David Arioch – Jornalismo Cultural

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Por que você acredita que o sofrimento de um animal não humano não é menor do que o humano na iminência da morte?

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Molly B., vaca que fugiu de um matadouro nos Estados Unidos em janeiro de 2006 (AP Photo/Great Falls Tribune, Robin Loznak)

— Por que você acredita que o sofrimento de um animal não humano não é menor do que o humano na iminência da morte?

— Acredito que o sofrimento de um animal não humano pode ser maior, sim, realmente maior, e por uma justificativa até simples – a incapacidade de racionalizar e verbalizar o que sente. Imagine a si mesmo em uma selva e diante de um animal muito maior e mais forte do que você. De repente, vocês estão diante um do outro, e não há nada que você possa fazer para impedir que ele o ataque e o mate. Afinal, ele não partilha do mesmo código comunicativo que você. Partindo da mesma situação de um animal prestes a ser abatido, ou seja, de total vulnerabilidade, eu diria que qualquer reação sua será em vão. Isto porque falo de situações equiparáveis.

Por exemplo, um animal na pista da morte em um matadouro está no mesmo estado de vulnerabilidade de uma pessoa desarmada e despreparada caminhando pela selva. Mas nisso subsiste uma distinção substancial. E qual seria? Se um animal me matasse em território selvagem, ele o faria instintivamente, seja por fome, medo, identificação de perigo ou qualquer outro fator que desencadeie essa reação. Já os animais cativos que matamos não nos apresentam qualquer perigo. São simplesmente criados para gerar lucro e saciar paladares, logo são mortos friamente.

Creio que não apenas legitimamos esse tipo de morte como a incentivamos e a incluímos, mesmo que arbitrariamente, na nossa moralidade antropocêntrica. Se ainda assim, a minha resposta não for o suficiente, sugiro que aqueles que discordam do meu posicionamento visitem matadouros e observem a reação dos animais antes de serem abatidos. Não é incomum eles recuarem, tentarem postergar o inevitável. Um animal que testemunha a morte de outro não se oferece para ser o próximo. Muito pelo contrário.

E a ausência de um código de comunicação em comum, sem dúvida torna tudo mais doloroso. Imagino que saberíamos, de fato, como é esse tipo de sentimento se uma espécie muito superior à nossa, e que tivesse um código de comunicação completamente diferente do nosso, fizesse algo parecido conosco. Claro, diferentemente dos selvagens, não despedaçamos nossas vítimas no instante em que as matamos. Porém, não fazemos isso depois? Os açougues e as seções de frios dos mercados provam que sim.

 





Por que você considera mais ético não se alimentar de animais?

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Somos seres conscientes e capazes de escolher nossos próprios alimentos, de optar por uma boa nutrição que não envolva privação, sofrimento e morte

— Por que você considera mais ético não se alimentar de animais?

— Porque se sou capaz de sobreviver sem me alimentar da privação, sofrimento e morte de outras criaturas sencientes, não vejo motivo para continuar contribuindo com essa violência. Se mesmo diante de todas as informações as quais tive acesso sobre senciência, consciência animal e exploração animal, eu optasse por continuar me alimentando de animais, eu não faria isso por crer que a minha nutrição demanda o sofrimento e a morte de outras espécies, mas sim porque eu seria alguém reafirmando que o meu paladar, a minha conveniência, está no topo das minhas prioridades.

Acredito que eu colocar uma comodidade historicamente cultural acima do valor da vida de outras espécies, uma comodidade baseada na subjugação, e que deveria ser um bem inegociável dado ao seu fim faccioso enquanto bem de consumo, não é apenas injusto, como desnecessário e indigno de minha parte. Até porque sei que os animais não oferecem suas partes para que possamos esfaqueá-las ou fatiá-las. Por isso, quando encontro partes de animais reduzidas a produtos em mercados, ou onde quer que seja, o que vejo basicamente não é um bem de consumo colocado à venda de forma natural ou pacífica, mas sim representações fragmentadas de violência e arbitrariedade.

