidade. “Escrevo diferente de como falo e falo diferente de como penso”, revelou. Kafka experimentou beber para lidar com a ansiedade social, um método comum incentivado por seus colegas, mas que não o ajudou em nada. “Não posso usar drogas para enganar a minha solidão, pois ela é tudo que tenho. E quando os efeitos das drogas e do álcool se dissiparem, será tudo que meus colegas terão também”, refletiu.

Ele reconhecia o condão da sua eloquência com a escrita, porém sempre se deparou com uma barreira que o impedia de se expressar da mesma maneira quando conversava com alguém. “Sou muito tímido para dizer o que realmente penso e acabo me sentindo mal por isso”, confidenciou. Franz Kafka lamentava o desconforto por não conseguir se comunicar com outras pessoas da mesma forma que ele fazia com os parentes mais próximos.

“Não fico ansioso com minha irmã mais nova e eu gostaria de ser assim com todos. Destemido e poderoso, é como me sinto quando escrevo. É como se minha ansiedade não existisse. A ideia de alguém ler o que escrevo também nunca me incomodou, a não ser que peçam que eu fale sobre o que escrevi”, registrou em outra carta.

“Sou incapaz de viver com as pessoas, de falar. Vivo completamente imerso em mim"

“Sou incapaz de viver com as pessoas, de falar. Vivo completamente imerso em mim” (Foto: Reprodução)

Em uma de suas queixas, o escritor admitiu que nunca teve um relacionamento sério e que a ideia de ter filhos lhe parecia muito distante. “Quando alguém fala comigo, não consigo evitar de pensar que posso ser atacado, então meu instinto é fugir”, desabafou, lembrando-se de um episódio em que um dia à meia-noite um conhecido se aproximou dele em frente a uma cafeteria quase deserta e o convidou para uma conversa. Assustado, Kafka declinou o pedido e foi embora às pressas.

Outros convites se repetiram e ele sempre suspeitava que se aproximavam dele por piedade. Foram poucas as ocasiões em que o escritor concordou em sentar-se à mesa com pessoas que não faziam parte de sua família. “Tudo que não é literatura me aborrece e eu odeio isso. Me falta toda a aptidão para a vida familiar, exceto, na melhor das hipóteses, como observador. Quando recebemos visitas em casa me vejo prestes a me tornar alvo de algum tipo de malícia”, relatou.

Milena Jesenská: "Ele era tímido, gentil e amável, mas escreveu livros muito dolorosos" (Foto: Reprodução)

Milena Jesenská: “Ele era tímido, gentil e amável, mas escreveu livros muito dolorosos” (Foto: Reprodução)

Kafka se julgava como alguém sem vida social, que passava as noites na pequena varanda de casa, observando o rio. Não se considerava uma boa pessoa. “Eu pouco me preocupo com os outros. Sou uma pessoa ridícula. Se você estiver um pouco apaixonada por mim, só posso crer que seja comiseração. E de minha parte, só posso sentir medo”, segredou em carta a jovem Hedwig W., escrita em Praga em 29 de agosto de 1907. Para ela o escritor produziu o poema “Anos Atrás”.

Também afirmou que sua vida se pautava na permanente tentativa de comunicar o incomunicável, explicar o inexplicável. “Estou sempre escrevendo sobre algo que habita meus ossos e que só pode ser experimentado através deles. Basicamente sinto o medo se espalhando por mim, um temor paralisante de pronunciar uma palavra. E não somente pavor, mas também um anseio por algo maior do que tudo o que representa o medo”, confessou em carta a Milena Jesenská.

Como Milena definiu Franz Kafka

“Ele era tímido, gentil e amável, mas escreveu livros muito dolorosos. Viu um mundo cheio de demônios invisíveis que rasgam e destroem pessoas indefesas. Ele era lúcido e sábio demais para a vida. Chegou a um ponto que dominado pela fraqueza não conseguiu mais lutar. Era uma fraqueza dos nobres, de quem teme o mal-entendido, a indelicadeza e as mentiras intelectuais. Era de uma casta de pessoas com sensibilidade que poucos são capazes de entender. Um solitário com um olhar profético que através de uma olhadela é capaz de perceber coisas que outros jamais notariam. Ele próprio representava um mundo profundo e extraordinário.“

Nascida em 10 de agosto de 1896, em Praga, então território do Império Austro-Húngaro, Milena foi a principal tradutora de Kafka – da língua alemã para a tcheca.

