David Arioch – Jornalismo Cultural

Jornalismo Cultural

Archive for the ‘Gatos’ tag

Fungo cultivado em laboratório pode substituir a carne na ração de cães e gatos

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Outro diferencial da startup é que as embalagens dos seus produtos são biodegradáveis (Foto: Divulgação)

Um estudo concluído esta semana pela startup Wild Earth, dos Estados Unidos, que investe no desenvolvimento de alimentos para cães e gatos, revela que fungos cultivados em laboratório podem oferecer até 45% de proteínas, superando os 24% provenientes do bife. Um exemplo é o fungo do tipo koji cultivado pela Wild Earth que, além do alto valor proteico e de fornecer dez aminoácidos essenciais, tem alta classificação em digestibilidade, favorecendo melhor absorção dos nutrientes por parte dos animais, segundo a startup.

“Esse é um marco importante que valida a criação de um produto seguro, saudável e nutritivo para transformar a indústria de alimentos para animais de estimação”, disse o CEO da Wild Earth, Ryan Bethencourt ao Veg News, acrescentando que a criação de novas opções de rações também é uma forma de ajudar a reduzir o impacto ambiental e a exploração animal. Até o início de 2019, a Wild Earth promete lançar no mercado novas opções de petiscos veganos e rações veganas a preços acessíveis. Outro diferencial da startup é que as embalagens dos seus produtos são biodegradáveis.

 





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June 21st, 2018 at 7:07 pm

“Senti que Londres foi abençoada por sua amável consideração pelos gatos”

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“A Inglaterra deve ser a terra dos gatos”

“O que me surpreendeu tanto quanto qualquer coisa eram os gatos gordos que dormiam pacificamente na entrada das lojas em Londres, enquanto as pessoas passavam por eles com cuidado. A Inglaterra deve ser a terra dos gatos, eles permanecem pacificamente por toda parte nas imediações de St John’s Wood.

Em Tânger [Marrocos] ou na Cidade do México, você quase não vê gatos tarde da noite, porque muitas vezes os pobres os pegam e os comem. Senti que Londres foi abençoada por sua amável consideração pelos gatos. Se Paris é uma mulher que foi violada pela invasão nazista, Londres é um homem que apenas fuma o seu cachimbo, bebe a sua stout e abençoa o gato tocando sua cabeça ronronante.”

Excerto de “Desolation Angels”, de Jack Kerouac, publicado em 1965.





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June 24th, 2017 at 5:49 pm

“O gato não é humilde, traz viva a memória da sua liberdade sem coleira”

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“Ele fixara em Deus aquele olhar de esmeralda diluída”

“Ele fixara em Deus aquele olhar de esmeralda diluída, uma leve poeira de ouro no fundo. E não obedeceria porque gato não obedece. Às vezes, quando a ordem coincide com sua vontade, ele atende mas sem a instintiva humildade do cachorro, o gato não é humilde, traz viva a memória da sua liberdade sem coleira. Despreza o poder porque despreza a servidão. Nem servo de Deus. Nem servo do Diabo.”

Excerto de “A Disciplina do Amor”, de Lygia Fagundes Telles, publicado em 1980.





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June 24th, 2017 at 5:36 pm

Taiwan aprova lei que proíbe o consumo de carne de cães e gatos

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Taiwan é o primeiro país da Ásia a proibir o consumo de carne de cães e gatos (Foto: Sputnik News)

Taiwan é o primeiro país asiático a banir completamente o consumo de carne de cães e gatos. A nova legislação aprovada na última terça-feira é resultado de uma série de protestos contra o abusos de animais. Quem for flagrado desrespeitando a lei, terá de pagar uma multa equivalente a quase 25 mil reais.

A legisladora Wang Yu-min chamou a atenção para a importância da decisão, declarando que é uma porta que se abre para leis cada vez mais justas em relação ao bem-estar animal. De acordo com o Daily Mail, Yu-min disse que autoridades taiwanesas já estavam proibindo o consumo de carne de cães e gatos em algumas regiões. No entanto, ainda eram ações pontuais, o que exigiu uma iniciativa nacional.

