David Arioch – Jornalismo Cultural

Jornalismo Cultural

Archive for the ‘gato’ tag

Um aperitivo polêmico

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Arte: Dana Ellyn

Na minha infância, quando estava com a minha família em Porto Rico, um dia serviram algo de graça para as pessoas provarem em um restaurante.

De longe, notei que era um tipo de carne e fiquei assistindo a movimentação perto de um bambuzal. Ao final, depois que as pessoas terminaram de comer, mostrando-se satisfeitas, o homem que ofereceu o “aperitivo” disse que tinham acabado de comer carne de gato. As pessoas ficaram revoltadas e começaram a cuspir e a amaldiçoar o homem.

Então ele olhou para elas e disse:

“Eu poderia ter dito que era carne de lebre. Aposto que ninguém acharia ruim. Mas como é de gato, vocês reclamam, né? Come carne todo dia, tá reclamando de que? Não adianta fazer careta”, criticou o homem gesticulando em frente a uma pequena churrasqueira.





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November 27th, 2017 at 11:02 pm

“Pare de fazer essa vozinha tosca”

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O “bem-humorado” Porthos

De manhã, enquanto eu observava os gatos brincando no quintal, escutei uma voz esquisita se projetando a centímetros do chão.

— Ô David, pare de fazer essa vozinha tosca, nhim nhim nhim. Coisa tonta, mano! Você acha que tá falando com quem? Por que vocês fazem isso? Sou adulto! Nem filhote eu sou. Olhe o meu tamanho, louco! Só não faço filho porque você mandou arrancar as minhas bolinhas.
— Quê?
— É isso aí! Você tem problema? Não gosto dessa vozinha. Vá falar assim com as crianças, mano. Aqui não! Vamos conversar de igual pra igual.
— Como?
— É, tem problema sim – disse Porthos, um dos gatos daqui de casa me observando com um olhar enviesado e expressão carrancuda enquanto lambia as próprias patas.
— Outra coisa, você tá de bobeira, né? Porque você tirou o lixador de unhas do nosso quartinho? Você acha que sou o Zé do Caixão? Seu egoísta!
— Que isso! Sempre tratei vocês bem.
— Será? Será mesmo? Tem certeza? Absoluta?
— Então reclame, ora.
— Deixa quieto. Pode ir pra lá. Não quero mais conversar. Quando eu precisar, eu chamo.

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Written by David Arioch

August 6th, 2017 at 9:26 pm

Um gato no telhado

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Arte: Desiree Bernhard

Existe um gato que mora no telhado. Ele nunca deixa ninguém tocá-lo. Observa a cidade dia e noite, passeando sempre pelo alto, jamais pelo baixo. Seus olhos são incomuns, como esferas de caramelo. Quando o observo tarde da noite, nem preciso ligar a luz porque o que o brilho dos seus olhos reluz perfaz um caminho que ilumina e satisfaz o que a curiosidade conduz.

Às vezes, ele muda de cor. Já o vi caramelo, preto, branco, castanho, verde, azul, púrpura, mas sempre o reconheço pelos seus olhos. Tentaram capturá-lo em vão, sempre em vão, porque ele não quer ninguém, não depende de ninguém. Dizem que tem um traço genético raro que remete aos seus ancestrais selvagens que viviam nas florestas que cercam o Rio Paraná.

Ele não aparece para todo mundo, mas todo mundo quer vê-lo. Os mais supersticiosos falam que quem toca o “gato de caramelo” é abençoado com muita alegria e fortuna. Já a fortuna do “gato de caramelo” é não ser tocado por ninguém. Jamais o viram comendo. Falam que ele se alimenta da luz do luar. Não duvido, porque algumas vezes o vi alheio a tudo, simplesmente mirando a lua que lançava sobre ele uma luz anilada que o fazia ronronar por minutos.

É um zíngaro dos telhados. Sim, eu o chamo de Zíngaro, porque acho que combina mais do que “gato de caramelo”. Ele nunca responde aos meus chamados, mas me observa com um olhar de quem não nega e não rejeita o fato de que aquele é apenas mais um dos nomes que recebeu ao longo de sua vida.

