David Arioch – Jornalismo Cultural

Jornalismo Cultural

Archive for the ‘História’ tag

Boi Velho

without comments

Quando eu era criança, meu avô me contou a história do Boi Velho, um bovino que viveu por 31 anos em um sítio perto do Povoado de Cristo Rei. Quando jovem, seu nome era Bolgar, mas passou mais da metade de sua vida sendo chamado de Boi Velho. Por causa desse nome, muita gente acreditava que ele nasceu velho.

Bolgar era manso, tão manso que as crianças que viviam na região saíam até uma hora mais cedo de casa para brincar com ele antes de partirem para a escola. Mesmo com a idade avançada, o Boi Velho deitava no pasto e rolava como uma criança sobre o descampado. Às vezes, os garotos tinham que ajudá-lo a tirar o capim que invadia suas narinas.

Seus olhos eram cristalinos; uns dizem que pela idade, outros pela bondade. Um dia, Toninho, uma das crianças que visitava o Boi Velho todos os dias, massageou o pelo do boi, chorou e disse: “Não como mais seus irmãos, Boi Velho. E meus irmãos também vão parar. Prometo pra você!” Uma das crianças entendeu o que Toninho falou para o boi. Outras, não.

— Vocês abraçam o Boi Velho e depois vão comer carne na janta. Vocês tão errado — insistia o menino.
— Errado? Por que errado? — perguntaram.
— Olhe só. O Boi Velho é da mesma carne que vocês comem, que vocês gostam de comer. Vocês já pensaram em fazer churrasco do Boi Velho?
— Claro que não, né? Você é doido? Isso é horrível! Quero não.
— Ué, então não come os outros.
— Humm…

Alguns dos garotos se recordavam das palavras de Toninho, mas logo que chegavam em casa e sentiam o cheiro de carne cozida ou assada, esqueciam completamente. Sempre vencia o paladar, mas Toninho não desistia. Num final de tarde, conversou com Seu Boni e pediu autorização para fazer uma surpresa para os amigos. O velho que cuidou a vida inteira de Bolgar concordou.

— Tá certo. Vá lá — respondeu o velho húngaro.

Toninho chamou o seu tio Magrão para encontrá-los no sábado à tarde no sítio do Seu Boni. Quando os garotos chegaram ao local, Magrão estava afiando uma faca longa com cabo de madeira. Movia a lâmina de um lado para o outro, e de ponta a ponta com destreza.

— Que isso? O que o seu tio tá fazendo, Toninho?
— Não sei. Deixe ele.
— Mas cadê o Boi Velho?
— Sei lá.

Magrão chamou a atenção dos sete garotos que o rodeavam e caminhou até um barracão.

— Vocês fiquem aqui que eu vou preparar a carne pra vocês, tá bom? Sei que vocês gostam muito de carne.
— Quê? Que carne? — questionou Laurinho.

Seguiram Magrão, mas foram impedidos de entrar no barracão. Não era possível ver nada. Só ouvir. Quanta agitação. Havia algo de errado na ausência do Boi Velho.
Golpes. Mugidos. Gemidos. Cascos se batendo contra o chão. Violência. Violência. As crianças começaram a gritar e a chorar.

— O que você tá fazendo com o Boi Velho, tio? Pelo amor de Deus! Não mata ele. Pelo amor de Deus! — suplicavam.
— Por que você não faz nada, Toninho?

Toninho se afastou sem dizer palavra.

— Tá bom! Tá bom! A gente não quer carne. A gente não quer mais saber de carne. Nunca mais vou comer carne. Prometo! Prometo mesmo!
— É verdade, juro!
— É sim, tio! Solta ele!
— Ele é nosso melhor amigo. Faz isso não, tio!
— Tô pegando raiva e nojo de carne. É sério!

Tarde demais. O que tá feito tá feito — gritou Magrão lá de dentro, fazendo sua voz grave e fúnebre ecoar.

Choro. Choro. Choro. Berro. Berro. Berro. Lágrimas. Quando Magrão abriu a porta do barracão, não havia mais ninguém lá dentro. O Boi Velho, que repousava ao lado da mangueira, se levantou e caminhou até as crianças. Lágrimas e risos. Risos e lágrimas. O boi assistiu tudo, imerso na sua mansidão. Correram e o abraçaram. Bolgar caiu no chão feito criança. Nenhum dos garotos comeu carne novamente.

Contribuição

Este é um blog independente, caso queira contribuir com o meu trabalho, você pode fazer uma doação clicando no botão doar:





Tudo que você compra tem uma história

without comments

Já parou para pensar em quantas histórias você conhece por trás dos produtos que compra?

Tudo que você compra tem uma história. Já parou para pensar em quantas histórias você conhece por trás dos produtos que compra? É exatamente quando ignoramos a história do que compramos que somos negligentes a até mesmo coniventes quando existe algum tipo de injustiça por trás daquilo que consumimos.

Nos submetemos aos mais diferentes tipos de indústria que exploram vidas porque normalmente somos preguiçosos e individualistas demais para nos importar. Em síntese, somos consumidores alheios. Confiamos tanto nessa indústria que achamos que ela quer sempre o nosso melhor, quando na realidade não faltam exemplos de que a maior prioridade não é te satisfazer, mas sim vender.