Outro ponto positivo da nova legislação é que quem for flagrado abusando de cães e gatos pode pegar até dois anos de prisão e ter de pagar uma multa equivalente a mais de 203 mil reais. Criminosos reincidentes podem ter a pena estendida para cinco anos e a multa aumentada para mais de 500 mil reais. A lei também proíbe que animais encoleirados sejam obrigados a correr para acompanhar veículos em movimento.

O projeto de lei foi sugerido após a divulgação de uma série de vídeos de abusos de animais em Taiwan, incluindo um vídeo em que três soldados aparecem batendo em um cão abandonado e o estrangulando até a morte. O crime gerou comoção em Taiwan, onde ativistas dos direitos animais realizaram vários protestos de grande repercussão.

Embora Hong Kong e China também tenham proibido a matança de cães e gatos com a finalidade de coibir o comércio de carne desses animais, as leis são falhas porque não criminalizam o consumo, que é o ponto mais importante da questão.

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April 13th, 2017 at 6:37 pm

Protetora de animais precisa de ajuda para sobreviver e cuidar de 18 cães e gatos

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“Sempre gostei de animais. Deixo de comer, mas não posso deixar de alimentar os bichinhos”

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“Não me importo com a minha vida, mas sim com a deles” (Foto: David Arioch)

Na infância, Maria Elevandoski já demonstrava respeito e amor pelos animais. Enquanto outras crianças de sua idade tinham o hábito cruel de arremessar gatos contra a parede, ela recolhia animais mortos que encontrava pela vizinhança e os enterrava em terrenos baldios, onde realizava um pequeno funeral, chorava, orava por eles e marcava o local com uma pequena cruz feita de gravetos.

“Sempre gostei de animais. Deixo de comer, mas não posso deixar de alimentar os bichinhos. Não me importo com a minha vida, mas sim com a deles”, conta a moradora de uma casa alugada na Rua Antônio José da Silva, número 1666, em Paranavaí, no Noroeste do Paraná. Enquanto fala da sua profunda relação com os animais, iniciada há mais de 40 anos, Maria se emociona por estar enfrentando um dos momentos mais difíceis de sua vida.

Prestes a ser despejada por não ter condições de pagar o aluguel da residência onde vive com 15 gatos e 3 cães, ela chora ao relatar que está desempregada há mais de cinco meses, tentando sobreviver fazendo “bicos” ocasionais como diarista. “A minha sorte é que me ajudaram com um pouco de ração. Mas ninguém pode me ajudar para sempre. Hoje à noite mesmo, não sei nem se terei o que comer”, comenta.

Com dois meses de aluguel atrasado, e devendo duas faturas de energia elétrica e duas de água, Maria ainda consegue sorrir quando os animais sob sua responsabilidade se aproximam miando ou abanando o rabo. Enquanto alguns deles brincam no fundo do imóvel, ela relata que sua casa foi saqueada há três meses, quando usuários de drogas furtaram inclusive um botijão de gás e toda a sua comida.

Durante a conversa, um dos cães, Raj, salta em meu colo e começa a lamber minha mão, mantendo seus olhos cobertos por uma longa franja preta. O cãozinho foi resgatado por Maria após a mãe dele ser atropelada por um motorista negligente. “Ele tentou mamar nas tetas dela mesmo depois que ela já estava morta. Nem percebeu o que aconteceu”, narra com olhos marejados.

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Animais sob tutela de Maria têm de 1 a 12 anos (Foto: David Arioch)

Os 18 animais que vivem com Maria Elevandoski têm de 1 a 12 anos. São animais que, assim como muitos outros cuidados por ela ao longo de mais de dez anos atuando como protetora de animais, foram resgatados da rua, trazidos do cemitério ou arremessados em seu quintal. “Aqui são todos castrados. Consegui uma boa ajuda”, comemora.

Sem se importar com bens materiais, ela vive com poucos móveis e apenas um eletrodoméstico – a geladeira. Um dia, depois de resgatar um gato abandonado, um chinês a abordou e disse que Maria deveria cuidar do animal até ele ficar gordo e depois comê-lo. “Me senti mal só de ouvir aquilo. Nunca teria coragem. Não como nem carne, e isso tem um bom tempo, desde que vi o sofrimento do gado dentro de um caminhão”, explica.