Saiba Mais

Nascido em Praga em 3 de julho de 1883, Franz Kafka faleceu aos 40 anos em decorrência de uma tuberculose laríngea que o impedia de se alimentar. O escritor que pouco se importava com a fama só ficou conhecido após sua morte.

Referências

KAFKA, Franz. Letters to Milena, Schocken Books, 1952.

Kafka, Franz. Letters to Family, Friends and Editors, Schocken Books, 1959.

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A máfia italiana chega a Paranavaí

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Rastejando, buscaram armas debaixo de suas camas e se posicionaram enquanto uma saraivada de tiros penetrava a sala

Carreador percorrido de jipe pelos membros da Cosa Nostra de Messina em 1943 (Foto: Arquivo)

Carreador percorrido de jipe pelos membros da Cosa Nostra de Messina em 1943 (Acervo: Fundação Cultural de Paranavaí)

Em junho de 1943, o ítalo-brasileiro Vittorino Alambare e os italianos Paolo Vergatti, Battaglia Di Carlo e Sotero Comezzino atravessaram São Paulo e dezenas de cidadezinhas e lugarejos para chegarem ao Noroeste do Paraná. No caminho, encontraram muitos veículos abandonados, se deteriorando. Mas nada chamou mais a atenção dos quatro do que um caixeiro-viajante com idade entre 25 e 30 anos, deitado aos pés de uma bracatinga, ladeado por um jipe com as rodas soterradas.

O rapaz estava morto. Teve os órgãos vitais dilacerados, possivelmente por uma onça. Mas os vestígios de sangue e couro em suas unhas indicavam que lutou com ardor antes de sucumbir. Dentro do veículo, encontraram documentos e uma foto do jovem com a esposa e dois filhos. Paolo se sensibilizou ao ouvir Alambare ler uma carta que o caixeiro jamais entregou à mulher. Na correspondência, Ildefonso Castanho justificou a partida.

“Não quero ser caixeiro-viajante até o dia de minha morte. O que poderia deixar de herança aos nossos filhos? Dívidas? Prometo buscá-los tão logo eu consiga melhorar de situação em um lugar chamado Fazenda Brasileira, onde um amigo me disse ser o direito às terras ofertado a todos que nutrem no coração o sonho de realização. Prometo que lhe enviarei dinheiro o quanto antes. Mande beijos e abraços às crianças e diga que nos encontraremos em breve”, escreveu Castanho, de acordo com o aposentado Genaro Alambare, filho de Vittorino.

Vergatti ficou preocupado com a situação da mulher que teria de criar três filhos sozinha. Em muitos anos, foi a primeira vez que os amigos o viram com olhos marejados por trás de um papel. Enterraram o corpo do caixeiro-viajante na mata, subiram a bordo do jipe Land Rover e seguiram viagem observando o Sol se pondo por trás da densa mata da região de Londrina.

“Onde fica essa Fazenda Brasileira? Seria longe demais? Será que muitas pessoas vivem lá? Parece ser um local pouco habitado. Talvez compense conhecer”, analisou Vittorino Alambare. Os demais também ficaram intrigados. Ainda assim nenhum deles tinha mais interesse no lugar do que Vergatti. O rapaz guardou a carta de Ildefonso Castanho no bolso da calça.

Em Maringá, para onde planejavam se mudar antes do incidente com o caixeiro-viajante, decidiram seguir adiante. No dia 25 de junho, perto de onde surgiria Nova Esperança, um denso nevoeiro matutino atrapalhou a visibilidade da estrada quando Alambare sentiu o impacto e o barulho de algo preso às rodas traseiras. Di Carlo e Comezzino desceram armados e circularam o jipe cautelosamente, revezando olhares em direção à floresta.