Há exploração por trás de tantos produtos, que vão dos gêneros básicos aos mais supérfluos. Mas não queremos enxergar, porque se fizermos isso não teremos como negar que não sabíamos. Prefere-se uma vida de ilusão, onde eu e os meus merecemos o melhor, e os outros, tanto faz, mesmo que tenhamos a oportunidade de mudar isso, de fazer a diferença em suas vidas.

A exploração que existe por trás de tantos produtos deveria ser o suficiente para estimular o consumo consciente, a pesquisa, a compreensão de que não devemos compactuar com empresas que exploram vidas, que matam seres inocentes por nada. Quero dizer, por dinheiro.

Se uma indústria não se importa em explorar cruelmente os animais, sejam eles humanos ou não, por que ela iria se importar com você? Isso é um indicativo de que ela se importa apenas com o seu dinheiro, o seu poder de compra, simplesmente. E se você tem dinheiro aliado à desinformação e indiferença, ou seja, todos os ingredientes que ajudam a perpetuar essa exploração e violência contra outras formas de vida, eles não têm porque parar.

Contribuição

Este é um blog independente, caso queira contribuir com o meu trabalho, você pode fazer uma doação clicando no botão doar:





O veganismo não existia antes da Vegan Society

without comments

A Vegan Society foi a primeira organização a realmente defender os direitos animais

Muitas pessoas falam que o veganismo já existia no Oriente antes dele ter surgido na Inglaterra em 1944. Creio que seja um equívoco, simplesmente porque não havia nenhum movimento bem articulado como aquele que surgiu por proposição da Vegan Society, voltado para a questão dos direitos animais. O que existiu antes foram ações pontuais ou limitadamente específicas, e muitas delas inclusive realizadas de forma independente ou por pequenos grupos. Ou seja, sem objetivos claramente definidos e sem formatação de ativismo nos moldes atuais; ou mesmo um plano contínuo e abrangente de ações.

Tivemos figuras históricas que provavelmente hoje seriam consideradas protoveganas ou veganas, e deram sua valiosa contribuição ao longo dos séculos. No entanto, viviam a vida à sua maneira, sem grande articulação coletiva, e provavelmente por causa das limitações da época e da falta de informações, sem uma compreensão mais valorosa do direito à vida não humana. Antes, o mais próximo que tivemos do veganismo foi o vegetarianismo ético encabeçado por escritores como o britânico Percy Shelley e outros pensadores, que viam falhas na consciência vegetariana da época. Esses personagens foram influenciados pelos pensadores da Grécia Antiga, como Plutarco, Pitágoras, Empedócles, Teofrasto, Plotino e Porfírio, entre outros.

Ou seja, eles usaram como referência as ideias dos gregos, que traziam uma forte influência de uma forma inominada de vegetarianismo místico, a absorveram e a transformaram em um modelo de vegetarianismo mais pragmático, ou seja, ético. Sendo assim, ouso dizer que mais tarde o veganismo surgiu para cobrir as lacunas do vegetarianismo ético na década de 1940, como uma reação ao comodismo das sociedades vegetarianas que em sua maioria eram bem-estaristas, indo inclusive contra o que defendiam os vegetarianos do Período Romântico.

Outro fato a se considerar é que o vegetarianismo ético surgiu no Ocidente. O vegetarianismo oriental é o vegetarianismo místico e religioso, e por isso há disparidades substanciais quando falamos em direitos animais. A princípio, o vegetarianismo místico teve influência sobre o vegetarianismo ético. Porém, se voltava mais para a individualidade, não para a coletividade, além de colocar o ser humano como protagonista e principal beneficiado. Sendo assim, é um equívoco dizer que o veganismo existiu em outras partes do mundo antes do Ocidente, já que a defesa maior do veganismo são os direitos animais, e sem qualquer vinculação com misticismo ou religiosidade. Logo, não houve de fato veganismo antes da Vegan Society.

Contribuição

Este é um blog independente, caso queira contribuir com o meu trabalho, você pode fazer uma doação clicando no botão doar:





Written by David Arioch

July 16th, 2017 at 1:34 am

Plotino: “Os animais têm sentimentos, portanto sentem prazer e dor”

without comments

Plotino se recusava a consumir medicamentos com ingredientes de origem animal

Vários seguidores de Plotino não eram apenas vegetarianos, mas também vegetarianos éticos

Mestre de Porfírio, seu discípulo que escreveu “Da Abstinência do Alimento Animal”, considerada por inúmeros pesquisadores como a obra mais importante da Grécia Antiga sobre a abstenção do consumo de animais, Plotino foi um filósofo neoplatônico que melhor assimilou e aperfeiçoou não apenas os ensinamentos de Platão, mas também de Pitágoras e Plutarco, autor de “Do Consumo da Carne”, outra obra igualmente relevante na discussão sobre o tema.

Um asceta moderado, Plotino ficou famoso pela autoria das “Enéadas”, obra fundamental da filosofia ocidental que reúne 54 tratados em seis capítulos. Compilada e editada por Porfírio no ano de 270, as “Enéadas” são baseadas principalmente no conteúdo de palestras e debates de Plotino com seus alunos ao longo de 17 anos.

O filósofo neoplatônico estudou em Alexandria e na Pérsia antes de se mudar para Roma, onde fundou a sua própria escola. No livro “Sins of the Flesh: A History of Ethical Vegetarian Thought”, o pesquisador Rod Preece afirma que Plotino, que provavelmente era de origem romana e nasceu no Egito, foi protovegetariano a maior parte de sua vida. Defensor do ascetismo moderado, Plotino começou a se questionar sobre os hábitos alimentares da época que, segundo ele, tinham grande influência sobre o comportamento e a personalidade humana, incluindo sua relação com a vida e o mundo.