No ano passado, quando cuidava de 25 animais, ela entrou em depressão porque alguns cães e gatos sob sua guarda foram envenenados. “Tem dia que me sinto mal e penso em me matar. Não fiz isso ainda pelos animais, porque eles precisam de mim. Mas eu queria muito conseguir uma casinha ou um emprego. Aceito qualquer tipo de trabalho. Também preciso de mais ração para eles. Não sei o que fazer. Não tenho família aqui”, desabafa.

Saiba Mais

Quem puder contribuir com Maria Elevandoski, basta ligar para (44) 99807-8888 (Marcel) ou (44) 99916-0414 (Veridiana).

A residência da protetora de animais fica na rua atrás da Ibirapuera Móveis, ao lado da Rádio Skala.

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March 6th, 2017 at 7:13 pm

Uma noite no quintal

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Dormi no quintal na noite passada, sentindo a aragem amena e observando as estrelas enquanto gatos saltavam sobre o telhado, tentando alcançá-las. Cães assistiam tudo como estátua de porcelana, daquelas que movem somente os olhos. Quando os felinos cansaram, desistiram das estrelas e miraram a lua anilada, até que dormiram sob o céu desanuviado.

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January 16th, 2017 at 1:39 pm

Cortázar: “Acontece o contrário com os animais. Eles me fascinam. O mundo dos insetos…dos mamíferos”

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Cortázar: “Descobrir pouco a pouco afinidades e similaridades…Acho que o gato é o meu animal totêmico e eles sabem disso” (Foto: Reprodução)

Um dos maiores nomes da literatura latino-americana, o escritor argentino Julio Cortázar, homem que chegou a um momento da vida em que deixou de surpreender-se com a humanidade e o mundo, teve muitas conversas com o seu amigo Ernesto González Bermejo.

Mais tarde, esses registros deram origem ao livro “Conversaciones con Cortázar”, publicado originalmente em 1978, seis anos antes da morte de Cortázar. No Brasil, a obra foi lançada em 2002, por iniciativa da Editora Jorge Zahar, sediada no Rio de Janeiro. Dentre os assuntos jamais abordados com franqueza em outra entrevista está o seu amor pelos animais, registrado nas páginas 46 e 47:

“Sempre fui, desde criança, profundamente indiferente ao reino vegetal: nunca distingui muito bem um eucalipto de uma bananeira; gosto das flores, mas não me ocuparia em ter um jardim. Acontece o contrário com os animais. Eles me fascinam.

O mundo dos insetos…dos mamíferos. Descobrir pouco a pouco afinidades e similaridades…Acho que o gato é o meu animal totêmico e eles sabem disso, como pude comprovar muitas vezes ao chegar à casa de amigos que têm cães e gatos. Os cães me tratam com indiferença, mas os gatos me abordam logo na chegada.

Se alguém fizer uma pesquisa de meus livros, vai descobrir uma grande percentagem de animais. Um animal se move fora do tempo – repete ao infinito os mesmos movimentos, e para quê? Por quê? Essas são noções humanas que não valem para um inseto. Dizemos que o animal trabalha, mas a noção de trabalho quem insere somos nós.”

Considerado o mestre do conto curto e da prosa poética, o escritor argentino Julio Cortázar ocupa a mesma posição de destaque na literatura mundial que o seu conterrâneo Jorge Luis Borges. Cortázar entrou para a história como um autor original que inovou na literatura ao se afastar da forma clássica de escrever.

Fugindo da linearidade, se destacou pela perene preocupação em se aprofundar no perfil psicológico de seus personagens, garantindo a eles autonomia e proporcionando ao leitor uma imersão numa criação espontânea que, identificada como realismo mágico, precede qualquer avaliação crítica.

Maior exemplo disso é o seu livro mais famoso. “Rayuela” ou “O Jogo da Amarelinha”, de 1963, que convida o espectador a fazer as mais diferentes interpretações da história surrealista de Horacio Oliveira, baseada em um monólogo interior.

