David Arioch – Jornalismo Cultural

Jornalismo Cultural

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Deputado envolvido em exportação de gado vivo tem seu nome associado a trabalho escravo e sonegação de impostos

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Beto Mansur tem seu nome associado à várias práticas ilegais (Imagens: Reprodução)

O deputado federal Paulo Roberto Gomes Mansur (PRB-SP), mais conhecido como Beto Mansur, é um empresário do setor de comunicação e ruralista que se tornou ainda mais conhecido no cenário nacional depois que realizou uma suposta fiscalização no Navio Nada, contratado pela Minerva Foods para transportar em situação suspeita 27 mil bois para serem abatidos na Turquia.

Mesmo contrariando laudos anteriores apresentados por médicos veterinários e pela vigilância agropecuária, ele afirmou que os animais e as acomodações “estavam em boas condições”. Porém, fotos e vídeos que circulam pela internet contestam essa afirmação. Inclusive há testemunhos de ativistas, que protestaram contra o embarque dos animais, que acusam Beto Mansur de ter feito uma “maquiagem” para garantir que o navio seguisse viagem.

As denúncias, inclusive de maus-tratos, levantam suspeitas sobre as condições do transporte de “cargas vivas” para fora do Brasil, já que outras queixas surgiram bem antes, em dezembro de 2017, quando a Minerva Foods enviou 27 mil bezerros para a Turquia. De acordo com publicação da Revista Globo Rural do último dia 6, mais de 100 mil animais devem seguir o mesmo destino em breve, informação confirmada pelo ministro da Agricultura Blairo Maggi, que também é um dos responsáveis pela intervenção que garantiu à empresa alimentícia Minerva Foods o direito de despachar mais 27 mil bovinos para a Turquia na última semana.

A autorização também abriu um precedente para a derrubada de outra liminar, que proibia o transporte de cargas vivas em território nacional. Sendo assim, a exceção foi elevada à padrão com a medida da presidente do Tribunal Regional da 3ª Região, desembargadora federal Cecília Marcondes, favorável à exportação de “cargas vivas”. Ela justificou que essa proibição é inconsistente porque viola o indispensável e fundamental princípio da separação dos poderes, alegando que a uma série de atos normativos estabelecidos pelo Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento que garantem controle da qualidade, da segurança e do bem-estar dos envolvidos..

No entanto, o parecer favorável à exportação de animais vivos na realidade considerou apenas o aspecto econômico da atividade, e desconsiderou as inúmeras situações em que esses animais são privados do mínimo de “bem-estar”, endossado pelos laudos de maus-tratos e não conformidade sanitária, indo contra a Instrução Normativa nº 13 de 2010, que versa sobre exportação de ruminantes para o abate em condições “favoráveis” que não envolvam sofrimento ou restrições sanitárias.

Porém, se isso não é o suficiente, talvez seja relevante aos leitores saberem se os envolvidos na intervenção que está garantindo o andamento das exportações de animais vivos são pessoas de ilibada conduta. O deputado federal Beto Mansur (PRB-SP), por exemplo, foi condenado pelo Tribunal Superior do Trabalho (TST) no dia 3 de abril de 2014 por dano moral coletivo devido à exploração de trabalho análogo ao escravo e infantil em sua fazenda em Bonópolis, Goiás, conhecida como Fazenda Triângulo.

As investigações do TST revelaram que havia pessoas vivendo em barracões com coberturas de plástico preto e palha, sem banheiro e sem água potável. E mais recentemente, no dia 23 de janeiro deste ano, a procuradora-geral da República, Raquel Dodge, denunciou Mansur ao Supremo Tribunal Federal (STF) por sonegação do imposto de renda. Segundo Raquel, o deputado federal sonegou pelo menos R$ 796 mil na declaração de 2003.

Questionada sobre as implicações de um laudo inverídico elaborado por iniciativa, intervenção ou participação de um deputado federal, a juíza Rosana Navega, do Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro (TJRJ), informa que o artigo 69 A da lei 9.605/98 tipifica essa prática como crime com pena de 3 a 6 anos de prisão; o que pode acarretar também condenação e inelegibilidade por oito anos em conformidade à lei complementar nº 135/2010, denominada “lei da ficha limpa”. “O artigo segundo da lei 9.605/98 enquadra no mesmo crime grave de laudos falsos todos aqueles que de qualquer forma concorrem para a prática dos crimes definidos por esta lei. Ou seja, quem encomendou o laudo também está enquadrado no crime, porque teve interesse no laudo falso, e concorreu para a prática do crime”, enfatiza a juíza.



 

Written by David Arioch

February 9th, 2018 at 5:32 pm

Valdir Colatto e Luiz Carlos Heinze querem “arrendar” terras indígenas

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Em 2016, o Estadão publicou a série de reportagens Terra Bruta, revelando que embora seja proibido criar gado em área indígena, fazendeiros já têm mais de 93 mil cabeças de gado na terra indígena dos javaé e carajás, na Ilha do Bananal (TO). Como se isso fosse pouco, atualmente, duas lideranças da Bancada Ruralista, Valdir Colatto (PMDB/SC) e Luiz Carlos Heinze (PP/RS) estão tentando viabilizar um projeto que permite o “arrendamento” de terras indígenas. Colatto também é o deputado federal responsável pelo projeto que tenta legalizar a caça de animais selvagens no Brasil.

Written by David Arioch

February 8th, 2018 at 7:36 pm

Minerva Foods: impacto ambiental, vazamento de amônia e demissão em massa

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Minerva Foods se envolveu em inúmeras tragédias e escândalos nos últimos anos (Imagens: Reprodução)

A empresa alimentícia Minerva Foods, responsável pelo envio de aproximadamente 54 mil bois à Turquia desde que o Porto de Santos voltou a realizar o transporte de animais para exportação em dezembro do ano passado, é apontada pela revista Globo Rural como a segunda maior exportadora de carne bovina do Brasil, e não é novidade para ninguém que com a queda da JBS/Friboi, a empresa pode se consolidar como a maior produtora de proteína animal do Brasil em 2018.

A Minerva Foods começou a chamar muita atenção no ano passado pelo grande volume de animais enviados para serem mortos e comercializados fora do Brasil, um negócio que há muito tempo é reprovado no mundo todo, e não apenas por defensores dos direitos animais, entidades de bem-estar animal e ambientalistas, mas também por profissionais de medicina veterinária e do setor de vigilância sanitária, que reconhecem que não há transporte de carga viva sem maus-tratos e impacto ambiental.

Normalmente os problemas incluem má acomodação, alimentação deficiente, incapacidade de movimentação e até mesmo casos de ações diretas de crueldade que culminam na morte do animal. Segundo a Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), em uma viagem com 27 mil bois para a Turquia, por exemplo, é preciso trabalhar com uma margem de perda de pelo menos 10% dos animais, o que significa que até 2,7 mil bovinos poderão morrer antes de chegaram ao seu destino. E para o “descarte” desses animais, há sempre um moedor ou triturador nos “navios boiadeiros”.

Também de acordo com a Embrapa, um bovino criado para extração de carne produz em média de 30 a 35 quilos de esterco por dia. Sendo assim, em uma viagem marítima com 27 mil bois, e duração de 15 dias, esses animais podem produzir até 945 mil quilos de fezes e urina, e não raramente os dejetos são lançados ao mar, provocando grande impacto ambiental.

A flexibilização das multas e das leis em situações que envolvem exploração animal em pequena ou grande escala também favorece essas consequências. Na semana passada, por exemplo, mesmo após a constatação de irregularidades, a Secretaria de Meio Ambiente de Santos multou a Minerva Foods em pouco mais de R$ 1,4 milhão por inadequação no transporte de “carga viva”. Em síntese, maus-tratos contra animais. Sim, “carga viva” é o termo formal. Mesmo que se trate de vidas, os bovinos, como bens móveis, são qualificados apenas como “carga”. Essa multa, assim como outra de R$ 2 milhões emitida sob a causa de poluição atmosférica, não significou nada para a empresa, e nem poderia ser diferente.

Só no segundo trimestre de 2017, a Minerva Foods alcançou uma receita bruta de R$ 2,76 bilhões, segundo informações da Revista Globo Rural de outubro de 2017. E desde a queda da JBS/Friboi após a Operação Carne Fraca, a Minerva Foods estreitou ainda mais o seu relacionamento com a Bancada Ruralista na Câmara dos Deputados em Brasília, o que claramente levanta suspeitas sobre jogo de interesses e favorecimentos.

Uma grande prova disso foi a intervenção do deputado federal Beto Mansur (PRB-SP), do senador Ronaldo Caiado (DEM-GO) e do ministro da agricultura Blairo Maggi (PP-MT) em favor da Minerva Foods, garantindo a liberação do Navio Nada com destino à Turquia, levando cerca de 27 mil bovinos. O resultado gerou surpresa e comoção porque até então tudo indicava que o Brasil em uma ação revolucionária, necessária e endossada legalmente já não toleraria mais o transporte de cargas vivas, que comprovadamente vai na contramão até mesmo da mais sutil compreensão do bem-estar animal.

No entanto, como o próprio ministro é um dos maiores representantes dos ruralistas no Brasil a sua atuação foi bastante previsível quando ele decidiu intervir em benefício do lucro e em detrimento dos milhares de animais no Navio Nada, mesmo depois de laudos comprovando maus-tratos e más condições de acomodação. E não bastando a liberação do navio, outra intervenção garantiu que a exportação de animais vivos em todo o território nacional voltasse a ser permitida. A liminar que proibia tal prática foi derrubada pelo desembargador do TRF-3 Fábio Prieto, sob a alegação de que isso “enseja “grave risco de lesão à agropecuária nacional”, o que desconsidera completamente a realidade dos animais e, mais uma vez, considera somente os lucros dos envolvidos, ou seja, interesses particulares em detrimento da vida e do meio ambiente.

O que também não pode ser desconsiderado nessa questão de exportação de bovinos, é que a Minerva Foods, que deve liderar as exportações de animais vivos no Brasil em 2018, esteve envolvida nos últimos anos em diversos escândalos, como vocês podem conferir no meu artigo “Minerva Foods: maus-tratos contra animais, pagamento de propina, exportação de carne contaminada e trabalho escravo”. E como se não bastasse, a empresa também é a responsável por uma tragédia registrada em 6 de outubro de 2015, quando o navio Haidar, com cinco mil bois vivos, tombou em um cais em Barcarena, no Nordeste do Pará, resultando na morte da maior parte dos animais. Segundo o prefeito de Barcarena, Antônio Carlos Vilaça, o navio da Minerva Foods deixou óleo em todas as praias do município, gerando grande impacto ambiental, e inviabilizando até mesmo o turismo.

Outra tragédia foi registrada em 31 de agosto de 2016, quando um vazamento de amônia no frigorífico Minerva Foods em Barretos, interior paulista, resultou na morte de uma pessoa e deixou 30 feridas. Porém, o primeiro episódio em que a empresa foi responsabilizada por um vazamento de amônia que feriu funcionários foi em 2012. Em 2013, a Justiça do Trabalho de Araraquara condenou a Minerva Foods a pagar R$ 200 mil por danos morais coletivos devido a irregularidades.

Segundo investigação do jornalista Marcelo Toledo, em publicação da Folha de S. Paulo de 31 de agosto de 2016: “A empresa, que também respondia a uma outra ação civil pública em Araraquara por não realizar o controle de vazamentos de amônia, firmou acordo judicial com o MPT em 2014, no valor de R$ 750 mil, para extinguir as ações.”

Argumento comum de quem defende a Minerva Foods no caso da exportação de bovinos vivos é o de que pessoas envolvidas na cadeia produtiva podem ser prejudicadas economicamente pelo impedimento na operacionalização de suas atividades. No entanto, essas pessoas desconsideram fatos que merecem ser considerados. Um exemplo é o de que a Minerva Foods também é conhecida por suas demissões em massa. Um dos casos mais emblemáticos foi registrado em Mirassol D’Oeste, No Mato Grosso, em 2015, quando o Ministério Público do Trabalho entrou com uma ação contra a empresa pela demissão de mil funcionários, ou seja, de todos os funcionários de uma de suas unidades.





 

O vegano e o pecuarista

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É evidente que bovinos têm emoções e sentimentos

Na casa de um amigo já idoso, chegou um senhor com um chapéu de couro sobre a cabeça. Nos cumprimentamos e ele começou a reclamar com o anfitrião.

— Como vai o senhor? — perguntou o amigo.
— O senhor fique sabendo que gado hoje em dia não dá dinheiro como antigamente — respondeu coçando a cabeça.
— Pra mim o manejo do gado tá saindo muito caro, sempre sobra pouco depois da venda do rebanho. Isso não é certo. A indústria tá levando a melhor.
— É, não é fácil.
— Esse menino aqui não come carne, não come nada de origem animal — comentou o amigo apontando para mim.
— Por que não, rapaz?
— Não vejo necessidade, é desnecessário.
— Como assim desnecessário?
— Olhando pra mim, o senhor acha que eu pareço alguém que precisa de carne ou algo de origem animal?
— Não. Mas o que tem de errado em comer carne?
— O que tem de errado em não comer carne?

Silêncio.

— Bom, vou ser honesto com o senhor. Não acho correto matar animais para reduzi-los à comida. Será que a morte vale a pena? Qual seria a expectativa de vida desses animais se eles não fossem enviados para o matadouro?
— Ih, rapaz. Nem sei, se não desse dinheiro, eu nem criaria. Quando a gente faz isso a vida toda não pensa nessas coisas não — comentou sorrindo.
— Mas o senhor já considerou isso?
— Talvez, quando era criança, mas a vida endurece o homem.
— O senhor tem razão, mas acredito que a vida só endurece o homem quando ele fecha os olhos para coisas que em algum nível já o incomodaram.
— Sim, mas a vida é desse jeito mesmo, realidade pura e cada um cuidando do seu.
— O senhor tem filhos, netos, não?
— Sim…
— Eles brincam com os animais que o senhor cria?
— Meus netos, às vezes, mas só com bicho manso, né?
— E o que isso significa?
— Não sei, me diga você.
— Um animal que brinca com um ser humano normalmente reage a um estímulo, e esse estímulo é baseado em como ele se sente diante do outro. Quero dizer, enquanto reação natural esse comportamento revela emoção, sentimento. O senhor concorda?
— Pode ser.

— Na realidade, até quando o gado é bravo, ele revela emoção e sentimento, já que isso significa que ele resiste a ser subjugado.

— Não tem problema, dá-se um jeito.
— Como seus netos brincam com o gado manso, por exemplo?
— Passam a mão na cabeça, afagam o pelo.
— Como o gado reage?
— Fecham os olhos. Temos um novilho que deita no chão e esfrega as costas no pasto, parece cachorro — respondeu rindo.
— E ele vai ser enviado para o matadouro?
— Sim…claro, criamos pra isso.
— Me desculpe a pergunta, mas como o senhor se sentiria se um amigo o abraçasse, o tratasse com carinho e no dia seguinte preparasse uma emboscada para matá-lo?
— Claro que ficaria bravo e decepcionado. O que isso tem a ver com a conversa?
— Não é esse o tratamento dado ao gado?
— Gado não é gente, meu rapaz.
— Sim, o senhor tem razão. Mas a questão não é coloca-los no nível dos seres humanos. Se eles brincam, demonstram emoções, será que não são capazes de sentirem-se traídos?
— Não tenho a mínima ideia.
— Não é uma forma de dissimulação ou traição evitar que o gado reconheça o seu destino? Quero dizer, não é padrão um boi testemunhar outro sendo morto. Provavelmente, porque ele vai querer fugir. Afinal, não é isso que ele quer para a vida dele, não é mesmo?
— Não sei. A gente só recebe de volta o que foi investido no animal.
— O senhor, nunca se sentiu como se estivesse traindo esses animais? Imagino que também já acariciou bois, vacas…

Silêncio.

— Essa conversa tá estranha, rapaz.
— Tudo bem.
— O senhor comentou há pouco que a criação de gado não está dando dinheiro. Há culturas hoje em dia com boa demanda e pouca oferta, como chia orgânica e feijão orgânico. Talvez seja algo que o senhor possa considerar. Tenho um amigo que é engenheiro agrônomo e já transformou áreas de pastagens, inclusive degradadas, em lavouras de chia e feijão aqui no Norte do Paraná.
— Se dá dinheiro, me interessa. Peça pra ele falar comigo.
— Ok.





Written by David Arioch

September 29th, 2017 at 2:02 pm

Você que é o vegano?

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“Olhe, menino, a gente cuida bem deles a vida toda”

Uma amiga que eu não via pessoalmente há mais de três anos me convidou para ir até a sua casa na semana passada. Enquanto conversávamos na varanda, seu pai chegou com dois peões. Ele é pecuarista e estavam descarregando pedaços de um boi morto. Havia tanta carne que eu seria incapaz de dizer a quantidade. Encheram dois freezers. De repente, o homem tirou o chapéu da cabeça e sorriu.

— Você que é o vegano?
— Sim.
— No meu tempo não existia essas coisas.
— Tem certeza?
— Olhe que tenho.
— Acho que não, senhor. Sempre tivemos pessoas que não se alimentam de animais. A história da humanidade está repleta deles. A diferença é que essa faceta da vida de muitos foi ignorada. O veganismo, por exemplo, existe formalmente desde 1944. É um bom tempo, não?
— Hummm…é…mas não consigo entender o que tem de errado em comer carne. É parte de quem somos, da nossa história. Minha família cria gado há cinco gerações, e somos bons na lida com eles. Não deixamos faltar nada.
— Não duvido. Mas o senhor analisa a situação do ponto de vista humano ou não humano?
— Como?
— O senhor disse que é bom pra eles. Mas o que é bom pro gado? Será que o bom pro gado é o bom pra eles ou o bom pra nós?
— Aí você tá de sacanagem comigo.
— Não, de modo algum. Falo honestamente.
— Olhe, menino, a gente cuida bem deles a vida toda.
— Mas no final eles morrem?
— Claro, as pessoas precisam de carne.
— Precisam?
— O que você quer dizer com isso?
— Eu pareço doente para o senhor?
— Não, tá melhor que meus peões — comentou sorrindo.
— Então, e estou aqui vivo sem me alimentar de animais.
— Mas aí é uma opção sua. Tem gente que opta por comer os animais e o que eles oferecem.
— Sim, a princípio é uma opção, mas que deixa de ser vista dessa forma quando há o entendimento de que os animais não escolheram morrer. Veja bem, como comer animais pode ser uma opção se ninguém levou em conta os interesses deles?
— E boi lá tem interesse, rapaz? O boi é a gente que cria e molda do nosso jeito.
— Mas o senhor já viu um animal desejando a morte? Algum deles deita a cabeça calmamente para receber uma pancada ou um tiro de pistola pneumática? Eu nunca vi.
— Ai ai ai. Que conversa é essa. Acho que a gente pensa diferente.
— Pois é.
— Minha filha agora anda com essas conversas também. Você que andou fazendo a cabeça dela?
— Pare, pai. Que pergunta!
— Bom, eu não creio que eu faça a cabeça de ninguém, eu ofereço possibilidades de reflexão. Mostro outra face da realidade da exploração de animais, e sempre tenho o cuidado de fazer isso sem agredir ninguém.
— E você me acha ruim por ser pecuarista?
—Não, mas acho que seria interessante o senhor refletir um pouco sobre a pecuária de um ponto de vista que não envolva lucro, costume, essas coisas. Pense fora da sua zona de conforto. Te convido apenas a se colocar no lugar, por exemplo, desse boi que hoje se resume a porções dentro do freezer. Ele era dócil? Gostava de sentir o sol? O vento? Se relacionava com os outros animais? Uma vida, por mais que ela seja subestimada, nunca é somente uma vida, há todo um conjunto de fatores que a envolve. Quando um animal morre, eu me pergunto se ele tinha desejos, se alguém vai sentir sua falta. Imagino que o senhor já tenha acariciado alguns desses animais.

Um dos peões começou a rir e o homem chamou-lhe a atenção.

— Acaricio todos eles. Trato que nem gente da família.
— Hum, mas se o senhor trata como gente da família, por que mata eles?
— Eles vivem pra isso, menino. É a vida. Vamos deixar esse papo pra outro dia que tenho que dar tarefa pra esses peões. Mas fique à vontade, só não coloque minhoca na cabeça da minha menina — disse sorrindo.
— O senhor sabe que eles têm potencial para viver muito mais. É a objetificação que mata, o fato de resumir um ser vivo a pedaços de carne.
— Sei não, filho. Talvez. Outra hora a gente conversa. Mas te respeito por defender essa sua filosofia de vida e não abaixar a cabeça durante a conversa.
— Certo. Obrigado.

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Written by David Arioch

September 12th, 2017 at 1:41 am

Tertuliano e a boiada

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Pintura: Roz

Em 1951, meu avô conheceu um rapaz em uma fazenda na Água do Cedro. Seu nome era Tertuliano e ele tinha chegado há pouco tempo do interior de São Paulo para atuar como motorista de caminhão. Seu trabalho era buscar mantimentos para três casas de secos e molhados situadas no centro de Paranavaí. Tertuliano era “meio aéreo”, como diziam, e sempre que tinha algum tempo livre, era visto sentado na cabine do caminhão, apoiado sobre o painel escrevendo em um caderninho.

Um dia, fizeram uma proposta para que ele transportasse uma boiada até um matadouro na saída para Nova Aliança do Ivaí. A missão de Tertuliano era buscar os animais na Fazenda Alto Remanso em Alto Paraná. Precisando de dinheiro, não pensou duas vezes. Quando chegou ao local de manhã, os animais já estavam prontos para partir. Um homem gritou: “Tá no jeito!”

Tertuliano desceu a rampa parda e resistente de madeira e assistiu a boiada a subindo lentamente. Hesitação. Resistência. Um dos animais empacou no limiar da rampa. Quatro peões reuniram forças para que o boi, que tinha apelido de Teimoso, aceitasse o seu malquisto destino. Antes de desaparecer dentro da carroceria, o animal observou Tertuliano. Ele desviava o olhar, mas o boi persistia com seus olhos escuros.

— Você leva esses que depois a gente acerta — disse o administrador da fazenda.
— Sim, senhor.
— Quer que alguém te acompanhe?
— Não. Já tá tudo certo do lado de lá.
— Então tá bom. Pode ir.

Tertuliano subiu na cabine. Antes deu outra olhadela nos bichos. Silêncio desconfortável. O incomodava saber que os animais não reagiam mais. Sem barulho. Não odiavam os seres humanos, nem Deus, se houvesse um para eles.

— Que diacho de vida é essa? Sabe que vai morrer e vai aceitando assim?

Durante o percurso, parou o caminhão na estrada. Circulou pela carroceria e ouviu a respiração ruidosa de um deles.

— Será que tá com medo? — questionou.

Quis subir na carroceria para ver melhor a boiada. Feito. Lá em cima, nenhum deles movia os cascos, mas somente os olhos em sua direção.

— Por que num chora, num grita, num berra, num odeia? — questionou assistindo a boiada.
— Será que sabem mesmo pra onde vão? Será?
— Talvez sim, talvez não.
— Tô é ficando louco, falando com boi. Melhor seguir viagem.

Demora. Estrada estreita de terra. Animais silvestres atravessando carreadores e se escondendo na mata. Na saída para Nova Aliança do Ivaí, Tertuliano parou o caminhão e observou a pouco mais de 300 metros um barracão onde funcionava o matadouro. Não gostou do que viu. Hora da despedida. Ou não.

Desistiu da entrega. Seguiu viagem. Parou em um sítio em Graciosa, onde comprou ração e pediu água. Dirigiu até o Porto São José. Chegou depois de quatro dias. Em outro sítio, a boiada desceu a rampa sem medo. Deram alguns passos pasto adentro e deitaram sobre a braquiária. Verde, verde, verde. Sol morno. Sem medo.

— Olhe aí, pai! Parece criança.
— E não são? — indagou o velho acendendo um palheiro.

Não perguntou a origem da boiada. Talvez não quisesse saber, ou não tivesse relevância.

— O senhor pode cuidar deles pra mim?
— Deixe, onde come cinco, come até vinte, acho — respondeu sorrindo.
— Tá certo.

Teimoso, que não era mais teimoso, mugiu brevemente pela primeira vez quando o rapaz virou as costas. Avisou ao pai que era preciso resolver a situação.

— Dá-se um jeito — garantiu o velho.

Na semana seguinte, Tertuliano decidiu retornar a Alto Paraná para resolver a situação na Fazenda Alto Remanso. Perto de Guairaçá, encontrou galhos na estrada e desceu para movê-los. Emboscada. Sete tiros de carabina. Três homens. No banco do caminhão havia um pequeno saco de estopa, dinheiro que seria entregue como forma de compensação.

Agonizando e deixado para morrer, resfolegou. Um novilho atravessou a cerca e se aproximou. Lambeu seus olhos. O rapaz sorriu e sucumbiu. Sua história real não seria contada. Ganhou fama de ladrão de gado quando o que menos queria era roubar vidas. Até os anos 1980, ainda havia uma cruz onde Tertuliano morreu. Trazia a frase: “Se vive para não ver, não há o que querer.”

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Uma boa forma de ajudar a impedir o avanço do desmatamento na Amazônia é deixando de consumir carne e laticínios

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Saiba que 38% da carne consumida no Brasil é proveniente de áreas de desmatamento da Amazônia.