Sua idade? Não tenho a mínima ideia, mas sua postura revela a maturidade de um ancião. Talvez seja o gato mais velho do mundo, vivendo em um corpo jovem, ou talvez não, seja apenas um animal que rejeitou a vida doméstica. Será que ele é feliz? A verdade é que isso não importa, porque a felicidade é um parâmetro humano, não felino. Gatos vivem pelos seus próprios termos, e talvez nem vejam sentido na felicidade.

Quem sabe, Zíngaro desapareça nos próximos dias, e retorne no ano que vem. Ele sempre faz isso quando os humanos insistem na indesejada aproximação. O gato não teme ser notado, observado, mas nem por isso deseja ser mais uma vez domesticado. Como será que ele vê os outros animais cativos? Acho que ele não se importa com isso. Talvez entenda que aquela é a vida dos outros, não a dele.

Parece tão tranquilo na cumeeira, com as patas cruzadas, observando o silêncio na baixada. “Boa noite, Zíngaro!”, repito três vezes. Ele não responde, mas lança um último e longo olhar antes de saltar em direção ao telhado vizinho. Zíngaro corre, e vejo a ponta do seu rabo desaparecer. E com ele, toda a liberdade que a noite ajuda a enternecer.

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June 24th, 2017 at 1:17 am

O gato que caiu no quintal

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De repente, um gato saltou o muro e caiu na minha frente (Foto: Reprodução)

De vez em quando, deito no quintal, sentindo a brisa no rosto, na barba; e reflito um pouco. Hoje, enquanto me distraía com algumas ideias, ouvi um barulho estranho entre os arbustos do quintal vizinho. De repente, um gato saltou o muro e caiu na minha frente, quase entre as minhas pernas. Sem que eu pudesse entender o que estava acontecendo, o bichano veio para cima de mim.

Me afastei, e ele continuou mostrando as garras, um olhar cabuloso e nada amistoso. Mesmo parecendo tão pequeno diante de mim, o gato insistiu em me cercar.

— Que mal pode acontecer? É só um gato pequeno – inferi.

Mas aquele gato pequeno saltou em minha direção e, se eu não o tivesse segurado no ar, talvez tivesse até mesmo furado um dos meus olhos. Enquanto se debatia, ele tentava atingir ou puxar a minha barba de alguma forma. Tudo bem. O mantive à distância segura do meu rosto e caminhei até a casa vizinha.

— Este gato é da senhorita? Ele pulou no quintal de casa – expliquei, o entregando nas mãos da vizinha.

— É sim. Me desculpe pelo transtorno, ela está assim porque doamos um dos gatinhos que nasceu há algumas semanas.

— Ah, entendi. Não tem problema — comentei sem graça.

A moça não conseguiu velar a vontade de rir. Constrangido, me despedi, ela agradeceu, e caminhei de volta para casa. A primeira coisa que fiz foi entrar no banheiro. Me observei no espelho e tentei entender como a minha barba parece um filhote de gata.

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May 14th, 2017 at 10:32 pm

O gato branco com o rato na boca

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Foto: NatalieShuttleworth/Getty Images

Vejo o gato branco e bem alimentado pela vizinha com algo acinzentado na boca. Paro o carro e reconheço que é um ratinho ainda vivo. O gato retribui o meu olhar com altivez. Encosto o carro, desço e vou atrás do gato.

Ele sai correndo e sigo no encalço. Depois de correr três quarteirões, o gato invade um terreno baldio. Pulo o muro e continuo a perseguição. Ele continua me olhando com ar de vitória, uma expressão capciosa de deboche; como se eu jamais fosse capaz de encurralá-lo.

Então o gato se embrenha no meio da sarça e, sem contar com o imprevisível, fica preso em uma planta rasteira. Me aproximo, ele não vela o desgosto. Massageio seu cangote e, apesar da resistência inicial, acaba soltando o ratinho ainda vivo. Por dois ou três segundos, parece que nem o camundongo acredita no que aconteceu. Quando recobra os sentidos, desaparece através de um buraco no muro.