Vista parcial da Brasileira na época em que os italianos compraram uma fazenda (Acervo: Fundação Cultural de Paranavaí)

Vista parcial da Brasileira na época em que os italianos compraram uma fazenda (Acervo: Fundação Cultural de Paranavaí)

Apesar do susto, não havia nada embaixo do veículo. Nas imediações, ouviram apenas um acirrante som de água ecoando entre as copas das árvores. Caminharam alguns metros e encontraram um córrego e uma cristalina mina d’água intocada pelo homem. “Depois do banho, Paolo Vergatti saiu para procurar frutas quando foi surpreendido por uma onça-parda. Com o focinho sujo de sangue, o animal se aproximou dele, o observou, cheirou suas mãos e se afastou, correndo mata adentro. Paolo ficou calado e imóvel, sem entender o que aconteceu”, relata Genaro.

Horas depois de reiniciado o trajeto, encontraram um homem cego de meia-idade sobre um cavalo de pelagem escura. Percorrendo em sentido norte a margem de um carreador da futura Alto Paraná, o sujeito trajava apenas uma calça de estopa. Alambare reduziu a velocidade do jipe e perguntou se havia algum vilarejo por perto. Antes de responder, o homem se apresentou como Adolpho Aureliano. “Perdão se minha voz soa atrofiada, mas faz mais de 20 anos que vivo sozinho. Podem seguir adiante que vão encontrar o que procuram. Não estão longe. Ah! Mas se tiverem fome ou sede, venham à minha casa”, convidou.

Seguiram o galope e a pouco mais de um quilômetro viram um casebre com desenhos esfíngicos nas paredes, registrados com uma mistura de jenipapo e urucum. Dependendo da incidência do sol, as imagens pareciam ganhar vida. “Cada desenho retratava uma fase vivida por aquele homem. Em um deles, o viram arando a terra e recebendo ajuda de crianças. Os cômodos da residência eram divididos por galhos longos, finos e bifurcados”, diz Genaro Alambare.

Após o modesto banquete, Battaglia Di Carlo chamou a atenção dos amigos para uma foto com data de 21 de agosto de 1917 grafada com faca ou punhal na moldura de madeira. Jovial, Aureliano estava sentado em um sofá com a esposa e três filhos. O homem se aproximou e explicou que perdeu a família em 1921. “A maleita levou o que eu tinha de mais importante. A culpa foi minha por ter vindo pra cá em 1913. Não deu tempo de encontrar ajuda. Apesar de tudo, quero ficar aqui até o fim dos meus dias”, frisou.

Impotente e sentindo-se culpado pela morte da esposa e dos filhos que tinham entre cinco e nove anos, Aureliano descampou uma área erma a alguns metros de casa e lá ficou deitado, observando o Sol por horas até perder completamente a visão. “Eu sentia uma queimadura interna tão forte que até anestesiava a queimadura externa. Meu corpo pegava fogo, mas isso não era nada comparado ao meu coração que ardia em chamas”, confidenciou.

No canto da sala havia um piano francês Pleyel bem conservado e coberto por uma capa. Sobre ele, uma partitura de “A Sertaneja”, de Brasílio Itiberê. Sotero Comezzino, que estudou na Accademia Nazionale di Santa Cecilia, em Roma, pediu autorização para tocá-la. Aureliano, que circulava pelo ambiente como se a visão não lhe fizesse falta, acenou em aprovação e exibiu dentes tão brancos que pareciam esmaltados artesanalmente. Nos primeiros minutos, Alambare e Di Carlo ouviram um som estranho vindo do fundo da casa enquanto as mãos de Comezzino percorriam as teclas. Quando se aproximaram, Aureliano estava cuidando dos ferimentos de uma tranquila onça-parda rodeada de filhotes. Sem dizer palavra, se comunicaram com os olhos e voltaram para a sala.

Os sicilianos iam até o centro da colônia apenas quando necessário (Acervo: Fundação Cultural de Paranavaí)

Os sicilianos iam até o centro da colônia apenas quando necessário (Acervo: Fundação Cultural de Paranavaí)

“Aquele eremita transcendeu de alguma forma. Mesmo cego e solitário, não nutria desprezo pela vida, não praguejava. Meu pai dizia que Aureliano descobriu dentro de si algo que só poderia ser sentido ou compreendido por poucos seres humanos”, enfatiza Genaro. Depois da despedida, seguiram viagem. A floresta se tornou mais densa, tanto que em vários trechos tiveram de arrastar árvores tombadas e desviar de cipoais.

