David Arioch – Jornalismo Cultural

Jornalismo Cultural

Archive for the ‘História’ tag

Posso te fazer uma sugestão?

without comments

Fotos: Reprodução

Posso te fazer uma sugestão? É a mesma que faço quando me convidam para dar palestras para crianças e adolescentes nas escolas. O que você sabe sobre seu pai? Sua mãe? Seu avô? Sua avó? Seu bisavô? Sua bisavó? Você tem alguma história da infância deles que pode me relatar neste momento? Você sabe como sua mãe era na adolescência?

Não estou falando de foto, mas de personalidade. E seu pai?
Você sabe de algum episódio marcante que ele viveu, por exemplo, na fase mais tenra da infância? Está estranhando minhas perguntas? Então, é que nossos familiares morrem e nós nem sabemos quem eles eram. Que tal descobrir quem eles eram? Para além do nosso parentesco. Afinal, todo ser humano, é mais do que irmão, pai, mãe, vô, vó…

Quando nasci, meu avô já era o vovô, e minha avó também já era a vovó. Sim, pra mim já tinham feições de velhinhos, era como tivessem nascido velhinhos. Não tinha como eu saber como eles eram antes de eu nascer, então eu pedia que eles me contassem histórias. Desde a minha infância, meu avô fazia isso por iniciativa própria, porque ele já nasceu um contador de histórias.

Ainda assim, nos últimos anos de vida dele, comecei a registrar as nossas conversas em um gravador; dezenas de horas. E mais tarde, mesmo sem saber quando ele morreria, coincidiu de eu produzir um pequeno documentário sobre a sua vida, registrando seu cotidiano, intercalado com histórias de sua infância, da mocidade, da família, do envelhecimento, e do que a vida representava para alguém perto dos 90 anos.

Admito que não tenho o costume de ir a velórios, não fui nem mesmo no velório do meu pai. Se me chamar para algum, provavelmente recusarei, mas por um motivo que nem eu mesmo sei explicar, compareci ao do meu avô. Ele estava deitado, com semblante sereno, a pele álgida e arroxeada, e eu me recordando de suas histórias. Eu sabia que ele não estava mais ali, mas quando o caixão foi lacrado, imaginei centenas de livros se fechando, livros que nunca mais serão lidos ou abertos.





 

Written by David Arioch

February 9th, 2018 at 10:58 am

Sobre grilagem de terras e política

without comments

Estudei e escrevi durante alguns anos sobre a problemática da grilagem de terras no Extremo Norte do Paraná das décadas de 1930 a 1950, e o que mais me surpreende nisso tudo é que as pessoas que cometiam esse tipo de crime rapidamente se engajavam na política para se blindar; prática muito comum inclusive hoje.

Mais tarde, seus filhos, netos e bisnetos seguiram o mesmo caminho, gozando de um legado que não existiria sem grilagem de terras, expulsão de pessoas de suas casas e uso de violência. E não creio que o Paraná seja exceção. Mais tarde, as novas gerações migraram para outras regiões desabitadas do Centro-Oeste e do Norte do Brasil e fizeram o mesmo – desmataram áreas, dizimaram animais e expulsaram pessoas de suas terras.

Tenho um grande carinho pelo Paraná, mas sou totalmente contra o romantismo histórico, que vejo como um problema comum no Brasil, porque ajuda a perpetuar as mazelas. Sim, me agrada também histórias bonitas, mas desde muito cedo me satisfaz mais ainda aquelas que não são registradas oficialmente sob o suposto risco de “manchar a reputação histórica” de uma cidade ou região. Afinal, são essas que melhor representam a realidade histórica, mesmo que mais relegadas à oralidade do que aos livros.

E infelizmente vejo que é essa falta de memória das mazelas que também ajuda na perpetuação da miséria política. Quando não buscamos a história por vias próprias, e não a compartilhamos, estamos sempre fadados a nos contentar com aquilo que os outros querem que acreditemos. E esses outros, não raramente contam o que querem contar, em conformidade aos seus interesses, não o que deve ser contado.





 

Written by David Arioch

February 9th, 2018 at 10:48 am

Séneca: “Resolvi abster-me do consumo de carne e, no final de um ano de abstinência, foi tão fácil quanto prazeroso”

without comments

“Insaciável, insondável, a gula procura cada terra e cada mar”

“Eu simplesmente me privo da comida dos leões e dos abutres. […] Nós só reconhecemos o som da razão quando nos separamos da multidão (Arte: Peter Paul Rubens)

Lúcio Aneu Séneca, mais conhecido como Séneca, foi um importante filósofo do Império Romano, dramaturgo de prestígio, conselheiro do imperador Nero e um dos homens mais influentes de seu tempo. Na juventude, ele teve contato com a filosofia por influência de Átalo O Estoico, Sotion e Papírio Fabiano que faziam parte da escola filosófica criada por Quinto Séxtio. combinando pitagorianismo e estoicismo.

Em “Epistulae Morales ad Lucilium”, ou “Epístolas de Séneca” ou “Cartas a Lucílio”, Séneca narra que ele decidiu abdicar do consumo de animais no início dos seus 20 anos por influência de Sotion. Costumava dizer-lhe por que Pitágoras se absteve de consumir animais, e por que, mais tarde, ele também fez isso.  “[Já] Séxtio acreditava que o homem tinha opções o suficiente sem precisar recorrer ao sangue, e que um hábito de crueldade é formado sempre que o abate é praticado por prazer. Além disso, ele concluiu que deveríamos restringir as nossas ‘fontes de luxo”, argumentando que uma dieta variada era contrária às leis da saúde e não era adequada às nossas constituições.”