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Written by David Arioch

May 10th, 2017 at 2:19 pm

O gato

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Voltando da academia, um gato saltou no capô do meu carro. Quando uma moça se aproximou para pegá-lo, ele pulou em meu colo e começou a miar e a esfregar as unhas na minha barba, como se procurasse alguma coisa.

Depois de tanta insistência, e já me sentindo sem jeito diante da situação, da minha barba caiu um pedaço de pão. O gato comeu, miou, saltou e bebeu a água que a moça serviu em um potinho na calçada.

Satisfeito, deu uma última olhadela para mim e para a moça antes de correr para a escuridão, onde vi seus olhos denunciarem intenção. Estava feito! Um pneu furado e riscos na lataria.

O gato cobrou de quem o destratou. Deixou sua assinatura em uma caminhonete estacionada sob a luz bruxuleante de um poste, onde seus riscos cintilavam como faíscas de azar e sorte.





Written by David Arioch

April 19th, 2017 at 1:05 am

O gato da Vila Paraná

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Foto: Reprodução

Querubim ouviu tiro de espingarda seguido de miado. Lá fora, na rua de terra arenosa, Ranulpho nem se mexia, estatelado sobre uma porção de folhas miúdas de sibipiruna. A boca continuava entreaberta, denunciando que a dor da morte não poupava nem os mais inocentes.

Com receio de parecer sentimental demais, o menino engoliu o choro. Fez tanto esforço que as quentes lágrimas que ameaçavam escorrer dos cantos dos olhos desapareceram. Nem conquistaram o princípio de liberdade. Encolerizado, Querubim observou Matias sobre o pé de manga, sorrindo e mirando a espingarda em sua direção. “Você quer também? Dou em você, trouxa!”, avisou o moleque. Querubim não disse nada. Só coçou a cabeça, sem se importar com a nuvem poeirenta que se formava ao redor de sua cabeça, como névoa alaranjada.

De costas para o assassino, o menino agachou e fez carícias na barriga do gato que já não sentia suas mãos sobre o pelo claro. Onde havia um par de olhos azuis, restaram pequenas massas disformes. Duas lágrimas caíram pejosas, umedecendo a boca seca do felino. Era tarde demais.

As horas passavam, e a natureza sepultava Ranulpho, cobrindo seu corpo com o solo arenoso, pouco a pouco transportado do bosque pelo vento sul. “Ô Querubim! Leva esse bicho daqui. Já vai começar a feder”, diziam. Ele só acenava com a cabeça em concordância, sem sequer mover as pernas alinhadas sobre o meio-fio.

Quando a terra arrastada pela aragem invadia a boca do gato, o menino se aproximava e a limpava usando uma toalhinha umedecida com água. No final da tarde, tentou enterrar Ranulpho no canteiro de plantas de sua mãe. Foi repreendido enquanto cavava a terra com a colher de pedreiro de seu avô. “Tá louco, menino! Aqui não é lugar de enterrar bicho!”, reclamou o avô.

O velho pegou o gato morto pelo couro do dorso e o lançou dentro de uma sacola grossa e escura. Parecia um saco para cadáver em PVC. A pendurou no guidão da bicicleta de aros tortos e pedalou até o lixão do bairro mais próximo. Retornou sem dizer palavra. Entrou na cozinha, tomou um gole de café amargo e deitou na rede.

Querubim assistia o velho, querendo saber o que ele fez com Ranulpho. Sem coragem de perguntar, lembrou de uma lei imposta na Vila Paraná na década de 1970, quando três cães de grande porte mataram dois bebês. “Ninguém mais pode entrar aqui com animais. E se alguém matar, não pode chorar nem enterrar, senão vai se ver comigo”, declarou Mandino Conselheiro, a quem a população recorria sempre que surgia algum problema no bairro.