Nas “Enéadas”, ele declara que os animais têm sentimentos, portanto sentem prazer e dor. Na perspectiva de Plotino, a dor é a aisthesis, a percepção do corpo despojado. Ele usa o conceito de pathos como representação da empatia, do sentimento e da ligação afetiva quando diz que, conscientes, somos sensibilizados diante de uma situação em que a vítima morre ou sofre desnecessariamente; como é o caso dos animais não humanos há muito explorados. Quem também defende a ideia de que Plotino foi um importante nome na discussão do que se tornaria o vegetarianismo ético é o pesquisador Gordson Lindsay Campbell, editor de “The Oxford Handbook of Animals in Classical Thought and Life”.

“Embora não haja provas conclusivas, o estrito ascetismo de Plotino provavelmente incluiu o vegetarianismo, mesmo que o seu biógrafo, Porfírio, não tenha conseguido escrever por Plotino em relação ao assunto”, registrou Preece. Apesar disso, o que reforça a ideia de que Plotino realmente se voltava para a questão do que futuramente seria os direitos animais era a sua recusa em consumir medicamentos com ingredientes de origem animal, conforme informações do livro “Sins of the Flesh: A History of Ethical Vegetarian Thought”.

Preece afirma que vários seguidores de Plotino não eram apenas vegetarianos, mas inclusive vegetarianos éticos. E o argumento fundamentado nas ideias do filósofo neoplatônico, e que teve continuidade com Porfírio, é de que o ser humano precisava mudar a sua relação com os animais e se libertar das calamidades do corpo. Assim, é justo dizer que os ensinamentos de Plotino influenciaram Porfírio a escrever “Da Abstinência do Alimento Animal”, obra também influenciada por Pitágoras, sobre quem o discípulo de Plotino escreveu uma biografia.

Em “Vegetarianism – A History”, Jon Gregerson diz que para Plotino a única forma da humanidade alcançar a realidade suprema seria tratando todos os animais com respeito e compaixão. Ou seja, reconhecendo primordialmente o direito à vida, sem os prejuízos da exploração humana. “Porfírio deu continuidade ao trabalho de Plotino, apresentando evidências observacionais e históricas em defesa do vegetarianismo e da racionalidade dos animais”, enfatizou Nathan Morgan, autor de “The Hidden History of Greco-Roman Vegetarianism”. Influenciado por Plotino, Porfírio qualificou o consumo de carne como um encorajador da violência. Ademais, apresentou ideias antes defendidas pelo seu mestre neoplatônico de que os animais têm capacidade de raciocínio. Assim sendo, não faltam razões para estender a justiça a eles.

Kerry S. Walters e Lisa Portmess, autores de “Religious Vegetarianism: From Hesiod to the Dalai Lama”, apontam Plotino como o responsável pela consciência vegetariana de Porfírio, que também se inspirava em Pitágoras e Empedócles. A obra “Da Abstinência do Alimento Animal”, do filósofo neoplatônico foi uma reação argumentativa ao abandono do filósofo Firmus Castricius, que deixou a Escola de Plotino para renunciar à dieta vegetariana e se juntar aos cristãos.

Do livro 1 ao livro 4 de “Da Abstinência do Alimento Animal”, Porfírio defendendo o estilo de vida apregoado pela Escola de Plotino, assinala que o consumo de carne é intemperante, logo incompatível com a vida filosófica. Ele argumenta que o sacrifício de animais é ímpio, que os animais merecem um tratamento justo e que os sábios do passado condenavam o consumo de carne.

Embora o mestre de Plotino não tenha falado abertamente do vegetarianismo na obra “A República”, tudo leva a crer que Platão via com bons olhos a abstenção do consumo de carne. Prova disso é o fato de que muitos neoplatônicos se identificavam com uma vida livre do consumo de carne. “Publicamente, sua dieta era aceitável como parte do verdadeiro ascetismo. Portanto, não atraiu controvérsia”, pontuou Colin Spencer em “The Heretic’s Feast: A History of Vegetarianism”.

Outro fato revelador é que no século 3 Plotino conseguiu aprovação e apoio do Imperador Galiano para construir o que poderia ter sido a primeira cidade vegetariana ocidental, e que teria como referência a República de Platão. O seu nome seria Platonópolis. Mas o sonho de Plotino esbarrou no Senado, que vetou a sua proposta. Apesar disso, seu trabalho teve continuidade com Porfírio e outros filósofos que mais tarde influenciaram o vegetarianismo ético e a discussão em torno do que daria origem aos direitos animais.

Referências

Plotino. The Enneads: Abridged Edition. Penguin Classic (1991).

Porfírio. Gillian Clark. On Abstinence from Killing Animals (Ancient Commentators on Aristotle). Bristol Classical Press; Reprint Edition (2014).

Spencer, Colin. The Heretic’s Feast: A History of Vegetarianism. UPNE. First Edition (1995).

Preece, Rod. Sins of the Flesh: A History of Ethical Vegetarian Thought. Páginas 112-113. UBC Press (2017).

Gregerson, Jon. Vegetarianism, a History. Jain Publishing Company (1995).

Walters, Kerry; Lisa Portmess. Religious Vegetarianism: From Hesiod to the Dalai Lama. State University of New York Press (2001).