Mais tarde, Séneca começou a despertar atenção negativa, porque no império de Tibério César seus hábitos passaram a ser comparados aos de seguidores de religiões estrangeiras, como os cristãos. “Motivado pelo pitagorianismo, Séneca tornou-se um vegetariano estrito. Quando Séneca O Ancião descobriu o novo entusiasmo de seu filho, ele o advertiu sobre as responsabilidades da vida pública ao ser visto como um excêntrico”, consta na página 20 do livro “Seneca: The Tragedies”. Naquele tempo, os primeiros cristãos tinham hábitos vegetarianos e partilhavam da compaixão por todas as criaturas.

Séneca escreveu que os princípios pitagóricos que envolvem a abstenção do consumo de carne favorecem a bondade e a inocência. E mesmo que os benefícios desse não consumo não fossem aqueles enumerados por Pitágoras, principalmente no que diz respeito à metempsicose ou transmigração de almas, que fala que devemos respeitar todas as criaturas porque nós também podemos renascer como animais não humanos, há algo que, do ponto de vista de Séneca é inquestionável – o fato de que abdicar do consumo de animais aproxima o ser humano da frugalidade e o afasta da crueldade contra animais não humanos.

“Eu simplesmente me privo da comida dos leões e dos abutres. […] Nós só reconhecemos o som da razão quando nos separamos da multidão. O próprio fato da aprovação da multidão é uma prova da falta de prática ou de opinião. Pergunte o que é melhor, não o que é costume. Deixe-nos amar a temperança – sejamos justos – deixemos nos abster do derramamento de sangue. Ninguém está tão perto dos deuses quanto aquele que demonstra bondade”, registrou Séneca na epístola 108 de “Epistulae Morales ad Lucilium”.

Séneca cita os ensinamentos de Sotion que afirmava que o homem pode encontrar suficiência de alimentos sem precisar explorar ou matar animais. Segundo ele, a crueldade tornou-se habitual a partir do momento em que a prática de abater animais foi associada à gratificação do apetite. “Movido por esses argumentos, resolvi abster-me do consumo de carne e, no final de um ano de abstinência, foi tão fácil quanto prazeroso”, confidenciou nas epístolas.

De acordo com The Hidden History of Greco-Roman Vegetarianism, de Nathan Morgan, Séneca também foi influenciado pelos ensinamentos de Epicuro e, ao adotar uma “alimentação vegetariana”, ele também passou a criticar a crueldade dos jogos romanos oferecidos como distração aos cidadãos. O que ele definia como uma das decadências de seu tempo, pelo fato de não haver necessidade de instigar a rivalidade entre seres humanos e não humanos.

Em crítica aos hábitos alimentares exóticos da época, o filósofo romano declarou que ninguém precisava de javalis de mais de 450 quilos nem da língua de pássaros raros para satisfazer o paladar ou a fome, em crítica aos excessos despertados pelo consumo de carne: “Devo admirar você somente quando não desprezar o pão simples, quando você se convencer de que as ervas não existem apenas para os outros animais, mas para o seres humanos também. Os vegetais são o suficiente para o nosso estômago e para garantir a continuidade de nossas valiosas vidas.”

Na página 546 do livro “The Oxford Handbook of Animals in Classical Thought and Life”, editado por Gordon Lindsay Campbell, Daniel A. Dombrowski informa que Séneca acreditava que a causa psicológica do consumo de carne estava relacionada à ambição humana. Essa afirmação vai ao encontro das “Cartas a Lucílio”, especialmente a passagem em que ele lamenta que incontáveis navios de todos os mares eram deslocados com provisões para alimentarem apenas uma boca, uma poderosa, mas ainda assim uma única boca humana, enquanto um boi ficava satisfeito com a pastagem de um ou dois acres.

Ele também observou que enquanto uma floresta era o suficiente para vários elefantes o ser humano seguia sua nefasta jornada como o responsável pela pilhagem de toda a terra e de todos os mares. Isso explica ainda porque ele costumava se referir aos glutões que consumiam grandes quantidades de carne como “escravos da barriga”. Defensor de uma alimentação simplificada, e que não incluía alimentos de origem animal, na epístola 95, Séneca aponta como um problema o surgimento de uma força “supernumerosa” de médicos, de instrumentos cirúrgicos e medicamentos, porque isso significava que o número de pessoas doentes estava aumentando vertiginosamente.

O filósofo romano via isso como consequência de maus hábitos alimentares, entre os quais os excessos do consumo de alimentos de origem animal. “Muitos pratos induziram a muitas doenças. Observe o quão vasta é a diversidade de vidas que um estômago recebe. Insaciável, insondável, a gula procura cada terra e cada mar. Alguns animais perseguimos com armadilhas, redes de caça, ganchos, não poupamos nenhum tipo de trabalho para submetê-los ao nosso jugo. Não há permissão para qualquer espécie viver em paz.  Não é de se admirar que com uma dieta tão exagerada as doenças variam tanto”, lamenta na epístola 95.

Correndo o risco de ser executado como um traidor, Séneca foi obrigado pelo governo imperial a abdicar da abstenção de alimentos de origem animal. Seus hábitos alimentares passaram a ser vistos como uma ameaça à ordem. No entanto, isso não o impediu de estimular outras pessoas a seguirem por esse caminho por meio de suas 124 cartas, mais tarde transformadas na famosa obra “Epistulae Morales ad Lucilium”. Ainda assim, abdicar de sua nutrição essencialmente vegetal também não o impediu de ser morto, já que o imperador Nero o acusou de participar de uma conspiração para assassiná-lo.

Até hoje a maior parte dos pesquisadores da história e da obra de Séneca defendem que ele jamais participou desse plano. A desconfiança de Nero, supostamente reforçada pela inveja que ele tinha do prestígio de seu conselheiro, custou a vida do filósofo romano que foi compelido a suicidar-se em Roma aos 68 anos, no ano 65 do século I. Além de suas cartas e ensaios filosóficos, outro importante legado deixado por Séneca são as tragédias “Medeia” e “Tiestes”, que influenciaram a tragédia e o drama europeu durante e após o Renascimento.