Mark Twain, um porta-voz dos animais

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“De todas as criaturas, o homem é a mais detestável” (Foto: Reprodução)

“O fato de que o homem pode agir erradamente prova a sua inferioridade moral em relação a toda criatura que não pode”

Um dos mais proeminentes escritores dos Estados Unidos, o jornalista, romancista e humorista Mark Twain publicou dois livros que fazem parte da lista de obras essenciais da literatura mundial – The Adventures of Tom Sawyer, de 1876, e The Adventures of Huckleberry Finn, de 1885. No entanto, o que pouca gente sabe até hoje é que Twain foi um importante defensor dos direitos dos animais.

“De todas as criaturas, o homem é a mais detestável. De todas, somente ele possui malícia. Ele é o único que causa dor por esporte e com consciência de que isso causa dor. O fato de que o homem sabe distinguir o certo do errado prova a sua superioridade intelectual em relação às outras criaturas. Mas o fato de que ele pode agir erradamente prova a sua inferioridade moral em relação a toda criatura que não pode”, escreveu Twain em seu livro de ensaios What Is Man?, publicado em 1908.

Na obra, Twain apresenta um homem jovem e um idoso conversando sobre a natureza humana. Enquanto o mais velho, que oscila entre o pragmatismo e o pessimismo, define o ser humano como alguém que vive para si mesmo, o rapaz, como bom questionador, pede que ele se aprofunde em suas explanações, assim equilibrando a discussão. À época, o escritor decidiu lançar What Is Man? de forma anônima, até que se arrependeu de tê-lo publicado quando percebeu que a maioria dos leitores pouco se interessava pelo assunto.

Mesmo após sua morte, em 21 de abril de 1910, em Redding, Connecticut, em decorrência de um ataque cardíaco aos 74 anos, seu livro de ensaios ainda recebeu críticas inflexíveis. A maior delas talvez seja uma do New York Tribune que qualificou seu livro como uma obra antirreligiosa e sombria, mesmo ele chamando a atenção para questões de grande importância como o tratamento que os seres humanos dão aos animais.

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Book of Animals mostra que Twain se preocupava muito com o bem-estar animal (Foto: Reprodução)

Embora haja controvérsias sobre ele ter sido ou não vegetariano em algum momento de sua vida, já que há pesquisadores que afirmam que Mark Twain consumia alimentos de origem animal, ele demonstrava ser um sujeito de grande sensibilidade em relação aos animais. Um exemplo é a passagem abaixo, revelando grande remorso após atirar em um passarinho na infância:

“Eu atirei em um pássaro sentado em uma árvore alta, com a cabeça inclinada para trás e derramando uma grata canção de seu inocente coração. Ele tombou de seu galho e veio flutuando flácido e desamparado até cair aos meus pés. Sua música foi extinta assim como sua inocente vida. Eu não precisava ter feito isso com aquela criatura inofensiva. Eu a destruí desenfreadamente e senti tudo o que um assassino sente, de tristeza e remorso quando chega em casa e percebe o quanto desejaria desfazer o que estava feito, ter suas mãos e sua alma limpa outra vez, sem acusar sangue”, relata Mark Twain em texto raro que faz parte da obra póstuma Book of Animals.

O livro mostra que Twain se preocupava muito com o bem-estar animal. Inclusive, de acordo com informações biográficas, seu tom de voz suavizava ao falar de algum animal, ao contrário do que acontecia quando o assunto era a humanidade.

“Eu não estou interessado em saber se a vivissecção produz ou não resultados rentáveis para a raça humana. Saber que é um método rentável não reduz a minha hostilidade em relação a isso. As dores infligidas aos animais sem o consentimento deles é a base da minha oposição. Os vivisseccionistas têm em sua posse uma droga chamada curare que impede o animal de lutar ou chorar. É um recurso horrível sem qualquer efeito anestésico. Muito pelo contrário, intensifica a sensibilidade à dor. Incapaz de fazer qualquer sinal, o animal é mantido perfeitamente consciente enquanto seu sofrimento é duplicado”, argumenta Twain em carta enviada a London Anti-Vivisection Society em 26 de maio de 1899.