Campbell, Gordon Lindsay. The Oxford Handbook of Animals in Classical Thought and Life (Oxford Handbooks). Oxford University Press; First Edition (2014).

Walters, Kerry; Lisa Portmess. Ethical Vegetarianism: From Pythagoras to Peter Singer. State University of New York Press; Reprint Edition (1999).

The Hidden History of Greco-Roman Vegetarianism

Contribuição

Este é um blog independente, caso queira contribuir com o meu trabalho, você pode fazer uma doação clicando no botão doar:





Quatro horas ministrando palestra sobre a história de Paranavaí

without comments

Foto: Unipar

Hoje de manhã, ministrei uma palestra de quatro horas sobre a história de Paranavaí para professores de história e geografia. Falei um pouco da colonização e formação de Paranavaí. Depois enveredei pela história de importantes personagens locais e regionais, além de abordar a história e a realidade de bairros da periferia, como a Vila Alta.

Estou sem voz, mas a experiência foi muito boa. Boa interação e todo mundo prestando atenção; ninguém bocejando ou dormindo. Foi mais uma experiência gratificante. Sem dúvida, uma das melhores partes de uma palestra é quando as pessoas conversam com você ao final, elogiam o seu trabalho e pedem para tirar foto contigo. É um bom indicativo.





Written by David Arioch

July 3rd, 2017 at 8:38 pm

A ficção pode ser mais real do que a “realidade”

without comments

Guimarães Rosa, que reproduzia magistralmente a realidade por meio da ficção (Foto: Reprodução)

A ficção pode ser mais real do que aquilo que as pessoas muitas vezes entendem como realidade. Pensemos na história dos estados e das cidades brasileiras. Não raramente há mais romantismo nas chamadas “histórias oficiais” do que nas versões qualificadas como ficcionais das histórias dos povos deste país.

Há muitos casos em que um escritor de ficção regionalista tem mais a dizer sobre a realidade do que um livro de história de viés unilateral e ultrarromântico. Além disso, a ficção é uma forma de transcrever a realidade sem o risco de ter que responder a processos impetrados por quem se dispõe a fazer o possível para que certas histórias não venham à tona.

Quando há muitos impedimentos em relação à narrativa fiel dos fatos, a ficção pode ser um belo caminho de reproduzir a realidade, seja ela alegórica ou fidedigna.

Contribuição

Este é um blog independente, caso queira contribuir com o meu trabalho, você pode fazer uma doação clicando no botão doar:





Written by David Arioch

June 24th, 2017 at 5:41 pm

A história do vegetarianismo na Rússia

without comments

Ao final de 1914, a Rússia contava com 73 restaurantes vegetarianos em 37 cidades

Antigo prédio da Sociedade Vegetariana Russa (Vegetarianskij.ru)

De acordo com informações do Vegetarianskij.ru, a história oficial do vegetarianismo na Rússia começou com o surgimento da primeira sociedade vegetariana, ironicamente chamada de “Нирыба ни мясо”, ou seja, “Nem Carne, Nem Peixe”, em meados de 1860, em São Petersburgo.

O presidente vitalício da sociedade era o cirurgião Alexander Petrovich Zelenkov, que faleceu em 1914. Ele se tornou vegetariano em decorrência de problemas de saúde, quando outros métodos de tratamento se mostraram ineficazes. Ele também era um defensor da homeopatia e fazia campanhas contra o consumo de álcool.

Em 1902, a esposa de Zelenkov, Olga Konstantinovna, escreveu o livro “Нечто овегетарианстве”, ou “Algo Sobre Vegetarianismo”, que foi publicado em quatro volumes, cada um trazendo um extenso estudo sobre o vegetarianismo com base em registros históricos, estudos científicos e declarações de pessoas famosas de diferentes épocas.

A obra também conta com a análise do tratado “Питание человекав его настоящем и будущем”, que significa “A Dieta do Indivíduo em Seu Presente e Futuro”, escrita pelo botânico Andrey Beketov em agosto de 1878. Seu modesto ensaio em defesa da dieta e do estilo de vida vegetariano teve um efeito significativo na sociedade de seu tempo e eventualmente foi traduzido para muitas línguas.

Em 1913, Olga publicou o primeiro livro de receitas vegetarianas da história da Rússia. O nome da obra, que traz 1500 receitas divididas em 365 categorias, é “Я никого не ем”, ou seja, “Não Como Ninguém”. O livro foi editado inúmeras vezes e vendeu milhares de cópias, segundo o Vegetarianskij.

À essa altura, o vegetarianismo na Rússia já passou a ser visto sob outra perspectiva, que ia muito além da saúde humana, e tudo isso graças à publicação do ensaio “O Primeiro Passo”, de Liev Tolstói, lançado em 1892. Segundo o Vegetarianskij, a sociedade vegetariana russa então encontrou um profundo argumento ético em favor da dieta vegetariana.

O ensaio teve como ponto de partida as experiências de Tolstói desde que ele abandonou o consumo de carne em 1884, quando começou a promover o ideal vegetariano. Tolstói fez uma grande diferença porque se preocupou mais com as implicações morais e éticas do consumo de carne do que com os benefícios da dieta para a saúde.

Campanha contra o consumo de carne

Valendo-se de seu prestígio, Tolstói, sem dúvida, foi um dos grandes responsáveis pelo crescimento do vegetarianismo na Rússia – que teve adesão exponencial por parcela significativa da população após o lançamento de “O Primeiro Passo”. Figuras influentes da Rússia daquele tempo, como Nikolai Peskov, Ilya Repin, Alexander Voeykov, Nikolai Ge, Sergey Esenin e tantos outros se juntaram ao movimento. Entre os que mais simpatizaram com o vegetarianismo estavam cientistas, médicos, professores, escritores e poetas.