No livro “Ethics of Diet”, publicado em 1883, Howard Williams enfatiza que Séneca foi um ser humano excepcional, de pensamentos elevados, e essencialmente bom no melhor sentido da palavra; que não se limitava ao lugar-comum e a uma moral convencional. Diferente da maioria dos oradores de sua época, que conquistavam facilmente aprovação e aplausos com seus enunciados clichês, Séneca instigava a dúvida e a reflexão, porque entendia que só a mudança de consciência e pensamento poderia permitir ao ser humano rever a sua conduta de vida em todas as suas relações. E os seus discursos não raramente demandavam abnegação, autocontrole e uma consciência para além da concepção ortodoxa do mundo e da vida.

Saiba Mais

Lúcio Aneu Séneca, filho de Séneca o Ancião, nasceu em Córdova, atual Andaluzia, no ano 4 antes da Era Cristã. Por influência de sua tia, acabou eleito questor após o ano de 37 do século I, o que lhe deu o direito de ocupar um lugar no senado romano. Séneca foi considerado o mais importante filósofo estoico durante o Renascimento.

Referências

Seneca. Letters From A Stoic: Epistulae Morales AD Lucilium: All Three Volumes.  CreateSpace Independent Publishing Platform; Combined edition (2014).

Phillips, Howard. The Ethics of Diet: An Anthology of Vegetarian Though. White Crow Books (2010).

Campbell, Gordon Lindsay. Daniel A. Dombrowski. The Oxford Handbook of Animals in Classical Thought and Life. Oxford University Press (2014).

Seneca. Seneca: The Tragedies. Página 20. Series: Complete Roman Drama in Translation. Johns Hopkins University Press; 1st edition (1995).

Morgan, Nathan. The Hidden History of Greco-Roman Vegetarianism. Encyclopedia Britannica. Advocacy for Animals (2010).

Tyson, Jon-Wynne. The Extended Circle: A Dictionary of Humane Thought. Penguim Group. United Kingdom (1990).

 





 

Pitágoras, o primeiro filósofo grego a reprovar o consumo de carne e a matança de animais

without comments

“Enquanto come as articulações de um cordeiro, você festeja com seus bons amigos e vizinhos”

Pitágoras: “Enquanto o ser humano for implacável com as criaturas vivas, ele nunca conhecerá a saúde e a paz” (Pintura: Peter Paul Rubens)

Dos filósofos da Grécia Antiga, Pitágoras é sempre apontado como o primeiro a questionar e a criticar o consumo de carne e a matança de animais. A ele é atribuída a célebre frase: “Enquanto o ser humano for implacável com as criaturas vivas, ele nunca conhecerá a saúde e a paz. Enquanto os homens continuarem massacrando animais, eles também permanecerão matando uns aos outros. Na verdade, quem semeia assassinato e dor não pode colher alegria e amor.” Tal frase foi registrada pelo poeta romano Ovídio, reproduzindo o discurso do filósofo grego.

Embora Pitágoras tenha se aproximado do que seria definido mais tarde como um tipo de vegetarianismo místico, há registros e histórias que revelam que ele realmente se preocupava com os animais não humanos, não apenas com a mácula e com a violência que o consumo de animais poderia causar e estimular. Pitágoras não considerava somente que a abstenção do consumo de animais era algo que poderia permitir que o ser humano alcançasse um grau mais elevado de consciência.

Ademais, independente de sua motivação em relação à defesa do não consumo de carne, o filósofo grego que nasceu em Samos séculos antes do surgimento do cristianismo é uma prova do quão é equivocada a crença de que a rejeição ou a crítica ao consumo de animais é uma premissa contemporânea. Esse seu posicionamento, em menor ou maior proporção, influenciou diretamente filósofos e pensadores como Plutarco, Sócrates, Platão, Teofrasto, Empedócles, Ovídio, Séneca e Apolônio de Tiana, entre outros.

Pitágoras chegou a associar o ato de comer carne com uma forma de canibalismo, e naturalmente o ato de matar animais para consumo como assassinato. Para entender essa sua posição basta partirmos da perspectiva de que nós seres humanos também somos animais, portanto, temos um vínculo de parentesco com os animais. Mas ainda assim nos alimentamos de animais.

Ele acreditava que tanto os animais humanos quanto os não humanos têm alma. A sua crença na transmigração de almas, ou seja, na ideia de que seres humanos podem renascer como animais não humanos e vice-versa endossava a sua posição, embora com um viés místico que mais tarde seria rejeitado pelo vegetarianismo ético. Porém, nem por isso, Pitágoras deixou de influenciar o vegetarianismo ético e até mesmo o veganismo como conhecemos hoje, já que à sua maneira, e considerando o contexto da época, ele também questionava a objetificação animal.

“As proibições de Pitágoras contra a matança e o consumo de animais não eram baseadas em superstições, totemismos ou tabu”, afirma a pesquisadora Mary Ann Violin no artigo “Pythagoras – The First Animal Rights Philosopher”, que integra o volume 6 do jornal de filosofia “Between the species”, publicado em 1990. Pitágoras defendia que não é menos bárbaro derramar o sangue de um animal do que o de um ser humano.

O filósofo grego expressou horror pela ideia de colocarmos cadáveres de outros animais dentro de nós. Ele considerava errado nos alimentarmos da “triste carne de animais assassinados”. Como registrado na obra “Metamorfoses” de Ovídio, Pitágoras disse algo como: “Enquanto come as articulações de um cordeiro, você festeja com seus bons amigos e vizinhos.” Pitágoras dizia que os açougueiros eram insensíveis às súplicas de um cordeiro ou bezerro, apesar do fato de seus gritos serem semelhantes aos gritos de um bebê.

Também foi Ovídio quem retratou Pitágoras como um filósofo que suplicava aos seres humanos para demonstrarem compaixão pelo sofrimento de todos os seres sencientes. Além das menções a ele na obra “Metamorfoses”, outro exemplo é uma história narrada pelo filósofo neoplatônico Jâmblico e mais tarde publicada no livro “Life of Pythagoras”, traduzido por Thomas Taylor e lançado em 1818 pela J.M. Watkins, da Inglaterra.

