David Arioch – Jornalismo Cultural

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De que adianta criticar a Bancada Ruralista enquanto você a financia?

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Foto: TV Tribuna/Reprodução

De que adianta uma pessoa criticar as mazelas da Bancada Ruralista e neste momento, diante da situação dos mais de 25 mil bois sofrendo em Santos, simplesmente não se importar? De que adianta você apontar o dedo para ruralistas que exploram mão de obra barata, humana e não humana, se você consome os produtos deles, logo financia o jogo político deles.

Você já pensou que esses caras que comandam a política brasileira, e não abrem espaço para o verdadeiro exercício da democracia, costumam injetar muita grana em suas campanhas, certo? E de onde você acha que vem esse dinheiro? Costumeiramente, de produtos que eles vendem e que compramos na nossa inocência ou ignorância. E muitos desses produtos já foram vidas. Ou seja, animais.

Então, sim, consumir produtos de origem animal muitas vezes significa de fato um aval para que esses sujeitos continuem se perpetuando no poder. Que tal começar a boicotar esses caras? Não apenas politicamente, mas economicamente. Se informe, não seja ignorante. É preciso fazer um mapeamento idôneo a respeito da vinculação econômica desses políticos.

Quais entidades e empresas eles representam ou possuem, de fato; que tipo de produto eles comercializam, entre outras coisas. Esse tipo de informação precisa ser disseminada com urgência. Necessitamos de um trabalho de boicote em proporções jamais vistas antes.





 

McDia Feliz 2017 pela cura do câncer infantojuvenil é como a JBS criando uma megacampanha contra o desmatamento

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Arte: Michaela Thompson

McDia Feliz 2017 pela cura do câncer infantojuvenil é como a JBS criando uma megacampanha contra o desmatamento; a Coca-Cola comercializando refrigerante e prometendo reverter uma parcela dos lucros para o Instituto da Criança com Diabetes. Ou a Nestlé, a Kraft e a Hershey Company fazendo propaganda contra o trabalho escravo.





Written by David Arioch

August 26th, 2017 at 11:04 pm

Veganos e o compromisso de não contribuir com a exploração animal

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Retratos de um sistema exploratório que objetifica animais, os colocando em condição de privação e sofrimento. São seres vivos que, em muitos casos, nascem e morrem sem saber por que existiram (Fotos: Jo-Anne McArthur)

De vez em quando me deparo com alguém dizendo que veganos são hipócritas porque não estão livres de usarem algo de origem animal. Sim, essa pessoa tem razão ao dizer que não estamos livres de usarmos algo de origem animal, ou testado em animais. Mas sabe por que não somos hipócritas?

Justamente porque tomamos para nós a responsabilidade de não contribuir com a exploração animal. Afinal, nos esforçamos para evitá-la. Sabemos que a exploração existe, e temos conhecimento do mal que ela causa. E é por isso que entendemos que não temos o direito de fazer isso com os animais. Então ser vegano é um esforço constante de se livrar das armadilhas de uma indústria que explora os animais o máximo possível.

Hipocrisia, no meu entendimento, e aproveitando esse discurso agressivo que não raramente encontro por aí, é o fato de saber que a exploração animal existe, que é possível se esforçar para não tomar parte nisso, e ainda assim virar as costas e apontar o dedo para quem tenta contribuir com uma vida mais digna para os animais não humanos.

Muitos veganos se empenham em conscientizar as pessoas sobre as consequências que envolvem a fabricação dos muitos produtos de origem animal. E a partir do momento que a indústria reconhece que as pessoas já não aprovam o uso de animais em um produto, ou que sejam realizados testes em animais, ela é obrigada a rever o seu papel, se não junto aos animais, pelo menos junto aos consumidores, o que já força uma desaceleração que envolve esse tipo de exploração.

É importante não ignorar que se estamos imersos em um universo onde a maior parte dos produtos é de origem animal, ou pelo menos traz algo de origem animal na composição, é porque a maioria da população segue indiferente à exploração e ao sofrimento animal; assim inexistindo uma grande demanda que poderia mudar os rumos das nossas relações com os animais. Sem dúvida, as opções de alimentos e outros produtos isentos de exploração animal vão surgindo conforme as pessoas se recusarem a alimentar esse sistema injusto e mortífero.

 

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Como o McDonald’s é apelão

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Além dos males há saúde, há também o envolvimento com a exploração animal

Como o McDonald’s é apelão. Vi há pouco um novo comercial deles, fazendo parecer que os alimentos usados no McDoença Feliz são orgânicos. Gente colhendo tomates em uma cestinha, e daqueles mais visualmente atrativos do que os do pós-impressionismo de Cézanne. E acho que não preciso dizer que muitos compram essa ideia.