Experimente contar quantas partes que não pertencem a um mesmo animal você é capaz de encontrar em uma bandeja no açougue. Um quilo de alguma coisa pode representar a morte de quatro ou cinco animais, ou até mais. Isso não é uma forma de banalização da vida? Vidas ceifadas e partes acondicionadas em um pedaço de isopor com um involucro plástico, ou um saco plástico transparente, normalmente. Creio que a banalização da vida, mesmo quando não humana, diz muito sobre o valor que atribuímos ao que consideramos diferente, inferior e liliputiano.

Há animais na natureza selvagem que dependem essencialmente da carne. Esses eu jamais condenaria, pois fazem o que nasceram para fazer na luta pela sobrevivência; e, claro, sem ponderar, já que a eles não cabe o nosso discernimento. Mas nós? Não precisamos de nenhum alimento de origem animal. Somos seres conscientes e capazes de escolher nossos próprios alimentos, de optar por uma boa nutrição que não envolva privação, sofrimento e morte.





Written by David Arioch

November 9th, 2017 at 11:28 pm

Às vezes, tenho a impressão de que a ética jamais será tão importante quanto o dinheiro

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Vivemos em um mundo onde, infelizmente, às vezes tenho a impressão de que a ética jamais será tão importante quanto o dinheiro. Diariamente me surpreendo com as táticas usadas por pessoas que inclusive se despersonalizam em busca do lucro. Fecha-se os olhos para os mais diversos tipos de mazelas. Podem ganhar muita grana, não duvido, mas paga-se por isso com a própria integridade. E quando a integridade é sucateada, a essência humana é substancialmente violada e arrastada para longe.

Written by David Arioch

September 18th, 2017 at 8:44 pm

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Um exemplo de baliza ética vegana

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Darei um exemplo de baliza ética. Se tenho uma empresa e alguém diz que a única forma de eu comercializar o meu produto em determinado mercado é realizando testes em animais, sabe o que faço? Simplesmente abro mão desse mercado ou redireciono o foco da minha atividade, até porque quem tem condições de realizar testes de produtos em animais, tem grana para fazer outra coisa.





Propaganda jamais deve estar acima da moral e da ética

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Propaganda não deve estar acima de importantes valores humanos

Propaganda jamais deve estar acima da moral e da ética. Quando você faz da propaganda o seu principal veículo de transformação e deixa a moral e a ética em segundo plano, isso significa que direta ou indiretamente você pode recorrer a meios caliginosos, rasos, hiperbólicos, conflitantes ou incertos para convencer o maior número de pessoas a compartilharem de suas ideias. É claro que a propaganda pode triunfar, mas também pode ter um prazo de validade bem curto dependendo da forma como é conduzida. Ainda mais no mundo atual, em que a propaganda pode ser tão sólida quanto um castelo de areia.





Written by David Arioch

September 9th, 2017 at 6:35 pm

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“Você sabe que não como nada de origem animal”

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Arte: Sue Coe

Um amigo me ofereceu um pedaço de bolo.

— Você sabe que não como nada de origem animal.

— É praticamente um bolo vegetariano, só tem um ovo. Nada de mais. Come aí, só hoje, um pedaço. Você não vai nem sentir o gosto de ovo porque a gema foi peneirada. Não tem leite.

— Entendi. Então, o problema não é o gosto de ovo. Qual mensagem eu estou te passando se eu comer um pedaço desse bolo?

— Sei lá…a mensagem de que você é um vegano flexível.

— A mensagem que eu passaria seria a de que não tem nada de errado em ocasionalmente comer algo de origem animal. E isso não condiz com o que eu defendo, que é não enxergar os animais como fonte de alimentos ou produtos. Conheço a realidade das galinhas poedeiras, e isso não é algo que eu gostaria de incentivar, mesmo que minimamente, até porque não penso só na galinha que botou esse ovo, mas em todas. Inclusive aquelas que nesse momento estão confinadas em gaiolas. Talvez esse ovo não traga o pior dos sofrimentos, mas em algum nível traz algum tipo de exploração. Isso já vem implícito quando pensamos na galinha como fonte de alimento para seres humanos, na ideia de que elas podem e até devem nos servir. E a ideia de servir, para não falar em servidão, reflete, no melhor cenário, conveniência, caso alguém diga que as galinhas são “bem tratadas”. Não concordo com isso porque não reconheço nada de origem animal como algo que eu possa ou deva consumir. Um ovo foi botado por uma galinha, e não creio que ela o botou para que eu o comesse.  Afinal, ovos nada mais são do que ovulação de galinha.