Jâmblico conta que quando Pitágoras estava viajando ao longo da praia de Síbaris para Crotona, ele conheceu alguns pescadores cuja rede ainda estava no mar. Naquele dia, Pitágoras previu o número de peixes que eles pegariam. Intrigados, os pescadores concordaram em fazer qualquer coisa se ele estivesse certo. Quando a rede foi trazida à terra, e os peixes contados, Pitágoras acertou o número exato de peixes e pediu que fossem devolvidos à água. Assim foi feito. Curiosamente, nenhum dos peixes morreu durante a contagem. Pitágoras deu aos homens o dinheiro que eles ganhariam com os peixes e seguiu a sua jornada para Crotona.

Pitágoras era um pensador à frente do seu tempo, tanto que entre seus alunos e seguidores haviam mulheres, ex-escravizados e bárbaros. De acordo com o biógrafo Diógenes Laércio, Pitágoras libertou um jovem chamado Zalmoxis e fez dele seu amigo. Sua escola de filosofia fundada em Crotona se destacava pela organização e pelas regras relativas à conduta prática e moral.

Segundo Mary Ann Violin, Pitágoras se negou a fazer distinção da carne e do sangue de animais humanos e não humanos. O filósofo costumava contar aos seus alunos e seguidores sobre uma era de ouro em que os lábios das pessoas não estavam “contaminados com sangue”. Enfatizava que era um tempo sem violência, em que todos viviam em paz. E foi exatamente pela repulsa à violência contra seres humanos e não humanos que quando Pitágoras e seus seguidores se reuniam em sacrifício aos deuses, eles apenas queimavam incensos e ofereciam mudas de carvalho a Zeus, louro a Apolo, rosa a Afrodite e videira a Dionísio. “Muitos contos milagrosos foram contados sobre Pitágoras e seu relacionamento com os animais”, escreveu Mary Ann no artigo “Pythagoras – The First Animal Rights Philosopher”.

Para o pesquisador Nathan Morgan, autor de “The Hidden History of Greco-Roman Vegetarianism”, publicado em 2010 pela Encyclopaedia Britannica, Pitágoras foi o primeiro filósofo do ocidente a deixar um legado vegetariano. “Ele sentiu que o consumo de carne era insalubre e fazia com que os humanos guerreassem uns com os outros. Por estas razões, ele se absteve da carne e encorajou os outros a fazerem o mesmo”, declarou Morgan.

Na biografia “Life of Pythagoras”, Jâmblico pontua que Pitágoras exortou os políticos de seu tempo a absterem-se do consumo de carne. Pois, se eles estavam dispostos a agirem com justiça em seu mais alto grau, era indiscutivelmente importante incumbi-los a não ferirem nenhum dos “animais inferiores”. Conforme palavras de Pitágoras registradas pelo filósofo neoplatônico, como eles poderiam persuadir os outros a agirem com justiça, se eles próprios provavam que se entregavam a uma avidez insaciável que consiste em devorar esses animais que nos são aliados? Pois, por meio da comunhão da vida estão, por assim dizer, unidos a nós por uma aliança fraterna.

Já a Stanford Encyclopedia of Philosophy, destaca que Pitágoras defendeu o vegetarianismo com base na sua crença na metempsicose, ou seja, na crença de que um mesmo espírito, após a morte do antigo corpo habitado, retorna à existência material, podendo reencarnar como ser humano ou não humano. Logo todos os animais devem ser respeitados. Também cita que Eudoxus de Cnido registrou que além de Pitágoras se abster de alimentos de origem animal, ele evitava proximidade com açougueiros e caçadores. A Stanford Encyclopedia of Philosophy informa ainda que, consoante Porfírio, Pitágoras sugeriu que devemos evitar consumir qualquer animal como se fôssemos consumir seres humanos.

A ética pitagórica que reprovava o consumo de animais teve um importante papel enquanto moral filosófica entre os anos de 490 a 430 a.C. O objetivo de Pitágoras, conforme registros de seus biógrafos e seguidores, era estimular a consciência do respeito à vida independente de espécie. O filósofo grego reconhecia as diferenças entre animais humanos e não humanos em relação ao raciocínio e à consciência. Por outro lado, via similitude principalmente em relação à senciência. O fato dos animais não verbalizarem suas necessidades, não deveria ser motivo para fazer deles um alvo fácil para a humanidade, na perspectiva pitagórica.

Incisivo em seu posicionamento, Pitágoras reprovava o sacrifício de animais e proibia que seus alunos ou seguidores tomassem parte nessa prática que considerava espúria. Acredita-se que o filósofo grego tenha decidido se abster do consumo de animais aos 19, 20 anos, passando a priorizar especialmente o consumo de ervas. Contudo, há divergências sobre como eram de fato os seus hábitos alimentares.

Segundo a obra “Life of Pythagoras”, de Jâmblico, Pitágoras passou a defender invariavelmente a abstinência do consumo de animais, justificando ser uma rejeição determinante para alcançar até mesmo a paz. Argumentava que aqueles que consideravam errada e desnecessária a morte de animais não humanos eram os mesmos que reprovavam a morte de pessoas e o surgimento das guerras. Pitágoras qualificava a guerra como um grande matadouro, e se tal matadouro banalizava a vida humana, mais ainda desvalorizava a vida não humana.

De acordo com Jâmblico, o filósofo grego de Samos relatou que só aquele que reconhece a comunidade de elementos que envolve os seres humanos e os animais é capaz de estabelecer em maior grau uma comunhão com aqueles que compartilham uma alma afim e racional. Advertiu também que a justiça é introduzida pela associação com outras pessoas, enquanto a injustiça é resultado da insociabilidade e negligência humana no que diz respeito a muitas coisas, inclusive o desinteresse ao que não nos parece conveniente.