E a inspiração do escritor para se tornar um protetor dos animais veio de sua mãe, Jane Lampton Clemens, que mantinha a casa cheia de gatos, alguns com nomes curiosos como Blatherskite (Fanfarrão) e Belchazar. “Uma vez, ela repreendeu um homem na rua porque ele estava batendo no próprio cavalo”, revela a editora Shelley Fisher Fishkin no prefácio do livro.

Entre as suas histórias mais célebres, e que destaca com clareza a sua sensível perspectiva em relação aos animais, está Jim Smiley and His Jumping Frog que conta a história de um apostador que tem uma rara habilidade de cativar os animais.

“De 1899 a 1910, ele emprestou sua caneta para reforçar os esforços dos dois lados do Atlântico, sendo o porta-voz do movimento pelo bem-estar animal. O que ajudou muito foi o fato de que ele era o mais famoso escritor americano da época”, declara a pesquisadora Shelley Fishkin, PhD em estudos americanos pela Universidade Yale, em New Haven, Connecticut. Outro fato intrigante é que Mark Twain começou sua carreira literária da mesma forma que a iniciou – escrevendo sobre animais. Após o seu falecimento, sua família descobriu que ele havia deixado inúmeras obras inéditas, principalmente contos sobre distintas figuras animalescas capazes de povoar o ideário popular por dezenas de gerações.

Saiba Mais

Mark Twain nasceu em Flórida, Missouri, em 30 de outubro de 1835.

Ele dizia que o homem é o único animal que cora. Ou que precisa corar.

O Título What is Man? do seu livro de ensaios foi inspirado no Salmo 8.

Referências

Mark Twain’s Book of Animals. Shelley Fisher Fishkin. University of California Press (2011).

R. LeMaster, James Darrell Wilson, Christie Graves Hamric.The Mark Twain Encyclopedia. Taylor & Francis (1993).

Twain, Mark. The Celebrated Jumping Frog of Calaveras County. University of California Press (2011).

Twain, Mark. What Is Man? CreateSpace Independent Publishing Platform (2011).

Kirk, Connie Ann. Mark Twain – A Biography. Connecticut: Greenwood Printing (2004).

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Quando Vico planejou a própria morte

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Vico não se movia. Continuou estatelado no chão morno com os olhos fechados, parcialmente cobertos

Na Avenida Lázaro Vieira, o gato continuou nos seguindo, indo de um lado para o outro e roçando o rabo entre as minhas pernas (Foto: David Arioch)

Na Avenida Lázaro Vieira, o siamês continuou nos seguindo, indo de um lado para o outro e roçando o rabo entre as minhas pernas (Foto: David Arioch)

Não me esqueço de um amigo que quando éramos adolescentes planejou a própria morte. Naquele tempo eu o chamava de Vico porque ele era fã do filósofo italiano Giambattista Vico. “A razão é a consciência do ser, não o conhecimento dele. A partir do nosso raciocínio, podemos ter conhecimento da nossa existência, mas não o conhecimento total de quem realmente somos”, dizia meu amigo inquiridor que cada vez mais parecia o filósofo que tanto admirava.

Vico, assim como seu mestre homônimo, levava uma vida frugal. Rendido ao desejo do saber, pouco se interessava em socializar. Era casto por natureza e da vida aspirava o entendimento do que definia como pequenas coisas existenciais. Quando andávamos pelas ruas com a simples motivação de respirar o mundo e sentir a vibração da vida que habita a singeleza, parávamos, sentávamos no meio-fio e fazíamos anotações.

No centro de Paranavaí, algumas pessoas riam e de longe zombavam do nosso comportamento julgado extemporâneo. E nós ríamos também, sem precisar abrir a boca e mostrar os dentes. Afinal, a fantasia é a memória dilatada e para sorvê-la é preciso convidá-la. E a nós estrambótica era a deletéria incompreensão, menos digno de zombaria e mais de comiseração. Escrevíamos sobre pessoas, animais, plantas e objetos. E todas as constatações eram discutidas livremente em um grupo pequeno que fundamos através da internet com o nome de Caballaria.

Principalmente nos finais de tarde, observar a vida ao longo de uma hora era um exercício recompensador, porque era o único período do dia em que nos tornávamos alheios a nós mesmos, nossas fragilidades, falhas e cegueiras. “Olha esses moleques à toa! No meu tempo, não tinha essa vagabundagem juvenil”, comentou um senhor engravatado de meia-idade levando a amante para almoçar em um restaurante na Rua Manoel Ribas.

Observávamos sem reagir às críticas e piadas que ouvíamos com certa frequência. Não faria sentido estar lá para intervir, mas tão somente inferir. Do contrário, tudo deixaria de ter um propósito. A maior lição subentendia a missão de nos tornarmos aquilo que nos furtava a atenção. Num primeiro momento, éramos como voyeurs. E creio que aos olhos que nos miravam, não passávamos disso, embora não nos incomodasse sobretudo. A verdade é que logo não existíamos apenas dentro de nós, mas também fora, não mais reduzidos aos ocos limites da nossa canhestra individualidade.

Em pouco tempo o barulho trivial e a movimentação rotineira de carros, motos, caminhões e pessoas não mais equacionavam nossa concentração. Sentados, ouvíamos tudo se perdendo em meio a um barulho tão difuso e pleonástico que o próprio som cotidiano se tornava irrelevante. Não exigia mais respostas dos nossos sentidos. E ficávamos lá, atentos ao que chamávamos de Orquestra do Mouco, nada mais que o silêncio que soava como o próprio rearranjo da natureza. E assim como as coisas mais simples e implícitas da vida, ele ganhava formas ocasionalmente pouco perceptíveis.

Lugares, pessoas, animais e objetos requeriam de nós um exercício diário de elucubração e compreensão. Eles mudavam diante de nós e nós mudávamos diante deles, provando que um olhar desatento poderia nos entorpecer. Acreditávamos que se tudo que víssemos a cada dia transparecesse comum ou ordinário era porque nos faltava habilidade para ir além. Em síntese, o pouco da percepção corria o risco de se confirmar como um danoso arquétipo da insipiência, isso porque ele nos empurrava para as armadilhas das nossas limitações.

Numa dessas longevas observações, uma vez um filhote de bem-te-vi caiu em cima da minha mochila posicionada na calçada, atrás das minhas costas. Não vi nem ouvi nada, mas senti a repentina aragem que tocou minha nuca como um sopro. Quando me virei, um gato siamês estava prestes a abocanhar o filhote. Consegui afastá-lo com as mãos apesar da sua ruidosa resistência. Percebendo que o passarinho não apresentava ferimento, escalei a árvore e o coloquei novamente no ninho antes de partir.

Depois, caminhando perto da Igreja São Sebastião, notei que o farto felino continuava nos acompanhando e se ocultando entre os arbustos. Só que era barulhento demais para passar despercebido. Perto da Sanepar, ele pendurou na minha mochila, fugindo de um cão grande e mestiço, com características de rottweiler, que tentou atacá-lo. Então o cachorro recuou assim que Vico lhe lançou um grande biscoito canino. Ele sempre carregava petiscos para animais dentro da mochila.

Na Avenida Lázaro Vieira, o siamês continuou nos seguindo, indo de um lado para o outro e roçando o rabo entre as minhas pernas. E o cachorro maior veio logo atrás, remansoso e mantendo os olhos em nossos passos. Mais adiante, outros cães e gatos endossaram a marcha. Contei doze animais. De repente, para minha surpresa, um jovem no quintal da própria casa arremessou com violência uma grande manga verde contra nossos seguidores. Errou o alvo e atingiu Vico na cabeça.

Ele caiu de frente com o corpo estendido sobre o asfalto e os braços abertos. Vico não se movia. Continuou estatelado no chão morno com os olhos fechados, parcialmente cobertos pelos cabelos castanhos, e as mãos e pernas levemente raladas. Os cães começaram a uivar e os gatos se esfregaram na cabeça e no dorso de Vico. Desesperado, o agressor adolescente levou as mãos à cabeça e correu para dentro de casa.