Sob um pé de mamão, Querubim observou o avô até a hora em que o velho dormiu na rede. Chorou e gritou com a mão na boca. Também açoitou as próprias pernas e costas com os galhos do mamoeiro. Ninguém ouvia. Os vergões se multiplicavam. Ele não se importava. Deitou na terra e sentiu gosto acre na boca, misto de terra e sangue.

Amanheceu no seu colchão velho, enrolado num lençol branco encardido e cheio de furos. Pelo buraco no teto, o sol mirava pacotinho de ração ladeado por tampa com água. Querubim levantou e correu até a entrada do barraco onde vivia com a mãe e o avô. O casebre ameaçava cair há anos, porém resistia.

Sentou no chão e usou pedaço de graveto para desenhar Ranulpho. Quando terminou, cochilou com as costas escoradas na cerca de madeira e arame farpado. Em sonho, ouviu um ronronar que lhe arrepiou até os pelos que não possuía. Abriu os olhos e, sob sua mão esquerda, Ranulpho marcava território mais uma vez, esfregando o pelo sujo e macio.

O odor de lixo passou despercebido, não o miado de fome. Chorando, Querubim tomou o gato cego e derreado nos braços. O levou para dentro de casa e de lá não saiu mais naquele dia. A história de Ranulpho e Querubim mudou a Vila Paraná no final dos anos 1990: “Quem não vê amor num animal, não vê amor em si mesmo”, disse Neto Conselheiro, filho de Mandino.

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September 24th, 2016 at 5:57 pm

O gato atropelado

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“Ele agarrou meu pé com as duas patas, agonizando e resfolegando com os olhos em minha direção” (Foto: Reprodução)

Saí há pouco de casa e não desci mais do que cinco quarteirões, quando vi uma grande poça de sangue no meio do asfalto e um animal aparentemente morto. Parei no meio da rua para tentar identificar alguma reação. De repente, o gato mesclado começou a se debater no asfalto. Desci, me aproximei e quando encostei a mão em seu pelo, ele agarrou meu pé com as duas patas, agonizando e resfolegando com os olhos em minha direção. A cena me surpreendeu porque normalmente quando encontro animais caídos no asfalto, eles estão mortos, mas não aquele que lutava pela vida com todas as forças.

Peguei ele nos braços, enquanto ele agonizava e o sangue escorria espesso de sua boca, e o levei até o senhor Ailton Salvador, excelente profissional e ser humano que prontamente me recebeu, medicou o bichano e se recusou a receber pelos cuidados. Hoje, o gato de quem não sei o nome e também não sei onde mora, vai ficar em observação na clínica. Agora resta ter fé na sobrevivência do gato, porque em bons seres humanos como o senhor Ailton eu continuo tendo com toda certeza, mesmo diante de exemplos desalentadores como do motorista que se recusou a parar para reparar o próprio erro.

Written by David Arioch

July 16th, 2016 at 2:05 am

Hermann Hesse e o gato Narziss

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Hesse sentia-se como uma criança perto de Narziss (Acervo: Arquivo Suíço de Literatura)

Hesse sentia-se como uma criança perto de Narziss (Acervo: Arquivo Suíço de Literatura)

Embora seu comportamento ostracista fosse bastante conhecido, já que Hermann Hesse não gostava de receber visitas, o escritor alemão, radicado na Suíça, tinha uma cativante predileção por gatos. Um de seus grandes amigos em uma produtiva fase de sua vida era o gato Narziss (Narciso) que o fazia sentir-se como uma criança, um espírito livre alheio à idade e ao tempo.

Seu companheiro inclusive partilhava do mesmo nome de um dos protagonistas da obra Narziss und Goldmund, um noviço e racional literato. Na obra publicada em 1930, curiosamente há três analogias e referências poéticas aos felinos:

“Quando sentiu as mãos sobre ela, suas delicadas mãos suaves tão cheias de sentimento, algo que ela nunca tinha sentido antes, sua pele tremeu e sua garganta soou como o ronronar de um gato.”

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Hesse tinha uma cativante predileção por gatos (Acervo: Arquivo Suíço de Literatura)

“A fim de acalmá-la, Goldmund suavemente esfregou sua bochecha contra seu cabelo e acariciou seu quadril e joelho com uma mão tranquila, da mesma forma que um gato faz carícias.”

“O rosto não disse nada, mas a postura e os punhos cerrados disseram muito: incompreensível sofrimento, luta infrutífera contra a inédita dor. Ao lado de sua cabeça, um buraco de gato fora aberto na porta.”

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Written by David Arioch

February 25th, 2016 at 11:31 pm

A trajetória de um homem do campo

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José Freitas fala sobre a experiência de fazer parte da primeira geração de boias-frias

Freitas: "Boia-fria até hoje é um sujeito sem patrão" (Foto: Daniella Rosário)

Freitas: “Boia-fria até hoje é um sujeito sem patrão” (Foto: Daniella Rosário)

O aposentado José Alexandre Freitas, 72, morador do Jardim Morumbi, em Paranavaí, é da primeira geração de boias-frias do Noroeste do Paraná. Hoje em dia não trabalha mais, mas carrega marcas que nem o tempo é capaz de apagar, como as mãos calejadas, de pele grossa, e o rosto enegrecido e manchado pela frequente exposição ao sol.

Da época em que atuava como trabalhador volante, Freitas herdou também um chapéu de palha que ele ajeita cuidadosamente várias vezes, mesmo sabendo que a entrevista não é para a TV. O aposentado é amistoso e sorridente, porém quando se recorda dos problemas de quando trabalhava no campo, o sorriso se mistura a um olhar mortiço, uma consequência natural que evidencia a relação de amor e ódio do boia-fria com o campo.

Na entrevista abaixo, compilada em tópicos, José Alexandre Freitas, o colono que virou boia-fria, sintetiza opiniões e experiências ao falar sobre colonato, êxodo rural, trabalho infantil, aposentadoria, mecanização e outros assuntos.

O pequeno produtor rural

Nas décadas de 1960, 1970, quem tinha um sítio teve que vender pra fazendeiro. O pequeno produtor não tinha chance nenhuma de disputar o mercado. Acontecia muitas injustiças que eu mesmo vi de perto. Isso melhorou só depois por causa das cooperativas.

O colono

“A colheita era unida, bonita de ver e de lembrar” (Foto: Reprodução)

Quando comecei a trabalhar de colono, tudo isso aqui era café. A gente recebia mesada do patrão. A colheita era unida, bonita de ver e de lembrar. Depois acabou e tive que virar boia-fria. Em 1964, 1965 e 1966, a gente recebia uma diária mixuruca, não chegava a ganhar nem um salário por mês. A coisa foi mudando na década de 1980.

O fim do colonato

Os colonos desapareceram. Vim em 1982 pra cidade porque os patrões não queriam mais ninguém na roça. Eu fui um dos últimos colonos a vir pra cá. Vim meio que obrigado, não queria muito, ainda gostava da roça. Cheguei nessa mesma rua [Avenida Domingos Sanches], onde a gente tá conversando agora. Hoje, penso diferente, se fosse pra eu trabalhar de novo na roça preferia morar aqui e ir de ônibus do que morar na fazenda.

Êxodo rural

Naquele tempo, a jornada era de 12 horas, então trabalhar na roça era terrível. Quem tinha a chance de vir pra cidade não pensava duas vezes. Imagine, você começar a trabalhar às 6h da manhã e parar só às 6h da tarde. Hoje em dia é diferente, ninguém trabalha na roça mais do que oito horas. Era cruel, o pessoal sofria muito.

A vida de boia-fria

A verdade é que boia-fria até hoje é um sujeito sem patrão. O mais próximo que ele tem de um chefe é o gato. No meu tempo, ninguém podia adoecer. Se ficasse um mês parado, passava fome. Lembro que a gente recebia 40, 50 centavos por pé de café, mas quando o patrão queria que o sujeito fosse embora por vontade própria, ele pagava 20 centavos. Mas nem todos eram assim. Tive patrão bom também que quando o boia-fria não conseguia ganhar o suficiente, ele pagava mais pela diária.