Embora a história de Pitágoras esteja às voltas com inúmeras controvérsias, até pelo fato de sua vida e obra terem sido narradas e registradas por seus alunos e seguidores, é inegável que chama a atenção reconhecer que há 2,5 mil anos um filósofo fez oposição ao consumo de animais. No entanto, não é difícil encontrar pessoas questionando sobre o motivo pelo qual essa parte da vida de Pitágoras foi tão negligenciada pela história. Afinal, ele é mais conhecido como matemática, e basicamente pela associação de seu nome ao Teorema de Pitágoras.

Sobre isso, uma observação que talvez seja necessária é a de que Aristóteles fez franca oposição ao seu discurso contra a matança de animais. E como Aristóteles enquanto filósofo obteve muito mais êxito no Ocidente, inclusive endossando uma consciência antropocêntrica que reconhecia os animais apenas como seres disponíveis ao uso humano, a filosofia de Pitágoras acabou obscurecida e relegada a um universo menor. Já Aristóteles, que rejeitou a racionalidade animal não humana, ajudou a formar parte da base da atitude cristã ocidental, defendendo assim que criaturas sencientes não humanas poderiam sim ser privadas de justiça e da própria existência, já que isso beneficiaria uma espécie superior, ou seja, a espécie humana.

Saiba Mais

Entre os vegetarianos, Pitágoras foi um nome de grande relevância até o século 19, tanto que até então os protovegetarianos e vegetarianos eram chamados de pitagóricos.

Pitágoras nasceu em Samos em 570 a.C e faleceu em Crotona ou Metaponto em 495 a.C.

Referências

Violin, Mary Ann. Pythagoras – The First Animal Rights Philosopher. Between the Species. Páginas 122-125 (1990).

Iamblichus. Thomas Taylor. The Life of Pythagoras. J.M. Watkins. London (1818).

Morgan, Nathan. The Hidden History of Greco-Roman Vegetarianism. Encyclopaedia Britannica (2010).

Ovid. Metamorphoses. Oxford World’s Classics. Oxford University Press (2009).

Wynne-Tyson, Jon. The Extended Circle: A Dictionary of Humane Thought. Penguin Group (1990).

Pythagoras. Stanford Encyclopedia of Philosophy (2005-2014).





 

A polêmica do chimarrão

without comments

Fotos: David Arioch/Bombas Fama

Ontem, compartilhei em algumas mídias sociais uma receita de um hambúrguer vegetal que, por sugestão de uma amiga, dei o nome de “Chimarrão”. Por causa disso, três pessoas entraram em contato comigo reclamando do nome que dei à receita. Uma dessas pessoas chegou a me dizer que o chimarrão pertence à cultura do Rio Grande do Sul, logo é um equívoco eu dar esse nome a uma das minhas receitas. Outra se referiu ao chimarrão como se eu não soubesse que ele é tradicional no Rio Grande do Sul. Sempre tive muito respeito pelos camaradas gaúchos, inclusive aqueles que são migrantes e hoje vivem no Paraná, que é o estado onde vivi a minha vida toda.

Além de eu não ver razão para polemizar sobre o nome da receita, acho válido fazer uma observação; que tenhamos cuidado quando atribuímos uma ideia de posse a algo que embora esteja inserido em um contexto cultural não significa que pertença a ele. Um grupo, uma região ou até mesmo um país adotar uma tradição não significa que pertença a eles, ou que seja um símbolo restrito de sua cultura e de seu povo.

Historicamente, o chimarrão não tem donos, tanto que se abordarmos a questão histórica dessa bebida é importante não desconsiderar que os índios de etnia guarani, quíchua, caingangue e aimará já a consumiam em regiões que hoje pertencem a diversos países da América do Sul, não apenas uma região, nem mesmo um estado; e isso muito antes da chegada (ou invasão, como você preferir) dos ocidentais.

Estudei a história do Norte do Paraná entre os anos de 2006 e 2016, e nesse período visitei algumas ruínas indígenas como as de Loreto, e lá encontrei cuias que os caiuás usavam para consumir chimarrão no século 16 (posso provar), às margens do Rio Paranapanema. Essa localidade fica a menos de 150 quilômetros da minha casa, e à época pertencia à Província de Guaíra, território paraguaio.

Mas o que eu quero dizer com isso? Que não vejo o menor sentido quando as pessoas falam em “posse cultural”, porque muito do que conhecemos como cultura envolve transferência, modificação, adaptação e aperfeiçoamento, o que não quer dizer que, reafirmando mais uma vez, se conhecemos um elemento cultural em um contexto, isso significa que tenha sido gestado ali, ou que esteja restrito àquela cultura. Além disso, o próprio Veríssimo, que foi um dos maiores escritores da literatura gaúcha e brasileira do século 20 já discorreu sobre isso.





Written by David Arioch

January 3rd, 2018 at 10:55 am

Conversando com crianças e pré-adolescentes sobre veganismo

without comments

Lembranças que os alunos fizeram para mim em retribuição à minha visita (Foto: David Arioch)

A convite da professora Rosana Martineli, fui hoje à Escola Estadual Curitiba conversar com crianças e pré-adolescentes sobre história, contos e veganismo. Mais uma vez, uma experiência muito legal. Em um determinado momento, depois de eu falar um pouquinho sobre o que é ser vegano, e por iniciativa dos próprios alunos que tinham muita curiosidade em relação ao tema, um deles me perguntou:

— Mas você não precisa de carne?

— Será? Olhando pra mim, você acha que eu preciso de carne?

Muitos alunos riram.

— Não…humm…vou parar de comer carne também.

Em outro momento, outro aluno me perguntou o que eu faria se estivesse em uma ilha e precisasse comer um animal para sobreviver.