Em 1904, B.A. Dolyachenko e um grupo de professores fundaram a primeira revista vegetariana da Rússia. Intitulada “Вегетарианский вестник”, que significa “O Mensageiro Vegetariano”. Em 1909, foi a vez de Isosif Perper fundar e publicar o “Вегетарианскоеобозрение”, ou “O Jornal Vegetariano”, em Kiev. A publicação circulou até 1915.

Em 1909, a Sociedade Vegetariana de Moscou abriu suas portas. Em abril de 1913, foi realizada a Primeira Conferência Nacional Russa de Vegetarianos em Moscou, reunindo mais de 200 participantes. Uma das questões discutidas durante o evento foi a criação de sociedades vegetarianas por toda a Rússia.

Rapidamente surgiram sociedades vegetarianas em Varsóvia, Kiev, Chișinău, Vilno, Minsk, Saratov, Poltava, Odessa, Rostov-on-Don, Carcóvia, Zhitomir, Dnepropetrovsk, Krasnodar, Tumen e muitas outras. Ao final de 1914, o número de membros já chegava a duas mil pessoas, o que favoreceu o surgimento de 73 restaurantes vegetarianos em 37 cidades da Rússia. As refeições vegetarianas nos cafés eram baratas e bem diversificadas: salsichas feitas com ervilhas, hambúrgueres de repolho, panquecas vegetarianas (blini) e muito mais. E tudo era aceito com entusiasmo – como uma ideia original.

Os grandes planos dos vegetarianos russos, que previam transformar a Rússia em referência em vegetarianismo, foram interrompidos com o advento da guerra. Naqueles anos difíceis, e com o clima bastante tenso, os defensores de uma nutrição sem morte logo se tornaram alvos de desprezo e ridicularização.

Isto porque a alimentação vegetariana começou a ser vista como imoral em um cenário em que pessoas morriam aos milhares e a escassez de alimentos era comum. No entanto, os ativistas sociais vegetarianos não desistiram. Eles se voluntariaram para trabalhar em hospitais do exército, fornecendo refeições gratuitas para os militares em seus restaurantes, e também criaram enfermarias especiais para atender os animais usados pelo exército.

Porém, o desenvolvimento do vegetarianismo na Rússia, que tinha tudo para se destacar internacionalmente, servindo de referência para países do mundo todo, encontrou sua mais forte resistência após a Revolução Russa e a implantação do regime soviético, conforme informações do Vegetarianskij. Nesse período, a divulgação do vegetarianismo foi proibida na Rússia. Inclusive ativistas foram presos e o termo vegetariano acabou banido dos dicionários. As sociedades vegetarianas também foram fechadas em todos os territórios da URSS. A última a fechar suas portas foi a Sociedade Vegetariana de Moscou, que resistiu até 1929.

Em 1961, A Grande Enciclopédia Soviética, uma publicação massivamente popular na época, registrou que: “As ideias do vegetarianismo foram fundadas em hipóteses erradas e não tem seguidores na União Soviética.” Somente em 1990, depois da perestroika [reestruturação política do país], o vegetarianismo voltou à luz pública e suas ideias ressurgiram, ganhando novamente força na Rússia.

Fonte

История вегетарианства в России

 

Contribuição

Este é um blog independente, caso queira contribuir com o meu trabalho, você pode fazer uma doação clicando no botão doar:





Written by David Arioch

April 29th, 2017 at 10:19 pm

A efêmera poesia do efêmero

without comments

mayfly-ephemera-danica-2

Seu corpo era amarelo, marrom e preto, mas conforme balançava as asas, tudo se uniformizava num dourado lampejante (Foto: Reprodução)

Quando criança, um dia perguntei à minha mãe o que significa efêmero. Ela não respondeu. Dois dias depois, fomos até um riacho e em meio à relva havia um inseto parecido com uma libélula. Se movia com leveza e tinha a mesma sofreguidão da água se chocando contra as rochas. Seu corpo era amarelo, marrom e preto, mas conforme balançava as asas, tudo se uniformizava num dourado lampejante.

Como era fim de semana, minha mãe sugeriu que passássemos o dia naquele lugar, assistindo a rotina daquele inseto singular. No final da tarde, depois de um cochilo, acordei e o vi voando em direção a uma pequena árvore. Lá, se aninhou e repousou. Eu e minha mãe nos aproximamos um pouco e vimos que o espécime nem se movia, parecia fragilizado. Pensei até que tivesse morrido.

Minha mãe me advertiu para ter calma. Uma hora depois, o inseto depositou uma grande quantidade de ovos em um dos galhos mais ocultos e não mais se moveu, simplesmente faleceu. Então perguntei o que houve. “Por que ele morreu assim e logo hoje que viemos aqui?” Minha mãe sorriu e me explicou que aquele inseto na realidade era uma fêmea que se tornou adulta pela manhã:

“A vida adulta dela começou pouco antes da nossa chegada e terminou agora. Ela existe somente para que outros existam. Mal se alimenta porque o tempo é curto e seus filhos precisam nascer. Por isso o nome dela é efêmera, e é isto que significa efêmero, tudo que tem curta duração; uma palavra que deveria ser sempre usada em referência aos presentes da comunhão que não temos o privilégio de usufruir porque é chegada a hora de partir.”