Assim que chegaram à Fazenda Brasileira, chamaram a atenção de curiosos na Avenida Paraná, a via mais movimentada da colônia. Crianças descalças cercavam o jipe e gritavam: “Oi, oi, oi, oi, oi!” e “Ô sinhô, de onde cês são?” Os italianos riam, se recordando da infância em Messina, na Sicília. Paolo Vergatti observou um vento repentino obrigando as mulheres a recolherem as roupas ainda úmidas do varal, evitando que a terra arenosa as sujasse. Alambare, que foi pedir informações em uma casa de Secos e Molhados, voltou dizendo que conheceu um fazendeiro chamado Marcolino Rufião. “Ele falou que tem uma terra boa a pouco mais de 20 quilômetros daqui. Quer vender pra voltar pra São Paulo. Se for viável, fechamos negócio”, sugeriu Vittorino.

No trajeto até a fazenda de Rufião, situada na região onde surgiu o Povoado de Cristo Rei, assistiram crianças saltando sobre pequenos tocos, jogando pião, gargalhando e correndo em círculos. “Aqui seremos homens comuns, passíveis de morrer no anonimato”, pontuou Paolo Vergatti. Quando chegaram à propriedade de pouco mais de 110 alqueires, gostaram do que viram. Só que alertaram Marcolino sobre as consequências de uma suposta trapaça.

“Confiamos na sua palavra e acredito que sua intenção de ir embora seja verdadeira. Só que se por ventura formos enganados ou alguém aparecer por aqui reclamando esta terra, vamos atrás do senhor para saldar a dívida”, prometeu Battaglia Di Carlo usando uma flanela do bolso para limpar cuidadosamente uma pistola Parabellum guardada em um estojo com forro de veludo vermelho. Marcolino pediu calma, sorriu e garantiu que eles não teriam problemas.

Na semana seguinte, Rufião não foi mais visto na Fazenda Brasileira. No entanto, após 15 dias, numa noite de sábado, Vittorino, Paolo, Battaglia e Sotero estavam conversando na sala quando ouviram dois disparos contra a porta principal da casa. Rastejando, buscaram armas debaixo de suas camas e se posicionaram estrategicamente enquanto uma saraivada de tiros penetrava a sala e atravessava a cozinha, causando buracos de diversos tamanhos. Os italianos ficaram em silêncio. Sem reagir, observaram quais eram os pontos menos atingidos pelos invasores.

Os quartos de Vergatti e Comezzino ocupavam as duas áreas menos vulneráveis da casa. Então se dividiram em duplas e aguardaram a aproximação dos atiradores. Em menos de uma hora, os sicilianos mataram os 12 invasores com tiros de curta e longa distância à base de pistola e carabina. Usaram como ponto de partida algumas fendas que permitiam ver quem se aproximava da entrada. A vantagem é que só podiam ser notadas por quem estava dentro da casa. Os dois últimos tiros foram disparados por Sotero que atingiu a cabeça de um invasor que tentou fugir.

Estrada do Cristo Rei que dava acesso à Fazenda Niente, onde viveram Alambare, Vergatti, Di Carlo e Comezzino (Foto: David Arioch)

Estrada do Cristo Rei que dava acesso à Fazenda Niente, onde viveram Alambare, Vergatti, Di Carlo e Comezzino (Foto: David Arioch)

Entre os mortos havia homens de 20 a 40 anos. A maioria se vestia com simplicidade. A exceção era um sujeito que trazia joias e ouro nas mãos, na boca e nos pés. O homem era Marcolino Rufião que num momento de desespero correu para tentar salvar a própria vida. “A inexperiência deles era tão grande que parecia que estávamos abatendo animais indefesos”, comentou Comezzino com os amigos.

Os corpos foram colocados dentro do caminhão de Rufião e enterrados numa área de mata nativa a cerca de dez quilômetros da fazenda, com exceção do cadáver de Marcolino, depositado em um buraco mais distante. O posicionaram com o peito para o chão. Suas pernas e braços foram cruzados e amarrados com retalhos das roupas ensanguentadas dos homens que morreram sob seu comando. Antes de taparem o forame com terra, seguraram a cabeça de Rufião e introduziram em sua boca dezenas de bagas de beladona.