— Bom, acredito que isso não é algo que aconteceria facilmente, mas hipoteticamente se estou em uma ilha, e se nessa ilha há arvores, eu provavelmente recorreria em primeiro lugar aos frutos dessas árvores. Além disso, não há garantia nenhuma de que esse suposto animal seja o meu alimento, e não eu o alimento dele caso ele seja carnívoro. Por quê? Não tenho dúvida nenhuma de que as habilidades naturais de caça de um animal selvagem são muito superiores à humana. Afinal, o ser humano só é bom caçador quando está bem munido para a caça, ou seja, com armas em punho, e preparando-se para atingir um animal de forma traiçoeira, às escondidas, não é mesmo? Eu particularmente desconheço um ser humano que enfrente um animal selvagem com os próprios braços e de frente. Acho que há várias possibilidades que não podem ser descartadas. Mas é importante entender também que veganismo não é baseado em improbabilidades, no que é vagamente possível. É sobre eu fazer o possível para não tomar parte na exploração, na violência contra animais. Quero viver, certo? Eles também querem. Sigo esse caminho de reconhecer que eles também têm esse direito, e por isso não me alimento deles, assim como tenho a preocupação de não usar nada de origem animal.





Boi Velho

without comments

Pintura: Mykola Pymonenko

Quando eu era criança, meu avô me contou a história do Boi Velho, um bovino que viveu por 31 anos em um sítio perto do Povoado de Cristo Rei. Quando jovem, seu nome era Bolgar, mas passou mais da metade de sua vida sendo chamado de Boi Velho. Por causa desse nome, muita gente acreditava que ele nasceu velho.

Bolgar era manso, tão manso que as crianças que viviam na região saíam até uma hora mais cedo de casa para brincar com ele antes de partirem para a escola. Mesmo com a idade avançada, o Boi Velho deitava no pasto e rolava como uma criança sobre o descampado. Às vezes, os garotos tinham que ajudá-lo a tirar o capim que invadia suas narinas.

Seus olhos eram cristalinos; uns dizem que pela idade, outros pela bondade. Um dia, Toninho, uma das crianças que visitava o Boi Velho todos os dias, massageou o pelo do boi, chorou e disse: “Não como mais seus irmãos, Boi Velho. E meus irmãos também vão parar. Prometo pra você!” Uma das crianças entendeu o que Toninho falou para o boi. Outras, não.

— Vocês abraçam o Boi Velho e depois vão comer carne na janta. Vocês tão errado — insistia o menino.
— Errado? Por que errado? — perguntaram.
— Olhe só, o Boi Velho é da mesma carne que vocês comem, que vocês gostam de comer. Vocês já pensaram em fazer churrasco do Boi Velho?
— Claro que não, né? Você é doido? Isso é horrível! Quero não!
— Ué, então não come os outros.
— Humm…

Alguns dos garotos se recordavam das palavras de Toninho, mas logo que chegavam em casa e sentiam o cheiro de carne cozida ou assada, esqueciam completamente. O paladar sempre vencia, mas Toninho não desistia. Num final de tarde, conversou com Seu Boni e pediu autorização para fazer uma surpresa para os amigos. O velho que cuidou a vida inteira de Bolgar concordou.

— Tá certo. Vá lá — respondeu o velho húngaro.

Toninho chamou o seu tio Magrão para encontrá-los no sábado à tarde no sítio do Seu Boni. Quando os garotos chegaram ao local, Magrão estava afiando uma faca longa com cabo de madeira. Movia a lâmina de um lado para o outro, e de ponta a ponta com destreza.

— Que isso? O que o seu tio tá fazendo, Toninho?
— Não sei! Deixe ele.
— Mas cadê o Boi Velho?
— Sei lá!

Magrão chamou a atenção dos sete garotos que o rodeavam e caminhou até um barracão.

— Vocês fiquem aqui que eu vou preparar a carne pra vocês, tá bom? Sei que vocês gostam muito de carne.
— Quê? Que carne? — questionou Laurinho.

Seguiram Magrão, mas foram impedidos de entrar no barracão. Não era possível ver nada. Só ouvir. Quanta agitação. Havia algo de errado na ausência do Boi Velho.
Golpes. Mugidos. Gemidos. Cascos se batendo contra o chão. Violência. Violência. As crianças começaram a gritar e a chorar.

— O que você tá fazendo com o Boi Velho, tio? Pelo amor de Deus! Não mata ele. Pelo amor de Deus! — suplicavam.
— Por que você não faz nada, Toninho?

Toninho se afastou sem dizer palavra.

— Tá bom! Tá bom! A gente não quer carne. A gente não quer mais saber de carne. Nunca mais vou comer carne. Prometo! Prometo mesmo!
— É verdade, juro!
— É sim, tio! Solta ele!
— Ele é nosso melhor amigo. Faz isso não, tio!
— Tô pegando raiva e nojo de carne. É sério!

Tarde demais. O que tá feito tá feito — gritou Magrão lá de dentro, fazendo sua voz grave e fúnebre ecoar.

Choro. Choro. Choro. Berro. Berro. Berro. Lágrimas. Quando Magrão abriu a porta do barracão, não havia mais ninguém lá dentro. O Boi Velho, que repousava ao lado da mangueira, se levantou e caminhou até as crianças. Lágrimas e risos. Risos e lágrimas. O boi assistiu tudo, imerso na sua mansidão. Correram e o abraçaram. Bolgar caiu no chão feito criança. Nenhum dos garotos comeu carne novamente.

Contribuição

Este é um blog independente, caso queira contribuir com o meu trabalho, você pode fazer uma doação clicando no botão doar:





Tudo que você compra tem uma história

without comments

Já parou para pensar em quantas histórias você conhece por trás dos produtos que compra?

Tudo que você compra tem uma história. Já parou para pensar em quantas histórias você conhece por trás dos produtos que compra? É exatamente quando ignoramos a história do que compramos que somos negligentes a até mesmo coniventes quando existe algum tipo de injustiça por trás daquilo que consumimos.