Written by David Arioch

July 26th, 2017 at 9:44 pm

Pawel Kuczynski, um cartunista que desperta reflexões sobre a exploração animal

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“Nossa realidade é triste e, como consequência, meu senso de humor é mórbido”

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Kuczinsky: “A realidade é tão louca e absurda que é difícil competir com isso” (Foto: Reprodução)

O artista gráfico e cartunista Pawel Kuczynski vive em Police, uma cidade com pouco mais de 40 mil habitantes, situada na região da Pomerânia Ocidental, no Noroeste da Polônia. Lá, ele produz desenhos que despertam a atenção para temas como exploração animal, ecologia, política, pobreza, fome, ganância, novas tecnologias e vício em internet. Kuczynski une metáforas visuais, a estética do surrealismo, a sátira e o humor mórbido para fazer com o que o espectador reflita sobre questões bem atuais.

Muito popular em mídias sociais como Reddit, Pinterest, Instagram e Facebook, neste último ele tem mais de 528 mil seguidores, o artista polonês já produziu inúmeros desenhos em que propõe discussões sobre a forma como nos relacionamos com os animais. São trabalhos que permitem inúmeras releituras e colocam em evidência a hipocrisia humana no que diz respeito ao fato de considerar alguns animais como companheiros e outros simplesmente como comida. Exemplo disso é “Dinner”, uma de suas obras mais populares, em que um açougueiro acaricia a cabeça de um gato enquanto é assistido por animais não domésticos na entrada de um estábulo.

Alguns cartuns de Kuczynski, que trabalha com técnicas de lápis aquarelável, mostram como as pessoas fingem não ver que estão consumindo um ser que um dia teve vida, e talvez por tal motivo em alguns de seus trabalhos os animais estão vivos. Um exemplo é “Pig”, em que um porco aparece sorrindo inocentemente com uma toalha sobre o dorso, sem reconhecer que ele é a mesa e o prato principal de um banquete. Em “Coffin”, ele apresenta o funeral de um porquinho que tem como caixão um lanche, uma referência às tiras de bacon.

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Uma das imagens mais famosas do cartunista polonês

Em “Eggs”, há uma máquina que esmaga galinhas para a produção de ovos. Provavelmente, a intenção de Kuczynski é mostrar que ovos não são apenas ovos. Eles custam a vida das galinhas que são descartadas quando produzem pouco ou quando representam despesas. Outra de suas obras destaca um homem com aspecto morbígero, uma boca enorme e dentes pontiagudos, prestes a engolir a cabeça de um suíno, numa analogia à glutonaria humana.

Pawel Kuczynski também critica quem cria peixes em casa. Além desses animais viverem até sua morte em pequenos espaços para o deleite humano, as pessoas normalmente ignoram o quão paradoxal é criar um peixe ao mesmo tempo em que se come outro. Tal contradição é evocada no cartum em que aparece um peixe enlatado dentro de um pequeno aquário.

Em outro desenho, um boi tem um grande pasto como guardanapo amarrado ao pescoço, referência ao desmatamento e a superprodução de grãos para alimentar esses animais, o que vai muito além do que é investido na produção alimentícia voltada aos seres humanos.  elwu6vn-vert

Por esses e outros trabalhos, o polonês graduado na Academia de Belas Artes de Poznań, e com especialização em artes gráficas, já foi premiado nos Estados Unidos, Brasil, Bélgica, Itália, Espanha, Portugal, Rússia, Japão, China, Coréia do Sul, Colômbia, República Tcheca, Irã, Itália, Eslováquia, Turquia, Síria e Taiwan. Em 2005, ele recebeu o Eryk, prêmio da Associação Polonesa de Artistas, por ter conquistado um número recorde de premiações em competições internacionais. Só em 2010, Kuczynski ganhou 19 prêmios e distinções.

“Não sou o tipo de cartunista que trabalha com humor. Não é o tipo de sátira que as pessoas podem associar com piadas. São assuntos muito sérios. A realidade é tão louca e absurda que é difícil competir com isso. A realidade me inspira. Apenas tento ser honesto sobre as minhas observações em meus desenhos. Coloco uma informação em minha cabeça e espero pelos resultados. Se eu já tiver algo em minha mente, e for uma boa ideia, preciso de dois dias para fazer o desenho”, disse em entrevista à Fluster Magazine, da Itália, publicada em 10 de março de 2012.

Um observador do comportamento humano, Pawel Kuczynski considera surpreendente o fato de que vivemos há tanto tempo neste mundo e ainda assim seguimos cometendo os mesmos erros. ele cita como algumas das maiores incoerências humanas as guerras, a pobreza, a fome, a exploração animal e a destruição do meio ambiente. “Nossa realidade é triste e, como consequência, meu senso de humor é mórbido. Acho que talvez eu seja muito lírico e sentimental”, declarou.pawelk7-horz

O artista polonês sempre gostou de arte barroca, das obras de Caravaggio [Michelangelo Merisi]. Sua admiração o motivou desde cedo a usar a luz teatral como uma grande aliada, ou seja, aprendeu a manipular sabiamente o contraste entre o claro e o escuro. “É muito útil para organizar a composição narrativa em minhas obras”, justificou.