“As pernas e os braços cruzados simbolizavam o desencontro, a perdição. Um desejo de que aquele homem nunca mais encontrasse o seu caminho, nem em outra vida. E os frutos tóxicos colocados em sua boca indicavam que foi condenado a passar a eternidade ébrio. Queriam que ele fosse reconhecido no outro mundo como um perene repositório de erva daninha”, relata Genaro, acrescentando que a boca do fazendeiro foi lacrada com a manga longa de uma camisa encharcada com o sangue do homem mais jovem do bando. Dias depois, o caminhão de Marcolino foi abandonado no Ranchão de Zinco, um cemitério de veículos perto do Porto São José.

Mesmo com o desaparecimento de Rufião, ninguém apareceu na Fazenda Niente, dos italianos. E conhecendo a má fama do homem, a polícia ficou satisfeita com o sumiço. Mais tarde, os quatro amigos foram até a Brasileira fazer compras num armazém na Avenida Paraná. Lá, ouviram uma história sobre uma família de italianos que estava se mudando para a Brasileira, trazendo um baú de barras de ouro. “A última vez que vi Marcolino, ele me disse que tinha uma proposta a fazer a esses italianos”, falou um senhor de olhos miúdos segurando um copo de cachaça durante conversa com um compadre.

A ideia de que Rufião confundiu os sicilianos com outra família de italianos que nunca chegou ao povoado intrigou Comezzino e Bataglia. Sotero gargalhou tanto na saída do armazém que chegou a esticar uma grande cicatriz que possuía embaixo do queixo. Paolo Vergatti se mantinha disperso, alheio às brincadeiras dos amigos. Em julho de 1943, pediu a ajuda de Alambare e pagou a um advogado de origem polonesa para datilografar uma carta com destino a Palmas, no extremo Sul do Paraná. A correspondência foi despachada pelos Correios de Londrina através do motorista da catita que fazia a linha Londrina – Fazenda Brasileira.

Junto da carta, Vergatti, se passando por Ildefonso Castanho, enviou um pouco de dinheiro. Dois meses depois, recebeu uma correspondência de Júlia Ramalho contando como os filhos estavam crescendo. Paolo se extasiava com o carinho e compreensão embutidos à escrita da moça. Era como se a chegada daquele pedaço de papel fosse a razão de sua existência, mesmo ciente de que as cartas eram destinadas ao falecido, não a ele.

Na segunda carta de Júlia, duas das crianças escreveram seus nomes no rodapé. Com o tempo a mulher ficou muito surpresa. Ela recebia por mês até três vezes mais do que o necessário para as despesas familiares. Era um sonho a possibilidade do marido ter se tornado alguém tão bem-sucedido em pouco tempo. Por correspondência, Vergatti se apaixonou por Júlia e adotou a personalidade de um pai de família. A natureza gentil e fraternal da moça o encantava. Júlia estranhou apenas quando o suposto marido pediu-lhe que banhasse a carta em seu perfume antes de enviá-la a ele. Ildefonso talvez fosse amável, mas não parecia dominado pelos rompantes passionais de Vergatti.

Sempre que o questionava sobre o dia em que poderia partir com os filhos para encontrá-lo, ele inventava alguma desculpa. Júlia suspeitou que o marido tivesse outra mulher na Fazenda Brasileira. A verdade é que Paolo temia a reação de Júlia. “À mesa, imagino ela me pedindo para levá-la à vila. No campo, vislumbro Roberto e Paula [filhos de Júlia] me convidando para brincar de esconde-esconde. Ah, Romeu! [o terceiro filho ainda bebê] O embalo no colo e o levo para conhecer os cafezais, onde seus intensos olhos negros, como pequeninos diamantes abissais, idealizam no solo arenoso o arquétipo de um parque. Sinto-me neste momento como um verme; incapacitado, inútil, infrutuoso! Se ei de pertencer a morte, que me leve para os umbrais rapidamente! Irrita-me a espera, mesmo quando o destino é deixar de ser humano para tornar-me húmus para esta terra”, segredou Genaro, citando trechos do rascunho de uma carta.

Em agosto de 1945, completou dois anos que os italianos se dedicavam à produção de café, milho e algodão. Sem contar com ajuda externa, trabalhavam apenas para ocupar o tempo e evitavam interagir com curiosos. Iam até a área urbana da Brasileira apenas quando necessário, passando despercebidos pela maioria. Em fevereiro de 1946, Júlia se irritou porque não recebia cartas do marido há mais de um mês. Então viajou para a Brasileira com o irmão Agnaldo Ramalho e os três filhos.

Graças à ajuda de um rapaz chamado Pedro, que era balconista em uma casa de secos e molhados, ficou sabendo que ninguém conhecia Ildefonso. Mas o jovem percebeu que a descrição do lugar de acordo com a correspondência era a mesma da propriedade de quatro italianos que faziam compras ocasionais no armazém. Então Julia decidiu se arriscar. Achou a fazenda, se aproximou da entrada da casa e antes que chamasse alguém foi recebida por Gernaro Alambare que trazia uma faixa preta no braço. De aspecto taciturno, não se importou em ser visto pálido, com os olhos inchados e vermelhos de tanto chorar.

Paolo Vergatti, Battaglia Di Carlo e Sotero Comezzino estavam mortos desde janeiro de 1946, vítimas de uma epidemia de leishmaniose tegumentar americana (LTA) que assolou a região. “Meu pai pediu que o irmão de Júlia levasse os sobrinhos para passear pelo pomar e contou a verdade a ela. Disse que Ildefonso Castanho morreu em 1943 e por compaixão Paolo Vergatti se passou por ele. Se apaixonou por Júlia, só que não teve tempo de ganhar coragem para relatar toda a história, preferindo se corresponder por dois anos e meio, enviando até três cartas por semana”, menciona Genaro.

Vittorino a levou para ver os túmulos dos três amigos, enterrados lado a lado, numa área coberta por acácias, a sudoeste da casa principal. Não havia nada escrito nas modestas e pequenas lápides brancas que traziam o mesmo desenho de três punhos unidos. Confusa sobre tudo que ouviu, e com as pernas trêmulas, Júlia agarrou o próprio vestido com as unhas e começou a chorar e soluçar diante do túmulo de Vergatti.

Sozinho, Alambare, que nunca entendeu porque a doença não o matou, retornou para Santos. Antes entregou a Júlia todo o dinheiro de Paolo Vergatti, guardado em uma mala escondida numa tulha. Acompanhada da família, a moça se mudou para a propriedade com o consentimento de Vittorino. Em pouco tempo, aprendeu a amar o homem que nunca conheceu. Todos os dias pela manhã, Júlia carregava um banquinho de cedro até o túmulo de Paolo Vergatti. Sentava ao seu lado e lia as dezenas de cartas enviadas por ele. Foi assim até outubro de 1967, quando Júlia faleceu em decorrência de um acidente vascular cerebral (AVC).

Vittorino recebeu a notícia em dezembro do mesmo ano, junto com a informação de que os filhos dela venderam a fazenda. Em janeiro de 1968, o novo proprietário demoliu a casa, as lápides e as acácias, relegando ao esquecimento a passagem dos amigos italianos por Paranavaí.

Sicilianos articularam o assassinato de um líder da Ndrangheta

Membros de um clã da Cosa Nostra de Messina, na Sicília, Paolo Vergatti, Battaglia Di Carlo, Sotero Comezzino e Vittorino Alambare ocupavam posições de destaque na organização. De acordo com Genaro Alambare, Vergatti e Di Carlo eram caporegimes (capitães) especialistas em minimizarem conflitos entre as famílias, evitando guerras desnecessárias.

Comezzino, conhecido como o “carrasco de sottocapo”, era um dos soldados mais temidos da Sicília nos anos 1930, considerado o responsável pela morte de cinco subchefes da Camorra e da NDrangueta. Alambare era um associado da Cosa Nostra e contrabandista com passagem livre pelo Porto de Santos.

O irmão mais velho de Battaglia, Domenico Di Carlo, foi um guerrilheiro da Resistência Italiana que ajudou a capturar e assassinar o ditador italiano Benito Mussolini. Os três fugiram da Itália após articularem o assassinato de um dos principais líderes da Ndrangheta, a máfia calabresa. O clã de Paolo, Battaglia e Sotero era contra a exploração de crianças que se expandia pelo país.