Nos submetemos aos mais diferentes tipos de indústria que exploram vidas porque normalmente somos preguiçosos e individualistas demais para nos importar. Em síntese, somos consumidores alheios. Confiamos tanto nessa indústria que achamos que ela quer sempre o nosso melhor, quando na realidade não faltam exemplos de que a maior prioridade não é te satisfazer, mas sim vender.

Há exploração por trás de tantos produtos, que vão dos gêneros básicos aos mais supérfluos. Mas não queremos enxergar, porque se fizermos isso não teremos como negar que não sabíamos. Prefere-se uma vida de ilusão, onde eu e os meus merecemos o melhor, e os outros, tanto faz, mesmo que tenhamos a oportunidade de mudar isso, de fazer a diferença em suas vidas.

A exploração que existe por trás de tantos produtos deveria ser o suficiente para estimular o consumo consciente, a pesquisa, a compreensão de que não devemos compactuar com empresas que exploram vidas, que matam seres inocentes por nada. Quero dizer, por dinheiro.

Se uma indústria não se importa em explorar cruelmente os animais, sejam eles humanos ou não, por que ela iria se importar com você? Isso é um indicativo de que ela se importa apenas com o seu dinheiro, o seu poder de compra, simplesmente. E se você tem dinheiro aliado à desinformação e indiferença, ou seja, todos os ingredientes que ajudam a perpetuar essa exploração e violência contra outras formas de vida, eles não têm porque parar.

Contribuição

Este é um blog independente, caso queira contribuir com o meu trabalho, você pode fazer uma doação clicando no botão doar:





O veganismo não existia antes da Vegan Society

without comments

A Vegan Society foi a primeira organização a realmente defender os direitos animais

Muitas pessoas falam que o veganismo já existia no Oriente antes dele ter surgido na Inglaterra em 1944. Creio que seja um equívoco, simplesmente porque não havia nenhum movimento bem articulado como aquele que surgiu por proposição da Vegan Society, voltado para a questão dos direitos animais. O que existiu antes foram ações pontuais ou limitadamente específicas, e muitas delas inclusive realizadas de forma independente ou por pequenos grupos. Ou seja, sem objetivos claramente definidos e sem formatação de ativismo nos moldes atuais; ou mesmo um plano contínuo e abrangente de ações.

Tivemos figuras históricas que provavelmente hoje seriam consideradas protoveganas ou veganas, e deram sua valiosa contribuição ao longo dos séculos. No entanto, viviam a vida à sua maneira, sem grande articulação coletiva, e provavelmente por causa das limitações da época e da falta de informações, sem uma compreensão mais valorosa do direito à vida não humana. Antes, o mais próximo que tivemos do veganismo foi o vegetarianismo ético encabeçado por escritores como o britânico Percy Shelley e outros pensadores, que viam falhas na consciência vegetariana da época. Esses personagens foram influenciados pelos pensadores da Grécia Antiga, como Plutarco, Pitágoras, Empedócles, Teofrasto, Plotino e Porfírio, entre outros.

Ou seja, eles usaram como referência as ideias dos gregos, que traziam uma forte influência de uma forma inominada de vegetarianismo místico, a absorveram e a transformaram em um modelo de vegetarianismo mais pragmático, ou seja, ético. Sendo assim, ouso dizer que mais tarde o veganismo surgiu para cobrir as lacunas do vegetarianismo ético na década de 1940, como uma reação ao comodismo das sociedades vegetarianas que em sua maioria eram bem-estaristas, indo inclusive contra o que defendiam os vegetarianos do Período Romântico.

Outro fato a se considerar é que o vegetarianismo ético surgiu no Ocidente. O vegetarianismo oriental é o vegetarianismo místico e religioso, e por isso há disparidades substanciais quando falamos em direitos animais. A princípio, o vegetarianismo místico teve influência sobre o vegetarianismo ético. Porém, se voltava mais para a individualidade, não para a coletividade, além de colocar o ser humano como protagonista e principal beneficiado. Sendo assim, é um equívoco dizer que o veganismo existiu em outras partes do mundo antes do Ocidente, já que a defesa maior do veganismo são os direitos animais, e sem qualquer vinculação com misticismo ou religiosidade. Logo, não houve de fato veganismo antes da Vegan Society.

Contribuição

Este é um blog independente, caso queira contribuir com o meu trabalho, você pode fazer uma doação clicando no botão doar:





Written by David Arioch

July 16th, 2017 at 1:34 am

Plotino: “Os animais têm sentimentos, portanto sentem prazer e dor”

without comments

Plotino se recusava a consumir medicamentos com ingredientes de origem animal

Vários seguidores de Plotino não eram apenas vegetarianos, mas também vegetarianos éticos

Mestre de Porfírio, seu discípulo que escreveu “Da Abstinência do Alimento Animal”, considerada por inúmeros pesquisadores como a obra mais importante da Grécia Antiga sobre a abstenção do consumo de animais, Plotino foi um filósofo neoplatônico que melhor assimilou e aperfeiçoou não apenas os ensinamentos de Platão, mas também de Pitágoras e Plutarco, autor de “Do Consumo da Carne”, outra obra igualmente relevante na discussão sobre o tema.

Um asceta moderado, Plotino ficou famoso pela autoria das “Enéadas”, obra fundamental da filosofia ocidental que reúne 54 tratados em seis capítulos. Compilada e editada por Porfírio no ano de 270, as “Enéadas” são baseadas principalmente no conteúdo de palestras e debates de Plotino com seus alunos ao longo de 17 anos.

O filósofo neoplatônico estudou em Alexandria e na Pérsia antes de se mudar para Roma, onde fundou a sua própria escola. No livro “Sins of the Flesh: A History of Ethical Vegetarian Thought”, o pesquisador Rod Preece afirma que Plotino, que provavelmente era de origem romana e nasceu no Egito, foi protovegetariano a maior parte de sua vida. Defensor do ascetismo moderado, Plotino começou a se questionar sobre os hábitos alimentares da época que, segundo ele, tinham grande influência sobre o comportamento e a personalidade humana, incluindo sua relação com a vida e o mundo.