Membro da Associação Polonesa de Artistas, ele prefere não enaltecer a sua própria história. Quando questionado sobre o motivo de divulgar sempre uma curta biografia, Kuczynski costuma responder que o mais importante não é ele, mas sim o seu trabalho. Sobre sua rotina, ele começa o dia praticando atividades físicas. “É a melhor forma de refrescar meus pensamentos. Ou a melhor forma de não pensar em desenhos”, enfatizou em entrevista veiculada no portal iraniano Tabriz Cartoons em 11 de setembro de 2016.

coffin-pawel-vertO cartunista normalmente prepara o projeto um dia antes de executá-lo, e seu período de maior produção costuma ser à tarde. “Trabalho como freelancer. É o que mais me convém, mas posso trabalhar em qualquer lugar onde eu tenha um canto para desenhar e acesso à internet. Tudo que tenho em Police [sua cidade natal] é um ambiente tranquilo, amigos e família. Não preciso de nada mais além disso”, contou a Tabriz Cartoons.

Pawel Kuczynski transparece não ter grandes ambições e ressalta que o mais importante é ter ideias e força para trabalhar. Se suas obras seguirem conquistando as pessoas e permitirem que ele continue vivendo do seu trabalho, isso o deixará satisfeito. “É o suficiente para mim. Como qualquer jovem estudante, eu fazia retratos em festas, imagens para decorar interior de apartamentos. Sou duro comigo e prefiro não admirar meu trabalho. Sempre acho que o próximo será melhor e me forço a ir além. Claro, como qualquer autor, fico feliz quando meu trabalho é notado e recompensado em competições”, ponderou.

Há pessoas que criticam alguns trabalhos de Kuczynski por interpretá-los como críticas intransigentes ao uso de tecnologias. Porém, embora não use smartphones, ele deixa claro que sua intenção nunca foi essa: “Não sou um inimigo das inovações técnicas. Estou ativamente usando e usufruindo delas. Mas, por outro lado, é por isso que tenho o direito de alertar sobre as armadilhas que estão sempre à nossa espreita.” Para o polonês, a melhor forma de manter a qualidade do seu trabalho é jamais negligenciar o próprio cérebro que, por ser um músculo, precisa sempre de bons estímulos.

Saiba Mais

Pawel Kuczynski começou a trabalhar com desenhos satíricos em 2004.

 Para comprar algum dos trabalhos do artista polonês, acesse:

http://www.pictorem.com/collectioncat.html?author=Pawel+Kuczynski

 Referências                    

http://pawelkuczynski.com/

https://flustermagazine.wordpress.com/2012/03/10/showcase-pawel-kuczynski/

http://tabrizcartoons.com/en/news/tcan/6196-interview-with-pawel-kuczy%C5%84ski-poland,2016.html

Roberto Moreira e a tradicional hipocrisia brasileira

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Filme de estreia do cineasta mostra a diferença entre olhar e enxergar a realidade

Filme é recheado de críticas sociais (Foto: Reprodução)

Filme é recheado de críticas sociais (Foto: Reprodução)

O filme Contra Todos, que marcou a estreia de Roberto Moreira como cineasta, é recheado de críticas sociais que desnudam a hipocrisia da sociedade brasileira a partir de uma caricata família de classe média baixa.

Contra Todos foi o filme brasileiro mais premiado em 2004, quando foi lançado, e não por acaso. A obra apresenta todos os elementos de uma boa história. Na periferia de São Paulo, Teodoro (Giulio Lopes), que tenta preservar uma imagem de homem religioso, interpreta um mercenário e pai de família que bate na filha Soninha (Sílvia Lourenço) e trai a mulher Cláudia (Leona Cavalli) com a companheira de culto Terezinha (Martha Meola).

Infeliz com o marido, Cláudia se relaciona com Júlio (Ismael de Araújo). Aos poucos, a verdadeira imagem da família se descortina. A situação sai de controle quando o amante de Cláudia é assassinado. Perturbada, a mulher destrói a casa e abandona tudo. Depois de fugir e se hospedar em um hotel, Cláudia conhece Lindoval (Dionísio Neto), com quem começa a namorar.

No elenco, Leona Cavalli, Giulio Lopes e Aílton Graça (Foto: Reprodução)

No elenco, Leona Cavalli, Giulio Lopes e Aílton Graça (Foto: Reprodução)

Mais uma vez, o plano de felicidade é interrompido quando Lindoval quase morre após ser espancado. Cláudia acredita que o crime é de autoria do marido. Em meio a tanta confusão, Teodoro decide se casar com Terezinha e mandar a filha morar com a avó. A história ganha outro rumo quando a religiosa recebe uma fita de vídeo do futuro marido tendo relações sexuais com a ex-mulher; Terezinha acreditava que Teodoro era solteiro.

Muitos dos acontecimentos do filme são motivados pelo malandro e persuasivo Waldomiro (Aílton Graça), amigo e confidente da família de Teodoro. Além disso, também chama atenção a busca por isenção e impessoalidade. O cineasta não interfere nos acontecimentos, se limita a apresentá-los da forma mais crua possível, deixando para o espectador a tarefa de refletir e tirar conclusões.

O autor usa recursos que corroboram o realismo da trama – como planos com a câmera na mão, evitando a plasticidade. Moreira ainda escolheu locações que fogem aos clichês da periferia paulistana. Para dar mais naturalidade às cenas, optou por um elenco que concordou em participar do filme sem ter contato com o roteiro antes do início da produção.