Curiosidade

Mesmo depois de Paranavaí ser desmembrada de Mandaguari em 1951, muitos ainda se referiam ao município como Fazenda Brasileira por causa do nome que surgiu na década de 1930.

Saiba Mais

Vittorino Alambare nasceu em 15 de fevereiro de 1908 e faleceu em 3 de julho de 2001.

Battaglia Di Carlo nasceu em 12 de maio de 1909 e faleceu em 19 de janeiro de 1946.

Paolo Vergatti nasceu em 21 de setembro de 1910 e faleceu em 27 de janeiro de 1946.

Sotero Comezzino nasceu em 8 de junho de 1911 e faleceu em 22 de janeiro de 1946.

Júlia Ramalho nasceu por volta de 1915.

A peste que assolou a Brasileira

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Doença dizimou centenas de porcos na década de 1940

Salatiel Loureiro: “A peste acabou com a minha porcada. Fiquei no zero” (Acervo: Fundação Cultural de Paranavaí)

No início da década de 1940, muitos dos pioneiros que chegavam à Fazenda Brasileira, atual Paranavaí, no Noroeste do Paraná, trouxeram gado, porcos e cabras, visando incrementar renda com a criação de animais. O que ninguém imaginava na época é que alguns anos depois um surto de peste suína dizimaria centenas de porcos.

Em 1944, muitos migrantes e imigrantes que fixaram residência na colônia tiveram a ideia de investir na suinocultura, motivados pela escassez de carne. Um exemplo é o pioneiro paulista Salatiel Loureiro que naquele ano construiu o terceiro rancho da Brasileira.

Logo que fixou residência no povoado, Salatiel Loureiro sentiu falta de comer carne, então decidiu ir a pé até Campo Mourão, no Centro Ocidental Paranaense, comprar animais para criar. Lá, comprou porcos e os tocou a pé até a Brasileira, numa viagem que durou dias. “Vim pela estrada mesmo, não tinha condução”, contou. A via percorrida por Loureiro era um picadão precário envolto por uma mata densa e fechada.

À noite, o pioneiro, acompanhado dos porcos, se abrigava diante de uma fogueira para descansar e também evitar o confronto com animais selvagens. “O ruim era que tinha muito mosquito”, comentou, acrescentando que as agruras eram superadas pelas belezas naturais. Segundo Loureiro, as novas gerações nunca imaginariam como a região de Paranavaí era bonita nos anos 1940.

População local já venerava muitos santos nos anos 1950 (Acervo: Ordem do Carmo)

Em 1947, Salatiel tinha uma das maiores criações de porcos da Fazenda Brasileira, o que era motivo de orgulho para o pioneiro. No entanto, no mesmo ano a peste suína chegou à colônia e dizimou centenas de suínos. “A peste acabou com a minha porcada. Fiquei no zero”, lamentou Loureiro que nunca mais quis saber de investir na suinocultura. Conforme palavras dos pioneiros, a doença vitimava animais todos os dias.

Poucos suínos resistiram à doença. A sobrevivência desses é creditada a uma promessa feita pelos pioneiros. “Eles se juntaram e rezaram. Falaram que se Deus os livrasse da peste suína, eles fariam de São Sebastião o padroeiro da igreja. A peste desapareceu e o povo cumpriu o prometido”, revelou o padre alemão Ulrico Goevert no pequeno livro “Histórias e Memórias de Paranavaí”.

Um dos moradores da Brasileira foi de caminhão até São Paulo, de onde trouxe a estátua de São Sebastião feita em gesso e com 1,30m de comprimento. A imagem doada pelo imigrante italiano Genaro Pienaro foi guardada na residência de um agricultor, pois a igrejinha ainda não tinha telhado. Se chovesse, a estátua corria risco de ser danificada. Não foram poucas as vezes em que o colono recebeu visitas de moradores que pediam autorização para orar em frente ao padroeiro da cidade.

Foi assim até a estátua ser remanejada para a Casa Paroquial. De acordo com Frei Ulrico, quando o telhado da igreja ficou pronto, São Sebastião foi colocado no seu devido lugar. “Durante o período de reformas, as estátuas ficaram desabrigadas, no mais verdadeiro sentido da palavra”, enfatizou o padre alemão que se surpreendeu com o fato da população local venerar tantos santos.