Uma boa forma de ajudar a impedir o avanço do desmatamento na Amazônia é deixando de consumir carne e laticínios. Afinal, a pecuária ocupa 2/3 de uma área de 750 mil quilômetros quadrados de desmatamento.

Esse desflorestamento é uma consequência natural da demanda por carne e laticínios, o que exige inclusive quantidade absurdas de produção de alimentos, principalmente soja, para nutrir esses animais. Parece pouco? Estou falando de uma área equivalente ao tamanho da Espanha. Saiba que 38% da carne consumida no Brasil é proveniente de áreas de desmatamento da Amazônia.

Então em vez de fazer apelos na internet em defesa da Amazônia, que tal começar reduzindo o consumo de carne e laticínios até, quem sabe, abandonar completamente esses hábitos que não são essenciais à manutenção da vida? Não seria um belo gesto em defesa da Amazônia?

Quando falamos de desmatamento, ficar no discurso é totalmente improdutivo se nossas ações provam que na realidade estamos preocupados apenas com nós mesmos, com o nosso paladar. Seria o mesmo que dizer algo como: “As próximas gerações e os animais nativos que se virem. Vou simplesmente aproveitar o máximo que posso, do jeito que eu quiser. É isso aí!”

Temos que assumir nossas responsabilidades. Ninguém desmata uma área por nada. Se isso acontece é porque há muita gente comprando o que é produzido nessas áreas de desflorestamento. Ou seja, sejamos conscientes. Devemos parar com essa mania de atribuição de responsabilidades que parecem não ter nada a ver conosco, quando somos responsáveis diretos por muito do que acontece com o meio ambiente e com os animais.

Para mais informações, assista:

 

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Written by David Arioch

August 27th, 2017 at 6:27 pm

“Você fala com uma vaca, assim como se falasse com um porco, um gato ou um cachorro. Não vejo diferença”

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Jan Gerdes: “Antes, eu negava que eu gostava deles”

“Antes, eu negava que eu gostava deles. Não havia outra maneira. Eu queria ganhar a vida. E agora eles são como meus camaradas. Você está feliz, você fala, você fala com eles. Você fala com uma vaca, assim como se falasse com um porco, um gato ou um cachorro. Não vejo diferença. Todos eles têm suas qualidades e ficam felizes quando falo com eles.”

Jan Gerdes, ex-criador de gado de corte e leiteiro que se tornou vegano e defensor dos direitos animais na Alemanha. Para conhecer um pouco mais da história de Gerdes, assista ao documentário “Live and Let Live”, lançado por Marc Pierschel em 2014 e disponível na Netflix.

 

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O confinamento de animais e o surgimento de doenças

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São doenças que só existem porque há um mercado consumidor de produtos de origem animal

Botulismo, enterotoxemia, dermatomicose, laminite, intoxicação por ureia, timpanismo, cisticercose, dermatite, pododermatite, clostridiose, acidose (aumento do ácido lático no rûmen), pneumonia, poliencefalomalácia, peste suína, doença de Aujesky, rinite atrófica, brucelose, doença de Glässer, doença do edema, enteropatia proliferativa, doença de Newcastle, salmonela, laringotraqueíte infecciosa, coriza infecciosa, bronquite infecciosa e gripe aviária, entre outras doenças respiratórias e metabólicas/digestivas.

Você sabe o que essas doenças têm em comum? Surgiram e aumentaram na modernidade, quando começamos a confinar animais para atender a alta demanda do consumo de carne, ovos e laticínios. Ou seja, são doenças que só existem porque há um mercado consumidor de produtos de origem animal que obriga os animais a viverem em situação de vulnerabilidade e alta exposição ao surgimento de doenças.

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Super bois, animais que chegam a ultrapassar uma tonelada

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Super bois, animais transformados em monstros

Super bois – animais que estão sendo criados para alimentar a alta demanda do consumo de carne. Comem pouco, mas ganham peso rapidamente. Bois que chegam a ultrapassar uma tonelada. Não imagino como deve ser a vida de um animal desse, totalmente distante da sua natureza. Estrutura e densidade óssea, assim como estrutura e densidade muscular, visivelmente desproporcionais. Quem já viu um boi extremamente pesado sabe como pode ser tortuoso para ele o ato de se locomover. E por outro lado, há que se considerar também que as pessoas já estão consumindo esse tipo de carne, e devem consumir mais ainda nos próximos anos. Muitos dizem e dirão que isso é normal.

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