Contribuição

Este é um blog independente, caso queira contribuir com o meu trabalho, você pode fazer uma doação clicando no botão doar:





Written by David Arioch

January 22nd, 2017 at 12:55 pm

Como o romantismo influenciou o veganismo

with 6 comments

Tenha cuidado, porque quando um verme você esmagar, a alma de um irmão você pode encontrar

Shelley Bodleian_0

Para Shelley, o consumo de carne não apenas profanou o corpo humano, mas também encorajou o consumo excessivo de álcool (Arte: Reprodução)

O romantismo foi a corrente artística que ajudou a sedimentar o vegetarianismo moderno e o veganismo no mundo ocidental. E não por acaso, já que os escritores da Era Romântica argumentavam a favor de uma dieta isenta de ingredientes de origem animal, levando em conta o estado da humanidade, a saúde e os direitos animais, a economia e a divisão de classes sociais.

Embora pouca gente saiba, o aforismo “você é o que você come”, tão divulgado de forma equivocada nos séculos 20 e 21, foi criado pelos românticos na defesa do vegetarianismo, ao ponderarem que tudo que serve de alimento ao ser humano tem implicações físicas e morais. De acordo com o escritor britânico Percy Bysshe Shelley, um dos precursores do veganismo, o consumo de carne não apenas profanou o corpo humano, mas também encorajou o consumo excessivo de álcool e a adoção de outros hábitos destrutivos.

“Acredito que a depravação da natureza física e moral do ser humano se originou com seus hábitos não naturais de vida”, escreveu Shelley em A Vindication of Natural Diet, publicado em 1813. Na obra, ele afirma que o homem naturalmente saudável foi comprometido pela sociedade moderna. “Um corpo tornado doente por uma sociedade doente”, alegou.

Joseph-Ritson

Ritson registrou que os dentes e os intestinos do homem são muito parecidos com os dos animais frugívoros (Arte: Reprodução)

Estudando a relação do ser humano com a carne, o escritor percebeu que o suposto alimento não representava apenas mais uma opção nutricional, mas também a legitimação e naturalização da crueldade, tirania e escravidão dos animais. Se não temos qualquer direito sobre seus corpos, como podemos nos colocar em posição de destruí-los? Não há nenhum tipo de permissão, nem mesmo sobre pardais que povoam os céus ou sobre peixes mais modestos que habitam os rios, defendiam.

No século 19, médicos e cientistas que apoiavam os românticos descobriram que a anatomia humana era muito semelhante a animal, principalmente no que diz respeito à senciência e às respostas emocionais. E isso ajudou a reforçar o discurso de que o consumo de animais já era moralmente errado. Sendo assim, o ser humano deveria retornar à dieta de base vegetal.

O escritor inglês e ensaísta Joseph Ritson também contribuiu com novas constatações. Ele registrou que os dentes e os intestinos do homem são muito parecidos com os dos animais frugívoros, portanto ele não deve consumir carne. A existência de caninos curtos e a falta de garras também ajudaram a contestar a ideia de que o homem é um predador ou caçador natural, pois ele não possui capacidades físicas para matar um animal sem usar as ferramentas apropriadas. “Além disso, o comprimento de seu intestino faz com que a digestão da carne seja muito difícil”, justificou Ritson em An Essay on Abstinence from Animal Food, as a Moral Duty, publicado em 1802.

George Cheyne

Cheyne ajudou a fundamentar a defesa do vegetarianismo na Era Romântica (Arte: Reprodução)

O médico escocês George Cheyne, proeminente figura da medicina nos séculos 17 e 18, ajudou a fundamentar a defesa do vegetarianismo na Era Romântica ao concluir que o surgimento de doenças e a queda da longevidade estavam relacionados à incorporação da carne na alimentação. Para os românticos, a decadência humana começou a partir do momento que o homem fez do consumo de carne um hábito, se negando a aceitar o fato de que os primeiros humanos tinham uma alimentação muito próxima da dieta vegetariana.

E como consequência, as doenças atingiram tanto a humanidade quanto os outros seres vivos. Muitos animais foram diagnosticados pela primeira vez com enfermidades que surgiram com a crescente oferta e demanda de carne. O agravante foi o confinamento de animais em fazendas, tornando-os condutores de doenças que se espalhavam para outros animais. Até mesmo a comida servida a eles, desde o princípio, era um facilitador da proliferação de doenças.

Então os românticos fizeram da arte, da filosofia e da política um instrumento de conscientização contra a natureza opressiva humana – algo que deu origem a uma dieta considerada cruel e brutal que até hoje o afasta de seu verdadeiro papel em relação à natureza. Os vegetarianos do romantismo também foram os primeiros a se preocuparem com o meio ambiente no Ocidente, despertando uma consciência muito próxima da atual. Entendiam que o consumo de carne afetaria cada vez mais a natureza conforme a demanda crescia.

Shelley argumentava que a quantidade de matéria vegetal nutritiva utilizada na engorda do gado poderia alimentar dez vezes mais pessoas se os vegetais usados em sua nutrição fossem destinados às pessoas. Logo a criação de animais para o abate era um desperdício e um assalto à relação entre a capacidade da natureza de fornecer alimentos e o desmedido desejo do homem em explorá-la sem pesar critérios ambientais.

220px-Thomas_Tryon_White

Tryon acreditava que a humanidade mergulhou em uma forma de ira amplificada pelo retorno financeiro que os animais poderiam proporcionar enquanto produtos (Arte: Reprodução)

Em An Essay on Abstinence from Animal Food, as a Moral Duty, Ritson afirma que é tão antinatural ao homem o consumo de carne que chega a ser impossível não incitar nele nenhum tipo de ferocidade. Os românticos se preocupavam com o embrutecimento humano, o distanciamento em relação às suas origens; até porque uma das principais características do romantismo era a evocação do passado, incluindo a defesa da natureza, da vida e da imaginação.

“Ele é um homem de paixões violentas, de olhos vermelhos e veias inchadas, que sozinho consegue empunhar a faca do assassinato”, escreveu Shelley em A Vindication of Natural Diet, em referência à prática selvagem e fisiologicamente conflituosa do derramamento de sangue. E ao contrário do que muitos acreditam, os românticos se preocupavam com as classes mais desfavorecidas. Tanto que o vegetarianismo era uma forma de resistência à cultura do luxo.

Reformistas literários como Percy Shelley, de origem burguesa, apostavam no boicote à carne como uma forma de combater também o consumismo. A carne figurava como um dos principais símbolos de distinção social e segregação de classes nos séculos 18 e 19. Para os românticos, que viam a divisão de classes como um dos grandes males da sociedade, a carne foi incluída na dieta humana não para beneficiar o ser humano, mas simplesmente para gerar lucro, aceitação e atrair visibilidade.

Os vegetarianos do romantismo chamavam a atenção para a opressão hierárquica dentro das classes econômicas e para a forma como a humanidade estava deslocada do mundo natural. Portanto consumir carne não era mais do que um vício burguês, e os abastados eram os únicos em condições de consumi-la com regularidade. Paradoxalmente, a dieta mais saudável era a das classes mais baixas. Eles comiam pães, mingau, batatas e vegetais.

John-Locke

Locke percebeu que os animais tinham grande potencial de comunicação (Arte: Reprodução)

Outra curiosidade é que os vegetarianos da Era Romântica eram, em sua maioria, intelectuais de classe média que desprezavam a ganância e o desperdício tão inerente à alta burguesia. O escritor inglês Thomas Tryon, importante defensor do vegetarianismo no século 17, declarou que os seres humanos jamais teriam transformado os animais em comida se fosse apenas por desejo, necessidade ou manutenção da vida. Ele acreditava que a humanidade mergulhou em uma forma de ira amplificada pelo retorno financeiro que os animais poderiam proporcionar enquanto produtos. Assim os humanos deixaram de amá-los e vê-los como indefesas criaturas da natureza.

Os românticos apostavam na expansão do vegetarianismo. Mostravam o quanto a dieta vegetariana era acessível. Eles tencionavam elaborar um plano para aumentar a oferta de alimentos vegetais, forçando a diminuição da demanda por terra na criação de animais, o que significava também reduzir os conflitos de classes. Shelley e outros pensadores entendiam que a comida era um tipo de personificação material de todas as práticas sociais. Por isso o boicote ao consumo de carne era a melhor solução para frear o consumismo.

georges-louis-leclerc-de-buffon-1

Lecrerc defendia a ideia da ancestralidade comum em relação a humanos e animais (Arte: Reprodução)

Entre os séculos 18 e 19, Inglaterra, Alemanha e França eram os países com mais adeptos do vegetarianismo, não apenas como dieta, mas também como filosofia de vida, já que muitos acabaram se tornando vegetarianos por uma questão moral e ética envolvendo os direitos animais. Com a expansão do vegetarianismo, cresceu a disponibilidade e variedade de vegetais. À época, muitas das grandes cidades da Europa tinham seus próprios jardins que ofereciam gratuitamente frutas e vegetais à população.

E tudo isso graças à influência literária dos românticos na ficção, antropologia, teorias de consumo e evolucionismo. Contudo é importante frisar que no final do século 19 o romantismo foi influenciado pelo humanismo durante o iluminismo, quando os europeus começaram a repensar suas atitudes em relação à justiça, liberdade e fraternidade.

Um exemplo foi o filósofo inglês e idealizador do liberalismo John Locke. Ele percebeu que os animais tinham grande potencial de comunicação, além de condições de expressar emoções e capacidade de sentir dor. Então o humanitarismo foi estendido ao reino animal, considerando que não havia tantas diferenças entre os seres humanos e os animais.

Mary Shelley lutava pelos direitos dos animais e das mulheres (Arte: Reprodução)

Mary Shelley lutava pelos direitos animais e das mulheres (Arte: Reprodução)

Graças a Locke, ampliou-se a crença de que todos os seres vivos tinham uma forte ligação, sugerindo a ideia de que ser cruel com algum animal significava ser capaz de ser violento com qualquer criatura viva, inclusive humana. Com tais princípios, o vegetarianismo se tornou uma filosofia apropriada que ajudou a fortalecer o humanismo e a compaixão em relação aos animais.

Através do trabalho de estudiosos como o naturalista francês Louis Lecrerc, o Conde de Buffon, a sociedade passou a reconhecer a complexidade física, biológica e emocional dos organismos que compõem a natureza. Lecrerc defendia a ideia da ancestralidade comum em relação a humanos e animais, o que curiosamente ia ao encontro do que advogavam os românticos. No século 19, o naturalista britânico Charles Darwin, mais famoso pela autoria de On the Origin of Species, de 1859, foi influenciado por Lecrerc e pelos românticos, constatando que realmente animais e seres humanos estão naturalmente interligados.

Darwin foi influenciado por Lecrerc e pelos românticos (Arte: Reprodução)

Darwin foi influenciado por Lecrerc e pelos românticos (Arte: Reprodução)

Com ideologia enraizada na estética romântica da compaixão e da comunhão com a natureza, os adeptos do romantismo também foram pioneiros em outras linhas de frente. Prova disso foi o papel desempenhado pela escritora vegetariana Mary Shelley, autora do clássico Frankenstein que, incentivada pelo marido Percy Shelley, se tornou ativista dos direitos animais e das mulheres. Outros nomes importantes desse período são os britânicos Alexander Pope e Lord Byron – os maiores poetas do romantismo junto com Percy Shelley.

O trabalho deles culminou na fundação da Vegetarian Society em Londres em 1847, e no uso formal do termo vegetariano em substituição a pitagorianos, muito usado para se referir a quem não se alimentava de animais. Os românticos também tiveram grande influência na criação da Vegan Society, a pioneira do veganismo no Ocidente. “O vegetarianismo é o caminho para que as pessoas voltem a ter uma relação mais respeitosa com a natureza”, dizia Percy Shelley.

As contribuições do vegetarianismo à sociedade moderna                              

AnnaBarbauldRichardCosway

A poetisa Anna Barbauld, importante nome do romantismo (Arte: Reprodução)

O movimento vegetariano durante o Período Romântico foi marcado pela defesa dos direitos animais e das mulheres. Também teve grande importância sobre os direitos civis no século 19. E seus ideais eram sustentados pelo legado de pensadores gregos. “Não faça aos outros o que não gostaria que fizessem com você”, diziam os românticos, em referência à Regra de Ouro de Pitágoras.

Nenhum ser humano tem mais direito à natureza do que qualquer outro ser vivo. Todos devem ser vistos como iguais, declaravam. Eles rejeitavam a ideia da superioridade humana defendida por quem alegava que o homem era o elo entre a natureza e Deus. “Usurpar autoridade sobre qualquer animal é excesso de orgulho e altivez da alma”, condenou o escritor inglês Robert Morris.

A defesa do vegetarianismo através do romantismo reavivou valores morais perdidos pelo homem ao longo dos séculos. Inclusive inspirou religiões baseadas em velhas doutrinas que optaram por rever a relação entre Deus, seres humanos e animais. Nesse período, os cristãos reconheceram que só após o dilúvio foi dada ao homem a permissão para comer carne, não antes, o que endossa a ideia de que a carne não fazia parte da dieta natural humana.

Com isso, religiões que abordam a reencarnação começaram a discutir sobre a alma animal e a reconhecer a importância de outros seres sencientes. “Tenha cuidado, porque quando um verme você esmagar, a alma de um irmão você pode encontrar”, escreveu a poetisa inglesa Anna Laetitia Barbauld, importante nome do romantismo, na obra The Mouse’s Petition, publicada em 1773.

Referências

Shelley, Percy Bysshe. A Vindication of Natural Diet. London. Smith & Davy (1813).

Ritson, Joseph. An Essay on Abstinence from Animal Food, as a Moral Duty, London, 1802. Kessinger Publishing (2009).

Pope, Alexander. Against Barbarity to Animals, The Guardian, No. 61 (1713).

Morton, Timothy. Cultures of Taste/Theories of Appetite: Eating Romanticism; New York: Palgrave Macmillan (2004).

Morton, Timothy. Joseph Ritson, Percy Shelley and the Making of Romantic Vegetarianism, Romanticism. Vol. 12. The University of California (2006).

Preece, Rod. Sins of the Flesh: A History of Ethical Vegetarian Thought; Vancouver; Toronto: UBC Press (2008).

Spencer, Colin. The Heretic’s Feast: A History of Vegetarianism; Great Britain: Hartnolls Ltd, Bodmin (1993).

Oerlemans, Onno. Romanticism and the Materiality of Nature. Toronto; Buffalo: University of Toronto Press (2002).

Ruston, Sharon. Vegetarianism and Vitality in the Work of Thomas Forster, William Lawrence and P.B. Shelley. Keats-Shelley Journal. Vol. 54 (2005).

Perkins, David. Romanticism and Animal Rights. Cambridge, UK; New York: Cambridge University Press (2003).

Stuart, Tristram, The Bloodless Revolution: A Cultural History of Vegetarianism from 1600 to Modern Times; Great Britain. HarperPress (2006).

Kenyon-Jones, Christine. Kindred Brutes: Animals in Romantic-Period Writing; UK: Ashgate Publishing (2001).

Contribuição

Este é um blog independente, caso queira contribuir com o meu trabalho, você pode fazer uma doação clicando no botão doar:





Um bate-papo com Chicão Soares

without comments

Chicão Soares trabalha como jornalista desde 1955 (Foto: David Arioch)

Chicão Soares trabalha como jornalista desde 1955 (Foto: David Arioch)

Passei a primeira hora da minha manhã de trabalho batendo um papo sobre jornalismo histórico com o jornalista Chicão Soares. Uma figura ímpar que já entrou para a história do jornalismo paranaense – são 61 anos dedicados à profissão. “Já pensei em parar de escrever, mas não consigo. Além disso, na minha família a tradição é não morrer antes dos 100. Então tenho muito o que fazer”, enfatizou sorrindo.

Written by David Arioch

August 2nd, 2016 at 2:28 pm