Naquele tempo, a jornada de trabalho durava 12 horas (Foto: Reprodução)

Gato X fiscal

O gato e o fiscal agem da mesma maneira. Eles pegam uma área de empreita, contratam os trabalhadores e pagam um pouco menos do que o oferecido pelo dono da propriedade pra ter lucro. O ganho por dia equivale a duas diárias de um boia-fria. Trabalhei como fiscal e gato por alguns anos. Às vezes, tinha que dividir a turma. Era impossível dar conta de 100 peões ao mesmo tempo.

Trabalho infantil

Até a década de 1990, tinha muitas crianças trabalhando nas roças da região, já hoje é difícil de encontrar. Acho errado o menor não poder trabalhar, porque antigamente, quando a criança começava cedo na lida, ela aprendia a respeitar mais os pais e também a vida. Hoje, qualquer adolescente diz que não vai trabalhar porque está protegido pela lei, inclusive tem quem use isso pra desafiar a família. Na minha época, um rapaz de 18 anos já era independente, tinha a
própria vida.

Segurança x ajuda

Acidente de trabalho acontecia, mas ninguém era responsável. Hoje também não mudou muita coisa. A verdade é que sem registro não existe segurança. No tempo em que mais trabalhei, década de 1950, 1960 e 1970, quem mais sofria acidente era a criança. Caía e machucava o pé, quebrava braço, então quem tinha que se virar era a família. Quando alguém se feria, a gente se reunia e ajudava. Comprava comida, fazia vaquinha pra arrecadar dinheiro. O ruim é que empregado que se machucava no serviço era mandado embora.

Relação com os colegas de trabalho

Quando trabalhei como gato, nunca fui maldoso com ninguém, eu respeitava todos os boias-frias, até porque fui um deles, né? Tinha paciência, falava com educação. Por isso que os patrões gostavam de mim. Eu odiava estupidez.

Chuva na roça

Essa era a pior parte. Não tinha esse negócio de que porque está chovendo não ia trabalhar. A gente ganhava por dia, então não tinha como ficar em casa esperando a chuva passar.

Sindicato dos trabalhadores

Naquele tempo, o sindicato não era vigorado como hoje. Agora o trabalhador rural tem garantias e direitos. O sindicato garante salário-desemprego, 13º salário e ainda ajuda a receber os atrasados. Fazem um trabalho muito bom.

Entretenimento

A gente ocupava o tempo livre jogando futebol, até o patrão jogava, e de centroavante. Era o nosso grande lazer, além de outro que eu não posso falar (risos).

Aposentadoria

Trabalhei a vida toda na roça e nunca tive direito a nada. A única sorte que tive foi me aposentar com 60 anos. Hoje, pra se aposentar com essa idade, é muito difícil. Quase nenhum patrão quer ajudar o empregado que trabalhou na roça. Até dá pra entender, ninguém quer ser responsável se der alguma coisa errada. Conheço muita gente que trabalhou no campo e tenta se aposentar, mas não consegue. Na minha família tem gente nessa situação.

Experiência no corte de cana-de-açúcar

Há 21 anos, tive uma experiência no corte de cana, mas não consegui cortar 70 metros. Fui três dias, fizeram a minha ficha, mas daí não foi aprovada porque não cortei 70 metros. Disseram que não podiam me dar nenhuma garantia.

Mecanização

Sobre as máquinas, acho que a dificuldade maior é que ninguém sabe o que o governo vai fazer com esse povo todo. O serviço braçal ainda vai acabar, disso eu tenho certeza porque já conheci máquina que substitui o homem até em terreno irregular. Lá no interior de São Paulo mesmo, boia-fria é conhecido como cata-bituca, porque pra ele só ficam os restos deixados pela máquina.

O futuro dos boias-frias

A única saída ainda é a reforma agrária. O governo deve desapropriar e comprar essas fazendas onde ninguém planta nada e cortar em lotes. Se fizer direito, vai dar certo. Sei disso porque tenho um genro que mora numa fazenda no interior de São Paulo e lá ele conseguiu oito alqueires e hoje vive de forma mais digna.