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Written by David Arioch

August 26th, 2017 at 12:24 pm

O veganismo não existia antes da Vegan Society

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A Vegan Society foi a primeira organização a realmente defender os direitos animais

Muitas pessoas falam que o veganismo já existia no Oriente antes dele ter surgido na Inglaterra em 1944. Creio que seja um equívoco, simplesmente porque não havia nenhum movimento bem articulado como aquele que surgiu por proposição da Vegan Society, voltado para a questão dos direitos animais. O que existiu antes foram ações pontuais ou limitadamente específicas, e muitas delas inclusive realizadas de forma independente ou por pequenos grupos. Ou seja, sem objetivos claramente definidos e sem formatação de ativismo nos moldes atuais; ou mesmo um plano contínuo e abrangente de ações.

Tivemos figuras históricas que provavelmente hoje seriam consideradas protoveganas ou veganas, e deram sua valiosa contribuição ao longo dos séculos. No entanto, viviam a vida à sua maneira, sem grande articulação coletiva, e provavelmente por causa das limitações da época e da falta de informações, sem uma compreensão mais valorosa do direito à vida não humana. Antes, o mais próximo que tivemos do veganismo foi o vegetarianismo ético encabeçado por escritores como o britânico Percy Shelley e outros pensadores, que viam falhas na consciência vegetariana da época. Esses personagens foram influenciados pelos pensadores da Grécia Antiga, como Plutarco, Pitágoras, Empedócles, Teofrasto, Plotino e Porfírio, entre outros.

Ou seja, eles usaram como referência as ideias dos gregos, que traziam uma forte influência de uma forma inominada de vegetarianismo místico, a absorveram e a transformaram em um modelo de vegetarianismo mais pragmático, ou seja, ético. Sendo assim, ouso dizer que mais tarde o veganismo surgiu para cobrir as lacunas do vegetarianismo ético na década de 1940, como uma reação ao comodismo das sociedades vegetarianas que em sua maioria eram bem-estaristas, indo inclusive contra o que defendiam os vegetarianos do Período Romântico.

Outro fato a se considerar é que o vegetarianismo ético surgiu no Ocidente. O vegetarianismo oriental é o vegetarianismo místico e religioso, e por isso há disparidades substanciais quando falamos em direitos animais. A princípio, o vegetarianismo místico teve influência sobre o vegetarianismo ético. Porém, se voltava mais para a individualidade, não para a coletividade, além de colocar o ser humano como protagonista e principal beneficiado. Sendo assim, é um equívoco dizer que o veganismo existiu em outras partes do mundo antes do Ocidente, já que a defesa maior do veganismo são os direitos animais, e sem qualquer vinculação com misticismo ou religiosidade. Logo, não houve de fato veganismo antes da Vegan Society.

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Written by David Arioch

July 16th, 2017 at 1:34 am

Sócrates e o consumo de carne como símbolo da injustiça e das desigualdades

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A redução dos animais à comida seria um gatilho para minar as condições de construção de uma sociedade mais justa

Sócrates: “Esse hábito de comer animais não exigiria que abatêssemos animais que conhecemos como indivíduos” (Arte: Reprodução)

Um dos fundadores da filosofia ocidental, o filósofo ateniense Sócrates ficou conhecido principalmente pela sua contribuição no campo da ética e da epistemologia. Suas crenças e ideias tornaram-se mundialmente famosas por meio de seus diálogos e discursos registrados por seus discípulos Platão e Xenofonte. Embora não seja possível afirmar se Sócrates foi vegetariano ou protovegetariano, na obra “A República”, escrita por Platão no século 4 a.C., está clara a sua preocupação sobre as consequências do consumo de carne e da exploração animal, além das implicações desse hábito na saúde humana.

Na página 77 de “A República”, Sócrates comenta com Glauco que levando em conta a forma como as pessoas viviam nas cidades, logo seria considerada imprescindível a criação de gado de todos os tipos. “Mas, levando este tipo de vida, teremos necessidade de muito mais médicos do que antes”, diz Sócrates a Glauco, que concorda com a associação do consumo de carne com o surgimento de problemas de saúde.