Nas “Enéadas”, ele declara que os animais têm sentimentos, portanto sentem prazer e dor. Na perspectiva de Plotino, a dor é a aisthesis, a percepção do corpo despojado. Ele usa o conceito de pathos como representação da empatia, do sentimento e da ligação afetiva quando diz que, conscientes, somos sensibilizados diante de uma situação em que a vítima morre ou sofre desnecessariamente; como é o caso dos animais não humanos há muito explorados. Quem também defende a ideia de que Plotino foi um importante nome na discussão do que se tornaria o vegetarianismo ético é o pesquisador Gordson Lindsay Campbell, editor de “The Oxford Handbook of Animals in Classical Thought and Life”.

“Embora não haja provas conclusivas, o estrito ascetismo de Plotino provavelmente incluiu o vegetarianismo, mesmo que o seu biógrafo, Porfírio, não tenha conseguido escrever por Plotino em relação ao assunto”, registrou Preece. Apesar disso, o que reforça a ideia de que Plotino realmente se voltava para a questão do que futuramente seria os direitos animais era a sua recusa em consumir medicamentos com ingredientes de origem animal, conforme informações do livro “Sins of the Flesh: A History of Ethical Vegetarian Thought”.

Preece afirma que vários seguidores de Plotino não eram apenas vegetarianos, mas inclusive vegetarianos éticos. E o argumento fundamentado nas ideias do filósofo neoplatônico, e que teve continuidade com Porfírio, é de que o ser humano precisava mudar a sua relação com os animais e se libertar das calamidades do corpo. Assim, é justo dizer que os ensinamentos de Plotino influenciaram Porfírio a escrever “Da Abstinência do Alimento Animal”, obra também influenciada por Pitágoras, sobre quem o discípulo de Plotino escreveu uma biografia.

Em “Vegetarianism – A History”, Jon Gregerson diz que para Plotino a única forma da humanidade alcançar a realidade suprema seria tratando todos os animais com respeito e compaixão. Ou seja, reconhecendo primordialmente o direito à vida, sem os prejuízos da exploração humana. “Porfírio deu continuidade ao trabalho de Plotino, apresentando evidências observacionais e históricas em defesa do vegetarianismo e da racionalidade dos animais”, enfatizou Nathan Morgan, autor de “The Hidden History of Greco-Roman Vegetarianism”. Influenciado por Plotino, Porfírio qualificou o consumo de carne como um encorajador da violência. Ademais, apresentou ideias antes defendidas pelo seu mestre neoplatônico de que os animais têm capacidade de raciocínio. Assim sendo, não faltam razões para estender a justiça a eles.

Kerry S. Walters e Lisa Portmess, autores de “Religious Vegetarianism: From Hesiod to the Dalai Lama”, apontam Plotino como o responsável pela consciência vegetariana de Porfírio, que também se inspirava em Pitágoras e Empedócles. A obra “Da Abstinência do Alimento Animal”, do filósofo neoplatônico foi uma reação argumentativa ao abandono do filósofo Firmus Castricius, que deixou a Escola de Plotino para renunciar à dieta vegetariana e se juntar aos cristãos.

Do livro 1 ao livro 4 de “Da Abstinência do Alimento Animal”, Porfírio defendendo o estilo de vida apregoado pela Escola de Plotino, assinala que o consumo de carne é intemperante, logo incompatível com a vida filosófica. Ele argumenta que o sacrifício de animais é ímpio, que os animais merecem um tratamento justo e que os sábios do passado condenavam o consumo de carne.

Embora o mestre de Plotino não tenha falado abertamente do vegetarianismo na obra “A República”, tudo leva a crer que Platão via com bons olhos a abstenção do consumo de carne. Prova disso é o fato de que muitos neoplatônicos se identificavam com uma vida livre do consumo de carne. “Publicamente, sua dieta era aceitável como parte do verdadeiro ascetismo. Portanto, não atraiu controvérsia”, pontuou Colin Spencer em “The Heretic’s Feast: A History of Vegetarianism”.

Outro fato revelador é que no século 3 Plotino conseguiu aprovação e apoio do Imperador Galiano para construir o que poderia ter sido a primeira cidade vegetariana ocidental, e que teria como referência a República de Platão. O seu nome seria Platonópolis. Mas o sonho de Plotino esbarrou no Senado, que vetou a sua proposta. Apesar disso, seu trabalho teve continuidade com Porfírio e outros filósofos que mais tarde influenciaram o vegetarianismo ético e a discussão em torno do que daria origem aos direitos animais.

Referências

Plotino. The Enneads: Abridged Edition. Penguin Classic (1991).

Porfírio. Gillian Clark. On Abstinence from Killing Animals (Ancient Commentators on Aristotle). Bristol Classical Press; Reprint Edition (2014).

Spencer, Colin. The Heretic’s Feast: A History of Vegetarianism. UPNE. First Edition (1995).

Preece, Rod. Sins of the Flesh: A History of Ethical Vegetarian Thought. Páginas 112-113. UBC Press (2017).

Gregerson, Jon. Vegetarianism, a History. Jain Publishing Company (1995).

Walters, Kerry; Lisa Portmess. Religious Vegetarianism: From Hesiod to the Dalai Lama. State University of New York Press (2001).

Campbell, Gordon Lindsay. The Oxford Handbook of Animals in Classical Thought and Life (Oxford Handbooks). Oxford University Press; First Edition (2014).

Walters, Kerry; Lisa Portmess. Ethical Vegetarianism: From Pythagoras to Peter Singer. State University of New York Press; Reprint Edition (1999).

The Hidden History of Greco-Roman Vegetarianism

Contribuição

Este é um blog independente, caso queira contribuir com o meu trabalho, você pode fazer uma doação clicando no botão doar: