David Arioch – Jornalismo Cultural

Jornalismo Cultural

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Copper e o contraste social da Nova York de 1870

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Série tem como cenário Nova York em 1870 (Foto: Reprodução)

Copper é uma série de mistério, a primeira produzida pela BBC America, sobre um introspectivo policial de origem irlandesa que patrulha as ruas de Nova Iorque em 1870.

O protagonista, Kevin Corcoran, interpretado pelo inglês Tom Weston-Jones, testemunhou situações nos campos de batalha da Guerra da Secessão que prefere não revelar. Na série, o policial vive um determinado dilema até o momento em que encontra a esposa desaparecida e descobre o verdadeiro motivo da morte da filha.

Muito interessante a forma como Copper apresenta o contraste social dos ricos moradores da Fifth Avenue e a classe operária do Harlem. A série tem um caráter histórico bem peculiar também, pois mostra como os afro-americanos migraram para Nova York, após deixarem as comunidades rurais.

Inferno sobre rodas na “América” pós-Guerra da Secessão

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Série é protagonizada por Anson Mount no papel de Cullen Bohannon (Foto: Divulgação)

Série Hell On Wheels instiga discussão sobre a História dos EUA

Estou acompanhando a série estadunidense Hell On Wheels, da Endemol USA, exibida pela AMC, que se passa nos Estados Unidos de 1865 com um enredo muito interessante. Tem como foco a construção da primeira ferrovia transcontinental do país pela Union Pacific Railroad. Em meio à revolução industrial, são levantadas inúmeras controvérsias sobre a xenofobia e a segregação racial na “América Pós-Confederada” ou Pós-Guerra da Secessão, como preferirem.

Na série, o telespectador se depara com uma nação até então marcada pela defesa dos latifúndios, escravidão e benesses aristocráticas. A obra mostra também pontos conflitantes, como yankees agindo como dixies e vice-versa, dando uma ideia de que as diferenças entre os “estadunidenses civilizados” do Norte e do Sul na época não eram tão aberrantes quanto registra a História Oficial daquele país. Funcionários de companhias, camponeses, ex-escravos, ex-soldados, prostitutas, mercenários e aventureiros sintetizam a pequena, mas heterogênea aldeia social de Hell On Wheels, uma pequena colônia situada em território nativo.

Trama explora a segregação racial imposta pelos brancos (Foto: Divulgação)

Pra mim, das cenas mais emblemáticas da série até o momento, destaco a disputa entre um índio cheyenne e um trem. A derrota do nativo que disputa a corrida com a máquina sobre um cavalo é simbólica e marca o surgimento de um novo tempo que trouxe a modernidade ao preço do genocídio indígena.Outra cena interessante é o momento em que o personagem Elam Ferguson, interpretado pelo rapper Common, um ex-escravo negro, é preparado para ser enforcado por um grupo liderado pelo irlandês O’Toole. Instantes antes do início da execução, o homem revela à vítima: “Nós irlandeses somos os crioulos do Reino da Grã-Bretanha”, o que deixa subentendido que a questão racial em âmbito social já amargava uma intransigência quase hierárquica.

Em um dos episódios da primeira temporada, há um momento elementar em que o presidente da Union Pacific, Thomas Durant, e um senador afirmam que as terras que os índios habitam pertencem ao Governo dos EUA. O chefe cheyenne retruca: “Eles compraram? Trocaram por algo? Não? Então não pertence a eles”. É uma série muito boa em que o maniqueísmo confronta seu antagonismo e desnuda a natureza humana, suas qualidades, dúvidas e falhas, independente de etnia, raça e credo. Hell On Wheels, como o próprio nome diz é o Inferno, mas também tem momentos de Céu e Purgatório.

Uma das cenas mais marcantes que me recordo é do sétimo episódio da primeira temporada. É um diálogo entre o protagonista, ex-soldado confederado Cullen Bohannon, interpretado por Anson Mount, e Ferguson. Bohannon explica que quando os nortistas invadiram sua propriedade, deixando-a em chamas, ele foi procurar o filho no celeiro. O encontrou sobre o palheiro todo encolhido, abraçando os joelhos contra o peito, e com o corpo todo queimado envolvido por Bethel, a escrava negra que criou Bohannon. Estava tentando proteger o garotinho das chamas. Infelizmente, era tarde demais, e os dois corpos pareciam fundidos, como se fossem um. Foi quando o ex-soldado concluiu que na finitude todos são iguais.

A genialidade do Cego Tom

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Tom era capaz de tocar qualquer música depois de ouvi-la apenas uma vez (Foto: Reprodução)

Thomas Bethune compôs mais de sete mil músicas

Thomas Bethune, mais conhecido como Cego Tom, nasceu em 25 de maio de 1849, no auge da escravidão nos EUA. Filho de Domingo Wiggens e Charity Greens, um casal que sofria de deficiência visual e mental, Tom foi considerado inútil por seu mestre branco, o coronel James Bethune, de Columbus, na Georgia. Por isso lhe autorizaram a permanecer com a mãe, uma empregada doméstica que trabalhava na casa principal da fazenda.

Ainda pequeno, Thomas se sentiu atraído pelos sons de piano em um salão onde os sete filhos do coronel estudavam música e canto. Com cinco anos, o garoto que sofria de cegueira já reproduzia com facilidade as sequências de acordes que ouvia no piano. No ano seguinte, aprendeu a improvisar e compor.  Reconhecido pela genialidade, era capaz de reproduzir qualquer composição, nota por nota, depois de ouvi-la apenas uma vez. À época, o professor de música dos filhos de Bethune disse que as habilidades do garoto estavam muito além da compreensão. Quando soube disso, o coronel decidiu explorar o jovem prodígio.

Em 1858, afastou o garoto da família e contratou um promotor de shows que o levou para realizar quatro concertos por dia em centenas de cidades. Thomas tocou até na Casa Branca para o presidente estadunidense James Buchanan que o definiu como “um grande pianista cujas habilidades superaram Mozart”. Em janeiro de 1861, Tom e o empresário retornaram à Georgia, onde todo o dinheiro arrecadado em cada um dos eventos que o garoto tocou foi usado para financiar a causa confederada durante a Guerra da Secessão. Uma das composições mais famosas do pianista é a “Batalha de Manassas”, baseada em relatos sobre a Guerra Civil. Por muito tempo, a música marcada por um enfático aumento gradual de volume foi uma das composições mais ouvidas no Sul dos EUA.

Ao final da guerra, James Bethune assinou um contrato com os pais de Tom, se comprometendo a repassar 500 dólares por ano, além de oferecer comida e abrigo ao garoto até os 21 anos. Enquanto isso, Bethune guardou para si a fortuna conquistada com a genialidade de Thomas. Através de manobras legais, conseguiu se tornar o tutor legal do rapaz, o que facilitou levá-lo para se apresentar por toda a Europa, além do Canadá e América do Sul.

Embora fosse enganado pelo coronel, o prestígio de Tom chegou a ponto do escritor Mark Twain cantar em sua homenagem. Thomas Bethune foi ainda mais longe e dominou instrumentos como corneta, trompa e flauta, chegando a um repertório autoral de mais de sete mil músicas. Tom, que recebeu pouco dinheiro pelas suas obras e concertos, passou os últimos dias de vida em reclusão, tocando piano em Hoboken, Nova Jersey, onde morreu em 3 de junho de 1908. Quem visitar o Brooklyn, em Nova York, pode localizar o seu túmulo no Cemitério de Evergreen.

Referência: Livro Crossroads of Conflict.