Sócrates também critica o hábito dos pastores da época de treinarem os cães para auxiliá-los no trabalho com os rebanhos de carneiros, reconhecendo que esse costume poderia endurecer a natureza dos animais, excitando a intemperança dos cães e tornando-os seres brutos. “A fome ou qualquer hábito vicioso os levaria a fazer mal aos carneiros e a tornarem-se iguais aos lobos [que apenas agiam instintivamente] dos quais os deveriam proteger”, declarou o filósofo ateniense na página 147 de “A República”. A observação de Sócrates revela uma preocupação com o fato da humanidade subverter a natureza animal para benefício próprio.

Na segunda parte de “A República” Platão apresenta Sócrates como um sujeito preocupado com as implicações morais do abate de animais, embora ele demonstre que, primariamente, o que o incomodava era a possibilidade de que o consumo de animais pudesse corromper cada vez mais a humanidade, a distanciando de sua natureza justa e complacente. “Esse hábito de comer animais não exigiria que abatêssemos animais que conhecemos como indivíduos, e em cujos olhos poderíamos olhar e ver-nos refletidos, apenas algumas horas antes de nossa refeição?”, questiona, ao que Glauco responde prontamente: “Esse hábito exigiria isso de nós.”

A coisificação dos animais não humanos é apontada por Sócrates e Glauco como algo capaz de impedir a humanidade de alcançar a felicidade. “E, se seguirmos esse modo de vida, não teremos de visitar o médico com mais frequència?”, questiona o filósofo, que recebe a confirmação de Glauco: “Teríamos tal necessidade.” Sócrates prevê ainda que o hábito de comer animais e criá-los com a finalidade de vendê-los transformaria o ser humano em alguém não somente ambicioso, mas ganancioso a ponto de espoliar propriedades vizinhas para ampliar suas pastagens:

“Se nosso vizinho seguir um caminho semelhante, não teremos que ir à guerra contra o nosso próximo para garantir maiores pastagens? Porque as nossas não serão mais suficientes para o nosso sustento, e nosso vizinho terá a mesma necessidade e entrará em guerra conosco?” Glauco corrobora o receio do ateniense ao confirmar que sim, deixando subentendido que a humanidade se tornaria mais suscetível à decadência e às tentações de uma sociedade imersa em desigualdades. Para Sócrates, a redução dos animais à comida seria um gatilho para minar as condições de construção de uma sociedade mais justa – e um distanciamento cada vez mais crescente da forma mais genuína de felicidade.

Essas reflexões de Sócrates envolvendo a exploração animal e o consumo de carne vão ao encontro do estudo da virtude. Ele dizia que é mais importante a busca do desenvolvimento humano do que a busca pela riqueza material – um dos principais motivos da exploração de animais enquanto produtos. Sócrates acreditava tanto nisso que nem mesmo quando foi sentenciado à morte por questões políticas, segundo as obras “Apologia” e “Críton”, de Platão; e pessoais, de acordo com Xenofonte, optou por curvar-se ao júri ou fugir em vez de enfrentar a injusta condenação. Nascido em 470 a.C., Sócrates, que preferiu à morte ao exílio, faleceu em 399 a.C, depois de ser obrigado a ingerir cicuta após 30 dias preso.

Referências

Platão. A República. Nova Fronteira (2014).

Platão. A República – Parte II. Escala Educacional (2006).

The Republic of Plato. Translation by F. Sydenham and T. Taylor, revised by W.H.D. Rouse. With introduction by Ernest Barker. London – Methuen (1906).

Kofman, Sarah. Socrates: Fictions of a Philosopher (1998).

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Sobre a questão moral da exploração animal e as ostras

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Mesmo que ostras não sentissem dor, isso não significa que estão disponíveis à exploração (Foto: Reprodução)

Esses dias, testemunhei uma discussão sobre animais que hipoteticamente “não sentem dor”. Na minha opinião, a questão moral e ética da exploração animal não deve ter como parâmetro apenas o nível de dor que um animal é capaz de sentir.