Me aproximei do portão, bati palmas e vi o rapaz escondido logo abaixo da janela. “Você matou meu amigo, cara! Sua brincadeira tirou a vida dele! Como você atira manga na cabeça das pessoas que passam perto da sua casa? Qual é o seu problema?”, questionei energicamente. Dois cães se aproximaram da grade, como se quisessem invadir a casa. O garoto não respondeu, mas ouvi seu choro suprimido e ele balbuciando consigo mesmo que seu pai iria matá-lo.

No chão e cercado por animais, Vico ainda não se mexia. O cão grande e mestiço tentou empurrá-lo em vão com o focinho. Alguns curiosos assistiam de longe, indecisos em se aproximar. Cinco minutos após a queda, ele se levantou e sorriu apesar das escoriações e do galo na cabeça. Dei uma gargalhada e seguimos nossa caminhada.

Atraídos pela ração e pelos petiscos que vazavam por um pequeno furo proposital no fundo da mochila, os animais começaram a se dispersar quando perceberam que já não restava mais alimento. Subindo a Avenida Distrito Federal, notamos que a turma se foi – ficou apenas a dupla. Chacoalhei a minha mochila também vazia, onde eu guardava o caderno em um compartimento menor, e sorri. “Amanhã eles voltam. Eles sempre voltam”, comentou Vico.

Mark Twain e sua relação com os gatos

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“Trate-o como um cavalheiro, sem quaisquer outros termos. Quando você não fizer isso, ele vai se afastar”

Para Twain, um gato pode ser seu amigo, se assim você quiser, desde que haja igualdade de condições (Foto: Twain Family)

Para Twain, um gato pode ser seu amigo, se assim você quiser, desde que haja igualdade de condições (Foto: Twain Family)

O escritor estadunidense Mark Twain, conhecido por clássicos como “The Adventures of Tom Sawyer”, lançado em 1876, e “Adventures of Huckleberry Finn”, de 1885, costumava dizer que ao conhecer alguém que amava gatos, não era necessária nenhuma apresentação para que ele logo se tornasse seu amigo e camarada.

Sour Mash, a gata que mais o inspirou a escrever, despertando-lhe um novo senso de observação, era vista por Twain como um exemplo para a humanidade – carinhosa, leal, corajosa e empreendedora. “Além de nobre, tinha uma característica digna dos felinos e que nenhum homem possui – a independência. Ela não dava a mínima para a opinião dos outros. Não tinha medo de cobras nem de cães. Exterminava gafanhotos que invadiam as plantações e saltava sobre cães”, declarou em sua autobiografia.

Na obra “The Refuge of the Derelicts”, publicada no jornal Harper’s Weekly em 15 de julho de 1905, o escritor argumenta que a autonomia dos gatos vem da sua ausência de disciplina. “Eles não vivem para ajudar ninguém. São simplesmente assim. Mas não é algo que deva ser visto como insubordinação. Conceitos como certo e justo não existem para os felinos. É a única criatura no Céu ou na Terra que está acima de pedidos e ordens. Não foram feitos para obedecer e estão além até dos anjos. Reis e divindades são mais obedientes do que gatos”, escreveu.

Para Twain, um gato pode ser seu amigo, se assim você quiser, desde que haja igualdade de condições, independente se você é um monarca ou um sapateiro. “Trate-o como um cavalheiro, sem quaisquer outros termos. Quando você não fizer isso, ele vai se afastar”, declarou em “The Refuge of the Derelicts”.

No livro Mark Twain’s Notebook, publicação póstuma de 1935, inspirada em anotações de 1894, o escritor comenta que de todas as criaturas de Deus só o gato não pode ser feito escravo do chicote. “Ele é sempre mais inteligente do que as pessoas imaginam”, justificou.

Outras obras de Twain que endossam as qualidades dos felinos a partir de suas experiências são “The Mysterious Stranger” e “A Connecticut Yankee in King Arthur’s Court”. “Se você abusar de um gato, mesmo que apenas uma vez, ele sempre vai manter uma digna reserva em relação a você. Será impossível reconquistar a confiança dele”, declarou no segundo volume de sua autobiografia, baseada em registros de 3 de setembro 1906 e publicada em 2013, mais de cem anos após sua morte.

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