Se há uma indesejada e desnecessária interferência humana, eu já vejo isso como errado. Não temos o direito de interferir na vida dos animais não humanos, a não ser que eles precisem de nós.

Essa tendência há equacionar tudo com base em quem sofre mais ou menos não deve ser a única referência quando falamos de direitos animais. Inclusive é por isso que muitos animais, principalmente marinhos, são subestimados.

Sobre moluscos, por exemplo, como ostras, já vi o filósofo australiano Peter Singer dizendo que tudo bem em comê-las, porque, segundo ele, elas não sentem dor. O que hoje em dia não é nem mesmo uma afirmação, mas sim uma opinião, já que não é possível confirmar isso.

Os pesquisadores Robyn Jean Crook e Edgar Walters, da Universidade Estadual de São Francisco e da Universidade do Texas, descobriram que ostras e mexilhões têm sistemas nervosos rudimentares e, por isso, parecem não usar opiáceos endógenos para inibir a dor, de acordo com o artigo “Nociceptive Behavior and Physiology of Molluscs: Animal Welfare Implications”.

A posição de Singer só reafirma a sua defesa utilitarista, o que nesse caso não representa o veganismo, já que o veganismo versa sobre a não exploração animal, e acho que é importante evitar excluir animais porque hipoteticamente eles não sentem dor ou parecem não reagir negativamente à intervenção humana. Animais não foram feitos para os nossos próprios fins. E acho que essa deveria ser a premissa de todos aqueles que são veganos ou vegetarianos por questões morais e éticas.

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Written by David Arioch

March 12th, 2017 at 7:45 pm

Schopenhauer: “Os animais não são artigos fabricados para o nosso uso”

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Eles acreditam e fazem com que os outros acreditem que a conduta humana para com os animais não tem nada a ver com a moral

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A contribuição de Schopenhauer à discussão dos direitos animais é inegável (Pintura: Reprodução)

Em 1818, o filósofo alemão Arthur Schopenhauer publicou “O Mundo como Vontade e Representação”, consideradas uma das mais importantes obras da filosofia do século 19, e que influenciou o compositor alemão Richard Wagner e o escritor russo Liev Tolstói a se interessarem um pouco mais pelo vegetarianismo e pelos direitos animais.

Embora não haja provas de que Arthur Schopenhauer tenha sido vegetariano, a sua contribuição à discussão dos direitos animais é inegável, ainda mais levando em conta que ele foi um importante filósofo do Ocidente a abordar esses direitos sob a perspectiva da moralidade. Schopenhauer não concordava com a concepção antropocêntrica de que os animais existem simplesmente para servirem aos seres humanos.

Em seu trabalho, esse debate começou a ganhar bastante visibilidade nos livros “Ontologia” e “Ética”, segunda e quarta obra que compõem “O Mundo Como Vontade e Representação”. À época, o filósofo alemão considerou a moralidade cristã extremamente limitada e obtusa por contemplar somente os seres humanos. Sendo assim, pode-se dizer que a moralidade conveniente ao homem não é moralidade, já que a moralidade genuína depende de você não observar somente a si mesmo e as conveniências que envolvem apenas aqueles que são de sua própria espécie.

Schopenhauer também criticou a coisificação dos seres não humanos, o que acabou destacando não apenas a face predominantemente antropocêntrica da moralidade cristã como também de parte da moralidade filosófica, já que a exclusão de outras espécies também encontrou representatividade entre filósofos de seu tempo, o que vem se estendendo até a atualidade, já que muitos filósofos evitam abordar o tema. Esse tipo de conduta era vista por Schopenhauer como um tipo frequente de moralidade de conveniência.

Animais não são meros meios para quaisquer fins. Ao pensarmos que sim, somos coniventes com a violência contra outras espécies e incentivamos a exploração animal em todas as esferas, sendo permissivos inclusive com formas inimagináveis de privação e crueldade. E esse tipo de conduta em detrimento de outros seres vivos leva a um questionamento a respeito da nossa própria moralidade que não contempla ninguém além de nós mesmos. “É uma vergonha essa moralidade digna de párias […], chandalas, mlechchas e que não reconhece a essência eterna que existe em cada coisa viva, e brilha com significado inescrutável em todos os olhos que veem o sol”, escreveu Arthur Schopenhauer na página 173 do livro “O Fundamento da Moral”, publicado em 1840.

Para o escritor Howard Williams, autor do livro “The Ethics of Diet”, de 1883, e considerada uma das obras mais importantes da história do vegetarianismo ocidental, o que distinguia o filósofo alemão da maioria dos pensadores era a sua perspectiva mais singular e abrangente. Ele fez da compaixão o principal, a fonte exclusiva da ação moral. E a sua reivindicação dos direitos das espécies não humanas, em contraste com o silêncio dos moralistas comuns, é o que sempre lhe dará o direito de assumir posição excepcionalmente elevada entre os reformadores dos sistemas éticos, apesar de seus exageros e desvantagens em outros aspectos, segundo Williams na página 287 de “The Ethics of Diet”.

Na página 375 do livro “Parerga and Paralipomena: Short Philosophical Essays – Volume 2”, que reúne uma coleção de ensaios publicados em 1851, Schopenhauer diz que o mundo não é uma peça de maquinaria e os animais não são artigos fabricados para o nosso uso. “Não se contentarão facilmente em contemplar um animal raro e desconhecido; hão de querer também instigá-lo, irritá-lo, fazer-lhe brincadeiras desagradáveis e isto unicamente para se darem o sentimento da ação ou da reação; mas esta necessidade de excitar a vontade se revela, de modo efetivamente especial, […] expressão verdadeira do lado miserável da humanidade”, consta na página 29 do quarto livro, intitulado “Ética”, de “O Mundo Como Vontade e Representação”.

De acordo com Schopenhauer, a compaixão pelos animais está intimamente ligada à bondade de caráter, assim afirmando que quem é cruel com as criaturas vivas não pode ser um bom homem. Além disso, no seu entendimento, tal sentimento flui manifestamente da mesma fonte de onde surgem as virtudes da justiça e da gentileza.

“Os saxões, quando conquistaram a Inglaterra, ainda não eram cristãos. No entanto, a língua inglesa mostra algo análogo no estranho fato de que todos os animais de gênero neutro são citados pelo pronome ‘it’, empregado a eles como se fossem coisas sem vida. Este idioma soa muito censurável, especialmente quando se fala de cachorros, macacos e outros primatas, e é inequivocamente um truque projetado para reduzir os animais ao nível de objetos inanimados”, criticou.

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Para o filósofo alemão, a moralidade conveniente ao homem não é moralidade (Imagem: Reprodução)

Por outro lado, o filósofo citou como contraponto a realidade dos antigos egípcios que dedicavam todos os seus dias à religião e estavam acostumados a colocar um crocodilo, entre outros animais, na mesma abóbada com a múmia humana. “Na Europa, é um crime, uma abominação, enterrar um cão fiel no mesmo local onde repousa seu mestre, embora seja lá que talvez ele, com uma fidelidade e um apego desconhecido pelos filhos dos homens, aguardasse seu próprio fim”, declarou.

O pensador alemão também relatou que um dia leu sobre um caçador inglês que depois de matar um macaco não conseguiu mais esquecer o olhar moribundo que a criatura lançava sobre ele. Movido por remorso, jamais atirou em outro animal. “As pessoas de delicada sensibilidade, ao perceberem que em um ataque de mau humor ou raiva, ou sob a influência do vinho, puniram seu cão, seu cavalo ou seu macaco imerecidamente, desnecessariamente ou excessivamente, são apreendidas pelo remorso. Sentem a mesma insatisfação em relação a si mesmos, como quando estão conscientes de terem feito algum mal a um de seus companheiros. A única diferença – puramente nominal – é que, neste último caso, esse remorso, essa insatisfação é chamada de voz da consciência que se ergue em repreensão”, analisou Schopenhauer que qualifica essa reação como a voz da moralidade que surge mais docemente a partir da compaixão.

O britânico William Harris, um dos caçadores mais famosos de seu tempo, contou em sua biografia publicada em Bombaim, na Índia, em 1838, que nos anos de 1836 e 1837 viajou para longe no coração da África com a mera intenção de perseguir animais, algo que ele definia como uma de suas paixões. Em uma passagem, ele descreveu como atirou em seu primeiro elefante, uma fêmea. Na manhã seguinte, indo procurar seu alvo, ele descobriu que todos os elefantes tinham fugido da localidade, exceto um jovem elefante que passou a noite toda ao lado de sua mãe morta.

Vendo os caçadores, ele esqueceu completamente do medo e, com os mais claros e vivos sinais de tristeza desconsolada, caminhou até eles. Então moveu seu minúsculo tronco em direção a eles, como se pedisse ajuda. Sobre o episódio, narrou Harris: “Eu estava cheio do mais verdadeiro remorso pelo que tinha feito e me senti como se eu tivesse cometido um assassinato.” Para o filósofo alemão, reações como essa eram mais comumente encontradas nos ingleses que, segundo ele, eram mais compassivos que os outros povos europeus.

No livreto do Congresso da União Vegetariana Internacional (IVU) de 1957, consta um excerto em que Arthur Schopenhauer assinala que o esquecimento imperdoável ao qual os animais não humanos são relegados pelos moralistas da Europa é bem conhecido. Eles fingem que os animais não têm direitos. Acreditam e fazem com que os outros acreditem que a conduta humana para com os animais não tem nada a ver com a moral, que o ser humano não tem dever algum em relação aos animais.

“Uma doutrina revoltante, grosseira e bárbara. Não conheço oração mais bela do que a que os hindus de outrora usaram para fechar seus espetáculos públicos. Era: ‘Que todos os que têm vida sejam libertos do sofrimento…’”, enfatizou. Observações e reações como essa acompanharam Schopenhauer por toda a sua vida, fazendo com que ele ficasse conhecido como o maior intérprete das ideias budistas e hinduístas na Europa.

Embora não tenha fundado nenhuma escola de filosofia, o filósofo alemão exerceu grande influência sobre o existencialismo e a psicologia, principalmente a partir do quarto livro de “O Mundo como Representação e Vontade”. Na página 409 da obra completa, ele citou que quando Buda, ainda como Bodisatwa, colocou pela última vez uma sela sobre um cavalo para fugir da casa de seu pai em direção ao deserto, ele falou ao animal: “De longa data, tu me auxilias na vida e na morte; mas doravante cessarás de levar-me e de trazer-me. Leve-me daqui ainda uma vez, ó Kantakana, e quando tiver conquistado a lei [ou seja, quando ele for o Buda] não me esquecerei de ti.”

Sob a ótica das crenças do Ocidente e do Oriente, outra referência que realça a distinção no tratamento dado aos animais não humanos é a alusão à transmigração das almas, que fala que todos os sofrimentos que infligimos às outras criaturas devem ser expiados. O filósofo cita na obra “Ética”, do livro “O Mundo como Vontade e Representação”, que sob a perspectiva da metempsicose, a má conduta obriga o ser humano a retornar ao plano terreno sob a forma da criatura sofredora e desprezada, o que pode ser qualquer tipo de ser vivo, humano ou não.

Em 1872, o teólogo e exegeta (intérprete religioso) alemão David Strauss publicou o livro “Der alte und der neue Glaube”, que significa “A Velha e a Nova Fé”. Na obra, ele registrou que a história da violência e da criminalidade mostra que muitos torturadores e assassinos foram antes torturadores de animais. Para Strauss, a forma como uma nação trata outras espécies é um medidor do seu nível real de civilidade. “As raças latinas como sabemos, saem mal neste exame, nós alemães, não muito bem. O budismo fez mais nesta direção do que o cristianismo, e Schopenhauer mais do que todos os filósofos antigos e modernos juntos. Essa serena simpatia pela natureza senciente, que permeia todos os escritos de Schopenhauer, é um dos aspectos mais agradáveis de sua […] filosofia”, escreveu.

Referências

Schopenhauer, Arthur. O Mundo Como Vontade e Representação (1818).

Schopenhauer, Arthur. O Fundamento da Moral (1840).

Schopenhauer, Arthur. Parerga and Paralipomena: Short Philosophical Essays – Volume 2. Clarendon Press (2001).

Williams, Howard. The Ethics of Diet (1883).

Strauss, David. Der alte und der neue Glaube (1872).

http://www.ivu.org/history/europe19b/schopenhauer.html

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